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sábado, 30 de janeiro de 2016

O Fim de Um Ciclo

Por Gabriel Guimarães


Realmente foi uma grande jornada desde Setembro de 2008 quando eu criei esse blog para expandir meus estudos sobre Histórias em Quadrinhos, conforme eu dava meus primeiros passos na graduação acadêmica e, pela primeira vez na vida, me sentia livre para aprofundar meu interesse e paixão pela arte sequencial. Nos quase oito anos de lá para cá, minha vida passou por uma série de determinantes mudanças que influíram direta ou indiretamente na produção e gestão de conteúdo aqui no blog. Eu concluí a faculdade, escrevi e publiquei meu primeiro livro de ficção, viajei para fora do Brasil pela primeira vez, perdi pessoas muito queridas, mas, em contrapartida, conheci muitas pessoas incríveis, das quais várias dividiam comigo a paixão por essa narrativa gráfico-textual que me motivou pra começo de conversa.

Um período de grande crescimento e aprendizado, em essência, foi o que me proporcionou toda essa experiência, tirando algumas noções não tão inocentes quanto leigas que eu tinha quando dei meus primeiros passos no estudo da história, do cotidiano e do potencial dessa mídia, e colocando em seu lugar uma perspectiva mais realista e analítica. O maravilhamento inicial que eu tinha não sumiu, de forma alguma, mas se transformou, adquiriu novas formas e passou a se apresentar de uma maneira diferente daquelas a que eu estava acostumado.

Muito por essa razão, eu oscilei em diversos momentos, postergando pautas devido a uma estafa ocasionada pelo sentimento de obrigação atribuído à necessidade de me manter a par daquilo que ocorria no mercado editorial de quadrinhos e pela cada vez mais escassa pausa para curtir de verdade os materiais dessa mídia que eu tanto amei e ainda amo. Para que a qualidade das matérias não fossem afetadas, eu optei por publicá-las de forma mais gradual, primando sempre por ter o que falar e saber exatamente sobre o que eu estava falando. Cada matéria publicada aqui foi fruto de muita pesquisa, dedicação, tempo e suor, sempre na esperança de apresentar um conteúdo agradável e instigante sobre o cenário da nona arte, tanto no Brasil quanto no mundo afora.

O mês de Janeiro de 2016 foi bastante significativo para mim porque eu, após muito tempo com um grande projeto para revitalizar o Quadrinhos Pra Quem Gosta e retomar o prazer em produzir material de qualidade para um público naturalmente exigente e bem instruído, enfim pude dar forma à próxima etapa dessa jornada de aprendizado e troca com o mercado dedicado da arte sequencial. Para tanto, porém, é necessária uma mudança significativa que pode inicialmente causar espanto aos que me acompanharam aqui com tanto afinco e me dedicaram seu tão valioso tempo e inestimável atenção. Eu quero anunciar, portanto, o encerramento das atividades do BLOG Quadrinhos Pra Quem Gosta.

"Para Não Dizer Que Não Falei de Quadrinhos"
Apesar de ser uma medida drástica, eu acredito que será um passo necessário para as próximas etapas que estão por vir. Eu me sinto muito abençoado por Deus por todo esse tempo que partilhamos aqui e, naturalmente, espero poder contar com a companhia de vocês nessa nova fase, principalmente através do primeiro anúncio oficial que quero trazer a todos neste dia 30 de Janeiro, data dedicada à comemoração do Quadrinho Nacional. Eu declaro, aberto ao público, o acesso ao novo SITE do Quadrinhos Pra Quem Gosta, repleto de conteúdo inédito preparado especificamente para esse lançamento e resultado de um mês dedicado a trazer uma qualidade ainda maior ao conteúdo que eu normalmente trago para todos os meus queridos leitores e leitoras.

http://www.quadrinhospraquemgosta.com.br/

O NOVO Quadrinhos Pra Quem Gosta visa oferecer uma produção mais ágil de matérias, separadas por segmentos específicos para facilitar o acesso ao arquivo de postagens, e aproximar ainda mais o público da realidade por trás da mídia dos quadrinhos. Convido todos a conhecerem nossas novas instalações e compartilhar conosco todo e qualquer comentário para que possamos atender sua curiosidade e sugestões da melhor forma possível. Sei que é uma nova realidade a qual todos vão ainda se acostumar, mas tenho certeza de que este será o início de mais uma grande aventura, então, os espero lá!

domingo, 10 de maio de 2015

Super Curso Especializado

Por Gabriel Guimarães

Michael Uslan é o principal responsável por essa empreitada
O site de ensino à distância edX, criado pelo professor Anant Agarwal, parte do corpo docente do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), com a finalidade de disponibilizar a usuários da rede do mundo inteiro programas de ensino online em parceria com várias universidades e instituições credenciadas, iniciará no dia 12 de maio dessa próxima semana um curso dedicado exclusivamente ao estudo da figura cultural dos sueper-heróis, sua história na mídia dos quadrinhos e como eles são elementos integrantes de uma jornada vivida pela sociedade humana desde a Antiguidade. Apresentado pelo professor e produtor cinematográfico Michael Uslan (um dos responsáveis por todas as adaptações do Batman para o cinema nos últimos quase 30 anos), o curso irá dispor de atividades com estudiosos do meio, como o acadêmico Christopher Robichaud, e autoridades no campo da produção na nona arte, como o roteirista e ícone pop Stan Lee (sim, você leu certo, ele mesmo!).

Stan Lee, criador do Homem-Aranha será parte integrante do curso
Programado para durar 5 a 6 semanas, o curso irá oferecer aos inscritos material de leitura e vídeos para acompanhamento no início de cada nova etapa, e abordará desde a mitologia inerente à figura pública do herói até os impactos da globalização e das novas mídias na compreensão sobre o papel desses superseres na nossa cultura. Será realizada também uma apresentação sobre as transições vividas no mercado editorial norte-americano ao longo do século XX, com a chegada dos personagens da Marvel e da DC nas televisões e nos cinemas, e o crescente boom que essa vertente tem experimentado nos últimos anos.

Uma das sedes do Instituto Smithsoniano, que estão dispostas ao longo de Washington, EUA
Organizado pelo Instituto Smithsoniano, que compreende à complexa rede de museus mais famosa do mundo e administrada pelo próprio Governo dos Estados Unidos, o curso procura trazer à tona a necessidade de se encarar seriamente a importância dos personagens que ganharam destaque a partir de revistas baratas e suplementos dominicais e que hoje são parte de nossa identidade pessoal e elemento comum em nossa formação social. Conforme o próprio responsável pelo curso, Michael Uslan, aponta, em outros tempos, a discussão acadêmica sobre conteúdo vindo da arte sequencial era considerado uma piada, menosprezando seus interessados e a própria mídia em si. Com o passar dos anos, contudo, isso foi mudando e, hoje, quando encaramos a plena aceitação desse material como objeto de valor midiático, é possível dar vazão a iniciativas como essa e se aprofundar mais nas minúcias que compõem esse universo maravilhoso das histórias em quadrinhos de heróis e explorar o significado particular e social que esses personagens podem representar.

Phil Jimenez já trabalhou para as duas gigantes do gênero
O curso, intitulado ''The Rise of Superheroes and Their Impact in Pop Culture'', será ministrado em inglês, podendo ser acessado em diversos pontos do mundo. Com tanto ávidos apaixonados pela mídia quanto iniciantes nessa jornada na nona arte, de países como Austrália, Argentina, Uruguai e Canadá, já inscritos antes do início das atividades e outros muitos mais a cada minuto até lá, a experiência tende a aproveitar a divergência da perspectiva nacional e cultural de cada indivíduo de forma muito instigante. A inscrição é feita através de perfil produzido no site do edX, e pode ser gratuita (voltada para os ouvintes que tiverem interesse em conferir apenas o conteúdo disponibilizado online para as aulas e atividades) ou paga, com uma tarifa única de U$50 (voltada para os interessados em receber certificado de realização do curso com credenciamento oficial e avaliação do domínio sobre os materiais apresentados no decorrer das  semanas). Foi informado aos estudantes que já se inscreveram, contudo, que àqueles que optarem pela opção paga, será enviada uma arte desenvolvida especificamente para o curso, autografada pelo desenhista Phil Jimenez, que trabalha hoje para a Marvel e já foi responsável por títulos como ''Homem-Aranha'' e ''X-men'' na Casa das Ideias e ''Crise Infinita'' e ''Jovens Titãs'' para a DC. A peça contará, ainda, com um selo oficial do Instituto Smithsoniano e as assinaturas de Michael e David Uslan, e do antológico Stan Lee.


Aberto a inscrições desde o dia 5 de maio, os interessados já tiveram disponíveis pequenos textos de introdução e acesso a uma lista de quadrinhos recomendados de leitura (praticamente uma amostra básica do essencial do gênero). Também foram estendidos links para ingresso nas comunidades virtuais do curso no Facebook e no Reddit, além de um fórum aberto a interações entre os próprios alunos, a fim de que a comunicação intercultural seja elemento fundamental das aulas, além de oferecer esclarecimento de dúvidas e trocas de contatos. Aos interessados em ingressar no curso e que ainda não o fizeram, o link para a sua página pode ser encontrado aqui. Ademais, as expectativas são muito positivas e um levantamento acadêmico sobre os aspectos históricos e culturais desse gênero de quadrinhos já era mais do que necessário, ainda que isso já viesse sendo realizado de forma gradual em escalas menores ao redor do planeta. Que esse seja um dia mais claro para a arte sequencial e um de seus mais reconhecidos gêneros! Excelsior!

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Panteão de Heróis pela Ordem e pelo Progresso

Por Gabriel Guimarães



Pouco mais de dois anos atrás, o roteirista Elenildo Lopes deu seus primeiros passos para transformar seu site de cobertura da nona arte "Meu Herói" em um projeto para publicar seu principal personagem, o Capitão R.E.D. em uma edição com belo acabamento (essa iniciativa foi coberta aqui no blog na época). A partir de então, ele passou a buscar novas formas que possibilitariam a veiculação de conteúdo produzido pelos quadrinistas brasileiros que não contavam com grande evidência nas mídias tradicionais. Exercendo, então, um papel de defensor da cultura brasileira e mantendo uma postura de sempre respeitar o conteúdo que o influenciou como leitor, Elenildo iniciou o planejamento para um projeto mais ambicioso cujo grande objetivo é expor o material de muitos autores nacionais a uma parcela maior do público consumidor de quadrinhos e, dessa forma, lhes garantir o reconhecimento e valor devidos. O projeto "A Ordem!" compreende uma história em torno de 100 páginas, com personagens de 24 autores diferentes, provenientes de estados de norte a sul do país, e está em processo de financiamento colaborativo no Catarse desde 10 de novembro, com previsão para fechar a disponibilidade de colaborações no início da segunda semana de janeiro.

A iniciativa, que reflete muito da luta pela valorização da produção brasileira na nona arte, que Elenildo tem travado desde que fundou, junto do cartunista Fernando Rebouças, o movimento DQB - Democracia ao Quadrinho Brasileiro, em 2010, tem uma proposta de potencial admirável, e sua temática central toca em um tópico que muitos levantam ao ingressar no mercado das revistas em quadrinhos no nosso país: Por que não há heróis brasileiros nas bancas?

Em primeiro lugar, é fundamental destacar que há, sim, muitos heróis brasileiros, cada qual refletindo seu contexto de criação e influências, porém, o que torna complicado o processo de consolidar os personagens em um mercado saturado de material estrangeiro sendo distribuído pelas editoras a preços mais acessíveis é, em grande parte, um fator: evidência. O destaque dado às publicações de cunho nacional é bastante limitado, tendo apenas ganhado reforço a partir da primeira década do século XXI, com o advento da internet e a ferramenta de divulgação nas redes sociais, enquanto o conteúdo estrangeiro que chega ao Brasil, uma vez já tendo sido avaliado como um sucesso de vendas em seu próprio mercado de berço, conquista a atenção daqueles editores e empresários que possuem condições de custear sua distribuição nas terras tupiniquins. Isso, contudo, não quer dizer que não haja profissionais do setor que acreditem na qualidade do material brasileiro, porém, o processo para trabalhar com ele possui ônus mais pesado para as editoras, além de ser algo que faz frente ao conflito cultural que vivenciamos no Brasil há décadas, por não compreendermos o valor daquilo que nós mesmos produzimos.

Como Nelson Rodrigues certa vez destacou, o povo brasileiro possui uma cultura de "vira-lata", ou seja, compreende a si mesmo como um ser de natureza abaixo das dos demais, mas que consegue superar os obstáculos que se apresentam diante de si para continuar vivo. Nossa determinação, enquanto povo, é realmente algo muito precioso, sendo fonte para muitas histórias de vida com vitórias sobre a pobreza ou doença, em cidades ao redor do Brasil todo. Nossa jornada, porém, não pode ser composta apenas de pobreza e doença a serem superadas. O valor de nosso trabalho precisa ser reconhecido, a técnica particular com a qual executamos nossa produção cultural precisa ser respeitada. Apenas assim, poderemos construir uma base segura na qual construir uma identidade sociocultural digna de um povo tão determinado e criativo. Elenildo, por meio deste projeto, organizado em parceria com outros talentosos profissionais da arte sequencial, como Augusto Velazquez, Gian Danton, Gil Santos, Joe Benett e José Luis, entre tantos outros hábeis quadrinistas, oferece ao leitor brasileiro uma oportunidade de transformar esse cenário, talvez não de uma única vez, mas possivelmente no início de um processo gradual, passo a passo, livro a livro, quadrinho a quadrinho.

O livro "A Ordem!" promete ser, portanto, uma boa exposição para muitos personagens pouco conhecidos do grande público, ainda que todos já tenham sido publicados previamente. A evidência que o projeto tende a trazer sobre essas criações pode oferecer aos seus autores novas oportunidades para encorpar a produção cultural nacional com o gênero heroico que atrai tantos leitores de quadrinhos, mas que não tem tanta atenção do mercado interno como um todo. Aos interessados em colaborar com a proposta (lembrando que cada valor preestabelecido no Catarse compreende itens que vão desde o álbum impresso até extras como sketchbooks e edições dos personagens representados na história em suas próprias publicações originais), o link pode ser conferido aqui.

A quem tiver interesse em conhecer mais, o jornal eletrônico "FolhaZ" entrevistou recentemente Elenildo Lopes sobre sua proposta no Catarse e a iniciativa do DQB, que pode ser conferida aqui. O jornal mineiro "O Tempo" também realizou uma entrevista muito interessante com o criador de um dos personagens que estarão no projeto, Wellington Santos, traçando sua carreira desde a primeira publicação de seu herói Vulto, de forma independente em 1990. Ela pode ser conferida aqui. Para maiores informações e novidades do projeto "A Ordem!", fiquem atentos à página deste no Facebook, que pode ser conferida aqui.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Parcerias Inestimáveis

Por Gabriel Guimarães


Como o grande jornalista e diretor-presidente da Rádio Panamericana de São Paulo, Antonio Augusto Amaral de Carvalho, mais popularmente conhecido como Tuta, costumava dizer, "ninguém faz sucesso sozinho". Por mais que um possa ter habilidades e dons admiráveis ou um tino natural ou adquirido para determinado campo de ação, é imprecindível compreender que sem aqueles que o cercam, nada ele poderia de fato fazer. E foi a partir dessa constatação, que surgiu o conceito de sociedade na qual estamos inseridos hoje. Sem as pessoas das mais diversas funções, jamais conseguiríamos realizar qualquer feito, fosse em qual área que se tentasse. Todos somos importantes, uma vez observado o intrincado sistema pelo qual tudo se organiza.

Eventualmente, há erros nesse processo, e lacunas escassas que são percebidas por poucos. Quando isto acontece, nos deparamos com os casos de falsidade ideológica ou de corrupção com que os jornais preenchem muitas de suas páginas num ritmo diário. Entretanto, não pretendo ater a essa perspectiva política, e o tema dessa matéria encontra-se no ramo da comunicação.

Atualmente, vivemos numa era da participação ativa, permitida em grande parte pela convergência digital que vem ocorrendo nos últimos anos. Sem o contínuo contato e interação com os outros, através das redes sociais, nenhum projeto consegue se sustentar por si só. O advento da internet possibilitou uma produção individual extremamente rica em termos de pesquisa e abordagem, porém, essa estrutura não representa nada propriamente dito, se não levar em conta o contínuo percurso da informação nos dias de hoje. Os portais de notícias, por exemplo, são grandes centros de acesso diário, porém, sem os leitores que o divulgam, seja por seu todo ou por alguma notícia específica, essa quantidade de buscas não chegaria nem perto dos números rotineiros.
Personagem principal
da tirinha de Outcault,
que ficou conhecido como o
primeiro personagem de
quadrinhos, o Menino Amarelo

Feita essa introdução, acredito que possamos entrar no mundo dos quadrinhos. Ainda que, oficialmente, tenha sido um homem, Richard Outcault, a expandir a história em quadrinhos como meio de comunicação de massa, em 1895, ao observarmos de um ponto mais amplo, o uso da arte como efeito narrativo é oriundo de muitos séculos, milênios atrás. E sem a evolução que foi ocorrendo nos meios artísticos e expressivos ao longo de todo esse tempo, seria impossível para Outcault realizar sua estória "Down Hogan's Alley", para ser publicada no jornal New York World.


Jerry Siegel e Joe Shuster,
cuja parceria resultou na
criação do Superman

Com o passar das décadas, a arte sequencial foi absorvendo a característica de produção em massa das indústrias, grande elemento social dos últimos séculos, e uma história em quadrinhos passou a ser produto não de apenas duas mãos físicas e de uma evolução histórica dos meios de comunicação, e passou a se tornar algo maior, um bem criado a partir dos traços culturais e pessoais de uma série de profissionais capazes e destacados em suas determinadas áreas, fosse a confecção de roteiros, a produção de desenhos, a finalização da arte, a beleza da colorização ou mesmo a árdua tarefa da administração geral e publicação material da fusão disso tudo. E a partir de então, os leitores foram agraciados por muitos casos memoráveis em que a união entre os profissionais de quadrinhos foi tamanha, que produziu histórias antológicas e inesquecíveis para os admiradores da nona arte. Esta união é que é o grande foco da matéria de hoje do blog.
Grupo CLAMP de quadrinistas japonesas

Seja essa cooperação feita por muitas mãos, como acontecia nos clássicos syndicates norte-americanos, ou por apenas poucos, porém, significativos e talentosos criadores, o público testemunhou na história dos quadrinhos algumas parcerias que jamais serão esquecidas. Seja a invenção do primeiro super-herói dos quadrinhos, o Superman, feito por Jerry Siegel e Joe Shuster em 1938, ou então a produção de incontáveis personagens de grande apelo popular e de grande reconhecimento, feitos pelo grupo CLAMP, composto por algumas das mais habilidosas quadrinistas japonesas (que, inclusive, será homenageado com uma exposição na Rio Comicon deste ano), a união de grandes profissionais foi capaz de tornar o comum algo extraordinário, e principalmente, inesquecível.

As colaborações que marcaram época podem até não ser do conhecimento do grande público, porém, seu resultado é. Neste caso, os grandes exemplos vêm do bom relacionamento entre Victor Civita, fundador da editora Abril, e o editor Claúdio de Souza, cuja dedicação ao mercado editorial brasileiro presenteou o Brasil com fases memoráveis de revistas com os personagens da Disney e, posteriormente, dos super-heróis americanos, vendidos no formato que se tornou clássico dos quadrinhos no país, o formatinho (13 x 21 cm). Quando Waldyr Igaiara se juntou à editora, anos mais tarde dessa aliança já estar consolidada, permitiu um crescimento ainda maior dos quadrinhos no país, a partir da formação de um núcleo de produção das histórias da Disney feitas dentro do próprio Brasil, que era de um nível tão aprimorado, que chegava a ser exportado para o exterior, inclusive, para o país de origem deles, os Estados Unidos. Algum tempo depois, entretanto, executivos da editora que passaram a assumir alguns dos cargos mais altos dentro da hierarquia empresarial, por não terem interesse na evolução dos quadrinhos nacionais a longo prazo e exigirem retornos imediatos, optaram por não estimular mais essa produção, e os quadrinhos produzidos por esse núcleo se extinguiram. Até os dias atuais, porém, essa fase que foi resultado dessa união entre grandes profissionais do meio editorial é algo memorável para os leitores da época, e um lamento muito grande ainda é visto pela não continuidade desse projeto.

Dos casos mais conhecidos, destacam-se a parceria antológica do roteirista Stan Lee e o desenhista Jack Kirby, que rendeu como fruto quase todo um universo inteiro de personagens; a união dos quadrinistas franceses René Goscinny e Albert Uderzo, pais do Asterix e autores de suas intrépidas aventuras na Aldeia dos Gauleses; a cooperação entre Neal Adams e Dennis O'Neill, que produziu um momento fundamental da história dos personagens Lanterna Verde e Arqueiro Verde, na década de 1970; e o atual e brilhante momento vivido pelos gêmeos brasileiros Fábio Moon e Gabriel Bá, que recentemente produziram uma das histórias em quadrinhos de maior qualidade feitas esse ano, e que foi lançada oficialmente aqui, no Brasil, na última edição da Bienal do Rio de Janeiro (este momento foi coberto com particular atenção aqui no blog antes, e a Bienal como um todo foi visitada e analisada aqui), "Daytripper".

Para as parcerias mais ocasionais, mas que renderam excelentes obras, ficam a união dos grandes europeus Hugo Pratt, criador do personagem Corto Maltese (cujo contato entre as diferentes culturas visto em suas histórias já foi estudado aqui no blog antes), e Milo Manara, o nome máximo do quadrinho erótico mundial, para a produção da história "Magico Vento"; e a união impossível de não ser mencionada aqui, diga-se de passagem, de mais de 150 quadrinistas brasileiros feita nos últimos anos para o grande projeto em homenagem aos 50 anos de carreira do padrinho dos quadrinhos brasileiros, Maurício de Sousa, sob a excelente batuta do editor Sidney Gusman (cujo trabalho já foi destacado aqui no blog antes também).

O blog Quadrinhos Pra Quem Gosta, inclusive, não foge dessa máxima, que motivou a matéria como um todo, e ele jamais poderia se sustentar sozinho, sem o (grande) apoio que vêm recebendo através das redes sociais e das amizades que foram surgindo nos grandes eventos de quadrinhos dos últimos tempos, e essa força a mais merece ser lembrada, destacada e retribuida, portanto, gostaria de indicar alguns dos portais que tanto nos auxiliam em termos de informação, como de motivação. Alguns, como os blogs "O X da Questão" e o "Letras e Relicário", no passado, já foram divulgados mediante o surgimento de oportunidade para isso, porém, muitos valorosos e inestimáveis parceiros ainda precisam de uma indicação devida, como o "SuperNovo", o "Leituras de BD/Reading Comics", o "Blique", o "Ivan Carlo Blog", o "Andhora's Blog", o "Quadro a Quadro", o "Irlandês Maluko", o "Sub Rosa", o "Júpiter 2", o "Quadrinhos Rasos", o "Lady's Comics",  o "Murokai  Quadrinhos", o "Guia dos Quadrinhos" , e o clássico, porém, imprecindível "Universo HQ".

Apesar de terem sido várias indicações de uma vez só, acredito que todos são propostas que valem muito a pena serem conhecidas, e uma visita a elas individualmente pode acrescentar muito a vocês, grandes leitores e admiradores da arte sequencial. Reforçando o pensamento inicial da matéria, dependemos dos outros ao nosso redor de forma fundamental, e, por meio desta matéria, gostaria de agradecer sinceramente a todos os que desempenham papel de tamanha importância no crescimento e evolução do Quadrinhos Pra Quem Gosta. Muito obrigado, e muitos quadrinhos para todos!

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Veni, Vidi, Vecchi

Por Gabriel Guimarães



Há quase um mês, os quadrinhos brasileiros perderam um grande nome que está na história do gênero no país. Após uma longa carreira trabalhando na filial brasileira da editora italiana Vecchi, que pertencia à sua família e fora originalmente fundada por seu homônimo tio, Lotário Vecchi teve grande importância para a formação do vasto material em quadrinhos publicado aqui no decorrer do século XX.

Inaugurada no Brasil em 1913 através do imigrante italiano Arturo Vecchi, a editora só começou a se envolver com os quadrinhos na década seguinte, ao publicar revistas voltadas para o público infantil, como "Mundo Infantil", e pequenas novelas gráficas em forma de folhetim. Entretanto, foi a partir do final da década de 1960 que seu papel começou a ganhar mais importância no cenário da arte sequencial no país, quando o filho de Arturo e homem a quem esta matéria visa homenagear, Lotário Vecchi, assume a dianteira dos negócios da editora.

Optando por transformar a editora em uma produtora exclusiva de periódicos, Lotário cancelou a linha de livros que eram lançados pela Vecchi e trouxe para os títulos publicados o herói de faroeste italiano Tex, que formou um público fiel muito forte nas terras tupiniquins. Em 1973, aconteceu um fato que foi determinante para a editora alcançar a posição que ostenta na história do mercado editorial de quadrinhos, quando Lotário contratou o ainda jovem Otacílio d'Assunção Barros para participar do setor de quadrinhos da editora. No ano seguinte, quando a revista "MAD" foi, enfim, publicada no Brasil, foi esse jovem que assumiu muitas das responsabilidades por estruturar a sua publicação, sob o seu novo nome artístico, Ota.

Lotário tentou atrair o público com diversos personagens publicados na revista "Eureka", que enfrentou uma série de problemas tanto em termos de composição, já que trazia histórias de personagens que já não possuíam tanto apelo junto ao grande público, como Pafúncio e Pinduca, quanto judiciais, quando se descobriu que o título da revista já era registrado para uma pequena publicação de palavras cruzadas, a qual depois foi comprada pela Vecchi. Entretanto, através da persistência do editor, que adquiriu alguns personagens da extinta revista "O Cruzeiro", como Gasparzinho, para competir com as grandes publicações da época, em especial as da editora Abril.

Com o sucesso dessa nova empreitada e o estouro de vendas provocado pela "MAD", a editora foi crescendo sua participação no mercado de quadrinhos no Brasil, e foi a responsável por lançar os Strunfs, criados pelo belga Peyo, que mais tarde viriam a ser chamados de Smurfs (sobre a publicação destes e sua história nos quadrinhos, recomendo este artigo de um de nossos grandes parceiros de quadrinhos, o blog "O X da Questão"). A editora começou a se aventurar nos quadrinhos de terror, e se tornou uma das grandes editoras do gênero no país, com histórias que facilitavam a identificação com o público, com personagens nacionais e histórias ambientadas no território brasileiro, como a revista "Spektro".


Edição da MAD publicada pela editora Vecchi

Entre as outras publicações da editora, estavam Zagor, Ken Parker, Spirou e Fantasio, dentre uma enorme gama de outros. Na década de 1980, porém, a editora passou por uma crise interna, resultado do endividamento com a compra de uma gráfica na Avenida Brasil, no Rio de Janeiro. Com as dificuldades de pagamento, muitos artistas acabaram migrando para as demais concorrentes, e Lotário, após se desentender com suas irmãs, que também participavam da gerência da editora, decidiu se afastar dos negócios, tendo o apoio de Ota, que levou consigo a publicação da "MAD". Com todos esses problemas, a editora fechou as portas em 1983, porém, seu lugar na história dos quadrinhos nacionais permanecerá para sempre, tal qual Lotário Vecchi, que tanto investiu na produção das linhas de quadrinhos.
Edição dos Strunfs, depois renomeados
de Smurfs, publicada pela Vecchi

Para quem tiver interesse em ler um depoimento pessoal do próprio Ota sobre sua experiência na Vecchi e com Lotário, fica a recomendação para este artigo publicado no blog Bigorna.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Quadrinhos, Literatura e Ensino

Por Gabriel Guimarães


Vivemos hoje num mundo em contínuo movimento. Ao longo do Século XX, os meios de comunicação avançaram de forma bastante acelerada, o que provocou mudanças fundamentais na forma como nos relacionamos entre si e como um todo. Nas últimas décadas, esse processo acelerou de uma forma que jamais poderia ser prevista, atingindo patamares que poucos acreditavam ser possível. Com toda essa mudança na forma de se comunicar, não é surpresa alguma que os meios de comunicação tradicionais passariam por adaptações, visando sua permanência em vigor, e mantendo todo seu legado e influência entre seus consumidores.

Para que hajam esses avanços, há um elemento que exige absoluta atenção e que jamais pode ser deixado de lado: educação. Sem aprendermos sobre os acertos e os erros do passado, a tendência é para que os repitamos, e jamais cheguemos a uma condição mais evoluída. Nessa questão, entretanto, reside um dos maiores problemas da atualidade, quando percebemos a escassez de investimentos devidos nas condições de ensino que são dadas aos professores, que são os verdadeiros arquitetos do amanhã.

Os professores, quando postos em frente a esses obstáculos, muitas vezes não têm como fugir deles, e acabam não apenas eles próprios sendo prejudicados, mas toda a sociedade, pois os alunos, que deveriam adquirir conhecimento através desses profissionais, não conseguem, e, portanto, se tornam apenas parte de uma estatística sem muito valor. Tamanho descaso gera um efeito tenebroso para todos nós: a perda de interesse por parte dos responsáveis pela educação.

Enquanto alguns desses educadores permanecem inabaláveis na luta por uma rede de ensino mais justa e de melhor qualidade, muitos acabam caindo no erro de se acomodar às condições que lhe são oferecidas. Com isso, perdem a vontade de passar conhecimento e ensinar sobre vida, e passam a meramente distribuir padronizadamente um conteúdo previamente programado que não vai gerar fruto nenhum nos alunos. Um dos erros mais cometidos que gera essa consequência acaba partindo de professores ligados à literatura, não por vontade própria, mas por determinação do Estado: a obrigação em ler.

Independente do conteúdo que é passado, o ato de obrigar um jovem a ler algo contra sua vontade não pode, na maior parte dos casos, criar bons resultados. Ainda assim, a fim de preparar os estudantes para lidar com os exames de avanço de grau acadêmico, esse crime continua sendo cometido.

De forma alguma, pretendo criticar a leitura em si ou os clássicos que são transmitidos pelos professores de ensino fundamental e médio aos seus alunos, porém, quero destacar algo: acima de ensinar a ler, deveria ser colocada a importância de ensinar a amar ler. A leitura é uma das experiências mais únicas e pessoais possíveis. Por mais que livros sejam padronizados e distribuidos com o mesmo conteúdo para dezenas, centenas, milhares de leitores, o processo de consumo de um livro sempre se dá de forma diferente. Nunca as impressões de determinado leitor são absolutamente iguais às de outro, há similaridades, mas jamais igualdade por completo.

O ensino tem sido prejudicado justamente em cima desse aspecto há muito tempo. Escolas obrigam a leitura de clássicos como "O Cortiço" e "Memórias Póstumas de Brás Cubas" para indivíduos cujo desenvolvimento intelectual sequer alcançou um status necessário para compreender o que aquelas obras significam. Há exceções, claro, para isso, entretanto, aqui desejo formular um estudo o mais amplo possível. Para facilitar a absorção desses conteúdos, as instituições de ensino acabam procurando materiais mais fáceis de serem compreendidos pelos alunos, e, nessa jornada, entram as histórias em quadrinhos.

As adaptações de clássicos da literatura global para o formato de arte sequencial é uma prática muito antiga, que sempre produziu bons frutos. Adolfo Aizen e Gilberto Freire ficaram muito conhecidos, inclusive, quando se tratou dessa questão no passado (já escrevi matéria sobre o papel dos dois nos quadrinhos brasileiros aqui no blog antes), gerando muitas opções de alto grau de qualidade para serem lidos e estudados.


Aizen em frente ao museu das histórias em quadrinhos,
que ficava na sede da Editora Brasil-América (EBAL)

Com o tempo e a evolução dos meios de comunicação, como destaquei ao início da matéria, as editoras passaram a lidar com muita concorrência nesse campo, e a alta demanda levou a uma busca por soluções mais em conta em termos de orçamento e de prazos. Ao passar por isso, os quadrinhos acabaram sofrendo do mesmo erro que o ensino em si sofreu: a banalização do seu conteúdo. Não mais se procurava estimular o amor pela leitura através dessas histórias, mas apenas um consumo rápido das páginas que compunham aquele material para que pudessem ser feitos testes e avaliações que visavam medir o quanto foi absorvido daquele material pelos seus consumidores.

Neste ponto, entramos no tema da matéria de hoje. Ontem, foi públicado um artigo escrito por um dos editores da revista Época, Luís Antônio Giron, que envolve o uso dos quadrinhos na sala de aula e de recursos eletrônicos como fonte de estudo para os jovens da atualidade. Criticando a condição em que se encontra atualmente a produção de adaptações dos clássicos literários para a nona arte, Giron afirma que essa produção massificada de tão importante material pode acabar com tudo o que a literatura representa.

Uma vez que estamos numa realidade onde os textos estão diminuindo de tamanho e relevância conforme os dias passam, Giron vê com certo receio o aumento do uso das histórias em quadrinhos como fonte de referência para os estudantes, ainda que estas sejam indicadas pelos professores. Seu ponto é válido mediante essa contextualização em que se encontra a produção de elementos culturais nos dias de hoje. As histórias em quadrinhos não podem, entretanto, servir de bode expiatório para a crítica a um sistema de ensino errôneo que está em vigência. No passado, a arte sequencial passou por sérios problemas junto ao público por questões parecidas, e isso não pode se repetir.

Para deixar clara sua posição de que não está criticando os quadrinhos, Giron destaca no final de seu texto a importância e a qualidade de conteúdos gerados pelos grandes mestres dos quadrinhos, como Will Eisner e Joe Sacco, destacando ainda o bom trabalho nas adaptações literatura-quadrinhos feito pelo desenhista Flávio Colin em suas obras "Estórias Gerais" e "Fawcett". Acredito que valeria a pena destacar nesse campo, também, o trabalho dos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá na graphic novel "O Alienista", feita sobre a clássica história de Machado de Assis, e os muitos trabalhos produzidos pelo já mencionado Aizen (a relação dos quadrinhos e as livrarias na última década também já foi analisada aqui no blog antes).


O quadrinista Spacca ficou
conhecido por suas excelentes obras históricas
produzidas em quadrinhos
Para histórias em quadrinhos cujo conteúdo poderia ser bastante aproveitado nas salas de aula, vale mencionar os trabalhos históricos do quadrinista Spacca, como "D. João Carioca", "Santô e os Pais da Aviação" e "Debret em Viagem Histórica e Quadrinhesca ao Brasil", junto com o trabalho feito pela editora HEINLE CENGAGE, responsável pela produção e publicação da versão em quadrinhos de histórias como "Macbeth", "A Christmas Carol" e "Frankestein". Há, também, é claro, os casos mencionados por Giron de adaptações meramente voltadas para um mercado com crescente demanda, porém, não podemos tratá-los como se estes fossem a regra e as boas adaptações, exceções.

Desde 2008, o Programa Nacional Biblioteca na Escola (PBNE), investe bastante na adoção de histórias em quadrinhos como forma de ampliar a dimensão do contéudo passado em sala de aula, e, sinceramente, espero que isso cresça mais e mais. Ainda que existam editores que têm como objetivo lucrar em cima de consumidores desavisados, há uma enorme gama de profissionais sérios que reconhecem o potencial artístico-narrativo que a nona arte possui, e estes sim devem ser tratados como regra. Aos que quiserem conhecer um pouco mais dessa questão, os estudiosos Waldomiro Vergueiro e Paulo Ramos têm uma extensa bibliografia no assunto, que recomendo bastante. Para quem quiser conferir o artigo de Giron, basta lê-lo na sua coluna eletrônica no site do Globo aqui, e quem tiver algum conhecimento na área para levantar uma discussão mais aberta sobre o tema, sinta-se livre para fazê-lo. Pois apenas nos comunicando é que podemos conquistar vitórias, tanto no campo da educação como no campo da vida.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Com Grandes Ideias, Vêm Grandes Oportunidades

Por Gabriel Guimarães




O pequeno "Puny Parker"
saindo de dentro da cabeça
do seu criador
Há uma semana exatamente, o público leitor de quadrinhos recebeu triste, porém, satisfeito, a notícia de que a série de tirinhas do quadrinista mineiro Vitor Cafaggi protagonizada por uma versão infantil de Peter Parker, o Homem-Aranha, chegou ao fim. Iniciada em agosto de 2008, a tirinha "Puny Parker" narrou as desventuras do Cabeça de Teia muito tempo antes de este conseguir seus poderes que lhe deram tanta fama, num traço simples e sensível que lembra bastante os trabalhos de Bill Waterson, criador dos personagens Calvin e Haroldo, e Charles Schultz, criador do Charlie Brown.
Tendo como destaque o ínicio da vida amorosa de Peter, seu relacionamento com seus tios e a sua dificuldade de se relacionar com as outras crianças do colégio, "Puny Parker" rapidamente entrou na lista de tiras favoritas entre os leitores de quadrinhos. E não foi pra menos. Ao longo desses 3 anos de existência do blog oficial, foram 140 tirinhas que se disseminaram pela internet de forma ágil e fácil, através das ferramentas cada vez mais comuns de compartilhamento nas redes sociais.

A proposta de Vitor começou ainda no Orkut, mas foi ganhando tanta atenção que culminou na criação de um blog específico para o personagem, e, assim, o trabalho desse artista mineiro foi ganhando cada vez mais destaque. Ao apresentar todas as tiras que produzia em português e em inglês, expandiu seu público leitor de forma impressionante, atraindo muitas pessoas para conhecer o seu trabalho, e para conseguir manter todo esse público que chegava ávido ao seu blog a partir das indicações, Vitor usou de uma sensibilidade ímpar, reforçando uma certa nostalgia a esse período da infância, o que deu um efeito ainda mais especial para os leitores de suas histórinhas que tiveram o hábito de acompanhar séries de quadrinhos quando menores. Tamanha dedicação não tinha como dar errado, e assim o pequeno Parker começou a entrar na mente e nos corações dos leitores tanto quanto o grande Homem-Aranha fizera quando ainda éramos crianças.
Auto retrato de Vitor Cafaggi ao lado de seu personagem
Enquanto o Homem-Aranha original nos fazia ficar apaixonados pelas aventuras que poderiam ser vividas quando um dia nos tornássemos adultos, o jovem "Puny Parker" segue no caminho oposto, nos saudando com as memórias da pureza da juventude e da beleza da simplicidade, que hoje já não se mostram tão fáceis de recordar assim. Com o mundo cada vez mais rápido, precisamos dessas âncoras para nos prender ao cerne de nossos sonhos, à origem de nossas esperanças e força de vontade; e esse trabalho de Vitor com certeza atingiu esse patamar.


Chico Bento observando a vida de
cima do pé de goiaba do Nhô Lau

Portanto, não foi algo inesperado quando o reconhecimento para esse grande quadrinista brasileiro começou a crescer, chegando ao convite para colaborar com a série que homenageava os 50 anos de carreira do patrono dos quadrinhos nacionais, Maurício de Sousa, no primeiro volume do MSP50. E Vitor, mais uma vez, não deixou passar a oportunidade e nos presenteou com uma bela história do Chico Bento, novamente nos remetendo às emoções da infância, com as quais ele consegue trabalhar tão bem. Ano passado, colaborou também com o álbum "Pequenos Heróis", lançado pela editora Devir, onde narrava uma história protagonizada por uma versão infantil do Flash na vida real, onde os poderes são apenas aqueles dados pela imaginação e empenho.


O jovem Wally West (Flash) desenhado por
Vitor para o álbum "Pequenos Heróis"

A contribuição de Vitor para os quadrinhos nacionais é algo admirável e acredito que passaremos a ouvir falar dele cada vez mais frequentemente. Ontem, ele foi tema de matéria no site Supernovo, que vale a pena ser conferida para que se possa compreender ainda mais o significado da sua criação para os leitores de quadrinhos. 

Ano passado, ele e a irmã, Luciana Cafaggi (outra bela profissional de quadrinhos sobre a qual pretendo falar em matéria posterior aqui no blog, e cujo site artístico pessoal pode ser visto aqui), estiveram na Rio Comicon (cuja cobertura completa pode ser vista aqui), mas infelizmente não consegui falar com ele para poder lhe dizer o quanto suas tirinhas são importantes para os quadrinhos no Brasil hoje, mas espero que ele saiba disso. Esse ano, caso ele venha para a segunda edição da Rio Comicon, que ainda está para ser confirmada, espero sinceramente reverter isso e poder conhecê-lo pessoalmente.

Para os interessados no trabalho de Vitor, ele disponibilizou no seu blog todas as tirinhas do "Puny Parker" para serem baixadas, além de diversas wallpapers e trabalhos artísticos que apenas fazem crescer suas qualidades profissionais, tudo de graça. Eu garanto que, quem começar a ler as histórias lá, não vai conseguir parar até terminar.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Um Lugar para Recordar Jayme Cortez

Por Gabriel Guimarães



É um fato conhecido que os quadrinhos brasileiros tiveram muitos de seus pilares mias antigos construídos em cima de talentosos estrangeiros que descobriram no Brasil algo que os prendeu indefinidamente aqui, sendo então responsáveis por muito da produção de histórias em quadrinhos que era feita em editoras como  a Ebal, a La Selva e a editora Abril (todas presididas por figuras da mais alta importância para a história dos quadrinhos no Brasil, apesar de não terem nascido propriamente aqui, o russo Adolfo Aizen e os italianos Vito La Selva e Victor Civita, respectivamente - um breve histórico de sua participação na formação do mercado editorial brasileiro pode ser encontrada em matéria já publicada antes aqui no blog e no excelente livro do pesquisador Gonçalo Júnior, "Guerra dos Gibis").


Jayme Cortez à direita junto do
ainda jovem Maurício de Sousa

Dentre os grandes nomes dessa época, destacaram-se muito o italiano Eugênio Colonnese, o nipônico Julio Shimamoto e o português Jayme Cortez, que, em meio a uma precariedade inicial de recursos, foram capazes de levar seus trabalhos às mãos de milhares de brasileiros. A matéria de hoje é para destacar um projeto que homenageia este último que citei, Jayme Cortez, do qual tomei conhecimento recentemente. Produzido por Jayme Cortez Filho e Fabio Moraes, começou a ser disponibilizado há pouco tempo na forma de um museu virtual com fotos antigas e trabalhos produzidos pelo luso-brasileiro, o blog Jayme Cortez, a fim de honrar a memória do desenhista e manter sua contribuição para os quadrinhos brasileiros viva.


Cortez conversando com o
americano Stan Lee, criador de
grande parte do universo Marvel

Essa iniciativa é algo que merece uma atenção especial pelo currículo que Cortez desenvolveu ao longo de toda sua vida trabalhando com quadrinhos, fazendo centenas de capas para revistas como "Terror Negro", da editora La Selva, tiras para o jornal Diário da Noite, e contribuições na produção de diversos títulos de humor impulsionados pelas figuras célebres do cinema da época, como Oscarito e o Grande Otelo. Além disso, Cortez participou ativamente da montagem da Primeira Exposição Internacional de Histórias em Quadrinhos, em 1951 na cidade de São Paulo, ao lado de muitos outros admiradores e profissionais da arte sequencial que até hoje são lembrados pelo papel desempenhado na divulgação da nona arte no país, como Alvaro de Moya e Miguel Penteado.


Will Eisner e Cortez

No blog que o homenageia, é possível ver muitas fotos dele ao lado de seus colegas de profissão e não demora muito para que se perceba o quanto sua participação no meio artístico da época era algo importante para o mercado nacional. Não é, portanto, grande surpresa que, em 2009, foi inaugurada a Gibiteca Jayme Cortez para lembrar a memória do artista na cidade onde morou grande parte de sua vida, em São Paulo.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Novo Portal de Quadrinhos Nacionais, Exportando Talento e A Busca por Tempos Áureos Das Gigantes dos Quadrinhos

Por Gabriel Guimarães


Sei que o título está bastante comprido, mas são muitas novidades a serem comentadas aqui. Em primeiro lugar, gostaria de destacar um projeto que me chamou bastante a atenção pela excelente iniciativa que é: a ainda nova Editora Eras, que se oficializou em 2010 e tem como foco o trabalho com materiais de RPG, jogos e histórias em quadrinhos, deu início essa semana à procura de interessados em trabalhar com arte sequencial para começar a publicar no seu portal online específico de quadrinhos, o "Multicomics Blog".

Com o objetivo de fazer um trabalho exclusivo com quadrinhos brasileiros, a Eras tem divulgado vários artigos sobre o universo no qual as histórias que publicará acontecerão e comentando o processo de produção delas, desde a colorização até a diagramação que o site usará. O trabalho promete muito e pode ser uma porta de divulgação para o talento nacional bem positiva. Quando o portal estiver plenamente construído (o que se vê lá por enquanto ainda é a versão provisória, até que comece a publicação das HQs), acredito que será um ótimo ponto de encontro para os admiradores da nona arte no Brasil. Fiquem antenados nesse projeto.

Quanto à segunda notícia do dia, trata-se da notícia de que a graphic novel nacional "Cachalote", escrita por Daniel Galera e desenhada por Rafael Coutinho, será exportada para a Europa e a editora Cambourakis será a responsável pela publicação do material na França. Dou destaque a essa notícia porque se trata de mais um exemplo de que o Brasil está começando a exportar seu talento para o mundo e não mais apenas importando. Apenas na década de 1960, quando o Brasil exalava um crescimento cultural muito grande (que infelizmente não foi muito pra frente depois, diga-se de passagem) e exportava vários exemplos disso, como a Bossa Nova, a arquitetura revolucionária de Oscar Niemeyer que começava a se destacar, e a beleza da construção de Brasília, o país verdadeiramente demonstrava seu potencial criativo, e vejo que nos últimos tempos, o Brasil tem começado a dar seus passos para voltar a praticar isso. Precisamos continuar assim, mostrando a que viemos.

E, por último, mas não menos importante, uma notícia que reforça um pouco o ponto que tenho exposto aqui no blog já há algum tempo quanto aos quadrinhos das duas grandes editoras americanas Marvel e DC. Através de projetos como Iron Age (Marvel) e RetroActive (DC), as editoras demonstram estar atrás de um retorno aos bons tempos em que fazer, ler e acompanhar quadrinhos era mais simples, onde você não precisava de uma cronologia completamente louca para compreender tudo que acontece no universo e que os personagens são mais simples e verdadeiramente humanos do que nos dias atuais. Os quadrinhos atuais estão vendendo muito e atraindo cada vez maiores fontes de capital e possíveis leitores, porém, é perceptível que muitos sentem a falta de algo, que antes os quadrinhos tinham e hoje parecem ter esquecido um pouco como usar: pureza e simplicidade. É uma volta às origens necessária, mas que não é garantia de bons resultados. Aguardo para ver o desenrolar disso.

sábado, 23 de abril de 2011

Convite Para Escrever O Rei dos Mares

Por Gabriel Guimarães


Desde que os primeiros leitores de quadrinhos conheceram seus personagens favoritos nas revistinhas, sempre houve um desejo de criar suas próprias histórias com o personagem, viver a fantasia de imagina-lo enfrentando esse ou aquele vilão, em uma dada circunstância em um determinado local. Ao longo dos anos, isso rendeu frutos variados para as histórias em quadrinhos mundiais. Alguns, como Jim Shooter, se tornaram roteiristas das grandes editoras ao exporem seus trabalhos em cima dos personagens da casa, enquanto outros, criaram um gênero muito popular e que se expandiu bastante com o passar dos anos, o Fan Fiction, abreviado para fanfic.

Seja de personagens de mangás, de heróis, ou até mesmo da literatura, esse gênero já atraiu muitas pessoas a darem um pouco de sua própria visão de mundo aos personagens que são elemento constante na realidade delas mesmas, expandindo o meio através de quase uma propaganda metalinguística, onde o fã expõe sua relação com o personagem de uma forma tão particular que outros que venham a ler esse conteúdo passam a se interessar em encontrar o material original publicado pelas editoras.

Um trabalho realizado para esse fim, entretanto, como qualquer obra que é disponível para leitura, pode ser de muita qualidade, ou com objetivo único de ridicularizar algo ou de distorcer um pouco ou muito o mundo dos personagens de que se escreve. Essa imensa gama torna possível as abordagens das mais variadas, alcançando inevitavelmente aquele leitor que procura algo de acordo com o que percebe como mais interessante.

Então, é nessa linha de raciocínio, que venho aqui para anunciar o convite que o blog DC Ultimate, que posta histórias fanfic dos personagens do universo DC, veio me fazer há menos de um mês atrás. Eles estão com um projeto de mostrar histórias dos personagens dessa editora de um ponto de vista menos atrelado ao da linha cronológica geral que rege os quadrinhos publicados pela Panini, e me convidaram a tomar parte nessa iniciativa, assumindo um dos títulos que eles pretendem ter de forma regularmente mensal, no caso, o título do Aquaman.
Como descrevi na minha matéria sobre questão de visiblidade (que pode ser lida aqui no blog), esse personagem não dispõe de muito carisma e de uma quantidade muito positiva de procura e de aproveitamento nos quadrinhos da DC, e o novo roteirista-chefe da editora, Geoff Johns, responsável por fases brilhantes do Lanterna Verde e do Flash, está assumindo o personagem para tentar reverter isso. Partindo desse mesmo pressuposto para o rei dos mares num universo cheio de super seres como Superman, Mulher Maravilha, Ajax, etc, decidi aceitar a proposta e, a partir desse mês, escrever o título mensal do Aquaman para o blog DC Ultimate, que conta com admiradores dos personagens da DC de vários pontos do Brasil, desde Macaú (Rio Grande do Norte) a São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo.

Convido, portanto, os leitores deste meu blog, que permanecerá funcionando exatamente como faz hoje, a também darem uma visita a este blog companheiro e a lerem os títulos postados lá, não apenas o meu. Deixo, então, o link do primeiro número do Aquaman que escrevi, que foi publicado hoje, dia 23 de abril, na imagem acima para ser a porta de entrada nessa parceria quadrinística que pode render muitos benefícios aos produtores e aos leitores no futuro, se Deus quiser.

Obrigado mais uma vez a todos pelo apoio que dão ao meu blog e espero que apreciem também a versão que darei ao dono do trono da Atlântida do universo DC nessa minha empreitada.

terça-feira, 29 de março de 2011

Homenagens Necessárias e Dignas

Por Gabriel Guimarães
Há algumas semanas atrás, o mundo dos quadrinhos e da animação como um todo se abateu pelo súbito falescimento do artista Dwayne McDuffie, responsável por muitas das animações de sucesso dos últimos anos, como a série de televisão do Super Choque e o filme animado baseado na minissérie do Superman escrita pelo autor escocês Grant Morrison e desenhada por Frank Quitely, All-Star Superman.

Sendo conhecido no meio como um dos grandes defensores da etnia negra entre os personagens de quadrinhos e desenhos animados, McDuffie foi um dos responsáveis pela escalação do soldado John Stewart como Lanterna Verde integrante da formação principal da Liga da Justiça na série de desenho animado que fez tanto sucesso nessa última década, rendendo até uma continuação,: Liga da Justiça: Ação Sem Limites.

Aos 49 anos, McDuffie havia feito uma operação cardíaca de emergência e acabou sofrendo complicações que levaram à sua morte. Sua memória merece uma homenagem aqui e seus ideais de igualdade não podem ser esquecidos, pois, ainda hoje, há muitos atos de racismo e discriminação racial ao redor do mundo que não podem mais ser tolerados.

Os últimos trabalhos de McDuffie foram junto aos desenhos animados Ben 10 e roteirizando algumas poucas edições para a Marvel e para a DC, como Quarteto Fantástico e Nuclear, respectivamente.


A outra homenagem que faço aqui é pelos 70 anos que completa o grande personagem capitão Haddock, amigo inseparável do repórter Tintin nas histórias do desenhista belga Hergé. Aparecendo pela primeira vez na história "O Carangueijo das Pinças de Ouro", em 1941, o capitão não tardou a capturar a atenção e a simpatia dos leitores com seu jeito irritadiço e perspicaz de ser. Sempre caracterizado por ter um pavio curto, suas explosões temperamentais sempre foram uma das ferramentas de humor mais agradáveis nas histórias de Tintin.

Como seu nome é uma referência ao peixe Hadoque, é compreensível que o capitão tenha grande parte de sua cultura vinda do mar, de histórias mirabolantes de piratas e navios ao longo da história, que alimentam sua imaginação e preenchem sua árvore genealógica. Uma matéria especial que foi feita sobre o personagem que merece ser conferida está no site Tintim por Tintim (você pode vê-la aqui).

Está previsto para este ano que chegue às grandes telas o primeiro filme de uma série em live-motion de Tintin, cuja primeira obra a ser adaptada para a nona arte será justamente a história do antepassado do capitão Haddock e sua luta contra o pirata Rackhan, o Terrível. A participação do capitão no filme, se estiver à altura de seu papel nos quadrinhos, com certeza será um elemento que acrescentará muita qualidade ao filme. Esperamos ansiosamente para ver.