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sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Rio Comicon - Ponderações e Reflexões

Por Gabriel Guimarães
 

Os organizadores da Rio Comicon, por meio de um informe oficial postado no site do evento ontem (que pode ser conferido aqui), anunciaram que, este ano, não haverá a esperada terceira edição da reunião internacional de fãs e produtores de quadrinhos na cidade do Rio de Janeiro, devido a problemas no acordo com os patrocinadores e demais questões relativas à verba necessária para custear o porte cada vez maior da ocasião.
 
Tendo acontecido nos últimos dois anos, e cujas coberturas completas foram feitas aqui no blog (as quais podem ser conferida aqui e aqui, respectivamente), a Rio Comicon deu um gatilho inicial numa nova geração de admiradores da arte sequencial nas terras cariocas e trouxe para perto do público profissionais de renome que jamais haviam posto os pés no Brasil, como o roteirista Chris Claremont, o desenhista Kevin O'Neill e a mangaká Junko Mizuno. Apresentando exposições maravilhosas sobre grandes artistas que se consagraram no meio, como o americano Will Eisner e o italiano Milo Manara, além de oferecer ao público a oportunidade de conhecer os estilos mais diversos dos artistas nacionais, apresentados nos esquetes que ficavam no meio do grande pavilhão da Estação Leopoldina, o evento estimulou uma nova geração a conhecer mais da cultura da nona arte que se desenvolvia pelas beiradas dos meios de comunicação mainstream. Apesar de terem suas limitações físicas e de verba, as duas edições do evento foram muito bem sucedidas, e resgataram uma quantidade de leitores considerável para a leitura da arte sequencial.
 
Materiais do escritório de Eisner estiveram expostos em 2011
 
As portas abertas pela Rio Comicon para os eventos de quadrinhos no Rio de Janeiro foram imprescindíveis para o panorama positivo com que vemos a arte sequencial hoje. Apesar de encontrar resistência na escassez de investidores de grande porte e da visibilidade do evento, os organizadores conseguiram promover o lançamento de novos artistas, que deram seu primeiro passo profissional nos corredores onde outrora a população pegava os trens para ir para o trabalho ou voltar para suas casas. Não deixa, portanto, de ser um fato particularmente curioso este modo de promover os aspirantes a quadrinistas, uma vez analisada a similaridade desse início profissional em pleno Século XXI com a forma como a própria cultura de massa começou a se expandir, através dos folhetins nas estações ferroviárias do Século XIX.
 
Imagem usada para ilustrar os
membros do site "Jovem Nerd" em
seu popular podcast
Nestes dois anos, porém, foi possível observar alguns aspectos de considerável importância que foram relevados ou mesmo não trabalhados por conta dos organizadores do evento e que, caso fossem, talvez a edição deste ano tivesse condições de ser realizada. Dentre eles, a captação de parceiros para montar estande no evento chama bastante atenção. Contando apenas com a Livraria da Travessa e deixando de lado grandes nomes do mercado nacional livreiro como as livrarias Saraiva, FNAC e Cultura, além das lojas especializadas Point HQ, Comix e Devir, é um tanto restritivo demais. A participação destes demais, não como forma de competição agressiva pelo leitor, mas como ferramenta de diversidade para consumo do visitante do evento, é um fator bastante importante. A ausência de bancos eletrônicos 24 horas nas imediações é outro aspecto relevado que pesou muito para muitos dos presentes nestes dois últimos anos. A ausência de um sistema geral de pagamento via cartão de crédito nos estandes dos quadrinhos independentes acabava, por conta disso, inviabilizando a compra de material nacional de qualidade e de expansão de percepção da nossa realidade brasileira.
 
Observando de um ponto de vista mais focado na visibilidade do evento, destaca-se também a ausência de anúncios do evento nas mídias impressas, estando concentrada principalmente nas redes sociais, que apesar de serem extraordinárias para a replicabilidade dos anúncios do evento, não dão o suporte físico muitas vezes necessário para atrair o público alheio. Procurar a parceria de grandes centros da atenção online, como os sites Omelete e Jovem Nerd poderiam ser uma opção muito interessante, sem ter que sair do panorama virtual, mas a presença maior da marca da Rio Comicon no cenário público carioca real seria, certamente, de grande importância. Um anúncio mais antecipado sobre o evento também seria um fator muito elogiado pelo público, pois este, em geral, tem sido feito muito em cima da hora, ocasionando problemas de agendamento dos visitantes para com as oficinas e palestras oferecidas.
 
 
Um terceiro aspecto que vale a pena ressaltar é a falta de suporte dado por alguns dos estandes presentes no evento nestes dois anos, cujo principal exemplo é o da editora Panini, responsável pela publicação no território nacional de grande parte dos produtos mais consumidos entre os leitores de quadrinhos. Apesar de ter percebido o resultado incrivelmente positivo que teve na última edição da Bienal de Livros do Rio de Janeiro, ano passado (que foi completamente coberto aqui no blog, também), a ponto de já confirmar um estande maior ainda do que o utilizado para a próxima edição da Bienal, a editora insistiu nos dois anos em estar presente no evento apenas com uma pequena bancada oferecendo pacotes de assinatura mensal de seus títulos. A demanda do público era imensa, mas a oferta de material era muito escassa, e não dava vazão, gerando insatisfação em muitos dos visitantes presentes.
 
Por quase duas décadas, enquanto não houve atividades relacionadas à arte sequencial no Rio de Janeiro, uma grande comunidade permaneceu inerte, sem saber por onde ganhar voz para sua paixão, mas isso terminou com a realização da primeira Rio Comicon. Só neste ano, a quantidade de eventos relacionados a quadrinhos, que aconteceram nos mais diversos bairros da cidade, é extremamente maior do que fora anteriormente, e o público continua faminto por mais. Talvez nenhum destes eventos de 2012 tenha tido o mesmo porte que a Rio Comicon oferecia, mas foram, sem dúvida, fonte de memórias espetaculares, bons encontros entre autores nacionais e estrangeiros, e uma forma maravilhosa de fazer novas amizades e adquirir contatos. Não choremos pelo cancelamento da Rio Comicon deste ano, pois temos certeza do empenho dos organizadores para com o público e para com a arte que eles vêm trabalhando há anos. Torçamos apenas para que possam confirmar a edição de 2013 em tempo mais promisso a boa resposta do público, e que possamos mais uma vez nos reunir pela nossa sincera admiração à arte sequencial.
 
 
Nós, do Quadrinhos Pra Quem Gosta, desejamos apenas o melhor para todos os organizadores da Rio Comicon, e deixamos com vocês nosso apoio irrestrito, nos disponibilizando para tentar ajudá-los da melhor maneira possível. Que possamos juntos, enquanto forma de expressão de toda uma comunidade de leitores e artistas, elevar essa arte que tanto nos engrandeceu ao longo do tempo por experiência e empolgação. Aguardamos os futuros pronunciamentos no belíssimo site do evento, que pode ser conferido aqui, ou clicando na figura acima.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

RIO COMICON, BABY!!! - ANO 2 - EPÍLOGO

Por Gabriel Guimarães



E mais uma edição da Rio Comicon chega ao fim. Tal qual toda boa obra em quadrinhos, o evento foi marcado por experiências intensas, que prenderam emocionalmente todos os que estiveram presentes e, com certeza, proporcionaram momentos que jamais sairão das lembranças dessas pessoas.

Contando com a presença de convidados ilustres tanto do âmbito nacional quanto global, o fluxo de comunicação com os grandes responsáveis por muitas das histórias que compõem nossos imaginários foi incrível, com uma disponibilidade imensa por parte dos profissionais e um interesse sincero dos visitantes. Para quem estava começando ou tinha desejo de entrar nesse mundo também de forma formal, o evento, através da área ocupada pela gráfica J. Sholna, ofereceu a oportunidade de distribuir na Estação Leopoldina o material independente produzido pelos aspirantes ainda a quadrinistas, e a procura por esses serviços foi enorme, ainda que muitos contatos tenham sido mais a longo prazo.


Valentina, em desenho do
italiano Guido Crepax

O material exposto nas homenagens, tanto do eterno pioneiro Will Eisner, quanto da sedutora Valentina, e da vitoriosa história de 75 anos da editora DC comics e a tradição de histórias emocionantes e inesquecíveis do grupo de mangakás japonesas CLAMP, foi primoroso. Para todos os gostos, houve opção. Até para os quadrinhos underground, que não tiveram propriamente uma exposição, o evento contou com a participação do artista Peter Kuper, que deu uma aula da história desse gênero de quadrinhos, e que respondeu com atenção a todos os que foram conversar com ele. Contando com tanto conteúdo, é uma pena, no final das contas, que muitos dos jovens visitantes em potencial do evento não puderam ir por causa do Exame Nacional do Ensino Médio, o ENEM, que estava sendo realizado durante todo o fim de semana.


Arte do argentino Liniers usada
na divulgação da Rio Comicon 2011

Numa análise geral do evento, tudo ocorreu de forma similar à edição do ano passado, o que tem seus prós e seus contras, mas que, em suma, foi algo muito especial. Apesar de a divulgação ter sido um pouco defasada, por conta de problemas de locação e outras questões menores, e o preço do ingresso ter estado consideravelmente mais caro, a quantidade de oficinas disponibilizadas e a estrutura onde elas são administradas cresceu muito, e a quantidade de convidados foi impressionante.

A cultura dos quadrinhos esteve muito bem representada, e tem tudo para crescer cada vez mais, conforme o reconhecimento devido for sendo conquistado, uma luta de cada vez.


Ano que vem tem mais, e com certeza, teremos novas oportunidades para afirmar que:

É RIO COMICON, BABY!!!

domingo, 23 de outubro de 2011

RIO COMICON, BABY!!! - ANO 2 - DIA FINAL

Por Gabriel Guimarães


Um pequeno herói junto
ao ator vestido de Capitão América

Num domingo onde o Sol esteve alto, aquecendo o já caloroso ambiente da Estação Leopoldina, o movimento foi consideravelmente bom, e muitas famílias estiveram presentes com crianças de todas as idades, que puderam ter momentos ótimos com os personagens do mundo maravilhoso dos quadrinhos. Aproveitando a presença novamente de atores e atrizes fantasiados dos mais diversos personagens da cultura pop em geral, os pequenos fãs de quadrinhos se divertiram e, sem dúvida, voltaram para casa ao final do dia com recordações para o resto da vida.


Enquanto o movimento familiar aumentou, o negócio do dia ficou em volta dos gibis mais raros e históricos que estavam dispostos na barraca do Arafatt e do Marquinhos, este último o antigo dono da loja de quadrinhos carioca Gibimania, que era ponto de referência no estado e que, já há algum tempo, não estava tanto em destaque. O material levado para o estande e a receptividade dos tanto vendedores quanto admiradores de quadrinhos que são os dois donos disso foram excelentes. Aos colecionadores, foi imprecindível conferir as ofertas lá, e saiu feliz quem conseguiu observar tudo que estava exposto, que, diga-se de passagem, contia material do mundo inteiro feito em quadrinhos, desde Japão, até Argentina, chegando na Rússia.

Cena do curta brasileiro do
anti-herói "Urubucamelô"
Pelo evento, ainda ocorreu a segunda parte do 1º Colóquio de Filosofia e Histórias em Quadrinhos, que contou com a apresentação de alguns trabalhos muito interessantes. Começando por uma análise histórica da abordagem do mito nas aventuras da Mulher Maravilha, feita pela doutora em filosofia Susana de Castro, o colóquio atraiu um público diversificado e bastante curioso com tudo que era dito, em especial, com a criação nacional feita pelo professor da Escola de Comunicação da UFRJ, Fernando Gerheim, o "Urubucamelô", um anti-herói cuja essência consiste numa crítica implícita ao distanciamento dos heróis norte-americanos sobre a realidade da problemática mundana. Originado num lixão, o personagem representa uma questão fundamental sobre o heroísmo mais popular, na questão entre o herói e o marginal.

Numa sequência deste questionamento do herói, o também doutorando Fábio François abordou o niilismo presente na obra máxima do gênero dos super-heróis, "Watchmen", ponderando sobre a metalinguagem intrínseca na história, sobre uma realidade que gira em torno do efeito da real exitência de super seres no nosso mundo real, e não um universo imaginado. Analisando os tipos e momentos do herói, adaptados pontualmente da obra de Heidegger, François observou ainda o papel de cada personagem da trama dessa saga como reflexo filosófico específico da relação com a conscientização da fragilidade da humanidade.

Claremont, ao centro, sendo traduzido pelo estudioso Carlos
Patati,  à sua esquerda, e mediado pelo doutorando
Fábio Morilhe, à sua direita
Ainda numa análise do universo heróico, o professor Luis Alencastro analisou a questão da univocidade do ser presente em obras como a "Crise nas Infinitas Terras", a partir das obras de Sócrates. Tendo precisado se limitar ao tempo que essa etapa do dia necessitou, Lencastro abordou apenas superficialmente a questão, usando do filme "Efeito Borboleta" como um exemplo leigo para o público conseguir compreender a pluralidade de realidades composta pelas decisões as quais são observadas na obra que redefiniu a DC comics nos anos de 1980. Para concluir, o antológico roteirista dos X-men e Wolverine, Chris Claremont, compareceu para responder a algumas questões sociais e composicionais propostas pelo mediador, Fábio Mourilhe. Enfatizando na questão de que ele via seus personagens como pessoas e não como heróis de colant, Claremont destacou que a humanidade dos protagonistas numa história em quadrinhos, ainda que seja numa aventura heróica, é a essência de qualquer boa história. Ao afirmar que "super poderes são um detalhe, e apenas parte de um todo que é a personagem", e que "trabalha com hístórias de pessoas que possuem um dom, seja este dom um super poder ou não", Claremont passou uma tansparência muito grande para o público sobre sua visão dos quadrinhos e mostrou, assim, a razão de ter sido o autor de momentos tão inestimáveis e inesquecíveis nas histórias de grandes personagens da Marvel por muito tempo.

Ao longo do dia, o assédio também foi grande em torno de profissionais dos quadrinhos como a paulista Érica Awano, que esteve autografando livros no estande da Livraria da Travessa, junto da japonesa Junko Mizuno. Autores como Emerson Lopes, que trabalhou no álbum "Pequenos Heróis" (já comentado aqui no blog antes) e é o criador do bem-humorado personagem "Alfredo, o Vampiro" (cujo bom blog pode ser visto aqui); Rafael Coutinho, desenhista da história em quadrinhos "Cachalote"; Alberto Serrano, quadrinista conehcido pelo seu trabalho de street art com os seus personagens Tito e o Cão Viralata; e o cartunista Gilmar, autor de álbuns como "Para ler quando seu chefe não estiver olhando" e "Caroço no Angu", o dia esteve bastante movimentado, e o público presente ganhou muito com isso.


Klebs Jr apresentou uma excelente oficina sobre
o mercado internacional de quadrinhos, que prendeu
a atenção de todos os presentes
 Também foi realizada uma oficina pelo agente Klebs Jr, integrante do grupo Impacto Quadrinhos, sobre o mercado internacional de quadrinhos, que foi extremamente importante para os que a conferiram. Realizada num ambiente melhor do que o que era disponibilizado na edição anterior da Rio Comicon, Klebs comentou sua entrada no mercado de quadrinhos há mais de 15 anos e os pontos fundamentais que a indústria de quadrinhos procura em novos profissionais. Explicando que o mercado internacional de quadrinhos muitas vezes se consiste de uma arte industrializada mais do que uma mera criação pessoal, ele expôs exemplos práticos para pontuar questões que devem ser avaliadas por todos que pretendem seguir carreira nesse meio, e concentrou-se na mensagem que "todo desenho é uma mensagem" para explicar que todo detalhe ou traço que o desenhista faz numa página altera a percepção e assimilação dessa mensagem, tanto para facilita-lo quanto para dificulta-lo. Comentando ainda da necessidade de se compor um repertório visual rico e diversificado, indicando, inclusive, uma série de artistas que merecem ser conhecidos pelos aspirantes a ilustradores, como o artista que definiu a visão dos Estados Unidos no começo do século XX, o brilhante Norman Rockwell, o italiano Claudio Castelini e o clássico Hal Foster, Klebs conseguiu prender a atenção de todos e rendeu uma experiência bastante agradável e instrutiva de forma leve e prática.
 
O dia ainda esteve lotado em torno da apresentação dos
cosplays diversificados que estiveram presentes
 No final do dia, o humorista Fernando Caruso ainda esteve presente no evento, promovendo a premiére de sua nova série no canal de TV a cabo Multishow, "Ed Mort" (personagem este que já foi lembrado aqui no blog antes, em matéria sobre a adaptação de quadrinhos brasileiros para o cinema). Recebido de braços abertos, Caruso facilmente se tornou parte do evento, e até funcionários que estavam trabalhando no evento conversaram e tiraram fotos com ele, rendendo cenas engraçadas e interessantes.

Enfim, mais uma edição da Rio Comicon chega ao fim, mas o que ela proporcionou a todos os que puderam estar presentes, permanecerá sempre com todos. Única como só ela poderia ser, não há não destacar com entusiasmo que:

É RIO COMICON, BABY!!!

sábado, 22 de outubro de 2011

RIO COMICON, BABY!!! - ANO 2 - DIA 3

Por Gabriel Guimarães


Neste sábado, foi perceptível o fato de que muitos dos visitantes em potencial para o evento estavam envolvidos com a avaliação do Enem, que está sendo realizada neste fim de semana. A expectativa de um público nas proporções do da última edição do evento acabou sendo frustrada, mas ainda assim, houve muitas atividades estimulantes e o público, ainda que não na totalidade do que poderia chegar a ser, esteve em um número considerável na Estação Leopoldina, e, conforme o tempo foi passando e o Exame Nacional do Ensino Médio foi liberando seu contingente de participantes, a procura pelos estandes aumentou significativamente.


Os palestrantes do 1º Colóquio de Filosofia e Histórias
em Quadrinhos abordaram muitos temas interessantes do meio

Logo pela manhã, teve início o 1º Colóquio de Filosofia e Histórias em Quadrinhos, voltado para abrir um debate acadêmico e epistemológico do meio, com maior liberdade de comunicação com o público. Mediada pelo doutorando em filosofia Fábio Mourilhe, o colóquio contou com a apresentação de diversos trabalhos envolvendo as histórias em quadrinhos em muitos aspectos interessantes, desde a análise da relação entre fantasia, ficção e realidade contida nas histórias, onde foi citado exemplos como o Homem-Animal, de Grant Morrison, apresentada pelo próprio Fábio;, até o trabalho apresentado pelo doutorando Marcos Carvalho Lopes, que consistia nas influências ideológicas das histórias em quadrinhos na formação do público jovem leitor italiano no século XX, especificamente analisada através da obra "A Misteriosa Chama da Rainha Loana", de Umberto Eco, a qual é centrada num personagem que perde a sensibilidade de suas memórias, e precisa reconectar-se a estes sentimentos através da lembrança que obtêm observando o material que leu durante a juventude, entre o qual se destacam diversas obras de quadrinhos, como os que eram publicados nas revistas italianas "Corrieri dei Piccoli" e "L'Avventuroso", além de histórias como Flash Gordon, Mandrake, Fantasma e, imprecindivelmente, Mickey, também conhecido naquele país por Topolino.


Peter Kuper explicou a trajetória dos quadrinhos
underground de forma primorosa

Comparando também o conceito de ruptura construído por Bachelard para o campo da ciência, Fábio também propôs uma transição deste para um olhar histórico sobre a arte sequencial, que de tempos em tempos, em sua vasta existência, passou por períodos e trabalhos que revolucionaram o meio, e até hoje, ainda revolucionam. Uma das rupturas que foi destacada acabou ganhando bastante destaque em dois dos outros trabalhos apresentados, um sobre a questão da censura nos quadrinhos com o código de ética criado na época em que o psicólogo Frederik Wertham começou a atacar os quadrinhos, alegando estes serem instrumentos para estimular a delinquência juvenil; e outro, num depoimento pessoal e historicamente colocado pelo autor americano Peter Kuper, que descreveu o surgimento e expansão dos quadrinhos undergrounds a partir do selo de ética. Kuper destacou que, curiosamente, quando o selo de ética foi posto em prática, todas as revistas da EC comics, grande catalisadora do movimento pela censura, foram proibidas de serem distribuidas, pois continham no seu título algumas das palavras específicas que foram banidas pelo Senado norte-americano, à exceção de uma, justamente a que era mais subversiva de todas, a "MAD", que continuou a ser publicada e distribuida normalmente, ganhando até mais força pela escassez de títulos do gênero e o público já aficcionado por ele. Com isso, outros dos admiradores deste estilo acabaram por criar futuramente trabalhos ainda mais subversivos que o original, e assim foi se dando o crescimento do mercado underground de quadrinhos, ou, como ficaram conhecidos por alguns, Comix.

Na outra apresentação, realizada pelo professor universitário Luis Alencastro, o foco foi a discussão entre sonho e devaneio nos quadrinhos, mais especificamente, nas obras de Sandman, criadas pelo britânico Neil Gaiman. Traçando um panorama histórico que fora composto por obras como a "Genealogia da Moral", do alemão Friedrich Nietzsche, até outros materiais escritos por Bachelard, Bergson e Deleuze, Alencastro construiu um debate muito interessante acerca da problemática dos quadrinhos enquanto mitos modernos e da necessidade de se libertar da opressão do passado, ao qual as pessoas buscam ser fiéis, ainda que esta fidelidade possa ser a um sonho qualquer que tenham tido numa noite aleatória, para que se possa ir adiante no caminho da vida para maiores conquistas pessoais. Para quem conseguiu estar presente, foram apresentações bastante abrangentes e reflexivas, e os autores puderam encontrar um público igualmente capaz de discutir o conteúdo ali apresentado.


A exposição "DC 75 Anos" dispõe
de muitos cartazes e imagens em
tamanho ampliado que chamam a
atenção de todos

No restante do evento, o destaque ficou por conta das belíssimas exposições em homenagem ao grupo de mangá CLAMP e aos 75 anos completados pela editora DC. Dispostas em duas das plataformas da antiga estação de trêns, ambas contaram com material de qualidade inquestionável, ainda que a exposição da CLAMP pudesse ter sido melhor organizada. Passa desapercebido pela maioria que os pedaços de papéis rasgados nas pilastras da plataforma são na verdade compostos de textos em japonês, numa tentativa de aludir ao papel das estações de transporte público para a disseminação dos quadrinhos no Japão. Pela DC, a exposição constitui numa apresentação resumida do livro "DC 75 Years - The Art of Modern Mythmaking", disponível para compra no estande da Livraria da Travessa, e que conta com mais de 700 páginas sobre a história da editora (essa obra, inclusive, já foi comentada aqui no blog antes).

A japonesa Junko Mizuno
autografou para muitos leitores
O argentino Liniers foi muito
procurado pelos admiradores
de seu trabalho nas edições
do "Macanudo" 
Entre os autores presentes no dia, que atraíram muito a atenção dos visitantes presentes, estiveram novamente o roteirista Chris Claremont, cujo assédio dos seus admiradores por ele cresceu exponencialmente ao longo do dia, além dos argentinos Liniers, criador da célebre série "Macanudo", e Salvador Sans, autor da obra "Noturno", e da japonesa Junko Mizuno, autora da série "Cinderalla". Entre os autores nacionais, o destaque ficou por conta da presença da talentosa desenhista Erica Awano, que trabalhou na excelente série brasileira "Holy Avenger" e que hoje é membro dos estúdios da MSP, do quadrinista Danilo Beyruth, que esteve autografando seus livros publicados na área onde ano passado fora conhecida como plataforma dos desenhistas, e os autores das histórias em quadrinhos da "Beleléu", que estiveram disponibilizando seu material para os interessados em comprá-lo.


Autógrafo do americano Chris
Claremont em estatueta da Fênix Negra

Entre os estandes, o destaque fica na bancada destinada às figuras de ação que atraíram a atenção de todos os visitantes ao longo de toda a realização da Rio Comicon deste ano. Aproveitando a oportunidade de mostrar seu acervo, os dois responsáveis pelo estande, Márcio e Fábio, conseguiram alcançar até mesmo um público que eles não esperavam,: o dos autores. O americano Chris Claremont gostou tanto do material exposto lá, que levou uma das estatuetas que estavam expostas e ainda autografou uma edição luxuosa da Fênix Negra, fruto de sua fase nos X-men, para o dono do espaço, que ficou extremamente satisfeito.


Durante a tarde do evento, também, aconteceu uma pequena festividade com muitos atores e atrizes fantasiados de cosplay de muitos personagens do mundo dos quadrinhos, games e animações. Os mais jovens que puderam conferir esse momento também gostaram bastante pela diversidade de personagens apresentados.


Evento de cosplay que aconteceu com
alguns atores e atrizes na Estação Leopoldina
 Ainda falta um dia, mas, certamente, há muitas histórias por contar. Aguardem, pois, afinal de contas,:

É RIO COMICON, BABY!!!

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

RIO COMICON, BABY!!! - ANO 2 - DIA 2

Por Gabriel Guimarães



Claremont recebeu muito bem os fãs, após
entrevista que deu para o canal Globonews
Contando com a presença de ilustres autores de quadrinhos internacionais desde a manhã, como o roteirista Chris Claremont, célebre criador de histórias memoráveis dos X-men, e o quadrinista Peter Kuper, desenhista da tira Spy vs. Spy, publicado na revista MAD há anos, e de uma adaptação para quadrinhos do conto de Franz Kafka, "Metamorfose", o dia de hoje na Rio Comicon foi bastante positivo.

Explorando um pouco mais a disposição dos estandes e exposições, o público teve oportunidade de conferir um passeio maravilhoso pela história de vida de um dos maiores quadrinistas do hall da fama desse meio de comunicação, Will Eisner, um dos homenageados nesta edição do evento. (e que já foi homenageado aqui e aqui no blog também) Contando com uma estrutura especificamente construída para armanazenar material original produzido pelo grande nova-iorquino, o qual foi feito um plano de seguro de mais de 300 mil dólares, a exposição que conta muito da vida do autor, inclusive, com o documentário "Will Eisner: Profissão Cartunista" sendo exibido continuamente, é um dos grandes pontos do evento deste ano, e não deixa nada mesmo a desejar. Com uma maquete construída cuidadosamente de uma grande cidade na saída da exposição, onde uma estatueta do grande personagem de Eisner, o Spirit, se encontra no centro, girando em torno da metrópole característica das obras desse grande mestre, a composição de tudo ficou muito bem arranjado, contando ainda com uma pintura nesta última sala do próprio Spirit feita em um papel do mesmo material em que se vendem os pães de padaria. Por um outro lado, apesar de a estrutura da cidade montada ser excelente e, de forma surpreendente, acender suas luzes internas dentro das janelas conforme a luz do dia vai acabando na sala, o esquema para essa iluminação não parece ser tão seguro para a integridade do material e precisa de muita atenção para que não haja qualquer imprevisto neste sentido.

Imagem de Valentina, na sua exposição
Próximo dali, outra das personagens homenageadas também ganhou uma área de destaque. Trata-se de Valentina, personagem erótica criada pelo italiano Guido Crepax. O espaço designado para a amostra do material dela foi construído inteiramente dentro de seu universo, uma vez que fica exposto a uma luz violeta forte, que torna todo o ambiente algo mais sedutor e hipnotizante. Contando com material de diversas histórias dela, publicadas ao longo de muitas décadas, a exposição mostra ainda uma peça de roupa e materiais de decoração produzidos pela filha de Crepax, e cuja temática é inteiramente voltada para Valentina. Para quem puder conferir e tiver a idade necessária para tal, claro, vale bastante a pena.

Ao longo do restante da Estação Leopoldina, os estandes ainda são poucos comparado ao potencial que o local poderia comportar, e o custo elevado destes acabou provocando uma separação até certo ponto curiosa entre os autores presentes no evento. Enquanto os nomes mais conhecidos estão alocados nos estandes do corredor principal, os quadrinhos independentes ficaram com o espaço que no ano passado era conhecido como "estação dos autores", que era onde ocorriam as sessões de autógrafos com os convidados. O ambiente ficou mais arejado para se locomover, mas a divisão causou alguns desconfortos em algumas partes.

Enfim, a estrutura do evento continuou a mesma do ano passado, com a Livraria da Travessa tendo um espaço de destaque e sendo a única fonte para compra de livros, e o centro da Estação ficou ocupado por extensos murais com material produzido por dezenas de desenhistas nacionais e estrangeiros, que diga-se de passagem, estão muito bons.

Rafael Albuquerque e Danilo Beyruth durante
o debate "Conquistando a América"
O dia de hoje ainda ofereceu a oportunidade de conferir uma série de debates, como o "Conquistando as Américas", composto pelos quadrinistas Danilo Beyruth, autor da ótima história "Bando de Dois" e criador do personagem Necronauta; e Rafael Albuquerque, co-criador da série da linha Vertigo da DC "American Vampire", recentemente premiada com o prêmio Eisner (o blog chegou a comentar a indicação do trabalho de Albuquerque aqui);, sendo mediada por Ulisses Mattos. Conduzida a partir da questão da origem brasileira sendo publicada pelo mercado exterior afora, o debate abrangeu bastante o trabalho dos dois quadrinistas e suas posições sobre o "ser" brasileiro num mercado globalizado, ainda analisando a estrutura na qual o mercado de consumo de quadrinhos no Brasil se estrutura e o efeito que isso tem na produção dos autores nacionais, todo a discussão foi bastante interessante.

Analisando o efeito da internet na produção de arte sequencial (já analisadas aqui no blog antes) e as novas formas de encontrar seu público, os dois autres, que vêm obtendo cada vez mais sucesso nos últimos anos, conseguiram apresentar a importância de uma história sobre o veículo onde ela pode ser veiculada, e o quanto você poderia acrescentar em termos de oportunidade de expandir seu mercado produzindo tanto para o formato eletrônico quanto para o impresso. Beyruth, partindo da ideia de que "histórias boas são universais", defendeu que independente de onde se publique um material, seja dentro ou fora do próprio país dos autores, se ele for bom de verdade, tem plenas condições de obter sucesso, citando, inclusive, o exemplo dos westerns que se passam nos Estados Unidos que sao publicados nos fumetti italianos, ou mesmo a história "Daytripper", produzida pelos gêmeos Fabio Moon e Gabriel Bá, que primeiramente foi lançada no mercado norte-americano, arrebatando o público e rendendo grandes prêmios do circuito internacional de quadrinhos, para só então chegar ao Brasil, onde a história é ambientada.

O debate ainda contou com a presença ilustre de uma série de grandes profissionais e estudiosos do meio, como o editor Sidney Gusman, o autor Carlos Patati e o desenhista Daniel Gnattali, este último o qual está realizando uma enorme proeza de cobrir o evento da Rio Comicon no formato de quadrinhos mesmo, produzidos diariamente durante e após os acontecimentos do dia no evento, e que vale, sem dúvida, uma boa conferida.

O dia foi bastante movimentada, portanto, e para quem gosta de quadrinhos, foi um ambiente maravilhoso de conferir. Nos próximos dias, o movimento deve aumentar bastante, então é melhor se prepararem, pois:

É RIO COMICON, BABY!!!

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

RIO COMICON, BABY!!! - ANO 2 - DIA 1

Por Gabriel Guimarães



No primeiro dia da segunda edição anual da Rio Comicon, havia muita expectativa no ar, enquanto os estandes começavam a ser montados e os expositores começavam a ocupar a Estação Leopoldina uma vez mais. O dia foi bastante agradável e a tarde contou com uma temperatura, proporcionando muitos momentos de calmaria, o que não quer dizer que não tenha havido assunto para se comentar entre os leitrores de quadrinhos e os profissionais do meio.

Abrindo os portões uma hora mais tarde do que o planejado, o evento recebeu muito bem os visitantes desse primeiro dia, com oficinas e debates bastante estimulantes. Para quem foi conferir as aulas dadas pelos profissionais da Impacto Quadrinhos, foram apresentadas técnicas de colorização digital e de anatomia, enquanto para os interessados numa discussão acerca das dimensões que a arte sequencial vem tomando, foi apresentado o debate "Histórias em Quadrinhos e a Cultura Pop", que contou com a presença de quatro quadrinistas paulistanos, Mateus Acioli, Marcelo D'Salete, Rafael Moralez e Heitor Yida, sob a mediação do ex-integrante da banda Rapa, Marcelo Yuka, que abordou questões muito importantes para o estado atual dos quadrinhos enquanto meio de comunicação no Brasil.

Partindo de uma discussão sobre as influências da cidade de São Paulo sobre a geração de quadrinistas que vêm surgindo de lá nos últimos tempos, apontando o efeito da união de culturas das mais diversas num grande centro populacional e de como a urbanização afeta a criatividade, o debate transitou pelas experiências de cada um dos debatedores pelas ruas e a conscientização da existência na cidade de maior oportunidade para os mais diversos nichos de interesse de entretenimento encontrarem seus pares e formarem grupos de discussão. Para os que puderam assistir ao debate, foi muito interessante observar a divergência do conceito de identidade brasileira de quadrinizar entre os debatedores, pois, através de uma discussão aberta em que cada um expôs sua visão do próprio trabalho frente a essa questão, foi possível perceber o quanto às vezes a cultura da nossa rotina passa para as páginas produzidas de quadrinhos mesmo sem um propósito previamente estabelecido para isso. Discutindo obras como "Cachalote", "Peixe Peludo" e o material produzido por Lourenço Mutarelli, o debate foi bastante abrangente, com o intuito de identificar o momento dos quadrinhos brasileiros atuais.

Marcelo Yuka mediando a mesa sobre histórias em quadrinhos e cultura pop
Partindo das páginas impressas dos quadrinhos para suas adaptações para o cinema, discutiu-se até que ponto a influência dos demais meios de comunicação determinam muitas das histórias produzidas pelos debatedores, e como eles viam essa relação, o que rendeu algumas críticas inflamadas e comentários extremamente pertinentes sobre a diferença entre a adaptação e a transcrição literal (que, inclusive, já foi comentada aqui no blog antes). Outra questão bastante importante analisada foi a importância do desenho e do texto para uma história em quadrinhos, e que medida seria ideal entre estes para que um material obtivesse um resultado positivo enquanto narrativa. O desenhista Marcelo D'Salete, partindo de sua experiência pessoal com José Carlos Fernandes, escritor português da história em quadrinhos "A Pior Banda do Mundo", que havia lhe enviado um texto de extrema qualidade, porém, que pouco poderia ter mais valor agregado por meio de desenhos, explicou sua posição de que uma história em quadrinhos só deve ser de fato feita se os dois meios de linguagem envolvidos nessa narrativa gráfica acrescentarem algo um ao outro, e caso isso não possa acontecer, é preciso avaliar a viabilidade do projeto.

Lançamento da estreia de Guilherme de
Sousa como roteirista de quadrinhos e
Daneil Bacellar como desenhista
Terminando com uma análise do mercado editorial brasileiro de quadrinhos autorais, em ascenção nos dias atuais, e o papel desempenhado pelo padrinho dos quadrinhos nacionais, Maurício de Sousa, e seu estúdio no mercado, foi-se destacado a importância do trabalho de Maurício por alguns, enquanto todos ressaltaram que não existe nesse caso uma concorrência direta pelo público leitor, uma vez que as propostas são de cunho e teor muito diferentes.

A presença de autores como Rafael Albuquerque, Rafael Grampá, Gustavo Duarte, os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, e o roteirista americano Chris Claremont (este último que apenas caminhou pelos estandes observando a diversidade de gêneros expostos e disponibilizados), dos indepentes e talentosos Will Sideral, Daniel Esteves e Cadu Simões, e dos recém lançados Murilo Martins e a dupla Guilherme de Sousa e Daniel Bacellar, o evento teve bastante movimentação, atraindo os visitantes em diversas direções, e tem tudo para continuar animando muito a todos nos próximos dias que seguirão, afinal de contas,:

É RIO COMICON, BABY!!!

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

RIO COMICON, BABY!!! - PRELÚDIO DO SEGUNDO ANO

Por Gabriel Guimarães


Parece que foi ontem que a cidade do Rio de Janeiro abria suas portas novamente para o mundo dos quadrinhos através de um grande evento após 17 anos de escassez. Em seis dias de muita atividade e ativo contato entre o público e os profissionais da arte sequencial (que podem ser conferidos detalhadamente aqui na cobertura do blog), foram vivenciadas experiências inesquecíveis e estimulantes para todos os que estiveram presentes.

Organizado na Estação Leopoldina, que está sendo revitalizada pela Prefeitura carioca, o evento ocupou uma área imensa, com exposições em homenagem a grandes quadrinistas brasileiras e internacionais, uma galeria especial dentro de uma estrutura construída especificamente para representar o trabalho do grande quadrinista italiano Milo Manara, além de uma sala onde foram realizadas diversas oficinas com altamente qualificados desenhistas, roteiristas e ilustradores do mercado editorial brasileiro. Além, é claro, da estação dos autores, onde os grandes responsáveis pela produção de histórias memoráveis estiveram presentes, autografando seu material para um contingente cada vez mais quantitativo de leitores.

Em suma, foi um evento fantástico. Não foi à toa que ganhou o prêmio HQMix de 2010 como melhor evento de quadrinhos no Brasil naquele ano. Hoje, pouco menos de um ano depois, estamos prestes a dar início à segunda edição deste grande evento que está marcando seu nome entre os admiradores de quadrinhos, a Rio Comicon, e é chegado o momento de analisar o que isso representa para os quadrinhos no Brasil e no Rio de Janeiro.

Em novembro do ano passado, foi dado um primeiro passo, fato fundamental para que qualquer grande jornada tenha início. Isso quer dizer que o evento não foi perfeito, afinal, houveram vários problemas que os organizadores tiveram que contornar de última hora, como a questão do calor e do excesso de pessoas no primeiro fim de semana do evento, mas dentro de suas limitações e propostas, foi tudo fantástico. Novamente, repito: Para um primeiro passo.

Este ano, contando com a experiência que foi acumulada no ano passado, o evento tem tudo para crescer nos seus 4 dias de atividade, atraindo ainda mais gente e, é claro, movimentando de forma considerável todo o mercado de quadrinhos, tanto em termos de quantidades de histórias novas a serem compradas, quanto de histórias a serem protagonizadas por todos os que tiverem condições de estar presentes. O contato que o evento permite entre os leitores dos mais diversos gêneros de quadrinhos e destes com os autores que admiram é algo indescritível. Essa relação, tão calorosa e estimada, é o cerne do que a cultura dos quadrinhos representam de fato, algo em torno do qual as pessoas se confraternizarem e crescerem juntas.

O evento mostrou o quanto que ele pode construir as bases sobre as quais uma comunidade real de quadrinhos pode se estabelecer na Cidade Maravilhosa, o que é uma de suas maiores carências neste quesito para que haja maior produção da nona arte nela. Entretanto, depende de nós levarmos este primeiro contato além de apenas alguns dias presencialmente unidos. Essa união precisa sair de um galpão para ganhar mais força e ímpeto em estúdios, escritórios, editoras, e assim por diante. Ainda há muito trabalho a ser feito.


Nos próximos dias, confiram aqui a cobertura completa da segunda edição da grande Rio Comicon, que mais uma vez, promete mexer com todos os fãs de quadrinhos no país todo, afinal de contas,: 

É RIO COMICON, BABY!

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

RIO COMICON, BABY!!! - EPÍLOGO

Por Gabriel Guimarães
Hoje foi o primeiro dia depois do grande evento das histórias em quadrinhos que transformou a cidade do Rio de Janeiro num sonho tornado real. Fosse pelo entrosamento entre todos os quadrinistas e fãs, ou pelo ambiente propício para a criação encontrado nas oficinas, ou as grandes figuras e palavras que estiveram presentes nas palestras e debates, esse evento ficou marcado em todos que estiveram lá, e não será esquecido com tanta facilidade.
Os contatos e amizades que foram formados lá permanecerão, e com certeza, serão fortalecidos com o contato seja pessoal ou pelos meios eletrônicos. Eu, no caso, fiz grandes amizades. Além dos quadrinistas que já mencionei aqui no diário do evento, com quem falei um a um praticamente, também houveram muitas outras pessoas que cativaram com seu jeito confiável e amistoso. O editor Guilherme Krol, da editora Balão Editorial, por exemplo, foi um dos que me recebeu de forma cordial e amistosa no evento, e com quem eu certamente manterei amizade. O quadrinista Danilo Beyruth demonstrou ser um profissional de extrema disponibilidade para o público, e cujo relacionamento com as pessoas que estavam no evento vale uma nota aqui também.
O que estou querendo expôr aqui nesse post é isso: as amizades e laços que foram criados lá não têm que terminar simplesmente porque o evento terminou. Não. Não deixem esfriar a sensação de complitude que estar lá na Estação Leopoldina lhes deu, não esqueçam de imediato todos os sorrisos e situações incríveis que vocês viveram nessa semana. Enquanto essas memórias estiverem vivas em nós, o evento terá cumprido seu objetivo maior: ser um dos grandes eventos da arte sequencial para o público leitor no Brasil como um todo.
Ano que vem, tenho certeza, será muito mais para se contar. Mais histórias, mais amizades, mais experiências de vida. Mas nada mudará o que foi a Rio Comicon do ano de 2010: o primeiro passo.
Caminhemos juntos, em direção ao melhor. Para nós, para os quadrinhos, para o Brasil.
Obrigado pela experiência que vocês me proporcionaram, ela foi inestimável, e continuará viva em mim por toda a minha vida, não importa quanto o tempo passe.
Então, pela última vez, deixem-me dizer, que:

É RIO COMICON, BABY!!! 

domingo, 14 de novembro de 2010

RIO COMICON, BABY!!! - DIA FINAL

Por Gabriel Guimarães
É uma pena, gente, mas terminou. Porém, deixemos as despedidas para o final, pois tudo tem sua hora. Primeiro, celebremos tudo que ocorreu nesse sexto e último dia da Rio Comicon de 2010.
O público de hoje era mais limitado que o de ontem, ainda assim, haviam muitas famílias no local, que foram agraciadas por vários artistas fantasiados como personagens de games, quadrinhos e mangás para cosplay. Do clássico encanador italiano Mario aos marvelescos Homem-Aranha e Senhor Fantástico, o clíma na Estação Leopoldina hoje era de muito relaxamento, percebendo-se no ar que a calmaria em breve dominaria novamente o saguão enorme da antiga estação de trêns. Foi então que a confirmação da presença do maior ídolo dos quadrinhos brasileiros fez aumentar exponencialmente a animação dos jovens leitores, que corriam e gritavam querendo ve-lo. Claro, estou falando do excelentíssimo quadrinista Maurício de Sousa.


Os modelos fantasiados animaram muito o dia de muitas
crianças e famílias

O dia deve ter sido cansativo para esse grande mestre, que deu uma palestra em quase clíma de "fechar com chave de ouro" do evento, autografou e tirou fotos com 100 felizardos que pegaram senhas na ala dos desenhistas, e depois ainda foi participar de uma mesa final com diversos outros artistas para o encerramento oficial de tudo. Falemos da palestra. Num ambiente lotado de admiradores do seu trabalho, Maurício falou do mercado de quadrinhos, do potencial criativo do brasileiro, do papel educador das histórias em quadrinhos, um pouco do seu processo de produção no seu estúdio em São Paulo, e na revolução que ocorreu com tudo que o envolvia com a criação da "Turma da Mônica Jovem".


Maurício se preparando para a palestra

Extremamente cordial, ele incentivou os novos artistas, deu conselhos sobre como entrar no mercado da nona arte e deu quase uma aula em termos de administração de marca. Para os que o veem como uma figura meramente capitalista, desejo-lhes informar que ele está muito além disso. Ele tem uma visão muito clara do trabalho que é necessário para a produção de uma história e ele compreende na pele sim tudo o que o artista passa. A parte comercial pela qual alguns se limitam a ve-lo, na verdade, é uma questão de necessidade como qualquer outra na sociedade em que vivemos hoje, e se ele conseguiu atingir tamanho êxito nisso, deve-se única e exclusivamente à sua extrema capacidade de aproveitar as chances que surgiram à sua frente na sua jornada como quadrinista.
Mesmo respondendo a tantas perguntas, ele não deixou de enfatizar o potencial criativo do povo brasileiro, e que nós podemos sim um dia começar a exportar histórias também, e não apenas desenhistas. Não poderia concordar mais.

A apresentação de Maurício de Sousa lotou o
auditório

Para o público de "Turma da Mônica Jovem", alguns avisos foram recebidos com grande entusiasmo: em breve, surgirá também a versão jovem de outro personagem de Maurício, o caipira baseado no seu tio-avô, Chico Bento; e além disso, também surgirá em pouco tempo a série de desenhos animados da Turma, só esperando o aval de qual meio tecnológico será usado para sua produção - 3D, desenho normal ou avatar (não, não os seres azuis, mas sim a tecnologia que usa pontos de sensibilidade de movimento nas roupas de modelos, que são digitalizados para animar um desenho estático gerado no computador, semelhante ao processo que foi utilizado para fazer filmes como "O Expresso Polar" e "O Natal do Senhor Scrooge").
Para o público mais tradicional, falou-se da terceira edição do MSP 50, com título ainda não definido, que será lançado na Bienal do Livro do Rio de Janeiro do ano que vem. Além dessa novidade, falou-se de uma obra que abordará a primeira-dama dos quadrinhos nacionais, a Mônica, de uma forma especial, sem entrar em mais detalhes, apenas que será lançada no meio do ano que vem. Há muito pelo que aguardar.

Marcelo Campos e Renato Guedes, respectivamente, avalia-
ram os portfolios de muitos desenhistas na suposta
última oficina do evento



Quanto às oficinas, este derradeiro dia não as teve, mas sim uma avaliação de portfolios organizada pela equipe da Quanta Academia de Artes. Quem levou seu trabalho em histórias em quadrinhos foi avaliado pelos dois grandes desenhistas Marcelo Campos, que já trabalhou na Marvel e na DC e que é o criador do personagem "Quebra-queixo";e Renato Guedes, atualmente desenhista da DC, que já trabalhou com a adaptação da série de televisão "Smallville" para quadrinhos e com vários personagens da família Super (é dele, inclusive, o traço da edição especial que estava há relativamente pouco tempo nas bancas, "Superman Anual #1", da editora Panini). Ouvir o que duas grandes fontes do ramo como eles têm a dizer sempre auxilia em muito os que ainda estão começando, e quem esteve lá pôde comprovar isso hoje.


Bom, infelizmente, chegamos ao momento onde devemos nos despedir desse que foi um dos grandes eventos do ano na cidade do Rio de Janeiro, que entrosou de forma muito harmoniosa os admiradores do gênero da arte sequencial e os autores, tanto de editoras independentes quanto das gigantes do mercado.

Adieu, au revoir, addio, arrivederci, lebewohl, adiós, goodbye, farewell, adeus, até loguinho. A Rio Comicon de 2010 com certeza ficará eternamente marcada na memória daqueles que puderam estar lá presentes, e os contatos que lá fizemos serão mantidos por muitos e muitos anos à frente. Era disso que os quadrinhos aqui do Rio estavam precisando há muito tempo, uma chance de entrosar seus admiradores, tanto estes sejam produtores de conteúdo no seu formato ou não. Da experiência de conhecer outros, nós crescemos muito, e garanto que quem esteve lá saiu de uma forma completamente diferente da qual chegou no primeiro dia. Eu sei que eu saí. Vocês estiveram comigo lá todos os dias, e eu não os esqueci. Convido-os, bons leitores, a manterem contato comigo, para que estejamos sempre crescendo como uma equipe, com laços fortes e firmes. Quaisquer comentários, fotos, opiniões,..., que vocês tiveram do evento, me mandem. Quem sabe vocês também não vêm a conhecer seus artistas favoritos através daqui, ou, até mesmo, descobrem aqui no blog uma voz para poderem ser ouvidos por quem vocês jamais imaginaram que poderiam te ouvir?
Venha, faça parte disso tudo, seja parte da galera. Quem sabe, da próxima vez, somos mais, unidos, gritando a plenos pulmões para que o mundo inteiro possa nos ouvir que:

É RIO COMICON, BABY!!

RIO COMICON, BABY!!! - DIA 5

Por Gabriel Guimarães

Panorama da Rio Comicon no seu primeiro
fim de semana de existência, completamente lotada

No primeiro dia de fim de semana da Rio Comicon o que mais se percebeu lá foi a imensidão de pessoas para um espaço que não parecia poder comporta-las de forma apropriada. Tendo aberto as portas um pouco mais tarde hoje, deixando acumular uma quantidade considerável do público no frio vento ainda em transição da manhã para a tarde, a estação Leopoldina vislumbrou o que a esperava no decorrer da tarde ao se deparar com uma fila enorme de pessoas ainda para comprar os ingressos do evento para hoje.

Como hoje o público não se restringiu aos admiradores da nona arte em si, percebia-se que muitas pessoas que estavam lá destoavam de tudo aquilo que o evento representava. Não pensem que eu sou um crítico de "farofeiros" de fora do círculo quadrinístico, de forma alguma eu sou algo assim. Porém, convenhamos que levar um cachorro, ainda que de coleira, para dentro do evento, e entrar no estande da Livraria da Travessa, é um pouco demais não é? Lá não é uma pet shop, não é um veterinário. O cachorro era manso, a raça dele inclusive não demonstrava qualquer perigo, entretanto, o bom senso nos diz que onde há um cachorro fora do seu ambiente ideal, sempre podem ocorrer imprevistos caso o cachorro se sinta ameaçado por algo ou caso tenha certas necessidades fisiológicas fora de lugar. Não digo que isso aconteceu, pelos meus conhecimentos, não ocorreu. Mas existiu essa possibilidade, e alerto que isso deveria ser observado com mais medidas restritivas no futuro.
Voltando ao evento em si, hoje o artista Milo Manara voltou a assinar suas obras, o que criou filas absurdamente imensas de fãs ansiosos por conhece-lo. O cartunista Laerte também esteve presente, demonstrando sua total irreverência na sua própria figura enquanto esteve lá, o que tirou muitas risadas ao longo do dia, tanto de autores quanto do público.


Marcela Godoy nos dá uma aula sobre os recur-
sos estilísticos e narrativos que os quadrinhos
podem ter

Nas oficinas de hoje, um equilíbrio marcou o sábado: a primeira, de "Roteiro para histórias em quadrinhos", ensinada pela roteirista Marcela Godoy, da graphic novel "Fractal", foi bastante técnica e abrangente; e depois, a de "Ilustração Editorial" dada pelo ilustrador Weberson Santiago, que já fez de tudo um pouco no mundo dos quadrinhos e da ilustração (já foi colorista da minissérie em quadrinhos do sucesso de televisão "24 horas", responsável pelo processo de produção das tiras da "Liga dos VJs Paladinos" para a revista da MTV, além de ser ainda ilustrador de várias revistas de informação e artigos e editor das revistas "Mundo Canibal" e "Havaianas de Pau"), seguiu numa linha de suavidade e conversa aberta sobre tudo no ramo em debate e um pouco mais.

Celso Menezes, roteirista da belíssima HQ na-
cional "Jambocks!" esteve presente na ofici-
na de roteiro como observador

A oficina de Marcela Godoy foi excelente, e, em quatro horas de duração, pontuou tudo que há para se saber sobre estilo, formato e recursos disponíveis para se produzir uma história em quadrinhos. Usando de muitos exemplos práticos da cultura pop, em especial, filmes de suspense e terror, foi muito discutida a necessidade da criação de uma esfera em que o roteirista como contador de histórias precisa pôr o leitor para que a mensagem lhe seja transmitida de forma clara. Demonstrando os muitos sentidos que uma página de quadrinhos pode assumir mediante pequenas mudanças estruturais em suas ferramentas únicas, a oficina realmente abriu muito os olhos dos alunos para todo um universo de possíveis abordagens que se pode dar a uma narrativa sem nem precisar dizer uma palavra. Tamanha tarefa, todavia, não é função apenas do roteirista, que é responsável pela compreensão da história a partir de elementos textuais; e carece de um entrosamento importantíssimo deste com o desenhista, que será o responsável pela compreensão da história nos elementos gráficos que dispõe nos quadrinhos, e no formato que dá aos próprios quadrinhos em si. Apesar de cansativo pela quantidade de informação em tão pouco tempo, posso garantir que quem esteve lá não se arrependeu nem um pouco.

Weberson Santiago nos mostra como reali-
za seu processo de criação

Já a oficina de Weberson seguiu num rumo diferente, assumindo mais uma postura de conversa aberta sobre a jornada como profissional do ilustrador e uma discussão bastante informal sobre a importância de uma ideia por trás do desenho, pois um bom desenho sem ideia nada representa, enquanto um desenho simples com uma ideia brilhante torna-se uma obra de arte. A importância de se estar sempre desenhando, mesmo que à mão livre, também foi um ponto bastante ressaltado, culminando com o próprio Weberson detalhando seu processo de desenho aos espectadores que o observavam.


Enfim, este foi um dia muito proveitoso, porém muito cansativo. A quantidade de pessoas na Estação é algo bom pois demonstra o interesse das pessoas em buscar um evento da arte sequencial, mas falta estrutura física para suportar tamanha procura, isto é facilmente visto. Amanhã, infelizmente, será o último dia desse grande evento que honrou o Rio de Janeiro durante essa semana. Mas não falemos disso ainda, pois, por enquanto, pelo menos, ainda podemos dizer que:


É RIO COMICON, BABY!!!