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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Vida de Passarinho


Por Gabriel Guimarães




Foi realizado na noite desta quarta-feira, na Livraria da Travessa de Ipanema, o lançamento do terceiro volume das coletâneas de tirinhas dos personagens criados pelo autor capixaba Estevão Ribeiro. Com o título "Vida de Escritor" e um design similar ao do primeiro volume da publicação, os personagens Hector a Afonso tornam a protagonizar tirinhas com bom humor, dessa vez em histórias acerca do universo dos escritores e algumas das situações peculiares pelas quais muitos deles passam em alguns momentos ao longo de suas carreiras.


Atraindo a atenção de uma grande quantidade de pessoas que estavam na Livraria, que formaram uma considerável fila para conseguir o autógrafo de Estevão, além de reunir outros autores de quadrinhos e da literatura fantasiosa brasileira, como Carlos Ruas, Gerson Lodi-Ribeiro e Luiz Felipe Vasquez, que estiveram presentes para prestigiar o autor, o evento foi de grande sucesso. Contando ainda com a presença do editor responsável pela publicação, o paulista Guilherme Kroll (a quem já entrevistamos aqui no blog), da Balão Editorial, que recebeu a todos com bastante ânimo e entusiasmo, o lançamento proporcionou momentos extremamente agradáveis e conversas muito interessantes, dentre as quais vale destacar a origem do formato particular do primeiro e terceiro volumes das coletâneas dos "Passarinhos". Inicialmente pensado como uma forma de viabilizar a impressão do material nas máquinas de larga escala que eram utilizadas para imprimir em papel de nota fiscal, o formato acabou servindo para permitir uma economia maior nas gráficas habituadas à impressão em folha A4, vindo, apenas por final, a representar um objeto de estética atraente e fortemente convidativa para os leitores.

Uma vez que o custo com a publicação do seu material foi reduzido, Estevão permitiu à editora lançar o conteúdo de seus personagens a um preço mais acessível, atraindo, por conseguinte, uma maior gama e volume de leitores ao redor do país. A editora Balão Editorial ficou tão feliz com a receptividade da publicação, que, em breve, pretende relançar o segundo volume das coletâneas (cujo lançamento foi também coberto aqui no blog) no formato de livro-tira, segundo o próprio Estevão.

A vitrine da Livraria ganhou uma área temática especial para o evento
A noite fluiu de forma tranquila e o público da livraria foi ficando cada vez mais centralizado em torno do lançamento de Estevão, que pode receber todo o carinho dos leitores, que chegavam a trazer outras de suas publicações para conseguir sua assinatura. Todos os que estiveram presentes puderam sair satisfeitos com a nova obra adquirida e realizados com os encontros e conversas tidas.


domingo, 8 de setembro de 2013

Bienal: Onze Dias de Uma Completa Jornada

Por Gabriel Guimarães
 

No último dia da 16ª edição da Bienal do Livro na cidade do Rio de Janeiro, muitos visitantes aproveitaram para visitar os Pavilhões do Rio Centro pela primeira vez, a fim de não perder a oportunidade de conferir tudo que o evento proporcionou ao seu público neste ano. Com isso, a movimentação de pessoas foi grande, ainda que não tenha atingido o ápice dos dois sábados anteriores. Muitos autores estiveram presentes assinando suas mais recentes obras, como Laurentino Gomes no estande da editora Globo Livros, ou Thalita Rebouças no estande da editora Objetiva. Ao mesmo tempo, alguns editores se disponibilizaram para conversar com aspirantes a escritores, dando conselhos e analisando originais, como foi o caso do editor Thiago Mlaker no estande da editora Novo Conceito.
 
Outros estandes, entretanto, aproveitaram o último dia para oferecer maiores descontos para os visitantes, a fim de acabar com seus estoques remanescentes. Dentre aqueles que fizeram esse saldão final, destacaram-se a editora L&PM, que ampliou seu desconto de 20% para os professores para o público em geral, e a editora Martins Fontes, cujo estande no Pavilhão Laranja atraiu muitas pessoas, uma vez que contava com 50% de desconto em todos os seus livros, onde, inclusive, era possível encontrar títulos como os já destacados "Mafalda Completo" e "Eternauta" e o livro "A Novela Gráfica", do espanhol Santiago García, sobre a história das histórias em quadrinhos, a preços extremamente convidativos.
 
Maurício recebe um de seus muitos fãs durante
sua presença no estande da editora Girassol (foto tirada
no sábado, mas cuja sensibilidade se estende
igualmente para o domingo)
 
Enquanto isso, em outros Pavilhões que contavam com um alto fluxo de visitantes, os estandes aproveitaram para trazer alguns de seus autores para assinar seu material lançado recentemente, como foi o caso de muitas editoras com o quadrinista Maurício de Sousa e com o cartunista Ziraldo. Com um público vasto e diversificado, esses encontros entre autores e leitores ficaram marcados pelo calor humano e pelo carinho com aqueles responsáveis pela composição de obras tão admiradas por tantos.
 
No Pavilhão Laranja, ainda, o estande do Grupo 5W continuou seu processo de lançar novas obras publicadas por um de seus selos editoriais, iniciando o dia com a coletânea de tirinhas do cartunista Pacha Urbano, "As Fantásticas Traumáticas Aventuras do Filho do Freud". Com um humor sagaz e inteligente, o livro possui um teor claramente adulto, apesar da clareza de seus traços, e agrada muito aos leitores, em especial aqueles familiarizados com as tendências das teorias freudianas da psiquiatria familiar. Alcançando uma grande quantidade de visitantes, dentre os quais os ilustradores Leonardo Finnochi e Gustavo Bartolomeo, o lançamento durou um tempo considerável e rendeu bons momentos tanto para os organizadores quanto para o público.
 
Octávio autografando suas duas obras
disponíveis no estande do Grupo 5W
Pouco tempo depois de encerrar o lançamento do livro de Pacha, o Grupo 5W realizou, em parceria com a editora Draco, o lançamento do livro de ficção científica "O Rei de Todos os Mundos Possíveis", escrito pelo professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e roteirista da história em quadrinhos "Para Tudo se Acabar na Quarta-Feira" (cujo lançamento também foi coberto aqui pelo blog), Octávio Aragão. Expandindo ainda mais o seu universo de histórias multidimensionais, Aragão procura explorar mais da essência dos seus personagens criados há mais de dez anos, colocando-os diante de inimigos improváveis e aventuras inevitáveis, ou vice-versa. Vale a pena conferir.
 
O evento, portanto, carregou em si um grande grito de desejo, tanto do público leitor em ter mais contato com o universo editorial do qual é apenas parte distante na maior parte do tempo; e dos autores, em ter mais relevância para suas obras que tanto lhe custam trabalho e vigor. A Bienal do Livro é algo que se estende para mais do que apenas onze dias, mas encontra ecos e ressonâncias que a tornam pertinente até sua próxima ocorrência, dois anos depois. O cansaço e os custos, logicamente, são obstáculos e desafios a serem combatidos ferrenhamente por quem verdadeiramente quer aproveitar tudo que o evento tem a oferecer, mas as recompensas vão muito além daquilo que nossa pouca imaginação muitas vezes nos permite supor. As amizades e a qualidade literária e criativa que emanam dos Pavilhões do Rio Centro ganham vida em cada um de nós neste curto período de tempo de quase uma semana e meia, dando-nos um pouco do gás e da esperança de que nossa leitura e vigilância constante e nossa cultura particular e social não são elementos de pouco significado. Aos organizadores da Bienal, fica a satisfação de mais um evento concluído. Talvez não perfeito em tudo que poderia ser, mas com muita realização dos momentos que pôde proporcionar, tanto para os visitantes quanto para os funcionários dos estandes. Obrigado a todos pela atenção e pelo carinho nestes dias todos. Que não sejam precisos dois outros anos para que todos nos vejamos de novo. Enquanto isso, em 2015 tem mais! 

 

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Entrevista: Flávio Teixeira de Jesus

Por Gabriel Guimarães


Ao longo de mais de 23 anos, o roteirista Flávio Teixeira de Jesus tem desempenhado um papel de grande destaque no cenário brasileiro de histórias em quadrinhos. Responsável por uma grande quantidade de estórias publicadas nas revistas produzidas pelos estúdios MSP, desde aquelas da turma da Mônica até as peripécias do jovial Rolo ou as aventuras do fantasma Penadinho, Flávio tem ajudado a preencher sonhos e brincadeiras de leitores brasileiros de todas as idades.
 
Com um bom humor que é marca registrada de sua personalidade, Flávio inaugurou em 2011 seu próprio blog, o Aquarium Nerd, onde contou algumas de suas experiências na indústria de quadrinhos, com direito a fotos dos bastidores da construção do primeiro Parque da Mônica, em São Paulo. Mais presente nas redes sociais como Facebook e Twitter, porém, ele se tornou figura ilustre e sempre presente na timeline daqueles que acompanham as novidades da arte sequencial, com informações recém saídas na mídia e montagens de grande poder humorístico. A quem tiver interesse em segui-lo nestas duas redes, seu perfil pode ser acessado aqui e aqui, respectivamente.

QUADRINHOS PRA QUEM GOSTA - Qual foi seu primeiro contato com as histórias em quadrinhos? Qual o papel que elas tiveram na sua formação?

 
Flávio Teixeira de Jesus - Acredito que o meu primeiro contato com quadrinhos foi realmente com a própria Turma da Mônica, no jornal "Folhinha de São Paulo". Ali, eu via as historinhas dos personagens de Maurício e aquilo foi me instigando até o ponto de começar a pedir cadernos de desenho pros meus pais. Uma vez em mãos, eu não conseguia parar mais de desenhar, criar histórias. Eu digo que toda criança desenha mas, em algum ponto da sua vida, muitas acabam parando, se interessando por outras coisas. Quem não para, começa a desenhar em papel de pão, na parte de trás dos blocos de nota fiscal do pai, entre muitas outras possibilidades. Ou seja, ainda que isso não seja necessariamente determinante, acaba proporcionando grandes chances de a criança vir a se tornar artista de quadrinhos no futuro. (risos)
 
A Folhinha de São Paulo me instigou tanto na minha formação que, em 1975, quando ainda tinha 7 anos de idade (curiosamente a idade dos personagens que tanto me fascinava, olha só), resolvi fazer um desenho pra uma sessão chamada "FUTURO ARTISTA". Era uma historinha de 4 quadrinhos de um personagem meu, chamado Pirata Azarado. Mal sabia eu que, 15 anos depois, eu seria um artista da turma da Mônica.
 
Você lembra em que momento da sua vida você tomou a decisão de ser roteirista de quadrinhos e o que o levou a isso? Se sim, qual foi?

Na verdade, eu sempre quis ser desenhista, mas sempre usei minha criatividade criando histórias, personagens, jogos... Só não sabia que existia uma profissão específica para essa etapa de criação, chamada "roteirista". Eu comecei trabalhando com desenhos de estampas pra camisetas, depois fui para um grande estúdio de animação, fazendo clean-up e storyboard. Até então, não trabalhei em nada relativo aos roteiros. Com o Plano Collor, entretanto, fui mandado embora do emprego que tinha na época, e um grande amigo meu, Marcos Félix, me indicou para ir fazer um teste na Mauricio de Sousa Produções, pois achava que eu tinha bastante criatividade e lá seria o melhor lugar para mim. Segui o seu conselho, mas tentei a área de animação do MSP. O Kanton, outro profissional que trabalhava lá, viu meu material e falou que eu devia tentar me candidatar para o setor de roteiro. E assim eu fiz. Preparei várias páginas e um dia o Mauricio em pessoa me chamou e lançou o desafio de fazer 60 paginas aprovadas por mês. Eu topei e, conforme mais eu ia criando, mais feliz ficava, pois tinha encontrado meu propósito. Era isso que eu queria desde o começo, mas não sabia o nome: Roteiro. Eu me encontrei na profissão e me sinto, hoje, um grande privilegiado.
 
Quando tomou essa decisão profissional, encontrou alguma resistência (familiar, dos amigos, de uma namorada, de si mesmo...)?
 
Na verdade não. Meus pais sempre foram um grande suporte pra mim, aliás, toda minha família sempre me incentivou (e ainda incentiva, comemora junto e torce por mim), o que é muito bom, revigorante, maravilhoso e essencial.
 
Você trabalha há mais de vinte anos no estúdio de quadrinhos mais prestigiado do país. Como você se sente fazendo parte disso tudo? Como é o seu cotidiano lá?
 
Fazendo parte dessa grande história, eu me sinto extremamente honrado e muito feliz por contribuir um pouco com ela. Eu me sinto muito realizado em poder fazer algo que amo e sou muito dedicado no que eu faço. Essas emoções passam para o meu trabalho e acho que passam para o público também! Esse retorno que tenho com os fãs da turma da Mônica não tem preço e só me faz ter a certeza de que estou no caminho certo. Tudo isso só me dá forças pra melhorar cada vez mais e mais!
Quanto ao meu cotidiano, ele é composto de muita pesquisa antes de começar um roteiro. Se é de uma paródia de um filme ou um livro, tenho que ler, rever, fazer anotações. Depois, sento e começo a ver como aquilo se encaixa no universo da Mônica com os cuidados que devo ter. Então, vem a parte gostosa de escrever, soltar a imaginação, procurar referências nerds (que quase sempre ponho em minhas histórias) e, uma vez concluída essa etapa, com tudo preparado com início, meio e fim, tem início a revisão, que passa a limpo o material. Admito que, com essa revisão, acaba surgindo novas mudanças, em função de novas ideias, o que gera uma nova revisão e assim por diante. (risos) Daí, quando tudo acaba, vai para a mesa do Mauricio e, quando aprovada, começa meu desafio com os desenhistas e o resto da galera, porque sou exigente com o material. Assumo que sou chato com relação ao meu trabalho, para que tudo saia o mais perfeito possível.
 
Você é sempre reconhecido por sua vasta bagagem de cultura popular, que você constantemente transmite para suas histórias. De onde veio essa sua característica particular?
 
Isso é bastante interessante. Veio com o tempo, acho. Eu sempre curti essa coisa de cultura nerd. Com o tempo, fui colocando mais nas histórias que escrevia. A saga da "Tina e os Caçadores de Enigma", tinha bastante disso e o legal é que, no fim das revistas, vinham algumas explicações de onde estavam essas referências. Hoje, coloco muito em algumas historias da série "Clássicos do Cinema" e os leitores atentos já identificam. Até aqueles que não conhecem, acabam ficando instigados a procurar mais sobre aquilo na internet, o que é maravilhoso.
 
Há algum personagem específico com o qual você prefira trabalhar?

Complicado isso! Eu sempre digo que, se o Mauricio é o Pai, eu sou um padrinho zeloso de todos! Começaram até a  brincar aqui no MSP, me chamando de Poderoso Padrinhão (risos). Mas o fato é que tenho bastante carinho pelo quarteto extraordinário (Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali) e um especial também pela Dona Morte (minha primeira historia que saiu foi com ela). Por isso, fica a dica para prestar uma atenção especial nela, que sempre que posso eu a coloco fazendo uma participação especial. Ultimamente, tenho brincado muito também com o Louco, o Xaveco e o Bugu .


Quadrinho da história produzida por Flávio para o álbum
"Ouro da Casa MSP", publicado ano passado
Você já se tornou parte do universo de personagens do MSP como primo do Rolo há vários anos. Como é a experiência de ser imortalizado nas páginas da turma da Mônica?

Nossa, deu até um frio na espinha quando você falou "imortalizado". Eu nunca pensei assim, aliás, nem achava que as pessoas lembravam do primo Flavio que o Rolo tinha. Aquilo foi uma brincadeira do Robson (um dos mais antigos roteiristas da casa) e que rendeu algumas historias. Eu mesmo fiz uma comigo mesmo, o que é estranho! (risos) Esse tipo de brincadeira é comum por aqui. O João, outro roteirista dos estúdios, me transformou num Pokémon certa vez, e até eu mesmo já me fiz numa versão cachorro. Na verdade, nós, roteiristas, quando não aparecemos assim, acabamos até fazendo uma ponta como nós mesmos. Fico realmente feliz de fazer parte deste universo tanto do lado de fora quanto de dentro da revista. É uma honra. 
 
 
Você esteve bastante ligado ao projeto do Parque da Mônica, certo? Como foi isso? Que papel você desempenhou nessa grande etapa da consolidação da marca Mônica dentro do Brasil?
 
Sim, fiz parte do time criativo que criou os parques de São Paulo, Curitiba e Rio de Janeiro. Fui chamado com o Robson para criarmos juntos com Mauricio e Alice o conceito do Parque da Mônica. Eram varias reuniões desenvolvendo as áreas temáticas de acordo com os personagens e as limitações técnicas que eram impostas pelos engenheiros. Íamos visitar os estúdios que faziam os moldes do carrossel e dar consultoria técnica. Foi uma época agitada e bem divertida. Aquilo depois se estendeu e se desdobrou com as revistas, as peças temáticas, além de shows e desenvolvimento de cartazes e produtos relacionados. Foi uma experiência magnífica e um grande aprendizado.
 
Você é um ferrenho usuário das redes sociais para interagir com seus fãs. Como você vê a internet e as redes sociais na nova estrutura editorial das HQs? A sua experiência nesse sentido tem sido positiva?

A interação com os fãs é sempre maravilhosa e podemos ver o que funciona e o que precisa ser corrigido, ou até mesmo mudado. A internet é uma ferramenta poderosa. Acho o contato com a internet sempre benéfico, desde que se saiba utilizá-lo. É uma questão de saber usufruir sem se tornar escravo dela. A internet é como uma ótima biblioteca de referência, de conhecimento e de debates. É preciso ter discernimento, cautela e respeito. Editorialmente, é muito boa também, pois você sente o público e o mercado com que você está lidando, além de saber o que acontece em outros mercados do planeta e o que pode ser tendência. Como disse, é uma ferramenta poderosa: basta saber usá-la e usufruir com respeito.
 
Para finalizar, quais são os planos do estúdio MSP para homenagear a Mônica neste ano em que ela completa 50 anos? Há algum projeto em desenvolvimento que você possa compartilhar conosco?

Este ano será o ano da Mônica. Já estamos desenvolvendo isso há algum tempo com várias ações que acontecerão ao longo do ano. Nunca foi feito um planejamento assim neste nível antes na empresa, por ser algo grandioso mesmo. Projetos? Sim, temos vários, mas, como você sabe, não posso falar nada ou me arrisco a levar uma coelhada, entende? (risos)

domingo, 30 de dezembro de 2012

Recomendações e Conclusões de 2012

Por Gabriel Guimarães


Ainda que nossas atividades do blog tenham sido restringidas ao longo deste final de ano por questões técnicas e de cronograma, a publicação de histórias em quadrinhos continuou em ritmo acelerado, tal qual acontecera no resto do ano todo. A fim de apresentar obras que se destacaram e que talvez vocês, leitores, talvez não tenham tomado conhecimento, selecionamos uma lista de edições publicadas neste ano de 2012 que mereceram nossa recomendação. Para evitar uma ordem de valorização entre as obras que compõem  nossa lista, não a organizamos numa estrutura de qualidade, mas de uma forma que ela possa ser compreendida por todos de acordo com seu potencial de interesse. Para aproveitar nossa retrospectiva das publicações em quadrinhos de 2012, optamos por acrescentar os comentários sobre o que este ano representou para o meio em si e para nossa realidade brasileira, em particular, a carioca.

O ano começou bastante promissor para a arte sequencial, com a publicação da graphic novel iraniana "Paraíso de Zahra", produzida pela dupla Amir e Khalil, acerca do desaparecimento do irmão do jovem protagonista durante os movimentos estudantis contra as decisões do governo do Irã. De teor dramático e qualidade narrativa precisa, a história emociona e denuncia as barbaridades que muitas pessoas inocentes vivem em meio aos jogos de guerra travados pelos governantes e suas ferramentas sociais. De igual característica expositiva, a história americana "The Silence of Our Friends", do trio Mark Long, Jim Demonakos e Nate Powell, foi lançada no mercado americano, retratando o duro período da batalha pelos direitos civis dos cidadãos afro-descendentes numa comunidade do Texas, nos Estados Unidos. Com relação à primeira publicação citada, vale destacar a triste confirmação do cancelamento do selo editorial Barba Negra, por falta de interesse da editora Leya em manter parceria. Durante seus três anos de funcionamento, o selo dirigido pelo editor Lobo foi de grande importância para a expansão da nova geração de quadrinistas nacionais, sendo responsável por muitos títulos brasileiros, além de outros tantos de qualidade inquestionável provenientes dos mais diversos países.

Na contramão desse triste desinteresse por parte da editora Leya, outras editoras continuaram e até expandiram sua participação no cenário brasileiro de histórias em quadrinhos. É impossível deixar de mencionar as editoras Nemo e L&PM neste caso. A primeira continuou publicando a "Coleção Moebius", com títulos bastante aguardados pelos fãs do artista francês Jean Giroud, que faleceu este ano (fato este que foi comentado aqui no blog), além de expandir o universo do marinheiro Corto Maltese, criado pelo italiano Hugo Pratt, com volumes que até então não haviam sido publicados nas terras tupiniquins, e organizar o material do francês Enki Bilal, com a "Trilogia Nikopol". A produção de clássicos da literatura com a mão de artistas nacionais, como "20.000 Léguas Submarinas", adaptada por João Marcos e Will, também esteve em alta no ano e tornou a editora parte do grupo Autêntica uma das mais atuantes ao longo do ano. A L&PM, que teve sua origem na publicação de tirinhas, foi outra editora que também ganhou muito destaque em 2012, com as duas edições de "Simon's Cat" feitas por Simon Toefeld e publicadas no segundo semestre deste ano, cuja temática tem claras influências no felino protagonista de Jim Davies, Garfield; além do segundo volume da HQ marfinense "Aya de Yopougon", de Marguerite Abouet e Clément Oubrerie, que dá continuidade à história iniciada em 2009 sobre um trio de mulheres africanas e seu cotidiano; e continuou com o excelente trabalho realizado em parceria com a UNICEF para a adaptação de clássicos da literatura como "Mil e Uma Noites", "Guerra e Paz" e "Os Miseráveis" para a nona arte.

Editoras como a GAL e a Companhia das Letras também continuaram com um alto número de publicações de qualidade. A primeira publicou a conclusão da série "Fracasso de Público", de Alex Robinson, que conta a história de aspirantes e profissionais dos quadrinhos e suas jornadas diárias de trabalho e amadurecimento, além de começar a republicar a obra "Love Rockets", de Jaime Hernandez, que fez muito sucesso na década de 1980, e a primeira parte da história "Nação Fora da Lei", de Jamie Delano, Goran Sudzuka e Goran Parlov. O selo de quadrinhos da segunda, a Quadrinhos na Cia., também manteve a diversidade em sua produção, indo desde a esperada segunda graphic novel do americano Craig Thompson, centrada no mundo cultural dos muçulmanos, "Habibi", até a nacional "Máquina de Goldberg", de Fido Nesti e Vanessa Barbara, passando pela elogiadíssima compilação da obra "Diomedes", do brasileiro Lourenço Mutarelli, a biografia em quadrinhos do psicólogo austríaco Sigmund Freud, entitulada apenas "FREUD", da dupla francesa Anne Simon e Corinne Maier e a belíssimamente trabalhada história "Monstros", do chargista Gustavo Duarte.

Apesar de tantas obras terem sido lançadas por estas duas editoras, a Panini, porém, talvez tenha sido a editora responsável pelo maior número de quadrinhos publicados este ano. Responsável pelas histórias da Marvel e da DC, este ano foi um ano de suma importância para a realidade da editora no Brasil. Repetindo o que foi feito nos Estados Unidos quando ocorreu o reboot do universo da DC, ocorreu a zeragem dos títulos publicados aqui, além da mudança na lista de edições disponíveis. No selo Vertigo da editora americana para quadrinhos adultos, a Panini lançou a história de mistério, ficção e questionamento existencialista "O Inescrito", que vale a pena ser conferido, além da republicação dos, então esgotados, primeiros volumes da premiada história "Fábulas", de Bill Willingham, que permanece em alta com o público e a crítica. Para a Casa das Ideias, a editora relançou de forma completa em seis volumes uma das mais populares sagas dos heróis mutantes desse universo em "X-men: Era do Apocalipse", além de ter publicado o segundo arco da saga de futuro alternativo para todos os personagens da editora, "Universo X", de Jim Krueger, Doug Braithwaite e Alex Ross, cuja primeira parte havia sido lançada ainda em 2009. Outra saga que a Panini deu continuidade este ano foi com o maior grupo de heróis do versão Ultimate do universo Marvel, com "Os Supremos 2", de Mark Millar e Brian Hitch, que, apesar de não terem o mesmo nível de aproveitamento da primeira saga dos personagens, em termos de conteúdo, ainda apresentam uma boa narrativa, em sintonia com o filme dos Vingadores lançado no cinema em abril deste ano.

A Panini, entretanto, não se limitou apenas aos lançamentos internacionais, sendo a responsável pela publicação de títulos como o "Ouro da Casa MSP", coletânea no estilo da trilogia MSP organizada pelo editor paulista Sidney Gusman com artistas brasileiros utilizando os personagens do padrinho dos quadrinhos brasileiros, Maurício de Sousa (que já foi comentada aqui no blog), o que também inspirou a  série "Graphic MSP", iniciada este ano com "Astronauta: Magnetar", feita pelo desenhista Danilo Beyruth. Dentro da série da "Turma da Mônica Jovem", a Panini ainda publicou duas sagas que chamaram a atenção de leitores e admiradores dos quadrinhos em todo o país. No primeiro semestre, aconteceu o tão aguardado crossover entre os personagens da turma da Mônica e os protagonistas das aventuras do universo do quadrinista japonês Osamu Tezuka. Ambientada na selva amazônica, a história promoveu a importância da ecologia e permitiu, de vez, unir o trabalho de dois valiosos quadrinistas que foram grandes mestres para o meio e grandes amigos entre si (esse marco foi comentado aqui no blog). Em outubro, foi a vez de outro evento aguardado ganhar as páginas, com uma visão do futuro sobre o casamento da Mônica e do Cebolinha (cujo evento de lançamento no Rio de Janeiro foi coberto aqui no blog).

A editora Devir foi outra a participar do ano dos quadrinhos, lançando "The Spirit - Mais Aventuras", segundo volume em homenagem a um dos pioneiros da arte sequencial, o americano Will Eisner, o segundo volume da série brasileira produzida em parceria com o ProAC, "Jambocks! 2", de Celso Menezes e Felipe Massafera, sobre a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial, a conclusão das histórias dos personagens literários reunidos por Alan Moore e Kevin O'Neill, em "Liga Extraordinária 2009", além do livro "Revolução do Gibi", que apresenta em forma impressa uma grande quantidade de postagens do Blog dos Quadrinhos, organizado pelo professor de Letras na USP, Paulo Ramos.

Adaptação da Bíblia para história em quadrinhos

"20th Century Boys", de Naoki Urasawa,
começou a ser publicado em 2012



Outros títulos que merecem destaque são "Mas Ainda Podemos Continuar Amigos", do alemão Mawil, publicado pela editora Zarabatana, sobre os percalços do autor na procura por um relacionamento amoroso; "Valente para Todas", segunda coletânea de tiras do talentoso desenhista mineiro Vitor Cafaggi (que já foi tema de matéria aqui), publicada de forma independente; A  edição de luxo com histórias clássicas do bárbaro mais famoso dos quadrinhos, "Conan, O Libertador - Edição Histórica", pela editora Mythos; O polêmico livro de análise do universo dos super-heróis sob a ótica mitológica, escrito pelo roteirista Grant Morrison, "Superdeuses", pela editora Seoman; A visceral ficção com referências ao escritor chinês Sin Tzu e sua principal obra, "A Arte da Guerra", feita pela dupla de primeira viagem Kelly Roman e Michael DeWeese (para o qual, realizamos um review para o site Universo HQ, que pode ser conferido aqui), publicada pela editora BestSeller, parte do grupo Record; A adaptação do livro que deu origem ao cristianismo, feita de forma atenta e cuidadosamente bela pelo brasileiro Sergio Carielo, "Bíblia em Ação - A História da Salvação do Mundo", de mais de 300 páginas, publicadas pela editora Geographica; A nova série de mangá "20th Century Boys", de Naoki Urazawa, publicado pela já destacada editora Panini, sobre uma conspiração de dominação do mundo que tem origem na infância dos protagonistas da história, que já chegou até a virar filme no Japão; "Face Oculta", do italiano Gianfranco Manfredi e do desenhista já citado Goran Parlov, publicado também pela Panini, cujo enredo se desenrola nas colônias italianas do Século XIX; O livro de homenagem à exposição realizada em 1951 com a indústria de quadrinhos como tema, "A Reinvenção dos Quadrinhos - Quando o Gibi Passou de Réu a Herói", escrito e vivido por Alvaro de Moya, publicado pela editora Criativo; E a primeira graphic novel produzida pelo site Jovem Nerd de forma autoral, "Independência ou Mortos", com uma visão diferente do momento de independência do Brasil soba ótica da cultura de terror dos filmes de mortos-vivos, feita por Fábio Yabu e Harald Stricker.

"Independência ou Mortos", de Fábio Yabu e Harald Stricker
Fora do Brasil, também foram lançados materiais que merecem destaque, tais como a edição de luxo em homenagem a um dos pioneiros do quadrinho underground, "The Art of Harvey Kurtzman", escrito por Denis Kitchen e Paul Buhle e publicado pela editora Harry N. Abrams, Inc.; A biografia do matemático Richard Feynman, feita em quadrinhos pela dupla Jim Ottaviani e Leland Myrick sob o título simples de "Feynman"; E o mais recente trabalho do americano Joe Sacco, "Journalism", que é composto de uma série de pequenas histórias de coberturas jornalísticas realizadas pelo autor ao redor do mundo todo. Estes dois últimos foram publicados pelas editoras First Second e Metropolitan Books, respectivamente.

Não propriamente contando como publicações novas, dois títulos acabaram ganhando destaque por uma razão diferente. A editora HQM decidiu lançar a partir deste ano as edições avulsas de "The Walking Dead" de regularidade mensal, além de manter sua tradicional publicação no formato graphic novel, a fim de explorar todos os nichos de mercado que estão sendo afetados pela alta popularidade da versão televisiva do quadrinho feito pelo americano Robert Kirkman. Enquanto isso, a editora Europa deu uma grande notícia para os fãs de quadrinhos, ao tornar sua revista "Mundo dos Super-Heróis" uma publicação mensal, suprindo, dessa forma, a crescente demanda que o mercado vem apresentando.

Em suma, o ano de 2012 teve uma quantidade realmente incrível de publicações valiosas apresentadas em forma de arte sequencial ou sobre esta, e nós, leitores, ganhamos muito com isso. Ganhamos histórias de vida, modelos de comportamento, qualidade de conteúdo para divulgarmos e novos meios pelo qual interagirmos recorrendo às nossas mais intrínsecas emoções. 2012, todavia, não foi perfeito. Perdemos grandes nomes que marcaram nossas vidas com seus trabalhos, como Joe Kubert (fato que foi comentada aqui no blog), Keiji Nakazawa e até o já citado Moebius. A organização do maior evento internacional de quadrinhos do Rio de Janeiro encontrou problemas para formar parcerias e deixou de ser realizado após dois anos de sua abertura. As histórias em quadrinhos brasileiras perderam uma grande marca que vinha se consolidando, o selo editorial Barba Negra, conforme já foi destacado no começo desta matéria.

Não nos concentremos, porém, nos pesares, mas inspiremos o máximo possível dos bons momentos deste ano que finda amanhã. Que os relacionamentos criados através dos quadrinhos possam se fortalecer, criando laços de amizade e cordialidade para durarem eternamente. Que possamos nos reunir no próximo ano para continuar nossas discussões sobre este meio que tanto nos apaixona e nos seduz, e no ano seguinte a esse, e no ano seguinte a esse, e assim por diante. Que vejamos esta arte crescer e assumir seu posto de direito dentro da cultura popular e erudita. Que possamos todos, afinal, ter um 2013 pleno de emoções e de quadrinhos, regados a muitas amizades fortalecidas e outras novas. Nos vemos lá!

terça-feira, 10 de julho de 2012

Macanudismo

Por Gabriel Guimarães


Desde segunda-feira, dia 9 de julho, foi iniciada na Caixa Cultural, no centro da cidade do Rio de Janeiro, a exposição "Macanudismo". Organizada em torno da obra do quadrinista argentino Ricardo Liniers Siri, a exposição possui cerca de 600 obras do artista, concentrando-se no seu título "Macanudo", que já teve cinco volumes publicados aqui no Brasil pela editora Zarabatana Books, mas que, na Argentina, está prestes a alcançar a nona edição no final deste mês. A partir do sexto volume, curiosamente, foi que Liniers mudou de editora em seu país natal, passando a ser publicado pela editora Editorial Comum, que hoje é responsável pela produção de todo seu material, sem limitar-se ao principal título do autor.

Liniers
Organizado pela curadora Bebel Abreu, que apresentou o primeiro dia do evento aos que estavam presentes no seu lançamento, o Centro Cultural da Caixa Econômica Federal recebeu a visita do homenageado ilustre, que permanecerá na cidade até amanhã, quando realizará uma oficina de produção de tirinhas a alguns poucos visitantes, que foram sorteados de forma online hoje à tarde. Liniers esteve autografando seu material e realizando o lançamento do seu último livro publicado, por enquanto, aqui nas terras brasileiras, "Macanudo 5". Com ar simpático e de bastante descontração, o clíma do evento de abertura foi bastante agradável, contando, inclusive, com uma banda formada por dois músicos de Buenos Aires, aos quais o próprio Liniers acompanhou, tocando gaita, em determinado momento. Infelizmente, apenas 100 pessoas puderam conferir o evento inaugural, em virtude da limitação da capacidade da brigada de incêndio do local, por medida de precaução. Neste primeiro dia de evento, também esteve presente um estande de vendas de materiais com obras de Liniers, como cadernos, postais, entre outros, com arte do argentino. Não se sabe, porém, se este estande permanecerá nos demais dias do evento.

Na exposição em si, será possível conferir o material dos cinco primeiros volumes de seu "Macanudo" na versão original, em espanhol, além de observar projetos feitos a partir dos desenhos de Liniers e de vídeos do próprio artista, culminando com a exibição do documentário argentino "Liniers - El Trazo Simple de las Cosas", produzido pela diretora argentina Franca Gonzalez, que acompanhou o quadrinista em suas viagens para o Canadá e dentro do próprio país de origem dos dois. A exibição desta peça, entretanto, será feita de forma paga (R$ 2,00 a inteira e R$ 1,00 a meia-entrada) e limitada, ocorrendo apenas no dia 6 de setembro. Não deixem de marcar no calendário e garantir sua entrada.

Tendo uma ampla margem de funcionamento, a exposição está aberta ao público das 10h da manhã até as 21h da noite, dando vazão aos muitos visitantes interessados e permitindo a quem estiver presente uma boa oportunidade de saborear com calma o trabalho desse grande nome dos quadrinhos mundiais atualmente.

Liniers destacou que não acreditava que fosse organizar um evento dessas proporções no Rio de Janeiro, apesar de já ter estado na cidade para a edição do ano passado da Rio Comicon (sua participação no evento pode ser conferida aqui), mas que estava extremamente feliz por estar presente a ponto de afirmar, em meio a tão bom ambiente, que "estava até inventando coisas para fazer aqui".

Tirinha metalinguística produzida por Liniers

A programação completa do evento pode ser conferida no site designado especificamente para ele, que pode ser acessado aqui, e para tirar qualquer dúvida sobre os detalhes da programação, há a página dos organizadores no twitter, que pode ser conferida aqui. O próprio site oficial da Rio Comicon também deu destaque ao evento, em matéria que pode ser conferida aqui.

A exposição ficará em cartaz no Rio de Janeiro até o dia 9 de setembro, na Galeria 2 da Caixa Cultural, no segundo andar, tendo várias artes originais dos álbuns de Liniers e de suas obras à aquarela para serem observadas pelos visitantes. Após trazer este evento para o cenário carioca, que primeiramente fora organizado no Centro Cultural da Recoleta, em Buenos Aires, Liniers seguirá no Brasil, para visitar e participar de evento na Caixa Cultural de Recife, no estado de Pernambuco, portanto, vale a pena a todos os que podem conferir, fazê-lo.

domingo, 15 de abril de 2012

Dia Mundial do Desenhista

Por Gabriel Guimarães



Certa vez, o poeta americano Robert Penn Warren afirmou que "os homens vivem pelas imagens. Elas se oferecem a nós das paredes do mundo e do tempo". Observando a cultura pré-histórica e os estudos arqueológicos dos últimos séculos, a declaração de Warren tem uma grande correlação com a realidade. Através do tempo, o uso de imagens como forma de expressão e consumo cultural e/ou material foi uma das atividades mais realizadas pelo homem, como se o ato de explicar por traços que simbolizam a realidade estivesse sempre dentro da essência de nossa própria humanidade.

Pinturas rupestres das cavernas onde
os primeiros homens habitaram
A relação dessa natureza fundamental do 'narrar' por imagens pode ser muito bem estudada nos livros de história antiga, e sua ligação com a arte sequencial das histórias em quadrinhos corriqueiramente lidas não tardou muito em aparecer. Através de estudos de grandes quadrinistas como Will Eisner e Scott McCloud, majoritariamente, é fácil perceber as nuances entre a primeira forma usada para comunicação efetiva na história da humanidade e o meio de comunicação de massa assumido em 1895 no jornal "New York World", sob a autoria do americano Richard Outcault, apesar de haverem alguns precursores muito interessantes que merecem destaque, como o sueco Rodolphe Töpffer, o alemão Wilhelm Busch e o ítalo-brasileiro Ângelo Agostini.

Imagem da Times Square, área mundialmente
conhecida de Nova York por seus banners
O desenho está na área mais profunda de nossa essência, pois nada mais o alfabeto é que imagens desenhadas para representar sons, e sem a língua escrita, jamais poderíamos construir uma sociedade e manter relações entre indivíduos diferentes. Tal afirmação pode soar como uma extrapolação do sentido de desenhar, mas creio que serve devidamente para enfatizar a ordem de importância do desenho na realidade. Num mundo onde hoje a comunicação visual se expandiu para todos os lados, muitas vezes provocando até uma poluição mental e dificuldade de concentração, o desenho nunca esteve tão presente e a comunicação através de imagens nunca foi tão comum e fundamental como é agora. Ziraldo afirmou, em uma entrevista dada há alguns anos, que "as histórias em quadrinhos tem o ritmo que o Século XXI exige", oferecendo assim ao leitor uma forma de adquirir novos conhecimentos e dominar novos conteúdos de forma a ter uma assimilação mais rápida e de fácil identificação.

Neste dia 15 de abril, então, nós, do blog Quadrinhos Pra Quem Gosta, gostaríamos de parabenizar todos os muitos e dedicados profissionais da arte do desenho, seja para fins narrativos ou mesmo meramente expressivos, pelo dia mundial do desenhista. A arte com a qual cada um de vocês preencheu nossas vidas tornou tudo em nós mais belo e gerou por si só dimensões de significado que muitas vezes não foram sequer imaginadas por seus autores. A vida construída a partir da arte nunca é fácil, a batalha pelo reconhecimento e valorização é árdua e duradoura, precisando muitas vezes ser travada continuamente, rompendo barreiras e conceitos previamente estabelecidos. Porém, foi nessa área que grandes homens imortalizaram seu legado para nossa espécie. Desde a pintura renascentista até a atual arte narrativa dos comerciais, o desenho foi uma grande ferramenta de mudança. Paradigmas, conceitos e até governos ruíram ou se erigiram a partir das imagens, e assim continuarão, enquanto durar nossa existência.

Vitor Cafaggi em destaque, autografando
edição de "Pequenos Heróis" na Rio Comicon 2010
Nos quadrinhos, grandes nomes ficaram marcados na história do gênero por suas contribuições. O próprio Eisner, que realizou alguns dos principais estudos acerca do cerne no qual a arte sequencial se baseia (termo, inclusive, o qual ele teve total autoria), é um forte exemplo disso, além de muitos outros mestres do traço, como os hábeis John Buscema e Jack Kirby, o despretensioso porém marcante Bill Waterson, os desinibidos Milo Manara e Guido Crepax, o imaginativo Jean Giraud (que já foi tema de matéria aqui no blog antes), o eficiente Milton Caniff, o realista Alex Ross, ou mesmo no campo brasileiro, no traço cheio de narrativas em sua estrutura do paraibano Mike Deodato Jr, a pureza do mineiro Vitor Cafaggi, o sensível e romântico paulistano Mário Cau, o peculiar e absorto carioca Lourenço Mutarelli, e os poéticos e gênios gêmeos, também de São Paulo, Fábio Moon e Gabriel Bá, entre tantos outros, sem contar o grande padrinho dos quadrinhos nacionais, que foi tema citado na última matéria do blog, o paulistano Maurício de Sousa.

Mário Cau, em frente a uma de suas histórias, cuja
narração é feita de forma linear porém dando liberdade
ao espectador de construir sua própria compreensão da obra

A todos os grandes companheiros de quadrinhos, deixo as mais sinceras congratulações e o desejo por um futuro cada vez melhor, com mais reconhecimento e mercado para suas grandes obras de arte, que tornam-se nossas também ao assumir um canto muitas vezes esquecido dentro de nossos corações, o campo do imaginário e da emoção. Se o ditado "uma imagem vale mais que mil palavras" tivesse qualquer porção de acertividade, através dos trabalhos de vocês pudemos ouvir suas almas cantarem as mais belas árias e atentar para as mais questionadoras exposições do mundo social em que vivemos. Porém, acredito que a palavra tenha igual valor à imagem e, portanto, gostaria também de deixar sinceros votos de alegria e realização para os autores de roteiros e peças escritas, que inundam nosso imaginário das imagens que pretenderam construir.

Grupo de quadrinistas da revista "Beleléu",
reunidos para desenhar suas histórias

Fica, então, um grande agradecimento a todos por suas colaborações singulares e de valia inestimável para a vida de cada um de seus espectadores e/ou "leitores". Parabéns pelo dia do desenhista a todos, e que a arte que os guia possa sempre render-lhes novas experiências tanto dentro quanto fora de vocês mesmos e para cada um de nós também. Parabéns!

segunda-feira, 5 de março de 2012

Ultrapassando a Quarta Parede

Por Gabriel Guimarães


No setor de produção de conteúdo audiovisual, é comum observar termos relacionados ao uso da "quarta parede" em cena. O potencial de recursos usados para trabalhar esse elemento é incrível, e cada diretor, seja focado no cinema ou na televisão, utiliza-se disso de forma particular, tornando muitas vezes essa característica um grande referencial de seu trabalho. Aos quadrinhos, isso também pode ser facilmente aplicado, tal qual já foi possível ver em vários casos.

Cena durante a gravação de um dos filmes de Hitchcock, em
que é possível observar claramente o conceito da "quarta parede"
Para aqueles não familiarizados com o termo, "quarta parede" refere-se ao lado do cômodo retratado em cena no qual a câmera se posiciona, ou seja, através do qual nossos olhos observam a cena. Conforme o comunicólogo e sociólogo Marshal McLuhan destacou, os meios de comunicação funcionam como extensão dos sentidos humanos, ampliando, dessa forma, nossa capacidade de tornar-mo-nos parte de algo, mesmo a quilômetros de distância do ambiente em que essa determinada ação acontece. Para tanto, cabe ao diretor definir a posição exata em que esse nosso olhar estará fixado para testemunhar a cena. Em geral, a composição de um set de filmagens é organizado para se remeter a um quarto tradicional, com quatro paredes, porém, apenas três são retratadas, a fim de que seja possível para as câmeras utilizadas abordar de diferentes ângulos os eventos a serem filmados. À parede localizada hipoteticamente atrás das câmeras, ou seja, que raramente é vista, é dado o nome de "quarta parede". O diretor americano Alfred Hitchcock é um dos grandes nomes da indústria cinematográfica que trabalhou com esse recurso de formas inesperadas e brilhantes. Suas obras "Janela Indiscreta" e "Festim Diabólico" são exemplos muito recomendados disso. O primeiro, usou de apenas um galpão de estúdio e um ângulo de referência para se construir toda a história do filme, e o segundo, foi composto todo em apenas um plano, sem cortes, tornando a trama sinistra de assassinato tensa e em um ritmo de mistério e suspense únicos, característica marcante no trabalho de Hitchcock.

John Byrne foi parte de várias histórias
da Mulher-Hulk como ele mesmo
Esse recurso também retrata a expansão do sentido mostrado em cena para além dos limites tradicionais da narrativa convencional. Exemplo disso é a animação "A Nova Onda do Imperador", onde o personagem principal dirige seu discurso em determinados momentos ao espectador, consciente de ser ele o protagonista da história. Nos quadrinhos, esse recurso também é muito utilizado por autores e editoras, a fim de aproximar a ficção da realidade dos leitores. O trabalho do quadrinista underground Harvey Pekar é um caso claro disso (conforme já foi comentado aqui e aqui no blog). Outro exemplo muitas vezes relevado disso é a temática muito encontrada nas histórias da personagem Mulher-Hulk, em especial, no seu período sob o traço e concepção do americano John Byrne, na editora Marvel. Chegando a utilizar termos relativos à produção de roteiros da indústria dos quadrinhos, é impressionante o trabalho feito por Byrne, trabalhando a personalidade sarcástica da personagem em tons hilários e instigantes. O roteirista Grant Morrison, igualmente, realizou tal trabalho com o personagem "Homem-Animal", na editora DC, chegando a colocar frente a frente o personagem com uma representação ficcional do próprio Morrison como roteirista dentro da história. Na recentemente republicada saga "Novos Vingadores - Motim", essa representação dos autores dentro de suas obras foi feita de forma curiosa. Em meio a uma das histórias da coletânea lançada pela Panini, o roteirista Paul Jenkins, responsável por trazer o personagem Sentinela "de volta" ao universo Marvel surge na história ficcional como o único que lembra quem o personagem era, através das histórias em quadrinhos que ele fazia. O fator curioso nisso reside no fato de que o roteirista desta trama em que a ficção e a realidade se misturam não é Jenkins, mas sim o roteirista Brian Michael Bendis, numa forma talvez singela de homenagear ou brincar com seu colega de trabalho.


Outra forma de ruptura da "quarta parede" é o uso da metalinguagem, onde o meio em que a produção ficcional se dá aborda justamente o universo real de sua produção. Exemplos disso são fáceis de se observar, tanto no cinema quanto nos quadrinhos, como são os casos da comédia "Os Picaretas" e a ficção científica "Super 8", na sétima arte, enquanto que a trilogia de graphic novels "Fracasso de Público", do americano Alex Robinson, e a excelente história autobiográfica de Will Eisner, "O Sonhador", são casos mais claros disso na nona arte. O mangá "Bakuman" (já citado em outras matérias do blog, que podem ser vistas aqui), é um exemplo de igual força e qualidade, produzido pela dupla Tsugumi Ohba e Takeshi Obata, publicado no Japão pela editora Shueisha, referência no mercado japonês no setor de entretenimento desde sua fundação em 1925. No cenário brasileiro, o livro "HQs - Quando a ficção invade a realidade", escrita pela paulista Rosana Rios e belissimamente ilustrada por Amilcar Penna, é outro bom exemplo disso.


No filme "Mais Estranho que a Ficção", de 2006, foi abordada a questão da "quarta parede" de uma forma diferente, relevando a faceta da ficção invadindo o campo da realidade, onde o protagonista do filme, Harold Crick, ouve espantado a narração da autora de um livro que supostamente seria sua vida, e que culminaria com sua morte. Agoniado com a iminência da fatalidade que o espreita, Harold procura de todas as formas possíveis mudar o rumo da ficção sendo escrita sobre si, para que possa ser salvo. Algo similar é possível ser encontrado na história em quadrinhos "Superman - Identidade Secreta", feita pela dupla Kurt Busiek e Stuart Immonen, centrada na história de vida de um garoto real, morador da cidade de Kansas, que teve seu nome dado em homenagem ao personagem de quadrinhos Clark Kent, e que precisa aprender a lidar com as provocações e responsabilidades a isso atribuídas.

De forma apaixonante, somos convidados a romper essa barreira entre o quadrinho e a realidade, e nos deliciarmos com os frutos maravilhosos dessa união. Os autores, como os chargistas João Montanaro e Will Leite, este cujo site pode ser visto aqui, são os grandes responsáveis por nos oferecer essas nuances memoráveis entre a ficção e o nosso cotidiano, e certamente o futuro reserva muito mais possibilidades para essa relação multimídia.


sábado, 10 de setembro de 2011

Bienal: Nota 10

Por Gabriel Guimarães


Em um dos dias que surpreendeu pelo número de visitantes, bem acima do esperado, a 15ª edição da Bienal foi uma oportunidade realmente incrível para a integração do público de quadrinhos. Começando antes mesmo de abrir seus portões a público, com as matérias publicadas no jornal "O Globo", em que foi destacado o interesse da loja de produtos relacionados para a arte sequencial Comix em abrir uma filial no Rio de Janeiro, a feira literária foi muito positiva para quem esteve presente, e com certeza rendeu excelentes aquisições e experiências para todos.

Carlos Ruas autografando seu livro
no estande da Devir
Desde cedo com ilustres convidados como Maurício de Sousa, que autografou em diversos estandes, inclusive novamente com Ziraldo na editora Melhoramentos; Carlos Ruas, autor das tirinhas "Um Sábado Qualquer", que estava assinando seu livro no estande da Devir, que esteve bastante cheio hoje; Estevão Ribeiro; e o já citado Ziraldo, o evento abrangeu uma quantidade considerável de nuances e temas, permitindo uma integração muito boa com os leitores.


Entrada da Livraria São Marcos
Nos estandes em si, o destaque fica para os descontos em vários deles, dentre os quais, o da editora Leya, da qual o selo Barba Negra faz parte, com todos os seus livros 30% mais baratos, dentre os quais, o bom "Morro da Favela", do quadrinista André Diniz; o estande da Livraria Francesa, com 50% de desconto, e cujo material inclui desde obras de Moebius até material produzido em mangá na França; e a Livraria São Marcos, com descontos extremamente convidativos, além dos bons materiais disponibilizados, como a proposta em formato peculiar, porém, interessante, "O Cabra", feito pelo brasileiro Flávio Luiz, que esteve à venda no estande da Comix, e as edições de clássicos dos periódicos americanos do começo dos quadrinhos enquanto meio de comunicação de massa, tais como "Terry and the Pirates" "Flash Gordon".

O dia antecedeu o gran finale deste grandioso e intenso evento, que apesar de ter sido bastante desgastante pela quantidade de pessoas presentes e a quantidade de estandes para serem observados, foi um grande marco para atrair mais atenção para o reconhecimento das histórias em quadrinhos enquanto forma de estímulo intelectual, o que pode render muitos bons frutos para os admiradores da nona arte. Continuamos torcendo para que essa percepção se expanda para quebrar esse preconceito ainda existente com a arte sequencial.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Calvin, Haroldo e Watterson

Por Gabriel Guimarães

"Os quadrinhos podem ser tudo aquilo que a mente lhes permitir ser."
O autor dessa frase, que representa de forma bastante eficaz todo o potencial comunicativo que as histórias em quadrinhos possuem, é um dos profissionais mais reconhecidos no meio desde 18 de novembro de 1985, quando publicou sua primeira tirinha no jornal da sua dupla de personagem mais famosa: calvin e Haroldo. Ao longo de sua vida, sempre lutou para que essa forma artística recebesse toda a atenção que merecia, e, por essa sua contínua luta, hoje prestamos uma sincera e justa homenagem ao quadrinista americano Bill Watterson.


Neste dia, em que Bill completa 53 anos, não há outro assunto que se mostre mais relevante para os quadrinhos mundiais como este. Nascido em Washington, ele teve uma infância regada à base de muitas produções de quadrinhos, que lhe enchiam de sentimentos e sonhos. Tendo sido muito influenciado pelas tirinhas produzidas por Charles Schultz, criador do Charlie Brown, Bill adotou algumas características que eram marcas de Schultz para seus próprios desenhos, como a simplificação das linhas nos desenhos, que, conforme o próprio afirmava, "encaixava perfeitamente com minha falta de paciência e minha pouca habilidade para o desenho."

Preocupando-se assim mais com o conteúdo do que com a forma, Watterson conseguiu atingir milhões de leitores através das suas tiras publicadas em mais de 2000 jornais ao redor do mundo e em dezenas de línguas diferentes, se tornando assim uma referência para o meio. Uma vez que sua distribuição era feita pelo Universal Press Syndicate, um dos mais respeitados consórcios de tiras dos Estados Unidos, é difícil acreditar que o criador de tão facilmente identificáveis personagens passara por muitas dificuldades antes de lançar sua obra mais conhecida. Cerca de 4 anos antes da publicação da primeira tira de Calvin e Haroldo, Watterson havia acabado de voltar a morar com casa de seus pais, após uma série de insucessos num emprego de cartunista editorial para o Cincinnati Post, onde passou por um dos desafios mais comuns da área artística: a produção contínua e seriada com limites de prazo para ser concluída.

Neste momento, ele quase desistiu de sua carreira como ilustrador, desmoralizado pela conturbada experiência, e, então, decidiu se voltar para sua paixão inicial, que eram as histórias em quadrinhos. Partindo do princípio exposto na sua frase citada no começo da matéria, Watterson criou uma tira despretensiosa sobre um garoto de vestes espaciais e seu desastrado assistente, baseados em uma produção que fizera certa vez, quando estava no Ensino Médio, para uma aula de alemão. E ali, voltou a arriscar novas criações voltadas para a arte sequencial, que viriam a ser o alicerce no qual as tiras do Calvin iriam se estruturar. O próprio Watterson admite com entusiasmo que aqueles primeiros anos voltando a produzir quadrinhos foram de uma importância sem igual, ainda que tudo que desenvolveu não tenha tido a qualidade ou o desempenho ideal. Ele aprendeu muito com os erros, e, após, partiu para seu maior feito, que o viria a pôr em destaque como um dos grandes profissionais do ramo.

Uma situação que determinou muito da postura que o quadrinista viria a ter nos anos posteriores ao surgimento de sua fama e que é um dos traços mais reconhecidos de sua personalidade, que é o fato dele abrir mão de todo licenciamento de imagem com relação a seus personagens, merece ter um destaque aqui. Ainda antes de criar seu pequeno grande protagonista de tirinhas, um syndicate demonstrou interesse pelo estilo utilizado por Watterson, e o convidou para viajar até Nova York para assinar seu primeiro contrato profissional como membro de uma grande organização voltada para a produção de quadrinhos, ainda que não tivessem realmente se apaixonado pelo conteúdo em si do que estava sendo desenvolvido por ele na época. Entretanto, Watterson se deparou com um pedido do syndicate que o deixou enfurecido. Foi passado a ele a ordem de escrever e desenhar histórias de um personagem que não era seu, além de criar outra tira cômica com único fim de fazer propagandas de um determinado produto. Neste momento, Watterson abandonou a empresa e definiu sua postura com relação ao tratamento comercial de suas criações para todo o resto de sua vida.

E foi então, que um pequeno garoto muito esperto para sua idade e um certo tigre laranja de pelúcia entram na história da vida desse quadrinista. Após estar novamente num ponto inicial profissionalmente, Bill enviou um protótipo de tirinha com seus dois novos personagens para dois diferentes syndicates, e recebeu uma resposta positiva do Universal Press, que requisitou novas tiras da dupla. Em dúvida quanto ao que deveria pôr nas tiras, Bill ligou para seu amigo editor Jake Morrissey, que lhe deu a fórmula para todo o seu sucesso seguinte: "Apenas faça aquilo de que gosta."

 

Auto retrato de Watterson conversando com
seu personagem Calvin

Dali em diante, como dizem as pessoas do ramo da comunicação, é história. Ainda que não tenha sido um estouro da noite para o dia, Watterson recebeu, enfim, o destaque que merecia, recebendo prêmios como o Eisner e o Harvey Awards e pelo conjunto de sua obra, dentre outros diversos. Porém, ele jamais se mostrou muito confortável com essas homenagens, preferindo uma reclusão artística que caracterizou muito sua relação com seus leitores. Aposentado desde 1995, quando publicou sua última tirinha de Calvin e Haroldo em 31 de dezembro, ele mantém um hábito de pintar quadros, apesar de não expô-los para os seus fãs, e não dá sinais de novos projetos futuros. Ao longo da década de 1990, todavia, dava palestras em faculdades para destacar o quanto as pessoas se esforçavam de verdade para fazer aquilo de que realmente gostavam. Acredito que essa sua lição vá permanecer com todos nós, seus leitores, por muitos e muitos anos. E, tal qual o pequeno Charlie Brown se tornou uma influência tão grande na formação de Watterson como artista (e na de muitos leitores do personagem, como pode ser um pouco visto neste artigo de um blog parceiro nosso), Calvin é, hoje, uma parte de todos nós, que o lemos e acompanhamos suas aventuras por tanto tempo (um pequeno estudo sobre alguns conceitos da psicologia nas tiras de Calvin já foi feito aqui no blog antes). Apesar de não ter um gosto tão especial por homenagens, não havia como esse dia passar em branco, e, por isso, venho aqui por meio desta matéria agradecer por tudo que foi feito por esse grande profissional de quadrinhos, tanto dentro das linhas que delineavam seu trabalho, quanto fora, pelas lições com relação às paixões que nos movem.

Para aqueles que tiverem interesse em ir mais a fundo na história do quadrinista, recomendo esta matéria publicada no blog "Depósito do Calvin", que detalha muitos dos momentos expostos aqui e traz excelentes recursos visuais para essa trajetória vitoriosa de Watterson.