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sábado, 30 de janeiro de 2016

O Fim de Um Ciclo

Por Gabriel Guimarães


Realmente foi uma grande jornada desde Setembro de 2008 quando eu criei esse blog para expandir meus estudos sobre Histórias em Quadrinhos, conforme eu dava meus primeiros passos na graduação acadêmica e, pela primeira vez na vida, me sentia livre para aprofundar meu interesse e paixão pela arte sequencial. Nos quase oito anos de lá para cá, minha vida passou por uma série de determinantes mudanças que influíram direta ou indiretamente na produção e gestão de conteúdo aqui no blog. Eu concluí a faculdade, escrevi e publiquei meu primeiro livro de ficção, viajei para fora do Brasil pela primeira vez, perdi pessoas muito queridas, mas, em contrapartida, conheci muitas pessoas incríveis, das quais várias dividiam comigo a paixão por essa narrativa gráfico-textual que me motivou pra começo de conversa.

Um período de grande crescimento e aprendizado, em essência, foi o que me proporcionou toda essa experiência, tirando algumas noções não tão inocentes quanto leigas que eu tinha quando dei meus primeiros passos no estudo da história, do cotidiano e do potencial dessa mídia, e colocando em seu lugar uma perspectiva mais realista e analítica. O maravilhamento inicial que eu tinha não sumiu, de forma alguma, mas se transformou, adquiriu novas formas e passou a se apresentar de uma maneira diferente daquelas a que eu estava acostumado.

Muito por essa razão, eu oscilei em diversos momentos, postergando pautas devido a uma estafa ocasionada pelo sentimento de obrigação atribuído à necessidade de me manter a par daquilo que ocorria no mercado editorial de quadrinhos e pela cada vez mais escassa pausa para curtir de verdade os materiais dessa mídia que eu tanto amei e ainda amo. Para que a qualidade das matérias não fossem afetadas, eu optei por publicá-las de forma mais gradual, primando sempre por ter o que falar e saber exatamente sobre o que eu estava falando. Cada matéria publicada aqui foi fruto de muita pesquisa, dedicação, tempo e suor, sempre na esperança de apresentar um conteúdo agradável e instigante sobre o cenário da nona arte, tanto no Brasil quanto no mundo afora.

O mês de Janeiro de 2016 foi bastante significativo para mim porque eu, após muito tempo com um grande projeto para revitalizar o Quadrinhos Pra Quem Gosta e retomar o prazer em produzir material de qualidade para um público naturalmente exigente e bem instruído, enfim pude dar forma à próxima etapa dessa jornada de aprendizado e troca com o mercado dedicado da arte sequencial. Para tanto, porém, é necessária uma mudança significativa que pode inicialmente causar espanto aos que me acompanharam aqui com tanto afinco e me dedicaram seu tão valioso tempo e inestimável atenção. Eu quero anunciar, portanto, o encerramento das atividades do BLOG Quadrinhos Pra Quem Gosta.

"Para Não Dizer Que Não Falei de Quadrinhos"
Apesar de ser uma medida drástica, eu acredito que será um passo necessário para as próximas etapas que estão por vir. Eu me sinto muito abençoado por Deus por todo esse tempo que partilhamos aqui e, naturalmente, espero poder contar com a companhia de vocês nessa nova fase, principalmente através do primeiro anúncio oficial que quero trazer a todos neste dia 30 de Janeiro, data dedicada à comemoração do Quadrinho Nacional. Eu declaro, aberto ao público, o acesso ao novo SITE do Quadrinhos Pra Quem Gosta, repleto de conteúdo inédito preparado especificamente para esse lançamento e resultado de um mês dedicado a trazer uma qualidade ainda maior ao conteúdo que eu normalmente trago para todos os meus queridos leitores e leitoras.

http://www.quadrinhospraquemgosta.com.br/

O NOVO Quadrinhos Pra Quem Gosta visa oferecer uma produção mais ágil de matérias, separadas por segmentos específicos para facilitar o acesso ao arquivo de postagens, e aproximar ainda mais o público da realidade por trás da mídia dos quadrinhos. Convido todos a conhecerem nossas novas instalações e compartilhar conosco todo e qualquer comentário para que possamos atender sua curiosidade e sugestões da melhor forma possível. Sei que é uma nova realidade a qual todos vão ainda se acostumar, mas tenho certeza de que este será o início de mais uma grande aventura, então, os espero lá!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

ComiCon XPerience 2: Dia 4

Por Gabriel Guimarães


No último dia da segunda edição da ComiCon XPerience, o público começou com bastante energia, recebendo efusivamente o ator norte-americano Misha Collins no Auditório Cinemark. Admiradores de seu personagem no seriado "Supernatural", muitos dos quais estiveram presentes no bate-papo com o ilustre convidado, estavam fantasiados conforme o figurino utilizado pelo mesmo. Não foi, porém, apenas nessa ocasião que os cosplayers foram destaque no dia. Em meio a muitos acontecimentos incríveis e maravilhosos, uma nota muito ruim acaba sendo necessária de ser registrada aqui. Membros da mídia tradicional que estavam cobrindo o evento causaram um grande alvoroço pela abordagem que deram aos dedicados fãs que foram à caráter para celebrar o momento positivo que a cultura pop vem alcançando nos últimos tempos. Além dos corriqueiros deslizes, causados por pesquisas incompletas (ou inexistentes, em alguns casos) sobre o conteúdo com que estavam trabalhando, repórteres do programa Pânico na Band grosseiramente assediaram algumas cosplayers, chegando a lamber uma delas e a tratá-las com considerável descaso e desrespeito. Naturalmente, os organizadores do evento foram informados (se não diretamente, o foram pela enxurrada de críticas ao grupo presentes nas mídias sociais) e se mostraram igualmente inconformados com a postura da equipe de filmagem e, por meio do site Omelete, emitiram, no início da tarde do dia 7 de dezembro, uma nota banindo o programa de futuras programações da CCXP, a fim de que todos saibam que o evento trata de proporcionar uma atmosfera agradável a todos e um convívio saudável para todos os admiradores dos diversos veículos de expressão cultural presentes no pavilhão da São Paulo EXPO. A nota emitida pela equipe responsável pelo evento pode ser conferida no link aqui.

Os cosplays estiveram realmente de excelente qualidade

Felipe Massafera foi um dos artistas
brasileiros mais procurados
Tirando esse incidente grave, os cosplayers puderam participar de concursos realizados na área do estande da editora JBC, onde o clima foi muito amigável e a confraternização foi a ordem do dia. Haviam figurinos de personagens conhecidos do universo dos quadrinhos, games, cinema e televisão, com destaque para o casal Coringa e Arlequina, como os mais fáceis de ser encontrados pelos corredores da CCXP. O jovem herói Finn, do desenho "Hora de Aventura", também foi outro dos mais populares entre o público de cosplayers. Entre fotos com o público e a árdua jornada nos estandes de colecionáveis, os cosplayers ainda foram conferir de perto os artistas brasileiros presentes no evento, como Alzir Alves, José Luis, Klebs Jr, Cris Peter, Eddy Barrows, Paulo Crumbim, Felipe Nunes, Cristina Eiko, Felipe Massafera e Gustavo Duarte. A já mencionada Cris Peter (colorista já reconhecida no mercado nacional como uma das mais qualificadas profissionais dessa geração, tendo prestado serviços tanto para os estúdios MSP quanto para editoras internacionais), inclusive, participou de um pertinente debate sobre a presença e representação das mulheres na cultura pop, ao lado de outras artistas como Meredith Finch (uma das responsáveis pelo título da "Mulher-Maravilha"), Érica Awano (desenhista responsável pela série brasileira "Holy Avenger" e pela adaptação de "Alice no País das Maravilhas", publicada pela Dark Horse) e Lady Lemon (reconhecida cosplayer argentina, que foi, ainda, convidada para participar da banca de avaliação do Concurso de Cosplay da CCXP e que, através de sua escola dedicada ao segmento, leva adiante técnicas de figurino para muitos interessados até do campo do cinema).

Outro debate que foi muito importante para o momento atual da arte sequencial foi realizado em seguida, com os quadrinistas Cadu Simões e Scott McCloud, sobre a evolução das webcomics e o momento atual dessa vertente, que teve, no estande da Social Comics, um grande aliado. Carinhosamente apelidada de "Netflix dos Quadrinhos", a empresa tem como proposta oferecer ao leitor brasileiro acesso via streaming para um acervo considerável (e crescente) de títulos de quadrinhos, tanto publicados por editoras quanto de autores independentes, por um preço fixo mensal de R$19,90 até o momento. Aproveitando justamente a agitação do mercado, como  Cadu e McCloud comentaram no auditório, os responsáveis pela Social Comics trouxeram uma enxurrada de grandes novidades para a CCXP, como a chegada na plataforma dos quadrinhos da Turma da Mônica, o acordo com a editora norte-americana Dark Horse, o início de trabalho com conteúdo exclusivo para os assinantes do serviço (tal qual a já mencionada Netflix), e a contínua expansão do catálogo imenso de obras que já dispunham. Vale destacar que um mês antes da ComiCon, o grupo dono do site Omelete desembolsou uma cifra substancial para adquirir uma participação no desenvolvimento da plataforma, dando-lhe ainda mais credibilidade e mostrando que é uma vertente importante no futuro próximo do mercado editorial brasileiro de quadrinhos. O estande da Social Comics ainda contou com a presença de muitos artistas em interações com o público e sorteou autógrafos de uma das lendas dos quadrinhos, o roteirista Frank Miller, convidado de honra dessa edição do evento. Vale a pena ficar de olho no que ainda vem por vir!



No estande da editora Aleph, o jornalista Chris Taylor esteve autografando seu livro "Como Star Wars Conquistou o Universo", publicado recentemente para aproveitar a excitação do mercado com o novo filme da série cinematográfica criada por George Lucas, e que estreia, dentro de poucos dias, nos cinemas do mundo inteiro. Para aproveitar esse momento, a empresa de sandálias Havaiana montou, também, um estande dedicado aos personagens da aventura espacial, com direito a uma réplica da casa de Luke Skywalker em Tatooine. Elementos de "Star Wars", contudo, não se restringiram aos estandes, e ganharam variadas formas e tamanhos em ações publicitárias e cosplays trabalhados ao longo de todo o pavilhão. Basta agora aguardar o novo filme e torcer para que o capítulo prestes a ser escrito com esses personagens, tão queridos pelo grande público, possa proporcionar momentos tão intensos e memoráveis como seus predecessores das décadas de 1970 e 1980. Que a Força esteja com esse novo filme!

A ComiCon XPerience de 2015 vai, assim, chegando ao fim e, tal qual a edição de 2014, deixa uma sensação boa na memória daqueles que puderam estar presentes. Novamente focada em proporcionar momentos e experiências únicos, o evento foi bem sucedido em sua empreitada, e a esperança é de que alcance, a cada ano e edição, novos patamares e satisfaça ainda mais pessoas. A certeza maior que fica, não tão curiosamente, é semelhante ao encerramento do evento no ano passado: #FoiÉpico!

sábado, 5 de dezembro de 2015

ComiCon XPerience 2: Dia 3

Por Gabriel Guimarães



Scott McCloud assina cópia de sua obra "O Escultor",
no estande da editora Marsupial
O terceiro dia da ComiCon XPerience começou bem cedo, com filas formadas desde o início da manhã para quem tivesse interesse em conferir os muitos e aguardados painéis que seriam realizados no Auditório Cinemark. O filme "O Bom Dinossauro", produzido pela Pixar, teve uma sessão de pré-estreia exclusiva para o público da CCXP, seguido diretamente de um bate-papo agradável com o diretor Peter Sohn, responsável pelo projeto. O diretor explicou a proposta dos cenários mais realistas da história, feitos dessa forma para criar uma percepção de mundo real, com personagens mais caricatos, a fim de gerar maior identificação por parte do público com os protagonistas, proposta esta denominada efeito máscara, conforme destacado pelo quadrinista Scott McCloud em seu estudo sobre a narrativa gráfica de histórias em quadrinhos como "Tintin", do belga Hergé, "Bone", do norte-americano Jeff Smith, e em muitos mangás. McCloud, inclusive, também marcou presença no dia, autografando edições de seu novo livro, dessa vez uma obra de conteúdo ficcional, "O Escultor", lançado pela editora Marsupial em seu estande.

Estande da Marvel trouxe vários itens interessantes do
próximo filme do Capitão América

O painel da Pixar/Disney prosseguiu, com detalhes do filme "Zootopia", que tem previsão de estreia nos cinemas brasileiros de fevereiro de 2016, e contou com a presença surpresa do jornalista Ricardo Boechat, que vai dublar um personagem exclusivo para a versão brasileira do filme. O repórter, uma vez introduzido, passou a conduzir a conversa, abordando o início da carreira dos demais dubladores presentes no auditório, e promovendo uma atmosfera de descontração, ao mesmo tempo em que cada um contribuía para o papo com experiências particulares da profissão. Após a etapa de animações ser encerrada, foi a vez dos estúdios Marvel causar o colossal torpor da plateia. Apresentando trechos inéditos do filme "Capitão América - Guerra Civil", que possuía um estande particular no Pavilhão da São Paulo Expo, o diretor Anthony Russo comentou sobre as diferenças da participação do personagem Homem-Aranha na trama dos quadrinhos para a versão do filme, além de elogiar o desempenho do ator Chadwick Boseman no papel do herói Pantera Negra, indicando-o como um dos pilares do filme. O público precisou conter a grande ansiedade por ver a versão do personagem aracnídeo pela primeira vez conduzido pela própria Marvel, que era uma das grandes expectativas do painel, mas, ainda assim, teve a oportunidade de conferir as primeiras cenas que apresentam o Homem-Formiga no filme.


A réplica em tamanho real do Batsinal foi um dos grandes
atrativos do estande da Mattel na CCXP
Do lado de fora do auditório, a Marvel se fazia presente nos mais diversos estandes, com obras raras, de quando ainda era publicada no Brasil pelas editoras RGE e Ebal, sendo vendidas pelo sebo Empório HQ; com estatuetas de acabamento impecável em estandes como o da Kotobukyia e o da Iron Studios; e com outros materiais licenciados, como no estande da Mattel, que expôs vários veículos de Hot Wheels caracterizados como os heróis e vilões da editora. Este estande, ainda, apresentava conteúdo que será lançado ano que vem para promover o filme "Superman V Batman", da outra gigante do mercado de quadrinhos de super-heróis, a DC. Figuras de ação do filme estiveram em exibição, atraindo olhares e estimulando os visitantes a tirarem fotos com os itens da empresa. Além desse material, havia ainda os bonecos da linha Max Steel e outros objetos licenciados da aclamada série Star Wars, com réplicas em miniatura das naves presentes nos filmes, e veículos caracterizados como os personagens da trama espacial.

O universo de Star Wars também foi o tema da atividade seguinte no painel do auditório Cinemark, com o produtor do filme, Bryan Burk, apresentando um featurette exclusivo com imagens dos bastidores do aguardado "Star Wars Episódio VII - O Despertar da Força", que estreia nos cinemas dia 17 de dezembro próximo. A fim de evitar qualquer vazamento de informações sobre a história do filme, além daquelas já contidas nos trailers disponibilizados nas diversas redes até o momento, o produtor procurou focar em comentar sobre o processo de construção do universo ficcional no set dirigido por J. J. Abrams. O público, em grande parte vestido à caráter para conferir as novidades de uma galáxia muito distante, se empolgou com a atividade, e isso se expandiu para fora da área dos auditórios, onde alguns cosplayers representaram lutas de sabre de luz nos corredores do pavilhão, com genuína dedicação e preparo físico.

Trajes expostos no estande da Warner fizeram enorme sucesso
junto ao público para promover "Superman V Batman"
O estande da Warner ainda atraiu muitos visitantes, expondo aparatos utilizados nas filmagens do filme dos personagens da DC, além de trajes vestidos nas gravações dos seriados "Flash" e "Arrow". O estande apresentou muito conteúdo dos bastidores da produção televisiva e cinematográfica dos personagens dos quadrinhos, contando ainda com grande mural para se tirar foto com a representação dos heróis em sua caracterização atual. Filmes dessa linha, como "O Esquadrão Suicida", também se mostraram presentes, ao menos na presença de incontáveis visitantes trajados do casal Coringa e Arlequina, cuja popularidade está longe de ser equiparada no momento.

Para os fãs do material autoral da arte sequencial, um dos destaques do dia foi a mesa do estúdio Rascunho, administrado pelo colorista Alzir Alves, que estava acompanhado de sua esposa Nívia e do desenhista José Luis. Com materiais como "Mirage - O Caos da Água", produzido em parceria entre os dois e de outros muitos talentosos quadrinistas como Eduardo Pansica, Geraldo Borges, Luis Carlos Sousa, entre outros, é de dar grande alegria ver a bela qualidade do momento da nona arte brasileira. Em igual condição, estavam as edições do grupo Petisco, cujos artistas participantes Daniel Esteves, Cadu Simões, Will, Mário Cau, Dênis Mello e Sam Hart, estiveram presentes, cada um com sua própria bancada. A presença do profissional brasileiro na produção de arte sequencial ainda foi tema de debate no auditório Prime, onde os editores J.M. Trevisan, Cassius Medauar e Beth Kodama, e os quadrinistas Marcelo Cássaro e Érica Awano, que trataram da produção de mangá no país, analisando o sucesso da série "Holly Avenger", que ainda representa um grande marco de sucesso no mercado editorial brasileiro, influenciando autores até hoje, como é o caso da roteirista Fran Briggs e da desenhista Anna Giovannini, que lançaram a história "Mercenário$", que se passa em Tormenta, o mesmo universo fantástico que o dos personagens Sandro, Niele, Tork e cia.
 

O mangá ainda ganhou destaque na Samurai Alley, com uma apresentação básica da história da mídia, a poucos metros do estande da JBC, montado para promover com grandes atrativos os fãs do estilo, com direito a palco para apresentações de cosplay e o lançamento de "Combo Rangers - Somos Humanos", do roteirista Fábio Yabu com o desenhista Michel Borges, que estiveram presentes para assinar as edições dos visitantes interessados.


Outro estande que contou com lançamento no sábado foi o da editora Novo Século, que estava trazendo para o público a romantização da história em quadrinhos "Guerras Secretas", inédito no Brasil, e a edição especial luxuosa de "Guerra Civil", escrita por Stuart Moore a partir da história feita por Mark Millar e Steve McNiven. O desenhista pela arte das capas dos títulos da editora com os personagens da Marvel, Will Conrad, também esteve presente para assinar sua contribuição para os títulos, além de contar com pôsteres produzidos especificamente para o evento e distribuídos na compra dos livros.

O dia foi de grande movimento, e o encerramento promete grandes experiências, cada vez mais memoráveis. #EstáSendoÉpico

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

ComiCon XPerience 2: Dia 2

Por Gabriel Guimarães


O segundo dia da ComiCon XPerience de 2015 foi marcado por alguns de seus convidados internacionais, que causaram grande comoção entre os milhares de fãs presentes. Enquanto o quadrinista Frank Miller levou alguns de seus admiradores às lágrimas, a atriz Evangeline Lilly reuniu extensas filas para autografar seu primeiro livro infantil, "Os Molambolengos", recém-lançado pela editora Aleph; o desenhista Esad Ribic e o roteirista Mark Waid provocaram grande movimento no Artist's Alley, e os atores de "Sense8", Alfonso Herrera, Jaime Clayton e Aml Ameen, e de "Jessica Jones", Krysten Ritter e David Tennant, participaram de um animado painel sobre a produção de conteúdo original pela Netflix.

O movimento dentro do pavilhão esteve bastante agitado, com muitas famílias presentes, uma vez que o evento apresentou opções para visitantes de todas as idades. A área infantil, montada com uma réplica menor do Palácio da Justiça e até uma miniatura proporcional do Batmóvel para as crianças tirarem fotos, oferece uma alternativa agradável para  que os pais possam conferir todos os estandes enquanto seus filhos se divertem em piscinas de bolinhas e brincadeiras especiais. No estande da Fox, ainda ocorreram diversas atividades para os mais jovens também, com animadores fantasiados dos personagens do filme "Alvin e os Esquilos", com um palco onde se realizavam novas interações com o público e era exibido o trailer da próxima continuação do filme. No mesmo estande, há uma estátua do antropomórfico Po, do filme "Kung Fu Panda", para promover a terceira aventura nos cinemas, em frente a uma área montada especificamente para oferecer macarrão instantâneo de forma grátis para o público numa proposta de divulgar o material licenciado com os personagens do filme.

Enquanto isso, os pais podiam aproveitar as muitas atividades oferecidas no estande da Fox televisiva, onde havia uma placa interativa com o futuro seriado "AHS Hotel", com temática adulta, onde o visitante poderia tirar fotos como personagem do seriado. Além disso, integrantes do estande se vestiram de Bart Simpson para tirar fotos com os visitantes. Na mesma pegada adulta, o canal Syfy apresentou atores maquiados de seres sobrenaturais com um nível de detalhamento capaz de provocar até pesadelos. Ademais, o canal ainda anunciou a confirmação de que será o responsável pela transmissão da nova temporada do Doctor Who no Brasil.

John Totleben assinou suas obras no
estande da Chiaroscuro
Atualmente interpretado pelo veterano Peter Capaldi, o papel de protagonista do seriado já foi interpretado pelo já mencionado David Tennant, o que contribuiu para que ele se tornasse a figura mais procurada pelos fàs presentes na CCXP sexta-feira, dividindo os holofotes maiores apenas com o lendário Frank Miller. Na área dedicada aos artistas de quadrinhos, alguns destaques foram as filas para o estande do estúdio Chiaroscuro, que contou com a presença do desenhista americano John Totleben, responsável por grande fase dos personagens Miracleman e Monstro do Pântano ao lado do britânico Alan Moore. Nos autores brasileiros, se destacaram Marcelo Quintanilla, autor de "Tungstênio" e "Talco de Vidro" pela editora Veneta; o querido roteirista Cadu Simões, com seu material de base mitológica "Nova Hélade" e algumas edições do seu personagem Homem-Gafanhoto (o autor está passando por um momento de saúde delicado e toda a comoção de amigos e parceiros da indústria de arte sequencial tem sido bem movimentada, conforme ressaltamos em matéria prévia aqui no blog); o desenhista Vencys Lao também apresentou alguns materiais autorais muito bacana, como "Astromini" e seu primeiro quadrinho publicado, "Dia do Porko", lançado ainda no FIQ de 2013; e o jornalista carioca Télio Navega também esteve presente assinando cópias de seu livro "Os Quadrinistas", lançado pouco menos de um mês atrás, pela editora Zarabatana.

Uma nota de rodapé sobre as atividades das mesas dos artistas ficou por conta de uma pomba tranquila que entrou pelo topo do pavilhão e que parecia estar conferindo calmamente as novidades dos artistas nacionais, parando em frente à bancada dos desenhistas Marcelo Braga e Rafael Albuquerque. Ela foi retirada depois de algum tempo por um bombeiro, que a conduziu calmamente para que voltasse ao espaço externo da convenção. O momento rendeu particularmente algumas boas risadas aos presentes.




O grande destaque para encerrar o dia foi o anúncio de algo inédito na indústria midiática relacionada  aos quadrinhos brasileiros. O quadrinista Maurício de Sousa anunciou que, em parceria com a produtora Quintal Digital, está sendo trabalhada uma adaptação para o cinema da graphic novel "Laços" live-action. A obra produzida pelos irmãos Vitor e Lu Cafaggi foi um dos títulos de maior sucesso da linha Graphic MSP, iniciada em 2012 sob a batuta do editor Sidney Gusman pelos estúdios MSP. O ineditismo é por conta de ser a primeira ocasião em que os principais personagens de Maurício vão ganhar uma versão de carne e osso na grande tela, ainda que eles já tenham mais de meio século de sua criação. Para homenagear o quadrinista paulista, a editora Panini ainda lançou em seu estande a edição inédita "Maurício de Sousa 80".

Há, ainda, um estande dedicado especificamente
dedicado aos 80 anos do quadrinista Maurício de Sousa

O dia foi de grande movimento mais uma vez e a tendência do final de semana é que seja ainda maior, dando definitivamente a garantia de que o evento #VaiSerÉpico!

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

ComiCon XPerience 2: Dia 1

Por Gabriel Guimarães


Hoje teve início, no Pavilhão da São Paulo Expo, a segunda edição da ComiCon XPerience, com proposta de levar um pouco mais além os resultados obtidos no evento do ano passado, quando cerca de 97.000 pessoas estiveram presentes, conferindo palestras, a área de artistas dos quadrinhos, oficinas com profissionais do mercado editorial, estandes de grandes empresas, editoras e lojas. Com previsão este ano para números ainda mais expressivos, o evento foi organizado de forma mais sistemática, dedicando cada setor a áreas específicas da indústria de entretenimento e da cultura pop. Música, games, quadrinhos, colecionáveis, cinema, televisão e literatura, todos, tiveram espaço, com estandes apinhados de ávidos f'ãs.

Iron Studios foi um dos grandes destaques do evento, tal como
todo o segmento de colecionáveis
O primeiro item que recebe os visitantes é uma mesa de DJ montada bem de frente para a entrada, e que ficou responsável por dar clima de festa ao evento. Ao passar pelas catracas, logo se percebe a simpática figura do cavaleiro criado pelos irmãos Marcos e Mateus Castro no game "A Lenda do Herói", em uma estátua de tamanho real que indica a área onde o estande dos vloggers está localizado. Seguindo em frente, o estande que rapidamente captura a atenção é o referente ao conteúdo da Iron Studios. Com uma réplica do conflito entre os personagens Hulk e Homem de Ferro, este em sua armadura aprimorada, do filme "Vingadores 2 - A Era de Ultron" (que fizemos análise aqui no blog), o preciosismo com os detalhes é impressionante. Esse mesmo esmero é notável nas demais estatuetas do estande, que abordam, desde temas relacionados aos quadrinhos quanto itens vindos de filmes, séries e games. Este ano, contudo, as lojas com conteúdo dedicado ao público colecionador não esteve concentrado em apenas uma quantidade pequena de estandes, mas tiveram o reforço de exponentes no mercado pop brasileiro, como foi o caso da Nerdstore, do grupo Jovem Nerd, e de outros empreendimentos, como a Pizzi Toys, a Bandai, a Legião Nerd, além de estandes dedicados a universos específicos, como foi o caso da Star Wars Store.

Tiveram muitos
cosplayers inspirados
O público, contudo, não deixou para menos e houve muitos cosplayers cuja montagem de visual era extremamente bem acabado, se aproximando da qualidade de realismo de muitos dos colecionáveis. Simulando personagens advindos da televisão, como a interpretação do ator Matt Smith para o seriado de ficção científica "Doctor Who", do cinema, como a Tristeza, do filme "DivertidaMente", e dos quadrinhos, com a dupla Coringa e Arlequina sendo a mais comumente encontrada, os trajes estavam espetaculares. Utilizando tanto peças de roupa e equipamentos característicos, um rapaz ainda replicou quase com exatidão a nova caracterização do personagem Arqueiro Verde no seriado "Arrow", acompanhado, curiosa mas previsivelmente, de um pequeno garoto trajado de Flash nos mesmos moldes do seriado que dialoga com o do Arqueiro. A personagem Saori, dos "Cavaleiros do Zodíaco" também foi representada por várias moças, atraindo olhares admirados de fãs diante dos objetos dedicados a este universo de personagens presentes na já citada Bandai.

O editor Érico Assis (à esquerda) mediou a masterclass
do desenhista Scott McCloud (à direita)
Da parte da arte sequencial, convidados ilustres como o artista e estudioso da mídia Scott McCloud e o premiado roteirista Mark Waid marcaram presença em masterclasses de imensa qualidade. Enquanto o primeiro apresentou os bastidores de sua nova obra, "O Escultor", lançamento inédito aqui no Brasil pela editora Marsupial, aplicando algumas de suas concepções consagradas das ferramentas expressivas da linguagem dos quadrinhos em seu próprio trabalho; o roteirista buscou introduzir à plateia as noções básicas do roteiro de uma revista de super-heróis, material com o qual está habituado a trabalhar com sucesso pelas últimas décadas, à exemplo de seu legado em personagens como Flash e Capitão América. Durante esta segunda oficina, ocorreu um problema com o gerador do centro de convenções, que precisou ser trocado por risco de sobrecarga. Outro fato que vale destacar foi o alto som vindo do auditório em diagonal daquele onde estavam ocorrendo as masterclasses, em função da reforma extraordinária pela qual esse ambiente passou, uma vez que era nele que costumavam ser realizados os painéis de maior identificação por parte do público. Enquanto, ano passado, as atividades nesse auditório ocorriam em uma sala de dimensões vastas, mas que dependiam dos telões para as pessoas do fundo poderem tentar ver algo do que ocorria no palco, os organizadores do evento buscaram aprimorar o serviço disposto ao público e firmaram parceria com a rede de cinemas Cinemark para repaginar todo o espaço e construir uma sala de cinema de grande proporção e de qualidade virtualmente igual àquelas mais disputadas nos shopping centers. Apesar de esta mudança ser de enorme qualidade e receber com bons olhos a atenção da maioria dos visitantes, o alcance do som e os efeitos de sua reverberação ainda precisam ser observados posteriormente para garantir a todos os presentes nas atividades dos quatro auditórios presentes uma condição igual de conforto, tranquilidade e zelo.

Mark Waid apresentou a base de um roteiro de história em
quadrinhos de super-heróis no modelo norte-americano

Na área dedicada aos artistas da nona arte, um dos destaques foi o trio Marcelo Bruzzesi, Rui Silveira e Rodrigo Fernandes, com seu recém-lançado "Syam", sobre um futuro distópico não tão distante cuja trama gira em torno da nova realidade dos transplantes de órgãos a partir do surgimento de uma doença dramática. Outra mesa com material inédito foi a do roteirista Deyvison Manes, com a segunda bela edição de "Justiça Sideral", dessa vez ilustrada por Thiago Ribeiro. O estande da editora JBC, todo decorado com a temática japonesa onde suas publicações costumam ser produzidas, trouxe ainda o desenhista Hiro Kyohara, do mangá "Another", série cuja base em prosa, escrita por Yukito Ayatsuji, foi lançada neste evento pela mesma editora. Outro lançamento de sucesso é o título "Blade - A Lâmina do Imortal", de Hiroaki Samura, que havia começado a ser publicado pela Conrad, mas cuja série fora interrompida pouco tempo depois, antes de ser concluída; agora, a JBC assume a responsabilidade de trazer a conclusão das histórias do protagonista Manji para os leitores brasileiros, tal qual tem conseguido fazer com histórias como "Eden - It's an Endless World!", de Hiroki Endo, lançada em iguais circunstâncias. Com uma ótima recepção ao público, os atendentes, também caracterizados nas tradições nipônicas, são um outro ponto positivo do estande.

O primeiro dia foi recheado de grandes experiências muito agradáveis, e foi uma forma bastante eficiente de indicar que, tal qual a edição da CCXP do ano passado, este ano, o evento novamente #VaiSerÉpico! Aguardem por novidades e acompanhem nossa cobertura direta do evento pelo nosso Instagram!

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

XVII Bienal - Nove Capítulos de Ação e Emoção

Por Gabriel Guimarães


O nono dia da XVII Bienal Internacional do Livro no Rio de Janeiro  começou com destaque para bons descontos em estandes como o Grupo Autêntica, que dispôs algumas das graphic novels publicadas por seu selo Nemo com 40% a menos no seu preço normal. Obras como "O Muro", de Céline Fraipont e Pierre Bailly, e "Uma Metamorfose Iraniana", de Mana Neyestani, são alguns dos títulos que chamam bastante a atenção. O estande da editora Martins Fontes é outro que promoveu um corte dos preços de seus livros pela metade, com destaque para os títulos da "Mafalda", do argentino Quino, e a Novo Conceito também apresentou preços especiais em vários de seus exemplares, proposta similar às editoras PubliFolha, Leya e nos estandes de sebos como o PromoLivros e a Livraria São Marcos.

Árvore de livros no estande da Novo Conceito
oferece um bom local de repouso e convida a conferir os títulos
em promoção da editora

Jovem Nerd chegando ao espaço Cubovoxes
Com o último dia das turmas de colégios em excursão, muitos estudantes lotaram  os Pavilhões do Rio Centro, em especial o Verde, onde o estande da RedZero, curso de desenvolvimento de games e modelagem 3D, atraiu os visitantes para jogar partidas de futebol virtual e dançar para o Kinect ao som das músicas do momento. Para agregar a galera nerd, o estande ainda promoveu a vinda à Bienal dos blogueiros Alexandre "Jovem Nerd" Ottoni e Deivi "Azaghal" Pazos, donos de uma das produtoras de mídia mais reconhecidas no meio virtual. A multidão acompanhou os empreendedores até sua palestra no espaço Cubovoxes e acompanhou com grande afinco o depoimento da dupla sobre sua trajetória no mercado. Ao som da tradicional saudação do portal, o entorno do espaço foi bastante claro sobre o reconhecimento que a mídia alcança junto ao seu público. O site do curso que promoveu toda essa experiência pode ser conferido no link aqui.

O público tem comparecido em massa ao evento, mesmo no
meio de semana
O que chama a atenção é que essa edição da Bienal começou acertando em um ponto problemático das últimas edições: o preço dos livros.  Entretanto, o que parecia apontar para aprimorar a experiência do evento tornou a ser um desgaste no decorrer dos dias. No movimento agitado da semana, os preços dos estandes encontravam-se similares aos das lojas fora do evento, e isso gerou as mesmas críticas dos anos anteriores. Agora, na reta final da feira, parece que os responsáveis pela administração de cada estande torna a dar o braço a torcer, oferecendo descontos atraentes e convidativos.  Quem tiver a chance de visitar o Rio Centro este final de semana, certamente, encontrará boas promoções e, espera-se, tenha sua veia literária reacendida e inflamada por mais dois anos, pelo menos. Aguardemos para ver, e nos encontramos por lá!

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Sobre Responsabilidades e um Valente Trabalho com Mercado de Nicho

Por Gabriel Guimarães


Exatamente um mês atrás, comentamos aqui no blog sobre o papel das editoras na formação de novos leitores, abordando muito superficialmente o caso da editora HQM e o cancelamento da linha de revistas mensais do selo norte-americano Valiant. Conforme destacamos na época, a defasagem entre a tiragem da revista e a procura pela mesma nas bancas de jornal e demais pontos de venda ao redor do Brasil foi a causa para essa decisão por parte dos editores, que criticaram nas redes sociais a falta de participação dos leitores que aparentemente enchiam os títulos lançados de elogios, mas que deixavam de contribuir com a compra propriamente dita das revistas. Isso gerou uma discussão considerável em sites como o Ponto Zero e o Terra Zero, que fizeram questão de observar a situação dos dois pontos de vista do caso. A fim de observar de forma adequada o panorama do mercado editorial de histórias em quadrinhos no Brasil, é importante adentrar neste caso em particular, esclarecendo algumas dúvidas que podem ter surgido em nossa última matéria e aprofundando um pouco mais nas considerações do trabalho de responsabilidade das editoras para o fomento do mercado leitor brasileiro.

Anunciado em abril de 2013, o lançamento da HQM pretendia preencher uma lacuna no mercado de revistas de super-heróis com projeções realistas no mundo globalizado no qual nos encontramos hoje. Enquanto muitos leitores reclamavam da falta de veracidade dos personagens das histórias do gênero heroico dos quadrinhos, a editora norte-americana Valiant, fundada no ano de 1989 por dois ex-profissionais da Marvel, Jim Shooter e Bob Layton, procurou dar nova perspectiva à existência de seres com capacidades extra-ordinárias em seus próprios títulos, reiniciados em 2012, dentre os quais se destacavam o carro-chefe "X-O Manowar", "Harbinger", "Archer &Armstrong" e "Bloodshot". Contratando autores com bagagem na indústria de quadrinhos, como Robert Venditti, Cary Nord, Duane Swierczynski, Matt Kindt, Clayton Henry, entre outros, a editora rapidamente se tornou relevante nas vendas das comic shops norte-americanas, como já ocorrera na primeira investida da editora na década de 1990.

Uma das edições dos anos 1990 da editora
O auge prévio da editora foi entre os anos de 1992 e 1993, quando sua parcela no mercado norte-americano rivalizava com as duas gigantes Marvel e DC, quase igualando seus números de vendas aos da editora de Superman, Batman e companhia. As histórias dos personagens atiçavam os jovens leitores das revistas com contos mirabolantes e ação extrapolada, marcas comuns da época da bolha de especulação no mercado editorial de quadrinhos, quando empresas, como a Image, escalaram de forma meteórica até o topo da indústria, para levar todo o mercado a uma perigosa queda, que quase condenou o gênero dos super-heróis, predominante no mainstream da época. Os investidores na Valiant venderam, então, suas ações para uma empresa de videogames, a Acclaim, que tentou ainda relançar o material em 1996 e que, aos trancos e barrancos, continuou em produção até 2002. Dois anos depois, a empresa declarou falência e a propriedade intelectual dos personagens da editora ficaram em um limbo judicial por quase meia década, quando os executivos Dinesh Shamdasani e Jason Khotari, dois fiéis leitores do conteúdo clássico dos títulos "X-O Manowar", enfim, conseguiram reaver a possibilidade de dar uma nova vida para os personagens que marcaram suas infâncias.

Pôster da parceria da editora Valiant com o
programa BiblioBoard
Após algumas tratativas nos bastidores e adquirir um pouco mais de experiência na nona arte como produto, a dupla japonesa conseguiu chegar a um acordo com vários profissionais da indústria que não estavam exatamente sob a luz dos holofotes nas editoras onde estavam e, assim, em 2012, promoveram uma nova fase dos personagens da Valiant nos Estados Unidos. Os títulos novamente cativaram o interesse dos leitores, com tramas atuais e uma pegada mais realista, apesar das sinopses serem as mesmas da época mirabolante do primeiro grande sucesso da editora. A fim de engajar o mercado em seus lançamentos, a editora ainda tem marcado presença de forma constante em uma série de convenções da arte sequencial ao redor do país, como a Florida Supercon e a Phoenix Comicon, e vem procurando alcançar relevância nas novas mídias digitais, como, por exemplo, pela parceria com o programa BiblioBoard, que vai disponibilizar o catálogo das revistas Valiant nas bibliotecas norte-americanas.

Tabela dos eventos e convenções nos quais a Valiant participará
em 2015 nos Estados Unidos
Esse contexto do trabalho realizado com esse conteúdo no território americano apresenta, de antemão, algumas questões pertinentes na análise do processo ocorrido na publicação desse conteúdo no Brasil. Algo que tange desde as responsabilidades da editora quanto das mídias cabíveis de cobrir esses lançamentos. Em primeiro lugar, é necessário destacar que a natureza do mercado editorial brasileiro não possui o poderio financeiro e nem a estrutura cultural que os Estados Unidos possui (existem altos e baixos em ambas, não uma valorização de um sobre o outro aqui), então, a partir disso, é necessária uma colaboração bastante íntima entre todas as partes envolvidas para que o processo seja bem sucedido. Editores, jornalistas e, afinal, leitores, precisam estar em sintonia para um funcionamento positivo dessa ferramenta de comunicação.

 As mídias especializadas precisam estar atentas e ativas, o que nem sempre acontece no que diz respeito a todas as publicações de quadrinhos no Brasil, mas é da responsabilidade delas trabalhar com os conteúdos publicados a fim de que o mercado tenha consciência do que lhe é oferecido e como e onde pode consumir esses produtos. Quanto ao selo Valiant, ocorreu, de fato, uma defasagem, se não ausência, desse trabalho em várias frentes. Nós, do Quadrinhos Pra Quem Gosta, nos incluímos, também, nesse mote. Os títulos da HQM estavam em nossa pauta para discussão, porém, uma série de fatores acabaram nos tirando a perspectiva que deveríamos ter tido quanto ao caso em seu momento de construção. Com dificuldades para conseguir novos leitores e equilibrar financeiramente o projeto, a editora acabou passando por um hiato de publicação de quase seis meses durante a tentativa de fomentar o mercado para essa "nova" linha de personagens e, alguns meses atrás, acabou por confirmar o cancelamento dos títulos mensais de "X-O Manowar" e "Universo Valiant".

Há, contudo, que se apontar também que existe uma responsabilidade por parte da editora, no caso, em que, dadas oportunidades para tomar parte em eventos do meio e participar de forma mais ativa nas comic shops parecem não ter sido devidamente aproveitadas pelos profissionais a cargo dela. A mídia especializada, que falhou ao não abordar a publicação do selo Valiant no Brasil, também não foi procurada pelos editores responsáveis para que uma parceria pudesse ser construída em termos de constante feedback sobre o que poderia ser melhorado nos títulos mensais. Em eventos de média e grande porte, o selo HQM só pode ser conferido em estandes de terceiros, responsáveis pela mera venda e não produção daquele conteúdo, como é o caso da Devir e da Livraria da Travessa. Nas grandes mídias, como televisão e jornais impressos, sequer foi ventilada qualquer menção aos títulos da editora, talvez à exceção da revista "Mundo dos Super-Heróis", da editora Europa. Se os profissionais envolvidos não tomarem mais iniciativa no organismo vivo que é a produção cultural no Brasil, não é possível esperar resultados exorbitantes. Parece, enfim, ter faltado a determinação que Shamdasani e Kothari demonstraram ter para com o trabalho no mercado norte-americano, sempre procurando estar presentes e procurando novas parcerias e relevância. A culpa, contudo, não é só da editora, vale mais uma vez ressaltar, porém, existe sim uma parcela de ações possíveis de serem tomadas para remediar o déficit da linha Valiant que não foram realizadas pelos profissionais que a elas poderiam ter recorrido.

Um elemento que nos chama a atenção, para comentar algo específico e não apenas abordar superficialmente o caso, é a publicação todos os meses de capas alternativas dos títulos. O que seria um elemento maravilhoso para os colecionadores acabou por virar uma confusão para os consumidores ocasionais, que constituem a maior parcela de leitores de revistas no Brasil. Pela irregularidade com que as revistas eram lançadas nas bancas, consumidores corriam o risco de comprar mais de uma vez a mesma edição acreditando se tratar de material inédito, o que os desestimularia a continuar acompanhando as histórias. A própria defasagem na chegada dos novos números foi algo que influenciou muito negativamente quem não interagia diretamente com a editora e não sabia em que passo se encontravam os títulos, acreditando, assim, que estes poderiam ter sido cancelados, como ocorrera, por exemplo, com a série "Face Oculta", do italiano Gianfranco Manfredi e do croata Goran Parlov, que foi cancelada após apenas duas edições pela editora Panini, em 2012.

Conforme referimo-nos ao desenhista Orlando Pedroso, a responsabilidade pela formação do público leitor não é exclusivo das editoras, mas algo que todas as partes necessitam de assumir suas respectivas ações necessárias para um trabalho conjunto em prol dessa boa troca entre produtores, editores e leitores. Nós, mais uma vez, assumimos nossa parcela de responsabilidade sobre os erros praticados no caso do selo Valiant, porém, rechaçamos tanto uma crítica extrema aos profissionais do livro como aos leitores e interessados nesses conteúdos. Não adianta buscar bodes-expiatórios para reduzir um problema maior a uma nomenclatura ou atribuir simplesmente a alguns a culpa e dar o caso por encerrado. Como mercado e como participantes ativos nesse processo de formação cultural e expressivo por meio da arte sequencial, é da responsabilidade de todos nós sempre atentar para o que nos é possível melhorar para que as próximas grandes oportunidades não sejam desperdiçadas, mas sim comemoradas e aproveitadas ao máximo.


Agora, para encerrar, a editora HQM trouxe à tona uma discussão extremamente pertinente e que pode ser fator de grande impacto no mercado editorial de revistas em quadrinhos no Brasil. Diante do lamento que muitos dos leitores expressaram diante da notícia do cancelamento dos títulos mensais, o editor Artur Tavares levantou a possibilidade de trabalhar as histórias que ainda estavam abertas para serem encerradas em revistas no mesmo formato e molde dos títulos mensais, mas que seriam vendidos de forma direta das editoras para os leitores, publicando, assim, apenas o montante referente aos pedidos já previamente estabelecidos pelo mercado consumidor. Esse esquema é similar ao realizado nas comic shops norte-americanas, que recebem muitas vezes das editoras exatamente o número contado de edições requisitadas com base nos seus clientes e na potencial procura por aqueles materiais. Isso pode superar uma limitação comum que já é encarada por muitos produtores de conteúdo impresso no nosso país, o monopólio das distribuidoras, conforme o site Judão apontou em matéria que pode ser conferida aqui. Caso essa proposta de Tavares e da HQM surta efeitos positivos, isso pode revolucionar a produção da arte sequencial no país, apresentando toda uma nova estratégia de comércio e veiculação do conteúdo editorial. Resta-nos, então, observar os resultados que essa proposta vai apresentar e, cada um, assumir as responsabilidades por um funcionamento adequado da estrutura do mercado cultural brasileiro.

A quem tiver interesse, o editor Artur Tavares deu uma entrevista sobre a realidade do mercado encarada pela HQM no momento do cancelamento dos títulos Valiant, para o site Terra Zero, que pode ser conferida aqui. Há, também, uma matéria minuciosa realizada pelo editor Abraham Reisman, da New York Magazine, sobre a história da editora Valiant e dos executivos responsáveis por esse novo tempo áureo que as suas publicações estão vivendo no momento, que pode ser conferida aqui. E, para encerrar, há confirmação da chegada dos títulos da Valiant aos cinemas a partir de 2016, o que poderia ser uma oportunidade para alavancar em muito as vendas das revistas desses personagens tanto nos Estados Unidos, como no Brasil, conforme pode ser observado aqui.

Novos horizontes podem se apresentar à editora do título "X-O Manowar"

domingo, 10 de maio de 2015

Super Curso Especializado

Por Gabriel Guimarães

Michael Uslan é o principal responsável por essa empreitada
O site de ensino à distância edX, criado pelo professor Anant Agarwal, parte do corpo docente do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), com a finalidade de disponibilizar a usuários da rede do mundo inteiro programas de ensino online em parceria com várias universidades e instituições credenciadas, iniciará no dia 12 de maio dessa próxima semana um curso dedicado exclusivamente ao estudo da figura cultural dos sueper-heróis, sua história na mídia dos quadrinhos e como eles são elementos integrantes de uma jornada vivida pela sociedade humana desde a Antiguidade. Apresentado pelo professor e produtor cinematográfico Michael Uslan (um dos responsáveis por todas as adaptações do Batman para o cinema nos últimos quase 30 anos), o curso irá dispor de atividades com estudiosos do meio, como o acadêmico Christopher Robichaud, e autoridades no campo da produção na nona arte, como o roteirista e ícone pop Stan Lee (sim, você leu certo, ele mesmo!).

Stan Lee, criador do Homem-Aranha será parte integrante do curso
Programado para durar 5 a 6 semanas, o curso irá oferecer aos inscritos material de leitura e vídeos para acompanhamento no início de cada nova etapa, e abordará desde a mitologia inerente à figura pública do herói até os impactos da globalização e das novas mídias na compreensão sobre o papel desses superseres na nossa cultura. Será realizada também uma apresentação sobre as transições vividas no mercado editorial norte-americano ao longo do século XX, com a chegada dos personagens da Marvel e da DC nas televisões e nos cinemas, e o crescente boom que essa vertente tem experimentado nos últimos anos.

Uma das sedes do Instituto Smithsoniano, que estão dispostas ao longo de Washington, EUA
Organizado pelo Instituto Smithsoniano, que compreende à complexa rede de museus mais famosa do mundo e administrada pelo próprio Governo dos Estados Unidos, o curso procura trazer à tona a necessidade de se encarar seriamente a importância dos personagens que ganharam destaque a partir de revistas baratas e suplementos dominicais e que hoje são parte de nossa identidade pessoal e elemento comum em nossa formação social. Conforme o próprio responsável pelo curso, Michael Uslan, aponta, em outros tempos, a discussão acadêmica sobre conteúdo vindo da arte sequencial era considerado uma piada, menosprezando seus interessados e a própria mídia em si. Com o passar dos anos, contudo, isso foi mudando e, hoje, quando encaramos a plena aceitação desse material como objeto de valor midiático, é possível dar vazão a iniciativas como essa e se aprofundar mais nas minúcias que compõem esse universo maravilhoso das histórias em quadrinhos de heróis e explorar o significado particular e social que esses personagens podem representar.

Phil Jimenez já trabalhou para as duas gigantes do gênero
O curso, intitulado ''The Rise of Superheroes and Their Impact in Pop Culture'', será ministrado em inglês, podendo ser acessado em diversos pontos do mundo. Com tanto ávidos apaixonados pela mídia quanto iniciantes nessa jornada na nona arte, de países como Austrália, Argentina, Uruguai e Canadá, já inscritos antes do início das atividades e outros muitos mais a cada minuto até lá, a experiência tende a aproveitar a divergência da perspectiva nacional e cultural de cada indivíduo de forma muito instigante. A inscrição é feita através de perfil produzido no site do edX, e pode ser gratuita (voltada para os ouvintes que tiverem interesse em conferir apenas o conteúdo disponibilizado online para as aulas e atividades) ou paga, com uma tarifa única de U$50 (voltada para os interessados em receber certificado de realização do curso com credenciamento oficial e avaliação do domínio sobre os materiais apresentados no decorrer das  semanas). Foi informado aos estudantes que já se inscreveram, contudo, que àqueles que optarem pela opção paga, será enviada uma arte desenvolvida especificamente para o curso, autografada pelo desenhista Phil Jimenez, que trabalha hoje para a Marvel e já foi responsável por títulos como ''Homem-Aranha'' e ''X-men'' na Casa das Ideias e ''Crise Infinita'' e ''Jovens Titãs'' para a DC. A peça contará, ainda, com um selo oficial do Instituto Smithsoniano e as assinaturas de Michael e David Uslan, e do antológico Stan Lee.


Aberto a inscrições desde o dia 5 de maio, os interessados já tiveram disponíveis pequenos textos de introdução e acesso a uma lista de quadrinhos recomendados de leitura (praticamente uma amostra básica do essencial do gênero). Também foram estendidos links para ingresso nas comunidades virtuais do curso no Facebook e no Reddit, além de um fórum aberto a interações entre os próprios alunos, a fim de que a comunicação intercultural seja elemento fundamental das aulas, além de oferecer esclarecimento de dúvidas e trocas de contatos. Aos interessados em ingressar no curso e que ainda não o fizeram, o link para a sua página pode ser encontrado aqui. Ademais, as expectativas são muito positivas e um levantamento acadêmico sobre os aspectos históricos e culturais desse gênero de quadrinhos já era mais do que necessário, ainda que isso já viesse sendo realizado de forma gradual em escalas menores ao redor do planeta. Que esse seja um dia mais claro para a arte sequencial e um de seus mais reconhecidos gêneros! Excelsior!

sexta-feira, 8 de maio de 2015

O Espírito dos Quadrinhos no Planetário do Rio

Por Gabriel Guimarães


Na sexta-feira da semana que vem, dia 15 de maio, será realizado no Planetário da Gávea, no Rio de Janeiro, um evento dedicado a comemorar os 75 anos de um dos grandes personagens do quadrinista Will Eisner, o Spirit. Publicado a partir da parceria entre Eisner e o editor Everett ''Busey'' Arnold, responsável por edições da Quality Comics, o personagem representou uma grande ruptura na vida do autor nova-iorquino e ofereceu ao público leitor das funny pages e das revistas de aventura um material mais maduro e com maior domínio das ferramentas visuais das histórias em quadrinhos do que era o habitual do período. Publicado de forma ininterrupta até 1952, tendo sido produzido integralmente pelo próprio Eisner a maior parte desse tempo, o personagem tornou a aparecer nas décadas seguintes, principalmente através de republicações, enquanto seu criador passou a se dedicar às suas obras de graphic novel (termo, inclusive, cunhado por ele, fato que abordamos em matéria anterior aqui no blog), que o consagraram ainda mais no meio.

Antes da criação do detetive Denny Colt, que se tornaria o Spirit logo em sua estreia nos quadrinhos, Eisner era parceiro do também quadrinista Jerry Iger no syndicate responsável pela produção de dezenas de títulos veiculados nos jornais da época, o Eisner & Iger, que contava ainda com nomes de peso em suas pranchetas, como Lou Fine e Jack Kirby. Após um início complicado financeiramente, o estúdio já oferecia um retorno bastante positivo aos dois sócios no final da década de 1930, porém, não saciava o desejo de Eisner em produzir um conteúdo que diferisse do padrão majoritariamente infantil do período anterior à Segunda Guerra Mundial. Abordado pelo editor ''Busey'' Arnold após os jornais demonstrarem interesse em lançar suplementos que concorressem pela atenção dos leitores das bancas com as revistas especialmente dedicadas aos quadrinhos, Eisner viu a oportunidade de produzir um material de teor mais maduro, que apontasse os elementos humanos na sociedade americana depois da Crise da Bolsa de 1929. Após discutir com Arnold sobre a necessidade de o personagem entrar no recém-criado filão dos heróis de capa e superpoderes, algo a que Eisner era contrário, chegou-se à conclusão de que o personagem carregaria um pseudônimo e uma máscara para combater o crime, além de ter uma origem mirabolante e fantasiosa, porém, as histórias carregariam uma temática policial mais do que heroica, e os seus personagens seriam trabalhados de forma mais dedicada que as fantasias joviais rotineiras. Depois de chegarem a esse acordo, Eisner encerrou sua participação no syndicate, que passou a ser chamado de Phoenix Features, e reuniu uma nova leva de profissionais para auxiliá-lo na produção das histórias do personagem, que seriam depois distribuídas de forma sindical por Arnold junto aos jornais interessados.

Por anos, Eisner trabalhou de forma empenhada na sua nova criação, que ocasionalmente dividia espaço na ''The Spirit Section'' com outros personagens menores como Mr Mystic e Lady Luck, mas, em 1942, o autor foi convocado para o exército dos Estados Unidos e precisou se ausentar do mercado editorial, cabendo a Arnold substituí-lo por outros quadrinistas durante os anos seguintes. Uma vez regresso, Eisner novamente assumiu seu personagem e construiu de vez a mitologia que este carrega até hoje, contando com um traço mais refinado pelo fato de Eisner ter trabalhado na confecção de muitos manuais técnicos para as Forças Armadas. Com ricas aventuras imersas em drama e suspense, os leitores e os próprios profissionais do ramo admiravam o espírito de inovação que estava sendo desenvolvido naquele período para os quadrinhos, que recebeu muitas influências cinematográficas. Contudo, no final dos anos 1940, o mercado de histórias em quadrinhos passou a sofrer com a perda de novos leitores, cujo interesse passou a se concentrar em torno da televisão, que começava a crescer na época; além de conviver com a constante desconfiança das autoridades moderadoras sobre o uso dessa mídia no desvirtuamento das crianças e jovens. Eisner, que já estava mais envolvido pelo projeto que tinha junto da editora governamental American Visuals (algo mais seguro social e economicamente para um artista que começava a construir uma família), tentou ainda aproveitar o viés da exploração espacial para tornar novamente relevante seu personagem, porém, seu trabalho com o Spirit, que já vinha ganhando suporte de outros profissionais como Jerry Grandenetti, Jules Feiffer, Wally Wood e Jim Dixon, acabou chegando a um final em 1952.

Mais tarde, já nos anos 1960, Eisner encontrava-se em conflito com os novos responsáveis pela produção de seu conteúdo na ''P*S Magazine'', para a qual trabalhava desde então, mantendo um taxa de serviço constante do autor para o preparo de segmentos de características técnicas para os soldados do exército, em meio à crise no mercado editorial dos quadrinhos. Durante a Guerra do Vietnã, o volume de trabalho oferecido a Eisner era o suficiente para que ele pudesse sustentar sua casa e conquistar maior segurança financeira, porém, os movimentos antiguerra o faziam balançar sobre o que separava seus manuais voltados para o uso adequado do maquinário militar (que salvava vidas de soldados) com guias para executar inimigos. A experiência que Eisner viveu em Saigon, quando o exército norte-americano ainda ocupava grande parte do território do Vietnã do Sul, foi determinante ao mostrar-lhe o horror do campo de batalha real, uma vez que a experiência militar de Eisner ainda era muito limitada ao serviço burocrático e administrativo nos centros nervosos das Forças Armadas, dentro dos próprios Estados Unidos. Eisner estava passando por uma séria reavaliação sobre sua experiência com a produção para o Governo nesse sentido.

A grande mudança, porém, que o trouxe de volta para o ramo dos quadrinhos se deu em 1971. Convidado pelo organizador Phil Seuling para participar de uma convenção de leitores dos novos comix, revistas de linha independente com teor adulto e que eram distribuídas e vendidas em lojas de medicamentos farmacêuticos até então ilegais no país, e do material clássico publicado nas revistas e suplementos de quando seus pais eram crianças, Eisner demonstrou interesse em ver como o mercado estava se reestruturando diante da nova realidade da sociedade. Lá, ele conheceu o jovem editor Denis Kitchen, que viria a se configurar como um dos grandes nomes do quadrinho underground pelo seu trabalho diferenciado como editor do ramo (seu esquema de distribuição para as lojas, sua política de pagamento de royalties aos autores, além da devolução dos originais para os devidos responsáveis por eles e a manutenção particular dos direitos autorais). Juntos, Eisner e Kitchen chegaram a um acordo para republicar a saga do Spirit, aproveitando a onda de interesse dos leitores por conteúdos que transgredissem as normas vigentes nos quadrinhos das grandes editoras como a Marvel e a DC já o eram. Kitchen, que já publicava histórias de Robert Crumb, Harvey Kurtzman e Art Spiegelman, ficou extasiado de felicidade com a oportunidade de trabalhar com uma das lendas vivas do quadrinho na Era de Ouro como era Eisner (o pioneirismo de Eisner, inclusive, foi comentado também, aqui no blog), e este se viu animado em participar de uma nova etapa do mercado editorial de revistas, que passava por uma repaginação de forma estrutural e temática.

Denis Kitchen, em frente à entrada para a exposição de Will Eisner, na Rio Comicon de 2011
Poucos anos depois, Eisner acabou transferindo a publicação para a empresa do editor Joe Warren, a Warren Publishing, com quem já havia trabalhado mais de uma década antes e havia autorizado republicar algumas de suas histórias do Spirit na revista de humor ''Help!''. Comandado por W. B. DuBay, editor que já havia conhecido Eisner em uma entrevista de emprego para a ''P*S Magazine'', Eisner viu a publicação bimestral das histórias de Denny Colt decolar. Kitchen ficou levemente ressentido pela perda do título de Eisner, mas compreendeu a opção do autor por uma empresa que pudesse publicar seu conteúdo em formato mais adequado em termos de tamanho, distribuição nacional e qualidade técnica, além de que Eisner recusara a oferta da Marvel para lançar seu personagem pelas exigências de conteúdo inédito e as burocracias recorrentes em editoras de maior porte. A amizade dos dois se manteve e rendeu frutos para a indústria de livros e revistas em 1974, quando, além de tornar a ser a responsável pela publicação do Spirit, a Kitchen Sink deu vazão aos primeiros experimentos de Eisner com material novo, como ''The Spirit's Casebook of True Haunted Houses and Ghosts'', livro de prosa narrado pelo personagem clássico sobre histórias de teor sobrenatural e fantasioso, e ''The Invader'', história inédita criada por Eisner junto de jovens aspirantes a quadrinistas para o Spirit.


Em 1978, Eisner já dava aulas na School of Visual Arts, uma instituição em Manhattan dedicada às artes plásticas e comerciais, tinha seu próprio selo editorial, a Poorhouse Press, lançava regularmente material em torno do Spirit pela Kitchen Sink e conteúdo didático em quadrinhos pela Scholastic Books. Ainda assim, ele resolveu ir além da visão padronizada por quadrinhos e iniciou o mercado de graphic novels com ''Contrato com Deus'', material que carregava muita carga emocional do próprio autor em suas páginas acerca da perda de sua filha mais nova décadas antes (acontecimento que o marcou profundamente e que ele manteve em segredo até o lançamento, em 2006, de um volume especial incluindo esta obra e algumas outras de suas histórias passadas na Avenida Dropsie, no qual apresentou a sua experiência de perda pessoal de forma pública no prefácio deste). Publicada pela Baronet Books, após uma série de negociações editoriais, a obra revolucionou o mercado de quadrinhos apresentando-o ao universo literário presente nas livrarias. Passada a crise mercadológica experimentada pela obra com a dificuldade de sua categorização nos pontos de venda, os quais não sabiam se o colocavam entre as obras de cunho ficcional, aos materiais religiosos ou entre as revistas em quadrinhos tradicionais, o gênero revolucionou a indústria e apresentou uma vertente de potencial criativo que é observado e praticado com muito valor e qualidade até os dias de hoje.

A partir, então, da publicação do Spirit, que Eisner começou gradativamente a apresentar novas perspectivas que os quadrinhos ofereciam aos seus profissionais, com um uso mais qualificado dos elementos gráfico-textuais e posteriormente um desenvolvimento mais dedicado e profundo das histórias humanas apresentadas nos quadrinhos. A revolução da arte sequencial de Will Eisner se iniciou muito antes da sua cunhagem do termo, antes também do lançamento original da sua primeira graphic novel e antes, até, do amplo escopo potencial que a mídia oferecia em termos didáticos, contempladores e de entretenimento observado por Eisner. Tudo se iniciou na composição realista na qual formou seu único herói mascarado, muitas vezes mais coadjuvante das histórias que protagonista propriamente dito, mas sempre símbolo de justiça e luta pelos mais fracos.

O Planetário da Gávea, no Rio de Janeiro, irá realizar, em homenagem a essa data comemorativa dos três quartos de século do personagem de Eisner uma série de atividades no dia 15 de maio, a partir das 17h30. O evento contará com palestra, exibição de curtas e discussão com grandes nomes do meio gráfico como Carlos Patati, ávido estudioso da nona arte e roteirista; Ricardo Leite, designer responsável por produções de diversas frentes diferentes, desde capas de discos até a logomarca do Rio 450 anos; Marcelo Martinez, autor da capa da biografia ''Will Eisner - Um Sonhador nos Quadrinhos'' publicada em 2013 pelo selo Biblioteca Azul, da editora Globo; Marisa Furtado de Oliveira, diretora e produtora do elogiado documentário ''Will Eisner - Profissão Cartunista''; Heitor Pitombo, jornalista colaborador de diversas publicações acerca dos quadrinhos, entre elas, a revista ''Mundo dos Super-Heróis''; Esse Lobo, editor responsável pela antiga editora Barba Negra; e Roberto Ribeiro, diretor da Casa 21, que organizou as edições da Rio Comicon em 2010 e 2011 (ambas cuja cobertura completa pode ser conferida aqui no blog). Prevista para durar até o fechamento do Planetário, às 22h, o evento busca destacar o feito do personagem e as revoluções promovidas na mídia por seu criador. A entrada e o estacionamento serão gratuitos e o convite é estendido a todos os interessados em aprender um pouco mais da história dos quadrinhos e/ou admiradores da arte sequencial que queiram comemorar juntos essa marca tão especial. A página do evento no Facebook pode ser conferida aqui, e quaisquer dúvidas acerca dele podem ser esclarecidas por lá.


A quem mais tiver interesse de saber um pouco mais sobre o período entre 1940 e 1952 de Will Eisner a cargo do Spirit, vale conferir o interessante artigo de Michael Barrier, que pode ser conferido, em inglês, aqui.