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sábado, 30 de janeiro de 2016

O Fim de Um Ciclo

Por Gabriel Guimarães


Realmente foi uma grande jornada desde Setembro de 2008 quando eu criei esse blog para expandir meus estudos sobre Histórias em Quadrinhos, conforme eu dava meus primeiros passos na graduação acadêmica e, pela primeira vez na vida, me sentia livre para aprofundar meu interesse e paixão pela arte sequencial. Nos quase oito anos de lá para cá, minha vida passou por uma série de determinantes mudanças que influíram direta ou indiretamente na produção e gestão de conteúdo aqui no blog. Eu concluí a faculdade, escrevi e publiquei meu primeiro livro de ficção, viajei para fora do Brasil pela primeira vez, perdi pessoas muito queridas, mas, em contrapartida, conheci muitas pessoas incríveis, das quais várias dividiam comigo a paixão por essa narrativa gráfico-textual que me motivou pra começo de conversa.

Um período de grande crescimento e aprendizado, em essência, foi o que me proporcionou toda essa experiência, tirando algumas noções não tão inocentes quanto leigas que eu tinha quando dei meus primeiros passos no estudo da história, do cotidiano e do potencial dessa mídia, e colocando em seu lugar uma perspectiva mais realista e analítica. O maravilhamento inicial que eu tinha não sumiu, de forma alguma, mas se transformou, adquiriu novas formas e passou a se apresentar de uma maneira diferente daquelas a que eu estava acostumado.

Muito por essa razão, eu oscilei em diversos momentos, postergando pautas devido a uma estafa ocasionada pelo sentimento de obrigação atribuído à necessidade de me manter a par daquilo que ocorria no mercado editorial de quadrinhos e pela cada vez mais escassa pausa para curtir de verdade os materiais dessa mídia que eu tanto amei e ainda amo. Para que a qualidade das matérias não fossem afetadas, eu optei por publicá-las de forma mais gradual, primando sempre por ter o que falar e saber exatamente sobre o que eu estava falando. Cada matéria publicada aqui foi fruto de muita pesquisa, dedicação, tempo e suor, sempre na esperança de apresentar um conteúdo agradável e instigante sobre o cenário da nona arte, tanto no Brasil quanto no mundo afora.

O mês de Janeiro de 2016 foi bastante significativo para mim porque eu, após muito tempo com um grande projeto para revitalizar o Quadrinhos Pra Quem Gosta e retomar o prazer em produzir material de qualidade para um público naturalmente exigente e bem instruído, enfim pude dar forma à próxima etapa dessa jornada de aprendizado e troca com o mercado dedicado da arte sequencial. Para tanto, porém, é necessária uma mudança significativa que pode inicialmente causar espanto aos que me acompanharam aqui com tanto afinco e me dedicaram seu tão valioso tempo e inestimável atenção. Eu quero anunciar, portanto, o encerramento das atividades do BLOG Quadrinhos Pra Quem Gosta.

"Para Não Dizer Que Não Falei de Quadrinhos"
Apesar de ser uma medida drástica, eu acredito que será um passo necessário para as próximas etapas que estão por vir. Eu me sinto muito abençoado por Deus por todo esse tempo que partilhamos aqui e, naturalmente, espero poder contar com a companhia de vocês nessa nova fase, principalmente através do primeiro anúncio oficial que quero trazer a todos neste dia 30 de Janeiro, data dedicada à comemoração do Quadrinho Nacional. Eu declaro, aberto ao público, o acesso ao novo SITE do Quadrinhos Pra Quem Gosta, repleto de conteúdo inédito preparado especificamente para esse lançamento e resultado de um mês dedicado a trazer uma qualidade ainda maior ao conteúdo que eu normalmente trago para todos os meus queridos leitores e leitoras.

http://www.quadrinhospraquemgosta.com.br/

O NOVO Quadrinhos Pra Quem Gosta visa oferecer uma produção mais ágil de matérias, separadas por segmentos específicos para facilitar o acesso ao arquivo de postagens, e aproximar ainda mais o público da realidade por trás da mídia dos quadrinhos. Convido todos a conhecerem nossas novas instalações e compartilhar conosco todo e qualquer comentário para que possamos atender sua curiosidade e sugestões da melhor forma possível. Sei que é uma nova realidade a qual todos vão ainda se acostumar, mas tenho certeza de que este será o início de mais uma grande aventura, então, os espero lá!

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

#ForçaCadu

Por Gabriel Guimarães




Ao final da 9ª edição do Festival Internacional de Quadrinhos, em Belo Horizonte, grande parte dos profissionais da arte sequencial brasileira foi pega de surpresa com a declaração dada pelo roteirista Cadu Simões, de que aquele tinha sido seu último FIQ e que, após a CCXP de 2015, ele não mais estaria presente nos eventos de quadrinhos. Ele informou a todos o desgaste físico e financeiro que essa intermitente jornada estava lhe provocando e o fato de que ultimamente isso vinha agravando seu estado de saúde, já debilitado nos últimos tempos, estava começando a ser demais para ele conseguir carregar.

Cadu começou a gerar um impacto na indústria de quadrinhos quando, na primeira década do século XXI, fundou, junto de colegas admiradores da arte sequencial, o grupo Quarto Mundo. Responsáveis por uma grande leva de material nacional que não encontrava tantas aberturas para entrar no mercado editorial brasileiro, o grupo marcou presença em eventos como o FIQ e a Rio Comicon, sempre carregando o estandarte dos autores nacionais e buscando conscientizar o público de que havia, sim, conteúdo de qualidade sendo produzido por autores brasileiros voltados para o mercado nacional. Ávido interessado por história e mitologia, Cadu criou aventuras com criaturas da antiguidade em sua webcomic "Nova Hélade" e foi o pai do personagem Homem-Grilo, que parodiava as produções americanas e chegou até a realizar um crossover com os personagens do site MDM. Em 2012, o grupo se encerrou, mas deu lugar a um novo coletivo concentrado em publicar de forma regular títulos de quadrinhos na internet, o portal Petisco. Cadu continuou firme na produção de histórias por lá e manteve-se sempre presente nos eventos, estimulando novas gerações de artistas brasileiros a darem um pontapé inicial em suas carreiras.

O Misterioso Mistério dos Quadrinhos Carcomidos – Capa
Homem-Grilo e a equipe dos Melhores do Mundo
em aventura conjunta, disponível no site do personagem
Há cerca de dois anos, contudo, ele foi diagnosticado com Artrite Reumatóide, que é uma doença autoimune e degenerativa. É um tipo de reumatismo, uma disfunção do sistema imunológico, que, em vez de proteger, começa a atacar as células do próprio corpo. No caso dessa doença, especificamente, o ataque se foca nas células que compõem os tecidos das articulações, ligamentos, tendões, cartilagens, músculos, etc, causando atrofiamento e perda progressiva da mobilidade, sobretudo das pernas e dos pés, dos braços e das mãos, e do quadril. Além disso, devido à disfunção do sistema imunológico, o risco de contrair outras doenças (sobretudo infecções bacterianas e viroses) aumentam. O olho esquerdo do roteirista já sofreu uma catarata que praticamente debilitou sua visão pela metade e, em função dos atrasos que seu plano de saúde, configurado justamente para ajudá-lo nesse momento complicado, está provocando, Cadu receia que precise amputar uma de suas pernas.

A Vakinha vai ajudar Cadu com os
custos de seu tratamento
Em resposta quase que imediata a essa informação, o roteirista e parceiro de longa data de Cadu nos selos Quarto Mundo e Petisco, Daniel Esteves, começou uma campanha no site Vakinha para que amigos e colegas de profissão pudessem colaborar com os custos de alguns dos tratamentos aos quais o quadrinista precisará se submeter. Uma vez que ele não está conseguindo receber o suporte de que precisa e a doença está tornando mais difícil ele pegar tantos trabalhos freelance quanto fazia antes, aqueles que foram tocados ou marcados pelas histórias ou pela própria pessoa do Cadu estão se mobilizando para que ele receba os cuidados necessários.

Muitos quadrinistas já começaram a participar, disponibilizando, inclusive, obras autografadas em leilões para reverter a arrecadação para a causa, como foram os casos dos desenhistas André Diniz, Fábio Moon e Flávio Luiz. O organizador principal do FIQ, Afonso Andrade, também se prontificou a oferecer camisas do evento para os primeiros que doassem mais de R$200,00, além de estar separando materiais para leilão também. A meta, nesse presente momento, já foi alcançada e até superada, contudo, os custos médicos no Brasil são reconhecidamente elevados e qualquer requisição nova de exames ou tratamentos pode ser deveras onerosa, ainda mais para a situação limitadora que a doença tem provocado ao roteirista.

O site do roteirista, onde ele posta atualizações de seus projetos, pode ser conferido neste link, e a página do portal Vakinha para ajudar nessa causa, pode ser encontrado aqui.

Sites como o Universo HQ, o Terra Zero e o MDM também já se prontificaram a divulgar o projeto, e nós do Quadrinhos Pra Quem Gosta, queremos levar isso ainda mais além. Os três primeiros doadores a colaborarem com o projeto com um valor de R$100,00 e nos contatarem pelo e-mail quadrinhospraquemgosta@ymail.com, com o comprovante do depósito, vão receber em casa uma cópia autografada do livro "Projeto Platão", do nosso editor-chefe, Gabriel Guimarães. Queremos, então, mais uma vez reforçar nossos votos de melhora e força para nosso querido parceiro Cadu Simões, e que este projeto possa ser um pequeno gesto do quanto sua amizade nos é valiosa. Estamos junto contigo nessa jornada. #ForçaCadu

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

King Kirby

Por Gabriel Guimarães

Arte de Alex Ross em homenagem a Jack Kirby, o Rei dos Quadrinhos

Em uma época em que a Marvel é a mais proeminente potência nas grandes telas, alavancando a venda de materiais com seus personagens antológicos, muitos questionam como se deu tal sucesso, onde se originou a semente que formou a gama extensa de personagens e criações que fomentou todo um universo de histórias agora sendo adaptadas com alto grau de acabamento técnico e interpretações qualificadas. 98 anos atrás, um dos principais responsáveis por essa produção, Jack Kirby, nasceu, e há 21 anos, se foi, deixando para trás um legado dificilmente igualável na história dos quadrinhos. Em homenagem a este grande profissional e impactante mestre artístico, é digno, portanto, acompanharmos sua fervorosa e resiliente, ainda que conflituosa e árdua, jornada.

O jovem Jack junto de seus pais
na década de 1920
Nascido Jacob Kurtzeberg em 28 de agosto de 1917, o filho de Rose e Benjamin nasceu em condições muito aquém às daquelas histórias fantasiosas e multicoloridas com que viria a se consagrar em sua vida adulta. Seus pais haviam migrado da Áustria para os Estados Unidos na virada do século, a fim de evitar um conflito entre seu pai e um aristocrata alemão, que o havia desafiado a um duelo após ter sido ofendido. Pensando no bem da família, que dependia de Ben como provedor, os seus demais parentes contribuíram para que ele viajasse com a esposa e criasse uma família em terras nova-iorquinas, junto de muitos imigrantes europeus que realizavam esse trajeto na época. Precisando de um sustento, Ben começou a trabalhar em uma indústria têxtil, onde conseguiu meios de sustentar seu recém-nascido primogênito Jacob e começar a montar uma boa estrutura para seu segundo filho, David, que viria dois anos depois. O trabalho extensivo, porém, nem de longe era remunerado de forma correspondente, e logo que Jacob alcançou o mínimo de idade necessário para ajudar a família, foi colocado para trabalhar como entregador de jornais, a fim de complementar a renda de casa.

Frame de animação de Popeye, feito por Jacob Kurtzberg

Jacob não gostava da atividade, sendo sempre muito menosprezado pelas outras crianças por conta de sua baixa estatura. Em meio a isso, ele foi conseguindo serviços melhores, entregando correspondências particulares e pintando placas e sinais, e conseguiu dinheiro suficiente para ajudar seus pais com as contas, sobrando sempre alguns centavos, que lhe era permitido gastar com o que pudesse lhe interessar - naturalmente, é neste ponto em que os quadrinhos cruzaram seu caminho. Leitor ávido das páginas de tiras dos jornais, Jacob começou a rabiscar por cima dos desenhos para aprender a desenhar seus personagens favoritos (principalmente personagens desenhados por Milton Caniff e Alex Raymond) e, quando cresceu, começou a tirar das pulp magazines (que já comentamos aqui antes no blog), a inspiração para criar histórias mais maduras e envolventes. Nem tudo, porém, ia bem na sua vida. Ele tinha graves problemas por causa de seu temperamento curto e constantemente era pego brigando na rua e discutindo com outros jovens que caçoavam de sua descendência judaica.

Jacob, contudo, continuava desenhando compulsivamente, ao ponto de chegar a um consenso junto de seus pais quanto ao abandono da escola tradicional para se dedicar à arte, dessa forma ,ajudando financeiramente no sustento da casa. Inicialmente, ele encontrou muitas portas fechadas no mercado pela ausência de formação adequada. As coisas começaram a mudar quando ele respondeu a um anúncio no jornal para uma vaga nos estúdios de animação de Max Fleischer, produtor de populares desenhos como "Betty Boop'' e ''Popeye''. Se portando com muito afinco profissional e uma grande ambição por voos mais altos, Jack, como se rebatizara na mocidade, galgou muito espaço dentro da empresa, até conhecer o editor H. T. Elmo, que o levou para o Lincoln Features Syndicate. Jack optou por essa troca em meio a muitos boatos sobre a transferência dos estúdios Fleischer para a Flórida e a opção de maior rendimento por bônus oferecidos por Elmo. Apesar das condições precárias nas quais prestava esses serviços, ali foi a porta de entrada de Jack em larga escala. Seu trabalho, enfim, alcançava características profissionais e sua produtividade era muito reconhecida pelo seu chefe, que cada vez mais requisitava tiras diárias feitas por ele com variados estilos e temáticas.

O jovem Jack Kirby e seu habitual charuto a tiracolo
Com o tempo, Kirby se transferiu para o Eisner & Iger Studio (que já comentamos aqui no blog antes), ao passo em que os quadrinhos passavam a crescer em popularidade no formato magazine, com revistas especificamente dedicadas a esse tipo de conteúdo. Em 1938, começava um período muito estimulante na vida do desenhista. Ele se sentia confortável com o novo formato das páginas que produzia, o ambiente lhe era extremamente agradável e seu trabalho era valorizado e respeitado, tendo, inclusive, sido neste período em que foi publicada sua primeira revista em quadrinhos oficial, a ''Wild Boy Magazine''. Will Eisner, inclusive, viria a representar Jack como o baixinho de pavio curto que, de fato, era, em sua história "O Sonhador'', onde contava suas experiências nos primeiros passos dos quadrinhos enquanto mídia de comunicação em massa.

Após Eisner sair da gerência do estúdio para se dedicar ao seu personagem "Spirit'', Jack acabou migrando à procura de espaço para suas próprias histórias, sendo recusado em muitas editoras, que alegavam já terem todo o conteúdo de quadrinhos de que precisavam, até mesmo a National Comics, que viria a ser conhecida anos depois como DC. Jack se viu sem opção a não ser tomar parte no syndicate do empresário Victor Fox, que contratava qualquer um que aparecesse com um portfólio. Foi um período muito complicado pelas exigências administrativas de Fox, que pagava pouco, mas de forma constante. Nesse período, Jack conheceu um outro artista com quem viria a criar uma parceria que sempre seria lembrada pelos admiradores dos quadrinhos da Era de Ouro, Joe Simon. Ambos trabalhariam juntos pela primeira vez em 1940, no título-chave do estúdio, o "Besouro Azul'', criado por Charles Nicholas Wojtkowski.

Simon era um profissional obstinado, e tão rápido quanto conquistou a atenção de Victor Fox para contratá-lo como editor-chefe, conseguiu a mesma oferta do presidente da Timely Comics, Martin Goodman. Pouco tempo depois, ele trouxe seu amigo Kirby para trabalhar com ele lá e essa parceria renderia ao menos um grande fruto que atravessaria gerações a fio. Em 1940, influenciados pela Segunda Guerra Mundial e o forte sentimento nacionalista que crescia, os dois artistas criaram o ''Capitão América'' e lhe deram um início logo com um golpe literal na ideologia nazista, como pode ser visto na capa da primeira edição do personagem. Eles produziram dez edições do personagem antes de migrar para a DC Comics, onde trabalhariam em títulos como ''Boy Commandos''. Então, em 1943, Kirby foi convocado para a guerra. Ele se tornou membro da Infantaria e viajou para Liverpool, Southampton e, enfim, a Normandia, onde chegou dez dias após o Dia D. Após dormir muito tempo em trincheiras, porém, seus pés começaram a inchar pelo frio e as péssimas condições sanitárias, e Kirby foi levado a um hospital do exército, de onde foi mandado de volta para casa. Seu temperamento esquentado e o fato de que não gostava de receber ordens qualificou esse período como algo de que Jack não gostava de lembrar, mas foi um período que enriqueceu ainda mais a visão de Kirby e lhe preencheu de experiências que jamais teria em outras circunstâncias.

Kirby trabalhou em títulos de romance também
durante o período de caça às bruxas de Joseph McCarthy
Jack e Joe continuaram trabalhando juntos até a crise da arte sequencial com a opinião pública, quando Frederic Wertham e Joseph McCarthy aterrorizavam os sonhos de editores e produtores de qualquer mídia que pudesse ser considerada minimamente apologética aos princípios comunistas e/ou transgressores dos bons costumes. Kirby foi trabalhar com títulos como "Classics Illustrated'', a fim de evitar quaisquer conflitos com o comitê do Senado que realizava investigações sobre potenciais desvios de conduta. Os anos 1950 foram muito difíceis, mas renderam precursores para personagens que fariam história nos quadrinhos. Em 1957, Kirby criou a tira de ação ''SkyMasters'' e, em 1958, os ''Challengers of the Unknown'', para a DC. Ambas começaram a preparar o terreno para o surgimento, em 1961, do ''Quarteto Fantástico''. Em 1959, Jack ainda criou o personagem ''The Fly", um herói de poderes derivados de um inseto (no caso, de uma mosca), em sua última parceria com Simon antes de ele voltar à arte comercial, e que pode ser considerado um precursor do ''Homem-Aranha''. Foi, a partir desses eventos, que começou a surgir uma discussão acerca do que ocorreu em seguida e que revolucionou os quadrinhos de super-heróis.

Em 1959, Kirby retornou à Timely Comics para desenhar histórias com monstros gigantes, que estavam em moda na época, e reencontrou o jovem sobrinho do editor-chefe da editora, com quem não se dava tão bem desde os tempos de parceria com Simon, o ainda jovem Stanley Lieber, mais conhecido pela sua alcunha adotada Stan Lee. Eles foram creditados juntos por muitas histórias até culminar no surgimento da primeira família de super-heróis da nova era científica da nona arte, o já mencionado ''Quarteto Fantástico''. O que veio em seguida foi uma enxurrada de personagens novos e inovadores, repletos não apenas da ação comum aos trabalhos prévios de Kirby como também de indivíduos de personalidades complexas e desejos e medos humanos. Nos anos vindouros, viria-se a questionar a validade da autoria dessas histórias e o crédito à real criação dessa leva de personagens, mas o debate continua até os dias de hoje, onde os limites sobre a ação de um profissional sobre a de outro continuam muito nebulosos. Independente dessa polêmica, a parceria gerou um grande impacto na história do gênero heroico e influenciou muitas gerações de leitores das revistas em quadrinhos.

Em 1970, uma série de eventos causou uma ebulição de Kirby com a Marvel, que o levou a abandonar a editora. Os principais conflitos eram por conta da recusa da Casa das Ideias de firmar um contrato de longo-termo com o artista, nem tanto em termos de aumento de pagamento, mas sim de uma segurança maior quanto à chegada do mesmo na conta de Jack; e o cúmulo foi a postura da empresa com uma série de pôsteres produzidos por Kirby para uma firma de correio que queria distribuir material do super-herói "Hulk". Jack criou o conteúdo, mas alguns editores acharam que seria melhor que o desenho fosse produzido por Herb Trimpe, desenhista da revista nesse momento, e, então, mandaram-no redesenhar o pôster à risca por sobre a arte de Jack. Essa postura gerou ira no artista e o fez se sentir desrespeitado de forma drástica pela editora que ele ajudou a realmente colocar no topo da lista de vendas de títulos mensais de quadrinhos. Foi então que surgiu o convite de Carmine Infantino para que Kirby migrasse para a DC.

A gota d'água pra Kirby com a Marvel foi o pôster do "Hulk"




Fã do trabalho de Jack desde os tempos de criança, Infantino lutou contra a antipatia do editor Mort Weisinger, que havia trabalhado brevemente com a dupla Kirby-Simon e tivera sua dose de conflitos de autoridade com os dois, mas conseguiu que o desenhista fosse contratado pela editora com as condições que ele agora exigia. Jack não mais aceitaria tomar parte em uma estrutura empresarial onde alguém apenas escreveria os diálogos e ele teria o trabalho de desenvolver todo o processo criativo por conta própria. Além disso, Kirby chegou à conclusão de que ele tinha valores e histórias a serem contadas que o gênero super-heroico não era capaz dedar vazão. Foi assim, então, que surgiram as histórias épicas dos ''Novos Deuses'', que exploravam elementos espaciais com uma ótica mitológica e científica. Ele ainda aplicou novos estudos artísticos com colagens e montagens visuais inovadoras. Ele criou títulos como "The Forever People", com as histórias da "Grande Barda" e do "Senhor Milagre", e até personagens de teor mais fantasioso, como "Kamandi - The Last Boy on Earth" e o sobrenatural "Ettrigan".

Não foi para menos que Kirby foi encarregado de realizar a adaptação para os quadrinhos de uma das obras máximas do diretor Stanley Kubrick para o cinema, o épico de ficção científica "2001 - Uma Odisseia no Espaço", o que era considerado de viés quase impossível, mas que foi produzido em uma edição de 71 páginas em 1976. Neste tempo, ele já havia retornado à Marvel, que agora reconheceria seu trabalho e lhe creditaria conforme suas requisições. Nessa nova passagem pela editora, Kirby produziu títulos como "The Eternals" e revisitar antigos conhecidos como o "Pantera Negra" e o próprio "Capitão América", 35 anos depois de sua criação. Kirby já se encontrada enfadado com o meio editorial, tendo praticamente a mesma faixa de renda a vida toda e os trabalhos parecendo sempre mais do mesmo. Na década seguinte, ele viria se queixar muitas vezes porque se sentia mais preso à prancheta e sua visão já lhe pregava algumas peças pela alta quantidade de horas trabalhando. Ele se aposentou de forma não-oficial na década seguinte, vindo a receber algumas de suas páginas originais pelo correio em 1987, após uma disputa judicial em que a Marvel ficou com a imagem pública um tanto manchada pela negligência com um de seus mais importantes artistas.

A manhã de 4 de fevereiro de 1994 começou de forma normal para a família Kirby, um domingo comum, quando Jack acordava antes de sua esposa Roz Goldstein e pegava o jornal na parte da frente de sua casa e o levava para ler à mesa da cozinha, quando um ataque do coração o vitimou, deixando toda uma indústria de luto pela perda de um de seus maiores mestres. Sua esposa continuou a travar duras lutas com a Marvel pelos direitos relativos aos personagens criados por Kirby, o que lhe rendeu apenas uma magra pensão suficiente apenas para custear a hipoteca do lar do casal e os gastos com cuidados médicos que ela precisava receber. Em 1998, a DC lhe telefonou para informar que as vendas das edições de Jack estavam tendo um bom retorno do mercado no seu relançamento, e ela, enfim, sentiu que o marido começava a ser compreendido pelo mercado. Ela faleceu pouco depois, antes de conseguir ver o quanto seu marido se tornaria reverenciado por gerações de artistas e admiradores da arte sequencial. A produção de Kirby continua sendo republicada em volume até os dias de hoje e tem ampla receptividade que cresce e tem cada vez mais o merecido reconhecimento.

Kirby encontrou sua criação no início dos anos 2000 em história do Quarteto



O legado deixado por Jack é algo tangível que aparenta, hoje, ser uma unanimidade entre os profissionais da nona arte. A qualidade narrativa e a criatividade expansionista de Kirby gerou fãs nas mais diversas esferas culturais, sendo homenageado em 2002 pelo músico de jazz Greggn Bendian com um álbum intitulado "Requiem for Jack Kirby", e lembrado com muita admiração por escritores como Michael Chabon e Mark Evanier, entre muitos outros, dentre os quais vale destacar o ilusionista David Copperfield, que destacou as histórias de Kirby como "alegorias sobre a coragem, da luta entre o bem e o mal, da disposição particular de sonhar".

Hoje, na data em que o apelidado "Rei dos Quadrinhos" completaria 98 anos de vida, muitos artistas decidiram prestar respeito e homenagem à memória do artista que transcendeu as barreiras do tempo e do espaço, lhes apresentou o fantástico e o mirabolante mundo de aventuras sem fim, e que tão inadvertidamente se despediu antes de ter o reconhecimento que lhe era cabido. Aqui, honramos mais uma vez seu legado, e jamais havemos de deixar sua jornada ser menosprezada, muito menos esquecida. O Rei dos Quadrinhos morreu; Longa vida ao Rei dos Quadrinhos.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

O Espírito dos Quadrinhos no Planetário do Rio

Por Gabriel Guimarães


Na sexta-feira da semana que vem, dia 15 de maio, será realizado no Planetário da Gávea, no Rio de Janeiro, um evento dedicado a comemorar os 75 anos de um dos grandes personagens do quadrinista Will Eisner, o Spirit. Publicado a partir da parceria entre Eisner e o editor Everett ''Busey'' Arnold, responsável por edições da Quality Comics, o personagem representou uma grande ruptura na vida do autor nova-iorquino e ofereceu ao público leitor das funny pages e das revistas de aventura um material mais maduro e com maior domínio das ferramentas visuais das histórias em quadrinhos do que era o habitual do período. Publicado de forma ininterrupta até 1952, tendo sido produzido integralmente pelo próprio Eisner a maior parte desse tempo, o personagem tornou a aparecer nas décadas seguintes, principalmente através de republicações, enquanto seu criador passou a se dedicar às suas obras de graphic novel (termo, inclusive, cunhado por ele, fato que abordamos em matéria anterior aqui no blog), que o consagraram ainda mais no meio.

Antes da criação do detetive Denny Colt, que se tornaria o Spirit logo em sua estreia nos quadrinhos, Eisner era parceiro do também quadrinista Jerry Iger no syndicate responsável pela produção de dezenas de títulos veiculados nos jornais da época, o Eisner & Iger, que contava ainda com nomes de peso em suas pranchetas, como Lou Fine e Jack Kirby. Após um início complicado financeiramente, o estúdio já oferecia um retorno bastante positivo aos dois sócios no final da década de 1930, porém, não saciava o desejo de Eisner em produzir um conteúdo que diferisse do padrão majoritariamente infantil do período anterior à Segunda Guerra Mundial. Abordado pelo editor ''Busey'' Arnold após os jornais demonstrarem interesse em lançar suplementos que concorressem pela atenção dos leitores das bancas com as revistas especialmente dedicadas aos quadrinhos, Eisner viu a oportunidade de produzir um material de teor mais maduro, que apontasse os elementos humanos na sociedade americana depois da Crise da Bolsa de 1929. Após discutir com Arnold sobre a necessidade de o personagem entrar no recém-criado filão dos heróis de capa e superpoderes, algo a que Eisner era contrário, chegou-se à conclusão de que o personagem carregaria um pseudônimo e uma máscara para combater o crime, além de ter uma origem mirabolante e fantasiosa, porém, as histórias carregariam uma temática policial mais do que heroica, e os seus personagens seriam trabalhados de forma mais dedicada que as fantasias joviais rotineiras. Depois de chegarem a esse acordo, Eisner encerrou sua participação no syndicate, que passou a ser chamado de Phoenix Features, e reuniu uma nova leva de profissionais para auxiliá-lo na produção das histórias do personagem, que seriam depois distribuídas de forma sindical por Arnold junto aos jornais interessados.

Por anos, Eisner trabalhou de forma empenhada na sua nova criação, que ocasionalmente dividia espaço na ''The Spirit Section'' com outros personagens menores como Mr Mystic e Lady Luck, mas, em 1942, o autor foi convocado para o exército dos Estados Unidos e precisou se ausentar do mercado editorial, cabendo a Arnold substituí-lo por outros quadrinistas durante os anos seguintes. Uma vez regresso, Eisner novamente assumiu seu personagem e construiu de vez a mitologia que este carrega até hoje, contando com um traço mais refinado pelo fato de Eisner ter trabalhado na confecção de muitos manuais técnicos para as Forças Armadas. Com ricas aventuras imersas em drama e suspense, os leitores e os próprios profissionais do ramo admiravam o espírito de inovação que estava sendo desenvolvido naquele período para os quadrinhos, que recebeu muitas influências cinematográficas. Contudo, no final dos anos 1940, o mercado de histórias em quadrinhos passou a sofrer com a perda de novos leitores, cujo interesse passou a se concentrar em torno da televisão, que começava a crescer na época; além de conviver com a constante desconfiança das autoridades moderadoras sobre o uso dessa mídia no desvirtuamento das crianças e jovens. Eisner, que já estava mais envolvido pelo projeto que tinha junto da editora governamental American Visuals (algo mais seguro social e economicamente para um artista que começava a construir uma família), tentou ainda aproveitar o viés da exploração espacial para tornar novamente relevante seu personagem, porém, seu trabalho com o Spirit, que já vinha ganhando suporte de outros profissionais como Jerry Grandenetti, Jules Feiffer, Wally Wood e Jim Dixon, acabou chegando a um final em 1952.

Mais tarde, já nos anos 1960, Eisner encontrava-se em conflito com os novos responsáveis pela produção de seu conteúdo na ''P*S Magazine'', para a qual trabalhava desde então, mantendo um taxa de serviço constante do autor para o preparo de segmentos de características técnicas para os soldados do exército, em meio à crise no mercado editorial dos quadrinhos. Durante a Guerra do Vietnã, o volume de trabalho oferecido a Eisner era o suficiente para que ele pudesse sustentar sua casa e conquistar maior segurança financeira, porém, os movimentos antiguerra o faziam balançar sobre o que separava seus manuais voltados para o uso adequado do maquinário militar (que salvava vidas de soldados) com guias para executar inimigos. A experiência que Eisner viveu em Saigon, quando o exército norte-americano ainda ocupava grande parte do território do Vietnã do Sul, foi determinante ao mostrar-lhe o horror do campo de batalha real, uma vez que a experiência militar de Eisner ainda era muito limitada ao serviço burocrático e administrativo nos centros nervosos das Forças Armadas, dentro dos próprios Estados Unidos. Eisner estava passando por uma séria reavaliação sobre sua experiência com a produção para o Governo nesse sentido.

A grande mudança, porém, que o trouxe de volta para o ramo dos quadrinhos se deu em 1971. Convidado pelo organizador Phil Seuling para participar de uma convenção de leitores dos novos comix, revistas de linha independente com teor adulto e que eram distribuídas e vendidas em lojas de medicamentos farmacêuticos até então ilegais no país, e do material clássico publicado nas revistas e suplementos de quando seus pais eram crianças, Eisner demonstrou interesse em ver como o mercado estava se reestruturando diante da nova realidade da sociedade. Lá, ele conheceu o jovem editor Denis Kitchen, que viria a se configurar como um dos grandes nomes do quadrinho underground pelo seu trabalho diferenciado como editor do ramo (seu esquema de distribuição para as lojas, sua política de pagamento de royalties aos autores, além da devolução dos originais para os devidos responsáveis por eles e a manutenção particular dos direitos autorais). Juntos, Eisner e Kitchen chegaram a um acordo para republicar a saga do Spirit, aproveitando a onda de interesse dos leitores por conteúdos que transgredissem as normas vigentes nos quadrinhos das grandes editoras como a Marvel e a DC já o eram. Kitchen, que já publicava histórias de Robert Crumb, Harvey Kurtzman e Art Spiegelman, ficou extasiado de felicidade com a oportunidade de trabalhar com uma das lendas vivas do quadrinho na Era de Ouro como era Eisner (o pioneirismo de Eisner, inclusive, foi comentado também, aqui no blog), e este se viu animado em participar de uma nova etapa do mercado editorial de revistas, que passava por uma repaginação de forma estrutural e temática.

Denis Kitchen, em frente à entrada para a exposição de Will Eisner, na Rio Comicon de 2011
Poucos anos depois, Eisner acabou transferindo a publicação para a empresa do editor Joe Warren, a Warren Publishing, com quem já havia trabalhado mais de uma década antes e havia autorizado republicar algumas de suas histórias do Spirit na revista de humor ''Help!''. Comandado por W. B. DuBay, editor que já havia conhecido Eisner em uma entrevista de emprego para a ''P*S Magazine'', Eisner viu a publicação bimestral das histórias de Denny Colt decolar. Kitchen ficou levemente ressentido pela perda do título de Eisner, mas compreendeu a opção do autor por uma empresa que pudesse publicar seu conteúdo em formato mais adequado em termos de tamanho, distribuição nacional e qualidade técnica, além de que Eisner recusara a oferta da Marvel para lançar seu personagem pelas exigências de conteúdo inédito e as burocracias recorrentes em editoras de maior porte. A amizade dos dois se manteve e rendeu frutos para a indústria de livros e revistas em 1974, quando, além de tornar a ser a responsável pela publicação do Spirit, a Kitchen Sink deu vazão aos primeiros experimentos de Eisner com material novo, como ''The Spirit's Casebook of True Haunted Houses and Ghosts'', livro de prosa narrado pelo personagem clássico sobre histórias de teor sobrenatural e fantasioso, e ''The Invader'', história inédita criada por Eisner junto de jovens aspirantes a quadrinistas para o Spirit.


Em 1978, Eisner já dava aulas na School of Visual Arts, uma instituição em Manhattan dedicada às artes plásticas e comerciais, tinha seu próprio selo editorial, a Poorhouse Press, lançava regularmente material em torno do Spirit pela Kitchen Sink e conteúdo didático em quadrinhos pela Scholastic Books. Ainda assim, ele resolveu ir além da visão padronizada por quadrinhos e iniciou o mercado de graphic novels com ''Contrato com Deus'', material que carregava muita carga emocional do próprio autor em suas páginas acerca da perda de sua filha mais nova décadas antes (acontecimento que o marcou profundamente e que ele manteve em segredo até o lançamento, em 2006, de um volume especial incluindo esta obra e algumas outras de suas histórias passadas na Avenida Dropsie, no qual apresentou a sua experiência de perda pessoal de forma pública no prefácio deste). Publicada pela Baronet Books, após uma série de negociações editoriais, a obra revolucionou o mercado de quadrinhos apresentando-o ao universo literário presente nas livrarias. Passada a crise mercadológica experimentada pela obra com a dificuldade de sua categorização nos pontos de venda, os quais não sabiam se o colocavam entre as obras de cunho ficcional, aos materiais religiosos ou entre as revistas em quadrinhos tradicionais, o gênero revolucionou a indústria e apresentou uma vertente de potencial criativo que é observado e praticado com muito valor e qualidade até os dias de hoje.

A partir, então, da publicação do Spirit, que Eisner começou gradativamente a apresentar novas perspectivas que os quadrinhos ofereciam aos seus profissionais, com um uso mais qualificado dos elementos gráfico-textuais e posteriormente um desenvolvimento mais dedicado e profundo das histórias humanas apresentadas nos quadrinhos. A revolução da arte sequencial de Will Eisner se iniciou muito antes da sua cunhagem do termo, antes também do lançamento original da sua primeira graphic novel e antes, até, do amplo escopo potencial que a mídia oferecia em termos didáticos, contempladores e de entretenimento observado por Eisner. Tudo se iniciou na composição realista na qual formou seu único herói mascarado, muitas vezes mais coadjuvante das histórias que protagonista propriamente dito, mas sempre símbolo de justiça e luta pelos mais fracos.

O Planetário da Gávea, no Rio de Janeiro, irá realizar, em homenagem a essa data comemorativa dos três quartos de século do personagem de Eisner uma série de atividades no dia 15 de maio, a partir das 17h30. O evento contará com palestra, exibição de curtas e discussão com grandes nomes do meio gráfico como Carlos Patati, ávido estudioso da nona arte e roteirista; Ricardo Leite, designer responsável por produções de diversas frentes diferentes, desde capas de discos até a logomarca do Rio 450 anos; Marcelo Martinez, autor da capa da biografia ''Will Eisner - Um Sonhador nos Quadrinhos'' publicada em 2013 pelo selo Biblioteca Azul, da editora Globo; Marisa Furtado de Oliveira, diretora e produtora do elogiado documentário ''Will Eisner - Profissão Cartunista''; Heitor Pitombo, jornalista colaborador de diversas publicações acerca dos quadrinhos, entre elas, a revista ''Mundo dos Super-Heróis''; Esse Lobo, editor responsável pela antiga editora Barba Negra; e Roberto Ribeiro, diretor da Casa 21, que organizou as edições da Rio Comicon em 2010 e 2011 (ambas cuja cobertura completa pode ser conferida aqui no blog). Prevista para durar até o fechamento do Planetário, às 22h, o evento busca destacar o feito do personagem e as revoluções promovidas na mídia por seu criador. A entrada e o estacionamento serão gratuitos e o convite é estendido a todos os interessados em aprender um pouco mais da história dos quadrinhos e/ou admiradores da arte sequencial que queiram comemorar juntos essa marca tão especial. A página do evento no Facebook pode ser conferida aqui, e quaisquer dúvidas acerca dele podem ser esclarecidas por lá.


A quem mais tiver interesse de saber um pouco mais sobre o período entre 1940 e 1952 de Will Eisner a cargo do Spirit, vale conferir o interessante artigo de Michael Barrier, que pode ser conferido, em inglês, aqui.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

A Despedida do Xaxado

Por Gabriel Guimarães


A cidade de Miguel Calmon, na Bahia, perdeu hoje, pela manhã, um de seus filhos mais ilustres. O quadrinista Antônio Luiz Ramos Cedraz, criador dos personagens da Turma do Xaxado, faleceu aos 69 anos, vítima de câncer no intestino, deixando para trás um legado de imenso valor, principalmente no que se refere à abordagem que trazia para elementos do cotidiano do Nordeste brasileiro, além de uma profunda admiração pelos profissionais brasileiros que trabalhavam com a arte sequencial, como Waldyr Ygaiara, Gedeone Malagola, Júlio Shimamoto e Maurício de Sousa.

Apaixonado pelo desenho desde seus 16 anos, Antônio se formou e ocupou a posição de professor de Ensino Fundamental na cidade de Jacobina, tornando-se funcionário do Banco Econômico pouco depois, profissão esta que seguiu até se aposentar. Com o resguardo financeiro adquirido ao longo de sua carreira, investiu no Estúdio Cedraz, onde retomou a produção de muitos personagens que fora criando ao longo dos anos. Tendo sido premiado no 2º Encontro Nacional de Histórias em Quadrinhos, realizado em 1989 na cidade do Araxá, Minas Gerais, Cedraz foi chamado pelo jornal "A Tarde", de Salvador, para produzir tirinhas de forma regular a partir de 1998.

Seus personagens Xaxado, Zé Pequeno e Marieta, entre outros, foram obtendo sucesso junto aos leitores e acabaram ganhando publicação por editoras como Escala e HQM, chegando até a protagonizar cartilhas para o Estado sobre métodos de prevenção de doenças, além de contínuos estímulos ao respeito ao próximo, o voto consciente e à escolarização dos jovens. Após um período de grande reconhecimento pelos críticos, em que o autor foi premiado com quatro Prêmios HQmix (1999, 2001, 2002 e 2003), Cedraz ainda viu seus personagens receberem apoio da UNESCO. Em meio a essa premiação, Antônio ainda foi premiado com o Prêmio Ângelo Agostini por sua colaboração para os quadrinhos brasileiros (premiação esta restrita apenas àqueles com, pelo menos, 25 anos de trabalho dedicado ao meio). Em 2015, inclusive, o autor seria um dos grandes homenageados do IX Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), em Belo Horizonte.


Cedraz não tinha, contudo, uma estrutura que lhe permitia ir tão além como ele pretendia com sua criação. Ele sempre se mostrou reticente com a preferência do mercado editorial brasileiro de publicar conteúdo estrangeiro ou centralizado no eixo Rio-São Paulo. Em suas entrevistas, ele sempre reafirmava seu desejo de dar voz aos tipos brasileiros esquecidos pelas grandes mídias, acendendo uma consciência social em seus personagens e transmitindo várias facetas da cultura dos nordestinos que acabavam sendo marginalizados ou estereotipados tradicionalmente. Cedraz foi um destemido defensor da cultura genuinamente brasileira, e seu legado, algo muito além de seus personagens e de sua produção gráfica, há de permanecer vivo em cada um de seus muitos leitores, amigos e admiradores. O Xaxado perdeu seu principal cangaceiro, mas a dança não pode parar, e nem deve.

Há, ainda, uma entrevista concedida pelo quadrinista baiano à escritora pernambucana Michelle Ramos, realizada entre fevereiro e março de 2007 para o site "Recanto das Letras", que pode ser conferida aqui, para quem tiver interesse.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Um Castelinho Para Tezuka

Por Gabriel Guimarães


Foi inaugurada, em 17 de dezembro de 2013, a exposição "Tezuka, o Rei do Mangá", no Centro Cultural Municipal Oduvaldo Vianna Filho, mais popularmente conhecido como o Castelinho, entre os bairros do Flamengo e do Largo do Machado, no Rio de Janeiro. Contando um pouco do processo artístico do animador e quadrinista japonês Osamu Tezuka, responsável por revolucionar a narrativa gráfica tanto no seu formato impresso como na sua composição audiovisual, a exposição traz para o público brasileiro um pouco dos conceitos que o autor trazia de mais importantes em sua formação enquanto artista profissional.

Tezuka desenhado junto de seus carismáticos personagens
Tendo sido o criador de muitas das grandes obras que se tornariam clássicas do estilo mangá, o trabalho de Tezuka criou os alicerces no qual quase toda a produção posterior de histórias em quadrinhos se baseou nas décadas seguintes no Japão, apresentando boa dinâmica gráfica, estudos detalhados de texturização e tramas com personagens profundamente humanos, ainda que muitos fossem máquinas, como é o caso de seu jovem Astroboy e de Michi, protagonista de sua história de ficção científica "Metrópolis". Dedicando-se a aproximar o leitor das histórias que apresentava, Tezuka trabalhou temas como preconceito, dependência tecnológica, responsabilidade e identidade com grande propriedade, tornando-se um pioneiro na abordagem de alguns desses temas.


Trecho de uma das entrevistas disponíveis
A exposição, que vai até o final de março, apresenta ainda uma série de curtas experimentais produzidos por Tezuka no terceiro andar do prédio e, também, duas entrevistas dadas pelo autor acerca de sua carreira na animação japonesa. Dispondo de tempo para assistir todos, o visitante sai de lá com uma boa perspectiva dos elementos mais importantes para o grande quadrinista japonês e ainda tem a oportunidade de conhecer um pouco mais de sua história de vida e de seu papel para todo a indústria de animação japonesa, em franca expansão há décadas.


A entrada do evento é gratuita e ele está aberto à visitação de terça a domingo, das 10 às 18 horas. O programa, ainda que mais focado na veia de animação de Tezuka, é um evento bastante interessante e recomendado também para os fãs da arte sequencial, para que possam conhecer um pouco mais de um dos grandes mestres desse meio, que faleceu em 1989, mas cujo trabalho continua pertinente e em voga até os dias de hoje.


domingo, 12 de janeiro de 2014

Sonho, Dedicação e Saudade

Por Gabriel Guimarães

Antonio Luiz Cagnin, Waldomiro Vergueiro, Sonia Bibe Luyten,
Moacy Cirne e Álvaro de Moya, da esquerda para a
direita, respectivamente

Ontem, dia 11 de janeiro de 2014, o rol de estudiosos da nona arte perdeu um de seus grandes representantes nas terras tupiniquins. Aos 70 anos de idade, o professor aposentado da Universidade Federal Fluminense, Moacy Cirne, faleceu após uma parada cardíaca decorrente de uma cirurgia a qual fora submetido para tratamento de hepatite, conforme noticiado à tarde pelas páginas online dos jornais "Tribuna do Norte" e "O Globo". Com uma vasta bibliografia dedicada ao estudo da arte sequencial, seus elementos semióticos e aspectos sociopolíticos, Cirne deixa um legado de importância incalculável para os admiradores das histórias em quadrinhos, que tiveram nele um de seus mais empenhados pesquisadores.
 
Autor de obras como "Bum! - A Explosão Criativa dos Quadrinhos" (1970), "História e Crítica dos Quadrinhos no Brasil" (1990) e "Quadrinhos, Sedução e Paixão" (2001), dentre tantos outros, Cirne nasceu na cidade de Jardim do Seridó em 1943, tendo se mudado para a parte baixa da rua Coronel Martiniano ainda aos 2 anos, na cidade de Caicó. Impressionado desde sempre pela dinâmica envolvente das revistas em quadrinhos que adquiria com seu vizinho Benedito, que trazia os materiais de Recife e os vendia frente à sua casa todas as quintas-feiras e admirado também pelas obras cinematográficas apresentadas no cinema Pax, Cirne iniciou uma carreira de grande destaque acadêmico, se tornando figura conhecida publicamente a partir de sua parceria com a editora Vozes, localizada em Petrópolis, no começo da década de 1970. Lá, ele exerceu a função de secretário de redação, aprofundando seus conhecimentos acerca da semiótica, da semântica e dos movimentos literários, ainda que já fosse parte fundamental da vanguarda artística que inaugurou o poema-processo enquanto forma de expressão, no ano de 1967.
 
Dedicando-se à poesia e ao estudo da narrativa gráfica, Cirne trabalhou em diversos artigos ao longo das décadas seguintes, trazendo para o leitor seu posicionamento firme quanto ao poder do formato em termos de divulgação ideológica e sua crítica acerbada sobre o predomínio norte-americano no consumo de quadrinhos nos mercados latinos. Sua análise sobre os elementos formadores da mídia, exemplificados majoritariamente por materiais europeus, foram de grande relevância para uma maior abertura dos campi universitários para os quadrinhos enquanto objeto de estudo. Seu último livro, "Seridó Seridós", que tratava de sua infância e formação nos arredores da ponte do Rio Barra Nova, à beira da estrada para o Itans, com muita poesia e sinceridade, foi lançado no último dia 14 de dezembro, e carrega em si talvez parte daquilo que compôs um dos maiores pesquisadores brasileiros da indústria de quadrinhos mundial.
 
Cena da história "Reco-Reco,
Bolão e Azeitona", de Luiz Sá,
recolorida digitalmente
A notícia do falecimento de Cirne vem poucos meses depois da perda de outra importante figura no mesmo campo de estudo acadêmico. Fundamental no reconhecimento do artista ítalo-brasileiro Ângelo Agostini como um dos precursores das histórias em quadrinhos enquanto meio de comunicação de massa, o professor Antonio Luiz Cagnin faleceu no dia 9 de outubro de 2013, vítima de um infarto fulminante durante uma reunião de colegas no Embu das Artes, em São Paulo. Nascido no bairro de Araras, Cagnin se apaixonou pela nona arte desde seu contato com a obra "Reco-Reco, Bolão e Azeitona", do desenhista cearense Luiz Sá, que participou da revista "O Tico-Tico" durante o período em que o conteúdo da revista que vinha do exterior sofria com atrasos e problemas de transporte decorrentes do período da Primeira Guerra Mundial. Cagnin, então, se empenhou no magistério, saindo de casa aos 15 anos para trabalhar no Instituto Tecnológico da Aeronáutica, localizado em São José dos Campos, e dando aulas de línguas no tempo sobressalente.
 
Antonio Luiz Cagnin
Durante seu período de pós-graduação na USP, a partir de 1972, Cagnin vivenciou com bastante gana o Congresso Internacional de Quadrinhos, realizado em São Paulo por artistas brasileiros, como o futuro estudioso Álvaro de Moya, fazendo contato com professores da França e da Itália acerca do estudo aprofundado da arte gráfica na narrativa de histórias, sendo posteriormente convidado para participar da Organização de Professores de Quadrinhos, organizada pelo professor Francisco Araújo, da faculdade de Brasília. Participante ativo nos congressos posteriores, realizados na Bordighera e Lucca, ambas em terras italianas, Cagnin viria a se tornar professor efetivo da USP apenas em 1984, no setor de semiologia na Escola de Comunicações e Artes.
 
Já tendo publicado em 1975 o livro "Os Quadrinhos", na série "Ensaios", da editora Ática, Cagnin encontrou na seção de obras raras da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro  "As Aventuras de Nhô Quim" e "As Aventuras do Zé Caipora", ambas produzidas pelo ítalo-brasileiro Ângelo Agostini e publicadas no jornal "Vida Fluminense", no ano de 1869. Observando mais atentamente o trabalho de Agostini, Cagnin se deu conta da aferição imprecisa do artista apenas como caricaturista, título que  lhe fora atribuído devido ao estudo feito pelo contista e historiador Herman de Castro Lima sobre o tema, durante a década de 1960. Cagnin explorou o restante do material produzido por Agostini e conseguiu realizar, em 1994, uma exposição sobre o artista nas instalações da USP na rua Maria Antonia, com apoio do consulado italiano. A repercussão da exposição foi enorme, percorrendo várias cidades brasileiras , além de muitos pontos ao redor da Europa, onde hoje é guardada no Centro de Estudos do Bordalo Pinheiro, em Portugal.
 
Cirne e Cagnin foram homens que dedicaram muito de suas vidas ao reconhecimento da arte dos quadrinhos e de seus representantes, valorizando a contribuição humana e cultural promovida por esse meio, e o material que eles nos permitiram ter acesso hoje, é certamente uma ferramenta de valor inestimável para uma visão ampla e acertada sobre o cenário brasileiro no campo da produção na nona arte. Suas palavras farão falta, mas seu empenho, dedicação e, acima disso, seus sonhos de validação da mídia, permanecerão vivos em cada um de nós em nossa jornada. 
 
Àqueles que tiverem interesse, a matéria sobre o falecimento do professor Moacy Cirne pode ser conferida no link aqui. Uma valiosa entrevista realizada com o professor Antônio Luiz Cagnin, realizada em 2010, também pode ser conferida no site "Bigorna 3.0", que pode ser acessado por aqui.

sábado, 6 de abril de 2013

100 Aventuras de Uma Criminóloga

Por Gabriel Guimarães

 
Capa da centésima edição de "J. Kendall -
Aventuras de Uma Criminóloga"
A editora Mythos lançou recentemente aqui no Brasil a 100ª edição da revista mensal "J. Kendall - Aventuras de Uma Criminóloga", que narra as investigações da perita em psicologia criminal Julia Kendal em casos onde colabora com a polícia de Garden City, em Nova York. Criada pelo italiano Giancarlo Berardi em outubro de 1998, a personagem ganhou grande destaque no acervo da editora italiana Bonelli ao longo da última década. Sempre mostrando o cotidiano de uma personagem feminina segura, inteligente e perspicaz, as história de Júlia ganharam leitores de ambos os sexos em vários países ao redor do mundo, quebrando muitos paradigmas que existiam na indústria e estabelecendo um novo rosto para a luta da maior participação da mulher nos ambientes de trabalho normalmente ocupados apenas por homens. Este rosto, entretanto, não é algo inteiramente novo.
 
Capa da primeira edição da
personagem no Brasil
Inspirada fisionomicamente na atriz Audrey Hepburn, Júlia possui traços delicados que contrastam dos ambientes obscuros e carrancudos nos quais a maior parte de seus casos acontece. Munida de uma vasta bagagem intelectual, porém, ela supera os obstáculos que cada caso lhe apresenta e evolui, crescendo em seu papel tanto dentro da delegacia quanto dentro da universidade onde dá aulas. Sempre aconselhada por sua amiga Emily, cuja aparência também é inspirada em outra atriz norte-americana, Whoopie Goldberg, Júlia também experimenta incertezas quanto à sua vida pessoal e familiar, que ajudam os leitores e leitoras a se relacionar mais profundamente com ela, ao mesmo tempo em que se veem instigados pelos mistérios e enigmas que a protagonista precisa desvendar.
 
Uma das edições especiais da série
A mais ferrenha, porém, das lutas travadas por Júlia se deu nos bastidores brasileiros de sua publicação. Lançada em novembro de 2004 nas terras tupiniquins com muita pompa junto ao público aficionado da arte sequencial mundial, após apenas quatro edições, a revista teve que passar por sua primeira grande mudança, trocando seu nome de "Júlia - Aventuras de Uma Criminóloga" para "J. Kendall - Aventuras de Uma Criminóloga", por questões relacionadas aos direitos autorais atrelados à editora Nova Cultural quanto ao uso desse particular nome feminino no título de seus romances de linha. Alguns anos depois, em julho de 2010, a série enfrentou um outro problema que quase cancelou sua publicação definitivamente: o baixo número de vendas. Após o anúncio oficial de que a série sofreria uma interrupção para planejamento editorial, o alvoroço dos leitores nas redes sociais e em fóruns de discussão sobre a nona arte acabou chamando a atenção dos editores responsáveis pela revista, que lhe deram mais quatro edições de sobrevida para ver se o rendimento mudaria. Conforme as edições foram sendo lançadas, as vendas cresceram e a série conseguiu se firmar como publicação fixa da Mythos desde então. Hoje, cerca de 30 edições depois da época mais sombria que a personagem precisou encarar, é um grande prazer observar o sucesso dos mistérios criados por Berardi, que chegaram até a ganhar 5 edições especiais além do modelo mensal.
 
 
Publicada desde seu início no formato 13,5cm x 17,5cm, a série manteve sempre seu rendimento em termos de qualidade de traço e quantidade de páginas, fixada em 132, atraindo novos leitores e expandindo a experiência dos grandes fumetti italianos no Brasil. A qualidade do papel, que se assemelha ao utilizado no país pelos principais jornais em circulação, nem sempre consegue fazer justiça ao conteúdo que é usado para transmitir, mas o cuidado com erros gráficos tem crescido nos últimos anos e gerdo bons resultados. Júlia, junto do aventureiro Ken Parker, representa a grande contribuição de Berardi para o universo dos quadrinhos, e somos todos muito gratos por esse legado. Que venham sempre mais mistérios e emoções pela frente.
 
A quem tiver interesse, o site Universo HQ destacou também o feito da criminóloga dos quadrinhos, comentando, inclusive, os planos da editora Mythos para o futuro da publicação, que ainda não são exatamente ideias para a revista, mas que podemos esperar na torcida que a situação da editora melhore. A matéria em questão pode ser conferida aqui.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

50 Anos de Mônica

Por Gabriel Guimarães

Evento organizado para anunciar as comemorações do aniversário
de 50 anos da Mônica, no Memorial da América Latina, em São Paulo
Nesta última terça-feira, dia 26 de fevereiro, a mais conhecida personagem brasileira de histórias em quadrinhos, Mônica, alcançou a grandiosa marca de 50 anos de sua criação. Criada por Mauricio de Sousa como uma personagem secundária das tirinhas do Cebolinha a partir de sua filha homônima, carregando em si muitas das características desta, a Mônica pode ter começado muito longe dos holofotes, porém, hoje ela ocupa uma posição de fundamental importância para a história da arte sequencial.
 
Maurício e sua grande criação
Apresentada originalmente em 1963 como irmã do personagem Zé Luis, a então mais enfesada e arquétipa Mônica passou a ser elemento recorrente nas histórias do então protagonista Cebolinha, sempre perseguindo-o com seu coelhinho azul para se defender das ofensas que recebia. Por meio de pedidos do público leitor, a personagem foi perdendo a veia violenta que apresentava e passou a conquistar os corações de todos, se tornando, de fato, a personagem principal no começo dos anos 1970.
 
Com o tempo, veio a consagração, com o amor dos leitores de todos os estados brasileiros, a internacionalização da marca criada por Mauricio de Sousa e a formação, desta forma, dos estúdios dedicados à produção de histórias protagonizadas pela personagem e seus muitos amigos, e até o reconhecimento mundial enquanto defensora dos direitos das crianças e dos valores humanitários, se tornando embaixadora da UNICEF. A história de sucesso é inquestionável e minuciosamente valiosa para que o rosto da Mônica e a figura de seu coelhinho de pelúcia se tornassem elementos inerentes à cultura brasileira, e o crescente mercado para o material criado por Mauricio demonstra bastante isso.
 
Ontem, em função das devidas e merecidas comemorações deste grande feito atingido pela baixinha, gorducha, dentuça e carismática de vestidinho vermelho mais amada do Brasil, os estúdios MSP anunciaram uma grande leva de novidades, presenteando os leitores, que foram parte tão importante dessa jornada de tantos anos. Além de uma edição especialmente acabada que será publicada pela Panini no número 75 da revista mensal da personagem, que contará com a republicação da primeira aparição da personagem, foi anunciado um volume especial que contará com a participação de 150 artistas brasileiros para homenagear a Mônica, nos mesmos moldes da excelente trilogia "MSP50".

Boneca da Mônica da década de 1970 que será relançada pela Multibrink
O Sansão original, que
era amarelo
Para os colecionadores de carteirinha, foram anunciados também o relançamento de coleções clássicas da personagem, que estavam esgotadas há décadas. A Multibrink anunciou que irá relançar a primeira versão da boneca da Mônica, lançada nos anos 1970 pela fabricante Troll, a qual pode ser conferida acima, a Grow confirmou que estará disponibilizando novamente o brinquedo da Estrelinha Mágica, que fizera muito sucesso com o público juvenil na década de 1980, a partir do filme "Turma da Mônica e a Estrelinha Mágica", o qual pode ser conferido abaixo, além da Mileno, que anunciou o ítem mais luxuoso, uma cópia do coelho de pelúcia original da Mônica real, filha de Mauricio de Sousa, que era originalmente amarelo. Para maiores detalhes sobre esses e outros lançamentos anunciados para comemorar o feito da personagem de Mauricio, o site do nosso parceiro Eduardo Marchiori oferece uma descrição extremamente minuciosa que vale a pena ser conferida. Ele pode ser acessado aqui. O SPTV da Globo também fez uma matéria bastante interessante comentando do evento, que pode ser conferido aqui.




Olhando para trás, a história dos quadrinhos brasileiros talvez dificilmente se distingue da história dessa tão amada protagonista. A Mônica mudou de editora, de estilo de desenho e até de idade ao longo dos anos, mas algo que sempre permaneceu constante foi sua importância para a história da nona arte e o seu papel fundamental na instrução e formação de centenas de milhares de brasileiros ao redor de todo o país. Por essa razão e muitas outras mais, nós do "Quadrinhos Pra Quem Gosta" desejamos um aniversário maravilhoso para a personagem mais amada da história dos quadrinhos brasileiros e que a incrível jornada iniciada em 1963 permanceça rendendo frutos de inigualável sabor e resultado para todos os muitos habilidosos profissionais envolvidos na contínua publicação de histórias dos personagens de Mauricio. Fica igualmente um voto de respeito e agradecimento sincero ao tão talentoso padrinho da arte sequencial no Brasil, cuja história é exemplo de sucesso e superação de obstáculos, e cujo bom humor pode ser sentido sempre que ele está presente. Parabéns, Mônica! Parabéns, Mauricio!