sexta-feira, 30 de março de 2012

Solanin - Ode Solene à Despedida da Inocência

Por Gabriel Guimarães


Inio Asano

Entre os anos de 2005 e 2006, o quadrinista japonês Inio Asano apresentou sua obra que viria a ter maior repercussão dentre suas criações. Centrada no rito de passagem para a vida adulta da jovem Meiko Inoue, a obra "Solanin" apresenta uma sensibilidade ímpar quanto às inseguranças do crescimento e aos anseios e batalhas pela realização de sonhos.

Ambientada no período pós-término de faculdade dos personagens, em Tóquio, ao mesmo tempo em que apresenta algumas cenas relacionadas ao tempo em que estes estudavam na faculdade de Tamagawa, onde se conheceram, a história apresenta um ritmo de leitura extremamente tranquilo e de fácil identificação. Perante o abismo do mistério que representa a vida adulta, Asano apresenta os questionamentos vividos pelos jovens japoneses que não querem apenas serem mais um em meio a um mundo mecanizado. A fim de fugir da rotina frustrante e dos constantes desentendimentos entre suas expectativas e a realidade, é que Meiko decide abandonar seu emprego numa firma para se dedicar a algo que nem mesmo ela sabe explicar o que é. A partir deste momento é que passamos a acompanhar a jornada dela e de seu namorado e companheiro de apartamento, Naruo Taneda.

Grupo tocando num dos ensaios da banda formada por
Taneda, Kato e Yamada
Observando as reações dessa atitude naqueles ao seu redor e em sua família, que é de uma província mais do interior do país, Meiko passa por um período de descobertas e redescobertas, onde encara todas as nuances do mundo em que vive, principalmente através do seu relacionamento amoroso. Taneda, o outro grande protagonista da história, trabalha como freelancer para uma empresa, realizando tratamento de imagens em trabalhos que serão veiculados para o grande público, mas igualmente, não possui qualquer paixão real pela atividade. Quando encara a realidade do pedido de demissão de Meiko, ele também inicia uma jornada de amadurescimento e busca por realização. Contando com o apoio invariável de seu círculo de amigos, formado pelo imaturo Kenichi Kato e sua namorada por insistência Ai Kotani, e do igualmente imaturo porém mais sério Jiro Yamada, mais conhecido pelo apelido "Billy", o casal passa por experiências marcantes na formação de seu caráter e na própria concepção da união dos dois, que já durava mais de seis anos.

Decidindo ir atrás do sonho principal do grupo, de formar uam banda e transformar o mundo de alguma forma através de sua música, o grupo passa a se reunir para praticar junto e começa a procurar oportunidades junto às grandes gravadoras, encarando, de forma inesperada, a mesma burocracia da qual a vida parecia encher-lhes o tempo e esvaziar-lhes de esperança. Em momentos de grande conflito psicológico, é possível ao leitor crescer junto com seus personagens, elemento o qual é peça essencial das grandes obras, independente da mídia em que é apresentada. Com muito humor, drama, romance e toques de nostalgia, "Solanin" ganha status de uma história que merece ser lida devido ao seu alto nível de sensibilidade sobre o assunto trabalhado. A fim de não estragar a leitura da obra para o leitor, o que de forma alguma pretendemos fazer no blog Quadrinhos Pra Quem Gosta, não revelaremos ou comentaremos sobre alguns excelentes momentos chave da história, entretanto, deixamos aqui nossa sincera e veemente recomendação pela leitura desse material. Publicado no Brasil no ano passado pela editora L&PM em dois volumes de pouco mais de 200 páginas cada, reunindo os 28 capítulos da história (o excelente trabalho recente que a editora L&PM vem realizando com as histórias em quadrinhos, diga-se de passagem, ainda será tema de matéria específica aqui no blog), o trabalho é surpreendentemente pouco conhecido no mercado ocidental, apesar de ter concorrido ao Prêmio Eisner, em 2009, por melhor edição de material estrangeiro publicado nos Estados Unidos.
Capa da versão do mangá lançado no Brasil
Pôster do filme no Japão


Adaptado para o cinema japonês em 2009, com a consagrada atriz Aoi Myiazaki no papel de Meiko, e sob a direção de Takahiro Miki, "Solanin" possui em si um caráter sublime. O primeiro trecho do filme pode ser conferido no site Dramacrazy, que pode ser acessado aqui. Curiosamente esquecido na lista do livro "1001 Comics You Must Read Before You Die", publicado ano passado pela editora Cassell Illustrated, que apesar de ser uma editora dos Estados Unidos, contou com a colaboração de Tatsuya  Seto, renomada crítica de quadrinhos no Japão, Chie Kutsuwada, entusiasta do mangá e graduando da Escola Real de Arte, em Londres, sem contar o próprio organizador do livro, o americano Paul Gravett, autor do livro "Mangá - Como o Jaão Reinventou os Quadrinhos", a obra de Inio Asano não merece ser relevada, figurando entre estas grandes recomendações com igual merecimento.

O mangá de Asano é, portanto, uma ode ao adeus para a inocência, da fase da vida em que tomamos as principais decisões sobre nossos sonhos e do que estamos dispostos a fazer para ir atrás deles. Tanto na história, quanto em suma, "Solanin" é uma despedida, melodia com a qual a vida segue seu caminho e transforma as pessoas, das formas mais inesperadas possíveis. Simplesmente inesquecível e arrebatadoramente tocante.


NOTA GERAL: 5 ESTRELAS.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Quando o Humor Perdeu a Graça

Por Gabriel Guimarães

Chico Anysio
Em menos de uma semana, a cultura popular brasileira perdeu dois de seus maiores mestres. Donos de habilidade ímpar sobre fazer os outros rirem, Chico Anysio e Millôr Fernandes concluíram sua passagem por esse mundo deixando marcas em todos aqueles que tiveram o prazer de conhecê-los ou assistirem às suas apresentações, independente da plataforma, voltadas para o humor puro e simples.


Nascidos em uma época de grande potencial para o humor político, ambos iniciaram suas carreiras, porém, com dedicação a campos mais tradicionais, como o locutor de jornal no caso de Chico e assistente de produção da revista "O Cruzeiro", no caso de Millôr. A notoriedade começou a ganhar forma depois na vida dos dois humoristas. Escrevendo sob o pseudônimo 'Notlim', Fernandes passou a assumir posições mais distinguidas dentro da hierarquia editorial, assuminando a direção da revista "A Cigarra", onde ganhara um concurso público de contos. Pouco depois, tornou-se o responsável também pela renomada revista "O Guri", publicada pelo editor Frederico Chateubriand no começo da década de 1940.  Chico, por outro lado, começou participando de concursos para locutor de rádio junto de sua irmã, ainda aos seis anos, alcançando, porém, aos 17 anos, sua melhor colocação, em segundo lugar, atrás apenas de um outro jovem que começava a mostrar seu potencial para o manejo social que viria a consagrá-lo em absoluto no futuro, Sílvio Santos. Trabalhando em vários setores da Rádio Guanabara, Chico começou a se arriscar escrevendo diálogos para peças promocionais, e em 1957, estreou pela primeira vez na frente das telas, no programa "Noite de Gala".

Millôr em seu escritório. A importância dos quadrinhos em sua
vida foi um dos fatores que o cartunista mais destacou ao longo de sua vida

"Chico City" foi um dos programas mais populares feito por
Chico Anysio, que estreou em 1973 e durou até 1980
Antes, porém, de Chico alcançar o estrelato televisivo, seu companheiro de campo Millôr se consagrou enquanto profissional dos mais diversos meios de comunicação, a partir de seu empenho, quando aprendeu, por exemplo, a ser tradutor a partir de seus próprios conhecimentos, sem orientação de outrem. Ao mesmo tempo, escreveu peças, artigos e produziu caricaturas para as publicações da época, chegando, ainda aos 18 anos, a participar da Exposição Internacional do Museu da Caricatura de Buenos Aires. Curiosamente, no mesmo ano em que o rosto de Chico Anysio se tornava conhecido na televisão, Millôr recebeu sua primeira exposição particular no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Chico mostrou sua estrela nas participações iniciais e conseguiu seu próprio show para estrelar em 1959, sob o nome "Só Tem Tantã", que mais tarde viria a ser chamado de "Chico Anysio Show". Vale destacar também que em 1972, Chico Anysio chegou a ser publicado em quadrinhos também, a partir da alta popularidade de alguns de seus personagens.

Após uma série de prêmios, ambos estes grandes mestres do humor se consagraram como figuras facilmente reconhecidas e respeitadas no meio social, atingindo leitores de todas as camadas sócio-econômicas da população. Chico, através de seus cerca de 453 personagens e Millôr, através de seu instigante senso crítico, se tornaram ícones de uma geração carente da discussão suave e ponderada sobre os conflitos experimentados pela sociedade. Conforme Anysio destacou, em uma de suas últimas entrevistas, "o humor é tudo, até engraçado." Com uma frase simples como essa, mas poderosa em termos de conteúdo, todo o produto da vida destes dois mestre na arte do humor se torna semente para a transformação do mundo em um ambiente mais agradável para todos. O riso levado ao máximo de pessoas possível jamais será esquecido, e os livros, programas, artigos, entrevistas, entre tantas outras criações maravilhosas feitas por ambos não perderão sua validade nem seu valor.

Um dos muitos livros de Millôr,
cujo caráter político sempre esteve
em grande evidência
Usando do humor como ferramenta de conscientização social e de suas próprias histórias de vida como exemplo da superação de dificuldades, uma vez que Millôr perdeu seus pais muito novo ainda, quando foi morar com seus tios, aos 12 anos, e Chico veio para o Rio de Janeiro junto com sua família da cidade de Maranguape, do estado do Ceará, à procura de melhores condições de vida num centro urbano, estes dois mestres escreveram em linhas fortes suas mensagens e, conforme Fernandes destacou "viver é desenhar sem borracha." Ambos encararam grandes riscos em cada decisão que tomaram ao longo do caminho, e voltar atrás de algumas delas é um fato que nem sempre foi possível. Portanto, a consolidação de suas histórias de vida vitoriosas é reflexo do esforço e talento de ambos para com as áreas em que se envolveram. Obstáculos foram superados, erros foram cometidos, mas no final, tudo correu bem.

Hoje, consagramos a memória de mais do que estes dois profissionais modelo, mas sim de pessoas inestimáveis pelo seu desejo de ir além do que oferecido de bandeja. Perdemos mestres na arte de viver bem, mas ficamos com suas lições de vida e seus grandes bordões imortalizados em nossa memória. Citando novamente Chico, "a frase 'Todos são substituíveis' não se aplica aos humoristas, porque todos os humoristas são insubstituíveis. Jamais teremos outro Costinha, jamais teremos outro Oscarito, jamais teremos outro Mussum", complemento, sem hesitar, que jamais teremos outro Chico Anysio e jamais teremos outro Millôr Fernandes também. Obrigado por tudo e descansem em paz e em alegria, tamanha a que os dois causaram a seus grandes públicos.

O jornal "Correio Braziliense" apresentou um histórico da carreira de Chico Anysio muito interessante que pode ser conferido aqui, e o jornal "O Globo", onde Millôr mais consagrou seu material, também prestou uma merecida homenagem ao cartunista, que pode ser vista aqui também.

quarta-feira, 21 de março de 2012

A Poesia nos Quadrinhos

Por Gabriel Guimarães 


Seja no trovadorismo, no romantismo ou mesmo na pós-modernidade, a poesia sempre esteve presente na literatura. Por rima, tom lúdico e melódico, ou mesmo uma estética atípica e instigante, a essência da poesia sempre esteve no desejo mais profundo do ser humano, de almejar sonhos grandiosos e inspirados. Ao lidar com temas relativos ao cerne das emoções, passando pelas grandes aventuras e intensas paixões, esse gênero literário se consolidou como um dos mais belos e dos mais importantes para a complitude de uma vida textual para o leitor.

Mario Cau autografando
uma das edições de
"Nós - Dream Sequence Revisited"
Esteja presente nas cartas de amor do escritor Mark Twain para sua esposa Olivia Langdon, ou mesmo nas canções inesquecíveis do gênero musical da Bossa Nova, que se consolidou como melodia na década de 1960 na cidade do Rio de Janeiro, o amor tem sido, talvez, o grande desencadeador de poesias, e isso também pode ser encontrado nos quadrinhos. Histórias como "Meu Coração, Não Sei Por Quê", dos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, e a edição especial "Nós - Dream Sequence Revisited", do talentoso quadrinista Mario Cau (cujo lançamento na Rio Comicon de 2010 foi comentado aqui no blog), são alguns exemplos disso. Apesar de apresentarem tramas diferentes, ambas dançam com as emoções do leitor, trazendo-o para dentro do universo dos personagens e tornando-o parte fundamental da história, como o responsável por dar vida aos traços de nanquim em uma simples folha em branco. Brincando com a cor, inclusive, é que Cau explicita o vínculo de seu protagonista com seu amor, e brincando com a densidade da arte-final, por sua vez, os gêmeos também convidam o leitor a considerar o amor em meio à fantasia que compõe o mundo de sua história.

Representação do próprio Norman Rockwell sobre
a produção de sua arte
Entretanto, não é apenas ao romance amoroso que se resume a poesia. Seja por um pequeno detalhe em meio ao turbilhão de informações ao redor da vida social nos dias de hoje ou mesmo por uma reflexão momentânea e inesperada acerca de memórias, estamos sempre sob o efeito daquilo que esse gênero mais se preenche: sentimento. Praticamente tangível na sensibilidade do trabalho de Will Eisner quando este expõe a vida cotidiana nas grandes metrópoles e as relações entre as construções e as pessoas, que pode ser visto com grande perspicácia, por exemplo, em sua obra "O Edifício", a poesia pode estar presente tanto na nossa relação com o exterior a nós, quanto em momentos de intimidade e aconchego, como é possível observar nas ilustrações familiares do artista que tornou marcante visualmente o âmbito familiar, Norman Rockwell.


A semelhança é nítida entre Neil Gaiman e o protagonista de sua grande história
Igualmente importante é destacar a porta que a poesia nos abre para a fantasia do imaginário. Desprendido de sensos e consensos, em poucas linhas, retas ou tortas, o gênero pode nos levar muito além dos limites da visão e ampliar, dessa forma, nossas capacidades sensoriais de forma primorosa. Poucos se comparam nesse quesito ao do roteirista britânico Neil Gaiman, com sua obra máxima "Sandman", cuja abordagem e propriedades limitam-se apenas por aquilo que nomeia sua própria forma de apresentação: os sonhos. Lógicos ou não, agradáveis ou aterrorizantes, Gaiman realiza um mergulho na fonte da humanidade de seus personagens, atraindo para as páginas de suas histórias todas as características fundamentais de sua composição, desde seus desejos até suas falhas, suas glórias e decepções. Além dessa obra, Gaiman já explorou seu potencial narrativo de diversas outras maneiras, sem jamais, porém, abandonar sua mirabolante paixão pela fantasia. Obras como "Stardust" e "Coraline" são grandes exemplos disso.

Cena do trabalho de George Pratt sobre
as memórias da Primeira Guerra Mundial
Em outro aspecto passível da formação da poesia, encontra-se um estilo quase difícil de compreender sua exata conexão com o tema, representado na epopéia, grande formato das poesias épicas, em geral, cujo tema é relacionado a grandes aventuras épicas e envoltas em aspectos morais. Possível de encontrar em recentes adaptações da literatura para os quadrinhos, como o clássico "A Odisséia", de Homero, adaptado por Christophe Lemoine e Miguel Lalor Imbiriba, publicado recentemente numa excelente fase da editora L&PM aqui no Brasil, a partir de apoio da Unesco, ou mesmo em histórias sobre redenção e conflito durante as grandes guerras, como é o caso da edição "Ás Inimigo - Um Poema de Guerra", do quadrinista George Pratt, a poesia épica também oferece grandes oportunidades de enriquecimento pessoal para seus leitores.


Apesar da extensão para a poesia além das palavras feita aqui, o núcleo desse gênero que tanto nos toca vai além de determinados suportes, parando apenas onde nossa percepção e imaginação nos permite associar. Seja no leve assobio dos pássaros ou mesmo na suavidade de um beijo, a poesia se faz presente em cada dia das nossas vidas, e jamais podemos tampar nossos ouvidos ao seu maravilhoso chamado para, mais uma vez, vivermos intensamente tudo aquilo que ela tem a nos oferecer, ainda que seja apenas eterno enquanto dure.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Novo Selo de Quadrinhos Independentes

Por Gabriel Guimarães


Iniciado a partir da paixão pelo gênero heróico das histórias em quadrinhos, o site Meu Herói, do aficionado pela arte sequencial Elenildo Lopes, foi crescendo em termos de estrutura desde 2007, mas apenas consolidando-se em 2008. Partindo do desejo de Lopes de incentivar a produção brasileira de histórias em quadrinhos, o site foi construindo um banco de matérias bastante interessante, indo desde entrevistas com profissionais do meio a áreas dedicadas à exposição de trabalhos dos aspirantes do mercado.

Fornecendo, dessa forma, um ponto de encontro para aqueles com verdadeira paixão pelo meio, Lopes sempre manteve em mente a pretensão de atingir públicos cada vez maiores e, portanto, passou a investir na expansão de abordagem de seu portal. Criando setores que oferecessem conteúdo audiovisual das séries animadas japonesas e recomendassem jogos virtuais com temática baseada nos quadrinhos, o site ampliou sua margem de apelo, e permitiu a uma leva maior de internautas aproveitarem do seu vasto conteúdo postado. Entretanto, a marca do site foi se fortalecendo em um setor especificamente: a luta pela valorização da produção nacional de arte sequencial, em especial junto ao movimento DQB (Democracia ao Quadrinho Brasileiro).

Participando ativamente dos debates acerca da democracia na nona arte, Meu Herói sempre procurou disponibilizar um ambiente de liberdade de expressão e de colaboração entre o público e os profissionais do ramo, com uma área em seu site, inclusive, destinada aos depoimentos dos afetados pela questão do mercado editorial brasileiro. Com esse desejo em mente, é que Lopes decidiu que é novamente momento de expandir a marca de seu site para outro setor dos quadrinhos, anunciando, há poucos dias, que está previsto para o primeiro semestre de 2012 a publicação da primeira revista de seu novo selo de quadrinhos independentes.

A HQ "Capitão R.E.D." promete
seguir na linha do personagem
Capitão Nascimento, do filme
"Tropa de Elite"
Utilizando do mesmo nome de seu site, que está em etapa de registro junto ao INPI (Instituto Nacional de Propriedade Industrial), Lopes detalhou um pouco desse seu primeiro projeto. Trata-se do herói nacional "Capitão R.E.D.", que representa também o título da edição. Escrita e conceituada pelo próprio Elenildo Lopes e contando com os desenhos de Antonio Lima, mais conhecido por seu pseudônimo A-Lima, a publicação será feita em formato americano, com 35 páginas, capa colorida e miolo preto e branco, com uma versão colorida digitalmente para os dispositivos eletrônicos de leitura. Produzida com investimento dos próprios artistas, o retorno com este material é que deve ditar o futuro das publicações no selo Meu Herói. Uma vez que possui uma grande rede social de admiradores da arte sequencial, da qual fazem parte profissionais do meio e fãs, a repercussão da expansão deste novo selo de quadrinhos independentes brasileiros pode render grandes frutos, tanto para seus produtores, quanto para o público, que terá mais oportunidade de ler material produzido dentro do país, algo que nem sempre é possível devido a ampla concorrência nas bancas de revista. Uma vez que a tiragem da primeira edição será limitada, aos interessados fica a recomendação para entrar em contato com o autor por meio do próprio site do Meu Herói, cujo link pode ser encontrado aqui. Outra forma de conhecer um pouco mais do projeto de Elenildo e conferir as matérias de qualidade produzidas por seus muitos e talentosos colaboradores é através da página do site no Facebook, que pode ser vista aqui.

Como ativo batalhador dos direitos e valor dos quadrinistas brasileiros, fica aqui o mais sincero desejo de sucesso na nova empreitada do pessoal do site Meu Herói, e a esperança de que esse seja apenas o primeiro passo de uma jornada de grande reconhecimento para todos os profissionais envolvidos. Ao mesmo tempo, fica também as congratulações pelo trabalho de qualidade realizado no site e junto ao público nas redes sociais para toda a equipe. Que o futuro lhes reserve cada vez mais sucesso!

domingo, 11 de março de 2012

Guerreiros do Quadrinho Nacional

Por Gabriel Guimarães

  
Imagem da primeira tentativa do grupo de produzir quadrinhos
eletrônicos, que acabou não indo para frente na época
Em 2003, o grupo Kaplan, composto pela dupla de Minas Gerais, Alex D'Ates e Gio Vieira Rocha, começou a esboçar seu desejo de entrar no mercado de quadrinhos eletrônicos. Com uma proposta de  oferecer quadrinhos digitais em um formato confortável, onde cada quadrinho seria exibido na tela inteira do dispositivo de leitura, eliminando dessa forma o estilo tradicional da narrativa de página das revistas, porém, cuja principal característica se encontra no fator econômico do projeto: os quadrinhos produzidos pelo grupo seriam fornecidos gratuitamente para seus leitores.

Com o objetivo de tornar essa aspiração algo viável, o grupo batalhou muito para conseguir lançar, em 2009, a primeira história em quadrinhos produzida para iPhone do Brasil. Entitulada "O Legado", a história narra a luta do personagem Tersano para derrubar o sistema social totalitário em que seu mundo estava inserido. Com o gênero de fantasia com que as histórias do grupo ficaram marcadas, esse primeiro título produzido foi uma iniciativa extremamente positiva, em uma época em que o formato mobile ainda estava começando a se consolidar, mas cuja repercussão já demonstrava que nele carregaria muito do futuro potencial comunicativo dos quadrinhos. Apesar de ter sido lançado ao custo de R$ 0,99 na Apple Store, como forma de procurar sustentar o projeto, o grupo percebeu que o fato de ainda ser um embrião do quadrinho nacional junto à concorrência de conglomerados americanos de arte sequencial tornava a continuidade desta estratégia especificamente inviável.


Com isso, voltaram-se para sua proposta original e decidiram investir na produção de um site onde as histórias de seu universo de personagens poderia ser mais de acordo com a ideia original, focada no livre acesso aos quadrinhos sem qualquer custo financeiro. Utilizando ainda do modelo de visualização em que seu primeiro material foi distribuido, o grupo Kaplan decidiu lançar uma nova série, entitulada "Mercenary Crusade", cujas edições acompanham as aventuras da dupla de mercenários Málef e Ryaad em um mundo repleto de criaturas mirabolantes e de uma natureza particular.

Agora disponibilizado gratuitamente apenas no site do grupo, chamado "Kaplan Project Comics", que pode ser conferido aqui, a série apresenta um sistema de publicação semanal e uma interatividade com o público muito grande, onde os autores procuram observar as reações dos leitores ao desenrolar da história, a fim de construírem uma narrativa capaz de evoluir os personagens e agradar a todos os potenciais fãs do título. Outra questão tratada com bastante atenção pelo grupo tem sido a exploração de novas plataformas para a expansão do universo de seu novo título e, em breve, grandes novidades acerca disso devem surgir nas postagens do perfil do grupo no Facebook, cuja página pode ser conferida aqui.

Uma das artes originais do universo em que se passa
a história "Mercenary Crusade", divulgada na FIQ de 2011
O recurso mais recentemente divulgado de expandir as sensações do mundo de Kaplan foi exposto na última edição da Feira Internacional de Quadrinhos (já comentamos sobre o FIQ aqui no blog antes), de Belo Horizonte, em 2011, no formato do primeiro cardgame inteiramente brasileiro. Com cerca de 3500 cards distribuidos ao público, o resultado foi uma nova leva de leitores bastante empolgados pelo universo dos mercenários. Observando esse retorno, o grupo Kaplan agora iniciou uma batalha para conseguir bancar o custo de produção de toda uma leva de cards para permitir aos leitores tomarem parte no mundo dos personagens e, para isso, abriu uma conta no site Movere, de financiamento coletivo. Já tendo sido utilizado por outros projetos, como a história "Achados e Perdidos" (que já foi citado aqui no blog), do site Quadrinhos Rasos, o sistema de financiamento coletivo tem sido uma forma de produção mais custeável para produtores independentes e também tem inovado o campo da interação entre os produtores e consumidores de conteúdo para entretenimento, o que vem revolucionando o modelo editorial de produção dentro das editoras e profissionais do ramo.

Exemplos dos cards que serão lançados pelo grupo Kaplan

A quem tiver interesse de colaborar de alguma forma para a produção do cardgame do grupo Kaplan, o link contendo as informações para tal pode ser visto aqui. O vídeo disponibilizado na página explica mais detalhadamente como funciona o jogo em que as cartas a serem produzidas estarão aptas para serem utilizadas, e explica também um pouco do projeto do grupo como um todo. O retorno pelo investimento feito também é descrito minuciosamente na página, permitindo uma maior compreensão da importância da participação de cada colaborador. Aguardaremos ansiosos pela confirmação do projeto, que estará aberto a investimento até o dia 13 de abril deste ano. Confiram!

sábado, 10 de março de 2012

Jean Giraud e a Lenda de Moebius

Por Gabriel Guimarães


Em 1954, ao ingressar para a École des Arts Apliqués, em Paris, o ainda jovem Jean Giraud iniciou sua trajetória rumo a uma vida marcada pelo extraordinário. Fosse pelas estruturas colossais e detalhadamente compostas, os excêntricos personagens, as tramas megalomaníacas ou mesmo a premiada e internacionalmente reconhecida carreira, Giraud marcou seu nome na história da arte sequencial, entretanto, não é pelo nome que constava em sua carteira de identidade que o público mais conheceu seu trabalho. Sob o pseudônimo de Moebius, os trabalhos experimentais de ficção científica de Giraud conquistou o mundo, e arrebatou o mundo dos quadrinhos em um turbilhão de cores e movimentos inovadores.

Quadrinho de uma das histórias do "Sargento Blueberry",
publicado em 1970
Publicando pela primeira vez em um períodico na revista "Far West", na história entitulada "Frank et Jeremie", em 1956, Giraud, ainda com 18 anos de idade, entrou no mercado de banda desenhada de forma desconhecida. Foi apenas a partir de 1963, desenhando os roteiros de Jean-Michel Charlier para um personagem que viria a se tornar referência no estudo de evolução de personagens, o "Tenente Blueberry", que foi publicado até os anos 1980 pela dupla e, posteriormente, sob a autoria única de Giraud até 2005, que o artista francês começou a chamar a atenção dos holofotes. Aproveitando da atenção sobre seu trabalho, lança, em 1973, sua primeira fábula de ficção científica e fantasia, "O Desvio". Nos anos seguintes, começa a lançar uma série de histórias que começam a montar a estrutura na qual sua carreira foi se fortalecendo, com "O Homem é Bom?", em 1974, e "O Pesadelo Branco", em 1975.

Cena de uma das histórias de Moebius,
onde o grande destaque fica por conta do visual
industrial e altamente avançado da metrópole
Em 1976, porém, é que o pseudônimo de Giraud começa a ser citado ao redor do mundo todo, com sua história "Arzach", publicada mediante pedido da revista "Metal Hurlant". Publicado recentemente de forma extremamente bela pela editora Nemo aqui no Brasil, o material expôs uma qualidade de traço inigualável para os quadrinhos da época, o que levou a revista a pedir novo material para o artista, encontrado em "Le Garage Hermétique". Moebius, então, começa a apresentar um ritmo de produção impressionante, realizando ilustrações para pôsteres e cartazes publicitários, além de prestar serviço ao amigo roteirista de quadrinhos e produtor cinematográfico Alejandro Jodorowsky, desenhando conceitos visuais para o projeto de adaptação que Jodorowsky tinha, de levar o conto "Duna", escrito em 1965 pelo escritor Frank Herbert, para a sétima arte. Apesar de esse trabalho não ter se concretizado, sendo apenas produzido em 1984 pelo diretor David Lynch, Moebius colaborou com a concepção visual de diversas obras cinematográficas, como "Alien", em 1979, "TRON", em 1982, "O Segredo do Abismo", em 1989, "O Quinto Elemento", em 1997, entre muitos outros.

Cena de "O Quinto Elemento", em que é bastante clara
a influência do estilo de Moebius
Com seus cenários futurísticos e repletos de elementos de fantasia e ciência, e seus personagens, em geral, marcados pelo ceticismo e cansados do fardo de viverem em uma sociedade cuja essência é corrupta, Moebius criou obras de grande qualidade visual e narrativa, como a série "Incal", onde conta as histórias do detetive particular atrapalhado John Difool em sua desventura ao redor de um mundo de moral nebulosa e personalidade questionável pela segurança de um artefato transcendental de poderio inimaginável.



Ilustração de Escher, cujo estilo detalhado
se assemelha ao de Moebius
Moebius se tornou sinônimo de um trabalho minuciosamente detalhado e construtivamente desafiador. Com elementos visuais que parecem remeter à qualidade impressionante do trabalho do artista gráfico holandês Maurits Cornelis Escher, referência na arquitetura paradoxa, o trabalho deste quadrinista francês jamais será esquecido por seu valor para a arte sequencial. O site americano Paleofuture publicou, recentemente, um pequenos documentário sobre a carreira deste grande artista, produzido pela rede BBC, que vale a pena ser conferido, ainda que esteja apenas em inglês. A quem interessar, a matéria em questão pode ser conferida aqui.

Hoje, porém, o mundo perdeu um pouco de seu brilho artístico, quando foi noticiado nos veículos de comunicação internacional que Jean Giraud falecera, aos 73 anos de idade, em consequência de uma luta contra um câncer, segundo relatou o editor do artista, em nota da editora Dargaud, conforme informou o portal Reuters de notícias para o Brasil. Tendo sido um dos grandes nomes da indústria dos quadrinhos em que a já mencionado editora Nemo investiu para conquistar o público leitor da nona arte, Moebius deve continuar em evidência no mercado editorial brasileiro, dando, assim, a oportunidade ao público de acompanhar a carreira célebre de um dos grandes artistas a marcar seu nome na história do gênero. É com um pesar que essa matéria se consolida, nas lágrimas de um meio que perdeu um de seus grandes provedores de qualidade. Conforme o estudioso dos quadrinhos brasileiro, Carlos Patati, ressaltou, no começo do ano, em seu curso ministrado no Centro Cultural da Caixa Econômica, no Centro do Rio de Janeiro (que pode ser conferido aqui, aqui, aqui e aqui), a qualidade de Moebius é algo único, e a densidade de seu trabalho enquanto forma de narrativa um exemplo de como esse recurso pode ser trabalhado. Os pesquisadores Goida e André Kleinert, na última e um pouco carente edição da "Enciclópédia dos Quadrinhos", também destacam a carreira deste profissional como algo que merece ser relevado pela sua importância e alta produtividade, e o professor e referência do estudo de quadrinhos no Brasil, Álvaro de Moya, em seu livro "Vapt-Vupt", aponta a mistura entre a fantasia e realidade, a mística e o delírio nas obras deste grande artista francês, e o quanto elas são ferramentas importantes para a compreensão do potencial das histórias em quadrinhos enquanto recurso expressivo.

Os dois volumes publicados pela editora Nemo, que trouxe
o grande mestre dos quadrinhos franceses de novo para a frente
dos holofotes no mercado editorial brasileiro
Portanto, o papel desempenhado por Giraud, e posteriormente por Moebius, é de suma importância para a história dos quadrinhos como meio de comunicação, e seu trabalho jamais poderá ser ignorado enquanto instrumento de composição ficcional e de potencial representativo do meio. Os quadrinhos perdem mais um de seus grandes pilares, e nos resta absorver o que pudermos das obras deixadas por esse mestre para que possamos dar continuidade à sua jornada de valorização devida para a arte sequencial.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Mulheres nos Quadrinhos

Por Gabriel Guimarães


Já há muito tempo, esse assunto está em pauta para ser trabalhado aqui no blog, porém, a sua vasta extensão em termos de relevância, vertentes e núcleo de pesquisa acabaram por tornar complicada sua abordagem. Hoje, entretanto, para celebrar o dia internacional da mulher, que merece toda forma de carinho, reconhecimento e respeito, não apenas neste dia, mas em todos os dias do ano, o blog Quadrinhos Pra Quem Gosta decidiu dar início a uma análise do papel da mulher nos quadrinhos, algo que deve ainda ser muito trabalhado no futuro, ao longo de muitas matérias, mediante a boa oportunidade para isso.

Quando os quadrinhos tiveram início, em 1895, nas páginas do jornal New York World, jamais eles imaginariam todo o furor que o meio alcançaria no século seguinte e em diante. Com temática mais próxima das classes sociais mais baixas e o público leitor masculino, os quadrinhos começaram a estar cada vez mais presentes no cotidiano das grandes metrópoles, fosse nas páginas de jornal ou mesmo em revistas dedicadas unicamente ao gênero. Porém, com o passar do tempo, a nona arte cresceu, e começou a se desdobrar, adquirindo formas de um meio de comunicação por si só. Não mais os quadrinhos eram meramente infantis, mas começavam a exibir características que expandia seu conteúdo a públicos antes pouco levados em consideração. É nesse momento, então, que a mulher começa a fazer parte da história desse meio, e hoje, a contribuição de profissionais mulheres é compreendida como algo simplesmente inestimável para a história dos quadrinhos.
A brasileira Mônica jamais poderia ser esquecida no que trata
de personagens femininas dos quadrinhos, ainda mais, tendo se
tornado embaixadora da cultura do Brasil, em junho de 2009
Personagens variadas criadas pelo grupo de
mulheres quadrinistas CLAMP, do Japão
Fosse por sua participação ativa enquanto protagonista ficcional dos quadrinhos, como as heroínas Mulher Maravilha e Canário Negro, as investigativas Julia Kendall e Lois Lane, as sensuais Valetina e Barbarella, ou mesmo as jovens Mônica, Mafalda e Luluzinha, ou então pelo traço e história desenvolvidos nas demais etapas editoriais, como é o caso da desenhista americana Marjorie Henderson Buell, criadora desta última personagem citada, a editora Louise Jones Simonson, responsável por muitos dos grandes títulos da editora Marvel, ou a pioneira dos quadrinhos autobiográficos underground Dori Seda, o sexo feminino esteve muito ativamente ligado ao universo dos quadrinhos. Ao longo do século XX, a participação de mulheres na produção de histórias só fez crescer, ainda que enfrentando vez ou outra alguma desconfiança por parte da ferramenta mais tradicionalmente paternalista de produção editorial do mercado mainstream, algo que repercute ainda nos dias de hoje, como foi noticiado em agosto de 2011 pelo site Bleeding Cool, onde foram avaliados os créditos de participação dos cerca de 160 artistas envolvidos na reformulação mais recente da editora DC, e que foi constatado que apenas 1,9% eram do sexo feminino, o que compreende apenas três entre a mais de centena de profissionais relacionados a esse grande projeto. Esse alerta foi recebido pela DC como uma oportunidade para se posicionar de forma mais direta em termos de participação do gênero feminino na composição das suas histórias, e a editora anunciou que procuraria contratar mais mulheres para seu quadro de funcionários. Pouco tempo antes, a DC parecia já tentar reverter esse cenário, quando a administração do setor de entretenimento da editora, a DC Entertainment, passou a ser chefiado pela extremamente capaz Diane Nelson.

Jill Thompson, autografando
em uma Comicon americana
Hoje, porém, o cenário que é apresentado pelas autoras femininas de quadrinhos se mostra extremamente promissor, com grandes nomes se destacando. Entre as muitas profissionais de renome, vale a pena lembrar as americanas Jen Wang, autora da história "Koko be Good" (que já foi comentada aqui no blog), e a polivalente Jill Thompson, que já trabalhou em projetos como "Sandman" e "Monstro do Pântano", a iraniana Marjane Saltrapi, que revelou nos quadrinhos sua história de vida de forma inspiradoramente tocante em "Persepolis", a argentina Maitena, autora das tiras "Mulheres Alteradas", as japonesas Hiromu Arakawa, co-autora do mangá "Full Metal Alchemist", e Junko Mizuno, autora de "Cinderalla", além do grupo CLAMP, que, inclusive, ganhou uma merecida homenagem na última Rio Comicon (que foi conferida aqui no blog). No cenário brasileiro, é que talvez se encontre um dos maiores números de autoras talentosas em ascensão dentre o panorama mundial atual. Contando com a produção de material pelas quadrinistas Érica Awano, Roberta Pares, Luciana Cafaggi, Samanta Flôor, Julia Bax, Adriana Melo, Verônica Saiki, Viviane Machado, Marcela Godoy (cuja palestra na Rio Comicon foi comentada aqui no blog), Cristina Eiko, dentre muitas outras, o Brasil tem ganho muita força em termos da produção em quadrinhos por parte das profissionais do sexo feminino, e isso só tende a crescer e melhorar cada vez mais.


Vale ressaltar também a quantidade considerável de blogs e sites sobre quadrinhos gerenciados por mulheres, onde o maior destaque é o site "Lady's Comics", a partir da proposta de que "HQ não é só para seu namorado". O site pode ser conferido através da imagem ou por aqui, e a qualidade dele como fonte de conhecimento e estimulador de discussão inteligente são inegáveis. Iniciado através da parceria entre as apaixonadas por arte sequencial Mariamma Fonseca, Samanta Coan, e a já mencionada Luciana Cafaggi, o site se tornou uma referência para a participação feminina no mercado de quadrinhos, e a presença ativa do trio nos eventos nacionais de nona arte tem se tornado comum, conforme foi visto na palestra dada pelas ladys na Feira Internacional de Quadrinhos de 2011, em Belo Horizonte.

Ilustração das personagens femininas da editora DC

Por fim, a mulher é um elemento fundamental aos quadrinhos, proporcionando uma perspectiva única e valorosa que jamais poderia ser negada. O tema permite uma abrangência imensa, que pretendemos nos extender mais no futuro, mas desde já, deixamos aqui com imensa satisfação o desejo de um feliz Dia Internacional da Mulher a todas as muitas leitoras e profissionais dos quadrinhos ao redor de todo o Brasil e mundo. Sem elas, os quadrinhos jamais seriam o que são hoje, portanto, fica aqui também um muito obrigado a todas as que tornaram a história dos quadrinhos uma parte tão importante de nós e de nossa história.

FELIZ DIA INTERNACIONAL DA MULHER!

segunda-feira, 5 de março de 2012

Ultrapassando a Quarta Parede

Por Gabriel Guimarães


No setor de produção de conteúdo audiovisual, é comum observar termos relacionados ao uso da "quarta parede" em cena. O potencial de recursos usados para trabalhar esse elemento é incrível, e cada diretor, seja focado no cinema ou na televisão, utiliza-se disso de forma particular, tornando muitas vezes essa característica um grande referencial de seu trabalho. Aos quadrinhos, isso também pode ser facilmente aplicado, tal qual já foi possível ver em vários casos.

Cena durante a gravação de um dos filmes de Hitchcock, em
que é possível observar claramente o conceito da "quarta parede"
Para aqueles não familiarizados com o termo, "quarta parede" refere-se ao lado do cômodo retratado em cena no qual a câmera se posiciona, ou seja, através do qual nossos olhos observam a cena. Conforme o comunicólogo e sociólogo Marshal McLuhan destacou, os meios de comunicação funcionam como extensão dos sentidos humanos, ampliando, dessa forma, nossa capacidade de tornar-mo-nos parte de algo, mesmo a quilômetros de distância do ambiente em que essa determinada ação acontece. Para tanto, cabe ao diretor definir a posição exata em que esse nosso olhar estará fixado para testemunhar a cena. Em geral, a composição de um set de filmagens é organizado para se remeter a um quarto tradicional, com quatro paredes, porém, apenas três são retratadas, a fim de que seja possível para as câmeras utilizadas abordar de diferentes ângulos os eventos a serem filmados. À parede localizada hipoteticamente atrás das câmeras, ou seja, que raramente é vista, é dado o nome de "quarta parede". O diretor americano Alfred Hitchcock é um dos grandes nomes da indústria cinematográfica que trabalhou com esse recurso de formas inesperadas e brilhantes. Suas obras "Janela Indiscreta" e "Festim Diabólico" são exemplos muito recomendados disso. O primeiro, usou de apenas um galpão de estúdio e um ângulo de referência para se construir toda a história do filme, e o segundo, foi composto todo em apenas um plano, sem cortes, tornando a trama sinistra de assassinato tensa e em um ritmo de mistério e suspense únicos, característica marcante no trabalho de Hitchcock.

John Byrne foi parte de várias histórias
da Mulher-Hulk como ele mesmo
Esse recurso também retrata a expansão do sentido mostrado em cena para além dos limites tradicionais da narrativa convencional. Exemplo disso é a animação "A Nova Onda do Imperador", onde o personagem principal dirige seu discurso em determinados momentos ao espectador, consciente de ser ele o protagonista da história. Nos quadrinhos, esse recurso também é muito utilizado por autores e editoras, a fim de aproximar a ficção da realidade dos leitores. O trabalho do quadrinista underground Harvey Pekar é um caso claro disso (conforme já foi comentado aqui e aqui no blog). Outro exemplo muitas vezes relevado disso é a temática muito encontrada nas histórias da personagem Mulher-Hulk, em especial, no seu período sob o traço e concepção do americano John Byrne, na editora Marvel. Chegando a utilizar termos relativos à produção de roteiros da indústria dos quadrinhos, é impressionante o trabalho feito por Byrne, trabalhando a personalidade sarcástica da personagem em tons hilários e instigantes. O roteirista Grant Morrison, igualmente, realizou tal trabalho com o personagem "Homem-Animal", na editora DC, chegando a colocar frente a frente o personagem com uma representação ficcional do próprio Morrison como roteirista dentro da história. Na recentemente republicada saga "Novos Vingadores - Motim", essa representação dos autores dentro de suas obras foi feita de forma curiosa. Em meio a uma das histórias da coletânea lançada pela Panini, o roteirista Paul Jenkins, responsável por trazer o personagem Sentinela "de volta" ao universo Marvel surge na história ficcional como o único que lembra quem o personagem era, através das histórias em quadrinhos que ele fazia. O fator curioso nisso reside no fato de que o roteirista desta trama em que a ficção e a realidade se misturam não é Jenkins, mas sim o roteirista Brian Michael Bendis, numa forma talvez singela de homenagear ou brincar com seu colega de trabalho.


Outra forma de ruptura da "quarta parede" é o uso da metalinguagem, onde o meio em que a produção ficcional se dá aborda justamente o universo real de sua produção. Exemplos disso são fáceis de se observar, tanto no cinema quanto nos quadrinhos, como são os casos da comédia "Os Picaretas" e a ficção científica "Super 8", na sétima arte, enquanto que a trilogia de graphic novels "Fracasso de Público", do americano Alex Robinson, e a excelente história autobiográfica de Will Eisner, "O Sonhador", são casos mais claros disso na nona arte. O mangá "Bakuman" (já citado em outras matérias do blog, que podem ser vistas aqui), é um exemplo de igual força e qualidade, produzido pela dupla Tsugumi Ohba e Takeshi Obata, publicado no Japão pela editora Shueisha, referência no mercado japonês no setor de entretenimento desde sua fundação em 1925. No cenário brasileiro, o livro "HQs - Quando a ficção invade a realidade", escrita pela paulista Rosana Rios e belissimamente ilustrada por Amilcar Penna, é outro bom exemplo disso.


No filme "Mais Estranho que a Ficção", de 2006, foi abordada a questão da "quarta parede" de uma forma diferente, relevando a faceta da ficção invadindo o campo da realidade, onde o protagonista do filme, Harold Crick, ouve espantado a narração da autora de um livro que supostamente seria sua vida, e que culminaria com sua morte. Agoniado com a iminência da fatalidade que o espreita, Harold procura de todas as formas possíveis mudar o rumo da ficção sendo escrita sobre si, para que possa ser salvo. Algo similar é possível ser encontrado na história em quadrinhos "Superman - Identidade Secreta", feita pela dupla Kurt Busiek e Stuart Immonen, centrada na história de vida de um garoto real, morador da cidade de Kansas, que teve seu nome dado em homenagem ao personagem de quadrinhos Clark Kent, e que precisa aprender a lidar com as provocações e responsabilidades a isso atribuídas.

De forma apaixonante, somos convidados a romper essa barreira entre o quadrinho e a realidade, e nos deliciarmos com os frutos maravilhosos dessa união. Os autores, como os chargistas João Montanaro e Will Leite, este cujo site pode ser visto aqui, são os grandes responsáveis por nos oferecer essas nuances memoráveis entre a ficção e o nosso cotidiano, e certamente o futuro reserva muito mais possibilidades para essa relação multimídia.