quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Terceira Parte da Jornada

Por Gabriel Guimarães



Tão rápido quanto começou, o terceiro dia do evento "Super-Heróis X Anti-Heróis - Dos Quadrinhos às Telas", realizado na Caixa Cultural, no Rio de Janeiro, terminou a terceira etapa da oficina ministrada pelo estudioso da nona arte, Carlos Patati. Centrado principalmente na revolução dos quadrinhos na década de 1980, dois dos grandes nomes do mercado mundial de quadrinhos até os dias de hoje foram muito lembrados e debatidos. Os dois principais responsáveis por uma nova leva de profissionais influenciados por seus trabalhos, o britânico Alan Moore e o americano Frank Miller, não poderiam ser esquecidos.

Iniciando o dia com a história "Batman: Ano Um", escrita por Miller e ilustrada por David Mazzuchelli, sob influência do trabalho do argentino Muñoz, mencionado na matéria de ontem, que pode ser conferida aqui, Patati apontou as mudanças na abordagem do universo de personagens presentes na história do personagem da DC como o comissário Gordon e a forma como o Departamento de Polícia de Gotham agia em relação à figura do detetive fantasiado que era protagonista das aventuras.

Passando então para outros trabalhos de Miller, foi-se muito destacada a sua série pessoal, "Sin City", onde ele realizava os experimentos com os recursos de quadrinhos que mais lhe aprouvessem. Contando com noções de composição de cena, contraste e uso de cores de forma surpreendentemente eficazes, o trabalho do autor norte-americano conseguiu alcançar um status de grande obra de quadrinhos. Ressalta-se, porém, que isto apenas foi possível (a produção dessas determinadas histórias) mediante a já construída credibilidade que o autor adquirira através dos seus muitos anos produzindo quadrinhos de heróis. Os gastos com a produção do material eram maiores do que um mero trabalho em preto e branco, apesar do que poderia parecer ao olhar leigo, em vista da necessidade de se fazer fotolito de todas as cores do sistema de impressão quando houvesse mesmo que um pequeno detalhe em cor, como, por exemplo, o Assassino Amarelo ou os rubros lábios de algumas personagens femininas de Miller.

Observando o filme produzido a partir desses quadrinhos, dirigido pelo próprio autor da história, é possível observar uma transcrição literal dos elementos de quadrinhos, reproduzindo-se tudo metodicamente, desde a excessiva maquiagem nos atores envolvidos com o projeto até os detalhes de acabamento estético do material. Os papéis desempenhados pelos atores Bruce Willis e Mickey Rourke foram destaque, a partir de outro ponto destacado por Patati no sentido da adaptação dos quadrinhos para as telas, que consistia na permanência da identificação do ator sob as vestes e máscara dos personagens. Ao entrar nessa questão, o público participou bastante e a discussão sobre a importância da seleção de atores reconhecíveis foi extremamente agradável (essa questão já foi comentada aqui no blog antes). Apontando a necessidade de o ator e o personagem precisarem se complementar, onde nenhum nem outro pode ser maior que a união dos dois, foi comparada a profundidade da performance dos atores Bill Bixby e Edward Norton no papel do Dr. Bruce Banner, identidade humana do incrível Hulk.


Pekar costumava falar direto com o leitor em
muitas ocasiões ao longo de suas histórias

Retornando ao realismo da história policial presente na obra de Miller, Patati ressaltou o pólo oposto encontrado nos quadrinhos da mesma época, encontrado na revista "American Splendor", cuja história consistia nas experiência autobiográficas vividas pelo arquivista de hospital, fã de jazz e amigo pessoal de Robert Crumb, o habitante da cidade de Cleveland, Ohio, Harvey Pekar. Através de sua obra mais reconhecida, "Our Year With Cancer", onde relatou seu cotidiano de tratamento para curar um câncer que lhe acometeu e as repercussões disso na sua vida normal, Pekar alcançou um nível de profundidade nos quadrinhos underground que se tornou um marco no meio. Como um testemunho honesto de um obcecado, Pekar contou nas suas histórias todas as etapas de sua vida, como sua entrevista ao programa Late Show with David Letterman, e até mesmo críticas ao próprio leitor das histórias, alegando que o conteúdo ali presente não seria mais que um grão de areia que passou pela vida do leitor, sem modifica-lo e sendo apenas esquecido como tudo o mais. O filme realizado a partir dessa sua grande história será, inclusive, exibido sábado no evento da Caixa, e a recomendação para conferi-lo é bastante reforçada. A partir da apresentação destes dois pontos de abordar o realismo nos quadrinhos, Patati questionou: Qual dos dois atingiu maior sucesso na meta de retratar a realidade nos quadrinhos - Frank Miller ou Harvey Pekar? Essa questão, porém, é extensa demais para se resumir aqui, e nem mesmo em horas de discussão poderia se chegar a uma conclusão, tornando-se assim uma pergunta mais pessoal e reflexiva, a qual convido todos vocês, leitores do blog, a procurar mais fundo em vocês mesmos para talvez chegarem a uma conclusão.


Cena de "V de Vingança", escrito por Moore

No que se seguiu, foi lembrado o autor que conta atualmente com o maior nível de reconhecimento, provavelmente, do meio, o  britânico Alan Moore, cujo trabalho de pesquisa e uso dos recursos específicos dos quadrinhos o tornaram um dos maiores nomes da mídia dos quadrinhos. Comparadas suas origens às do brasileiro Zé do Caixão, Moore não teve uma educação tradicional durante sua infância, e foi escolarizado dentro de casa, alimentando uma paixão forte pelos gêneros do terror, da ficção científica e das histórias em quadrinhos enquanto recurso comunicativo. Autor de obras que se tornaram referências no mundo inteiro e que foram lembradas por Patati, como "Do Inferno", "A Liga Extraordinária", "V de Vingança", "Watchmen" e "Supremo", Moore se distinguiu dos demais pelo seu preciosismo aos detalhes, fossem estes descritos nas cenas de suas histórias ou apenas presentes em suas páginas de roteiro. Pesquisador afinco, que assumiu certas características narrativas similares às encontradas em grandes autores como o italiano Hugo Pratt (a construção da narrativa a partir de requadros específicos e estruturados) e o belga Hergé (o acréscimo de informações complementares do universo ficcional da história, afim de aprofundar o senso de realidade nela), suas histórias foram muito adaptadas para as grandes telas, porém, em nenhuma dessas ocorrências, houve aprovação do resultado final por parte de Moore.


Cena de "Watchmen"
Partindo do ditado italiano "tradutore, traditore", que compara a função de quem traduz uma obra àquela de quem trai a essência fundamental desta, Moore acusa todas as adaptações de suas obras de não serem fiéis o suficiente aos quadrinhos, e portanto, as desmerece, independente do retorno favorável do público ou não.

O brasileiro Luiz Gê

Moore, entretanto, serve de objeto de estudo para sua função de pesquisador antes de desenvolver cada história. Seu afinco pelo estudo e domínio sobre uma diversidade de assuntos bastante considerável são exemplares para os autores de quadrinhos de aventura, e neste ponto, volta a se mencionar o trabalho realizado pelo criador de Tintin, que costumava mandar artistas para visitar ambientes onde seu personagem estaria presente nos próximos álbuns para meramente desenhar todos os tipos de determinados objetos que eram encontrados no local, que mais tarde seriam usados de referência para os desenhos dele mesmo para o personagem. Patati ressaltou, ainda, que a forma como se dava a confecção de uma história na tradição europeia de revistas, com pequenas partes de diversas histórias publicadas semanalmente, é muito diferente da forma como se é possível observar no mercado atual. Citando uma visita que realizara aos estúdios do paulistano Luiz Gê, enquanto este realizava a produção do livro "Avenida Paulista", Patati destacou a simultaneidade da produção de páginas ao longo do prazo que o quadrinista tinha. Alternando entre quadros em diferente ordem de acabamento e até mesmo páginas sendo finalizadas fora da ordem narrativa, Luiz Gê produziu sua obra de forma eficiente, ainda que não-linear, como era visto na produção europeia.


Estevão Ribeiro marcou presença

No restante do dia, ocorreu a exibição de dois filmes que obtiveram imenso sucesso nas bilheterias ao redor do mundo inteiro, "Homem de Ferro", primeiro filme produzido pela divisão de filmes da editora Marvel propriamente dita, e "Watchmen", a épica história de super-heróis produzida por Alan Moore (que já foi tema de matéria no blog aqui e aqui). Contando com a presença de outros quadrinistas, como o extremamente cordial e camarada capixaba Estevão Ribeiro, criador das tiras dos "Passarinhos", cujo segundo volume de sucesso fora lançado no final de novembro do ano passado (que teve cobertura do blog aqui), que esteve presente para promover o curso de roteiro para histórias em quadrinhos da ascendente Impacto Quadrinhos, localizada em Botafogo, o evento teve um dia realmente bom, e apesar de não ver um movimento avassalador por parte do público, a profundidade do interesse dos visitantes presentes é uma recompensa muito bem recebida, e os apaixonados pela arte sequencial certamente têm se sentido satisfeitos com o trabalho realizado até o momento. Amanhã, haverá a conclusão do curso dado por Carlos Patati, mas a riqueza do conteúdo apresentado será levado para toda a vida, sem dúvida.

2 comentários:

Júnior Nascimento disse...

D+... parabéns pelo belo trabalho!

João Ferreira disse...

Nesse terceiro dia eu me senti mais "à vontade" com o conteúdo. hehe Isso porque sou fã dos trabalhos de "Frank Miller" e "Alan Moore". Minha "formação" em quadrinhos, digamos assim, é nos "quadrinhos de herois", não tem jeito. rsrs Sobre o "American Explendor", achei muito legal a concepção da coisa e pretendo assistir o filme assim que der. Abraços!