quinta-feira, 12 de abril de 2012

O Encontro de Dois Mestres

Por Gabriel Guimarães



Recentemente, chegou às bancas ao redor do Brasil inteiro a edição número 44 da Turma da Mônica Jovem, que representou a união das criações de dois dos grandes mestres na arte sequencial, o brasileiro Maurício de Sousa e o japonês Osamu Tezuka. Considerados padrinhos das histórias em quadrinhos de seus respectivos países pelo papel e importância adquirido por suas criações e dedicação profissional, a dupla já mereciam ter uma homenagem como essa há tempo até demais.
Edição número 43 da Turma
da Mônica Jovem, onde
o crossover começou

Amigos pessoais desde que se conheceram durante uma visita realizada por Maurício por convite da Fundação Japão, há décadas atrás, para que o autor brasileiro pudesse aprender um pouco mais sobre a cultura das crianças japonesas, a relação dos dois começou com um grande aperto de mãos. Tezuka foi um dos primeiros a receber Maurício no aeroporto, o que já era considerado uma grande honra na época, uma vez observada a importância do autor japonês para toda a cultura de desenhistas que surgia no país.

Originário da cidade de Takarazuka, Osamu conquistou o Japão com sua arte e seu desejo sincero de entreter ao mesmo tempo que proporcionar experiências únicas , tocantes e reflexivas, em cada uma de suas histórias. Com uma vida dedicada à arte, fosse em páginas impressas ou em filmes produzidos por seu estúdio de animação, Tezuka proporcionou ao seu país os pilares sobre os quais construir uma das indústrias de fantasia e ficção mais impactante do mundo. Tezuka era um deus para os quadrinistas japoneses, e seu reconhecimento era mundial. A disponibilidade oferecida pelo próprio autor para receber e acolher bem Maurício era um reflexo de seu alto caráter e dedicação ao meio. Apaixonado pela atuação em si, uma vez que sua cidade natal tinha um gigantesco teatro como um de seus principais pontos de referência local, Tezuka passava dias e noites trabalhando sem parar em suas obras, sem, por isso, deixar de comparecer e prestigiar outros mestres dos quadrinhos que conhecia.

Maurício e Osamu
A fim de conhecer um pouco também da produção brasileira de quadrinhos, Tezuka aceitou o convite da mesma Fundação Japão que levara Maurício às terras do Oriente para vir até o Brasil e conhecer seus colegas de profissão, um oceano além. No dia 29 de setembro de 1984, Tezuka chegou às terras brasileiras no aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Iniciada dois dias antes, no Museu de Artes de São Paulo (MASP), a exposição com a arte do mestre japonês atraía muitos dos seus admiradores, além de oferecer ao público um contato com o trabalho de muitos dos autores brasileiros que se destacavam na época. Durante a visita a esta exposição, no dia 30 de setembro, Tezuka pôde conhecer essa comunidade artística nacional, representada por nomes como Jayme Cortez (o blog já o homenageou aqui), Gedeone Malagola, Rodolfo Zalla, Naumin Aizen, filho do grande editor russo-brasileiro de quadrinhos Adolfo Aizen, dentre muitos outros honrados autores, além, é claro, do já companheiro Maurício. Segundo a Associação Brasileira de Desenhistas de Mangá e Ilustração (ABRAMI), Tezuka elogiou principalmente o trabalho de Cortez e de outro brasileiro cuja etnia nipônica era a mesma de Tezuka, o recentemente homenageado pela escola de desenho Impacto Quadrinhos no último Dia do Quadrinho Nacional, Julio Shimamoto.

Osamu e Maurício
A visita de Tezuka continuou, contando com outras muitas festividades para comemorar a presença ilustre do padrinho dos mangás, mas logo ele teve de voltar ao Japão, onde deu continuidade a seus incontáveis projetos. Apenas anos depois, agora novamente em viagem de Maurício à terra do Sol nascente, os amigos se reencontraram, em 1989, sob circunstâncias nada adequadas. Vitimado por um câncer, que poucos dias depois viria a tirar sua vida, Tezuka precisou organizar todo um esquema especial para encontrar com o mestre dos quadrinhos brasileiros e passar alguns conselhos de sua tão representativa vida para seu companheiro de arte sequencial. O arrependimento pela violência presente na maioria dos mangás que ganhava popularidade na época foi um dos assuntos comentados, além de pedidos pessoais para Maurício, como um maior aproveitamento da vida do brasileiro, para que não repetisse seu erro de exaurir sua vida apenas pelo trabalho, deixando em alguns momentos de lado sua família e vida pessoal. O padrinho dos quadrinhos brasileiros ouviu atenta e melancolicamente os desejos de seu amigo e soube que aquela seria sua última conversa com ele.

Imagem produzida por Maurício pouco após a morte de
seu grande amigo e companheiro de profissão, Osamu Tezuka
Ao chegar no Brasil, Maurício foi informado do falescimento do mangaká Osamu Tezuka, em 9 de fevereiro de 1989, quando decidiu produzir a seguinte imagem, em homenagem ao seu amigo. O mundo perdia um homem, mas a arte japonesa e a riqueza cultural mundial perdeu um de seus maiores e mais importantes autores, responsável por criações atemporais e consagradas, como "Astroboy", "Metrópolis", o jovem leão "Kimba", precursor da história do Rei Leão, além dos personagens "Black Jack", Safiri, de "A Princesa e o Cavaleiro", que estiveram presentes na mais recente história da turma jovem dos personagens de Maurício, numa forma de homenagem à parceria e amizade destes dois grandes mestres.

Abaixo, o vídeo de divulgação da primeira edição que continha essa história especial, realizada na loja Saraiva Mega Store, do Shopping Center Norte, em São Paulo, no dia 28 de fevereiro deste ano de 2012. Certamente, a história, centrada em torno da proteção da selva amazônica e da relação entre os personagens, originados de suas próprias histórias para se reunirem em um ponto comum, entrará para a lista fundamental de material a ser conferido dentre as publicações deste ano. Não deixem de conferir.


2 comentários:

Júnior Nascimento disse...

Adorei a matéria, parabéns!

João Ferreira disse...

Conheço alguma coisa do Tezuka. Fiquei com vontade de ler esse "crossover" aí... Valeu!