quarta-feira, 1 de junho de 2011

Ares de Recomeço?

Por Gabriel Guimarães


 
Ontem, as redes sociais e os fóruns de discussão de quadrinhos estiveram a toda velocidade e movimentação com a confirmação de uma notícia da DC comics que pode mudar muito o panorama do mercado de quadrinhos de heróis. Após meses de especulação com os possíveis desdobramentos da futura grande saga da editora, "Flashpoint", os responsáveis pela edição e publicação do material da editora confirmaram uma das especulações que já era feita há tempo: a DC recomeçará a contagem de praticamente todas as suas revistas a partir do fim da saga. Previsto para acontecer em setembro, essa reformulação geral tem alguns aspectos que chamam bastante a atenção.


Em primeiro lugar, façamos um panorama de como se encontra o universo de Superman, Batman e cia atualmente. Desacreditada junto ao público pela sequência ininterrupta de crises e falta de uma estabilidade de boas histórias, salvo algumas raras exceções, os personagens da DC tiveram que encarar de tudo recentemente, desde vilões megalomaníacos a zumbis de todo o universo (quanto a este último, fiz uma matéria sobre a saga "A Noite Mais Densa" que postei aqui no blog algum tempo atrás). Porém, o maior obstáculo de todos ainda está neles mesmos. Os personagens não empolgam mais, ainda que o cinema lhes dê algum fôlego com as adaptações dos quadrinhos, tudo permanece muito igual, sem elementos de ação e, principalmente, emoção.
 
A DC tem uma das mais vastas e mais bem qualificadas listas de personagens dentre as editoras de quadrinhos, conta com um arsenal de roteiristas e desenhistas de ponta, um sistema de distribuição que sempre foi sinônimo de qualidade e uma galeria de fãs quase imensurável. Seus personagens foram os primeiros a marcar o imaginário dos leitores de quadrinhos de seres com super poderes e sua marca pode ser encontrada em quase todos os cantos do planeta. Então, me pergunto: por que a DC não consegue solucionar o caos em que seu universo está e cria uma estabilidade de vendas e de qualidade?
 
Hoje, a indústria vive dos modismos, e quando alguma ideia dá certo e passa a atrair o interesse público para determinado tema, não tarda muito para que todos as outras editoras e demais meios de comunicação venham para beber dessa fonte – o maior exemplo recente disso foi o já mencionado tema dos zumbis. Desde a mega-saga "Crise de Identidade", a DC se reestruturou (como destaquei em uma das matérias na minha lista especial dos dez acontecimentos que mais marcaram os quadrinhos na década passada aqui, no começo do ano). Essa história, inclusive, a meu ver, teria sido a mais bem sucedida reformulação de um universo tradicional de super heróis em muito tempo, porém, apesar de ter elevado muito o nível dos quadrinhos da editora por algum tempo, logo caiu na mesmice, e sua fórmula passou a ser repetida em escalas menores para puxar o público de tempo em tempo para comprar os exemplares da casa. Um caso para exemplificar isso, acredito ser a recente reviravolta na história do personagem Arsenal (ex-Ricardito), que fora o fiel ajudante do Arqueiro Verde por muitos anos, e que perdeu seu braço esquerdo e sua filha Lyan num massacre provocado pelo vilão Prometheus em Star City. Há muito drama hoje e pouca história.

Em meio a tanto vai-e-vem da atenção do público, a DC decidiu revolucionar de uma forma inovadora. Ao término da saga "Flashpoint", liderada pelo provedor de ovos de ouro dos últimos tempos da DC, Geoff Johns, a editora recomeçará sua numeração em 52 de seus títulos, além de promover uma reformulação geral do universo de personagens, desde os uniformes que usam (o desenhista e editor-chefe Jim Lee confirmou que redesenhou as roupas de cerca de 50 personagens) às suas motivações pessoais, a princípio. O título pós-Flashpoint que terá maior destaque será o da Liga da Justiça, comandada justamente por estes dois profissionais que mencionei, com roteiros de Johns e arte de Lee. Ontem, inclusive, foi liberada uma imagem teaser com essa Liga, onde já é possível ver uma série de pequenas modificações nos personagens, além de alguns destes demonstrarem um tom mais jovial do que tradicionalmente.
 
Além desse quesito de criação, onde o foco me pareceu seguir na busca da DC por uma estratégia de renovar os ares de seu universo no estilo do que foi feito na Marvel com a linha Ultimate (cuja importância para o rumo da editora nos últimos anos também já foi discutido aqui antes), as novidades anunciadas pela editora vão muito além disso, como bem destacou o blog "Em Quadrinho", o que permite uma compreensão muito maior acerca dessa grande mudança e do recomeço da numeração.
 
A DC, juntamente com a notícia de seu reboot, anunciou que a partir dele, lançará simultaneamente as revistas no formato impresso e eletrônico, disponível para aplicativos de Ipad e demais tablets de leitura. E eu pergunto: que forma melhor de começar essa nova era de publicação de quadrinhos dos heróis DC do que dar ao leitor digital a oportunidade de comprar a partir do número 1 todos os títulos que for do seu interesse? A venda desse conteúdo, portanto, representará um grande volume de vendas para a editora e permitirá que a DC entre no meio eletrônico de forma forte e visando os mercados futuros de consumo de quadrinhos digitais. O formato impresso muitas vezes se vê contestado ainda, e a tendência é que o número de publicações feitas exclusivamente para esse meio seja cada vez menor. Eu não acredito que o livro ou a revista em quadrinhos vá acabar, mas acredito sim que sem essas mudanças nas estratégias de divulgação e acesso, nenhuma publicação pode dar totalmente certo hoje em dia, quanto mais manter uma fonte contínua de renda e lucro para as editoras responsáveis pela sua produção, como é o desejo de editoras como a DC e a Marvel (essa evolução do mercado digital já foi discutida em duas matérias antes no blog, aqui e aqui).
 
Paul Levitz ostenta sua
obra de homenagem à DC

Esse momento será, então, berço de um recomeço, mas este não se limitará apenas aos seus personagens, mas ao futuro da companhia como empresa também. O livro "75 Years of DC Comics - The Art of Modern Mythmaking", do editor Paul Levitz, e que foi premiado há pouco tempo com o prêmio Eagle, já antecipava isso, quando após descrever todas as eras pelas quais a editora passou, previu ao final que o futuro estaria na era digital e que a editora já começara a pensar nela desde a criação da Zuda comics, seu antigo portal que não funciona mais hoje.




Os desdobramentos econômicos dessa mudança na forma de publicação das revistas da DC ainda estão muito cedo para serem definidos com clareza, porém, é bastante claro que esse tema é algo a ser observado atentamente. O roteirista Brian Michael Bendis, responsável pela criação do universo Ultimate na Marvel, foi um dos primeiros a criticar essa decisão da DC em seu twitter, alegando que isso arruinaria o comércio com os revendedores das tradicionais comic-shops americanas, questão que foi respondida pelo gerente de vendas da DC, Bob Wayne, que assegurou que haverá uma política de benefícios para os revendedores que contribuírem com a divulgação e comércio dos títulos da editora de forma geral.
 
Concluindo, esperemos para ver os próximos capítulos e o desenrolar desses acontecimentos no mercado editorial, o que promete ainda muita discussão pela frente, e torçamos também para que os produtores compreendam a necessidade de inovação em seu conteúdo mais do que apenas de seu formato. Torçamos por dias mais emocionantes para a arte sequencial, como um dia estes já foram e acredito que, um dia, ainda possam vir a ser.

6 comentários:

Edu Mutante X disse...

Toda mudança é passível de polêmicas. Mas a DC já tem cansado com tantos recomeços, reformulações e "re-origens" de heróis, isso é fato. A estratégia de zerar a numeração faz sentido para a questão digital, como bem foi dito. Certamente, atrairão novos leitores. O problema maior está nos leitores antigos, que acompanham quadrinhos há anos e já cansaram de tantos reboots. Como diria um amigo meu: parece Malu Mulher: "Começar de nooooooovo..." (música da Simone).

GG disse...

Concordo com você, Eduardo. Como disse, a DC caiu num marasmo de mesmice. Crise em cima de crise, só pode dar nisso: crise, só que criativa. É preciso resgatar não uma nostalgia eterna, mas sim a vontade de emocionar o leitor. Hoje, pensa-se mais em tiragem e em licenciamento de imagem e cada vez menos em conteúdo e qualidade. Falta sub-enredo, falta humanidade, falta um novo Eisner...

Bongop disse...

Mesmo assim tenho comprado muito mais DC do que Marvel! Aliás, de há uns dois anos para cá quase não compro Marvel... aquilo está um verdadeiro pântano comercial sem ideias...
:(

Abraço

GG disse...

A verdade, Bongop, é que todo o mercado de quadrinhos de massa tem passado por essa crise criativa há algum tempo. A DC e a Marvel ainda têm lampejos de boas histórias, porém não consegue manter um padrão por muito tempo. Basta surgir algum filme de HQ ou algum tema que esteja alavancando vendas em algum lugar, que as editoras parecem jogar seu planejamento sério pro ar e partem para uma abordagem estritamente comercial dos seus personagens, esquecendo que se tratam supostamente de histórias de pessoas por baixo das máscaras.

Daniel Násser disse...

A melhor coisa que a DC e a Marvel fariam seria se livrar (ou diminuir) o peso que põe em alguns autores. Isto acaba gerando um excesso de confiança de que o que ele jogarem no papel o leitor compra... (Bendis, um exemplo claro! Depois de Dinastia M nada de fenomenal, e ainda é muito elogiado por "fãs"... Sem contar que até o Ultimate Spider-Man está ficando estranho...).

GG disse...

Daniel, concordo que há uma sobrecarga de peso em cima de alguns roteiristas, porém, acredito que a solução não esteja apenas em mudar a forma como estes são tratados. Acredito que uma solução mais efetiva seria sim investir em novos autores, dar chances a quem realmente tem potencial para escrever determinado tipo de história a faze-lo com um dos personagens consagrados da editora, tudo na medida apropriada, claro. Liberdade criativa e manutenção da essência do personagem e da história são, pra mim, a equação cujo equilíbrio resulta em um sucesso marcante. Basta que estejam dispostos a procura-lo direito.