terça-feira, 18 de janeiro de 2011

6º Colocado: Os Novos "Valores" dos Quadrinhos

Por Gabriel Guimarães

Nessa última década, vivemos momentos conturbados, tanto moralmente (a partir dos ataques de 11 de setembro de 2001) quanto financeiramente (com a crise econômica mundial que assolou o mundo em 2009), e estes tempos tiveram um grande impacto nos quadrinhos ao redor do planeta. Para a sexta colocação na lista dos 10 acontecimentos que mais marcaram os quadrinhos na década, a reação dos quadrinhos, principalmente a esses dois fatores que mencionei, ficaram empatados, ao meu ver.

Comecemos pelo fator econômico, que mostrou um panorama nessa década que poucos poderiam esperar quando esse meio de comunicação de massa tão popular começou a engatinhar no início do século XX. Uma vez que os imóveis, que costumavam ser talvez uma das formas mais seguras de investimento positivo, estavam sendo a causa da grande crise financeira norte-americana em 2009 (mas que afetou o mundo inteiro devido à interdependência monetária, principalmente do dólar), grandes empreendedores começaram a se perguntar sobre uma forma mais segura e sem tantos riscos de gastar o dinheiro pelo qual trabalharam que pudesse ter um retorno considerável mais tarde. E adivinhem qual a solução que encontraram? As revistas em quadrinhos!

Desde a crise, os leilões onde as revistas mais clássicas e históricas da arte sequencial estavam dispostas começaram a demonstrar quebra de recorde seguida de quebra de recorde, chegando a patamares jamais imaginados pelos artistas e editores que trabalharam na produção daquelas revistinhas à época. Acho impressionante o fato de que foi preciso tamanha crise financeira para que houvesse um reconhecimento maior desse material, que, se você observar de um panorama maior e mais amplo, influenciou milhões de vidas, e continua a influenciar. A cultura dos quadrinhos sempre foi e ainda é muito importante, e nessa década, isso realmente foi reconhecido. E não apenas em papel, artigos científicos, etc, mas em cifras, também. E isso foi algo muito importante. Quem sabe, com essa nova visão, haja mais investimento na produção artística voltada para a nona arte e seu público? Talvez então possamos ver as pessoas deixarem de tratar os admiradores de quadrinhos como alienados ou infantis, e, enfim, os vejamos ser respeitados e compreendidos.

Ao segundo ponto dessa colocação, a história vai um pouco mais para o começo da década. Em setembro de 2001, o mundo foi pego em choque com o atentado terrorista às torres gêmeas em Nova York, nos Estados Unidos. Muitas vidas se perderam, histórias foram interrompidas e o mundo perdeu um pouco a expressão de leveza que aparentava ter. Uma tensão global se instaurou, jogando vizinho contra vizinho, amigo contra amigo. Ninguém sabia mais em quem poderia confiar. Tamanha mudança de comportamento não passou desapercebida, e, logo, levou a ramificações nos quadrinhos.




O próprio atentado levou a respostas incrivelmente belas em termos de arte, como a edição da série Amazing Spider-Man onde o Homem-Aranha se depara com os prédios já em chamas e, junto de vários heróis E vilões da Marvel, auxilia no salvamento de inocentes presos nos destroços. Para mim, essa edição foi uma das mais especiais e de maior destaque na década, absolutamente impecável em termos de emoções humanas e solidariedade. Além disso, a Marvel lançou a minissérie "Emergência - A Serviço da Vida", onde contava a história de bombeiros que procuravam salvar suas vítimas e resolver cada caso de uma vez, como heróis da vida real, em 2003. A DC não ficou atrás, e passou a evidenciar em diversas de suas histórias o valor dos prestadores de serviços de resgate do mundo real, como mostrado na imagem que inicia o artigo.

Com essa reviravolta, os quadrinhos mudaram. O tom das histórias passou por um longo período de obscuridade, onde o lado negro dos personagens começou a vir à tona, e o gênero da vida deles passou a ser o drama ao invés das aventuras a que estavam acostumados. A DC passou uma Crise de Identidade em 2004 que a reformulou por completo, mudando a forma como seus principais personagens eram vistos, e a Marvel entrou em Guerra Civil um pouco mais tarde, em 2007,  ponderando os limites do bem que um herói mascarado pode fazer. Foram grandes mudanças, enormes, profundas e estruturais. Necessárias.

Foi um tempo de luto. Não apenas pelo desastre que marcou a década, mas pela inocência que se perdeu. A desconfiança fez lembrar de tempos nada agradáveis em que a certeza do bem triunfar sempre não era tão firme, ao menos não tão firme quanto deveria. E passou-se a questionar isso nos quadrinhos. O que pode ser evitado de fato?



 
Porém, essa mudança no tom das histórias não se limitou aos quadrinhos de heróis. O premiado autor
Art Spiegelman (único quadrinista vencedor do Prêmio Pullitzer pela sua história Maus) também reagiu a esse panorama na sua obra "À Sombra das Torres Ausentes", em que criticava o xenofobismo, algo atípico dentre os quadrinistas para responder ao governo Bush no momento.

Foram muitas mudanças em muito pouco tempo. E os quadrinhos estiveram lá, como todo bom meio de comunicação para mostrar os pontos de vista e reação das pessoas aos eventos que decorreram no mundo. Por todas essas razões, esses dois elementos merecem tamanho crédito, e marcaram a arte sequencial na década.

Notas de complemento:

http://extra.globo.com/tv-e-lazer/revista-com-primeira-aparicao-do-batman-vendida-por-mais-de-us-1-milhao-bate-recorde-92308.html

http://g1.globo.com/Noticias/Economia_Negocios/0,,MUL1549664-9356,00-GIBI+DE+SUPERMAN+REGISTRA+NOVO+RECORDE+EM+LEILAO+US+MILHAO.html


http://www.guardian.co.uk/culture/2004/apr/24/guesteditors3

http://www.universohq.com/quadrinhos/2007/n11092007_05.cfm

Um comentário:

Daniel Násser disse...

Concordo com o autor, só acho que ele deveria ressaltar a importância de "Crise de Identidade" para esta reestruturação, não só da DC, mas da Marvel :)