quarta-feira, 3 de abril de 2013

A Gênese de um Nêmese

Por Gabriel Guimarães


Pouco mais de um mês atrás, a editora Panini publicou aqui no Brasil a história em quadrinhos "Nêmesis", lançada em 2011 nos Estados Unidos pela dupla Mark Millar (roteiro) e Steve McNiven (desenho). Criada a partir da seguinte questão "O que aconteceria se existisse alguém inteligente e com recursos infindáveis, como o Batman, mas com a mentalidade deturpada de alguém como o Coringa?", a história gira em torno das ações desse personagem hipotético, em sua encruzilhada para destruir policiais considerados exemplares ao redor do mundo inteiro.
 
Capa da edição da Panini
Iniciando sua jornada no Japão, com uma prévia do seu estilo de planejamento, Nêmesis deixa Tóquio em uma situação extremamente caótica antes de rumar para os Estados Unidos para atacar o chefe policial Blake Morrow, futuro candidato a secretário de defesa. A trama se desenrola adquirindo um tom brutal cheio de adrenalina, conforme o criminoso ameaça e ataca Morrow tanto física quanto psicologicamente. Com um humor ácido e várias sequências de muito envolvimento visual, a história proporciona um suspense de grande qualidade para o leitor, prendendo-o da primeira à última página.
 
Entretanto, há determinadas características da trama que merecem ser analisadas de forma mais particular. A completa ausência de limites no que tange ao valor descartável das vidas humanas e a falta de profundidade nos personagens envolvidos na história acabam pesando bastante contra o universo proposto por Millar e McNiven. A dupla, outrora criadora de histórias memoráveis como o arco "Guerra Civil", protagonizado pelos principais personagens da editora Marvel, e a saga "Oldman Logan", que apresenta um futuro devastado que precisa ser corrigido pelo personagem Wolverine, da mesma editora; não consegue repetir o mesmo nível de sucesso em sua nova empreitada. O posto de protagonista oscila tanto entre o policial e o criminoso que torna difícil se identificar com qualquer um dos dois, ainda que a evolução da história torne o leitor bastante sensível ao drama vivenciado por determinados personagens.
 
A personalidade do Nêmesis, porém, se caracteriza como o grande elemento da história em si. Com uma visão radical sobre a moral universal, a qual não é, de certo modo, justificada em alguns momentos da trama, o sadismo do personagem se destaca como a principal semente de seu caráter duvidoso. Dessa forma, o vilão se qualifica junto a outros vilões e anti-heróis admirados pelo público, como Lobo, da DC Comics, Deadpool, da Marvel, e o Juiz Dredd, da britânica Rebellion Developments, como parte do catálogo de personagens que podem ser encontrados nas páginas de revistas em quadrinhos ao redor do planeta.

Blake Morrow enfrentando Nêmesis

A história também representa uma estratégia recorrente de Millar. Como ele fizera com outras histórias suas, como "Kick-Ass", o roteirista vendeu os direitos de adaptação para o cinema antes mesmo de o material final ser publicado. "Nêmesis" já tem confirmado até o momento a direção de Joe Carnaham, um dos responsáveis pela revitalização do "Esquadrão Classe A" nos cinemas, que trabalhará em cima de um roteiro que está em fase de produção a partir da história de Millar e McNiven. Dessa forma, a trama dos quadrinhos em si é mais como uma introdução ao universo que será apresentado de forma mais minuciosa na grande tela das salas de cinema. Algo similar ocorreu também com "R.E.D. - Aposentados e Perigosos", de Warren Ellis e Cully Hamner, que surgiu nos quadrinhos, ganhou mais substância no cinema e acabou ganhando o interesse do público.
 
O acabamento editorial de "Nêmesis", da editora Panini, vale também ser destacado. Parte da política recente da editora em lançar histórias de arco fechado em papel couché e capa dura, com preço moderado, a edição chama a atenção nas livrarias e pontos de venda, atraindo bastante o público que está começando sua jornada na leitura da arte sequencial. Fica apenas o alerta para o conteúdo adulto em termos de violência empregados na história, detalhadamente desenhado por McNiven. A experiência apresentada em "Nêmesis", portanto, é algo válido de ser conferido, dadas as devidas condições em que a obra se sustenta, sendo, dessa forma, recomendável para públicos de estômago mais forte e de boa compreensão da divisão entre a ficção e a realidade.
 
NOTA GERAL: 1,5 ESTRELAS.

Um comentário:

Júnior Nascimento disse...

Muito bom Gabriel! Parabéns... Abraço!


Júnior Nascimento