sexta-feira, 28 de outubro de 2011

76 Anos de Muita Emoção

Por Gabriel Guimarães


Ontem, dia 27 de outubro, foi o 76º aniversário daquele que é talvez a figura mais importante para as histórias em quadrinhos no Brasil. Com seu estilo sutil, humilde e ainda assim, empreendedor, seus personagens conseguiram quebrar barreiras, línguas, e conquistaram o mundo, começando pelas crianças. Conforme já foi destacado aqui no blog incontáveis vezes, o papel que este homem desempenhou no panorama geral da arte sequencial brasileira é imprecindível, e jamais sua importância pode ser relevada. Estamos falando, é claro, do grande padrinho da nona arte tupiquinim, Maurício de Sousa.

Nascido em uma família simples, Maurício foi criado em um ambiente onde a arte já predominava, com seu pai e mãe sendo admiradores e autores de poesia, permitindo assim que desde pequeno, ele pudesse construir todo um universo maravilhoso o qual os olhos não podiam ver, mas o qual as palavras certamente poderiam dar vida. E foi na arte que ele encontrou a sua forma de representar essa veia artística única. Começando através de ilustrações para pequenos jornais na sua cidade natal, de Mogi das Cruzes, até a profissão de desenhista para o caderno policial do jornal Folha da Manhã, Maurício sempre manteve um contato muito forte com suas raízes artísticas, dando início em 18 de julho de 1959 à sua longa e muito importante carreira nas histórias em quadrinhos, pelo seu primeiro personagem, o cachorrinho Bidu, acompanhado de seu intrépido dono, o jovem Franjinha.


Maurício com o primeiro volume da homenagem
feita aos seus 50 anos de carreira pelas
mãos de dezenas de quadrinistas influenciados
por ele (o que já foi tema de matéria antes aqui no blog)

Pelos anos que se seguiram, novos personagens foram sendo criados, a partir das principais fontes de inspiração de Maurício, as pessoas com quem teve contato ao longo de toda sua vida. Amigos, conhecidos, filhas. E foi inspirado em suas filhas que nasceram algumas das personagens mais marcantes dos quadrinhos brasileiros, em especial uma um pouco mais baixinha, um tanto gorduchinha, com dentes maiores na frente e que sempre trajava um vestidinho vermelho carregando seu coelhinho azul de pelúcia por toda parte, a Mônica.

Não tendo que utilizar de recursos mais adultos nas aventuras de seus personagens, o público de Maurício se expandiu incrivelmente, se tornando algo quase que onipresente na formação dos novos leitores com o passar das décadas (esse papel influenciador dos quadrinhos já foi discutido aqui no blog antes), e, assim, alcançando um patamar de merecido destaque em toda a cultura popular que o povo brasileiro dividia em comum. Com isso, a turminha resolveu viajar pelo mundo inteiro, levando o rosto e os bons planos infalíveis do Cebolinha para todos os cantos do mundo, sendo traduzidos para dezenas de línguas, com destaque para o mandarim, que veio se consolidando nos últimos tempos, e que a turma da Mônica conseguiu aos poucos ir adquirindo, se tornando muito popular entre os chineses (já foi feita uma matéria antes aqui no blog sobre a cultura dos quadrinhos na China, para quem tiver o interesse, fica o convite para dar uma conferida).


Maurício desenhando seu
personagem favorito, o
dinossaurinho verde Horácio
 E com o tempo, a turminha cresceu. Em 2008, após quase 50 anos, a vida mudou, e a adolescência se tornou a palavra da vez nas histórias do universo criado por Maurício, sem, é claro, manter os tradicionais títulos voltados para o público infantil (o crescimento da turma da Mônica também já foi tema de matéria aqui no blog antes). Tendo um novo título entre seus muitos já publicados, "A Turma da Mônica Jovem" fez tremendo sucesso e este ano de 2011 ainda detém o recorde de edições vendidas de um único número com a tiragem exorbitante de 500.000 exemplares para sua edição de número 34 (que foi tema de matéria aqui no blog também), em âmbito global, superando até as vendas do relançamento da DC no formato digital, que aconteceu recentemente nos Estados Unidos (e que também foi tema de matéria aqui no blog).

Todos fomos influenciados por suas histórias. Todos fomos tocados por seus personagens. Todos somos parte de tudo que a turminha representa. E é por isso, que desejamos, todos, um feliz aniversário com muita alegria e ainda mais sucesso para este grande profissional e talentoso criador que é o paulistano Maurício de Sousa. Obrigado por tudo, Maurício, e que ainda venha muito mais desses momentos marcantes causados pela sua presença entre nós.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

RIO COMICON, BABY!!! - ANO 2 - EPÍLOGO

Por Gabriel Guimarães



E mais uma edição da Rio Comicon chega ao fim. Tal qual toda boa obra em quadrinhos, o evento foi marcado por experiências intensas, que prenderam emocionalmente todos os que estiveram presentes e, com certeza, proporcionaram momentos que jamais sairão das lembranças dessas pessoas.

Contando com a presença de convidados ilustres tanto do âmbito nacional quanto global, o fluxo de comunicação com os grandes responsáveis por muitas das histórias que compõem nossos imaginários foi incrível, com uma disponibilidade imensa por parte dos profissionais e um interesse sincero dos visitantes. Para quem estava começando ou tinha desejo de entrar nesse mundo também de forma formal, o evento, através da área ocupada pela gráfica J. Sholna, ofereceu a oportunidade de distribuir na Estação Leopoldina o material independente produzido pelos aspirantes ainda a quadrinistas, e a procura por esses serviços foi enorme, ainda que muitos contatos tenham sido mais a longo prazo.


Valentina, em desenho do
italiano Guido Crepax

O material exposto nas homenagens, tanto do eterno pioneiro Will Eisner, quanto da sedutora Valentina, e da vitoriosa história de 75 anos da editora DC comics e a tradição de histórias emocionantes e inesquecíveis do grupo de mangakás japonesas CLAMP, foi primoroso. Para todos os gostos, houve opção. Até para os quadrinhos underground, que não tiveram propriamente uma exposição, o evento contou com a participação do artista Peter Kuper, que deu uma aula da história desse gênero de quadrinhos, e que respondeu com atenção a todos os que foram conversar com ele. Contando com tanto conteúdo, é uma pena, no final das contas, que muitos dos jovens visitantes em potencial do evento não puderam ir por causa do Exame Nacional do Ensino Médio, o ENEM, que estava sendo realizado durante todo o fim de semana.


Arte do argentino Liniers usada
na divulgação da Rio Comicon 2011

Numa análise geral do evento, tudo ocorreu de forma similar à edição do ano passado, o que tem seus prós e seus contras, mas que, em suma, foi algo muito especial. Apesar de a divulgação ter sido um pouco defasada, por conta de problemas de locação e outras questões menores, e o preço do ingresso ter estado consideravelmente mais caro, a quantidade de oficinas disponibilizadas e a estrutura onde elas são administradas cresceu muito, e a quantidade de convidados foi impressionante.

A cultura dos quadrinhos esteve muito bem representada, e tem tudo para crescer cada vez mais, conforme o reconhecimento devido for sendo conquistado, uma luta de cada vez.


Ano que vem tem mais, e com certeza, teremos novas oportunidades para afirmar que:

É RIO COMICON, BABY!!!

domingo, 23 de outubro de 2011

RIO COMICON, BABY!!! - ANO 2 - DIA FINAL

Por Gabriel Guimarães


Um pequeno herói junto
ao ator vestido de Capitão América

Num domingo onde o Sol esteve alto, aquecendo o já caloroso ambiente da Estação Leopoldina, o movimento foi consideravelmente bom, e muitas famílias estiveram presentes com crianças de todas as idades, que puderam ter momentos ótimos com os personagens do mundo maravilhoso dos quadrinhos. Aproveitando a presença novamente de atores e atrizes fantasiados dos mais diversos personagens da cultura pop em geral, os pequenos fãs de quadrinhos se divertiram e, sem dúvida, voltaram para casa ao final do dia com recordações para o resto da vida.


Enquanto o movimento familiar aumentou, o negócio do dia ficou em volta dos gibis mais raros e históricos que estavam dispostos na barraca do Arafatt e do Marquinhos, este último o antigo dono da loja de quadrinhos carioca Gibimania, que era ponto de referência no estado e que, já há algum tempo, não estava tanto em destaque. O material levado para o estande e a receptividade dos tanto vendedores quanto admiradores de quadrinhos que são os dois donos disso foram excelentes. Aos colecionadores, foi imprecindível conferir as ofertas lá, e saiu feliz quem conseguiu observar tudo que estava exposto, que, diga-se de passagem, contia material do mundo inteiro feito em quadrinhos, desde Japão, até Argentina, chegando na Rússia.

Cena do curta brasileiro do
anti-herói "Urubucamelô"
Pelo evento, ainda ocorreu a segunda parte do 1º Colóquio de Filosofia e Histórias em Quadrinhos, que contou com a apresentação de alguns trabalhos muito interessantes. Começando por uma análise histórica da abordagem do mito nas aventuras da Mulher Maravilha, feita pela doutora em filosofia Susana de Castro, o colóquio atraiu um público diversificado e bastante curioso com tudo que era dito, em especial, com a criação nacional feita pelo professor da Escola de Comunicação da UFRJ, Fernando Gerheim, o "Urubucamelô", um anti-herói cuja essência consiste numa crítica implícita ao distanciamento dos heróis norte-americanos sobre a realidade da problemática mundana. Originado num lixão, o personagem representa uma questão fundamental sobre o heroísmo mais popular, na questão entre o herói e o marginal.

Numa sequência deste questionamento do herói, o também doutorando Fábio François abordou o niilismo presente na obra máxima do gênero dos super-heróis, "Watchmen", ponderando sobre a metalinguagem intrínseca na história, sobre uma realidade que gira em torno do efeito da real exitência de super seres no nosso mundo real, e não um universo imaginado. Analisando os tipos e momentos do herói, adaptados pontualmente da obra de Heidegger, François observou ainda o papel de cada personagem da trama dessa saga como reflexo filosófico específico da relação com a conscientização da fragilidade da humanidade.

Claremont, ao centro, sendo traduzido pelo estudioso Carlos
Patati,  à sua esquerda, e mediado pelo doutorando
Fábio Morilhe, à sua direita
Ainda numa análise do universo heróico, o professor Luis Alencastro analisou a questão da univocidade do ser presente em obras como a "Crise nas Infinitas Terras", a partir das obras de Sócrates. Tendo precisado se limitar ao tempo que essa etapa do dia necessitou, Lencastro abordou apenas superficialmente a questão, usando do filme "Efeito Borboleta" como um exemplo leigo para o público conseguir compreender a pluralidade de realidades composta pelas decisões as quais são observadas na obra que redefiniu a DC comics nos anos de 1980. Para concluir, o antológico roteirista dos X-men e Wolverine, Chris Claremont, compareceu para responder a algumas questões sociais e composicionais propostas pelo mediador, Fábio Mourilhe. Enfatizando na questão de que ele via seus personagens como pessoas e não como heróis de colant, Claremont destacou que a humanidade dos protagonistas numa história em quadrinhos, ainda que seja numa aventura heróica, é a essência de qualquer boa história. Ao afirmar que "super poderes são um detalhe, e apenas parte de um todo que é a personagem", e que "trabalha com hístórias de pessoas que possuem um dom, seja este dom um super poder ou não", Claremont passou uma tansparência muito grande para o público sobre sua visão dos quadrinhos e mostrou, assim, a razão de ter sido o autor de momentos tão inestimáveis e inesquecíveis nas histórias de grandes personagens da Marvel por muito tempo.

Ao longo do dia, o assédio também foi grande em torno de profissionais dos quadrinhos como a paulista Érica Awano, que esteve autografando livros no estande da Livraria da Travessa, junto da japonesa Junko Mizuno. Autores como Emerson Lopes, que trabalhou no álbum "Pequenos Heróis" (já comentado aqui no blog antes) e é o criador do bem-humorado personagem "Alfredo, o Vampiro" (cujo bom blog pode ser visto aqui); Rafael Coutinho, desenhista da história em quadrinhos "Cachalote"; Alberto Serrano, quadrinista conehcido pelo seu trabalho de street art com os seus personagens Tito e o Cão Viralata; e o cartunista Gilmar, autor de álbuns como "Para ler quando seu chefe não estiver olhando" e "Caroço no Angu", o dia esteve bastante movimentado, e o público presente ganhou muito com isso.


Klebs Jr apresentou uma excelente oficina sobre
o mercado internacional de quadrinhos, que prendeu
a atenção de todos os presentes
 Também foi realizada uma oficina pelo agente Klebs Jr, integrante do grupo Impacto Quadrinhos, sobre o mercado internacional de quadrinhos, que foi extremamente importante para os que a conferiram. Realizada num ambiente melhor do que o que era disponibilizado na edição anterior da Rio Comicon, Klebs comentou sua entrada no mercado de quadrinhos há mais de 15 anos e os pontos fundamentais que a indústria de quadrinhos procura em novos profissionais. Explicando que o mercado internacional de quadrinhos muitas vezes se consiste de uma arte industrializada mais do que uma mera criação pessoal, ele expôs exemplos práticos para pontuar questões que devem ser avaliadas por todos que pretendem seguir carreira nesse meio, e concentrou-se na mensagem que "todo desenho é uma mensagem" para explicar que todo detalhe ou traço que o desenhista faz numa página altera a percepção e assimilação dessa mensagem, tanto para facilita-lo quanto para dificulta-lo. Comentando ainda da necessidade de se compor um repertório visual rico e diversificado, indicando, inclusive, uma série de artistas que merecem ser conhecidos pelos aspirantes a ilustradores, como o artista que definiu a visão dos Estados Unidos no começo do século XX, o brilhante Norman Rockwell, o italiano Claudio Castelini e o clássico Hal Foster, Klebs conseguiu prender a atenção de todos e rendeu uma experiência bastante agradável e instrutiva de forma leve e prática.
 
O dia ainda esteve lotado em torno da apresentação dos
cosplays diversificados que estiveram presentes
 No final do dia, o humorista Fernando Caruso ainda esteve presente no evento, promovendo a premiére de sua nova série no canal de TV a cabo Multishow, "Ed Mort" (personagem este que já foi lembrado aqui no blog antes, em matéria sobre a adaptação de quadrinhos brasileiros para o cinema). Recebido de braços abertos, Caruso facilmente se tornou parte do evento, e até funcionários que estavam trabalhando no evento conversaram e tiraram fotos com ele, rendendo cenas engraçadas e interessantes.

Enfim, mais uma edição da Rio Comicon chega ao fim, mas o que ela proporcionou a todos os que puderam estar presentes, permanecerá sempre com todos. Única como só ela poderia ser, não há não destacar com entusiasmo que:

É RIO COMICON, BABY!!!

sábado, 22 de outubro de 2011

RIO COMICON, BABY!!! - ANO 2 - DIA 3

Por Gabriel Guimarães


Neste sábado, foi perceptível o fato de que muitos dos visitantes em potencial para o evento estavam envolvidos com a avaliação do Enem, que está sendo realizada neste fim de semana. A expectativa de um público nas proporções do da última edição do evento acabou sendo frustrada, mas ainda assim, houve muitas atividades estimulantes e o público, ainda que não na totalidade do que poderia chegar a ser, esteve em um número considerável na Estação Leopoldina, e, conforme o tempo foi passando e o Exame Nacional do Ensino Médio foi liberando seu contingente de participantes, a procura pelos estandes aumentou significativamente.


Os palestrantes do 1º Colóquio de Filosofia e Histórias
em Quadrinhos abordaram muitos temas interessantes do meio

Logo pela manhã, teve início o 1º Colóquio de Filosofia e Histórias em Quadrinhos, voltado para abrir um debate acadêmico e epistemológico do meio, com maior liberdade de comunicação com o público. Mediada pelo doutorando em filosofia Fábio Mourilhe, o colóquio contou com a apresentação de diversos trabalhos envolvendo as histórias em quadrinhos em muitos aspectos interessantes, desde a análise da relação entre fantasia, ficção e realidade contida nas histórias, onde foi citado exemplos como o Homem-Animal, de Grant Morrison, apresentada pelo próprio Fábio;, até o trabalho apresentado pelo doutorando Marcos Carvalho Lopes, que consistia nas influências ideológicas das histórias em quadrinhos na formação do público jovem leitor italiano no século XX, especificamente analisada através da obra "A Misteriosa Chama da Rainha Loana", de Umberto Eco, a qual é centrada num personagem que perde a sensibilidade de suas memórias, e precisa reconectar-se a estes sentimentos através da lembrança que obtêm observando o material que leu durante a juventude, entre o qual se destacam diversas obras de quadrinhos, como os que eram publicados nas revistas italianas "Corrieri dei Piccoli" e "L'Avventuroso", além de histórias como Flash Gordon, Mandrake, Fantasma e, imprecindivelmente, Mickey, também conhecido naquele país por Topolino.


Peter Kuper explicou a trajetória dos quadrinhos
underground de forma primorosa

Comparando também o conceito de ruptura construído por Bachelard para o campo da ciência, Fábio também propôs uma transição deste para um olhar histórico sobre a arte sequencial, que de tempos em tempos, em sua vasta existência, passou por períodos e trabalhos que revolucionaram o meio, e até hoje, ainda revolucionam. Uma das rupturas que foi destacada acabou ganhando bastante destaque em dois dos outros trabalhos apresentados, um sobre a questão da censura nos quadrinhos com o código de ética criado na época em que o psicólogo Frederik Wertham começou a atacar os quadrinhos, alegando estes serem instrumentos para estimular a delinquência juvenil; e outro, num depoimento pessoal e historicamente colocado pelo autor americano Peter Kuper, que descreveu o surgimento e expansão dos quadrinhos undergrounds a partir do selo de ética. Kuper destacou que, curiosamente, quando o selo de ética foi posto em prática, todas as revistas da EC comics, grande catalisadora do movimento pela censura, foram proibidas de serem distribuidas, pois continham no seu título algumas das palavras específicas que foram banidas pelo Senado norte-americano, à exceção de uma, justamente a que era mais subversiva de todas, a "MAD", que continuou a ser publicada e distribuida normalmente, ganhando até mais força pela escassez de títulos do gênero e o público já aficcionado por ele. Com isso, outros dos admiradores deste estilo acabaram por criar futuramente trabalhos ainda mais subversivos que o original, e assim foi se dando o crescimento do mercado underground de quadrinhos, ou, como ficaram conhecidos por alguns, Comix.

Na outra apresentação, realizada pelo professor universitário Luis Alencastro, o foco foi a discussão entre sonho e devaneio nos quadrinhos, mais especificamente, nas obras de Sandman, criadas pelo britânico Neil Gaiman. Traçando um panorama histórico que fora composto por obras como a "Genealogia da Moral", do alemão Friedrich Nietzsche, até outros materiais escritos por Bachelard, Bergson e Deleuze, Alencastro construiu um debate muito interessante acerca da problemática dos quadrinhos enquanto mitos modernos e da necessidade de se libertar da opressão do passado, ao qual as pessoas buscam ser fiéis, ainda que esta fidelidade possa ser a um sonho qualquer que tenham tido numa noite aleatória, para que se possa ir adiante no caminho da vida para maiores conquistas pessoais. Para quem conseguiu estar presente, foram apresentações bastante abrangentes e reflexivas, e os autores puderam encontrar um público igualmente capaz de discutir o conteúdo ali apresentado.


A exposição "DC 75 Anos" dispõe
de muitos cartazes e imagens em
tamanho ampliado que chamam a
atenção de todos

No restante do evento, o destaque ficou por conta das belíssimas exposições em homenagem ao grupo de mangá CLAMP e aos 75 anos completados pela editora DC. Dispostas em duas das plataformas da antiga estação de trêns, ambas contaram com material de qualidade inquestionável, ainda que a exposição da CLAMP pudesse ter sido melhor organizada. Passa desapercebido pela maioria que os pedaços de papéis rasgados nas pilastras da plataforma são na verdade compostos de textos em japonês, numa tentativa de aludir ao papel das estações de transporte público para a disseminação dos quadrinhos no Japão. Pela DC, a exposição constitui numa apresentação resumida do livro "DC 75 Years - The Art of Modern Mythmaking", disponível para compra no estande da Livraria da Travessa, e que conta com mais de 700 páginas sobre a história da editora (essa obra, inclusive, já foi comentada aqui no blog antes).

A japonesa Junko Mizuno
autografou para muitos leitores
O argentino Liniers foi muito
procurado pelos admiradores
de seu trabalho nas edições
do "Macanudo" 
Entre os autores presentes no dia, que atraíram muito a atenção dos visitantes presentes, estiveram novamente o roteirista Chris Claremont, cujo assédio dos seus admiradores por ele cresceu exponencialmente ao longo do dia, além dos argentinos Liniers, criador da célebre série "Macanudo", e Salvador Sans, autor da obra "Noturno", e da japonesa Junko Mizuno, autora da série "Cinderalla". Entre os autores nacionais, o destaque ficou por conta da presença da talentosa desenhista Erica Awano, que trabalhou na excelente série brasileira "Holy Avenger" e que hoje é membro dos estúdios da MSP, do quadrinista Danilo Beyruth, que esteve autografando seus livros publicados na área onde ano passado fora conhecida como plataforma dos desenhistas, e os autores das histórias em quadrinhos da "Beleléu", que estiveram disponibilizando seu material para os interessados em comprá-lo.


Autógrafo do americano Chris
Claremont em estatueta da Fênix Negra

Entre os estandes, o destaque fica na bancada destinada às figuras de ação que atraíram a atenção de todos os visitantes ao longo de toda a realização da Rio Comicon deste ano. Aproveitando a oportunidade de mostrar seu acervo, os dois responsáveis pelo estande, Márcio e Fábio, conseguiram alcançar até mesmo um público que eles não esperavam,: o dos autores. O americano Chris Claremont gostou tanto do material exposto lá, que levou uma das estatuetas que estavam expostas e ainda autografou uma edição luxuosa da Fênix Negra, fruto de sua fase nos X-men, para o dono do espaço, que ficou extremamente satisfeito.


Durante a tarde do evento, também, aconteceu uma pequena festividade com muitos atores e atrizes fantasiados de cosplay de muitos personagens do mundo dos quadrinhos, games e animações. Os mais jovens que puderam conferir esse momento também gostaram bastante pela diversidade de personagens apresentados.


Evento de cosplay que aconteceu com
alguns atores e atrizes na Estação Leopoldina
 Ainda falta um dia, mas, certamente, há muitas histórias por contar. Aguardem, pois, afinal de contas,:

É RIO COMICON, BABY!!!

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

RIO COMICON, BABY!!! - ANO 2 - DIA 2

Por Gabriel Guimarães



Claremont recebeu muito bem os fãs, após
entrevista que deu para o canal Globonews
Contando com a presença de ilustres autores de quadrinhos internacionais desde a manhã, como o roteirista Chris Claremont, célebre criador de histórias memoráveis dos X-men, e o quadrinista Peter Kuper, desenhista da tira Spy vs. Spy, publicado na revista MAD há anos, e de uma adaptação para quadrinhos do conto de Franz Kafka, "Metamorfose", o dia de hoje na Rio Comicon foi bastante positivo.

Explorando um pouco mais a disposição dos estandes e exposições, o público teve oportunidade de conferir um passeio maravilhoso pela história de vida de um dos maiores quadrinistas do hall da fama desse meio de comunicação, Will Eisner, um dos homenageados nesta edição do evento. (e que já foi homenageado aqui e aqui no blog também) Contando com uma estrutura especificamente construída para armanazenar material original produzido pelo grande nova-iorquino, o qual foi feito um plano de seguro de mais de 300 mil dólares, a exposição que conta muito da vida do autor, inclusive, com o documentário "Will Eisner: Profissão Cartunista" sendo exibido continuamente, é um dos grandes pontos do evento deste ano, e não deixa nada mesmo a desejar. Com uma maquete construída cuidadosamente de uma grande cidade na saída da exposição, onde uma estatueta do grande personagem de Eisner, o Spirit, se encontra no centro, girando em torno da metrópole característica das obras desse grande mestre, a composição de tudo ficou muito bem arranjado, contando ainda com uma pintura nesta última sala do próprio Spirit feita em um papel do mesmo material em que se vendem os pães de padaria. Por um outro lado, apesar de a estrutura da cidade montada ser excelente e, de forma surpreendente, acender suas luzes internas dentro das janelas conforme a luz do dia vai acabando na sala, o esquema para essa iluminação não parece ser tão seguro para a integridade do material e precisa de muita atenção para que não haja qualquer imprevisto neste sentido.

Imagem de Valentina, na sua exposição
Próximo dali, outra das personagens homenageadas também ganhou uma área de destaque. Trata-se de Valentina, personagem erótica criada pelo italiano Guido Crepax. O espaço designado para a amostra do material dela foi construído inteiramente dentro de seu universo, uma vez que fica exposto a uma luz violeta forte, que torna todo o ambiente algo mais sedutor e hipnotizante. Contando com material de diversas histórias dela, publicadas ao longo de muitas décadas, a exposição mostra ainda uma peça de roupa e materiais de decoração produzidos pela filha de Crepax, e cuja temática é inteiramente voltada para Valentina. Para quem puder conferir e tiver a idade necessária para tal, claro, vale bastante a pena.

Ao longo do restante da Estação Leopoldina, os estandes ainda são poucos comparado ao potencial que o local poderia comportar, e o custo elevado destes acabou provocando uma separação até certo ponto curiosa entre os autores presentes no evento. Enquanto os nomes mais conhecidos estão alocados nos estandes do corredor principal, os quadrinhos independentes ficaram com o espaço que no ano passado era conhecido como "estação dos autores", que era onde ocorriam as sessões de autógrafos com os convidados. O ambiente ficou mais arejado para se locomover, mas a divisão causou alguns desconfortos em algumas partes.

Enfim, a estrutura do evento continuou a mesma do ano passado, com a Livraria da Travessa tendo um espaço de destaque e sendo a única fonte para compra de livros, e o centro da Estação ficou ocupado por extensos murais com material produzido por dezenas de desenhistas nacionais e estrangeiros, que diga-se de passagem, estão muito bons.

Rafael Albuquerque e Danilo Beyruth durante
o debate "Conquistando a América"
O dia de hoje ainda ofereceu a oportunidade de conferir uma série de debates, como o "Conquistando as Américas", composto pelos quadrinistas Danilo Beyruth, autor da ótima história "Bando de Dois" e criador do personagem Necronauta; e Rafael Albuquerque, co-criador da série da linha Vertigo da DC "American Vampire", recentemente premiada com o prêmio Eisner (o blog chegou a comentar a indicação do trabalho de Albuquerque aqui);, sendo mediada por Ulisses Mattos. Conduzida a partir da questão da origem brasileira sendo publicada pelo mercado exterior afora, o debate abrangeu bastante o trabalho dos dois quadrinistas e suas posições sobre o "ser" brasileiro num mercado globalizado, ainda analisando a estrutura na qual o mercado de consumo de quadrinhos no Brasil se estrutura e o efeito que isso tem na produção dos autores nacionais, todo a discussão foi bastante interessante.

Analisando o efeito da internet na produção de arte sequencial (já analisadas aqui no blog antes) e as novas formas de encontrar seu público, os dois autres, que vêm obtendo cada vez mais sucesso nos últimos anos, conseguiram apresentar a importância de uma história sobre o veículo onde ela pode ser veiculada, e o quanto você poderia acrescentar em termos de oportunidade de expandir seu mercado produzindo tanto para o formato eletrônico quanto para o impresso. Beyruth, partindo da ideia de que "histórias boas são universais", defendeu que independente de onde se publique um material, seja dentro ou fora do próprio país dos autores, se ele for bom de verdade, tem plenas condições de obter sucesso, citando, inclusive, o exemplo dos westerns que se passam nos Estados Unidos que sao publicados nos fumetti italianos, ou mesmo a história "Daytripper", produzida pelos gêmeos Fabio Moon e Gabriel Bá, que primeiramente foi lançada no mercado norte-americano, arrebatando o público e rendendo grandes prêmios do circuito internacional de quadrinhos, para só então chegar ao Brasil, onde a história é ambientada.

O debate ainda contou com a presença ilustre de uma série de grandes profissionais e estudiosos do meio, como o editor Sidney Gusman, o autor Carlos Patati e o desenhista Daniel Gnattali, este último o qual está realizando uma enorme proeza de cobrir o evento da Rio Comicon no formato de quadrinhos mesmo, produzidos diariamente durante e após os acontecimentos do dia no evento, e que vale, sem dúvida, uma boa conferida.

O dia foi bastante movimentada, portanto, e para quem gosta de quadrinhos, foi um ambiente maravilhoso de conferir. Nos próximos dias, o movimento deve aumentar bastante, então é melhor se prepararem, pois:

É RIO COMICON, BABY!!!

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

RIO COMICON, BABY!!! - ANO 2 - DIA 1

Por Gabriel Guimarães



No primeiro dia da segunda edição anual da Rio Comicon, havia muita expectativa no ar, enquanto os estandes começavam a ser montados e os expositores começavam a ocupar a Estação Leopoldina uma vez mais. O dia foi bastante agradável e a tarde contou com uma temperatura, proporcionando muitos momentos de calmaria, o que não quer dizer que não tenha havido assunto para se comentar entre os leitrores de quadrinhos e os profissionais do meio.

Abrindo os portões uma hora mais tarde do que o planejado, o evento recebeu muito bem os visitantes desse primeiro dia, com oficinas e debates bastante estimulantes. Para quem foi conferir as aulas dadas pelos profissionais da Impacto Quadrinhos, foram apresentadas técnicas de colorização digital e de anatomia, enquanto para os interessados numa discussão acerca das dimensões que a arte sequencial vem tomando, foi apresentado o debate "Histórias em Quadrinhos e a Cultura Pop", que contou com a presença de quatro quadrinistas paulistanos, Mateus Acioli, Marcelo D'Salete, Rafael Moralez e Heitor Yida, sob a mediação do ex-integrante da banda Rapa, Marcelo Yuka, que abordou questões muito importantes para o estado atual dos quadrinhos enquanto meio de comunicação no Brasil.

Partindo de uma discussão sobre as influências da cidade de São Paulo sobre a geração de quadrinistas que vêm surgindo de lá nos últimos tempos, apontando o efeito da união de culturas das mais diversas num grande centro populacional e de como a urbanização afeta a criatividade, o debate transitou pelas experiências de cada um dos debatedores pelas ruas e a conscientização da existência na cidade de maior oportunidade para os mais diversos nichos de interesse de entretenimento encontrarem seus pares e formarem grupos de discussão. Para os que puderam assistir ao debate, foi muito interessante observar a divergência do conceito de identidade brasileira de quadrinizar entre os debatedores, pois, através de uma discussão aberta em que cada um expôs sua visão do próprio trabalho frente a essa questão, foi possível perceber o quanto às vezes a cultura da nossa rotina passa para as páginas produzidas de quadrinhos mesmo sem um propósito previamente estabelecido para isso. Discutindo obras como "Cachalote", "Peixe Peludo" e o material produzido por Lourenço Mutarelli, o debate foi bastante abrangente, com o intuito de identificar o momento dos quadrinhos brasileiros atuais.

Marcelo Yuka mediando a mesa sobre histórias em quadrinhos e cultura pop
Partindo das páginas impressas dos quadrinhos para suas adaptações para o cinema, discutiu-se até que ponto a influência dos demais meios de comunicação determinam muitas das histórias produzidas pelos debatedores, e como eles viam essa relação, o que rendeu algumas críticas inflamadas e comentários extremamente pertinentes sobre a diferença entre a adaptação e a transcrição literal (que, inclusive, já foi comentada aqui no blog antes). Outra questão bastante importante analisada foi a importância do desenho e do texto para uma história em quadrinhos, e que medida seria ideal entre estes para que um material obtivesse um resultado positivo enquanto narrativa. O desenhista Marcelo D'Salete, partindo de sua experiência pessoal com José Carlos Fernandes, escritor português da história em quadrinhos "A Pior Banda do Mundo", que havia lhe enviado um texto de extrema qualidade, porém, que pouco poderia ter mais valor agregado por meio de desenhos, explicou sua posição de que uma história em quadrinhos só deve ser de fato feita se os dois meios de linguagem envolvidos nessa narrativa gráfica acrescentarem algo um ao outro, e caso isso não possa acontecer, é preciso avaliar a viabilidade do projeto.

Lançamento da estreia de Guilherme de
Sousa como roteirista de quadrinhos e
Daneil Bacellar como desenhista
Terminando com uma análise do mercado editorial brasileiro de quadrinhos autorais, em ascenção nos dias atuais, e o papel desempenhado pelo padrinho dos quadrinhos nacionais, Maurício de Sousa, e seu estúdio no mercado, foi-se destacado a importância do trabalho de Maurício por alguns, enquanto todos ressaltaram que não existe nesse caso uma concorrência direta pelo público leitor, uma vez que as propostas são de cunho e teor muito diferentes.

A presença de autores como Rafael Albuquerque, Rafael Grampá, Gustavo Duarte, os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, e o roteirista americano Chris Claremont (este último que apenas caminhou pelos estandes observando a diversidade de gêneros expostos e disponibilizados), dos indepentes e talentosos Will Sideral, Daniel Esteves e Cadu Simões, e dos recém lançados Murilo Martins e a dupla Guilherme de Sousa e Daniel Bacellar, o evento teve bastante movimentação, atraindo os visitantes em diversas direções, e tem tudo para continuar animando muito a todos nos próximos dias que seguirão, afinal de contas,:

É RIO COMICON, BABY!!!

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

RIO COMICON, BABY!!! - PRELÚDIO DO SEGUNDO ANO

Por Gabriel Guimarães


Parece que foi ontem que a cidade do Rio de Janeiro abria suas portas novamente para o mundo dos quadrinhos através de um grande evento após 17 anos de escassez. Em seis dias de muita atividade e ativo contato entre o público e os profissionais da arte sequencial (que podem ser conferidos detalhadamente aqui na cobertura do blog), foram vivenciadas experiências inesquecíveis e estimulantes para todos os que estiveram presentes.

Organizado na Estação Leopoldina, que está sendo revitalizada pela Prefeitura carioca, o evento ocupou uma área imensa, com exposições em homenagem a grandes quadrinistas brasileiras e internacionais, uma galeria especial dentro de uma estrutura construída especificamente para representar o trabalho do grande quadrinista italiano Milo Manara, além de uma sala onde foram realizadas diversas oficinas com altamente qualificados desenhistas, roteiristas e ilustradores do mercado editorial brasileiro. Além, é claro, da estação dos autores, onde os grandes responsáveis pela produção de histórias memoráveis estiveram presentes, autografando seu material para um contingente cada vez mais quantitativo de leitores.

Em suma, foi um evento fantástico. Não foi à toa que ganhou o prêmio HQMix de 2010 como melhor evento de quadrinhos no Brasil naquele ano. Hoje, pouco menos de um ano depois, estamos prestes a dar início à segunda edição deste grande evento que está marcando seu nome entre os admiradores de quadrinhos, a Rio Comicon, e é chegado o momento de analisar o que isso representa para os quadrinhos no Brasil e no Rio de Janeiro.

Em novembro do ano passado, foi dado um primeiro passo, fato fundamental para que qualquer grande jornada tenha início. Isso quer dizer que o evento não foi perfeito, afinal, houveram vários problemas que os organizadores tiveram que contornar de última hora, como a questão do calor e do excesso de pessoas no primeiro fim de semana do evento, mas dentro de suas limitações e propostas, foi tudo fantástico. Novamente, repito: Para um primeiro passo.

Este ano, contando com a experiência que foi acumulada no ano passado, o evento tem tudo para crescer nos seus 4 dias de atividade, atraindo ainda mais gente e, é claro, movimentando de forma considerável todo o mercado de quadrinhos, tanto em termos de quantidades de histórias novas a serem compradas, quanto de histórias a serem protagonizadas por todos os que tiverem condições de estar presentes. O contato que o evento permite entre os leitores dos mais diversos gêneros de quadrinhos e destes com os autores que admiram é algo indescritível. Essa relação, tão calorosa e estimada, é o cerne do que a cultura dos quadrinhos representam de fato, algo em torno do qual as pessoas se confraternizarem e crescerem juntas.

O evento mostrou o quanto que ele pode construir as bases sobre as quais uma comunidade real de quadrinhos pode se estabelecer na Cidade Maravilhosa, o que é uma de suas maiores carências neste quesito para que haja maior produção da nona arte nela. Entretanto, depende de nós levarmos este primeiro contato além de apenas alguns dias presencialmente unidos. Essa união precisa sair de um galpão para ganhar mais força e ímpeto em estúdios, escritórios, editoras, e assim por diante. Ainda há muito trabalho a ser feito.


Nos próximos dias, confiram aqui a cobertura completa da segunda edição da grande Rio Comicon, que mais uma vez, promete mexer com todos os fãs de quadrinhos no país todo, afinal de contas,: 

É RIO COMICON, BABY!