quinta-feira, 20 de outubro de 2011

RIO COMICON, BABY!!! - ANO 2 - DIA 1

Por Gabriel Guimarães



No primeiro dia da segunda edição anual da Rio Comicon, havia muita expectativa no ar, enquanto os estandes começavam a ser montados e os expositores começavam a ocupar a Estação Leopoldina uma vez mais. O dia foi bastante agradável e a tarde contou com uma temperatura, proporcionando muitos momentos de calmaria, o que não quer dizer que não tenha havido assunto para se comentar entre os leitrores de quadrinhos e os profissionais do meio.

Abrindo os portões uma hora mais tarde do que o planejado, o evento recebeu muito bem os visitantes desse primeiro dia, com oficinas e debates bastante estimulantes. Para quem foi conferir as aulas dadas pelos profissionais da Impacto Quadrinhos, foram apresentadas técnicas de colorização digital e de anatomia, enquanto para os interessados numa discussão acerca das dimensões que a arte sequencial vem tomando, foi apresentado o debate "Histórias em Quadrinhos e a Cultura Pop", que contou com a presença de quatro quadrinistas paulistanos, Mateus Acioli, Marcelo D'Salete, Rafael Moralez e Heitor Yida, sob a mediação do ex-integrante da banda Rapa, Marcelo Yuka, que abordou questões muito importantes para o estado atual dos quadrinhos enquanto meio de comunicação no Brasil.

Partindo de uma discussão sobre as influências da cidade de São Paulo sobre a geração de quadrinistas que vêm surgindo de lá nos últimos tempos, apontando o efeito da união de culturas das mais diversas num grande centro populacional e de como a urbanização afeta a criatividade, o debate transitou pelas experiências de cada um dos debatedores pelas ruas e a conscientização da existência na cidade de maior oportunidade para os mais diversos nichos de interesse de entretenimento encontrarem seus pares e formarem grupos de discussão. Para os que puderam assistir ao debate, foi muito interessante observar a divergência do conceito de identidade brasileira de quadrinizar entre os debatedores, pois, através de uma discussão aberta em que cada um expôs sua visão do próprio trabalho frente a essa questão, foi possível perceber o quanto às vezes a cultura da nossa rotina passa para as páginas produzidas de quadrinhos mesmo sem um propósito previamente estabelecido para isso. Discutindo obras como "Cachalote", "Peixe Peludo" e o material produzido por Lourenço Mutarelli, o debate foi bastante abrangente, com o intuito de identificar o momento dos quadrinhos brasileiros atuais.

Marcelo Yuka mediando a mesa sobre histórias em quadrinhos e cultura pop
Partindo das páginas impressas dos quadrinhos para suas adaptações para o cinema, discutiu-se até que ponto a influência dos demais meios de comunicação determinam muitas das histórias produzidas pelos debatedores, e como eles viam essa relação, o que rendeu algumas críticas inflamadas e comentários extremamente pertinentes sobre a diferença entre a adaptação e a transcrição literal (que, inclusive, já foi comentada aqui no blog antes). Outra questão bastante importante analisada foi a importância do desenho e do texto para uma história em quadrinhos, e que medida seria ideal entre estes para que um material obtivesse um resultado positivo enquanto narrativa. O desenhista Marcelo D'Salete, partindo de sua experiência pessoal com José Carlos Fernandes, escritor português da história em quadrinhos "A Pior Banda do Mundo", que havia lhe enviado um texto de extrema qualidade, porém, que pouco poderia ter mais valor agregado por meio de desenhos, explicou sua posição de que uma história em quadrinhos só deve ser de fato feita se os dois meios de linguagem envolvidos nessa narrativa gráfica acrescentarem algo um ao outro, e caso isso não possa acontecer, é preciso avaliar a viabilidade do projeto.

Lançamento da estreia de Guilherme de
Sousa como roteirista de quadrinhos e
Daneil Bacellar como desenhista
Terminando com uma análise do mercado editorial brasileiro de quadrinhos autorais, em ascenção nos dias atuais, e o papel desempenhado pelo padrinho dos quadrinhos nacionais, Maurício de Sousa, e seu estúdio no mercado, foi-se destacado a importância do trabalho de Maurício por alguns, enquanto todos ressaltaram que não existe nesse caso uma concorrência direta pelo público leitor, uma vez que as propostas são de cunho e teor muito diferentes.

A presença de autores como Rafael Albuquerque, Rafael Grampá, Gustavo Duarte, os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, e o roteirista americano Chris Claremont (este último que apenas caminhou pelos estandes observando a diversidade de gêneros expostos e disponibilizados), dos indepentes e talentosos Will Sideral, Daniel Esteves e Cadu Simões, e dos recém lançados Murilo Martins e a dupla Guilherme de Sousa e Daniel Bacellar, o evento teve bastante movimentação, atraindo os visitantes em diversas direções, e tem tudo para continuar animando muito a todos nos próximos dias que seguirão, afinal de contas,:

É RIO COMICON, BABY!!!

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

RIO COMICON, BABY!!! - PRELÚDIO DO SEGUNDO ANO

Por Gabriel Guimarães


Parece que foi ontem que a cidade do Rio de Janeiro abria suas portas novamente para o mundo dos quadrinhos através de um grande evento após 17 anos de escassez. Em seis dias de muita atividade e ativo contato entre o público e os profissionais da arte sequencial (que podem ser conferidos detalhadamente aqui na cobertura do blog), foram vivenciadas experiências inesquecíveis e estimulantes para todos os que estiveram presentes.

Organizado na Estação Leopoldina, que está sendo revitalizada pela Prefeitura carioca, o evento ocupou uma área imensa, com exposições em homenagem a grandes quadrinistas brasileiras e internacionais, uma galeria especial dentro de uma estrutura construída especificamente para representar o trabalho do grande quadrinista italiano Milo Manara, além de uma sala onde foram realizadas diversas oficinas com altamente qualificados desenhistas, roteiristas e ilustradores do mercado editorial brasileiro. Além, é claro, da estação dos autores, onde os grandes responsáveis pela produção de histórias memoráveis estiveram presentes, autografando seu material para um contingente cada vez mais quantitativo de leitores.

Em suma, foi um evento fantástico. Não foi à toa que ganhou o prêmio HQMix de 2010 como melhor evento de quadrinhos no Brasil naquele ano. Hoje, pouco menos de um ano depois, estamos prestes a dar início à segunda edição deste grande evento que está marcando seu nome entre os admiradores de quadrinhos, a Rio Comicon, e é chegado o momento de analisar o que isso representa para os quadrinhos no Brasil e no Rio de Janeiro.

Em novembro do ano passado, foi dado um primeiro passo, fato fundamental para que qualquer grande jornada tenha início. Isso quer dizer que o evento não foi perfeito, afinal, houveram vários problemas que os organizadores tiveram que contornar de última hora, como a questão do calor e do excesso de pessoas no primeiro fim de semana do evento, mas dentro de suas limitações e propostas, foi tudo fantástico. Novamente, repito: Para um primeiro passo.

Este ano, contando com a experiência que foi acumulada no ano passado, o evento tem tudo para crescer nos seus 4 dias de atividade, atraindo ainda mais gente e, é claro, movimentando de forma considerável todo o mercado de quadrinhos, tanto em termos de quantidades de histórias novas a serem compradas, quanto de histórias a serem protagonizadas por todos os que tiverem condições de estar presentes. O contato que o evento permite entre os leitores dos mais diversos gêneros de quadrinhos e destes com os autores que admiram é algo indescritível. Essa relação, tão calorosa e estimada, é o cerne do que a cultura dos quadrinhos representam de fato, algo em torno do qual as pessoas se confraternizarem e crescerem juntas.

O evento mostrou o quanto que ele pode construir as bases sobre as quais uma comunidade real de quadrinhos pode se estabelecer na Cidade Maravilhosa, o que é uma de suas maiores carências neste quesito para que haja maior produção da nona arte nela. Entretanto, depende de nós levarmos este primeiro contato além de apenas alguns dias presencialmente unidos. Essa união precisa sair de um galpão para ganhar mais força e ímpeto em estúdios, escritórios, editoras, e assim por diante. Ainda há muito trabalho a ser feito.


Nos próximos dias, confiram aqui a cobertura completa da segunda edição da grande Rio Comicon, que mais uma vez, promete mexer com todos os fãs de quadrinhos no país todo, afinal de contas,: 

É RIO COMICON, BABY!

sábado, 15 de outubro de 2011

Constante Aprendizado

Por Gabriel Guimarães


Um dos principais assuntos dessa semana foi a repercussão da matéria do jornalista Jerônimo Teixeira na revista Veja sobre o uso das histórias em quadrinhos em exames como o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), que determinam o desempenho dos estudantes de Ensino Médio de todo o Brasil para qualifica-los ou não para as faculdades participantes desse processo de seleção no vestibular, mediante um bom posicionamento no ranking geral dos candidatos para cada instituição. Muitos blogs se posicionaram de forma brilhante, tanto em forma de carta aberta para a revista em que se deu a publicação, como foi o caso do Blog dos Quadrinhos, do jornalista e professor da Universidade Federal de São Paulo, Paulo Ramos, como em uma longa e extensa discussão sobre o reconhecimento dos quadrinhos enquanto meio de comunicação em várias contas do twitter e em outros sites.

Neste dia 15 de outubro, data de comemoração para uma das profissões de maior importância na formação da sociedade, o dia do professor, gostaria de fazer algumas ponderações acerca da verdadeira razão pela qual toda essa acalorada discussão tomou destaque: o valor das histórias em quadrinhos enquanto meio de comunicação.

Em primeiro lugar, gostaria de esclarecer que os pontos de vista expostos aqui de forma alguma visam qualquer tipo de depreciação em relação a qualquer um dos citados, e o teor dessa matéria repousa no único objetivo de abordar essa questão que já está sendo trabalhada há muito tempo, e que, até hoje, não encontrou uma solução digna. Dito isso, acredito que posso prosseguir.


Lima Barreto, autor do
clássico da literatura brasileira
"Triste Fim de Policarpo Quaresma",
é um dos autores esquecidos do Enem,
de acordo com a matéria de Teixeira

A matéria de Jerônimo Teixeira é voltada para chamar a atenção ao fato de que o número de questões relativas ao campo da literatura que abordam os quadrinhos é muito maior do que o número daquelas que envolveriam grandes mestres da literatura nacional, como Graciliano Ramos ou José de Alencar. Partindo de um levantamento feito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e contando com entrevistas feitas com alguns professores que colaboraram com a pesquisa, a matéria busca alertar para a depreciação da cultura nacional em relação a muitos de seus intérpretes mais ilustres, sob os ombros dos quais toda uma história de textos e leituras o país se formou. Neste ponto, Teixeira está certo, pois ocorre uma depreciação real em cima dos pilares culturais da sociedade brasileira há décadas, e, com isso, o crescimento educacional do país ficou muito prejudicado e limitado a uma pequena margem da população. Entretanto, quando a matéria começa a utilizar o uso dos quadrinhos nas provas de vestibular como ferramenta para expor que, supostamente, "o Enem contribui para construir um país ainda mais iletrado", Teixeira acaba por cometer o mesmo erro o qual critica ferozmente em seu texto.

As histórias em quadrinhos, tal qual a literatura, o cinema e a televisão, constituem um meio de comunicação próprio, único, e, portanto, não podem ser tratados como parte de um conceito bastante fechado de literatura que muitos dos acadêmicos com os quais teve contato partilham. Enquanto numa obra literária, a história se constrói a partir de recursos puramente textuais, os quadrinhos possuem em seu cerne uma característica inigualável para qualquer outra forma de expressão: a união ímpar entre o elemento textual e os recursos gráficos. Para muitos, o uso de imagens pode ainda estar atrelado ao campo do público infantil, porém, isso seria apenas uma limitação do potencial comunicativo que uma cultura, no caso, a brasileira, poderia se utilizar. A partir do momento que você restringe o reconhecimento valorativo para um meio sobre o outro, você deixa de reconhecer o valor exclusivo de cada um, e isso, por conseguinte, acarreta num prejuízo enorme para a cultura de uma nação.

Conforme o professor da UFRJ e editor da Ediouro, Paulo Roberto Pires, afirmou, em entrevista à revista "Discutindo Literatura", em 2008, "os quadrinhos são uma linguagem muito interessante em si, mas que também pode ajudar a formar leitores para livros 'convencionais'." Sabendo se utilizar dos recursos dos quadrinhos, o potencial para estimular interesse nos leitores mais novos sobre outras formas de leitura acaba sendo muito maior, e muitos dos que encontram essas condições acabam por explorar novos estilos, adquirindo uma base cultural extremamente positiva. Conforme destaquei antes em matéria aqui no blog sobre a importância dos quadrinhos no período da infância, os quadrinhos podem ser a porta de entrada para todo um universo de experiências sensoriais e imaginativas, porém, nem por isso, a arte sequencial se limita a ser apenas um bilhete de entrada.

Em histórias como "Daytripper", "Retalhos", "Tintin", "Corto Maltese" e nas tirinhas de "Mafalda", por exemplo, há uma profundidade e falta de etnocentrismo que é raro encontrar na maioria das obras puramente textuais. Da mesma forma como livros de Machado de Assis e Lima Barreto possuem em si um teor e estilo dificilmente encontrados em muitas obras em quadrinhos. Ambos os meios de comunicação possuem seus pontos altos e seus pontos baixos, e não podemos, de forma alguma, limitar nossa compreensão de qualquer um deles pelo uso indevido que se faz de um dos dois.

O artigo de Teixeira, portanto, visa alcançar a questão da depreciação literária brasileira, fruto de uma falta de estímulo correto dentro das salas de aula ao redor do país. O que é triste e rendeu tantas críticas a essa matéria foi que o autor acabou por usar os quadrinhos enquanto bode expiatório para criticar um sistema de ensino público deficiente (que já foi tema de matéria aqui no blog antes), como já foi feito no passado por grandes nomes do jornalismo nacional, como Orlando Dantas e Samuel Wainer, que criticaram os quadrinhos a ponto de organizar estudos que demonstrassem seus prejuízos à educação dos mais jovens, tudo apenas para poder atingir de forma indireta o império comunicacional construído por Roberto Marinho, que era responsável pela publicação de diversos títulos com histórias em quadrinhos.

Um dos muitos  bons livros
cujo tema é justamente o uso da nona
arte no setor pedagógico

E este é o tema da matéria. Tanto se passou, a literatura evoluiu, os quadrinhos evoluíram, mas esse conflito permanece, apesar de todos os esforços de muitos comunicólogos renomados como João Marcos Parreira Mendonça, Elydio dos Santos Neto, Marta Regina Paulo da Silva, Waldomiro Vergueiro, Télio Navega e o já mencionado no começo da matéria, Paulo Ramos. O preconceito permanece inscrustado na cultura popular do nosso país. Infelizmente, não posso reduzir toda uma história dessa discussão em uma matéria só, porém, a quem interessar possa, a discussão pode ser extendida e ampliada nas demais redes sociais e no campo dos comentários aqui embaixo.

Para não perder também o fator que alavancou essa matéria, fica aqui também o mais sincero desejo de feliz dia do professor para todos os colegas acadêmicos e uma torcida especial para que todas as carências de suas profissões possam ser supridas, ainda que na medida do possível. O valor de vocês para tudo que somos e o que nos tornamos é simplesmente fundamental, e fica aqui nosso profundo agradecimento pela dedicação, paciência e esforço.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Os Quadrinhos e a Infância

Por Gabriel Guimarães


Certa vez, o filósofo e marquês espanhol Juan Donoso Cortés afirmou que "No passado está a história do futuro." Hoje, dia 12 de outubro, reservamos este dia para comemorar a juventude, essa etapa da vida que determina muito de quem somos e a razão de porque agimos como agimos. Apesar de toda a preocupação esporádica com o efeito de determinados estímulos nas crianças e nos jovens, ainda hoje passamos por um momento em que a importância dessa fase da vida é relevada e muitas vezes esquecida.

Seria impossível abordar a juventude sem mencionar as histórias em quadrinhos, que ao longo do século passado e início deste, sempre se mostrou um elemento fundamental na formação de gerações e gerações de pessoas ainda em fase de crescimento. Entre os brasileiros, é muito raro, por exemplo, qualquer um afirmar que a leitura da Turma da Mônica, maior criação de Maurício de Sousa, não influenciou determinantemente seu prazer pela leitura ou sua formação enquanto indivíduo. O uso dos quadrinhos enquanto recurso pedagógico, que foi um tema de acalorada discussão ao longo desta semana (e que, em breve, será abordado de forma mais aprofundada aqui no blog), é algo que hoje não pode mais ser negado, e seus usos possuem toda uma gama de possibilidades extremamente magnífica para os professores que optarem por utilizar deste recurso (isto já foi analisado em uma matéria anterior aqui no blog).

Como já foi dito aqui no blog anteriormente, o formato quadrinho nem sempre qualifica uma obra como positiva de ser utilizada para fins educativos, isto parte geralmente da visão dos professores individualmente sobre o assunto da arte sequencial em sala de aula e sobre o tema que as histórias abordam, porém, a nona arte já mais do que provou seu valor como estímulo à leitura, fazendo crescer cada vez mais o público leitor geral, desde o momento que é o grande foco da matéria de hoje,: a infância.

Como o escritor e quadrinista norte-americano Gerard Jones destacou em seu precioso livro "Brincando de Matar Monstros", as crianças enfrentam um grande desafio quando estão crescendo, que é a consciência de sua impotência. Os desafios dolorosos que têm de encarar e as frustrações constantes e adaptáveis a cada novo momento do amadurescimento, acabam gerando uma luta constante contra essa percepção de incapacidade, e as jogam num universo que as abriga e as ajuda a ter forças para ir adiante, que é o universo da experiência, que estimula o lado psicológico das crianças de uma forma ímpar, difícil de ser comparado a qualquer estímulo fora desse campo em particular. E, a fim de expandir isso, como afirma o autor, "Quando a realidade não basta, é a fantasia que vem nos salvar."

A criança e o jovem precisam da fantasia para crescer, pois é muitas vezes nos elementos presentes nesse universo que elas retiram exemplos e influências que as ajudarão a se tornarem mais capazes e fortes, ou seja, mais preparadas para encarar o mundo real fora dos quadrinhos ou dos livros e televisões. O papel dos quadrinhos enquanto instrumento de ensino é justamente capacitar o leitor a não se limitar por apenas ler sobre histórias de aventura e de emoção, mas sim a vivenciar as suas próprias. Os heróis dos quadrinhos, nesse aspecto, têm um papel mais do que fundamental na formação do caráter e consciência dos seus leitores e, apesar de estarem passando já há algum tempo por um período muito obscuro e de critérios questionáveis, o papel do herói ainda é algo essencial, pois justamente transmite ao seu leitor a compreensão de poder. A figura do herói incita justamente esse sentimento nos leitores, que precisam disso para crescer, como, inclusive, destacou o sociólogo goiano Nildo Viana em seu livro "Heróis e Super-Heróis no Mundo dos Quadrinhos".

E foi partindo desse pressuposto universal da formação da juventude, que surgiu a belíssima e altamente recomendável obra "Pequenos Heróis", escrita pelo quadrinista Estevão Ribeiro e desenhada por uma série de talentosos desenhistas de todo o território nacional, dentre os quais o mineiro Vitor Cafaggi (que já foi tema de matéria antes aqui no blog), observando casos específicos do ponto de vista infantil que englobam as histórias lidas e compartilhadas de grandes personagens do mundo dos quadrinhos.


Enfim, neste dia das crianças, o que fica aqui é para reforçar a importância dos quadrinhos enquanto estímulo para a formação e crescimento dos nossos jovens futuros companheiros de sociedade, e, é claro, para lembrar a importância dessa fase, que jamais deve ser negada ou ignorada, mas sim estimulada a sempre ir adiante, por um mundo cada vez melhor. Feliz dia das crianças!

Página de quadrinhos feita por Vitor Cafaggi,
sobre nossos heróis e sua influência em nossas vidas

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Steve Jobs e os Novos Quadrinhos

Por Gabriel Guimarães


Ontem à noite, o mundo perdeu um de seus grandes sonhadores. Acostumado a pensar de formas além das comuns, e a procurar soluções e meios para tornar seus projetos realidade, Jobs foi um visionário, que revolucionou o ramo da tecnologia e da comunicação a uma velocidade simplesmente assustadora, e, assim, marcou seu nome entre os grandes gênios da humanidade.

Convicto de que a vida é algo muito importante e que a tecnologia deveria melhorá-la da melhor forma que pudesse, Jobs criou uma série de empresas altamente bem sucedidas, cada uma com um foco específico, em que, inclusive, se tornaram destaques individualmente. Fosse a Apple, com o desenvolvimento de computadores pessoais com alto grau de recursos e ferramentas, com uma funcionalidade de fácil acesso para seus donos; fosse a Pixar, que revolucionou o cinema de animação, popularizando ainda mais o gênero, e expandindo-o além da antiga máxima de que desenho era coisa de criança; fosse a NeXT, criada com intuito de dar suporte a estratégias voltadas para o ensino superior e especializado, e que acabou sendo útil para fornecer a base operacional com que os MAC OS X seriam administrados.

Sem dúvida, Steve Jobs foi uma das mentes mais brilhantes que o mundo viu surgir em muito tempo. Entretanto, essa afirmação não está atrelada aos seus inventos e aparatos, ou mesmo à corrida do Vale do Silício, região que concentra as empresas e funcionários de tecnologia nos Estados Unidos, e que teve grande influência dos avanços alcançados pela empresa de Jobs, fazendo migrar estudantes de informática e tecnologia de ao redor de todo país, apenas para trabalharem na proposta do criador da Apple: Sonhar.

Na noite passada, compararam no twitter e em alguns portais de informação a figura de Steve Jobs na tecnologia à de Walt Disney no setor da animação e entretenimento infantil. Essa comparação só não é mais precisa, pois pareceu limitar-se ao quesito da inovação promovida por Jobs. Disney e ele tinham um aspecto em comum que vai muito além de questões de mercado ou de produção de instrumentos inovadores. Ambos costumavam priorizar acima de tudo o ato de sonhar, ainda que não esquecendo dos instrumentos necessários para viabilizar estes sonhos. Suas visões sobre o mundo e a vida têm muitos aspectos em comum, porém, este acredito ser o mais importante e fundamental.

Jobs numa de suas palestras sobre as inovações da tecnologia
Disney criou os Imagineers, engenheiros especializados na mecatrônica, que eram os responsáveis pela produção dos brinquedos de larga escala nos imensos parques temáticos de Mickey, Pateta, Donald e cia, a partir dessa premissa da importância do ato de sonhar, e observando os comentários dos funcionários que lá trabalham, isso é completamente claro. O que foi dito pelo chefe sênior da equipe de design da Disney, Gary Powell, aborda essa questão e uma outra que foi de extrema importância para a vida destes dois grandes visionários, que foram Walt e Steve: "Os tropeços de hoje são a força de amanhã".

Tanto Disney quanto Jobs não começaram no topo, mas construíram seu caminho até lá, e no caminho, tiveram muitos sucessos, mas muitos fracassos também. Enquanto o criador dos maiores parques temáticos do mundo chegou a pedir falência ainda com 21 anos para um pequenos negócio em que tentava iniciar sua carreira de animador, Jobs teve que superar muitas negativas de investidores e uma desavença com a empresa HP que perdurou em sua memória por décadas ainda. Entretanto, ambos contornaram as situações negativas e os desafios que surgiram na jornada, e acabaram por se tornarem únicos.


Biografia de Steve Jobs, feita em
quadrinhos, que foi publicada em
agosto deste ano

Para a relação de Steve Jobs com os quadrinhos, tema da matéria de hoje, era preciso compreender essas premissas, pois esse elo tem início nesse ato tão simples, porém, tão subestimado, como estes dois visionários um dia foram, que é o sonhar. A atividade de todo e qualquer quadrinista parte disso. Sem o sonho, os quadrinhos nada mais são do que meros desenhos sem inspiração em quadrados ou em quaisquer outras formas geométricas num pedaço de papel. Essa ação de esperança tão promovida por Jobs é fundamental para que as grandes invenções e as grandes histórias possam surgir.

Entretanto, a relação do grande inventor com a arte sequencial é mais direta do que muitos imaginam, basta que se observe o cenário completo de um ponto de vista mais amplo. Jobs não apenas permitiu melhorias em nível avançado na vida de profissionais da eletrônica ou de produtores audiovisuais, grandes consumidores de seus produtos, mas também de todos os aspirantes e já renomados profissionais dos quadrinhos também (isso já foi analisado antes aqui no blog). Com os recursos técnicos que disponibilizou, a nona arte teve o número de seus representantes exponencialmente elevado. Jobs ampliou o mercado e pôs na mão de todos os que sonhavam fazer quadrinhos os meios para tal, com tecnologia de ponta e recursos abundantes.

Se hoje somos tantos, em muito se deve a Jobs pelos meios que possibilitaram isso, e esse dado não pode ser relevado. Além disso, o trabalho que Jobs empenhou na criação e desenvolvimento de seus dispositivos móveis abriu as fronteiras para um novo horizonte de leituras disponíveis, com a narrativa adquirindo aspectos jamais imaginados antes, adaptáveis aos mais diversos formatos e resoluções. Hoje, os quadrinhos estão conosco onde quer que os queiramos, no momento em que assim pensarmos. Sem os avanços atingidos nesse campo da tecnologia, isso jamais seria possível.

Mas talvez a forma mais direta de importância de Jobs para as histórias em quadrinhos se encontre nos recursos de uma de suas últimas invenções, que está conquistando cada vez mais espaço no mundo todo, o iPad. Produzido para concorrer com o Kindle, da Amazon.com, enquanto instrumento de leitura eletrônica de conteúdo literário digitalizado, além de uma pluralidade de funções imensa, o aparelho causou um furor em todo o globo por reinventar o ato de ler, o que, indubitavelmente, afeta toda a história da arte sequencial.

Os quadrinhos precisaram se adaptar novamente a essa nova mídia, e passaram a usá-la como forma de crescer ainda mais em termos de reconhecimento e importância nos dias de hoje. As editoras tradicionais, fossem de quadrinhos ou não, precisaram passar por uma reformulação urgente, uma vez que o mercado exigia mudanças no que tange ao relacionamento com os clientes e com os recursos do material disponível para eles. E, dessa forma, surgiram iniciativas como a ComiXology, responsável pela adaptação do material produzido inicialmente pela Marvel (o que também já foi observado aqui no blog antes) e que antes estava no banco de dados de seu site ainda em estado embrionário. Em pouco tempo, o mercado representado por essa empresa de conversão se expandiu, englobando outras grandes editoras, dentre as quais, a maior rival do seu primeiro grande cliente, a DC comics.


Os efeitos disso no mercado de quadrinhos são assustadores pela dimensão que têm atingido. Recentemente, numa estratégia bastante arriscada e curiosa, a DC anunciou que zeraria todos os seus 52 títulos regulares e passaria a lança-los simultaneamente em formato impresso e em formato eletrônico, disponível para compra nas lojas virtuais da ComiXology (o que já foi tema de matéria aqui no blog), fazendo tanto os profissionais do meio repensarem na urgência da digitalização de seus conteúdos, quanto os leitores desse material, que passaram a aguardar com um certo misto de esperança e receio o que isso provocaria ao sistema de gerência do negócio dos quadrinhos americanos, historicamente dependente do esquema das comic shops clássicas e revenda sob demanda.

Os quadrinhos estão num período de transição muito grande, e não se sabe exatamente para onde isso vai nos levar, mas, com certeza, jamais teríamos saído do lugar sem a grande influência deste inventor, sonhador e visionário, que é o grande propósito da homenagem feita aqui, Steve Jobs.

Como o autor de programação sênior do setor de desenvolvimento criativo da Disney, Kevin Rafferty, tão belamente definiu, "você só chegará à Terra do Nunca se acreditar que pode voar." E Jobs nos deu muitas das ferramentas necessárias atualmente para isso. Obrigado por tudo, Steve. 

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Dick Tracy - Agente da Lei e dos Quadrinhos

Por Gabriel Guimarães


Marcado pelo clíma das ruas na época em que foi lançado, Dick Tracy sempre viveu aventuras das mais emocionantes, enfrentando vilões deformados e estranhos e mantendo a paz em meio ao caos que eram as ruas de Chicago dos anos 1930. À frente de seu tempo, entretanto, Tracy sempre utilizava das novidades que surgiam ao longo dos anos no combate ao crime, desde técnicas forenses até o uso de aparelhos tecnológicos avançados.

Publicado ainda pelas mãos de seu criador, Chester Gould, até 1977, o detetive se tornou um sinônimo dos quadrinhos de mistério da Era de Ouro dos Quadrinhos norte-americanos, e hoje, dia 4 de outubro, completa 80 anos de existência, que merecem ser comemorados com a devida atenção. Com seu jeito confiante e a atenção sempre pronta para os detalhes e a ação, Tracy ficou muito popular, proporcionando a seus leitores o sentimento de um defensor lutando contra o mal que se alastrava pelas ruas e guetos depois da Grande Crise da Bolsa de 1929, e sua missão ficou para sempre marcada na memória de quem acompanhava suas aventuras nas tirinhas de jornal.


Tintin e Haddock na história escrita por Hergé, em que os
dois vão para a Lua

Tentando se adaptar a algumas tendências que os quadrinhos e a cultura popular foi adquirindo no decorrer das décadas, Chester Gould fez seu personagem passar por fases bastante marcantes, desde o combate à corrupção e ao abuso infantil, até uma breve estadia na Lua, resultado do crescente número de quadrinhos espaciais que faziam sucesso entre os leitores. Alguns anos antes dessa fase de Dick Tracy, inclusive, outro personagem característico dos quadrinhos de aventura, o belga Tintin, também viveu um momento bastante destacado fora do nosso planeta Terra, em suas histórias "Rumo À Lua" (1953) e "Explorando a Lua" (1954).


Disco do personagem lançado para
tocar na vitrola

Apesar da oscilação de cenários onde cumpriu sua função de detetive e combatente do crime, Tracy sempre esteve caracterizado por seu estilo durão de rua, que preencheu centenas de revistas, desde sua primeira publicação dentro e fora das tirinhas, este último formato que se iniciou numa revista própria do personagem produzida para ser dada junto com uma marca de cereal matinal, em 1947. Tendo sido publicado pelas editoras Dell, Harvey, Blackthorne Publishing e até a Disney, Tracy foi um dos grandes personagens de quadrinhos que escreveu seu nome na história desse meio de comunicação, sem dúvida.
    

Warren Beatty interpretando Dick Tracy
 na adaptação dos quadrinhos para
o cinema em 1990

Seu sucesso, em determinados momentos, foi tanto, que ele chegou a migrar para os demais formatos, se tornando personagem de uma rádio-novela entre 1934 e 1948, além de protagonista de filmes variados entre 1937 e 1941. Também encapou discos de vinil e se tornou elemento recorrente para os jovens leitores de muitas gerações. Sua aparição de maior destaque nos últimos tempos, foi no filme "Dick Tracy", feito em 1990, com grandes nomes da sétima arte, como Warren Beatty no papel do personagem principal, e no elenco nada mais, nada menos, do que Madonna, Al Pacino, Dustin Hoffman e Dick Van Dyke.


Para o futuro, há alguns meses atrás, Beatty deu a entender que planeja trabalhar numa sequência para o último longa de Dick Tracy, mas se isso vai se concretizar mesmo, apenas o tempo dirá. Enquanto isso, ficamos por aqui comemorando as oito décadas completadas nesta dara por esse personagem tão memorável, cujo queixo e nariz quadrados são inconfundíveis. Fiquemos de olho para ver que novas direções e rumos o sobre-tudo amarelo mais marcante dos quadrinhos de mistério seguirá.

Para quem tiver interesse em uma observação mais histórica do personagem, fica a recomendação deste bom artigo publicado no blog "As Leituras de Pedro" sobre o personagem.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Parcerias Inestimáveis

Por Gabriel Guimarães


Como o grande jornalista e diretor-presidente da Rádio Panamericana de São Paulo, Antonio Augusto Amaral de Carvalho, mais popularmente conhecido como Tuta, costumava dizer, "ninguém faz sucesso sozinho". Por mais que um possa ter habilidades e dons admiráveis ou um tino natural ou adquirido para determinado campo de ação, é imprecindível compreender que sem aqueles que o cercam, nada ele poderia de fato fazer. E foi a partir dessa constatação, que surgiu o conceito de sociedade na qual estamos inseridos hoje. Sem as pessoas das mais diversas funções, jamais conseguiríamos realizar qualquer feito, fosse em qual área que se tentasse. Todos somos importantes, uma vez observado o intrincado sistema pelo qual tudo se organiza.

Eventualmente, há erros nesse processo, e lacunas escassas que são percebidas por poucos. Quando isto acontece, nos deparamos com os casos de falsidade ideológica ou de corrupção com que os jornais preenchem muitas de suas páginas num ritmo diário. Entretanto, não pretendo ater a essa perspectiva política, e o tema dessa matéria encontra-se no ramo da comunicação.

Atualmente, vivemos numa era da participação ativa, permitida em grande parte pela convergência digital que vem ocorrendo nos últimos anos. Sem o contínuo contato e interação com os outros, através das redes sociais, nenhum projeto consegue se sustentar por si só. O advento da internet possibilitou uma produção individual extremamente rica em termos de pesquisa e abordagem, porém, essa estrutura não representa nada propriamente dito, se não levar em conta o contínuo percurso da informação nos dias de hoje. Os portais de notícias, por exemplo, são grandes centros de acesso diário, porém, sem os leitores que o divulgam, seja por seu todo ou por alguma notícia específica, essa quantidade de buscas não chegaria nem perto dos números rotineiros.
Personagem principal
da tirinha de Outcault,
que ficou conhecido como o
primeiro personagem de
quadrinhos, o Menino Amarelo

Feita essa introdução, acredito que possamos entrar no mundo dos quadrinhos. Ainda que, oficialmente, tenha sido um homem, Richard Outcault, a expandir a história em quadrinhos como meio de comunicação de massa, em 1895, ao observarmos de um ponto mais amplo, o uso da arte como efeito narrativo é oriundo de muitos séculos, milênios atrás. E sem a evolução que foi ocorrendo nos meios artísticos e expressivos ao longo de todo esse tempo, seria impossível para Outcault realizar sua estória "Down Hogan's Alley", para ser publicada no jornal New York World.


Jerry Siegel e Joe Shuster,
cuja parceria resultou na
criação do Superman

Com o passar das décadas, a arte sequencial foi absorvendo a característica de produção em massa das indústrias, grande elemento social dos últimos séculos, e uma história em quadrinhos passou a ser produto não de apenas duas mãos físicas e de uma evolução histórica dos meios de comunicação, e passou a se tornar algo maior, um bem criado a partir dos traços culturais e pessoais de uma série de profissionais capazes e destacados em suas determinadas áreas, fosse a confecção de roteiros, a produção de desenhos, a finalização da arte, a beleza da colorização ou mesmo a árdua tarefa da administração geral e publicação material da fusão disso tudo. E a partir de então, os leitores foram agraciados por muitos casos memoráveis em que a união entre os profissionais de quadrinhos foi tamanha, que produziu histórias antológicas e inesquecíveis para os admiradores da nona arte. Esta união é que é o grande foco da matéria de hoje do blog.
Grupo CLAMP de quadrinistas japonesas

Seja essa cooperação feita por muitas mãos, como acontecia nos clássicos syndicates norte-americanos, ou por apenas poucos, porém, significativos e talentosos criadores, o público testemunhou na história dos quadrinhos algumas parcerias que jamais serão esquecidas. Seja a invenção do primeiro super-herói dos quadrinhos, o Superman, feito por Jerry Siegel e Joe Shuster em 1938, ou então a produção de incontáveis personagens de grande apelo popular e de grande reconhecimento, feitos pelo grupo CLAMP, composto por algumas das mais habilidosas quadrinistas japonesas (que, inclusive, será homenageado com uma exposição na Rio Comicon deste ano), a união de grandes profissionais foi capaz de tornar o comum algo extraordinário, e principalmente, inesquecível.

As colaborações que marcaram época podem até não ser do conhecimento do grande público, porém, seu resultado é. Neste caso, os grandes exemplos vêm do bom relacionamento entre Victor Civita, fundador da editora Abril, e o editor Claúdio de Souza, cuja dedicação ao mercado editorial brasileiro presenteou o Brasil com fases memoráveis de revistas com os personagens da Disney e, posteriormente, dos super-heróis americanos, vendidos no formato que se tornou clássico dos quadrinhos no país, o formatinho (13 x 21 cm). Quando Waldyr Igaiara se juntou à editora, anos mais tarde dessa aliança já estar consolidada, permitiu um crescimento ainda maior dos quadrinhos no país, a partir da formação de um núcleo de produção das histórias da Disney feitas dentro do próprio Brasil, que era de um nível tão aprimorado, que chegava a ser exportado para o exterior, inclusive, para o país de origem deles, os Estados Unidos. Algum tempo depois, entretanto, executivos da editora que passaram a assumir alguns dos cargos mais altos dentro da hierarquia empresarial, por não terem interesse na evolução dos quadrinhos nacionais a longo prazo e exigirem retornos imediatos, optaram por não estimular mais essa produção, e os quadrinhos produzidos por esse núcleo se extinguiram. Até os dias atuais, porém, essa fase que foi resultado dessa união entre grandes profissionais do meio editorial é algo memorável para os leitores da época, e um lamento muito grande ainda é visto pela não continuidade desse projeto.

Dos casos mais conhecidos, destacam-se a parceria antológica do roteirista Stan Lee e o desenhista Jack Kirby, que rendeu como fruto quase todo um universo inteiro de personagens; a união dos quadrinistas franceses René Goscinny e Albert Uderzo, pais do Asterix e autores de suas intrépidas aventuras na Aldeia dos Gauleses; a cooperação entre Neal Adams e Dennis O'Neill, que produziu um momento fundamental da história dos personagens Lanterna Verde e Arqueiro Verde, na década de 1970; e o atual e brilhante momento vivido pelos gêmeos brasileiros Fábio Moon e Gabriel Bá, que recentemente produziram uma das histórias em quadrinhos de maior qualidade feitas esse ano, e que foi lançada oficialmente aqui, no Brasil, na última edição da Bienal do Rio de Janeiro (este momento foi coberto com particular atenção aqui no blog antes, e a Bienal como um todo foi visitada e analisada aqui), "Daytripper".

Para as parcerias mais ocasionais, mas que renderam excelentes obras, ficam a união dos grandes europeus Hugo Pratt, criador do personagem Corto Maltese (cujo contato entre as diferentes culturas visto em suas histórias já foi estudado aqui no blog antes), e Milo Manara, o nome máximo do quadrinho erótico mundial, para a produção da história "Magico Vento"; e a união impossível de não ser mencionada aqui, diga-se de passagem, de mais de 150 quadrinistas brasileiros feita nos últimos anos para o grande projeto em homenagem aos 50 anos de carreira do padrinho dos quadrinhos brasileiros, Maurício de Sousa, sob a excelente batuta do editor Sidney Gusman (cujo trabalho já foi destacado aqui no blog antes também).

O blog Quadrinhos Pra Quem Gosta, inclusive, não foge dessa máxima, que motivou a matéria como um todo, e ele jamais poderia se sustentar sozinho, sem o (grande) apoio que vêm recebendo através das redes sociais e das amizades que foram surgindo nos grandes eventos de quadrinhos dos últimos tempos, e essa força a mais merece ser lembrada, destacada e retribuida, portanto, gostaria de indicar alguns dos portais que tanto nos auxiliam em termos de informação, como de motivação. Alguns, como os blogs "O X da Questão" e o "Letras e Relicário", no passado, já foram divulgados mediante o surgimento de oportunidade para isso, porém, muitos valorosos e inestimáveis parceiros ainda precisam de uma indicação devida, como o "SuperNovo", o "Leituras de BD/Reading Comics", o "Blique", o "Ivan Carlo Blog", o "Andhora's Blog", o "Quadro a Quadro", o "Irlandês Maluko", o "Sub Rosa", o "Júpiter 2", o "Quadrinhos Rasos", o "Lady's Comics",  o "Murokai  Quadrinhos", o "Guia dos Quadrinhos" , e o clássico, porém, imprecindível "Universo HQ".

Apesar de terem sido várias indicações de uma vez só, acredito que todos são propostas que valem muito a pena serem conhecidas, e uma visita a elas individualmente pode acrescentar muito a vocês, grandes leitores e admiradores da arte sequencial. Reforçando o pensamento inicial da matéria, dependemos dos outros ao nosso redor de forma fundamental, e, por meio desta matéria, gostaria de agradecer sinceramente a todos os que desempenham papel de tamanha importância no crescimento e evolução do Quadrinhos Pra Quem Gosta. Muito obrigado, e muitos quadrinhos para todos!