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sexta-feira, 1 de maio de 2015

Sobre o Papel das Editoras na Formação de Novos Leitores

Por Gabriel Guimarães

 

Esta semana um assunto importante voltou à tona em meio a discussões recentes sobre a educação no cenário brasileiro. O quadrinista Orlando Pedroso, em sua coluna no site Uol (que pode ser conferida aqui), redigiu uma crítica à falta de estrutura encontrada no mercado editorial do Brasil. Comentando sobre o grande papel desempenhado no comércio livreiro pelos programas estabelecidos pelo Governo, ele aponta os riscos e os problemas que o mercado está tendo que encarar diante da recente redução nos investimentos feitos nessas plataformas. Traçando uma análise histórica, ele observa a dependência que muitas editoras passaram a ter em cima desses programas e critica de forma direta a falta de participação das editoras na formação de um público leitor que capacitasse um mercado livreiro mais qualificado e independente das intervenções governamentais. Seu artigo, porém, levanta uma discussão interessante que precisa ser devidamente expandida no cenário cultural e econômico brasileiro.

Em primeiro lugar, é importante destacar o papel desempenhado pela publicação de conteúdo didático e paradidático dentro da gestão de uma editora. Para os profissionais do livro, esse material é a base na qual a maioria das principais empresas do setor tem a possibilidade de encontrar uma estabilidade financeira que lhes permita, reinvestindo seu capital, publicar obras de outras naturezas, como ficção, arte, esporte, lazer, além de conteúdo educativo de grau mais específico academicamente. A composição do catálogo de títulos disponíveis em uma editora se compõe levando em consideração essa hierarquia necessária para se construir uma empresa financeiramente sustentável, trazendo, assim, um destaque ao segmento didático para apresentar, quando possível, a produção de obras menos prestigiadas em termos de custo. Dentro do cenário cultural que se apresenta em nosso país, o mercado é limitado demais para que as editoras ajam de forma alheia a essa hierarquia na hora de estabelecer uma política de prioridades administrativas. Ou seja, programas como o PNBE (Programa Nacional Biblioteca na Escola) e o PNLD (Programa Nacional do Livro Didático) auxiliam não apenas na distribuição de mais conteúdo às escolas ao redor do Brasil, como também incentivam uma gestão financeiramente mais viável para as editoras, possibilitando, assim, que elas possam pegar o capital captado dessa maneira em novos conteúdos e na própria expansão do público leitor.


Orlando critica que as editoras ficaram acomodadas a essa estrutura e deixaram de trabalhar na linha de frente da montagem de um novo público leitor, encarando, então, um cenário caótico diante dos problemas envolvendo o investimento feito pelo Governo na edição dos programas, com ênfase na alarmante suspensão do PNBE de 2015. Os conflitos vão desde a troca da banca avaliadora do conteúdo submetido pelas editoras no edital lançado pelo Ministério da Educação, que desde 2005 era responsabilidade do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita, da Universidade Federal de Minas Gerais (CEALE-UFMG), em um processo estagnado pela burocracia governamental que atrasou diversas vezes a data de divulgação da nova instituição selecionada, até o atraso no pagamento às editoras pelo material adquirido no PNLD, conforme destacado pela jornalista Raquel Cozer no jornal ''Folha de São Paulo'' (matéria que pode ser conferida aqui). Diante desse cenário, o mercado apresentou reticências quanto ao avanço econômico nas livrarias, experimentando uma queda de 4,75% em relação ao primeiro trimestre de 2014.

Por conta dos atrasos na seleção de material para ser distribuído aos colégios de primeiro e segundo grau, os livros não puderam ser entregues aos alunos que fariam uso deles e aos professores que os utilizariam como instrumento pedagógico. Se em 2013, o PNBE distribuiu 7,4 milhões de livros a quase 70 mil escolas, o cenário que se apresenta é basicamente ausente em 2015 (dados apresentados pelo profissional do jornal ''O Globo'', Lauro Neto, cujo artigo pode ser conferido aqui e cuja discussão se iniciou em matéria da colega jornalista Graça Ramos, que também pode ser conferida aqui). A partir disso, é possível ver que o prejuízo com toda essa situação não é apenas financeiro, mas um sintoma que denota a falta de privilégio que o governo tem para com a educação. As editoras, acusadas por Orlando de agirem de forma displicente com os leitores, em função de tirarem 37% de todo o seu rendimento dos acordos com a administração federal e estatal, são tão vítimas quanto podem ser consideradas potencialmente culpadas.

O Brasil vinha experimentando um crescimento considerável na indústria do livro nas últimas décadas, com novos autores e novas editoras surgindo tanto com conteúdo físico como virtual. Desde que o PNBE foi instaurado em 1997, ele e o PNLD compreendiam 90% do investimento em livros feitos pelo Governo. Por meio desses programas, as editoras tiveram maior oportunidade de crescer e gerar empregos, além de alcançar uma quantidade maior de jovens e fomentar neles o gosto pela leitura. Apesar de Orlando apontar corretamente que a mera entrega do produto livro nos colégios não assegura a formação de um público leitor, é necessário indagar sobre as razões dessa discrepância. O papel dos professores nas redes de ensino e das famílias dentro de casa são elementos que carregam um grande peso na estruturação de um pensamento acerca do valor de saber ler e escrever, e ao aprendizado que essas atividades podem levar ao indivíduo. Conforme destaca o antropólogo amazonense Felipe Lindoso em seu livro ''O Brasil pode ser um país de leitores?'', o professorado brasileiro encontra uma ampla diversidade de aplicações que os programas de incentivo à leitura não são capazes de se adequar em função da ausência de uma grade curricular padronizada pelo Governo Federal às esferas estatais. A rede de ensino brasileira é difusa em muitos sentidos, e encontra as limitações socioeconômicas e tecnológicas como entraves para um trabalho produtivo, relevante e consciente. As mídias mais visadas no país são as de natureza audiovisual e o conteúdo apresentado ali não estimula um aprofundamento no prazer do aprendizado e da inovação, muito pelo contrário, opta, em sua maioria, por repetir fórmulas e privilegiar a superficialidade das personalidades públicas.

Estande da editora Leya na CCXP 2014
As editoras de livros, contudo, vem se mostrando atentas às novas nuances do mercado, encontrando em eventos como as Feiras Internacionais do Livro ou a ComiCon XPerience oportunidade de criar um vínculo com potenciais leitores. Dessa forma, investem na montagem de estandes e na divulgação pelas redes sociais, por onde seus admiradores podem compartilhar experiências e ampliar o conteúdo publicado de forma literária em um agradável complemento para enriquecer suas vidas, direta e indiretamente. Tal qual ocorreu com a transição do foco da indústria fonográfica que era voltado para a venda de discos e passou a priorizar o comércio de experiências (ao invés de lucrar mais com o produto físico, a indústria passou a dar mais atenção a shows e encontros com fãs, que pagavam por algo particular que não poderia ser massificado, a experiência de estar lá), as editoras não apenas brasileiras estão passando por uma transição geral. Os leitores estão se consolidando cada vez mais como seres de natureza multifacetada e cuja atenção carece de ser captada em diferentes frentes, sempre com uma estimulando a outra; algo que os editores estão percebendo e, dessa forma, já vem trabalhando a respeito.

Trabalhos vem sendo bem realizados por editoras como a Draco, que vem investindo em autores nacionais dos gêneros de ficção científica e fantasia, que quase não tinham espaço no Brasil, a Balão Editorial, que investe em autores de quadrinhos nacionais em formatos que privilegiem a história em si mais do que apenas uma visão lucrativa do produto, e a Novo Conceito, que vem aproveitando as mídias sociais para descobrir novos autores e lançar conteúdo inédito no mercado impresso, fora as já tradicionais JBC e Panini. Enquanto esta primeira investe bastante tempo nas mídias digitais e vem organizando o Brasil Mangá Awards, premiando os vencedores com a publicação de suas histórias em uma edição intitulada ''Henshin Mangá'', com mesmo acabamento gráfico que os volumes vindos do Japão; a Panini tem se tornado ponto de referência nos eventos de larga escala da cultura pop no Brasil, além de lançar no mercado conteúdo alternativo dos autores convidados pelos estúdios MSP a tomar parte no selo editorial de graphic novels com os personagens criados por Maurício de Sousa, como foi o caso dos volumes de ''Valente'', série de tirinhas do quadrinista mineiro Vitor Caffagi.

O descaso despendido aos problemas consequentes da perda dos programas de incentivo do Governo às editoras e à rede de ensino público é um erro grave, uma vez observados os seus desdobramentos. Tanto editoras de larga escala quanto as menores estão sofrendo as consequências disso, tendo que diminuir a projeção de 1ivros a serem publicados no ano e diminuindo o plantel de profissionais empregados, como é o caso da editora Melhoramentos, que vai precisar reduzir o número de títulos que lançaria de livros este ano de 230 para 180. Uma redução pesada em termos culturais e financeiros.

Página da revista "X-O Manowar", da linha Valiant
Uma vez apresentado o contexto, a crítica de Orlando parece um tanto injusta, mas é necessário também lembrar que existem editoras que não encontraram ainda um ponto certo de equilibrar sua participação no mercado, como foi o caso recente da linha Valiant, publicada pela HQM. Ao cancelar seus títulos por falta de procura do público leitor, a editora assumiu o discurso de que há uma crítica sobre a falta de material intelectualmente estimulante no mercado de bancas de jornal, mas quando se lança um conteúdo novo que pode suprir essa necessidade, o público e a mídia não se mobilizam para que a empreitada dê certo. Essa crítica é embasada nos números de vendas que a editora recebeu e que lhes deixou no prejuízo financeiro. O trabalho, contudo, que foi realizado com os quadrinhos do selo Valiant, apesar de graficamente estar impressionante, foi extremamente limitado por uma regularidade inconstante nas bancas de jornal e uma confusão provocada por um elemento que poderia até estimular o público especializado: as capas alternativas. A editora deveria ter se movimentado para se aproximar dos sites especializados e marcado presença nos eventos do segmento de forma mais assertiva, mesmo que se limitasse a tomar parte em palestras sobre a mídia no Brasil, como outras vem fazendo muito bem nos últimos anos. As páginas dedicadas aos quadrinhos poderiam ter colaborado mais para ajudar essa linha de títulos a encontrar sucesso no país (até levando em conta que trata-se de um conteúdo que recentemente foi apontado para ser levado às grandes salas de cinema nos próximos anos), mas não se pode assumir o discurso radical de que as pessoas deveriam saber melhor o que fazem. A HQM já voltou atrás do cancelamento de seus títulos para uma discussão mais aberta sobre como tornar sua publicação sustentável financeiramente, o que pode, inclusive, beneficiar em muito o mercado e a própria editora (algo que pretendemos abordar de forma mais dedicada em outra matéria futura aqui no blog).

O ProAc é um exemplo de programa que precisa crescer
Em suma, as consequências são sentidas por todos os lados, não adianta buscar um bode expiatório. É necessário apenas procurar aprender com os erros e corrigi-los enquanto existe essa possibilidade. O fomento de novos leitores, portanto, até pode pesar sobre as responsabilidades das editoras, mas a carência recente disso é fruto de má gestão administrativa do Estado e omissão optativa do Governo, trabalho inconsequente das mídias sensacionalistas e falhas consideráveis de divulgação quanto a eventos do mercado literário (não as feiras internacionais, mas os eventos de pequeno e médio porte, que justamente ajudam o mercado a continuamente se renovar). Em uma sociedade, não são apenas as glórias que devem ser partilhadas após uma encruzilhada, mas o peso das decisões erradas também. E o que se deve aproveitar disso é identificar as formas de melhor aprimorar os procedimentos tomados por todas as partes envolvidas. Os problemas com o PNBE e o PNLD precisam ser abordados com a devida seriedade, tanto pelos profissionais do livro, em todas as suas etapas (desde a autoria até o consumo, inclusive), como por aqueles que desejam ver nossa sociedade brasileira ter melhores condições socioeconômicas como um todo, porque a cerne de todo esse processo está na educação. Programas, ainda, como o Proac, em São Paulo, precisam continuar relevantes e serem adotados por outros estados, a fim de que, estimulando a produção cultural, o povo possa se sentir melhor representado na mídia e compreender suas responsabilidades para que receba seus direitos e possa executar de forma adequada sua função na sociedade.


É necessária, ainda, uma educação apropriada para estimular a leitura e o aprendizado, e não apenas o estabelecimento de uma grade de etapas a serem cumpridas para que o indivíduo seja inserido em uma sociedade que não se leva a sério o suficiente para garantir a valorização de sua cultura e da formação de seus membros. A responsabilidade pelos problemas que estão ocorrendo é de todos nós, e cabe a cada um questionar honesta e razoavelmente o que poderia fazer para ajudar-nos a melhorar. Sempre como um todo, vale ressaltar. Apenas assim, talvez possamos ter um futuro digno e com boas promessas de igualdade.

sábado, 9 de julho de 2011

Sem Medo?

Por Gabriel Guimarães


Apesar de estar presente entre os super heróis mais poderosos do universo DC, o Lanterna Verde Hal Jordan tem sua verdadeira essência, aquilo que lhe faz ser tão admirado pelos seus leitores recorrentes, não no seu anel, que lhe permite fazer tudo que sua mente desejar, numa abordagem moderna para a lâmpada do clássico personagem literário Aladin, mas sim em sua força de vontade humana, que é justamente o que lhe permite todos os feitos enquanto empunha a arma mais poderosa do universo.

A história de Jordan não é tão conhecida como a de Bruce Wayne ao virar Batman ou a de Clark Kent ao se tornar Superman, porém, de modo alguma, é menos incrível e essencial para se compreender o personagem, suas motivações e sua verdadeira força. Ainda criança, Jordan testemunhou o acidente que causou a morte de seu pai, piloto de testes da Aeronáutica Ferris, num ato de coragem para afastar o avião que pilotava da multidão. Aquele momento definiu a escolha de Jordan como Lanterna, tantos anos antes do moribundo Abin Sur cair com sua nave no meio do deserto norte-americano e mandar seu anel encontrar o ser naquele setor espacial que mereceria ostentar com honra o símbolo da Tropa dos Lanternas Verdes em seu peito e em sua mão.

Para compreender a razão de tamanha importância daquele momento, é preciso conhecer a história da Tropa. Organizada pelos Guardiões, a raça mais antiga do universo, a fim de patrulhar todo o cosmos com o propósito de assegurar a ordem e a paz, a Tropa dos Lanternas Verdes é composta por 3600 membros, um para cada setor espacial, conforme divisão feita pelos seus mestres. Para usar o anel, há requisitos essenciais, dentre os quais, o mais importante é a capacidade de superar o medo, algo que aquele momento tão jovem ainda na vida de Jordan lhe garantiu. Conforme o próprio Hal diz na história "Lanterna Verde: Renascimento",: "Quando o pior de todos os temores acontece diante dos seus olhos, não resta mais nada do que se ter medo."


Eis aí a essência do personagem. Para adentrar em seu universo, seria preciso explicar a origem da Bateria Central de Oa, planeta dos Guardiões, a essência do arqui-inimigo de Jordan, o korugariano T'aal Sinestro, e o ser que era a razão da clássica fraqueza do anel dos Lanternas Verdes contra a cor amarela, Parallax. Porém, acredito que estes pontos sejam um tanto quanto um desvio do tema principal dessa matéria, no momento.

Na última década, a partir de uma estratégia muito bem implementada pela editora DC, o roteirista Geoff Johns revitalizou o personagem de uma forma brilhante mesclando questões ligadas à atualidade dos leitores de quadrinhos às tradições das revistas do personagem publicadas ao longo de décadas desde seu surgimento (conforme já destaquei em matéria aqui no blog). O sucesso foi estrondoso, rendendo muita atenção para toda a mitologia por trás dos Lanternas Verdes e alavancou as vendas dos títulos ligados a ele num nível que poucos poderiam imaginar. Observando esse crescimento da procura por ele, a DC começou a investir na produção de um filme para o personagem (a relação entre a nona arte e o cinema também já foi abordada aqui no blog antes), além de uma série de produções em desenho animado direto para DVD a fim de motivar o público e aquecê-lo para a grande obra nas telas de cinema (uma dessas produções foi analisada também em matéria aqui no blog antes).

 
Howard Murphy como Lanterna
Verde em 1979

Entretanto, todos esses investimentos para a propaganda do personagem não foram algo tão inovador com relação à sua aparição em outras mídias fora dos quadrinhos. Presente em séries de desenho animado desde 1967, Hal Jordan sempre lutou contra o mal de todas as formas que podia, usando de construtos de seu anel que iam do bizarro ao extraordinário. Porém, foi só em 1979 que ele foi interpretado pela primeira vez em carne e osso, pelo ator Howard Murphy no especial para a televisão americana "Legends of the Superheroes", onde o personagem tinha seus poderes roubados por um grupo de supervilões composto por inimigos de vários dos heróis da Liga da Justiça. Curiosamente, essa trama foi construída para que a rede não precisasse gastar muito com efeitos especiais e ainda assim a história parecesse plausível. Anos mais tarde, em 1997, novamente o Lanterna foi personificado por um outro ator, Matthew Settle, que, porém, interpretava Guy Gardner, outro terráqueo Lanterna, no filme "Liga da Justiça da América", baseado na fase humorística que a Liga tinha vivido recentemente pelas mãos de Keith Giffen e J. M. DeMatteis. Diga-se de passagem que Hal se livrou por pouco de ser motivo de piada até os dias de hoje com essa mudança na escalação do anel naquele momento.

Vale aqui uma nota para o excelente trabalho de pesquisa e organização feito pelo blog Pipoca e Nanquim sobre o histórico do personagem antes de seu filme, que pode ser observado tanto no endereço eletrônico deles quanto no seu livro "Quadrinhos no Cinema", publicado pela editora Generale.

Como foi dito anteriormente, a atenção que o personagem vem recebendo nos últimos anos motivou a DC a investir novamente numa encarnação do herói, dessa vez, para um filme de longa duração a ser exibido nas salas de cinema ao redor do mundo inteiro, e o resultado disso poderá ser visto dia 19 de agosto aqui no Brasil no filme "Lanterna Verde", estrelado pelo ator Ryan Reynolds, mais conhecido pelos seus papéis em filmes de comédia, mas que, porém, tem capacidade para protagonizar boas cenas de ação.

É, então, que chegamos ao tema da matéria de hoje. Consegui recentemente um acesso a esse filme, que será lançado aqui mês que vem, o assisti, e venho aqui dar alguns comentários sobre minhas impressões que podem ser observadas durante o filme (há algum tempo atrás, fiz duas matérias que já visavam comentar sobre o andamento do projeto desse filme que podem ser vistas aqui e aqui no blog). A fim de garantir o direito de cada leitor para tomar conhecimento até onde ele próprio decidir, alerto que a partir deste momento, estarei comentando sobre partes do filme e que a decisão de ler o que vem em seguida deve partir única e exclusivamente de cada leitor (já fiz uma matéria sobre essa questão do spoiler que pode ser vista aqui no blog, também).


ALERTA: SPOILER




Visando mostrar o momento em que Hal Jordan recebe o anel da Tropa e se torna o Lanterna Verde responsável pelo setor espacial 2814, o filme inicia destacando o confronto entre Abin Sur e Parallax. Apesar do altíssimo investimento em efeitos visuais no filme, o vilão não consegue lembrar tanto sua figura nos quadrinhos, entretanto. Além disso, sua origem e a razão de este ter desejo pela destruição dos Guardiões são extremamente diferentes dos que existem nos quadrinhos. Enquanto nos quadrinhos, ele é aprisionado na Bateria Central de Oa para que seja contido, causando assim a impureza amarela, no filme, Parallax é inicialmente utilizado como forma de dar mais poder à Tropa dos Lanternas Verdes, uma vez que a luz verde não seria tão capaz de muní-los ao redor de todo o universo, o que acredito ser uma justificativa deveras fraca e que reduz aquilo que a força de vontade por trás da história dos Lanternas Verdes a algo insignificante.

Quando o filme chega à Jordan, vivido por Reynolds, vemos que este é um irresponsável de marca maior, que, porém, possuí uma característica que, em hipótese alguma poderia ter,: medo. O Jordan dos quadrinhos pode ser irresponsável, porém, tem um senso de luta muito grande. A morte de seu pai o entristece, porém, também lhe dá forças. O exemplo de seu pai é um dos elementos que mais o motiva a fazer tudo que faz, não fosse por isso, com certeza, Hal não teria se tornado piloto de testes, seguindo o seu legado. No filme, a abordagem do momento da morte de figura tão importante é feito de forma extremamente trivial e convencional demais, e os efeitos deste momento em Jordan, também.

Para que não seja tão criticada assim as atuações do elenco de atores, o roteiro do filme possui largas falhas estruturais e demonstra uma superficialidade excessiva em momentos que deveriam ser mais aprofundados. Diferente do trabalho excelente que em sendo realizado pelo diretor Christopher Nolan no Batman, o filme do Lanterna, infelizmente, não acerta no tom que é dado à película, adotando em muitos momentos estilos próximos ao cômico ou ao clássico de heróis e personagens sem sal.

Continuando, o filme tem uma quantidade de efeitos especiais bastante numerosa, porém, a qualidade destes não consegue agradar tanto assim a vista. Muitos dos demais membros da Tropa mostrados nas cenas em Oa poderiam ficar melhor se utilizassem processo similar ao realizado em filmes como "MIB - Homens de Preto", apesar de que há exceções para isso. As representações feitas de Abin Sur, Kilowog e Tomar-Re estão muito bem trabalhadas e com um nível de detalhamento fantástico. A forma como o traje dos Lanternas se adapta à fisiologia específica de cada raça que o usa também está muito bem mostrada, e merece destaque por isso. O traje que Jordan usa, todavia, não agrada tanto, e poderia ter sido melhor desenhado.


Peter Sarsgaard como Hector Hammond,
um dos grandes destaques do filme


Um dos personagens que realmente chamou a atenção, porém, foi o vilão Hector Hammond. Apesar de estar em um contexto diferenete dos quadrinhos, uma vez que, no filme, ele é um professor de biologia, enquanto nos quadrinhos, era um cientista especializado em astrofísica, o personagem realmente ganha vida na história, e a atuação de Peter Sarsgaard dá um toque especial nisso. Este ponto merecia ser comentado.



Dois outros pontos que merecem ser comentados aqui são a participação da manda-chuva Amanda Waller, bastante abaixo do padrão que criou na série de desenho animado da "Liga da Justiça - Ação Sem Limites"; e a aparência dos Guardiões, que está quase oposta à dos quadrinhos, já que são representados como seres de fisionomia esguia e elevada, enquanto na nona arte, são seres de baixa estatura e bem mais numerosos.


Cena do filme com Amanda Waller aparecendo em segundo plano
A linha de roteiro, porém, não é muito positiva, e chega ao clichê em diversos momentos, bem mais até do que seria aceitável. Para ser absolutamente sincero, creio poder resumir o filme em uma frase: "Lanterna Verde" é um filme feito para os anos 1990, com uma trama estereotipada nos padrões da época, porém, com efeitos especiais dos dias de hoje.
Infelizmente, o personagem não conseguiu atingir todo o potencial que poderia, e nós, leitores e admiradores da arte sequencial em que suas histórias são contadas, vamos ter que esperar um pouco mais de tempo até vê-lo em sua posição devida. Ainda assim, como filme isolado da produção de quadrinhos, pode agradar a alguns que estejam querendo assistir um filme tradicional sobre mocinhos e bandidos. Fica a cargo de cada um a decisão de assistir ou não, e tirar suas próprias conclusões. Convido desde já, inclusive, quem o vier a fazer, para dividí-las conosco aqui nos comentários. Quanto ao quesito adaptação, continuemos aguardando nosso dia mais claro.

NOTA GERAL: 1 estrela.


domingo, 26 de junho de 2011

Legado Esmeralda

Por Gabriel Guimarães


Graças a um meticuloso trabalho de pesquisa feito pelo roteirista Geoff Johns no fim de 2004, a DC ganhou um reforço de peso na luta pelo gosto dos leitores de quadrinhos. Trazendo o Lanterna Verde Hal Jordan de volta dos mortos em "Lanterna Verde: Renascimento", Johns deu não apenas um motivo para os leitores tradicionais do personagem voltarem a acompanhar os títulos relacionados com ele, mas renovou inteiramente o universo e a mitologia por trás do anel que este carregava consigo (já fiz uma matéria sobre a reinvenção do Lanterna Verde aqui no blog antes).

A arma mais poderosa do universo DC passou a ganhar mais força entre os admiradores da arte sequencial, e, com isso, os personagens a ela ligados foram tendo mais destaque na mídia. A DC cresceu em representatividade no mercado, e, logo, o universo esmeralda em que Hal Jordan era o tradicional centro ganhou novos protagonistas importantes, novas cores baseadas no espectro emocional dos seres vivos e novas histórias memoráveis (comentei também sobre uma delas já aqui no blog). Utilizando de referências a trabalhos clássicos feitos com os personagens da Tropa dos Lanternas Verdes, como os feitos por Alan Moore há quase 30 anos atrás, Johns adaptou muitas estórias, dando uma roupagem nova para o mundo em que vivemos hoje. E os resultados foram se mostrando cada vez mais positivos.

Como a década passada foi um marco para a transição entre os quadrinhos e o cinema (como já comentei aqui no blog), não é nenhuma surpresa que a editora resolveu colocar em prática uma estratégia para dar vida aos desenhos dos personagens da Tropa. Primeiro, foi lançado o filme de animação "Lanterna Verde: Primeiro Voo", em 2009, a fim de contar a primeira aventura de Hal Jordan como Lanterna Verde e seu primeiro confronto com Sinestro. Despois, dois projetos foram tocados em compasso para serem lançados esse ano de 2011. O primeiro é o filme live action estrelado por Ryan Reynolds (cujo comentário inicial pode ser visto aqui, e cuja política de escolha de elenco foi comentada aqui), que já está sendo exibido nos Estados Unidos, e que estará disponível nos cinemas brasileiros a partir de 19 de agosto. O segundo, que é o tema da matéria de hoje, é um segundo filme animado, chamado "Lanterna Verde: Cavaleiros Esmeralda".

Partindo do desejo da editora de mostrar toda a gama de personagens que são membros da Tropa dos Lanternas Verdes além dos nomes mais conhecidos, o filme faz uma bela apresentação para quem não conhece a cronologia dos quadrinhos, além de apresentar certos pontos de vistas pouco comuns para as histórias de heróis. Através de uma trama centrada na jovem Arísia, personagem bastante conhecida da década de 1980 das histórias de Jordan, o filme narra os contos mais marcantes dentro da própria Tropa, relembrando a origem desta (apesar de não mencionar os Caçadores Cósmicos) e algumas das figuras mais ilustres que já portaram o anel.

A história principal em si, que se desenrola em meio a esses contos, é um tanto fraca e superficial, mas por se tratar de apenas um esquema de expôr a mitologia da Tropa para quem ainda não a conhecia, funciona de forma eficaz, servindo ainda para apresentar o vilão Krona, que é ligado de fato à origem dos Guardiões do universo, mentores dos Lanternas, e que teve seu papel contado na história "O Conto de Ganthet", feita pelos grandes profissionais de quadrinhos Larry Niven e John Byrne.

O filme é interessante, porém, nada muito impressionante. Houve algumas adaptações feitas entre a versão em quadrinhos e a animada, mas nada que condene uma ou outra. Os personagens estão bem representados, apesar de que o som é um dos pontos mais fracos do filme. A falta de uma trilha sonora de peso e de maior vivacidade nas vozes dos protagonistas acaba dando um tom similar às aulas de história do colégio em alguns momentos, evitando assim que você consiga se prender à trama. A experiência também me chamou atenção para um fato: não há como unir os dois filmes animados produzidos pela DC, pelo fato de Sinestro ter sido o vilão no primeiro e neste segundo, ser um dos membros da Tropa ainda, entretanto, o estilo dos personagens foi mantido e a caracterização deles é a mesma. Não sei ao certo qual foi o objetivo dos produtores com isso. Os destaques positivos, porém, ficam por conta de Kilowog e Mogo, que são os Lanternas que conquistaram maior carisma com suas respectivas histórias.

NOTA GERAL: 2,5 estrelas.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Alerta: SPOILER!

Por Gabriel Guimarães
O objetivo das grandes histórias em quadrinhos sempre foi o mesmo: cativar o leitor e inserí-lo no universo onde os personagens que protagonizam as histórias estão. Quando essa missão é bem sucedida, a procura pelas revistas com essas aventuras naturalmente cresce, e, com ela, a ansiedade por saber o que vai acontecer a seguir no decorrer da trama. Essa vontade de saber e de poder contar o que acontecerá em seguida nas obras ficcionais é conhecida como 'spoiler'.

Formulada depois do surgimento da internet, em função do desencontro temporal e geográfico entre os velhos e novos meios de comunicação, o termo em si surgiu a partir de um determinado evento que ocorria há muito tempo atrás nos Estados Unidos, quando um programa de televisão era exibido na Costa Leste três horas antes do que era Costa Oeste. Os espectadores da Costa Leste, então, ávidos pelos acontecimentos que acabaram de testemunhar no episódio da semana de seus seriados favoritos, partiam para os portais de discussão e divulgavam abertamente tudo que aconteceria no episódio, além de propor interpretações pessoais e determinar valor a determinados momentos em detrimento de outros. Quando alguém da Costa Oeste acessava esses portais ou tinha qualquer forma de contato com essas informações, toda a graça que o episódio possuía pela sua inviolabilidade, ou seja, o desconhecimento por todos do que de fato aconteceria, era estragada (ou era, como se diz em inglês, 'spoiled'). A esses usuários da Costa Leste que postavam o conteúdo dos episódios antes da sua exibição por todo o território norte-americano, passou a ser, então, dado o título de 'spoilers', a fim de obrigá-los a anunciar nos seus comentários que lá haveriam dados privilegiados da trama que era acompanhada, dando assim, a todos os espectadores e internautas um direito de escolha sobre até que ponto pretendiam saber de antemão os mistérios que os fascinavam ou não.

Com o decorrer dos anos, a dimensão dessa ação acabou se expandindo, atingindo todos os meios de comunicação que produziam conteúdo ficcional e que era consumido em espaços e tempos diferentes. O âmbito internacional disso, talvez, seja o que mais está em destaque hoje, onde um determinado programa, revista em quadrinhos ou até livro é disponibilizado primeiramente em um ponto do mundo e a informação sobre tudo ali exposto logo é  distribuida através da rede das mídias digitais para o mundo inteiro.

Até aí, esse tema é muito bem documentado. Há blogs, sites e programas quase que exclusivamente voltados para isso. Os seus leitores ou espectadores habituais não reclamam do que é feito lá, pois estão cientes da proposta desses locais e estes oferecem exatamente aquilo pelo qual eles procuravam para consumir. Seriados como LOST e Survivor foram grandes exemplos disso, agregando milhares de fãs dos seriados para debater sobre temas dos episódios, sobre a origem e/ou desfecho de determinado personagem na trama ou simplesmente sobre o funcionamento do universo ambiente das estórias. Agora, apesar de toda a estrutura de existência positiva dos spoilers como instrumentos de discussão entre os mais diferentes grupos de admiradores dessas obras, há diversos casos de completo descaso com o leitor ou espectador assíduo de determinado meio de comunicação.

Como aqui procuramos focar os estudos midiáticos e análises à nona arte, existem muitos casos que merecem ser destacados, em prol dos verdadeiros fãs de quadrinhos, que são severamente prejudicados por atitudes egoístas e desconsiderativas por parte de repórteres completamente desprovidos de consciência moral, que acabam por quebrar o laço ético que rege o fluxo de informações entre os profissionais do meio e os leitores do mesmo. No portal eletrônico do Globo, já testemunhei mais de um caso dessa impensada atitude, onde não foi dado ao internauta esse direito de escolha de conhecer ou não o porvir ficcional: aqui e aqui (ALERTA: SPOILER - Nestes links, há spoilers para eventos futuros nas histórias dos personagens Marvel). A chamada para estas matérias, que se encontravam na página inicial do portal não apenas desrespeitam o leitor dos quadrinhos como denigrem as histórias produzidas pela Casa das Ideias frente aos olhos públicos dos demais internautas, que perdem qualquer interesse de acompanhar as revistas para saber o que vai acontecer ao final de cada título, uma vez que essa informação é dada de forma gratuita no título das reportagens.

Acredito que essa postura não pode mais ser tolerada nos dias atuais, onde a liberdade de expressão é direito de todos, o que inclui, claro, o direito de se surpreender com as obras que se acompanha ou não, e de ser respeitado por isso. Cabe, agora, a nós, leitores e admiradores da arte sequencial, lutar por nossos direitos e não cedermos enquanto não formos reconhecidos e respeitados.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Madrugada das Possibilidades

Por Gabriel Guimarães
Essa semana saiu nas bancas de jornal e lojas especializadas as edições da DC que concluem a mega saga "A Noite Mais Densa", que tem o universo de personagens do Lanterna Verde como principal protagonista, porém se ramificando entre os principais títulos da editora, como Superman, Batman, Liga da Justiça e Sociedade da Justiça. A história atingiu o patamar de grande evento do ano da editora e a levou a incrível façanha de passar a Marvel em quantidade de revistas vendidas e de arrecadação nos Estados Unidos. Seu principal roteirista, Geoff Johns, se consolidou como caixa forte entre os profissionais da atualidade, alavancando as vendas de todos os títulos que passou a escrever.

A DC também aproveitou a abordagem da saga para gerar talvez uma mudança determinante para o destaque da editora nessa nova década que começa, uma volta às origens, aos tempos em que os quadrinhos eram claros, mais épicos e ideológicos, contexto este corretamente percebido no título da nova série mensal que foi lançada lá fora e que será publicada a partir de março aqui, "O Dia Mais Claro".











Apesar de todos esses pontos positivos que quis destacar, tenho alguns comentários que considero bastante pertinentes de se levantar aqui. A saga começou a partir de uma deixa criada nos anos 1980 pelo antológico roteirista e criador Allan Moore, numa história onde o dono anterior do anel do setor espacial 2814, Abin Sur, é alertado pelos seres mostruosos de Ysmault sobre a profecia que anuncia a queda dos Guardiões do universo como instrutores da ordem no cosmos. Devido a uma escassez de ideias originais e apostando no estímulo para os leitores mais recentes de buscar histórias antigas dos personagens a fim de compreender a razão dos acontecimentos atuais, a DC investiu todas as moedas no sucesso dessa saga. Em termos artísticos e culturais, é claro que "A Noite Mais Densa" foi a tentativa da DC de aproveitar a onda de popularidade do gênero de terror dos últimos anos, que rendeu sucessos como "Zumbis Marvel" e "Walking Dead". Sendo influenciado por filmes como "A Noite dos Mortos Vivos", o universo DC virou um cemitério ambulante, causando muito mais estardalhaço do que poderia se imaginar, chegando a um nível verdadeiramente apocalíptico para os personagens.

Tendo que enfrentar os corpos decrépitos de seus entes queridos, os personagens estiveram num limiar emocional como nunca antes, e a forma como isso foi mostrado nas revistas alternou demais entre o bom e o ruim, em termos de qualidade. A Sociedade da Justiça, cujo envolvimento com a saga foi brilhantemente desenhada pelo brasileiro Eddy Barrows, foi um dos lados interessantes de se ler, junto com os desafios pelo qual a Tropa dos Lanternas Verdes passaram em Oa e Mogo. Ao mesmo tempo, a parte que coube à Liga da Justiça e a alguns personagens secundários como Starman foram um tanto quanto ridículos, sem força suficiente para enfrentar essa ameaça do mundo dos mortos. A trama se desenrolou na sua linha principal também de uma forma confusa e em ondas de ação e reação não tão bem exploradas, culminando num final de teor pouco dramático e sem muito sal.

Do ponto de vista editorial, no entanto, tenho algumas opiniões muito fortes sobre isso tudo. Primeiro e mais brandamente, gostaria de comentar o quanto foi uma pena não ter ocorrido uma divulgação dessa saga como foi feito lá fora, onde foram distribuidas réplicas dos anéis das tropas multi-coloridas envolvidas na trama. Os fãs desses personagens com certeza teriam apreciado muito esse brinde, e neste ponto, me incluo como um deles. Agora, do ponto de vista sério, o trabalho de edição da saga no Brasil foi bastante fraco. Quem lê meu blog, sabe que eu não sou de criticar sem base, e quando um trabalho de edição nos quadrinhos é bem feito, eu dou uma menção bastante destacada (como fiz quando analisei o arco do próprio Lanterna no surgimento da Tropa Sinestro), porém, dessa vez, eu não tenho como elogiar um trabalho que eu vi que foi tão deficiente quanto este foi.

Eu tentei ler pela cronologia que foi impressa em várias edições envolvidas na saga: não deu certo. Dentro de uma mesma revista, você encontrava histórias antes e depois dos eventos ocorridos em outra revista, que só viria a ser publicada muito tempo depois. Há um erro, inclusive, na tabela, no que tange a quais revistas da série Liga da Justiça estão envolvidas na saga. A primeira relacionada não tem nada da Noite Mais Densa, e a seguinte à última que está lá, sim. Personagens iam e viam, numa edição estavam em um lugar fazendo algo, combatendo alguém, de repente, em outra, estavam no lado oposto do mundo ou do universo fazendo algo completamente diferente. Faltou direção no volante para quem era responsável pela coordenação das publicações da saga, isso qualquer um é capaz de perceber.

--SPOILER para quem não leu ainda--

Basta que se note na parte da trama em que Hal Jordan se deixa possuir pela entidade Parallax a fim de derrotar o Espectro dominado pelo anel negro da Tropa de Nekron. Na edição número 29 da série do Lanterna Verde, o fato que descrevi é consumido no clímax da revista, mas só vamos ver sua continuação na edição 30, considerando que na escala das edições haviam 3 revistas que estariam cronologicamente entre uma e outra, onde, inclusive, na edição da Liga da Justiça número 98, foi publicada uma história já pós-Noite Mais Densa, onde o Lanterna Verde Hal Jordan aparece tranquilamente disposto a formar uma nova Liga. É de dar um nó na cabeça do leitor.

Em termos de história, "A Noite Mais Densa" foi uma história sem grandes destaques ou momentos marcantes, mas pode ser a deixa para algo realmente maravilhoso na DC: um recomeço. O título da matéria é uma referência a isso. A noite obscura terminou, e os raios do sol da esperança começam se lançar por sobre o horizonte. Enquanto o dia mais claro começa a ser construído, acho importante termos esse momento de ponderação. Entre um momento e outro, há uma madrugada, onde deve se planejar o futuro e o que surgirá na nova aurora da DC. Espero que compreendam que a era de crises seguidas de crises já acabou, e agora precisamos de um tempo de calmaria estimulante, onde a força de vontade que levantou a DC precisa ser restaurada e descansada, pelo menos por um tempo. Em breve, já haverá a próxima grande fase da DC, "Flashpoint", porém, diferente de como tem sido lidado até agora, esse arco não parece ter tanto peso e melodrama como as crises da segunda metade da última década que afetaram tanto o teor dos quadrinhos (como destaquei já antes aqui no blog na minha série de matérias especiais sobre as mudanças nos quadrinhos na última década). Veremos o que o futuro nos reserva daqui para frente: rumo a um novo amanhecer esmeralda, espero.

NOTA GERAL: 2,5 estrelas.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Concorrência nos Quadrinhos

Por Gabriel Guimarães

Qualquer que seja o produto a ser analisado, todos os especialistas chegam a uma conclusão invariável: é necessário a concorrência para que o produto seja percebido, de fato, pelo público. As marcas são construídas especificamente para que o consumidor X compre o produto com aquele símbolo único e não aquele com um símbolo diferente.
A indústria de quadrinhos demonstra não ser em nada diferente dessa máxima dos negócios. Para que o consumidor seja atraído a comprar a revista X ao invés da revista Y, a possuidora dos direitos referentes à publicação da primeira tomará atitudes para: ou elevar sua marca demonstrando sua respeitabilidade, seu grau de consciência ecológico e social, seu maior apreço com o leitor, seu baixo custo de aquisição, etc; ou depreciar o concorrente, a fim de criar uma sensação de que o público pode escolher qual produto vai comprar, mas se quiser um produto de qualidade, tem que ser o da marca X (no caso, gerando uma ilusão de liberdade de consumo).
Desde que os quadrinhos começaram como meio de comunicação de massa, há mais de um século, essa posição relativa ao marketing entre as editoras tem sido algo que vale ser notado e estudado com um certo grau de atenção. Muitos dos grandes casos foram e ainda são, inclusive, casos de tribunal de justiça, onde um autor ou editora luta pelos direitos sobre um personagem publicado por outra editora. Vide os casos do Capitão Marvel (caso DC comics x Fawcett comics) e Superman (caso herdeiros de Jerry Siegel e Joe Shuster x DC comics). Mas uma das recentes movimentações no mercado quadrinístico tem me chamado a atenção para as novas dimensões que a concorrência tem partido.

A DC comics abocanhou uma boa fatia das vendas de quadrinhos no mundo todo com a mais recente megassaga de seus heróis centrada no personagem que em breve estará nas telas de cinema, Lanterna Verde, com a história A Noite Mais Densa. Esse fato, logicamente, provocou  preocupação à Marvel, que se viu perdendo território. Quando outrora numa situação dessas, a Marvel responderia de cabeça erguida, sem dever nada a ninguém, publicando histórias de alto nível e refinada qualidade, a editora (hoje mais para empresa multimídia que mera editora de quadrinhos, na verdade) respondeu de uma forma que chocou muitos dos estudiosos do meio e até alguns artistas: prometeu premiar com uma edição de uma revista especial com capas alterntativas exclusivas os donos de comic shops que enviassem para a sede da Casa das Ideias 50 capas das edições da minissérie da DC rasgadas, sem o restante da edição. Isso é uma depredação de tudo aquilo que uma revista em quadrinhos deveria simbolizar. Nós lemos as histórias dessas editoras para podermos ir além das limitações físicas e sensoriais que temos nas nossas vidas corriqueiras, para estarmos em sintonia com um universo que, muitas vezes diferente do nosso, funciona com uma certa lógica e sem tanta burocracia estúpida.
Sou leitor assíduo tanto da Casa das Ideias, que no passado abrigou o mestre Stan Lee, quanto da editora DC, orquestrada de forma precisa por grandes profissionais como Dick Giordano. Concordo que é preciso a concorrência das duas para que não haja muita perda de qualidade em relação ao que é publicado, uma vez que se só houvesse uma editora no ramo, esta não precisaria se preocupar de perder o cliente para outra fornecedora desse meio de comunicação e, portanto, não primaria pela qualidade de suas histórias, porém, acho um absurdo chegar a esse ponto da violência contra o meio que ambas tratam em si.
Sei que esse tema já foi debatido alguns meses atrás quando estava mais em evidência que agora, porém, senti-me motivado a escrever sobre ele ao saber sobre o que seria o próximo grande evento Marvel.

--Alerta de SPOILER--

A saga Chaos War será marcada pelo retorno de muitos personagens falecidos no universo Marvel ao reino dos vivos, o que obviamente, gerou muitas críticas de plágio da história A Noite Mais Densa, da DC. Partindo de um ponto que infelizmente se tornou praxe no mercado de quadrinhos desde a década de 1990, a Marvel utiliza da regra de que 'as edições com morte de personagens vendem bem, e o seu retorno mais ainda' para usar e abusar de algo que deveria ser um grande diferencial no universo dos personagens de quadrinhos. Vou ponderar sobre esse tema da morte corriqueira em uma matéria voltada precisamente para isso, mas por agora, ponho na mesa o debate de: onde foi parar os parâmetros da concorrência?
Numa situação que poderia render frutos tanto para o público quanto para a nona arte em si, que seria impulsionada pelos profissionais envolvidos na produção de histórias a ir além do padrão, criando momentos que ficariam eternizados nas mentes e nas vidas dos leitores, as editoras têm se mostrado arredias, sem coragem de arriscar coisas novas, partindo para uma estratégia contra a cordialidade e reconhecimento de que ambas estão lutando por um mercado maior, que precisa ser lembrado de seus pontos positivos constantemente para não ser discriminado pela maioria, as histórias em quadrinhos.

Recentemente, o nível dos quadrinhos, os quais muitos estão indo para as grandes salas de cinema do mundo todo, tem sido analisado por psicólogos e sociólogos como más influências para os mais jovens. Isso te lembra alguma coisa? Essa discussão existe desde que os quadrinhos se expandiram e se tornaram integrantes fixos dos lares americanos, e, apesar de muitas vezes no passado, ter usado de argumentos fundados em histórias conscientes e inteligentes que eram publicadas aos montes, hoje há uma quantidade ínfima de exemplos para provar o contrário do que esses estudiosos propõem novamente trazer de volta à julgamento. Não podemos deixar que surjam novos Frederic Werthams, mas sim que hajam mais e mais exemplos de que este, que foi o maior crítico da arte sequencial, estava completamente errado nas suas conclusões.
Ponderemos então em que direção os quadrinhos estão indo, e percebamos que se não nos unirmos e realmente empenharmo-nos na busca por não apenas uma história, mas sim um padrão de qualidade mais elevado para os dias vindouros, não haverá sequer um amanhã pelo qual as grandes editoras tanto degladiarem. Há coisas maiores do que apenas a concorrência entre marcas neste caso, e a sobrevivência desse meio de comunicação é uma delas.

Referências:
BRETON, Phillipe. A Manipulação da Palavra, 1999. Editora Loyola.
http://www.omelete.com.br/quadrinhos/chaos-war-nova-saga-da-marvel-vai-ressuscitar-herois-da-editora/
http://www.universohq.com/quadrinhos/2010/n20082010_05.cfm

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

O Que Tem Acontecido com os Roteiros?

Por Gabriel Guimarães
Caros leitores, essa semana me peguei revendo os episódios da série do Batman feita pelo quadrinista/produtor Bruce Timm, e percebi algo. É impressionante o quanto a qualidade dos roteiros para histórias dos personagens têm caído com os anos. Pude assistir episódios muito bem escritos, que me lavavam para dentro da trama e me faziam mergulhar no universo do milionário Bruce Wayne, parte muito importante também na concepção do herói e que aparentemente tem sido cada vez menos abordado.
Episódios como "Os Esquecidos" e "Nunca É Tarde Demais" reacenderam em mim a chama dos bons scripts, e me fez perceber, observando os quadrinhos que li do Batman nos últimos tempos e de outros personagens também, o quanto que os roteiristas dos quadrinhos têm estado carentes de uma percepção maior de seus personagens e de seus universos, e não digo aqui universos Marvel e DC, nem nada.
A Marvel, caracterizada pelos seus personagens joviais, que atraem mais pelo elo emotivo que produzem com o público leitor, tem perdido cada vez mais essa sua característica, criando tramas em grande parte políticas. Não de todo mal, mas as histórias tem carecido de mais emoção, que nem eram vistas nos roteiros de Stan Lee para o Homem-Aranha ou para o Surfista Prateado, ou do Mark Buckingham também para o Homem-Aranha, e de cenários mais esperançosos, agora parece que tudo é drama, tristeza e morte.
A DC, de personagens mais velhos e tramas mais universais, ainda tem conseguido manter chama acesa para algumas histórias específicas, como as do Lanterna Verde e a Sociedade da Justiça, entretanto, tem passado por uma crise real, a das crises sequenciais de tentativas fúteis de criar crossovers entre os títulos no que só posso julgar como sendo estratégia vã de vender revistas sem conteúdo de história.
Acredito que chegamos a um impasse que merece determinada atenção: O que as editoras hoje procuram na publicação de seus materiais? Algo capaz de mudar a vida dos leitores, um material com o qual o leitor possa se sentir em casa, independente da distância física possível desta em questão; ou simplesmente algo capaz de vender umas meras revistas no momento, ignorando a formação de um público leitor contínuo, pensando assim apenas em vendas a curto prazo, que geram muitas críticas e descontentamentos, obrigando até a retratações e desculpas públicas depois?
As últimas palavras da obra máxima de Alan Moore nos alertavam já para isso em 1985, se vocês se lembram bem. "Eu deixo inteiramente em suas mãos" - Moore representa o futuro dos quadrinhos, do gênero super-heróico agora nas mão do leitor, que deve passar a exigir material de qualidade das editoras uma vez que entrou em contato com um de tal primazia de roteiro. Temos que fazer nossa parte, exigir, batalhar por qualidade e não apenas quantidade, como tem sido feito nesses últimos anos.
Se Deus quiser, em breve, poderemos estar discutindo aqui os quadrinhos brasileiros de fato, e então, desde já, lutemos para que este não caia nestes erros do mercado americano, do qual, lembrem, eu sou fã, mas reconheço suas falhas e erros.


Proponho aqui um movimento "Por um quadrinho brasileiro melhor!"
Que este possa ser apenas o primeiro passo rumo a um futuro quadrinístico decente, e mundial e intelectualmente capaz de ser reconhecido.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Uma Demasiada Decepção

Por Gabriel Guimarães



Desculpem a demora por essa postagem, vida de universitário não é fácil...
Hoje, vou falar a crítica do filme X-men Origins: Wolverine, mais recente produção Marvel no cinema.



Cara, por onde começar? Comecemos pelos pontos positivos:
O filme ganha muito pela ação e efeitos especiais, de primeira linha, trazendo o público para dentro das cenas. As cenas de luta entre o Wolvie e o Blob; e entre o Wolvie e o Gambit, são simplesmente fantásticas. A atuação dos intérpretes, então, são mais um dos pontos altos do filme, com grandes nomes no elenco, como o leading role Hugh Jackman, além de Dominic Monaghan (O Charlie, da série LOST, que faz o papel de um dos mutantes do esquadrão de Logan), Ryan Reynolds (o incalável Deadpool - muito mal representado nesse filme em termos de roteiro, não de atuação -), Kevin Durand (na soberba representação do mutante Blob), o músico Will.I.Am, entre muitos outros.
Realmente é um filme de se encher os olhos, mas vamos ao que interessa: Conteúdo.


Minha avaliação nesse quesito realmente foi um choque negativo. Esperava mais depois de ter visto Homem de Ferro, um dos melhores filmes de HQ que eu vi em muito tempo.
Sendo um conhecedor da história do canadense invocado que
dá nome ao filme, achei que eles poderiam ter montado uma trilogia só para começar a mostrar a vida de Logan, para fazer um bom trabalho.

A primeira parte seria obviamente baseada na maravilhosa obra de Paul Jenkins e Andy Kubert, Origem, de 2001. Achei um absurdo mesmo foi terem reduzido tão extraordinariamente produzida história a irrisórios 5 minutos de filme, além de deturpá-la, estrangando as pontas soltas que a HQ cria na mente do leitor, como a relação consanguínea entre Logan e Creed (Dentes-de-sabre).

A segunda, seria a inserção do Adamantium nos ossos de Wolverine, visto em Arma X, de Barry Windsor-Smith, publicado em 1991. Eu sinceramente considero esta uma das melhores histórias em quadrinhos de todos os tempos. A animalidade contida em Logan é finalmente liberada, mas de que maneira? Os inúmeros implantes de memória apenas nos levam a supor o que aconteceu de verdade, mas o resultado é maravilhoso. Todo o material relacionado com a Tropa Alfa e uma menção do Capitão América seriam possíveis nesse filme.


E para finalizar a primeira trilogia, a terceira parte, com Logan no Japão, onde poderiam ser abordadas histórias como a recém-batizada Eu, Wolverine, e outras menores, mas não menos importantes. Itsu poderia ser a parceira romântica desse filme para Logan, ainda possibilitando deixa para o surgimento da verdadeira Raposa de Prata - não como a vista no filme.


O filme lançado esse ano tem certos pontos que achei simplesmente ridículos, como a aparição sem a menor importância relativa de Ciclope, Mercúrio, e Rainha Branca. A morte do personagem de DominicMonaghan é simplesmente absurda e boba (não seria lógico que um cara com poderes ligados a máquinas, energia e etc lutar, mesmo que fosse um fracote, contra a própria morte?? O cara pode mandar em qualquer aparelho, caramba!).
E para finalizar: convenhamos, BALA DE PRATA?! Por favor, né? Wolverine não é nenhum lobisomen não, caso o cara que escreveu o roteiro desse filme não saiba.


O que mais me impressiona é o fato da Marvel ter aprovado um roteiro desses. É preciso um controle melhor por parte da editora, para que não surjam mais outros Homem-Aranha 3 ou Hulk. É preciso ter sabedoria e discernimento, pessoal. E é possível criar algo de qualidade e ação ao mesmo tempo, como foram vistos no já mencionado Homem de Ferro e nos dois primeiros Homem-Aranha.

NOTA GERAL: 3,5 ESTRELAS (COMO FILME PRO VERÃO AMERICANO).
1 ESTRELA (COMO ADAPTAÇÃO DAS HQS DO WOLVERINE).