domingo, 15 de abril de 2012

Dia Mundial do Desenhista

Por Gabriel Guimarães



Certa vez, o poeta americano Robert Penn Warren afirmou que "os homens vivem pelas imagens. Elas se oferecem a nós das paredes do mundo e do tempo". Observando a cultura pré-histórica e os estudos arqueológicos dos últimos séculos, a declaração de Warren tem uma grande correlação com a realidade. Através do tempo, o uso de imagens como forma de expressão e consumo cultural e/ou material foi uma das atividades mais realizadas pelo homem, como se o ato de explicar por traços que simbolizam a realidade estivesse sempre dentro da essência de nossa própria humanidade.

Pinturas rupestres das cavernas onde
os primeiros homens habitaram
A relação dessa natureza fundamental do 'narrar' por imagens pode ser muito bem estudada nos livros de história antiga, e sua ligação com a arte sequencial das histórias em quadrinhos corriqueiramente lidas não tardou muito em aparecer. Através de estudos de grandes quadrinistas como Will Eisner e Scott McCloud, majoritariamente, é fácil perceber as nuances entre a primeira forma usada para comunicação efetiva na história da humanidade e o meio de comunicação de massa assumido em 1895 no jornal "New York World", sob a autoria do americano Richard Outcault, apesar de haverem alguns precursores muito interessantes que merecem destaque, como o sueco Rodolphe Töpffer, o alemão Wilhelm Busch e o ítalo-brasileiro Ângelo Agostini.

Imagem da Times Square, área mundialmente
conhecida de Nova York por seus banners
O desenho está na área mais profunda de nossa essência, pois nada mais o alfabeto é que imagens desenhadas para representar sons, e sem a língua escrita, jamais poderíamos construir uma sociedade e manter relações entre indivíduos diferentes. Tal afirmação pode soar como uma extrapolação do sentido de desenhar, mas creio que serve devidamente para enfatizar a ordem de importância do desenho na realidade. Num mundo onde hoje a comunicação visual se expandiu para todos os lados, muitas vezes provocando até uma poluição mental e dificuldade de concentração, o desenho nunca esteve tão presente e a comunicação através de imagens nunca foi tão comum e fundamental como é agora. Ziraldo afirmou, em uma entrevista dada há alguns anos, que "as histórias em quadrinhos tem o ritmo que o Século XXI exige", oferecendo assim ao leitor uma forma de adquirir novos conhecimentos e dominar novos conteúdos de forma a ter uma assimilação mais rápida e de fácil identificação.

Neste dia 15 de abril, então, nós, do blog Quadrinhos Pra Quem Gosta, gostaríamos de parabenizar todos os muitos e dedicados profissionais da arte do desenho, seja para fins narrativos ou mesmo meramente expressivos, pelo dia mundial do desenhista. A arte com a qual cada um de vocês preencheu nossas vidas tornou tudo em nós mais belo e gerou por si só dimensões de significado que muitas vezes não foram sequer imaginadas por seus autores. A vida construída a partir da arte nunca é fácil, a batalha pelo reconhecimento e valorização é árdua e duradoura, precisando muitas vezes ser travada continuamente, rompendo barreiras e conceitos previamente estabelecidos. Porém, foi nessa área que grandes homens imortalizaram seu legado para nossa espécie. Desde a pintura renascentista até a atual arte narrativa dos comerciais, o desenho foi uma grande ferramenta de mudança. Paradigmas, conceitos e até governos ruíram ou se erigiram a partir das imagens, e assim continuarão, enquanto durar nossa existência.

Vitor Cafaggi em destaque, autografando
edição de "Pequenos Heróis" na Rio Comicon 2010
Nos quadrinhos, grandes nomes ficaram marcados na história do gênero por suas contribuições. O próprio Eisner, que realizou alguns dos principais estudos acerca do cerne no qual a arte sequencial se baseia (termo, inclusive, o qual ele teve total autoria), é um forte exemplo disso, além de muitos outros mestres do traço, como os hábeis John Buscema e Jack Kirby, o despretensioso porém marcante Bill Waterson, os desinibidos Milo Manara e Guido Crepax, o imaginativo Jean Giraud (que já foi tema de matéria aqui no blog antes), o eficiente Milton Caniff, o realista Alex Ross, ou mesmo no campo brasileiro, no traço cheio de narrativas em sua estrutura do paraibano Mike Deodato Jr, a pureza do mineiro Vitor Cafaggi, o sensível e romântico paulistano Mário Cau, o peculiar e absorto carioca Lourenço Mutarelli, e os poéticos e gênios gêmeos, também de São Paulo, Fábio Moon e Gabriel Bá, entre tantos outros, sem contar o grande padrinho dos quadrinhos nacionais, que foi tema citado na última matéria do blog, o paulistano Maurício de Sousa.

Mário Cau, em frente a uma de suas histórias, cuja
narração é feita de forma linear porém dando liberdade
ao espectador de construir sua própria compreensão da obra

A todos os grandes companheiros de quadrinhos, deixo as mais sinceras congratulações e o desejo por um futuro cada vez melhor, com mais reconhecimento e mercado para suas grandes obras de arte, que tornam-se nossas também ao assumir um canto muitas vezes esquecido dentro de nossos corações, o campo do imaginário e da emoção. Se o ditado "uma imagem vale mais que mil palavras" tivesse qualquer porção de acertividade, através dos trabalhos de vocês pudemos ouvir suas almas cantarem as mais belas árias e atentar para as mais questionadoras exposições do mundo social em que vivemos. Porém, acredito que a palavra tenha igual valor à imagem e, portanto, gostaria também de deixar sinceros votos de alegria e realização para os autores de roteiros e peças escritas, que inundam nosso imaginário das imagens que pretenderam construir.

Grupo de quadrinistas da revista "Beleléu",
reunidos para desenhar suas histórias

Fica, então, um grande agradecimento a todos por suas colaborações singulares e de valia inestimável para a vida de cada um de seus espectadores e/ou "leitores". Parabéns pelo dia do desenhista a todos, e que a arte que os guia possa sempre render-lhes novas experiências tanto dentro quanto fora de vocês mesmos e para cada um de nós também. Parabéns!

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O Encontro de Dois Mestres

Por Gabriel Guimarães



Recentemente, chegou às bancas ao redor do Brasil inteiro a edição número 44 da Turma da Mônica Jovem, que representou a união das criações de dois dos grandes mestres na arte sequencial, o brasileiro Maurício de Sousa e o japonês Osamu Tezuka. Considerados padrinhos das histórias em quadrinhos de seus respectivos países pelo papel e importância adquirido por suas criações e dedicação profissional, a dupla já mereciam ter uma homenagem como essa há tempo até demais.
Edição número 43 da Turma
da Mônica Jovem, onde
o crossover começou

Amigos pessoais desde que se conheceram durante uma visita realizada por Maurício por convite da Fundação Japão, há décadas atrás, para que o autor brasileiro pudesse aprender um pouco mais sobre a cultura das crianças japonesas, a relação dos dois começou com um grande aperto de mãos. Tezuka foi um dos primeiros a receber Maurício no aeroporto, o que já era considerado uma grande honra na época, uma vez observada a importância do autor japonês para toda a cultura de desenhistas que surgia no país.

Originário da cidade de Takarazuka, Osamu conquistou o Japão com sua arte e seu desejo sincero de entreter ao mesmo tempo que proporcionar experiências únicas , tocantes e reflexivas, em cada uma de suas histórias. Com uma vida dedicada à arte, fosse em páginas impressas ou em filmes produzidos por seu estúdio de animação, Tezuka proporcionou ao seu país os pilares sobre os quais construir uma das indústrias de fantasia e ficção mais impactante do mundo. Tezuka era um deus para os quadrinistas japoneses, e seu reconhecimento era mundial. A disponibilidade oferecida pelo próprio autor para receber e acolher bem Maurício era um reflexo de seu alto caráter e dedicação ao meio. Apaixonado pela atuação em si, uma vez que sua cidade natal tinha um gigantesco teatro como um de seus principais pontos de referência local, Tezuka passava dias e noites trabalhando sem parar em suas obras, sem, por isso, deixar de comparecer e prestigiar outros mestres dos quadrinhos que conhecia.

Maurício e Osamu
A fim de conhecer um pouco também da produção brasileira de quadrinhos, Tezuka aceitou o convite da mesma Fundação Japão que levara Maurício às terras do Oriente para vir até o Brasil e conhecer seus colegas de profissão, um oceano além. No dia 29 de setembro de 1984, Tezuka chegou às terras brasileiras no aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Iniciada dois dias antes, no Museu de Artes de São Paulo (MASP), a exposição com a arte do mestre japonês atraía muitos dos seus admiradores, além de oferecer ao público um contato com o trabalho de muitos dos autores brasileiros que se destacavam na época. Durante a visita a esta exposição, no dia 30 de setembro, Tezuka pôde conhecer essa comunidade artística nacional, representada por nomes como Jayme Cortez (o blog já o homenageou aqui), Gedeone Malagola, Rodolfo Zalla, Naumin Aizen, filho do grande editor russo-brasileiro de quadrinhos Adolfo Aizen, dentre muitos outros honrados autores, além, é claro, do já companheiro Maurício. Segundo a Associação Brasileira de Desenhistas de Mangá e Ilustração (ABRAMI), Tezuka elogiou principalmente o trabalho de Cortez e de outro brasileiro cuja etnia nipônica era a mesma de Tezuka, o recentemente homenageado pela escola de desenho Impacto Quadrinhos no último Dia do Quadrinho Nacional, Julio Shimamoto.

Osamu e Maurício
A visita de Tezuka continuou, contando com outras muitas festividades para comemorar a presença ilustre do padrinho dos mangás, mas logo ele teve de voltar ao Japão, onde deu continuidade a seus incontáveis projetos. Apenas anos depois, agora novamente em viagem de Maurício à terra do Sol nascente, os amigos se reencontraram, em 1989, sob circunstâncias nada adequadas. Vitimado por um câncer, que poucos dias depois viria a tirar sua vida, Tezuka precisou organizar todo um esquema especial para encontrar com o mestre dos quadrinhos brasileiros e passar alguns conselhos de sua tão representativa vida para seu companheiro de arte sequencial. O arrependimento pela violência presente na maioria dos mangás que ganhava popularidade na época foi um dos assuntos comentados, além de pedidos pessoais para Maurício, como um maior aproveitamento da vida do brasileiro, para que não repetisse seu erro de exaurir sua vida apenas pelo trabalho, deixando em alguns momentos de lado sua família e vida pessoal. O padrinho dos quadrinhos brasileiros ouviu atenta e melancolicamente os desejos de seu amigo e soube que aquela seria sua última conversa com ele.

Imagem produzida por Maurício pouco após a morte de
seu grande amigo e companheiro de profissão, Osamu Tezuka
Ao chegar no Brasil, Maurício foi informado do falescimento do mangaká Osamu Tezuka, em 9 de fevereiro de 1989, quando decidiu produzir a seguinte imagem, em homenagem ao seu amigo. O mundo perdia um homem, mas a arte japonesa e a riqueza cultural mundial perdeu um de seus maiores e mais importantes autores, responsável por criações atemporais e consagradas, como "Astroboy", "Metrópolis", o jovem leão "Kimba", precursor da história do Rei Leão, além dos personagens "Black Jack", Safiri, de "A Princesa e o Cavaleiro", que estiveram presentes na mais recente história da turma jovem dos personagens de Maurício, numa forma de homenagem à parceria e amizade destes dois grandes mestres.

Abaixo, o vídeo de divulgação da primeira edição que continha essa história especial, realizada na loja Saraiva Mega Store, do Shopping Center Norte, em São Paulo, no dia 28 de fevereiro deste ano de 2012. Certamente, a história, centrada em torno da proteção da selva amazônica e da relação entre os personagens, originados de suas próprias histórias para se reunirem em um ponto comum, entrará para a lista fundamental de material a ser conferido dentre as publicações deste ano. Não deixem de conferir.


sexta-feira, 30 de março de 2012

Solanin - Ode Solene à Despedida da Inocência

Por Gabriel Guimarães


Inio Asano

Entre os anos de 2005 e 2006, o quadrinista japonês Inio Asano apresentou sua obra que viria a ter maior repercussão dentre suas criações. Centrada no rito de passagem para a vida adulta da jovem Meiko Inoue, a obra "Solanin" apresenta uma sensibilidade ímpar quanto às inseguranças do crescimento e aos anseios e batalhas pela realização de sonhos.

Ambientada no período pós-término de faculdade dos personagens, em Tóquio, ao mesmo tempo em que apresenta algumas cenas relacionadas ao tempo em que estes estudavam na faculdade de Tamagawa, onde se conheceram, a história apresenta um ritmo de leitura extremamente tranquilo e de fácil identificação. Perante o abismo do mistério que representa a vida adulta, Asano apresenta os questionamentos vividos pelos jovens japoneses que não querem apenas serem mais um em meio a um mundo mecanizado. A fim de fugir da rotina frustrante e dos constantes desentendimentos entre suas expectativas e a realidade, é que Meiko decide abandonar seu emprego numa firma para se dedicar a algo que nem mesmo ela sabe explicar o que é. A partir deste momento é que passamos a acompanhar a jornada dela e de seu namorado e companheiro de apartamento, Naruo Taneda.

Grupo tocando num dos ensaios da banda formada por
Taneda, Kato e Yamada
Observando as reações dessa atitude naqueles ao seu redor e em sua família, que é de uma província mais do interior do país, Meiko passa por um período de descobertas e redescobertas, onde encara todas as nuances do mundo em que vive, principalmente através do seu relacionamento amoroso. Taneda, o outro grande protagonista da história, trabalha como freelancer para uma empresa, realizando tratamento de imagens em trabalhos que serão veiculados para o grande público, mas igualmente, não possui qualquer paixão real pela atividade. Quando encara a realidade do pedido de demissão de Meiko, ele também inicia uma jornada de amadurescimento e busca por realização. Contando com o apoio invariável de seu círculo de amigos, formado pelo imaturo Kenichi Kato e sua namorada por insistência Ai Kotani, e do igualmente imaturo porém mais sério Jiro Yamada, mais conhecido pelo apelido "Billy", o casal passa por experiências marcantes na formação de seu caráter e na própria concepção da união dos dois, que já durava mais de seis anos.

Decidindo ir atrás do sonho principal do grupo, de formar uam banda e transformar o mundo de alguma forma através de sua música, o grupo passa a se reunir para praticar junto e começa a procurar oportunidades junto às grandes gravadoras, encarando, de forma inesperada, a mesma burocracia da qual a vida parecia encher-lhes o tempo e esvaziar-lhes de esperança. Em momentos de grande conflito psicológico, é possível ao leitor crescer junto com seus personagens, elemento o qual é peça essencial das grandes obras, independente da mídia em que é apresentada. Com muito humor, drama, romance e toques de nostalgia, "Solanin" ganha status de uma história que merece ser lida devido ao seu alto nível de sensibilidade sobre o assunto trabalhado. A fim de não estragar a leitura da obra para o leitor, o que de forma alguma pretendemos fazer no blog Quadrinhos Pra Quem Gosta, não revelaremos ou comentaremos sobre alguns excelentes momentos chave da história, entretanto, deixamos aqui nossa sincera e veemente recomendação pela leitura desse material. Publicado no Brasil no ano passado pela editora L&PM em dois volumes de pouco mais de 200 páginas cada, reunindo os 28 capítulos da história (o excelente trabalho recente que a editora L&PM vem realizando com as histórias em quadrinhos, diga-se de passagem, ainda será tema de matéria específica aqui no blog), o trabalho é surpreendentemente pouco conhecido no mercado ocidental, apesar de ter concorrido ao Prêmio Eisner, em 2009, por melhor edição de material estrangeiro publicado nos Estados Unidos.
Capa da versão do mangá lançado no Brasil
Pôster do filme no Japão


Adaptado para o cinema japonês em 2009, com a consagrada atriz Aoi Myiazaki no papel de Meiko, e sob a direção de Takahiro Miki, "Solanin" possui em si um caráter sublime. O primeiro trecho do filme pode ser conferido no site Dramacrazy, que pode ser acessado aqui. Curiosamente esquecido na lista do livro "1001 Comics You Must Read Before You Die", publicado ano passado pela editora Cassell Illustrated, que apesar de ser uma editora dos Estados Unidos, contou com a colaboração de Tatsuya  Seto, renomada crítica de quadrinhos no Japão, Chie Kutsuwada, entusiasta do mangá e graduando da Escola Real de Arte, em Londres, sem contar o próprio organizador do livro, o americano Paul Gravett, autor do livro "Mangá - Como o Jaão Reinventou os Quadrinhos", a obra de Inio Asano não merece ser relevada, figurando entre estas grandes recomendações com igual merecimento.

O mangá de Asano é, portanto, uma ode ao adeus para a inocência, da fase da vida em que tomamos as principais decisões sobre nossos sonhos e do que estamos dispostos a fazer para ir atrás deles. Tanto na história, quanto em suma, "Solanin" é uma despedida, melodia com a qual a vida segue seu caminho e transforma as pessoas, das formas mais inesperadas possíveis. Simplesmente inesquecível e arrebatadoramente tocante.


NOTA GERAL: 5 ESTRELAS.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Quando o Humor Perdeu a Graça

Por Gabriel Guimarães

Chico Anysio
Em menos de uma semana, a cultura popular brasileira perdeu dois de seus maiores mestres. Donos de habilidade ímpar sobre fazer os outros rirem, Chico Anysio e Millôr Fernandes concluíram sua passagem por esse mundo deixando marcas em todos aqueles que tiveram o prazer de conhecê-los ou assistirem às suas apresentações, independente da plataforma, voltadas para o humor puro e simples.


Nascidos em uma época de grande potencial para o humor político, ambos iniciaram suas carreiras, porém, com dedicação a campos mais tradicionais, como o locutor de jornal no caso de Chico e assistente de produção da revista "O Cruzeiro", no caso de Millôr. A notoriedade começou a ganhar forma depois na vida dos dois humoristas. Escrevendo sob o pseudônimo 'Notlim', Fernandes passou a assumir posições mais distinguidas dentro da hierarquia editorial, assuminando a direção da revista "A Cigarra", onde ganhara um concurso público de contos. Pouco depois, tornou-se o responsável também pela renomada revista "O Guri", publicada pelo editor Frederico Chateubriand no começo da década de 1940.  Chico, por outro lado, começou participando de concursos para locutor de rádio junto de sua irmã, ainda aos seis anos, alcançando, porém, aos 17 anos, sua melhor colocação, em segundo lugar, atrás apenas de um outro jovem que começava a mostrar seu potencial para o manejo social que viria a consagrá-lo em absoluto no futuro, Sílvio Santos. Trabalhando em vários setores da Rádio Guanabara, Chico começou a se arriscar escrevendo diálogos para peças promocionais, e em 1957, estreou pela primeira vez na frente das telas, no programa "Noite de Gala".

Millôr em seu escritório. A importância dos quadrinhos em sua
vida foi um dos fatores que o cartunista mais destacou ao longo de sua vida

"Chico City" foi um dos programas mais populares feito por
Chico Anysio, que estreou em 1973 e durou até 1980
Antes, porém, de Chico alcançar o estrelato televisivo, seu companheiro de campo Millôr se consagrou enquanto profissional dos mais diversos meios de comunicação, a partir de seu empenho, quando aprendeu, por exemplo, a ser tradutor a partir de seus próprios conhecimentos, sem orientação de outrem. Ao mesmo tempo, escreveu peças, artigos e produziu caricaturas para as publicações da época, chegando, ainda aos 18 anos, a participar da Exposição Internacional do Museu da Caricatura de Buenos Aires. Curiosamente, no mesmo ano em que o rosto de Chico Anysio se tornava conhecido na televisão, Millôr recebeu sua primeira exposição particular no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Chico mostrou sua estrela nas participações iniciais e conseguiu seu próprio show para estrelar em 1959, sob o nome "Só Tem Tantã", que mais tarde viria a ser chamado de "Chico Anysio Show". Vale destacar também que em 1972, Chico Anysio chegou a ser publicado em quadrinhos também, a partir da alta popularidade de alguns de seus personagens.

Após uma série de prêmios, ambos estes grandes mestres do humor se consagraram como figuras facilmente reconhecidas e respeitadas no meio social, atingindo leitores de todas as camadas sócio-econômicas da população. Chico, através de seus cerca de 453 personagens e Millôr, através de seu instigante senso crítico, se tornaram ícones de uma geração carente da discussão suave e ponderada sobre os conflitos experimentados pela sociedade. Conforme Anysio destacou, em uma de suas últimas entrevistas, "o humor é tudo, até engraçado." Com uma frase simples como essa, mas poderosa em termos de conteúdo, todo o produto da vida destes dois mestre na arte do humor se torna semente para a transformação do mundo em um ambiente mais agradável para todos. O riso levado ao máximo de pessoas possível jamais será esquecido, e os livros, programas, artigos, entrevistas, entre tantas outras criações maravilhosas feitas por ambos não perderão sua validade nem seu valor.

Um dos muitos livros de Millôr,
cujo caráter político sempre esteve
em grande evidência
Usando do humor como ferramenta de conscientização social e de suas próprias histórias de vida como exemplo da superação de dificuldades, uma vez que Millôr perdeu seus pais muito novo ainda, quando foi morar com seus tios, aos 12 anos, e Chico veio para o Rio de Janeiro junto com sua família da cidade de Maranguape, do estado do Ceará, à procura de melhores condições de vida num centro urbano, estes dois mestres escreveram em linhas fortes suas mensagens e, conforme Fernandes destacou "viver é desenhar sem borracha." Ambos encararam grandes riscos em cada decisão que tomaram ao longo do caminho, e voltar atrás de algumas delas é um fato que nem sempre foi possível. Portanto, a consolidação de suas histórias de vida vitoriosas é reflexo do esforço e talento de ambos para com as áreas em que se envolveram. Obstáculos foram superados, erros foram cometidos, mas no final, tudo correu bem.

Hoje, consagramos a memória de mais do que estes dois profissionais modelo, mas sim de pessoas inestimáveis pelo seu desejo de ir além do que oferecido de bandeja. Perdemos mestres na arte de viver bem, mas ficamos com suas lições de vida e seus grandes bordões imortalizados em nossa memória. Citando novamente Chico, "a frase 'Todos são substituíveis' não se aplica aos humoristas, porque todos os humoristas são insubstituíveis. Jamais teremos outro Costinha, jamais teremos outro Oscarito, jamais teremos outro Mussum", complemento, sem hesitar, que jamais teremos outro Chico Anysio e jamais teremos outro Millôr Fernandes também. Obrigado por tudo e descansem em paz e em alegria, tamanha a que os dois causaram a seus grandes públicos.

O jornal "Correio Braziliense" apresentou um histórico da carreira de Chico Anysio muito interessante que pode ser conferido aqui, e o jornal "O Globo", onde Millôr mais consagrou seu material, também prestou uma merecida homenagem ao cartunista, que pode ser vista aqui também.

quarta-feira, 21 de março de 2012

A Poesia nos Quadrinhos

Por Gabriel Guimarães 


Seja no trovadorismo, no romantismo ou mesmo na pós-modernidade, a poesia sempre esteve presente na literatura. Por rima, tom lúdico e melódico, ou mesmo uma estética atípica e instigante, a essência da poesia sempre esteve no desejo mais profundo do ser humano, de almejar sonhos grandiosos e inspirados. Ao lidar com temas relativos ao cerne das emoções, passando pelas grandes aventuras e intensas paixões, esse gênero literário se consolidou como um dos mais belos e dos mais importantes para a complitude de uma vida textual para o leitor.

Mario Cau autografando
uma das edições de
"Nós - Dream Sequence Revisited"
Esteja presente nas cartas de amor do escritor Mark Twain para sua esposa Olivia Langdon, ou mesmo nas canções inesquecíveis do gênero musical da Bossa Nova, que se consolidou como melodia na década de 1960 na cidade do Rio de Janeiro, o amor tem sido, talvez, o grande desencadeador de poesias, e isso também pode ser encontrado nos quadrinhos. Histórias como "Meu Coração, Não Sei Por Quê", dos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, e a edição especial "Nós - Dream Sequence Revisited", do talentoso quadrinista Mario Cau (cujo lançamento na Rio Comicon de 2010 foi comentado aqui no blog), são alguns exemplos disso. Apesar de apresentarem tramas diferentes, ambas dançam com as emoções do leitor, trazendo-o para dentro do universo dos personagens e tornando-o parte fundamental da história, como o responsável por dar vida aos traços de nanquim em uma simples folha em branco. Brincando com a cor, inclusive, é que Cau explicita o vínculo de seu protagonista com seu amor, e brincando com a densidade da arte-final, por sua vez, os gêmeos também convidam o leitor a considerar o amor em meio à fantasia que compõe o mundo de sua história.

Representação do próprio Norman Rockwell sobre
a produção de sua arte
Entretanto, não é apenas ao romance amoroso que se resume a poesia. Seja por um pequeno detalhe em meio ao turbilhão de informações ao redor da vida social nos dias de hoje ou mesmo por uma reflexão momentânea e inesperada acerca de memórias, estamos sempre sob o efeito daquilo que esse gênero mais se preenche: sentimento. Praticamente tangível na sensibilidade do trabalho de Will Eisner quando este expõe a vida cotidiana nas grandes metrópoles e as relações entre as construções e as pessoas, que pode ser visto com grande perspicácia, por exemplo, em sua obra "O Edifício", a poesia pode estar presente tanto na nossa relação com o exterior a nós, quanto em momentos de intimidade e aconchego, como é possível observar nas ilustrações familiares do artista que tornou marcante visualmente o âmbito familiar, Norman Rockwell.


A semelhança é nítida entre Neil Gaiman e o protagonista de sua grande história
Igualmente importante é destacar a porta que a poesia nos abre para a fantasia do imaginário. Desprendido de sensos e consensos, em poucas linhas, retas ou tortas, o gênero pode nos levar muito além dos limites da visão e ampliar, dessa forma, nossas capacidades sensoriais de forma primorosa. Poucos se comparam nesse quesito ao do roteirista britânico Neil Gaiman, com sua obra máxima "Sandman", cuja abordagem e propriedades limitam-se apenas por aquilo que nomeia sua própria forma de apresentação: os sonhos. Lógicos ou não, agradáveis ou aterrorizantes, Gaiman realiza um mergulho na fonte da humanidade de seus personagens, atraindo para as páginas de suas histórias todas as características fundamentais de sua composição, desde seus desejos até suas falhas, suas glórias e decepções. Além dessa obra, Gaiman já explorou seu potencial narrativo de diversas outras maneiras, sem jamais, porém, abandonar sua mirabolante paixão pela fantasia. Obras como "Stardust" e "Coraline" são grandes exemplos disso.

Cena do trabalho de George Pratt sobre
as memórias da Primeira Guerra Mundial
Em outro aspecto passível da formação da poesia, encontra-se um estilo quase difícil de compreender sua exata conexão com o tema, representado na epopéia, grande formato das poesias épicas, em geral, cujo tema é relacionado a grandes aventuras épicas e envoltas em aspectos morais. Possível de encontrar em recentes adaptações da literatura para os quadrinhos, como o clássico "A Odisséia", de Homero, adaptado por Christophe Lemoine e Miguel Lalor Imbiriba, publicado recentemente numa excelente fase da editora L&PM aqui no Brasil, a partir de apoio da Unesco, ou mesmo em histórias sobre redenção e conflito durante as grandes guerras, como é o caso da edição "Ás Inimigo - Um Poema de Guerra", do quadrinista George Pratt, a poesia épica também oferece grandes oportunidades de enriquecimento pessoal para seus leitores.


Apesar da extensão para a poesia além das palavras feita aqui, o núcleo desse gênero que tanto nos toca vai além de determinados suportes, parando apenas onde nossa percepção e imaginação nos permite associar. Seja no leve assobio dos pássaros ou mesmo na suavidade de um beijo, a poesia se faz presente em cada dia das nossas vidas, e jamais podemos tampar nossos ouvidos ao seu maravilhoso chamado para, mais uma vez, vivermos intensamente tudo aquilo que ela tem a nos oferecer, ainda que seja apenas eterno enquanto dure.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Novo Selo de Quadrinhos Independentes

Por Gabriel Guimarães


Iniciado a partir da paixão pelo gênero heróico das histórias em quadrinhos, o site Meu Herói, do aficionado pela arte sequencial Elenildo Lopes, foi crescendo em termos de estrutura desde 2007, mas apenas consolidando-se em 2008. Partindo do desejo de Lopes de incentivar a produção brasileira de histórias em quadrinhos, o site foi construindo um banco de matérias bastante interessante, indo desde entrevistas com profissionais do meio a áreas dedicadas à exposição de trabalhos dos aspirantes do mercado.

Fornecendo, dessa forma, um ponto de encontro para aqueles com verdadeira paixão pelo meio, Lopes sempre manteve em mente a pretensão de atingir públicos cada vez maiores e, portanto, passou a investir na expansão de abordagem de seu portal. Criando setores que oferecessem conteúdo audiovisual das séries animadas japonesas e recomendassem jogos virtuais com temática baseada nos quadrinhos, o site ampliou sua margem de apelo, e permitiu a uma leva maior de internautas aproveitarem do seu vasto conteúdo postado. Entretanto, a marca do site foi se fortalecendo em um setor especificamente: a luta pela valorização da produção nacional de arte sequencial, em especial junto ao movimento DQB (Democracia ao Quadrinho Brasileiro).

Participando ativamente dos debates acerca da democracia na nona arte, Meu Herói sempre procurou disponibilizar um ambiente de liberdade de expressão e de colaboração entre o público e os profissionais do ramo, com uma área em seu site, inclusive, destinada aos depoimentos dos afetados pela questão do mercado editorial brasileiro. Com esse desejo em mente, é que Lopes decidiu que é novamente momento de expandir a marca de seu site para outro setor dos quadrinhos, anunciando, há poucos dias, que está previsto para o primeiro semestre de 2012 a publicação da primeira revista de seu novo selo de quadrinhos independentes.

A HQ "Capitão R.E.D." promete
seguir na linha do personagem
Capitão Nascimento, do filme
"Tropa de Elite"
Utilizando do mesmo nome de seu site, que está em etapa de registro junto ao INPI (Instituto Nacional de Propriedade Industrial), Lopes detalhou um pouco desse seu primeiro projeto. Trata-se do herói nacional "Capitão R.E.D.", que representa também o título da edição. Escrita e conceituada pelo próprio Elenildo Lopes e contando com os desenhos de Antonio Lima, mais conhecido por seu pseudônimo A-Lima, a publicação será feita em formato americano, com 35 páginas, capa colorida e miolo preto e branco, com uma versão colorida digitalmente para os dispositivos eletrônicos de leitura. Produzida com investimento dos próprios artistas, o retorno com este material é que deve ditar o futuro das publicações no selo Meu Herói. Uma vez que possui uma grande rede social de admiradores da arte sequencial, da qual fazem parte profissionais do meio e fãs, a repercussão da expansão deste novo selo de quadrinhos independentes brasileiros pode render grandes frutos, tanto para seus produtores, quanto para o público, que terá mais oportunidade de ler material produzido dentro do país, algo que nem sempre é possível devido a ampla concorrência nas bancas de revista. Uma vez que a tiragem da primeira edição será limitada, aos interessados fica a recomendação para entrar em contato com o autor por meio do próprio site do Meu Herói, cujo link pode ser encontrado aqui. Outra forma de conhecer um pouco mais do projeto de Elenildo e conferir as matérias de qualidade produzidas por seus muitos e talentosos colaboradores é através da página do site no Facebook, que pode ser vista aqui.

Como ativo batalhador dos direitos e valor dos quadrinistas brasileiros, fica aqui o mais sincero desejo de sucesso na nova empreitada do pessoal do site Meu Herói, e a esperança de que esse seja apenas o primeiro passo de uma jornada de grande reconhecimento para todos os profissionais envolvidos. Ao mesmo tempo, fica também as congratulações pelo trabalho de qualidade realizado no site e junto ao público nas redes sociais para toda a equipe. Que o futuro lhes reserve cada vez mais sucesso!

sábado, 10 de março de 2012

Jean Giraud e a Lenda de Moebius

Por Gabriel Guimarães


Em 1954, ao ingressar para a École des Arts Apliqués, em Paris, o ainda jovem Jean Giraud iniciou sua trajetória rumo a uma vida marcada pelo extraordinário. Fosse pelas estruturas colossais e detalhadamente compostas, os excêntricos personagens, as tramas megalomaníacas ou mesmo a premiada e internacionalmente reconhecida carreira, Giraud marcou seu nome na história da arte sequencial, entretanto, não é pelo nome que constava em sua carteira de identidade que o público mais conheceu seu trabalho. Sob o pseudônimo de Moebius, os trabalhos experimentais de ficção científica de Giraud conquistou o mundo, e arrebatou o mundo dos quadrinhos em um turbilhão de cores e movimentos inovadores.

Quadrinho de uma das histórias do "Sargento Blueberry",
publicado em 1970
Publicando pela primeira vez em um períodico na revista "Far West", na história entitulada "Frank et Jeremie", em 1956, Giraud, ainda com 18 anos de idade, entrou no mercado de banda desenhada de forma desconhecida. Foi apenas a partir de 1963, desenhando os roteiros de Jean-Michel Charlier para um personagem que viria a se tornar referência no estudo de evolução de personagens, o "Tenente Blueberry", que foi publicado até os anos 1980 pela dupla e, posteriormente, sob a autoria única de Giraud até 2005, que o artista francês começou a chamar a atenção dos holofotes. Aproveitando da atenção sobre seu trabalho, lança, em 1973, sua primeira fábula de ficção científica e fantasia, "O Desvio". Nos anos seguintes, começa a lançar uma série de histórias que começam a montar a estrutura na qual sua carreira foi se fortalecendo, com "O Homem é Bom?", em 1974, e "O Pesadelo Branco", em 1975.

Cena de uma das histórias de Moebius,
onde o grande destaque fica por conta do visual
industrial e altamente avançado da metrópole
Em 1976, porém, é que o pseudônimo de Giraud começa a ser citado ao redor do mundo todo, com sua história "Arzach", publicada mediante pedido da revista "Metal Hurlant". Publicado recentemente de forma extremamente bela pela editora Nemo aqui no Brasil, o material expôs uma qualidade de traço inigualável para os quadrinhos da época, o que levou a revista a pedir novo material para o artista, encontrado em "Le Garage Hermétique". Moebius, então, começa a apresentar um ritmo de produção impressionante, realizando ilustrações para pôsteres e cartazes publicitários, além de prestar serviço ao amigo roteirista de quadrinhos e produtor cinematográfico Alejandro Jodorowsky, desenhando conceitos visuais para o projeto de adaptação que Jodorowsky tinha, de levar o conto "Duna", escrito em 1965 pelo escritor Frank Herbert, para a sétima arte. Apesar de esse trabalho não ter se concretizado, sendo apenas produzido em 1984 pelo diretor David Lynch, Moebius colaborou com a concepção visual de diversas obras cinematográficas, como "Alien", em 1979, "TRON", em 1982, "O Segredo do Abismo", em 1989, "O Quinto Elemento", em 1997, entre muitos outros.

Cena de "O Quinto Elemento", em que é bastante clara
a influência do estilo de Moebius
Com seus cenários futurísticos e repletos de elementos de fantasia e ciência, e seus personagens, em geral, marcados pelo ceticismo e cansados do fardo de viverem em uma sociedade cuja essência é corrupta, Moebius criou obras de grande qualidade visual e narrativa, como a série "Incal", onde conta as histórias do detetive particular atrapalhado John Difool em sua desventura ao redor de um mundo de moral nebulosa e personalidade questionável pela segurança de um artefato transcendental de poderio inimaginável.



Ilustração de Escher, cujo estilo detalhado
se assemelha ao de Moebius
Moebius se tornou sinônimo de um trabalho minuciosamente detalhado e construtivamente desafiador. Com elementos visuais que parecem remeter à qualidade impressionante do trabalho do artista gráfico holandês Maurits Cornelis Escher, referência na arquitetura paradoxa, o trabalho deste quadrinista francês jamais será esquecido por seu valor para a arte sequencial. O site americano Paleofuture publicou, recentemente, um pequenos documentário sobre a carreira deste grande artista, produzido pela rede BBC, que vale a pena ser conferido, ainda que esteja apenas em inglês. A quem interessar, a matéria em questão pode ser conferida aqui.

Hoje, porém, o mundo perdeu um pouco de seu brilho artístico, quando foi noticiado nos veículos de comunicação internacional que Jean Giraud falecera, aos 73 anos de idade, em consequência de uma luta contra um câncer, segundo relatou o editor do artista, em nota da editora Dargaud, conforme informou o portal Reuters de notícias para o Brasil. Tendo sido um dos grandes nomes da indústria dos quadrinhos em que a já mencionado editora Nemo investiu para conquistar o público leitor da nona arte, Moebius deve continuar em evidência no mercado editorial brasileiro, dando, assim, a oportunidade ao público de acompanhar a carreira célebre de um dos grandes artistas a marcar seu nome na história do gênero. É com um pesar que essa matéria se consolida, nas lágrimas de um meio que perdeu um de seus grandes provedores de qualidade. Conforme o estudioso dos quadrinhos brasileiro, Carlos Patati, ressaltou, no começo do ano, em seu curso ministrado no Centro Cultural da Caixa Econômica, no Centro do Rio de Janeiro (que pode ser conferido aqui, aqui, aqui e aqui), a qualidade de Moebius é algo único, e a densidade de seu trabalho enquanto forma de narrativa um exemplo de como esse recurso pode ser trabalhado. Os pesquisadores Goida e André Kleinert, na última e um pouco carente edição da "Enciclópédia dos Quadrinhos", também destacam a carreira deste profissional como algo que merece ser relevado pela sua importância e alta produtividade, e o professor e referência do estudo de quadrinhos no Brasil, Álvaro de Moya, em seu livro "Vapt-Vupt", aponta a mistura entre a fantasia e realidade, a mística e o delírio nas obras deste grande artista francês, e o quanto elas são ferramentas importantes para a compreensão do potencial das histórias em quadrinhos enquanto recurso expressivo.

Os dois volumes publicados pela editora Nemo, que trouxe
o grande mestre dos quadrinhos franceses de novo para a frente
dos holofotes no mercado editorial brasileiro
Portanto, o papel desempenhado por Giraud, e posteriormente por Moebius, é de suma importância para a história dos quadrinhos como meio de comunicação, e seu trabalho jamais poderá ser ignorado enquanto instrumento de composição ficcional e de potencial representativo do meio. Os quadrinhos perdem mais um de seus grandes pilares, e nos resta absorver o que pudermos das obras deixadas por esse mestre para que possamos dar continuidade à sua jornada de valorização devida para a arte sequencial.