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sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Entrevista: Emerson Lopes

Por Gabriel Guimarães

 

O desenhista Emerson Lopes começou sua carreira ainda muito novo na indústria de animação brasileira, porém, após anos de uma jornada bem sucedida no meio, tendo trabalhado em grandes projetos de destaque nacional, ele vem procurando criar seu próprio espaço em outro segmento do mercado visual, as histórias em quadrinhos. Pai do personagem Alfredo e do pequeno Arthur, Emerson tem participado de muitas publicações nos últimos anos e sua produção na arte sequencial está crescendo exponencialmente, tendo reunido recentemente pela primeira vez as tirinhas de seu blog (o qual pode ser acessado aqui) em um livreto impresso pela editora Estronho. Mesmo em meio a esse momento muito ativo, ele se mostrou extremamente solícito para nos contar um pouco mais acerca de sua história de vida e suas considerações a partir de experiências que viveu no mercado editorial brasileiro.

QUADRINHOS PRA QUEM GOSTA - Emerson, como foi, de fato, seu ingresso na indústria da animação? Você se lembra de qual foi o primeiro projeto no qual teve seu nome creditado? 

Emerson Lopes - Comecei a trabalhar com animação em 1997, no Estúdio Alexandre Martins, em São Gonçalo. Descobri a existência do estúdio através de um amigo do ramo e eu, curioso, logo liguei para o Alexandre em pessoa e marquei uma entrevista. Não demorou para que eu me tornasse estagiário lá, onde fiquei por uns dois anos. Foi onde conheci os princípios básicos do que era a produção de desenhos animados. Quanto ao meu primeiro trabalho na área onde tive meu nome creditado, se bem me lembro, foi um curta-metragem deste mesmo estúdio chamado “Perrengue nas Alturas”.
Em entrevistas anteriores, você disse que, quando era mais jovem, chegou a começar a faculdade, mas acabou precisando trancar o curso para poder se dedicar ao trabalho com a indústria de animação. O que o levou a essa decisão?

Eu estudei por um ano na Escola de Belas Artes da UFRJ, e nesse meio tempo ingressei num estúdio de animação onde precisavam de mim em tempo integral. Como os horários não eram compatíveis, não tive outra opção. Mas pretendo retornar em outro curso num futuro próximo.
 
De lá para cá, você construiu uma carreira sólida, trabalhando em muitas animações que tiveram destaque por todo Brasil, como “Peixonauta”, “Guerreiros da Amazônia” e “Xuxinha e Guto Contra os Monstros do Espaço”, ainda assim, em 2011, quando você criou seu próprio personagem, “Alfredo, o Vampiro”, você o inseriu no universo das histórias em quadrinhos antes do que no da animação. Você poderia nos contar por que escolheu o formato de quadrinhos para introduzir sua criação ao público?

Em termos práticos, eu poderia dizer que a produção autoral de quadrinhos é algo bem mais intimista e pessoal, sem falar que a veiculação do trabalho é algo menos complexo. Mas, na verdade, o projeto do que veio a se tornar a série do "Alfredo, o Vampiro" sempre foi pensado pra ser inicialmente em quadrinhos. Desde muito antes de sua criação, eu tinha a ideia de criar uma tirinha. Depois de perceber o alvoroço em torno do livro "MSP+50", do qual participei, quis criar algum tipo de trabalho que fosse uma espécie de referencial para a minha produção autoral de quadrinhos. O momento era propício. Então, juntei essas vontades, pensei, pesquisei, rabisquei, testei, escrevi, e finalmente estreei a tirinha do Alfredo na internet. 

Sua ligação com as histórias em quadrinhos surgiu em que momento de sua vida? Como a arte sequencial te impactou, uma vez que você teve contato com ela?

Os quadrinhos existem em minha vida desde que me entendo por gente. Praticamente aprendi a ler com eles. Começando com os gibis da Disney, Maurício de Sousa, passando pelos saudosos quadrinhos dos Trapalhões e Spectreman dos anos 80, até os heróis da Marvel e DC, entre outros. Enfim, essa mídia sempre esteve presente em minha vida, me maravilhando e fazendo rir, chorar, pensar e viajar com seus milhares de universos, heróis e aventuras. E, como sempre gostei de desenhar, desde moleque criava os meus próprios personagens e histórias.


As tirinhas protagonizadas pelo “Alfredo”, publicadas de forma regular no seu blog, apresentam um humor que une elementos do relacionamento adulto com personagens lúdicos e carismáticos do universo infantil. Como foi a experiência de criar um personagem que se diferenciava dos demais no quadrinho brasileiro?

Enquanto estava pensando em quê, de fato, seria o Alfredo, não tinha a intenção de fazer algo “diferente” ou “revolucionário”. Queria me desafiar a criar uma historia de humor leve, nem muito ingênua nem muito adulta, e com um personagem que fosse simpático ao leitor. Eu tinha uma idéia básica, um cara atrapalhado e que não se dava bem com as garotas. Somei a isso algumas influências de artistas que eu admiro, minhas próprias experiências de vida e procurei um caminho que queria seguir. Curiosamente, a ideia do Alfredo ser um vampiro surgiu praticamente na reta final desse processo.


Piteco desenhado por Emerson
Você participou do trabalho de revitalização de personagens infantis em sua versão jovem com a “Luluzinha teen”, e auxiliou na produção de animações com os personagens clássicos de Maurício de Sousa no filme “Turma da Mônica – Uma Aventura no Tempo”. Quais são as diferenças entre trabalhar com personagens criados por outros autores e trabalhar com os seus próprios? Quais são os prós e contras desses dois casos?

Basicamente, quando se trabalha com personagens de outros autores, você pode se divertir mais com eles, e se acostuma a trabalhar com características diferentes das que você geralmente cria, o que sempre é bom - profissionalmente falando. Mas, por outro lado, há regras criadas para esses personagens que você precisa respeitar. 

Quando se trabalha com criações 100% suas, a liberdade já é completa, e você não tem limites para o seu trabalho, além daqueles a que você mesmo se impõe. Só que nessa situação, claro, o trabalho também é todo seu.

Em 2012, você participou de uma atividade pedagógica na Escola Municipal João de Camargo, em São Cristóvão, onde os alunos interpretaram algumas de suas tirinhas com temática ecológica e você, depois, palestrou para todo o colégio no aniversário da instituição. O que essa experiência representou para você?

Foto de Emerson reunido com a turma da professor Maria Fernanda
Foi uma experiência muito legal proporcionada pela professora de Artes Cênicas, Maria Fernanda Lamim. Ela propôs o exercício de encenar minhas tirinhas aos seus alunos, e me convidou para assistir e responder as perguntas das crianças em sala de aula. Foi muito gratificante poder satisfazer a curiosidade dos pequenos e perceber o fascínio que eles tem nesse universo. Sinceramente, me senti o Mauricio de Sousa naquele momento... (risos)

Como era aniversário da instituição, também me convidaram a dizer algumas palavras na solenidade que se seguiu. Comentei brevemente sobre a importância que a leitura poderia ter na vida deles e também um pouco sobre o meio ambiente, que era a temática da festa naquele ano. Não sou muito bom em falar em publico, mas me disseram que fui bem... (risos)

Você também expôs, entre março e abril de 2013, seu trabalho na Bedeteca de Beja, em Portugal. Como foi isso? Há muita diferença entre a forma como o artista profissional é encarado em Portugal e aqui no Brasil?

O convite para expor em Portugal veio de um bate-papo com Paulo Monteiro, diretor da Bedeteca de Beja. Foi uma grande felicidade para mim poder ter meu trabalho reconhecido por leitores de outro país, e mais ainda porque tive a chance de visitar a cidade antes da exposição e conhecer o Paulo, que se tornou um grande amigo, tendo feito, inclusive, o prefácio do livro do Alfredo.

Foto do passeio de seu personagem por Portugal

Com relação as histórias em quadrinhos em Portugal (lá chamadas de BD, sigla para Banda Desenhada), apesar das limitações industriais, senti um respeito maior dedicado aos autores, a exemplo do que ocorre em países como a França. O Festival internacional de Banda Desenhada de Beja é referência na área no país.

Você é um artista premiado tanto em categorias ligadas à propaganda e publicidade (13º Prêmio de Propaganda O Globo, por campanha feita pela agência PS 10 para a Hiunday em 2010), quanto em produções na arte sequencial (Troféu do 23º HQMix por Melhor Publicação Infanto-Juvenil, com o álbum “Pequenos Heróis”, no qual fez uma das histórias, em 2011). O que podemos esperar de conteúdo novo saindo no futuro próximo?

Fotos do primeiro livro de tirinhas compiladas
do "Alfredo, o Vampiro" (disponível para compra por este link)
Por enquanto, meu principal projeto é cuidar de meu filho, que nasceu esse ano... (risos)

Mas, falando especificamente de quadrinhos, se tudo correr bem, pretendo lançar um segundo livro de tirinhas do "Alfredo, o Vampiro" no ano que vem e uma HQ do personagem, com histórias mais longas, na sequência.

Tenho ainda outros projetos, como a série "Pequenas Coisas", que no momento conta só com duas páginas (disponíveis em meu site), e que está em stand-by por falta de tempo para me dedicar a ela como ela precisa. Mas pretendo retoma-la num futuro próximo. Há outros projetos além desse, mas é melhor deixar pra falar a respeito quando tiver algo pra mostrar. (risos)

Para finalizar, queremos lhe desejar muito sucesso com seu personagem, parabeniza-lo pelo seu filho, e garantir que estamos sempre atentos aos passos dados por talentosos profissionais do mercado editorial brasileiro de quadrinhos como você. Foi um imenso prazer conversar contigo e agradecemos mais uma vez pela disponibilidade.

Muito obrigado! Quem faz quadrinhos no Brasil sabe o quanto são importantes veículos como este para não só mostrar nossos trabalhos ao público, mas também ajudar a reforçar o valor desta arte que tanto amamos e que é tão pouco reconhecida em nosso país. Um grande abraço e, sempre que precisarem, estamos aí!

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Entrevista: Flávio Teixeira de Jesus

Por Gabriel Guimarães


Ao longo de mais de 23 anos, o roteirista Flávio Teixeira de Jesus tem desempenhado um papel de grande destaque no cenário brasileiro de histórias em quadrinhos. Responsável por uma grande quantidade de estórias publicadas nas revistas produzidas pelos estúdios MSP, desde aquelas da turma da Mônica até as peripécias do jovial Rolo ou as aventuras do fantasma Penadinho, Flávio tem ajudado a preencher sonhos e brincadeiras de leitores brasileiros de todas as idades.
 
Com um bom humor que é marca registrada de sua personalidade, Flávio inaugurou em 2011 seu próprio blog, o Aquarium Nerd, onde contou algumas de suas experiências na indústria de quadrinhos, com direito a fotos dos bastidores da construção do primeiro Parque da Mônica, em São Paulo. Mais presente nas redes sociais como Facebook e Twitter, porém, ele se tornou figura ilustre e sempre presente na timeline daqueles que acompanham as novidades da arte sequencial, com informações recém saídas na mídia e montagens de grande poder humorístico. A quem tiver interesse em segui-lo nestas duas redes, seu perfil pode ser acessado aqui e aqui, respectivamente.

QUADRINHOS PRA QUEM GOSTA - Qual foi seu primeiro contato com as histórias em quadrinhos? Qual o papel que elas tiveram na sua formação?

 
Flávio Teixeira de Jesus - Acredito que o meu primeiro contato com quadrinhos foi realmente com a própria Turma da Mônica, no jornal "Folhinha de São Paulo". Ali, eu via as historinhas dos personagens de Maurício e aquilo foi me instigando até o ponto de começar a pedir cadernos de desenho pros meus pais. Uma vez em mãos, eu não conseguia parar mais de desenhar, criar histórias. Eu digo que toda criança desenha mas, em algum ponto da sua vida, muitas acabam parando, se interessando por outras coisas. Quem não para, começa a desenhar em papel de pão, na parte de trás dos blocos de nota fiscal do pai, entre muitas outras possibilidades. Ou seja, ainda que isso não seja necessariamente determinante, acaba proporcionando grandes chances de a criança vir a se tornar artista de quadrinhos no futuro. (risos)
 
A Folhinha de São Paulo me instigou tanto na minha formação que, em 1975, quando ainda tinha 7 anos de idade (curiosamente a idade dos personagens que tanto me fascinava, olha só), resolvi fazer um desenho pra uma sessão chamada "FUTURO ARTISTA". Era uma historinha de 4 quadrinhos de um personagem meu, chamado Pirata Azarado. Mal sabia eu que, 15 anos depois, eu seria um artista da turma da Mônica.
 
Você lembra em que momento da sua vida você tomou a decisão de ser roteirista de quadrinhos e o que o levou a isso? Se sim, qual foi?

Na verdade, eu sempre quis ser desenhista, mas sempre usei minha criatividade criando histórias, personagens, jogos... Só não sabia que existia uma profissão específica para essa etapa de criação, chamada "roteirista". Eu comecei trabalhando com desenhos de estampas pra camisetas, depois fui para um grande estúdio de animação, fazendo clean-up e storyboard. Até então, não trabalhei em nada relativo aos roteiros. Com o Plano Collor, entretanto, fui mandado embora do emprego que tinha na época, e um grande amigo meu, Marcos Félix, me indicou para ir fazer um teste na Mauricio de Sousa Produções, pois achava que eu tinha bastante criatividade e lá seria o melhor lugar para mim. Segui o seu conselho, mas tentei a área de animação do MSP. O Kanton, outro profissional que trabalhava lá, viu meu material e falou que eu devia tentar me candidatar para o setor de roteiro. E assim eu fiz. Preparei várias páginas e um dia o Mauricio em pessoa me chamou e lançou o desafio de fazer 60 paginas aprovadas por mês. Eu topei e, conforme mais eu ia criando, mais feliz ficava, pois tinha encontrado meu propósito. Era isso que eu queria desde o começo, mas não sabia o nome: Roteiro. Eu me encontrei na profissão e me sinto, hoje, um grande privilegiado.
 
Quando tomou essa decisão profissional, encontrou alguma resistência (familiar, dos amigos, de uma namorada, de si mesmo...)?
 
Na verdade não. Meus pais sempre foram um grande suporte pra mim, aliás, toda minha família sempre me incentivou (e ainda incentiva, comemora junto e torce por mim), o que é muito bom, revigorante, maravilhoso e essencial.
 
Você trabalha há mais de vinte anos no estúdio de quadrinhos mais prestigiado do país. Como você se sente fazendo parte disso tudo? Como é o seu cotidiano lá?
 
Fazendo parte dessa grande história, eu me sinto extremamente honrado e muito feliz por contribuir um pouco com ela. Eu me sinto muito realizado em poder fazer algo que amo e sou muito dedicado no que eu faço. Essas emoções passam para o meu trabalho e acho que passam para o público também! Esse retorno que tenho com os fãs da turma da Mônica não tem preço e só me faz ter a certeza de que estou no caminho certo. Tudo isso só me dá forças pra melhorar cada vez mais e mais!
Quanto ao meu cotidiano, ele é composto de muita pesquisa antes de começar um roteiro. Se é de uma paródia de um filme ou um livro, tenho que ler, rever, fazer anotações. Depois, sento e começo a ver como aquilo se encaixa no universo da Mônica com os cuidados que devo ter. Então, vem a parte gostosa de escrever, soltar a imaginação, procurar referências nerds (que quase sempre ponho em minhas histórias) e, uma vez concluída essa etapa, com tudo preparado com início, meio e fim, tem início a revisão, que passa a limpo o material. Admito que, com essa revisão, acaba surgindo novas mudanças, em função de novas ideias, o que gera uma nova revisão e assim por diante. (risos) Daí, quando tudo acaba, vai para a mesa do Mauricio e, quando aprovada, começa meu desafio com os desenhistas e o resto da galera, porque sou exigente com o material. Assumo que sou chato com relação ao meu trabalho, para que tudo saia o mais perfeito possível.
 
Você é sempre reconhecido por sua vasta bagagem de cultura popular, que você constantemente transmite para suas histórias. De onde veio essa sua característica particular?
 
Isso é bastante interessante. Veio com o tempo, acho. Eu sempre curti essa coisa de cultura nerd. Com o tempo, fui colocando mais nas histórias que escrevia. A saga da "Tina e os Caçadores de Enigma", tinha bastante disso e o legal é que, no fim das revistas, vinham algumas explicações de onde estavam essas referências. Hoje, coloco muito em algumas historias da série "Clássicos do Cinema" e os leitores atentos já identificam. Até aqueles que não conhecem, acabam ficando instigados a procurar mais sobre aquilo na internet, o que é maravilhoso.
 
Há algum personagem específico com o qual você prefira trabalhar?

Complicado isso! Eu sempre digo que, se o Mauricio é o Pai, eu sou um padrinho zeloso de todos! Começaram até a  brincar aqui no MSP, me chamando de Poderoso Padrinhão (risos). Mas o fato é que tenho bastante carinho pelo quarteto extraordinário (Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali) e um especial também pela Dona Morte (minha primeira historia que saiu foi com ela). Por isso, fica a dica para prestar uma atenção especial nela, que sempre que posso eu a coloco fazendo uma participação especial. Ultimamente, tenho brincado muito também com o Louco, o Xaveco e o Bugu .


Quadrinho da história produzida por Flávio para o álbum
"Ouro da Casa MSP", publicado ano passado
Você já se tornou parte do universo de personagens do MSP como primo do Rolo há vários anos. Como é a experiência de ser imortalizado nas páginas da turma da Mônica?

Nossa, deu até um frio na espinha quando você falou "imortalizado". Eu nunca pensei assim, aliás, nem achava que as pessoas lembravam do primo Flavio que o Rolo tinha. Aquilo foi uma brincadeira do Robson (um dos mais antigos roteiristas da casa) e que rendeu algumas historias. Eu mesmo fiz uma comigo mesmo, o que é estranho! (risos) Esse tipo de brincadeira é comum por aqui. O João, outro roteirista dos estúdios, me transformou num Pokémon certa vez, e até eu mesmo já me fiz numa versão cachorro. Na verdade, nós, roteiristas, quando não aparecemos assim, acabamos até fazendo uma ponta como nós mesmos. Fico realmente feliz de fazer parte deste universo tanto do lado de fora quanto de dentro da revista. É uma honra. 
 
 
Você esteve bastante ligado ao projeto do Parque da Mônica, certo? Como foi isso? Que papel você desempenhou nessa grande etapa da consolidação da marca Mônica dentro do Brasil?
 
Sim, fiz parte do time criativo que criou os parques de São Paulo, Curitiba e Rio de Janeiro. Fui chamado com o Robson para criarmos juntos com Mauricio e Alice o conceito do Parque da Mônica. Eram varias reuniões desenvolvendo as áreas temáticas de acordo com os personagens e as limitações técnicas que eram impostas pelos engenheiros. Íamos visitar os estúdios que faziam os moldes do carrossel e dar consultoria técnica. Foi uma época agitada e bem divertida. Aquilo depois se estendeu e se desdobrou com as revistas, as peças temáticas, além de shows e desenvolvimento de cartazes e produtos relacionados. Foi uma experiência magnífica e um grande aprendizado.
 
Você é um ferrenho usuário das redes sociais para interagir com seus fãs. Como você vê a internet e as redes sociais na nova estrutura editorial das HQs? A sua experiência nesse sentido tem sido positiva?

A interação com os fãs é sempre maravilhosa e podemos ver o que funciona e o que precisa ser corrigido, ou até mesmo mudado. A internet é uma ferramenta poderosa. Acho o contato com a internet sempre benéfico, desde que se saiba utilizá-lo. É uma questão de saber usufruir sem se tornar escravo dela. A internet é como uma ótima biblioteca de referência, de conhecimento e de debates. É preciso ter discernimento, cautela e respeito. Editorialmente, é muito boa também, pois você sente o público e o mercado com que você está lidando, além de saber o que acontece em outros mercados do planeta e o que pode ser tendência. Como disse, é uma ferramenta poderosa: basta saber usá-la e usufruir com respeito.
 
Para finalizar, quais são os planos do estúdio MSP para homenagear a Mônica neste ano em que ela completa 50 anos? Há algum projeto em desenvolvimento que você possa compartilhar conosco?

Este ano será o ano da Mônica. Já estamos desenvolvendo isso há algum tempo com várias ações que acontecerão ao longo do ano. Nunca foi feito um planejamento assim neste nível antes na empresa, por ser algo grandioso mesmo. Projetos? Sim, temos vários, mas, como você sabe, não posso falar nada ou me arrisco a levar uma coelhada, entende? (risos)

sexta-feira, 1 de março de 2013

Entrevista: Mônica Spada e Sousa

Por Gabriel Guimarães


Talvez seu nome completo não seja tão familiar aos leitores comuns de histórias em quadrinhos, porém, o papel que esta grande profissional desempenhou na história dos quadrinhos é inquestionável e universal. Um ano antes de nascer, seu pai trabalhava num jornal como repórter do caderno policial, mas sempre mantinha vivo o desejo de se tornar um desenhista de grande sucesso dentro do Brasil. Com o tempo e muito trabalho árduo, as oportunidades surgiram e finalmente sua primeira história foi publicada, na edição do dia 18 de julho de 1959 do jornal "A Folha da Manhã". Estava iniciada a carreira do maior quadrinista brasileiro, Maurício de Sousa. Quatro anos depois, com o crescente sucesso de seus personagens, geralmente inspirados em amigos de infância que tivera no decorrer da vida, o desenhista resolveu homenagear uma de suas filhas, batizando uma personagem com o nome desta. E foi assim que, aos 3 anos de idade, a Mônica viu sua versão cartunesca ganhar as tiras de quadrinhos publicadas ao redor do país. Com o passar dos anos, a personagem ganhou cada vez mais importância, sendo protagonista de uma revista própria a partir de 1970, porém, muitos esquecem da pessoa que inspirou-a em seu momento primordial.


Mônica, Maurício e as duas versões do
Sansão verdadeiro

Mônica Spada e Sousa usava de fato vestidinhos vermelhos quando era pequena, além de carregar seu coelhinho Sansão para todos os lados. Originalmente amarelo, a cor que caracterizou a versão quadrinizada deste elemento tão fundamental da infância da filha de Maurício foi mudada, de fato, apenas tempos depois de sua criação, a partir de um presente dado pela apresentadora de televisão Hebe Camargo, que ofereceu um novo mascote azulado à pequena Mônica, com a condição de que este não fosse utilizado para bater nos amiguinhos. O tempo continuou passando e, diferente do que acontece dentro das margens das páginas de quadrinhos, a pessoa Mônica cresceu, virou adolescente, entrou para a faculdade e iniciou sua própria jornada de grande empenho para construir uma carreira sólida e inquestionável. Hoje diretora do setor comercial do estúdio presidido pelo pai, o MSP, a Mônica que foi fonte de grande inspiração durante sua infância permanece uma pessoa incrível e uma profissional exemplar, que, muito atenciosamente, nos deu a grande oportunidade de entrevista-la para conhecer um pouco mais da pessoa por trás da figura mundialmente reconhecida de sua versão infantil.

QUADRINHOS PRA QUEM GOSTA - Como é que foi para você ver a personagem que levava seu nome ganhar tanto destaque no Brasil e no resto do mundo?

Mônica Spada e Sousa - Quando eu era criança, meu pai trabalhava na prancheta de casa, junto com algumas pessoas que já o ajudavam. Eu e minhas irmãs sempre víamos ele desenhando a Mônica, o Cebolinha, o Cascão, entre muitos outros, que era ele mesmo quem fazia todo o processo de criação na época e, para nós, parecia tudo muito normal. Aqueles personagens eram nossos amiguinhos de infância de verdade. Então, quando meu pai foi convidado para ir no programa da Hebe Camargo, ele me levou junto. Eu tinha cinco anos e foi ali que eu percebi que a Mônica era, realmente, eu (risos). Eu gostei muito dessa época, mas não entendia ainda a importância disso por conta de ser tão nova. Pouco depois desse dia, porém, quando eu comecei a frequentar a escola e meu pai passou a aparecer lá, como ele também fazia com as escolas das minhas irmãs, e as pessoas reconheciam ele, eu comecei a entender a importância que a personagem Mônica e o que meu pai estava fazendo, de fato, tinham.

Você se lembra da época em que a personagem Mônica surgiu?

A personagem apareceu em uma tirinha do Cebolinha em 1963, então, eu ainda tinha dois para três anos, portanto, sinceramente, não lembro (risos).

Atualmente, você ocupa um cargo de grande destaque dentro do estúdio MSP. Como é o seu trabalho, exatamente?

Eu sou diretora comerical daqui. Entrei como vendedora da lojinha da Mônica na década de 1980, depois fui crescendo e fui para a área de gerenciamento de produtos. Com 40 anos, me tornei diretora do departamento comercial, que é o responsável pelo licenciamento de todos os produtos da "Turma da Mônica". O departamento comercial realiza toda a procura por produtos que possam ser interessantes de lançar com a presença da marca "Mônica", logo, eu tenho uma equipe grande de funcionários que trabalham comigo, que é composta de funcionários que vão desde o marketing comercial até o setor jurídico, que cuida dos contratos que fazemos com as firmas que se tornam nossas parceira, passando pelos designers que criam as embalagens e caixas para os materiais.

Ao longo dessa sua carreira no setor comercial, você sentiu que havia alguma diferença de tratamento quando percebiam que você era "A" Mônica?

Muito. Houve reuniões em que eu estive onde as pessoas não conseguiam falar comigo (risos). Quando elas chegam para mim e dizem que não conseguem falar comigo porque eu sou a Mônica, eu acho muito engraçadinho (risos). Eu me divirto bastante com isso (risos).

 
Continua acontecendo muito disso até hoje?

Já aconteceu várias vezes. Às vezes, as pessoas ficam um pouco quietas, em silêncio, no começo, os olhinhos ficam brilhando, como se estivessem vendo alguma coisa mágica de verdade (risos). Aí, depois, vão acostumando. Mas teve um em especial, há pouco tempo, de um rapaz que trabalha conosco na construção da lojinha da "Turma da Mônica" na internet, que se chama Bruno. Ele não conseguia falar comigo. Foi a pessoa mais interessante que eu já conheci, porque depois de um tempo, me disse que o sonho dele era conhecer o Didi, o Paul McCartney e eu (risos). Fiquei realmente me sentindo privilegiada por ser parte da elite dele (risos).

Você teve alguma influência no conteúdo da Turma da Mônica Jovem?

Na Jovem, não. É a juventude de hoje. A minha juventude foi diferente. Só tive um papel maior na Mônica clássica mesmo.

O que você achou do casamento entre a Mônica Jovem e o Cebola?

Eu adorei a história. Achei que foi legal porque foi praticamente uma viagem no tempo. Eu acho que o destino da Mônica e do Cebolinha era o casamento mesmo. Até porque eles sempre se provocavam e, quando há tantas brigas assim é porque há algum sentimento mais forte por trás. Não sei como é que vai ficar depois de tanta coelhada isso (risos), mas, por enquanto o casamento é legal por realmente sentir que é algo do destino deles.

Quais as características da personagem Mônica que você reconhece em si mesma até hoje?

O gênio (risos). Não levo desaforo para casa, brigo pelo que quero. Eu também sou fisicamente baixinha, sou meio gordinha (risos). Sou muito ligada aos meus amigos também, ajudando-os sempre como posso. A Magali (a irmã, que também originou a personagem homônima) é minha melhor amiga. Acredito que sejam nesses aspectos que ainda sou muito parecida com a Mônica dos quadrinhos.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Entrevista: Guilherme Kroll

Por Gabriel Guimarães
  
A matéria de hoje marca uma estreia para o blog Quadrinhos Pra Quem Gosta. Normalmente, sempre procuramos falar sobre todas as nuances das histórias em quadrinhos e o papel destas na formação social de cada um, porém, sempre procuramos enfatizar que todas essas experiências não seriam possíveis sem a participação mais do que ativa de certos profissionais do meio, que trabalham incessantemente, movidos pela paixão à arte sequencial.

E, neste dia, para mostrar um pouco dessa perspectiva que influencia tantas pessoas ao redor de todo o Brasil, tenho o prazer de anunciar a primeira entrevista realizada pelo blog, feita com o grande editor e um dos fundadores da Balão Editorial, Guilherme Kroll, que esteve diretamente envolvido em diversos projetos da nona arte, que vão desde obras autorais, como "Nós", do quadrinista Mario Cau (cujo lançamento foi comentado antes aqui no blog), até coletâneas de tirinhas, como "Os Passarinhos", de Estevão Ribeiro.

QUADRINHOS PRA QUEM GOSTA: Em primeiro lugar, muito obrigado por nos conceder essa entrevista. Sabemos o quanto a vida de editor é ocupada, e, por isso, agradecemos sinceramente pela sua disponibilidade.

GUILHERME KROLL: É um grande prazer para mim receber vocês. É sempre importante para os editores terem esse contato com o público.

Como é o processo de produção dos livros feitos por você na Balão Editorial, depois que o original já foi aprovado e finalizado?
Temos um longo processo de aprovação e finalização do trabalho original. Depois disso, trabalhamos da seguinte maneira: o copydesque acontece antes, durante a finalização do original, então, o texto passa por uma preparação. Se for uma HQ, durante esta etapa, levantamos possíveis ajustes que precisem ser pedidos ao desenhista. Se for um livro ilustrado, fazemos o briefing das ilustrações nessa etapa também. Finalizado esse processo de preparação, o livro vai para projeto gráfico e diagramação. Depois, revisão, emendas, segunda revisão, e fechamento de arquivos.

Quais as principais dificuldades ou etapas mais complicadas no processo de produção como um todo?
A maior dificuldade é a impressão mesmo. Garantir que a gráfica fará um bom trabalho é difícil, especialmente em impressões fora de São Paulo. Aqui em São Paulo, podemos acompanhar as impressões, e o resultado tende a ser melhor.
Guilherme na Rio Comicon 2010
(que teve cobertura completa
aqui no blog)

Quem decide as especificações técnicas do livro (formato, gramatura, etc)? Isso é definido de antemão ou é algo feito ao longo do processo?
A editora de arte que define isso, muitas vezes em acordo com o autor. Geralmente isso é definido quando o original já está pronto, mas pode variar durante o processo. Custos gráficos influenciam muito nisso.


Tirando o desenho da capa, que costuma ser do próprio autor dos quadrinhos publicados no miolo, o design dela é de autoria do autor também ou é algo feito por terceiros? Caso seja por terceiros, como se dá essa escolha do responsável pelo design da capa?
Novamente, o design da capa é feito pelo autor em acordo com a editora de arte. Caso não seja feito pelo autor, a nossa editora de arte, Natália Tudrey, é quem assina as capas.

A Balão Editorial trabalha mais com trabalho terceirizado ou possui uma equipe fixa?
Temos uma equipe fixa interna, mas ocasionalmente passamos trabalhos para terceiros.
  
Alguns trechos da obra "Nós",
 publicada por Guilherme

Você faz o acompanhamento gráfico de todas as etapas de produção junto aos autores? Como isso é feito?
Muitos autores chegam com o original já pronto. Nesses casos, não. Mas quando acompanhamos desde o começo, vemos rafes, projetos, enfim, tudo que permeia a pré-produção das HQs, sugerindo mudanças quando necessário.

Depois que o original já está entregue para acabamento, o autor tem algum contato com as etapas anteriores à distribuição e venda do produto? Caso ele deseje modificar algo, existe essa possibilidade?
Geralmente, não. Mandamos uma prova final para ele aprovar, mas, fora isso, tudo fica no nosso controle. Se o autor quiser mudar algo, ele manda uma solicitação e procuramos viabilizar a mudança.

Como você vê o mercado editorial hoje, a respeito do livro como produto?
O mercado editorial está em um período nebuloso. O produto livro tem diversas possibilidades e tanto leitores quanto editores estão descobrindo novos caminhos para esse material. Creio que, em dois ou três anos, saberemos o que pode mudar após a onda de e-readers, tablets e pirataria digital.


Qual sua opinião sobre o surgimento do e-book?
Acho o e-book um produto muito interessante, tem diversas vantagens em relação ao impresso, mas muitas desvantagens também. A principal vantagem, ao meu ver, é o espaço. Um arquivo eletrônico não ocupa nada na sua casa, enquanto um livro precisa de uma estante. Num mundo com cada vez menos espaço, isso fará diferença. Entretanto, você não pode esperar que o consumidor vá pagar o mesmo valor pelo arquivo que pelo produto impresso, que tem muito mais custos. Pensando nisso, nós colocamos nossos e-books a um preço mais acessível que os livros impressos, para estimular o leitor a comprá-los.

Imagem de "Os Passarinhos"
Sei que vocês já produziram os álbuns “Entrequadros – A Walk on The Wild Side”, “Os Passarinhos” e “Sombras e Sonhos” no formato e-book, que já estão disponíveis na loja eletrônica da Gato Sabido. Poderia dizer suas observações quanto a esse processo?
O processo é um pouco complicado, demanda saber converter os arquivos em um formato novo chamado e-pub. Em livros como o “Entrequadros – A Walk on The Wild Side”, isso não foi possível, e tivemos que colocar em PDF. A criptografia do arquivo é feita via DRM pela própria Gato Sabido.


A Balão Editorial tem alguma perspectiva de utilizar mais vezes o formato e-book em breve? Como você vê o futuro da editora com relação a esse mercado eletrônico que tende a crescer cada vez mais?
Pretendemos lançar todo o nosso catálogo em e-book e lançar alguns novos livros apenas em e-book, numa fase de testes. Esperamos que as vendas cresçam nos próximos anos e vamos investir nisso.