domingo, 10 de maio de 2015

Super Curso Especializado

Por Gabriel Guimarães

Michael Uslan é o principal responsável por essa empreitada
O site de ensino à distância edX, criado pelo professor Anant Agarwal, parte do corpo docente do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), com a finalidade de disponibilizar a usuários da rede do mundo inteiro programas de ensino online em parceria com várias universidades e instituições credenciadas, iniciará no dia 12 de maio dessa próxima semana um curso dedicado exclusivamente ao estudo da figura cultural dos sueper-heróis, sua história na mídia dos quadrinhos e como eles são elementos integrantes de uma jornada vivida pela sociedade humana desde a Antiguidade. Apresentado pelo professor e produtor cinematográfico Michael Uslan (um dos responsáveis por todas as adaptações do Batman para o cinema nos últimos quase 30 anos), o curso irá dispor de atividades com estudiosos do meio, como o acadêmico Christopher Robichaud, e autoridades no campo da produção na nona arte, como o roteirista e ícone pop Stan Lee (sim, você leu certo, ele mesmo!).

Stan Lee, criador do Homem-Aranha será parte integrante do curso
Programado para durar 5 a 6 semanas, o curso irá oferecer aos inscritos material de leitura e vídeos para acompanhamento no início de cada nova etapa, e abordará desde a mitologia inerente à figura pública do herói até os impactos da globalização e das novas mídias na compreensão sobre o papel desses superseres na nossa cultura. Será realizada também uma apresentação sobre as transições vividas no mercado editorial norte-americano ao longo do século XX, com a chegada dos personagens da Marvel e da DC nas televisões e nos cinemas, e o crescente boom que essa vertente tem experimentado nos últimos anos.

Uma das sedes do Instituto Smithsoniano, que estão dispostas ao longo de Washington, EUA
Organizado pelo Instituto Smithsoniano, que compreende à complexa rede de museus mais famosa do mundo e administrada pelo próprio Governo dos Estados Unidos, o curso procura trazer à tona a necessidade de se encarar seriamente a importância dos personagens que ganharam destaque a partir de revistas baratas e suplementos dominicais e que hoje são parte de nossa identidade pessoal e elemento comum em nossa formação social. Conforme o próprio responsável pelo curso, Michael Uslan, aponta, em outros tempos, a discussão acadêmica sobre conteúdo vindo da arte sequencial era considerado uma piada, menosprezando seus interessados e a própria mídia em si. Com o passar dos anos, contudo, isso foi mudando e, hoje, quando encaramos a plena aceitação desse material como objeto de valor midiático, é possível dar vazão a iniciativas como essa e se aprofundar mais nas minúcias que compõem esse universo maravilhoso das histórias em quadrinhos de heróis e explorar o significado particular e social que esses personagens podem representar.

Phil Jimenez já trabalhou para as duas gigantes do gênero
O curso, intitulado ''The Rise of Superheroes and Their Impact in Pop Culture'', será ministrado em inglês, podendo ser acessado em diversos pontos do mundo. Com tanto ávidos apaixonados pela mídia quanto iniciantes nessa jornada na nona arte, de países como Austrália, Argentina, Uruguai e Canadá, já inscritos antes do início das atividades e outros muitos mais a cada minuto até lá, a experiência tende a aproveitar a divergência da perspectiva nacional e cultural de cada indivíduo de forma muito instigante. A inscrição é feita através de perfil produzido no site do edX, e pode ser gratuita (voltada para os ouvintes que tiverem interesse em conferir apenas o conteúdo disponibilizado online para as aulas e atividades) ou paga, com uma tarifa única de U$50 (voltada para os interessados em receber certificado de realização do curso com credenciamento oficial e avaliação do domínio sobre os materiais apresentados no decorrer das  semanas). Foi informado aos estudantes que já se inscreveram, contudo, que àqueles que optarem pela opção paga, será enviada uma arte desenvolvida especificamente para o curso, autografada pelo desenhista Phil Jimenez, que trabalha hoje para a Marvel e já foi responsável por títulos como ''Homem-Aranha'' e ''X-men'' na Casa das Ideias e ''Crise Infinita'' e ''Jovens Titãs'' para a DC. A peça contará, ainda, com um selo oficial do Instituto Smithsoniano e as assinaturas de Michael e David Uslan, e do antológico Stan Lee.


Aberto a inscrições desde o dia 5 de maio, os interessados já tiveram disponíveis pequenos textos de introdução e acesso a uma lista de quadrinhos recomendados de leitura (praticamente uma amostra básica do essencial do gênero). Também foram estendidos links para ingresso nas comunidades virtuais do curso no Facebook e no Reddit, além de um fórum aberto a interações entre os próprios alunos, a fim de que a comunicação intercultural seja elemento fundamental das aulas, além de oferecer esclarecimento de dúvidas e trocas de contatos. Aos interessados em ingressar no curso e que ainda não o fizeram, o link para a sua página pode ser encontrado aqui. Ademais, as expectativas são muito positivas e um levantamento acadêmico sobre os aspectos históricos e culturais desse gênero de quadrinhos já era mais do que necessário, ainda que isso já viesse sendo realizado de forma gradual em escalas menores ao redor do planeta. Que esse seja um dia mais claro para a arte sequencial e um de seus mais reconhecidos gêneros! Excelsior!

sexta-feira, 8 de maio de 2015

O Espírito dos Quadrinhos no Planetário do Rio

Por Gabriel Guimarães


Na sexta-feira da semana que vem, dia 15 de maio, será realizado no Planetário da Gávea, no Rio de Janeiro, um evento dedicado a comemorar os 75 anos de um dos grandes personagens do quadrinista Will Eisner, o Spirit. Publicado a partir da parceria entre Eisner e o editor Everett ''Busey'' Arnold, responsável por edições da Quality Comics, o personagem representou uma grande ruptura na vida do autor nova-iorquino e ofereceu ao público leitor das funny pages e das revistas de aventura um material mais maduro e com maior domínio das ferramentas visuais das histórias em quadrinhos do que era o habitual do período. Publicado de forma ininterrupta até 1952, tendo sido produzido integralmente pelo próprio Eisner a maior parte desse tempo, o personagem tornou a aparecer nas décadas seguintes, principalmente através de republicações, enquanto seu criador passou a se dedicar às suas obras de graphic novel (termo, inclusive, cunhado por ele, fato que abordamos em matéria anterior aqui no blog), que o consagraram ainda mais no meio.

Antes da criação do detetive Denny Colt, que se tornaria o Spirit logo em sua estreia nos quadrinhos, Eisner era parceiro do também quadrinista Jerry Iger no syndicate responsável pela produção de dezenas de títulos veiculados nos jornais da época, o Eisner & Iger, que contava ainda com nomes de peso em suas pranchetas, como Lou Fine e Jack Kirby. Após um início complicado financeiramente, o estúdio já oferecia um retorno bastante positivo aos dois sócios no final da década de 1930, porém, não saciava o desejo de Eisner em produzir um conteúdo que diferisse do padrão majoritariamente infantil do período anterior à Segunda Guerra Mundial. Abordado pelo editor ''Busey'' Arnold após os jornais demonstrarem interesse em lançar suplementos que concorressem pela atenção dos leitores das bancas com as revistas especialmente dedicadas aos quadrinhos, Eisner viu a oportunidade de produzir um material de teor mais maduro, que apontasse os elementos humanos na sociedade americana depois da Crise da Bolsa de 1929. Após discutir com Arnold sobre a necessidade de o personagem entrar no recém-criado filão dos heróis de capa e superpoderes, algo a que Eisner era contrário, chegou-se à conclusão de que o personagem carregaria um pseudônimo e uma máscara para combater o crime, além de ter uma origem mirabolante e fantasiosa, porém, as histórias carregariam uma temática policial mais do que heroica, e os seus personagens seriam trabalhados de forma mais dedicada que as fantasias joviais rotineiras. Depois de chegarem a esse acordo, Eisner encerrou sua participação no syndicate, que passou a ser chamado de Phoenix Features, e reuniu uma nova leva de profissionais para auxiliá-lo na produção das histórias do personagem, que seriam depois distribuídas de forma sindical por Arnold junto aos jornais interessados.

Por anos, Eisner trabalhou de forma empenhada na sua nova criação, que ocasionalmente dividia espaço na ''The Spirit Section'' com outros personagens menores como Mr Mystic e Lady Luck, mas, em 1942, o autor foi convocado para o exército dos Estados Unidos e precisou se ausentar do mercado editorial, cabendo a Arnold substituí-lo por outros quadrinistas durante os anos seguintes. Uma vez regresso, Eisner novamente assumiu seu personagem e construiu de vez a mitologia que este carrega até hoje, contando com um traço mais refinado pelo fato de Eisner ter trabalhado na confecção de muitos manuais técnicos para as Forças Armadas. Com ricas aventuras imersas em drama e suspense, os leitores e os próprios profissionais do ramo admiravam o espírito de inovação que estava sendo desenvolvido naquele período para os quadrinhos, que recebeu muitas influências cinematográficas. Contudo, no final dos anos 1940, o mercado de histórias em quadrinhos passou a sofrer com a perda de novos leitores, cujo interesse passou a se concentrar em torno da televisão, que começava a crescer na época; além de conviver com a constante desconfiança das autoridades moderadoras sobre o uso dessa mídia no desvirtuamento das crianças e jovens. Eisner, que já estava mais envolvido pelo projeto que tinha junto da editora governamental American Visuals (algo mais seguro social e economicamente para um artista que começava a construir uma família), tentou ainda aproveitar o viés da exploração espacial para tornar novamente relevante seu personagem, porém, seu trabalho com o Spirit, que já vinha ganhando suporte de outros profissionais como Jerry Grandenetti, Jules Feiffer, Wally Wood e Jim Dixon, acabou chegando a um final em 1952.

Mais tarde, já nos anos 1960, Eisner encontrava-se em conflito com os novos responsáveis pela produção de seu conteúdo na ''P*S Magazine'', para a qual trabalhava desde então, mantendo um taxa de serviço constante do autor para o preparo de segmentos de características técnicas para os soldados do exército, em meio à crise no mercado editorial dos quadrinhos. Durante a Guerra do Vietnã, o volume de trabalho oferecido a Eisner era o suficiente para que ele pudesse sustentar sua casa e conquistar maior segurança financeira, porém, os movimentos antiguerra o faziam balançar sobre o que separava seus manuais voltados para o uso adequado do maquinário militar (que salvava vidas de soldados) com guias para executar inimigos. A experiência que Eisner viveu em Saigon, quando o exército norte-americano ainda ocupava grande parte do território do Vietnã do Sul, foi determinante ao mostrar-lhe o horror do campo de batalha real, uma vez que a experiência militar de Eisner ainda era muito limitada ao serviço burocrático e administrativo nos centros nervosos das Forças Armadas, dentro dos próprios Estados Unidos. Eisner estava passando por uma séria reavaliação sobre sua experiência com a produção para o Governo nesse sentido.

A grande mudança, porém, que o trouxe de volta para o ramo dos quadrinhos se deu em 1971. Convidado pelo organizador Phil Seuling para participar de uma convenção de leitores dos novos comix, revistas de linha independente com teor adulto e que eram distribuídas e vendidas em lojas de medicamentos farmacêuticos até então ilegais no país, e do material clássico publicado nas revistas e suplementos de quando seus pais eram crianças, Eisner demonstrou interesse em ver como o mercado estava se reestruturando diante da nova realidade da sociedade. Lá, ele conheceu o jovem editor Denis Kitchen, que viria a se configurar como um dos grandes nomes do quadrinho underground pelo seu trabalho diferenciado como editor do ramo (seu esquema de distribuição para as lojas, sua política de pagamento de royalties aos autores, além da devolução dos originais para os devidos responsáveis por eles e a manutenção particular dos direitos autorais). Juntos, Eisner e Kitchen chegaram a um acordo para republicar a saga do Spirit, aproveitando a onda de interesse dos leitores por conteúdos que transgredissem as normas vigentes nos quadrinhos das grandes editoras como a Marvel e a DC já o eram. Kitchen, que já publicava histórias de Robert Crumb, Harvey Kurtzman e Art Spiegelman, ficou extasiado de felicidade com a oportunidade de trabalhar com uma das lendas vivas do quadrinho na Era de Ouro como era Eisner (o pioneirismo de Eisner, inclusive, foi comentado também, aqui no blog), e este se viu animado em participar de uma nova etapa do mercado editorial de revistas, que passava por uma repaginação de forma estrutural e temática.

Denis Kitchen, em frente à entrada para a exposição de Will Eisner, na Rio Comicon de 2011
Poucos anos depois, Eisner acabou transferindo a publicação para a empresa do editor Joe Warren, a Warren Publishing, com quem já havia trabalhado mais de uma década antes e havia autorizado republicar algumas de suas histórias do Spirit na revista de humor ''Help!''. Comandado por W. B. DuBay, editor que já havia conhecido Eisner em uma entrevista de emprego para a ''P*S Magazine'', Eisner viu a publicação bimestral das histórias de Denny Colt decolar. Kitchen ficou levemente ressentido pela perda do título de Eisner, mas compreendeu a opção do autor por uma empresa que pudesse publicar seu conteúdo em formato mais adequado em termos de tamanho, distribuição nacional e qualidade técnica, além de que Eisner recusara a oferta da Marvel para lançar seu personagem pelas exigências de conteúdo inédito e as burocracias recorrentes em editoras de maior porte. A amizade dos dois se manteve e rendeu frutos para a indústria de livros e revistas em 1974, quando, além de tornar a ser a responsável pela publicação do Spirit, a Kitchen Sink deu vazão aos primeiros experimentos de Eisner com material novo, como ''The Spirit's Casebook of True Haunted Houses and Ghosts'', livro de prosa narrado pelo personagem clássico sobre histórias de teor sobrenatural e fantasioso, e ''The Invader'', história inédita criada por Eisner junto de jovens aspirantes a quadrinistas para o Spirit.


Em 1978, Eisner já dava aulas na School of Visual Arts, uma instituição em Manhattan dedicada às artes plásticas e comerciais, tinha seu próprio selo editorial, a Poorhouse Press, lançava regularmente material em torno do Spirit pela Kitchen Sink e conteúdo didático em quadrinhos pela Scholastic Books. Ainda assim, ele resolveu ir além da visão padronizada por quadrinhos e iniciou o mercado de graphic novels com ''Contrato com Deus'', material que carregava muita carga emocional do próprio autor em suas páginas acerca da perda de sua filha mais nova décadas antes (acontecimento que o marcou profundamente e que ele manteve em segredo até o lançamento, em 2006, de um volume especial incluindo esta obra e algumas outras de suas histórias passadas na Avenida Dropsie, no qual apresentou a sua experiência de perda pessoal de forma pública no prefácio deste). Publicada pela Baronet Books, após uma série de negociações editoriais, a obra revolucionou o mercado de quadrinhos apresentando-o ao universo literário presente nas livrarias. Passada a crise mercadológica experimentada pela obra com a dificuldade de sua categorização nos pontos de venda, os quais não sabiam se o colocavam entre as obras de cunho ficcional, aos materiais religiosos ou entre as revistas em quadrinhos tradicionais, o gênero revolucionou a indústria e apresentou uma vertente de potencial criativo que é observado e praticado com muito valor e qualidade até os dias de hoje.

A partir, então, da publicação do Spirit, que Eisner começou gradativamente a apresentar novas perspectivas que os quadrinhos ofereciam aos seus profissionais, com um uso mais qualificado dos elementos gráfico-textuais e posteriormente um desenvolvimento mais dedicado e profundo das histórias humanas apresentadas nos quadrinhos. A revolução da arte sequencial de Will Eisner se iniciou muito antes da sua cunhagem do termo, antes também do lançamento original da sua primeira graphic novel e antes, até, do amplo escopo potencial que a mídia oferecia em termos didáticos, contempladores e de entretenimento observado por Eisner. Tudo se iniciou na composição realista na qual formou seu único herói mascarado, muitas vezes mais coadjuvante das histórias que protagonista propriamente dito, mas sempre símbolo de justiça e luta pelos mais fracos.

O Planetário da Gávea, no Rio de Janeiro, irá realizar, em homenagem a essa data comemorativa dos três quartos de século do personagem de Eisner uma série de atividades no dia 15 de maio, a partir das 17h30. O evento contará com palestra, exibição de curtas e discussão com grandes nomes do meio gráfico como Carlos Patati, ávido estudioso da nona arte e roteirista; Ricardo Leite, designer responsável por produções de diversas frentes diferentes, desde capas de discos até a logomarca do Rio 450 anos; Marcelo Martinez, autor da capa da biografia ''Will Eisner - Um Sonhador nos Quadrinhos'' publicada em 2013 pelo selo Biblioteca Azul, da editora Globo; Marisa Furtado de Oliveira, diretora e produtora do elogiado documentário ''Will Eisner - Profissão Cartunista''; Heitor Pitombo, jornalista colaborador de diversas publicações acerca dos quadrinhos, entre elas, a revista ''Mundo dos Super-Heróis''; Esse Lobo, editor responsável pela antiga editora Barba Negra; e Roberto Ribeiro, diretor da Casa 21, que organizou as edições da Rio Comicon em 2010 e 2011 (ambas cuja cobertura completa pode ser conferida aqui no blog). Prevista para durar até o fechamento do Planetário, às 22h, o evento busca destacar o feito do personagem e as revoluções promovidas na mídia por seu criador. A entrada e o estacionamento serão gratuitos e o convite é estendido a todos os interessados em aprender um pouco mais da história dos quadrinhos e/ou admiradores da arte sequencial que queiram comemorar juntos essa marca tão especial. A página do evento no Facebook pode ser conferida aqui, e quaisquer dúvidas acerca dele podem ser esclarecidas por lá.


A quem mais tiver interesse de saber um pouco mais sobre o período entre 1940 e 1952 de Will Eisner a cargo do Spirit, vale conferir o interessante artigo de Michael Barrier, que pode ser conferido, em inglês, aqui.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Sobre o Papel das Editoras na Formação de Novos Leitores

Por Gabriel Guimarães

 

Esta semana um assunto importante voltou à tona em meio a discussões recentes sobre a educação no cenário brasileiro. O quadrinista Orlando Pedroso, em sua coluna no site Uol (que pode ser conferida aqui), redigiu uma crítica à falta de estrutura encontrada no mercado editorial do Brasil. Comentando sobre o grande papel desempenhado no comércio livreiro pelos programas estabelecidos pelo Governo, ele aponta os riscos e os problemas que o mercado está tendo que encarar diante da recente redução nos investimentos feitos nessas plataformas. Traçando uma análise histórica, ele observa a dependência que muitas editoras passaram a ter em cima desses programas e critica de forma direta a falta de participação das editoras na formação de um público leitor que capacitasse um mercado livreiro mais qualificado e independente das intervenções governamentais. Seu artigo, porém, levanta uma discussão interessante que precisa ser devidamente expandida no cenário cultural e econômico brasileiro.

Em primeiro lugar, é importante destacar o papel desempenhado pela publicação de conteúdo didático e paradidático dentro da gestão de uma editora. Para os profissionais do livro, esse material é a base na qual a maioria das principais empresas do setor tem a possibilidade de encontrar uma estabilidade financeira que lhes permita, reinvestindo seu capital, publicar obras de outras naturezas, como ficção, arte, esporte, lazer, além de conteúdo educativo de grau mais específico academicamente. A composição do catálogo de títulos disponíveis em uma editora se compõe levando em consideração essa hierarquia necessária para se construir uma empresa financeiramente sustentável, trazendo, assim, um destaque ao segmento didático para apresentar, quando possível, a produção de obras menos prestigiadas em termos de custo. Dentro do cenário cultural que se apresenta em nosso país, o mercado é limitado demais para que as editoras ajam de forma alheia a essa hierarquia na hora de estabelecer uma política de prioridades administrativas. Ou seja, programas como o PNBE (Programa Nacional Biblioteca na Escola) e o PNLD (Programa Nacional do Livro Didático) auxiliam não apenas na distribuição de mais conteúdo às escolas ao redor do Brasil, como também incentivam uma gestão financeiramente mais viável para as editoras, possibilitando, assim, que elas possam pegar o capital captado dessa maneira em novos conteúdos e na própria expansão do público leitor.


Orlando critica que as editoras ficaram acomodadas a essa estrutura e deixaram de trabalhar na linha de frente da montagem de um novo público leitor, encarando, então, um cenário caótico diante dos problemas envolvendo o investimento feito pelo Governo na edição dos programas, com ênfase na alarmante suspensão do PNBE de 2015. Os conflitos vão desde a troca da banca avaliadora do conteúdo submetido pelas editoras no edital lançado pelo Ministério da Educação, que desde 2005 era responsabilidade do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita, da Universidade Federal de Minas Gerais (CEALE-UFMG), em um processo estagnado pela burocracia governamental que atrasou diversas vezes a data de divulgação da nova instituição selecionada, até o atraso no pagamento às editoras pelo material adquirido no PNLD, conforme destacado pela jornalista Raquel Cozer no jornal ''Folha de São Paulo'' (matéria que pode ser conferida aqui). Diante desse cenário, o mercado apresentou reticências quanto ao avanço econômico nas livrarias, experimentando uma queda de 4,75% em relação ao primeiro trimestre de 2014.

Por conta dos atrasos na seleção de material para ser distribuído aos colégios de primeiro e segundo grau, os livros não puderam ser entregues aos alunos que fariam uso deles e aos professores que os utilizariam como instrumento pedagógico. Se em 2013, o PNBE distribuiu 7,4 milhões de livros a quase 70 mil escolas, o cenário que se apresenta é basicamente ausente em 2015 (dados apresentados pelo profissional do jornal ''O Globo'', Lauro Neto, cujo artigo pode ser conferido aqui e cuja discussão se iniciou em matéria da colega jornalista Graça Ramos, que também pode ser conferida aqui). A partir disso, é possível ver que o prejuízo com toda essa situação não é apenas financeiro, mas um sintoma que denota a falta de privilégio que o governo tem para com a educação. As editoras, acusadas por Orlando de agirem de forma displicente com os leitores, em função de tirarem 37% de todo o seu rendimento dos acordos com a administração federal e estatal, são tão vítimas quanto podem ser consideradas potencialmente culpadas.

O Brasil vinha experimentando um crescimento considerável na indústria do livro nas últimas décadas, com novos autores e novas editoras surgindo tanto com conteúdo físico como virtual. Desde que o PNBE foi instaurado em 1997, ele e o PNLD compreendiam 90% do investimento em livros feitos pelo Governo. Por meio desses programas, as editoras tiveram maior oportunidade de crescer e gerar empregos, além de alcançar uma quantidade maior de jovens e fomentar neles o gosto pela leitura. Apesar de Orlando apontar corretamente que a mera entrega do produto livro nos colégios não assegura a formação de um público leitor, é necessário indagar sobre as razões dessa discrepância. O papel dos professores nas redes de ensino e das famílias dentro de casa são elementos que carregam um grande peso na estruturação de um pensamento acerca do valor de saber ler e escrever, e ao aprendizado que essas atividades podem levar ao indivíduo. Conforme destaca o antropólogo amazonense Felipe Lindoso em seu livro ''O Brasil pode ser um país de leitores?'', o professorado brasileiro encontra uma ampla diversidade de aplicações que os programas de incentivo à leitura não são capazes de se adequar em função da ausência de uma grade curricular padronizada pelo Governo Federal às esferas estatais. A rede de ensino brasileira é difusa em muitos sentidos, e encontra as limitações socioeconômicas e tecnológicas como entraves para um trabalho produtivo, relevante e consciente. As mídias mais visadas no país são as de natureza audiovisual e o conteúdo apresentado ali não estimula um aprofundamento no prazer do aprendizado e da inovação, muito pelo contrário, opta, em sua maioria, por repetir fórmulas e privilegiar a superficialidade das personalidades públicas.

Estande da editora Leya na CCXP 2014
As editoras de livros, contudo, vem se mostrando atentas às novas nuances do mercado, encontrando em eventos como as Feiras Internacionais do Livro ou a ComiCon XPerience oportunidade de criar um vínculo com potenciais leitores. Dessa forma, investem na montagem de estandes e na divulgação pelas redes sociais, por onde seus admiradores podem compartilhar experiências e ampliar o conteúdo publicado de forma literária em um agradável complemento para enriquecer suas vidas, direta e indiretamente. Tal qual ocorreu com a transição do foco da indústria fonográfica que era voltado para a venda de discos e passou a priorizar o comércio de experiências (ao invés de lucrar mais com o produto físico, a indústria passou a dar mais atenção a shows e encontros com fãs, que pagavam por algo particular que não poderia ser massificado, a experiência de estar lá), as editoras não apenas brasileiras estão passando por uma transição geral. Os leitores estão se consolidando cada vez mais como seres de natureza multifacetada e cuja atenção carece de ser captada em diferentes frentes, sempre com uma estimulando a outra; algo que os editores estão percebendo e, dessa forma, já vem trabalhando a respeito.

Trabalhos vem sendo bem realizados por editoras como a Draco, que vem investindo em autores nacionais dos gêneros de ficção científica e fantasia, que quase não tinham espaço no Brasil, a Balão Editorial, que investe em autores de quadrinhos nacionais em formatos que privilegiem a história em si mais do que apenas uma visão lucrativa do produto, e a Novo Conceito, que vem aproveitando as mídias sociais para descobrir novos autores e lançar conteúdo inédito no mercado impresso, fora as já tradicionais JBC e Panini. Enquanto esta primeira investe bastante tempo nas mídias digitais e vem organizando o Brasil Mangá Awards, premiando os vencedores com a publicação de suas histórias em uma edição intitulada ''Henshin Mangá'', com mesmo acabamento gráfico que os volumes vindos do Japão; a Panini tem se tornado ponto de referência nos eventos de larga escala da cultura pop no Brasil, além de lançar no mercado conteúdo alternativo dos autores convidados pelos estúdios MSP a tomar parte no selo editorial de graphic novels com os personagens criados por Maurício de Sousa, como foi o caso dos volumes de ''Valente'', série de tirinhas do quadrinista mineiro Vitor Caffagi.

O descaso despendido aos problemas consequentes da perda dos programas de incentivo do Governo às editoras e à rede de ensino público é um erro grave, uma vez observados os seus desdobramentos. Tanto editoras de larga escala quanto as menores estão sofrendo as consequências disso, tendo que diminuir a projeção de 1ivros a serem publicados no ano e diminuindo o plantel de profissionais empregados, como é o caso da editora Melhoramentos, que vai precisar reduzir o número de títulos que lançaria de livros este ano de 230 para 180. Uma redução pesada em termos culturais e financeiros.

Página da revista "X-O Manowar", da linha Valiant
Uma vez apresentado o contexto, a crítica de Orlando parece um tanto injusta, mas é necessário também lembrar que existem editoras que não encontraram ainda um ponto certo de equilibrar sua participação no mercado, como foi o caso recente da linha Valiant, publicada pela HQM. Ao cancelar seus títulos por falta de procura do público leitor, a editora assumiu o discurso de que há uma crítica sobre a falta de material intelectualmente estimulante no mercado de bancas de jornal, mas quando se lança um conteúdo novo que pode suprir essa necessidade, o público e a mídia não se mobilizam para que a empreitada dê certo. Essa crítica é embasada nos números de vendas que a editora recebeu e que lhes deixou no prejuízo financeiro. O trabalho, contudo, que foi realizado com os quadrinhos do selo Valiant, apesar de graficamente estar impressionante, foi extremamente limitado por uma regularidade inconstante nas bancas de jornal e uma confusão provocada por um elemento que poderia até estimular o público especializado: as capas alternativas. A editora deveria ter se movimentado para se aproximar dos sites especializados e marcado presença nos eventos do segmento de forma mais assertiva, mesmo que se limitasse a tomar parte em palestras sobre a mídia no Brasil, como outras vem fazendo muito bem nos últimos anos. As páginas dedicadas aos quadrinhos poderiam ter colaborado mais para ajudar essa linha de títulos a encontrar sucesso no país (até levando em conta que trata-se de um conteúdo que recentemente foi apontado para ser levado às grandes salas de cinema nos próximos anos), mas não se pode assumir o discurso radical de que as pessoas deveriam saber melhor o que fazem. A HQM já voltou atrás do cancelamento de seus títulos para uma discussão mais aberta sobre como tornar sua publicação sustentável financeiramente, o que pode, inclusive, beneficiar em muito o mercado e a própria editora (algo que pretendemos abordar de forma mais dedicada em outra matéria futura aqui no blog).

O ProAc é um exemplo de programa que precisa crescer
Em suma, as consequências são sentidas por todos os lados, não adianta buscar um bode expiatório. É necessário apenas procurar aprender com os erros e corrigi-los enquanto existe essa possibilidade. O fomento de novos leitores, portanto, até pode pesar sobre as responsabilidades das editoras, mas a carência recente disso é fruto de má gestão administrativa do Estado e omissão optativa do Governo, trabalho inconsequente das mídias sensacionalistas e falhas consideráveis de divulgação quanto a eventos do mercado literário (não as feiras internacionais, mas os eventos de pequeno e médio porte, que justamente ajudam o mercado a continuamente se renovar). Em uma sociedade, não são apenas as glórias que devem ser partilhadas após uma encruzilhada, mas o peso das decisões erradas também. E o que se deve aproveitar disso é identificar as formas de melhor aprimorar os procedimentos tomados por todas as partes envolvidas. Os problemas com o PNBE e o PNLD precisam ser abordados com a devida seriedade, tanto pelos profissionais do livro, em todas as suas etapas (desde a autoria até o consumo, inclusive), como por aqueles que desejam ver nossa sociedade brasileira ter melhores condições socioeconômicas como um todo, porque a cerne de todo esse processo está na educação. Programas, ainda, como o Proac, em São Paulo, precisam continuar relevantes e serem adotados por outros estados, a fim de que, estimulando a produção cultural, o povo possa se sentir melhor representado na mídia e compreender suas responsabilidades para que receba seus direitos e possa executar de forma adequada sua função na sociedade.


É necessária, ainda, uma educação apropriada para estimular a leitura e o aprendizado, e não apenas o estabelecimento de uma grade de etapas a serem cumpridas para que o indivíduo seja inserido em uma sociedade que não se leva a sério o suficiente para garantir a valorização de sua cultura e da formação de seus membros. A responsabilidade pelos problemas que estão ocorrendo é de todos nós, e cabe a cada um questionar honesta e razoavelmente o que poderia fazer para ajudar-nos a melhorar. Sempre como um todo, vale ressaltar. Apenas assim, talvez possamos ter um futuro digno e com boas promessas de igualdade.

terça-feira, 28 de abril de 2015

All You Need is an Edge

Por Gabriel Guimarães


O ano de 2004 foi bastante turbulento para a humanidade. Ainda sob o jugo do temor provocado pelos atentados terroristas às Torres Gêmeas, nos Estados Unidos, alguns anos antes, muitos países viveram situações tensas com radicais ideológicos que optaram por utilizar os mesmos meios para combater aqueles opostos aos seus propósitos. A Austrália sofria com ameaças do tipo, a Ucrânia vivia grande caos em meio ao seu período eleitoral, a Rússia viu dois massacres ocorrerem em seus aeroportos e escolas, a Espanha sofreu atentados graves em pontos de seu sistema público de transporte, o Kosovo, ainda então parte da Sérvia, era cenário de grandes conflitos populares, insurgentes no Iraque atacaram uma de suas prisões. O mundo inteiro, portanto, passava por um período de reconfiguração de seu cenário político e militar. Nada, porém, surpreendente que essa temática, já tão emblemática na indústria de entretenimento desde os tempos da Primeira Guerra Mundial, tenha sido representada em obras da época como o documentário ''Farenheit 11/9'', o jogo ''Counter-Strike: Source'' e a obra que é o foco de nossa matéria hoje, a light novel ''All You Need is Kill''. Escrita por Hiroshi Sakurazaka e com ilustrações de Yoshitoshi Abe, a história foi publicada pela editora Shueisha dentro da revista ''Super Dash Bunko''. Uma década depois, foi adaptada para os quadrinhos por Ryosuke Takeuchi com desenhos de Takeshi Oda, e para os cinemas pelo diretor norte-americano Doug Liman.

Keiji Kiriya acordando após mais um loop
Apresentando a história do recruta Keiji Kiriya em sua primeira luta na frente de batalha do seu pelotão contra os Mimetizadores, raça alienígena que atacou o nosso mundo com o objetivo direto de dominá-lo como a uma presa, o livro aborda a mudança causada no personagem a partir do momento em que este adquire um dos poderes dos seres inimigos, o qual faz com que ele volte no tempo até um dia antes de sua morte toda vez que ele cai em confronto. Com um estilo similar ao do filme de comédia de 1993, ''Feitiço do Tempo'', o protagonista se vê preso em uma rotina repetitiva cujo fim sempre termina por levá-lo de volta ao começo. Revivendo centenas de vezes o combate, o ingênuo Kiriya vai se tornando mais frio e calculista, uma vez que retinha todas as experiências das mortes anteriores e continuava fadado a experimentá-las continuamente. Transformando-se de um soldado novato em especialista, o personagem apresenta o desumanismo provocado pelo cenário caótico da guerra e os frequentes encontros com a morte, elemento apontado com grande pesar pelo escritor e veterano soldado alemão Erich Maria Remarque em sua obra de 1929, ''All Quiet on the West Front'', acerca da experiência alemã na Primeira Guerra Mundial.

Acima, a representação dos Mimetizadores no filme, abaixo a versão do mangá
No decorrer da trama, Kiriya conhece pessoalmente outra oficial que teria passado por experiência similar à sua com o loop do campo de batalha, a norte-americana Rita Vrataski. Apelidada em batalha de 'Valquíria' e empunhando um longa e pesada lâmina, ela lhe explica a origem do fenômeno pelo qual está passando e o ajuda a treinar para que, juntos, possam eliminar os Mimetizadores responsáveis pela salvaguarda do grupo inimigo ao gerar a viagem no tempo para que possam se reorganizar e se defender melhor dos ataques humanos. Diante da realidade grotesca das guerras e as inúmeras baixas que se repetem a cada novo loop, eles se veem confrontados por uma determinação que talvez seja a única forma de romper a repetição e terminar a batalha, mas isso não será realizado sem grandes sacrifícios.

Tendo iniciado a desenvolver sua história a partir da experiência que leu de um jogador de videogame onde o seu personagem ressurgia nos checkpoints depois de morrer em uma parte mais avançada da fase, mas com maior experiência e entendimento do que viria a encontrar mais pra frente, o autor Hiroshi Sakurazaka procurou observar o outro lado dessa dinâmica e avaliar os efeitos que esse contínuo retorno teria em um indivíduo na linha de frente de combate. Muito menos luxuosa do que alguns poderiam presumir, a história dá um enfoque dramático e aterrorizante no ciclo de mortes sem fim testemunhado por Kiriya.

O mangá produzido a partir da light novel adquiriu grande popularidade pela arte de Takeshi Oda, responsável por renomados outros títulos como ''Death Note'' e ''Bakuman'', e foi publicado em duas revistas no Japão, a ''Weekly Young Jump'' e a ''Weekly Shonen Jump'', sendo trazido para as bancas brasileiras pela editora JBC em dezembro do mesmo ano. Com bastante dinamismo nas cenas e uma abordagem tensa dos efeitos psicológicos no personagem principal, ''All You Need is Kill'' agradou bastante ao público e conseguiu ter boa visibilidade no estande da editora na ComiCon XPerience em São Paulo.

O filme, renomeado para ''Edge of Tomorrow'' (em português, ''No Limite do Amanhã''), foi um grande responsável por trazer os holofotes para a história de Hiroshi. Dirigido por Doug Liman, reconhecido por seu trabalho no filme ''Identidade Bourne'', e estrelado por Tom Cruise e Emily Blunt, o filme arrecadou mais 100 milhões de dólares só dentro dos Estados Unidos e mais que o dobro disso no resto do mundo. Com uma pegada um pouco diferente da narrativa original, o filme apresenta a perspectiva do major Willian Cage, uma figura mais pública que ativa no combate aos Mimetizadores, que acaba sendo enviado para o campo de batalha contra sua vontade e que se vê preso ao loop temporal logo em sua primeira investida. Em meio ao ciclo repetitivo de morte em ação, Cage conhece Rita, apresentada então como 'o anjo de Verdun', uma vez que a trama se desenrola em terras europeias ao invés da original nipônica. Ela o treina e, juntos, traçam um plano para destruir os Mimetizadores que vinham provocando o caos na França e Alemanha. Diferente da versão original, a trama não alcança o clímax que o mangá apresenta, mas apresenta um ambiente menos hospitaleiro que rende uma boa evolução na personalidade dos personagens. A trilha sonora, também, ficou marcada como um elemento fundamental para o filme e foi um dos grandes pontos positivos da produção, conforme é possível conferir no trailer abaixo. Forte concorrente a uma das trilhas sonoras mais notáveis de 2014.

 
A atuação de Emily Blunt esteve excelente no filme
Em ambos, a personagem de Rita Vrataski é emblemática e expõe a ruptura com a visão conservadora das mulheres no campo de batalha. Forte, segura e determinada, a personagem representa grande parte da evolução da história e é tão protagonista da história quanto Kiryia ou Cage. Carismática, ela é respeitada por companheiros e superiores, e no filme, é uma das personagens melhor representadas, em compasso com sua participação no mangá.

O filme rendeu, ainda, outra adaptação para as história em quadrinhos, desta vez em volume único, pela dupla Nick Mamatas e Lee Ferguson, produzida nos Estados Unidos a partir da trama original. Publicada pelo grupo editorial Viz Media, responsável em 2009 pela tradução do original de Hiroshi e de outras centenas de obras japonesas para o inglês, a edição mantém-se inédita no Brasil. Tanto o mangá quanto o filme e a graphic novel saíram por volta da mesma época, no primeiro semestre de 2014 e impulsionaram uma discussão mais ampla sobre a possibilidade de mais mangás e light novels serem adaptadas para os cinemas norte-americanos, trazendo assim maior atenção para seus autores e para a mídia, muitas vezes marginalizada por uma imagem pública demasiado infantil.


A quem tiver interesse em conferir uma entrevista de Hiroshi Sakurazaka para o portal Japan Times acerca da produção em cima de sua obra estreando nas grandes salas de cinema, o link segue aqui. O site Anime News Network também fez uma matéria interessante sobre o sucesso alcançado pelo filme ''No Limite do Amanhã'', que pode ser conferida aqui. Para concluir, o site The Motley Fool preparou uma matéria interessante sobre a graphic novel do ''All You Need is Kill'', da Viz Media, que pode ser conferida aqui.

NOTA GERAL (FILME): 4 ESTRELAS.
NOTA GERAL (MANGÁ): 4,5 ESTRELAS.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

A Era dos Vingadores

Por Gabriel Guimarães


A fim de não estragar a percepção do filme àqueles que querem ter suas impressões próprias nas poltronas das salas de projeção, procuraremos aqui apresentar uma resenha adequada acerca dos valores apresentados no filme e o que pode-se ponderar a partir dos eventos ocorridos neste. As principais revelações ficarão a cargo do filme em si, mas ainda assim, apresentaremos aqui uma análise concisa e imparcial acerca do filme "Vingadores 2 - A Era de Ultron". Dito isto, prossigamos.

Joss Whedon encerra sua passagem
como diretor dos Vingadores neste filme
O mais novo filme da Marvel estreia nos cinemas brasileiros esta semana com o objetivo de apresentar uma nova fase do universo cinematográfico dos personagens da editora. Enquanto a primeira produção fez questão de apresentar o laço que permeou a primeira leva de filmes produzidos pelos estúdios da gigante dos quadrinhos, este segundo surge para consolidar essa marca em expansão e explorar ainda mais as possibilidades que essa junção pode produzir. Para tanto, a Marvel tem feito uso de um procedimento meticuloso na divulgação do material relativo à película, apresentando muitos estímulos aos fãs exigentes e ansiosos por novidades de seus queridos heróis, ao mesmo tempo em que se reservou o direito de guardar elementos surpreendentes e agradáveis para a experiência particular dos espectadores do cinema.

O filme apresenta os Vingadores em um momento diferente daquele em que os encontramos na primeira aventura conjunta dos personagens. Outrora submetidos aos interesses governamentais que os uniram em um primeiro momento, os heróis agora já carregam consigo seus próprios emblemas e cicatrizes de batalha unida. Como equipe, eles já estão mais aptos a defender os inocentes, e sua dinâmica em campo é um elemento de grande qualidade, inclusive. Iniciando o filme com uma pegada bem acelerada e com boas doses de ação, o público encontra os seus heróis na cidade europeia de Sokovo, já em meio a uma missão de apreensão do cetro de Loki, algo que já foi bastante explorado no filme anterior, mas cujo potencial é muito maior do que apresentado até então.

A cena do trailer sobre Mjolnir, o martelo do Thor, tem mais
 importância do que parece ao longo do filme
Abordando de forma instigante as particularidades dos personagens em si e seus relacionamentos uns com os outros, o filme aprofunda um pouco mais a história de alguns heróis pouco trabalhados até então, ao mesmo tempo em que dá uma sensação de amadurecimento a outros cujos passos já vínhamos seguindo nos últimos anos. Conflitados por fantasmas do passado distante e presente, os personagens precisam se redescobrir nesse filme, colocando em xeque os conceitos sobre os quais viveram e se constituíram. Em meio a isto, a ameaça de Ultron surge de forma desproposital, provocando novas rusgas que mais tarde se tornam mais intensas no filme.

O relacionamento de Bruce Banner e Natasha
Romanoff é um dos pontos altos do filme
Aproveitando-se disso, o ser artificial pretende levar a cabo o desejo de proporcionar um mundo sem guerras de seu criador, Tony Stark, de uma forma agressiva que não havia sido ponderada inicialmente. Em meio ao caos que o robô pretende abater sobre o mundo, ele acredita que a humanidade há de evoluir para estar apta aos novos desafios. Determinados a impedir os planos de Ultron antes que seja tarde, os heróis seguem os pequenos rastros deixados para trás que os levam até o mercenário Ulysses Klaw, interpretado pelo versátil ator Andy Serkis, detentor do raro metal Vibranium, retirado das selvas de Wakanda. Ao chegarem a ele, porém, os heróis são confrontados com o vilão que subentitula o filme e seus dois parceiros, os gêmeos Pietro e Wanda Maximoff. Em uma empolgante sequência, Thor, Viúva Negra e Capitão América são submetidos a lutar contra alguns de seus maiores receios e dores, enquanto o Gavião Arqueiro, Homem de Ferro e Hulk acabam tomando parte em outros eventos igualmente alarmantes, rendendo cenas de grandes qualidade e emoção.

Clint Barton ganhou bastante
destaque nessa continuação
Abalados pelo conflito, os heróis reavaliam a proposta da existência do grupo, abrindo margem para consequências relevantes para a cronologia cinematográfica dos estúdios, as quais já podem ser conferidas no desenrolar deste filme e nos próximas produções, como "Capitão América - Guerra Civil" e "Thor - Ragnarok". Tratando discussões sobre legado como algo de interesse dos heróis, tanto social quanto pessoal, o diretor Joss Whedon traz à tona traços de personalidades mais humanos a personagens até então fechados, como a Viúva Negra e o Hulk, mas, principalmente, o Gavião Arqueiro. Uma vez que seu intérprete, Jeremy Renner, apresentara válido descontentamento com a falta de características de seu papel, ele agora adota um tom humano que ajuda a contrabalançar o grupo de superseres, o que o torna um elemento de destaque neste filme.

Observando Ultron procurar por mais poder para executar seus planos, os heróis são obrigados a combatê-lo de forma contínua, ao mesmo tempo em que os novos personagens Pietro e Wanda amadurecem em cena, percebendo que nem tudo é o que parece, passando a reavaliar sua participação no processo de erradicação da humanidade. Trazendo, então, outros elementos novos e instigantes acerca da inteligência artificial, o filme apresenta um de seus mais potencialmente poderosos personagens, o androide Visão. Entrar em maiores detalhes seria privar o público da experiência estimulante apresentada nas telas do cinema, então, apenas deixamos o convite para que a história em si possa ser conferida na íntegra por cada espectador a fim de que proporcione conclusões individuais e momentos de diversão e animação ímpares.

O filme é, portanto, uma obra de transição, em suma. Ele encerra um ciclo que vinha sendo conduzido com paciência e abre uma nova fase que demonstra desde já agitação tanto dentro de cena quanto fora dela. Os estúdios, percebendo a reação de êxtase do público, vem se aproximando de seus admiradores e criando um universo empolgante e cheio de possibilidades para o futuro, que parece muito animador. O trabalho com o principal vilão do filme, feito de forma mais sutil e cômica do que se supunha, dialoga principalmente com as expectativas dos personagens para o universo no qual estão inseridos e na sequência de suas respectivas histórias. Se a ansiedade do público ao longo do processo de divulgação desse projeto foi magnífica, com destaque para o estande montado pela Marvel na ComiCon XPerience de 2014, (cuja cobertura completa pode ser conferida aqui no blog), o que está por vir certamente deixará os afincos espectadores dos estúdios da editora e os fãs desses extraordinários heróis no limite de suas cadeiras, envolvidos e emocionados com um projeto midiático que vem marcando época e é fonte de ricas observações para o papel desempenhado por esse material na vida de seus admiradores

"Eu vejo um novo começo de Era..."
NOTA GERAL: 4 ESTRELAS.

domingo, 7 de dezembro de 2014

ComiCon XPerience: DIA 4

Por Gabriel Guimarães


Estande imenso dedicado ao épico escrito por J.R.R.Tolkien
O último dia da ComiCon XPerience iniciou bem cedo suas atividades. Com fila quilométrica de pessoas para conferir a pré-estreia do terceiro filme do épico da Terra Média "O Hobbit - A Batalha dos Cinco Exércitos" e uma conversa exclusiva com o ator Richard Armitage, que interpreta o valente personagem Thorin Escudo de Carvalho, que começa a ser corrompido pelo poder sobre a montanha de seus ancestrais. Durante a execução dessa conversa e exibição ocorreram alguns problemas quanto à informação disponibilizada acerca do número de assentos disponíveis para o público. Conturbados, alguns fãs se sentiram desorientados, porém, a maioria demonstrou compreensão com o ineditismo do modelo de evento que está sendo realizado e procurou opinar com os voluntários sobre como a experiência poderia ser melhor conduzida nesse âmbito individual.


Uma amostra de que esses comentários estavam sendo levados a sério foi a mudança na organização dos ingressos de entrada para o pavilhão. Ainda que também encontrasse alguns problemas, a situação daqueles que estavam com o ingresso online adquirido em mãos puderam encarar uma fila bem mais ágil em relação ao dia anterior. Em contrapartida, aqueles que já estavam com o ingresso físico em mãos tiveram que esperar do lado de fora por tempo demasiadamente longo. Ainda que esse trabalho tenha sido ineficaz em termos gerais para autorizar a entrada do público, os organizadores do evento e responsáveis por esse serviço demonstram estar atentos aos visitantes e suas queixas, a fim de verdadeiramente aprimorar a experiência de todos os amantes da cultura nerd internacional.

Na área dos artistas, muitos quadrinhos independentes ganharam destaque, como "O Caminho", de Roberto Souza; "Justiça Sideral", de Deyvison Manes e Netho Diaz; "2X10" de Sam Hart e Will Sideralman; e "Pátria Armada", de Klebs Junior. No estande da editora Jupati, ainda foram lançados os livros  "Magias e Barbaridades - O Tomo de Edmund", de Fabio Cicconel, e "Logan Para Ler no Sofá", de Flávio Soares. Os autores de todo esse material estiveram presentes e autografaram várias edições para os visitantes interessados em conferi-los. Outros autores aproveitaram ainda o ambiente especializado para entregar seu conteúdo financiado pelos portais de crowdfunding àqueles que participaram do processo de captação do investimento necessário para a impressão de suas respectivas obras.

Deyvison Manes e Netho Diaz apresentaram em um estilo muito bem
acabado a primeira história impressa de sua webcomic "Justiça Sideral"

"A Ilha Proibida" foi um jogos que a Devir
convidou o público para jogar e conferir
No estande do curso Meliés, foi disponibilizado para as pessoas testarem o óculos de realidade virtual que tem atraído o interesse de muitos gamers ao redor do mundo. Com uma simulação de montanha russa, mesmo quando as pessoas estavam paradas, a sensação de movimento as fazia reagir de acordo com os estímulos do dispositivo, rendendo boas risadas. O estande da Devir contou também com jogos de tabuleiro novos da empresa, sendo disponibilizados para os visitantes poderem participar e conhecer um pouco mais da sua dinâmica. Com a recente procura por novos jogos de tabuleiro, o mercado tem se mostrado mais aberto aos novos títulos que unem a temática do clássico Role Playing Game com jogos clássicos.

Infelizmente, o dia foi terminando e com ele, se encerrou a primeira edição da ComiCon XPerience. Tendo oferecido ao público tantos momentos bacanas de interação com os profissionais e o conteúdo que tanto admiram, o evento foi um tremendo sucesso e, se Deus quiser, será o estandarte para marcar o início de uma nova fase da percepção do mercado sobre o interesse do público brasileiro nos conteúdos midiáticos nerds. Àqueles que puderam conferir o evento neste último dia, resta agora a saudade (que, porém, já conta com data certa para ser saciada - 3 a 6 de dezembro de 2015) e a certeza de que, em meio a tantos problemas vividos no Brasil, foi possível viver quatro dias de muita ação e diversão com pessoas interessantes e profissionais dedicados, algo que gerou incontáveis boas experiências para serem sempre lembradas. Encerro, então, a cobertura do evento com grande satisfação e nenhuma dúvida de que tudo que foi vivido na CCXP 2014 #FoiÉpico.
  

sábado, 6 de dezembro de 2014

ComiCon XPerience: DIA 3

Por Gabriel Guimarães




Conforme se esperava, o terceiro dia da ComiCon XPerience foi o mais especial até o momento. Com a aguardada presença de Maurício de Sousa, o evento aumentou o grau de proporção dos elementos que compunham os estandes e os painéis. O que estava sendo realizado em grande escala, ficou ainda maior, e o público que já era volumoso se multiplicou consideravelmente. Para administrar tanto, o evento apresentou alguns pequenos deslizes no que diz respeito ao acesso para quem chegava para conferir o pavilhão, carecendo de certas doses de paciência para encarar as constantes filas. Em contrapartida, o dia foi pleno de oportunidades para o público se conhecer melhor e ver algumas de suas grandes paixões ganharem vida em réplicas ou figurinos minuciosamente trabalhados pelo público de cosplayers.

NOTA: Apesar dos pormenores, vale destacar que os organizadores priorizaram o bom senso em relação ao lucro puro e simples para esse dia do evento, uma vez que restringiram o acesso ao São Paulo Expo para 25 mil pessoas, mesmo com uma capacidade oficial de 40 mil - dessa forma, o público presente não estaria enclausurado em um espaço lotado e as pessoas puderam caminhar entre os estandes e conversar com expositores e autores com maior tranquilidade. Poucos teriam tido esse cuidado com o valor da experiência dos visitantes, colocando, pelo contrário, como mais importante os rendimentos financeiros do projeto. Um agradecimento oficial é o mínimo que estes profissionais merecem pela boa administração desse fator.

Jovem Nerd tirando fotos com o público
Em um dia onde dois dos maiores portais de notícias e entretenimento do Brasil na internet finalmente se encontraram, o grupo de profissionais do Omelete e do Jovem Nerd provocaram grandes emoções nos seus muitos fãs. Recebendo o público com bom humor e descontração, Marcelo Forlani, Eduardo Borgo, Alexandre Ottoni e Deivi Pazos interagiram o dia inteiro com os fãs desde os corredores até o painel onde foram discutidas as expectativas para o próximo filme da série Star Wars. Tal como os demais paineis deste dia, entre os quais figuraram as próximas novidades da editora Marvel para o cinema com direito a vídeo direto para a CCXP gravado pelo diretor e roteirista Joss Whedon, a lotação do auditório foi praxe.

O estande de Star Wars também foi destaque com cosplays e réplicas perfeitas
Durante o painel da Marvel, um fã brasileiro conquistou, ainda, uma premiação desejada por todos os presentes - ao acertar todas as gemas do Infinito utilizadas por Thanos para enfrentar os heróis da editora nos quadrinhos, este ganhou uma viagem para a premiére do filme "Os Vingadores 2 - A Era de Ultron" em Londres, além de contar com o acesso para conhecer todo o elenco de frente. Outras atividades também ganharam destaque, como a oficina de roteiro com o americano Scott Snyder e um panorama do trabalho editorial com histórias em quadrinhos no Brasil com Sidney Gusman, além de um debate muito interessante realizado no estande da editora JBC com Guilherme Kroll, Cassius Medauer e Fabiano Denardin acerca da publicação de mangás no país.

Maurício recebe placa comemorativa
Entretanto, um dos grandes assuntos do dia foi a homenagem ao quadrinista Maurício de Sousa, que chegou incógnito ao evento com uma máscara de Coringa e apenas se revelou no momento em que foi requisitado. Tendo colaborado com parte fundamental para a história da arte sequencial brasileira, Maurício teve ainda a oportunidade de ver o público criar filas enormes para adquirir os recentes lançamentos da série Graphic MSP com seus personagens de tantas décadas. Danilo Beyruth, Cris Peter, Eduardo Damasceno, Lu  e Vitor Caffagi e Gustavo Duarte, dentre os já publicados autores nessa linha, estiveram presentes para autografar as edições levadas pelo público, que também já teve a oportunidade de conhecer os autores que estarão lançando os volumes seguintes dos personagens de Maurício, como Paulo Crumbim (que fará o "Penadinho" juntamente com sua esposa Cristina Eiko) e Roger Cruz (que substituiu Greg Tocchini na arte da "Turma da Mata").

O evento teve algumas notas negativas em termos de visitantes que pareciam alheios a normas de bom convívio e educação em sociedade, algo que não havia sido tão observado nos dias anteriores, entretanto, esse elemento é quase uma nota de rodapé em meio aos tantos elogios e bons momentos apresentados ao público verdadeiramente dedicado que lá esteve presente. Afinal de contas, #EstáSendoÉpico