quinta-feira, 10 de setembro de 2015

XVII Bienal - Oito Capítulos de Paixão Literária

Por Gabriel Guimarães




"Quando Tudo Começou" é mais um livro entre os bons lançamentos
da Nemo em 2015 e que chegou ao mercado durante a Bienal
No oitavo dia da XVII Bienal Internacional do Livro no Rio de Janeiro, o dia foi de movimento moderado, em essência. Fora das excursões escolares, o público mais dedicado que esteve presente nos Pavilhões do Rio Centro foram com objetivos previamente traçados, como conferir a sessão de autógrafos da autora Bruna Vieira e da quadrinista Lu Cafaggi no estande do Grupo Autêntica, pelo qual publicaram sua parceria, o livro recém-lançado "Quando Tudo Começou". Focando em experiências pessoais de Vieira durante sua juventude e ilustrado com a sensibilidade característica do trabalho da desenhista mineira, a obra apresenta com leveza certos dilemas vivenciados por muitas jovens durante sua fase de mocidade e é certamente um exemplar que vale a pena ser conferido.

Outro evento que atraiu muitos leitores foi o debate com os autores Eduardo Spohr e Bráulio Tavares acerca da narrativa no gênero da literatura fantástica, realizado no espaço Cubovoxes. Tal qual foi feito com o autor Jeff Kinney, o evento foi gravado e transmitido via Periscope ao vivo, e pode ser conferido ainda neste link aqui.

Bráulio Tavares e Eduardo Spohr no Cubovoxes
Alguns estandes, ainda, trouxeram material de arte sequencial interessante, como foi o caso da Livraria Francesa, que contou com peças de "Tintin", de Hergé, e "Asterix", de René Goscinny e Albert Uderzo, em sua língua original. O acabamento privilegiado, característica já do mercado de quadrinhos francês, só não foi mais admirado por conta do preço elevado do material em função da valorização do Euro diante da fase delicada da economia brasileira. O que poderia ser uma oportunidade de conferir artigos de grande qualidade e valor cultural acaba se tornando um luxo que precisa ser avaliado várias vezes antes de se adquirir, infelizmente. Ainda assim, uma visita ao estande recompensa por ver a bela forma como a bandé desinée é encarada nos mercados de além do oceano.

Em contrapartida, uma iniciativa muito bacana que tem rolado a Bienal toda foi a do estande da Sextante, que, em meio à moda recente dos livros de colorir, disponibilizou um espaço para visitantes de todas as idades saírem pintando imagens que vão desde as páginas de revistas às paredes de um quarto montado especificamente para o evento, com imagens dos personagens de Maurício de Sousa e elementos ornamentais. Com esse viés, a editora também lançou mais duas edições da Turma da Mônica e da Tina com essa proposta, que podem ser conferidos no estande.

Amanhã, começa, de fato, a reta final, de mais essa edição da Bienal, mas o evento ainda certamente reserva grandes experiências nos dias por vir. Nos vemos lá!

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

XVII Bienal - Sete Dias de Jornada

Por Gabriel Guimarães


O sétimo dia da XVII edição da Bienal Internacional do Livro no Rio de Janeiro foi um dia majoritariamente dedicado aos alunos de colégios em excursão nos três Pavilhões do evento. Aproveitando muitas ofertas nos corredores e estandes laranjas, o público infantil se sentiu prestigiado, podendo ainda conferir a exposição em homenagem aos 80 anos do quadrinista Maurício de Sousa. Com exemplares de amostra dos lançamentos recentes protagonizados pelos personagens da Turma da Mônica, Astronauta, Horácio, entre as muitas criações do desenhista paulistano, a exposição ofereceu aos jovens a oportunidade de conhecer mais das raízes do desenhista e suas novas empreitadas no mercado, como a "Turma da Mônica Jovem" reinterpretando a clássica lenda de Troia, em volume trabalhado todo em cordel e publicado pela editora Melhoramentos.


Editoras, ainda, como a L&PM ofereceu títulos no formato pocket de personagens clássicos, como "Recruta Zero", de Mort Walker, "Hagar, O Terrível", de Dick Browne, e "Radicci", do brasileiro Iotti; e adaptações de clássicos da literatura para o estilo mangá, como "Os Irmãos Karamazov", de Fiódor Dostoiévski, e "A Interpretação de Sonhos", do psiquiatra Sigmund Freud; além de livros e mangás de forte apelo ao público de jovens adultos, como "Além do Tempo e Mais um Dia", da brasileira Lu Piras, e "Solanin", de Inio Asano (obra esta que já comentamos aqui no blog antes).

Outro estande interessante foi o da editora Zahar, disposto em um palanque de altura maior que os demais, com uma área interna para leitura, e com muitas obras de fantasia relançadas em formato mais cuidadoso, além de também contarem com versões pocket, como as clássicas obras de Alexandre Dumas e Edgar Rice Burroughs. Quase em frente a esse estande, a editora Leya disponibilizou o trono de ferro da série televisiva "Game of Thrones", baseada nos livros do escritor George R. R. Martin, o que cativou a atenção dos jovens estudantes, que fizeram fila para tirar fotos sentados na réplica.

Com o término da primeira semana de evento, a Bienal começa a se direcionar para o encerramento neste final de semana, mas certamente ainda há o que conferir no Rio Centro, palco dessas grandes experiências dos últimos dias. Até lá, #PartiuBienal!

terça-feira, 8 de setembro de 2015

XVII Bienal - Seis Epopeias Literárias

Por Gabriel Guimarães


O sexto dia da XVII Bienal Internacional do Livro no Rio de Janeiro foi menos lotado que os anteriores, porém, igualmente movimentado. Os maiores estandes do Pavilhão Azul receberam atenção, com destaque para o do Grupo Editorial Record, que levou seus títulos baseados no popular game "Assassin's Creed" e na HQ/série de televisão "The Walking Dead". Em algumas de suas prateleiras, dentro do estande, estiveram dispostos, ainda, os álbuns do personagem de quadrinhos "Asterix", de René Goscinny e Albert Uderzo, e manuais referentes ao universo ficcional de "Star Wars". Os descontos no estande eram condicionados pela compra de um determinado número de volumes, mas uma visita ao estande é recomendada.

Localizado no mesmo corredor central, o estande do selo Companhia das Letras é outro que vale uma visita. Com estantes dedicadas a cada um de seus respectivos selos editoriais, desde a Suma de Letras (que conta com grande acervo de obras do popular e aterrorizante escritor Stephen King) até a Quadrinhos na Companhia, com títulos clássicos do quadrinista norte-americano Will Eisner (que já foi homenageado em diversas ocasiões aqui, aqui e aqui no blog) e a adaptação para os quadrinhos do livro do amazonense Milton Hatoum, "Dois Irmãos", feita propositadamente pelos irmãos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá e lançada recentemente no mercado.


Contando com menos espaço que estes dois, mas ainda assim uma área bastante considerável, o Grupo Autêntica, do qual o selo Nemo faz parte, também se encontra no Pavilhão Azul, com clássicos europeus como a sua primorosa Coleção Moebius e volumes como "Companheiros do Crepúsculo", de François Bourgeon; conteúdo produzido primeiro na internet brasileira, como são os casos de "Bear", da quadrinista Bianca Pinheiro, e "Como Eu Realmente", ilustrado e escrito por Fernanda Nia; e novos títulos de questionamento e mudança de perspectiva cultural, como "O Mundo de Aisha", de Ugo Bertoti, "Uma Metamorfose Iraniana", de Mana Neyestani, e "Pílulas Azuis", do francês Frederik Peeters (este último, que, inclusive, já foi adaptado para o cinema ano passado, e cuja página no IMDB pode ser conferida aqui). O estande ainda conta com um grande lote de livros e quadrinhos a preços convidativos, valendo ressaltar a presença, entre estes, dos títulos de "Boule & Bill", criados pelo belga Jean Roba e atualmente produzidos pelo seu outrora assistente Laurent Verron, que conseguiu levar os personagens às telas de cinema e até para videogames.

Concluindo os destaques deste Pavilhão de hoje, o estande da PubliFolha, em meio aos seus temas principais de turismo e culinária, apresentou também 3 títulos interessantes de arte sequencial, publicados pelo seu selo Três Estrelas, "Trinity - A História da Primeira Bomba Atômica em Quadrinhos", de Jonathan Fetter-Vorm, "O Golpe de 64", dos brasileiros Oscar Dilagallo e Rafael Campos Rocha, e "A Morte de Stálin", da dupla Fabian Nury e Thierry Robin. Apesar de não haver desconto nesses itens, sua presença no estande aponta que a editora está começando a se aventurar na nona arte e um potencial crescimento nesse segmento poderia ser bastante interessante, principalmente levando em consideração a diversidade de fontes dos trabalhos publicados por eles até o momento. Que este seja apenas o início!

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

XVII Bienal - Cinco Vogais de Uma Longa Jornada

Por Gabriel Guimarães



A Argentina foi o país homenageado nesta XVII Bienal Internacional do Livro no Rio de Janeiro, com espaços especiais preparados para apresentar ao público no Pavilhão Verde a história de alguns dos autores de maior renome do país, como Adolfo Bioy Casares e Jorge Luis Borges. A fim de aproveitar também a forte cultura literária do nosso vizinho latino, os organizadores montaram uma área no Pavilhão Azul para realizar debates e palestras (onde, ontem, os cartunistas Ziraldo e 'Tute' estiveram presentes), com detalhes dos trabalhos de vários quadrinistas argentinos em cada banco disposto para que os visitantes que ali repunham suas energias ou sentavam para conferir a programação. Ao mesmo tempo, obras do país ganharam destaque nos estandes das editoras, como é o caso das antologias de contos urbanos fantásticos do pseudônimo Bustos Domeq na editora Globo; as coletâneas de Mafalda e os volumes do "Eternauta" na Martins Fontes; o livro "O Segredo dos seus Olhos", do escritor Eduardo Sacheri, pelo selo editorial Suma de Letras, da Companhia das Letras, entre muitos outros. A quem interessar conferir, o portal argentino AIM Digital comentou sobre o evento e sua postura quanto à cultura do país, e a matéria pode ser conferida aqui.
Entretanto, a quinta parte da Bienal não contou apenas com as boas notícias da parte do país homenageado. Em mais um dia de muito público, o estacionamento novamente deixou a desejar em termos de organização e o trânsito ao redor do Rio Centro apresentou mudanças que tornaram caótico o trajeto de quem chegava e saía do evento. Esperar em filas, tanto de carros quanto de pessoas, infelizmente, acabou sendo a ordem do dia.

Inteiramente alheios aos problemas externos, os estandes atenderam muito bem ao público, principalmente levando em consideração o fato de que o o limite dos espaços referentes a cada editora se encontrava excedido em sua grande maioria. Inspecionando mais a fundo, os estandes de maior sucesso no dia foram os pertencentes a sebos, como a Livraria São Marcos, a PromoLivros e o 'Feira de Livros', cada um com grandes ofertas em materiais da arte sequencial, indo desde encadernados importados de "Walking Dead", dos americanos Robert Kirkamn e Charles Adlard, passando por muitos qualificados livros teóricos da editora Criativo como "Eisner/Miller", chegando às edições nacionais da adaptação para os quadrinhos europeus da obra "Em Busca do Tempo Perdido", clássico escrito por Marcel Proust.

Outro destaque foi uma a área montada pela Coca-Cola no Pavilhão Verde que vendia garrafinhas pequenas personalizadas com o nome dos visitantes no ato da compra destas. O material, parte de promoções passadas da empresa, era vendido a R$6,00 e oferecia, ainda, a opção do comprador  adquirir, junto de quatro garrafinhas, uma miniatura do engradado onde os refrigerantes, de fato, são guardados em muitos restaurantes. O objeto foi bastante requisitado, em especial por famílias, que procuravam aproveitar a oportunidade de eternizarem nomes menos usuais nas garrafinhas para guardarem para si ou para presentearem amigos e conhecidos.

Um dia muito agitado, mas gratificante - assim, pode-se caracterizar mais este dia de Bienal. Ultimamente, pode parecer que ressaltamos os problemas estruturais do evento em detrimento de focar na experiência de dentro dos Pavilhões em si, contudo, visamos realizar uma análise integral do evento, e apenas pesando os prós e os contras, podemos ter uma consideração adequada de todos os fatores que constituem a Bienal em sua integralidade. Uma vez mais nos despedimos por aqui, ressaltando que o evento ainda reserva muito para os próximos dias desta semana, e esperamos poder encontrá-los lá!

domingo, 6 de setembro de 2015

XVII Bienal - Quatro Linhas de Prosa e Verso

Por Gabriel Guimarães
 

Ziraldo e 'Tute' falaram sobre quadrinhos
no estande da Argentina
O quarto e mais lotado dia da XVII edição da Bienal Internacional do Livro no Rio de Janeiro foi marcado por muitas atividades para engajar o público. Além do comércio dos estandes, o dia foi marcado por duas palestras focadas na arte sequencial, a primeira realizada no estande da Argentina, país homenageado pelos organizadores do evento, com a participação do cartunista Ziraldo e do quadrinista argentino Juan 'Tute' Matías Loiseau; a segunda, ocupou o Café Literário, e teve participação dos gêmeos paulistas Fábio Moon e Gabriel Bá, Tiago 'Elcerdo' Lacerda, um dos organizadores da revista "Beleléu" e o cartunista Allan Sieber.

Na área Conexão Jovem, onde autores apresentam um pouco de sua trajetória pessoal com o público, o destaque ficou por conta do norte-americano Jeff Kinney, criador da série "Diário de um Banana", e o escritor Eduardo Spohr. Kinney apresentou sua raiz na nona arte e atendeu a muitos jovens leitores, proporcionando uma ótima experiência a todos que estiveram presentes (àqueles que não puderam conferir ou que queiram conferir mais a fundo como foi o papo, a página da Bienal no Facebook compartilhou um link de transmissão simultânea ao vivo via Periscope - a gravação pode ser conferida no link aqui).

Se, do lado de dentro dos Pavilhões do RioCentro, o ambiente era muito agradável e estimulante, o gerenciamento do estacionamento deixou muito a desejar, com confusão no direcionamento dos carros e falta de orientação dos funcionários sobre registro dos veículos deixados no local. Com o elevado gasto de cada visitante com o serviço, este poderia ser melhor organizado, principalmente levando em consideração as obras sendo feitas nas principais vias de acesso e as complicações decorrentes disso.

Os leitores ainda puderam se encontrar com alguns de seus autores favoritos hoje, como Maurício de Sousa em frente ao estande da Panini, Raphael Draccon no espaço Cubovoxes e Afonso Solano no estande da editora Leya, assinando seu livro "Espadachim de Carvão". Neste último estande, ainda, foi disponibilizado um fliperama temático para os visitantes poderem se divertir jogando um game de batalha espacial, em alusão ao lançamento da editora, "Armada", segundo livro do escritor norte-americano Ernest Cline, que teve também seu primeiro livro, "Jogador Nº1", relançado com novo design.


O dia foi o de maior movimento até agora nesta edição da Bienal
Para os fãs do gênero de terror, ainda ocorreu um debate aberto no estande do site de comércio online Submarino com os escritores Alexandre Callari e Cesar Bravo, que já foram publicados pela editora DarkSide, onde comentaram sobre suas origens e relação com o tema e as novas facetas desse gênero literário no Brasil e no mercado editorial.

O dia foi muito agitado, mas certamente recompensador para aqueles que estiveram presentes para vivenciá-lo. E você, o que está esperando? #PartiuBienal

sábado, 5 de setembro de 2015

XVII Bienal - Três Volumes de Paixão Literária

Por Gabriel Guimarães



O público do terceiro dia da XVII Bienal Internacional do Livro na cidade do Rio de Janeiro foi compareceu em massa ao evento, gerando alguma demora em filas, contudo, o dia reservou grandes experiências e oportunidades àqueles que visitaram o Rio Centro nesta manhã/tarde/noite de condições climáticas desfavoráveis. Se, do lado de fora dos Pavilhões, o vento era implacável e tornava o uso de casacos e jaquetas obrigatório, do lado de dentro destes, o fator humano esquentou muito o dia dos autores e profissionais do mercado editorial brasileiro.

Edições da Mafalda vendidas
no estande da Martins Fontes
Contando com muitos escritores tupiniquins, como Ana Luisa Piras, Raphael Montes, Thalita Rebouças e Ana Lúcia Merege, os estandes promoveram muitas sessões de autógrafos, além de apresentarem grande acervo de obras importadas e ainda inéditas aqui no Brasil. A loja Saraiva, por exemplo, apresentou quatro estantes com prateleiras abarrotadas de encadernados norte-americanos das gigantes Marvel e DC, junto de obras que exploram o imaginário do leitor, como a clássica trilogia "Senhor dos Anéis", do escritor britânico John Ronald Reuel Tolkien. Coleção esta que encontra-se disponível também no estande da editora Martins Fontes, que conta com alguns grandes quadrinhos do país homenageado dessa edição da Bienal, como os dois volumes de "Eternauta", da dupla Hector Oesterheld e Francisco Solano López (este último que já foi homenageado aqui no blog), fora a coleção extraordinária e diversificada de tiras da personagem Mafalda, de Quino. Juntando-se a eles, encontra-se o lançamento da editora "Maurício - O Início", com os primeiros livros infantis produzidos pelo quadrinista Maurício de Sousa.

Show apresentado para as crianças no
O próprio quadrinista, inclusive, esteve presente na Bienal hoje, em atividades constantes nos estandes das editoras Sextante, Girassol e Panini. O público infantil e adulto ficou muito animado com a oportunidade de ver de perto o quadrinista, e ainda pode conferir um pequeno show dedicado às crianças, no palco onde poetas vinham declamando seus versos ao público nos dias anteriores.

As peças do xadrez Marvel tem alto
nível de acabamento
Algo, porém, que chamou a atenção dos visitantes dedicados à arte sequencial foi a ausência de material da editora Salvat. Com suas coleções de banca dos personagens da Marvel (a partir de outubro deste ano, - ainda vale ressaltar - a editora Eaglemoss anunciou que estará lançando o equivalente desta coleção referente aos personagens da DCno Brasil, segundo noticiado pelo blog "Mutante X", que pode ser conferido aqui), a editora foi procurada por colecionadores que haviam perdido algum dos volumes publicados quinzenalmente, entretanto, ela não montou estande e tampouco seu material foi disponibilizado em outros estandes de revenda. Em contrapartida, aproveitando este momento de coleções de banca para o mercado de nicho, a editora Planeta DeAgostini apresentou em seu estande uma coleção de peças de xadrez com os personagens da Casa das Ideias, com destaque para o conjunto dos Vingadores. Produzidas em boa quantidade de variações, as peças foram muito admiradas pelo público, que poderia fechar um pacote de assinatura da série no local. O mesmo também foi oferecido para iniciantes na coleção dos quadrinhos de Star Wars, já lançado em banca e com resultados muito positivos. Não há, porém, a opção de adquirir no estande volumes avulsos de quaisquer coleções, mas, ainda assim, vale uma visita para conferir a qualidade impressionante desse material.

Continuem ligados que ainda há muito a comentar sobre essa edição da Bienal, e podendo conferir pessoalmente, o façam. Nos vemos lá!

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

XVII Bienal - Dois Novos Capítulos

Por Gabriel Guimarães


O segundo dia da XVII edição da Bienal Internacional do Livro na cidade do Rio de Janeiro foi de bastante movimento. As turmas de colégios em excursão lotaram os estandes na maior parte do dia, acompanhando em especial o movimento de figuras das novas mídias como o vlogger Christian Figueiredo, que lançou pela editora Novo Conceito dois livros da série "Eu fico Loko", com crônicas da vida adolescente atual. Com senhas para assinaturas que esgotaram em segundos, muitos jovens se reuniram próximo à região do Espaço Maracanã, onde era realizado  encontro com o autor. Essa proposta de contato do autor com o público em área anexa dos Pavilhões ao invés de dentro destes foi algo que se repetiu com o quadrinista Maurício de Sousa, que esteve assinando o "Caderno de Receitas da Magali", lançado pela editora SENAC. O desenhista, homenageado ontem pelos organizadores e pelo mercado, esteve na área da Praça Copacabana, localizada próxima à principal praça de alimentação do evento, e também atraiu a atenção de muitas crianças que por ali passavam. Essa nova proposta de interação reduz a aglomeração nos estandes que acabava causando transtornos e até situações de mal estar nos estandes vizinhos daqueles que sediavam a sessão de autógrafos, contudo, acaba por esfriar um pouco o contato direto do autor com o público, e a localização afastada dos locais destinados a essas atividades freia um pouco o interesse alheio que a presença no Pavilhão normalmente fomentava. É algo a ser avaliado para o futuro, com possíveis abordagens ainda por serem experimentadas com o tempo.

O estande da Sampa é muito recomendado
Dentro do Pavilhão Laranja, um dos destaques foram as ofertas de estandes como a Top Livros, que oferecia quadrinhos como "Terapia", do trio brasileiro Rob Gordon, Marina Kurcis e Mário Cau, e "Perramus", da dupla argentina Alberto Breccia e Juan Sasturain. No Pavilhão Verde, o estande da Nova Sampa foi um dos bastante procurados pelos preços convidativos em um amplo lote de mangás desde "Vagabond", de ,Takehiko Inoue, até "THERMÆ ROMÆ", de Mari Yamazaki. O estande contou, ainda, com encadernados da Panini e revistas-pôsteres lado a lado com álbuns de figurinhas e revistas de atividades e DVDs de  séries clássicas como "National Kid" e "Jaspion", proporcionando, dessa forma, uma experiência completa no universo nerd.

A loja Comix  também contou com novidades hoje, como a edição "O Outro Cão Que Guardava as Estrelas", sequência inédita do trabalho de Takashi Murakami trazida ao Brasil pela editora JBC. O estande também ofereceu desconto em encadernados da editora HQM, como "Harbinger" e "X-O Manowar", ambos da linha Valiant, "Concreto - Nas Profundezas", de Paul Chadwick, e o primeiro volume de "Bone" em cores, de Jeff Smith. Acima de R$100,00 em compras, o estande ainda oferece desconto no pagamento em dinheiro ou cartão de débito, além de oferecer parcelamento para crédito. A Devir também expôs descontos consideráveis em seus conteúdos de quadrinhos, como "Grendel - Preto, Branco e Vermelho", de Matt Wagner, os encadernados de "Tom Strong" e a graphic novel "Badlands - O Fim do Sonho Americano", de Steven Grant e Vince Giarrano. Vale a pena conferir!

Os estandes estão oferecendo bons descontos, em geral. Mesmo aqueles não necessariamente ligados à arte sequencial em si, o que é algo que vinha sendo motivo de reclamações nas edições anteriores e mais recentes da Bienal. Os funcionários também vem sendo muito atenciosos e solícitos, mas a sinalização de determinadas áreas, como aquela onde ocorreram as sessões de autógrafos, poderia ser mais clara e bem estabelecida. É uma transição natural que certamente será melhor implementada no futuro. O mesmo problema se deu com o serviço de aluguel para cadeiras de rodas e carrinhos de passeio para crianças pequenas, que trocou de lugar entre o primeiro dia de evento e hoje, mas não informou à administração para que ela repassasse a nova localização para os pontos de informação e subsequentemente ao público.

O evento vem sendo muito agradável, com menos concentração de visitantes nos corredores dos Pavilhões, mas agora a expectativa é de que o movimento seja bem maior no final de semana e no feriado que o emenda. Naturalmente, é esperado um número menor que na última edição, onde o feriado não foi emendado e, portanto, as pessoas não tinham tanto a opção de viajarem. Ainda assim, o evento promete excelentes momentos e um cenário muito confortável para as famílias e os leitores mais ávidos. #PartiuBienal

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

XVII Bienal - Um Alvorecer Literário

Por Gabriel Guimarães


A XVII edição da Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro começou com uma grande homenagem ao quadrinista Maurício de Sousa, que recebeu o Prêmio José Olympio pelas suas colaborações ao mercado editorial brasileiro. Para honrar os 80 anos completados pelo autor paulistano, a Feira organizou uma exposição muito interessante com direito a uma estátua de sua principal personagem, a Mônica, dando as boas vindas ao setor do Pavilhão Verde onde materiais originais e réplicas de edições clássicas do autor estão expostas. Acompanhando a trajetória pelas décadas desde a criação de seus primeiros personagens, o visitante pode aprender um pouco mais da história da carreira desse grande profissional brasileiro, além de conferir uma imagem holográfica do próprio Maurício, projetada sobre um painel proporcional ao tamanho real do desenhista, ideal para se tirar fotos.

A exposição se localiza próxima ao estande da editora Panini, responsável pela maior parte dos títulos do autor sendo publicados no momento (considerando que a quantidade de parcerias do estúdio de Maurício com as mais diversas editoras, isso é um feito por si só impressionante). Diferente das edições anteriores, em que se encontrava no Pavilhão Azul, desta vez, a editora conta com um espaço razoável com segmentos diferentes dedicados a formatos diferentes de conteúdo. O grande destaque do estande fica por conta dos mangás e do material produzido pelo já mencionado MSP. Alguns dos lançamentos são a nova graphic novel "Turma da Mata - Muralha", produzida pelo trio Roger Cruz, Artur Fujita e Davi Calil; e a reedição atualizada da obra "Maurício de Sousa - Biografia em Quadrinhos". Vale ressaltar a bela capa deste último, com uma série de alusões à carreira do quadrinista, desde influência do clima saudosista das ilustrações do norte-americano Norman Rockwell até uma representação do autor em sua época de repórter policial. Algo, porém, que chamou a atenção foi a ausência de lançamentos programados para a Bienal pela editora, como os encadernados de títulos mensais da Marvel e DC (como "Fabulosos Vingadores" e "Lanterna Verde - A Ira dos Lanternas Vermelhos"), que, curiosamente, podiam ser encontradas disponíveis no estande da Comix, a poucos estandes de distância. Os descontos do estande da Panini mantém-se os mesmos, na casa dos 25%, contudo, o acervo disposto esteve um tanto aquém das expectativas neste primeiro dia.

Outra editora cujo estande aparenta destoar do tradicional nas últimas edições da Bienal foi a Devir, que investiu mais em material de RPG e o crescente fomento no mercado de jogos de tabuleiro alternativos. O conteúdo importado de arte sequencial não parece ter sido trazido desta vez, e as edições presentes no estande limitam-se, em sua maioria, a materiais publicados ao longo da última década. A tradicional editora, inclusive, aparenta dividir o espaço de seu estande com a novata Jambô, com bastante conteúdo no gênero da fantasia, como os quadrinhos do roteirista Marcelo Cássaro, marcado por sua brilhante saga na série "Holy Avenger" e que agora conta lá com as obras "Projeto Ayla" e "DBride - A Noiva do Dragão".

"Quack, do autor Kaji Pato, é outro destaque da Draco
Editoras com estandes mais modestos, ainda, apresentaram muito conteúdo fascinante, como foram os casos da Draco, com antologias de ficção científica e fantasia dividindo espaço com HQs como "Quem Matou João Ninguém?", de Zé Wellington e Wagner Nogueira, e "Apagão - Cidade sem Lei Luz", roteirizada por Raphael Fernandes e ilustrada pelo desenhista 'Camaleão'; da Autographica, que criou um clima muito agradável de descontração que tornou seus livros publicados sobre o meio esportivo e sobre relações entre história e  política bastante convidativos; e a Aquário Editorial, que contou com material de arte sequencial e ficção em geral produzido por profissionais aqui no Rio de Janeiro, como o roteirista capixaba Estevão Ribeiro e sua esposa, a escritora Ana Cristina Rodrigues, e o desenhista Carlos Ruas.

Outra editora com conteúdo interessante aos fãs da arte sequencial é a Ediouro, que relançou em seu selo Pixel os encadernados dos clássicos "Fantasma" e "Mandrake" em capa dura, além de novidades como o primeiro volume da adaptação dos games para os quadrinhos de "The Witcher", e uma antologia com 12 pequenas histórias do personagem "Tarzan" por vários profissionais da nona arte. O preço dessas edições está de excelente tamanho para atrair novos leitores e apresentar conteúdo de belo acabamento no mercado. Há, ainda, edições de personagens como "Popeye", "Recruta Zero", "Hagar"e "Mutts".

Ilustração da capa da adaptação do game "The Witcher" para as HQs

Um ponto negativo, ou talvez informativo, que é necessário ressaltar é que as obras nas vias de acesso ao Rio Centro, que pouco foram entrave hoje, podem complicar consideravelmente a vida dos visitantes nos dias de maior movimento. As alterações nas pistas tornaram o trajeto até o local, no mínimo, confuso e a falta de orientação dos guardas foi um problema. Dentro dos Pavilhões, ainda antes da entrada no evento, também ocorreram pequenos focos de desorientação do público pela ausência de sinalização das entradas. Os funcionários de dentro do evento, contudo, foram extremamente solícitos, e os profissionais dos estandes também receberam a todo o público com sincera dedicação.

O evento já foi muito interessante neste primeiro dia, e a tendência é que grandes momentos ainda estejam por vir, com talentosos profissionais do ramo literário e das artes gráficas tendo espaço junto ao grande público e um ambiente agradável de solicitude entre os gêneros literários que dividem espaço nas estantes dos estandes e nas sacolas de aquisições dos visitantes.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Bienal - Novo Prelúdio

Por Gabriel Guimarães

 


Amanhã, dia 3 de setembro de 2015, vai ter início a XVII edição da Bienal Internacional do Livro, na cidade do Rio de Janeiro. Conforme foi nossa proposta nas duas últimas edições, em 2011 e 2013 (que podem ser conferidos aqui), faremos uma cobertura diária do evento, que promete grandes experiências e servirá de espaço para aguardados lançamentos na indústria de quadrinhos brasileira. Autores, editores e companhias dos mais diversos estados estarão presentes para promover um período dedicado ao reconhecimento da literatura na formação individual e social, e aos laços que toda a mídia editorial constrói.

Mapa dos três pavilhões do Rio Centro
Este ano, em homenagem aos 80 anos do quadrinista Maurício de Sousa, será organizada uma exposição especial, dando a devida importância para o autor, diante do quanto sua trajetória impactou em gerações e gerações de leitores, autores e artistas. Para comemorar esse feito, muitos lançamentos estão programados em diferentes editoras e pavilhões. Os detalhes serão dados de acordo com a ordem em que os eventos forem noticiados e vividos. Aos que tiverem interesse em se programarem para encontrar Maurício em pessoa, o portal Uol oferece as informações necessárias para tanto, e pode ser conferido aqui.

ich_capaOutra fonte de homenagem nesta edição da Bienal será a literatura argentina. Enquanto a última edição deu destaque à cultura alemã e a anterior, a francesa; desta vez, o país que terá muitos autores convidados e uma área construída para receber a atenção do público será nossa vizinha latina Argentina. Os quadrinhos não vão deixar essa oportunidade passar em branco, e a editora Jambô confirmou o lançamento de "ICH", da dupla argentina Luciano Saracino (roteiro) e Ariel Olivetti (arte). Certamente materiais de Quino, Liniers e a dupla Oesteheld e Solano López (este último, que já foi homenageado aqui no blog), portanto, vale a pena conferir!

A quantidade de editoras com conteúdo de quadrinhos é maior, também, este ano, com alguns materiais que começaram no financiamento colaborativo ganhando espaço nos estandes de editoras que chegaram a acordo com os autores para distribuir a tiragem do livro custeada no crowdfunding. Estão confirmados, ainda, muitos lançamentos de encadernados pela editora Panini (Marvel e DC), obras de ficção científica mantendo a pegada do ritmo acelerado da editora Aleph, e alguns novos mangás (como "Parasyte", de Hitoshi Iwaaki) na JBC. Editoras como a Balão Editorial e a Aquário Editorial também confirmaram presença, com vários lançamentos de conteúdo 100% nacional, algo que vem ganhando muito espaço nos últimos anos, mas que ainda encontra muitas barreiras no mercado mais conservador.

Outro fator de grande interesse para os aficionados pela arte sequencial deve ser a presença de uma inteira leva de novos livros teóricos da mídia, que foram lançados na 3ª Jornada Internacional de História em Quadrinhos, onde muitos projetos acadêmicos com enfoque na nona arte foram apresentados, entre 18 e 21 de agosto deste ano, na Escola de Comunicação da USP, com a presença de consagrados estudiosos do meio, como Waldomiro Vergueiro, Sônia M. Bibe Luyten e Paulo Ramos.

Uma longa e trabalhosa jornada nos aguarda nestas próximas duas semanas, mas as promessas são muitas de este ser mais um evento significativo para o cenário editorial brasileiro, com o espaço para conteúdo brasileiro ganhando mais espaço e barreiras culturais sendo derrubadas graças à enorme dedicação de profissionais altamente qualificados e fãs dedicados. Que muitas experiências agradáveis e impactantes possam nos aguardar nos dias que virão! #PartiuBienal

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

King Kirby

Por Gabriel Guimarães

Arte de Alex Ross em homenagem a Jack Kirby, o Rei dos Quadrinhos

Em uma época em que a Marvel é a mais proeminente potência nas grandes telas, alavancando a venda de materiais com seus personagens antológicos, muitos questionam como se deu tal sucesso, onde se originou a semente que formou a gama extensa de personagens e criações que fomentou todo um universo de histórias agora sendo adaptadas com alto grau de acabamento técnico e interpretações qualificadas. 98 anos atrás, um dos principais responsáveis por essa produção, Jack Kirby, nasceu, e há 21 anos, se foi, deixando para trás um legado dificilmente igualável na história dos quadrinhos. Em homenagem a este grande profissional e impactante mestre artístico, é digno, portanto, acompanharmos sua fervorosa e resiliente, ainda que conflituosa e árdua, jornada.

O jovem Jack junto de seus pais
na década de 1920
Nascido Jacob Kurtzeberg em 28 de agosto de 1917, o filho de Rose e Benjamin nasceu em condições muito aquém às daquelas histórias fantasiosas e multicoloridas com que viria a se consagrar em sua vida adulta. Seus pais haviam migrado da Áustria para os Estados Unidos na virada do século, a fim de evitar um conflito entre seu pai e um aristocrata alemão, que o havia desafiado a um duelo após ter sido ofendido. Pensando no bem da família, que dependia de Ben como provedor, os seus demais parentes contribuíram para que ele viajasse com a esposa e criasse uma família em terras nova-iorquinas, junto de muitos imigrantes europeus que realizavam esse trajeto na época. Precisando de um sustento, Ben começou a trabalhar em uma indústria têxtil, onde conseguiu meios de sustentar seu recém-nascido primogênito Jacob e começar a montar uma boa estrutura para seu segundo filho, David, que viria dois anos depois. O trabalho extensivo, porém, nem de longe era remunerado de forma correspondente, e logo que Jacob alcançou o mínimo de idade necessário para ajudar a família, foi colocado para trabalhar como entregador de jornais, a fim de complementar a renda de casa.

Frame de animação de Popeye, feito por Jacob Kurtzberg

Jacob não gostava da atividade, sendo sempre muito menosprezado pelas outras crianças por conta de sua baixa estatura. Em meio a isso, ele foi conseguindo serviços melhores, entregando correspondências particulares e pintando placas e sinais, e conseguiu dinheiro suficiente para ajudar seus pais com as contas, sobrando sempre alguns centavos, que lhe era permitido gastar com o que pudesse lhe interessar - naturalmente, é neste ponto em que os quadrinhos cruzaram seu caminho. Leitor ávido das páginas de tiras dos jornais, Jacob começou a rabiscar por cima dos desenhos para aprender a desenhar seus personagens favoritos (principalmente personagens desenhados por Milton Caniff e Alex Raymond) e, quando cresceu, começou a tirar das pulp magazines (que já comentamos aqui antes no blog), a inspiração para criar histórias mais maduras e envolventes. Nem tudo, porém, ia bem na sua vida. Ele tinha graves problemas por causa de seu temperamento curto e constantemente era pego brigando na rua e discutindo com outros jovens que caçoavam de sua descendência judaica.

Jacob, contudo, continuava desenhando compulsivamente, ao ponto de chegar a um consenso junto de seus pais quanto ao abandono da escola tradicional para se dedicar à arte, dessa forma ,ajudando financeiramente no sustento da casa. Inicialmente, ele encontrou muitas portas fechadas no mercado pela ausência de formação adequada. As coisas começaram a mudar quando ele respondeu a um anúncio no jornal para uma vaga nos estúdios de animação de Max Fleischer, produtor de populares desenhos como "Betty Boop'' e ''Popeye''. Se portando com muito afinco profissional e uma grande ambição por voos mais altos, Jack, como se rebatizara na mocidade, galgou muito espaço dentro da empresa, até conhecer o editor H. T. Elmo, que o levou para o Lincoln Features Syndicate. Jack optou por essa troca em meio a muitos boatos sobre a transferência dos estúdios Fleischer para a Flórida e a opção de maior rendimento por bônus oferecidos por Elmo. Apesar das condições precárias nas quais prestava esses serviços, ali foi a porta de entrada de Jack em larga escala. Seu trabalho, enfim, alcançava características profissionais e sua produtividade era muito reconhecida pelo seu chefe, que cada vez mais requisitava tiras diárias feitas por ele com variados estilos e temáticas.

O jovem Jack Kirby e seu habitual charuto a tiracolo
Com o tempo, Kirby se transferiu para o Eisner & Iger Studio (que já comentamos aqui no blog antes), ao passo em que os quadrinhos passavam a crescer em popularidade no formato magazine, com revistas especificamente dedicadas a esse tipo de conteúdo. Em 1938, começava um período muito estimulante na vida do desenhista. Ele se sentia confortável com o novo formato das páginas que produzia, o ambiente lhe era extremamente agradável e seu trabalho era valorizado e respeitado, tendo, inclusive, sido neste período em que foi publicada sua primeira revista em quadrinhos oficial, a ''Wild Boy Magazine''. Will Eisner, inclusive, viria a representar Jack como o baixinho de pavio curto que, de fato, era, em sua história "O Sonhador'', onde contava suas experiências nos primeiros passos dos quadrinhos enquanto mídia de comunicação em massa.

Após Eisner sair da gerência do estúdio para se dedicar ao seu personagem "Spirit'', Jack acabou migrando à procura de espaço para suas próprias histórias, sendo recusado em muitas editoras, que alegavam já terem todo o conteúdo de quadrinhos de que precisavam, até mesmo a National Comics, que viria a ser conhecida anos depois como DC. Jack se viu sem opção a não ser tomar parte no syndicate do empresário Victor Fox, que contratava qualquer um que aparecesse com um portfólio. Foi um período muito complicado pelas exigências administrativas de Fox, que pagava pouco, mas de forma constante. Nesse período, Jack conheceu um outro artista com quem viria a criar uma parceria que sempre seria lembrada pelos admiradores dos quadrinhos da Era de Ouro, Joe Simon. Ambos trabalhariam juntos pela primeira vez em 1940, no título-chave do estúdio, o "Besouro Azul'', criado por Charles Nicholas Wojtkowski.

Simon era um profissional obstinado, e tão rápido quanto conquistou a atenção de Victor Fox para contratá-lo como editor-chefe, conseguiu a mesma oferta do presidente da Timely Comics, Martin Goodman. Pouco tempo depois, ele trouxe seu amigo Kirby para trabalhar com ele lá e essa parceria renderia ao menos um grande fruto que atravessaria gerações a fio. Em 1940, influenciados pela Segunda Guerra Mundial e o forte sentimento nacionalista que crescia, os dois artistas criaram o ''Capitão América'' e lhe deram um início logo com um golpe literal na ideologia nazista, como pode ser visto na capa da primeira edição do personagem. Eles produziram dez edições do personagem antes de migrar para a DC Comics, onde trabalhariam em títulos como ''Boy Commandos''. Então, em 1943, Kirby foi convocado para a guerra. Ele se tornou membro da Infantaria e viajou para Liverpool, Southampton e, enfim, a Normandia, onde chegou dez dias após o Dia D. Após dormir muito tempo em trincheiras, porém, seus pés começaram a inchar pelo frio e as péssimas condições sanitárias, e Kirby foi levado a um hospital do exército, de onde foi mandado de volta para casa. Seu temperamento esquentado e o fato de que não gostava de receber ordens qualificou esse período como algo de que Jack não gostava de lembrar, mas foi um período que enriqueceu ainda mais a visão de Kirby e lhe preencheu de experiências que jamais teria em outras circunstâncias.

Kirby trabalhou em títulos de romance também
durante o período de caça às bruxas de Joseph McCarthy
Jack e Joe continuaram trabalhando juntos até a crise da arte sequencial com a opinião pública, quando Frederic Wertham e Joseph McCarthy aterrorizavam os sonhos de editores e produtores de qualquer mídia que pudesse ser considerada minimamente apologética aos princípios comunistas e/ou transgressores dos bons costumes. Kirby foi trabalhar com títulos como "Classics Illustrated'', a fim de evitar quaisquer conflitos com o comitê do Senado que realizava investigações sobre potenciais desvios de conduta. Os anos 1950 foram muito difíceis, mas renderam precursores para personagens que fariam história nos quadrinhos. Em 1957, Kirby criou a tira de ação ''SkyMasters'' e, em 1958, os ''Challengers of the Unknown'', para a DC. Ambas começaram a preparar o terreno para o surgimento, em 1961, do ''Quarteto Fantástico''. Em 1959, Jack ainda criou o personagem ''The Fly", um herói de poderes derivados de um inseto (no caso, de uma mosca), em sua última parceria com Simon antes de ele voltar à arte comercial, e que pode ser considerado um precursor do ''Homem-Aranha''. Foi, a partir desses eventos, que começou a surgir uma discussão acerca do que ocorreu em seguida e que revolucionou os quadrinhos de super-heróis.

Em 1959, Kirby retornou à Timely Comics para desenhar histórias com monstros gigantes, que estavam em moda na época, e reencontrou o jovem sobrinho do editor-chefe da editora, com quem não se dava tão bem desde os tempos de parceria com Simon, o ainda jovem Stanley Lieber, mais conhecido pela sua alcunha adotada Stan Lee. Eles foram creditados juntos por muitas histórias até culminar no surgimento da primeira família de super-heróis da nova era científica da nona arte, o já mencionado ''Quarteto Fantástico''. O que veio em seguida foi uma enxurrada de personagens novos e inovadores, repletos não apenas da ação comum aos trabalhos prévios de Kirby como também de indivíduos de personalidades complexas e desejos e medos humanos. Nos anos vindouros, viria-se a questionar a validade da autoria dessas histórias e o crédito à real criação dessa leva de personagens, mas o debate continua até os dias de hoje, onde os limites sobre a ação de um profissional sobre a de outro continuam muito nebulosos. Independente dessa polêmica, a parceria gerou um grande impacto na história do gênero heroico e influenciou muitas gerações de leitores das revistas em quadrinhos.

Em 1970, uma série de eventos causou uma ebulição de Kirby com a Marvel, que o levou a abandonar a editora. Os principais conflitos eram por conta da recusa da Casa das Ideias de firmar um contrato de longo-termo com o artista, nem tanto em termos de aumento de pagamento, mas sim de uma segurança maior quanto à chegada do mesmo na conta de Jack; e o cúmulo foi a postura da empresa com uma série de pôsteres produzidos por Kirby para uma firma de correio que queria distribuir material do super-herói "Hulk". Jack criou o conteúdo, mas alguns editores acharam que seria melhor que o desenho fosse produzido por Herb Trimpe, desenhista da revista nesse momento, e, então, mandaram-no redesenhar o pôster à risca por sobre a arte de Jack. Essa postura gerou ira no artista e o fez se sentir desrespeitado de forma drástica pela editora que ele ajudou a realmente colocar no topo da lista de vendas de títulos mensais de quadrinhos. Foi então que surgiu o convite de Carmine Infantino para que Kirby migrasse para a DC.

A gota d'água pra Kirby com a Marvel foi o pôster do "Hulk"




Fã do trabalho de Jack desde os tempos de criança, Infantino lutou contra a antipatia do editor Mort Weisinger, que havia trabalhado brevemente com a dupla Kirby-Simon e tivera sua dose de conflitos de autoridade com os dois, mas conseguiu que o desenhista fosse contratado pela editora com as condições que ele agora exigia. Jack não mais aceitaria tomar parte em uma estrutura empresarial onde alguém apenas escreveria os diálogos e ele teria o trabalho de desenvolver todo o processo criativo por conta própria. Além disso, Kirby chegou à conclusão de que ele tinha valores e histórias a serem contadas que o gênero super-heroico não era capaz dedar vazão. Foi assim, então, que surgiram as histórias épicas dos ''Novos Deuses'', que exploravam elementos espaciais com uma ótica mitológica e científica. Ele ainda aplicou novos estudos artísticos com colagens e montagens visuais inovadoras. Ele criou títulos como "The Forever People", com as histórias da "Grande Barda" e do "Senhor Milagre", e até personagens de teor mais fantasioso, como "Kamandi - The Last Boy on Earth" e o sobrenatural "Ettrigan".

Não foi para menos que Kirby foi encarregado de realizar a adaptação para os quadrinhos de uma das obras máximas do diretor Stanley Kubrick para o cinema, o épico de ficção científica "2001 - Uma Odisseia no Espaço", o que era considerado de viés quase impossível, mas que foi produzido em uma edição de 71 páginas em 1976. Neste tempo, ele já havia retornado à Marvel, que agora reconheceria seu trabalho e lhe creditaria conforme suas requisições. Nessa nova passagem pela editora, Kirby produziu títulos como "The Eternals" e revisitar antigos conhecidos como o "Pantera Negra" e o próprio "Capitão América", 35 anos depois de sua criação. Kirby já se encontrada enfadado com o meio editorial, tendo praticamente a mesma faixa de renda a vida toda e os trabalhos parecendo sempre mais do mesmo. Na década seguinte, ele viria se queixar muitas vezes porque se sentia mais preso à prancheta e sua visão já lhe pregava algumas peças pela alta quantidade de horas trabalhando. Ele se aposentou de forma não-oficial na década seguinte, vindo a receber algumas de suas páginas originais pelo correio em 1987, após uma disputa judicial em que a Marvel ficou com a imagem pública um tanto manchada pela negligência com um de seus mais importantes artistas.

A manhã de 4 de fevereiro de 1994 começou de forma normal para a família Kirby, um domingo comum, quando Jack acordava antes de sua esposa Roz Goldstein e pegava o jornal na parte da frente de sua casa e o levava para ler à mesa da cozinha, quando um ataque do coração o vitimou, deixando toda uma indústria de luto pela perda de um de seus maiores mestres. Sua esposa continuou a travar duras lutas com a Marvel pelos direitos relativos aos personagens criados por Kirby, o que lhe rendeu apenas uma magra pensão suficiente apenas para custear a hipoteca do lar do casal e os gastos com cuidados médicos que ela precisava receber. Em 1998, a DC lhe telefonou para informar que as vendas das edições de Jack estavam tendo um bom retorno do mercado no seu relançamento, e ela, enfim, sentiu que o marido começava a ser compreendido pelo mercado. Ela faleceu pouco depois, antes de conseguir ver o quanto seu marido se tornaria reverenciado por gerações de artistas e admiradores da arte sequencial. A produção de Kirby continua sendo republicada em volume até os dias de hoje e tem ampla receptividade que cresce e tem cada vez mais o merecido reconhecimento.

Kirby encontrou sua criação no início dos anos 2000 em história do Quarteto



O legado deixado por Jack é algo tangível que aparenta, hoje, ser uma unanimidade entre os profissionais da nona arte. A qualidade narrativa e a criatividade expansionista de Kirby gerou fãs nas mais diversas esferas culturais, sendo homenageado em 2002 pelo músico de jazz Greggn Bendian com um álbum intitulado "Requiem for Jack Kirby", e lembrado com muita admiração por escritores como Michael Chabon e Mark Evanier, entre muitos outros, dentre os quais vale destacar o ilusionista David Copperfield, que destacou as histórias de Kirby como "alegorias sobre a coragem, da luta entre o bem e o mal, da disposição particular de sonhar".

Hoje, na data em que o apelidado "Rei dos Quadrinhos" completaria 98 anos de vida, muitos artistas decidiram prestar respeito e homenagem à memória do artista que transcendeu as barreiras do tempo e do espaço, lhes apresentou o fantástico e o mirabolante mundo de aventuras sem fim, e que tão inadvertidamente se despediu antes de ter o reconhecimento que lhe era cabido. Aqui, honramos mais uma vez seu legado, e jamais havemos de deixar sua jornada ser menosprezada, muito menos esquecida. O Rei dos Quadrinhos morreu; Longa vida ao Rei dos Quadrinhos.