sexta-feira, 28 de agosto de 2015

King Kirby

Por Gabriel Guimarães

Arte de Alex Ross em homenagem a Jack Kirby, o Rei dos Quadrinhos

Em uma época em que a Marvel é a mais proeminente potência nas grandes telas, alavancando a venda de materiais com seus personagens antológicos, muitos questionam como se deu tal sucesso, onde se originou a semente que formou a gama extensa de personagens e criações que fomentou todo um universo de histórias agora sendo adaptadas com alto grau de acabamento técnico e interpretações qualificadas. 98 anos atrás, um dos principais responsáveis por essa produção, Jack Kirby, nasceu, e há 21 anos, se foi, deixando para trás um legado dificilmente igualável na história dos quadrinhos. Em homenagem a este grande profissional e impactante mestre artístico, é digno, portanto, acompanharmos sua fervorosa e resiliente, ainda que conflituosa e árdua, jornada.

O jovem Jack junto de seus pais
na década de 1920
Nascido Jacob Kurtzeberg em 28 de agosto de 1917, o filho de Rose e Benjamin nasceu em condições muito aquém às daquelas histórias fantasiosas e multicoloridas com que viria a se consagrar em sua vida adulta. Seus pais haviam migrado da Áustria para os Estados Unidos na virada do século, a fim de evitar um conflito entre seu pai e um aristocrata alemão, que o havia desafiado a um duelo após ter sido ofendido. Pensando no bem da família, que dependia de Ben como provedor, os seus demais parentes contribuíram para que ele viajasse com a esposa e criasse uma família em terras nova-iorquinas, junto de muitos imigrantes europeus que realizavam esse trajeto na época. Precisando de um sustento, Ben começou a trabalhar em uma indústria têxtil, onde conseguiu meios de sustentar seu recém-nascido primogênito Jacob e começar a montar uma boa estrutura para seu segundo filho, David, que viria dois anos depois. O trabalho extensivo, porém, nem de longe era remunerado de forma correspondente, e logo que Jacob alcançou o mínimo de idade necessário para ajudar a família, foi colocado para trabalhar como entregador de jornais, a fim de complementar a renda de casa.

Frame de animação de Popeye, feito por Jacob Kurtzberg

Jacob não gostava da atividade, sendo sempre muito menosprezado pelas outras crianças por conta de sua baixa estatura. Em meio a isso, ele foi conseguindo serviços melhores, entregando correspondências particulares e pintando placas e sinais, e conseguiu dinheiro suficiente para ajudar seus pais com as contas, sobrando sempre alguns centavos, que lhe era permitido gastar com o que pudesse lhe interessar - naturalmente, é neste ponto em que os quadrinhos cruzaram seu caminho. Leitor ávido das páginas de tiras dos jornais, Jacob começou a rabiscar por cima dos desenhos para aprender a desenhar seus personagens favoritos (principalmente personagens desenhados por Milton Caniff e Alex Raymond) e, quando cresceu, começou a tirar das pulp magazines (que já comentamos aqui antes no blog), a inspiração para criar histórias mais maduras e envolventes. Nem tudo, porém, ia bem na sua vida. Ele tinha graves problemas por causa de seu temperamento curto e constantemente era pego brigando na rua e discutindo com outros jovens que caçoavam de sua descendência judaica.

Jacob, contudo, continuava desenhando compulsivamente, ao ponto de chegar a um consenso junto de seus pais quanto ao abandono da escola tradicional para se dedicar à arte, dessa forma ,ajudando financeiramente no sustento da casa. Inicialmente, ele encontrou muitas portas fechadas no mercado pela ausência de formação adequada. As coisas começaram a mudar quando ele respondeu a um anúncio no jornal para uma vaga nos estúdios de animação de Max Fleischer, produtor de populares desenhos como "Betty Boop'' e ''Popeye''. Se portando com muito afinco profissional e uma grande ambição por voos mais altos, Jack, como se rebatizara na mocidade, galgou muito espaço dentro da empresa, até conhecer o editor H. T. Elmo, que o levou para o Lincoln Features Syndicate. Jack optou por essa troca em meio a muitos boatos sobre a transferência dos estúdios Fleischer para a Flórida e a opção de maior rendimento por bônus oferecidos por Elmo. Apesar das condições precárias nas quais prestava esses serviços, ali foi a porta de entrada de Jack em larga escala. Seu trabalho, enfim, alcançava características profissionais e sua produtividade era muito reconhecida pelo seu chefe, que cada vez mais requisitava tiras diárias feitas por ele com variados estilos e temáticas.

O jovem Jack Kirby e seu habitual charuto a tiracolo
Com o tempo, Kirby se transferiu para o Eisner & Iger Studio (que já comentamos aqui no blog antes), ao passo em que os quadrinhos passavam a crescer em popularidade no formato magazine, com revistas especificamente dedicadas a esse tipo de conteúdo. Em 1938, começava um período muito estimulante na vida do desenhista. Ele se sentia confortável com o novo formato das páginas que produzia, o ambiente lhe era extremamente agradável e seu trabalho era valorizado e respeitado, tendo, inclusive, sido neste período em que foi publicada sua primeira revista em quadrinhos oficial, a ''Wild Boy Magazine''. Will Eisner, inclusive, viria a representar Jack como o baixinho de pavio curto que, de fato, era, em sua história "O Sonhador'', onde contava suas experiências nos primeiros passos dos quadrinhos enquanto mídia de comunicação em massa.

Após Eisner sair da gerência do estúdio para se dedicar ao seu personagem "Spirit'', Jack acabou migrando à procura de espaço para suas próprias histórias, sendo recusado em muitas editoras, que alegavam já terem todo o conteúdo de quadrinhos de que precisavam, até mesmo a National Comics, que viria a ser conhecida anos depois como DC. Jack se viu sem opção a não ser tomar parte no syndicate do empresário Victor Fox, que contratava qualquer um que aparecesse com um portfólio. Foi um período muito complicado pelas exigências administrativas de Fox, que pagava pouco, mas de forma constante. Nesse período, Jack conheceu um outro artista com quem viria a criar uma parceria que sempre seria lembrada pelos admiradores dos quadrinhos da Era de Ouro, Joe Simon. Ambos trabalhariam juntos pela primeira vez em 1940, no título-chave do estúdio, o "Besouro Azul'', criado por Charles Nicholas Wojtkowski.

Simon era um profissional obstinado, e tão rápido quanto conquistou a atenção de Victor Fox para contratá-lo como editor-chefe, conseguiu a mesma oferta do presidente da Timely Comics, Martin Goodman. Pouco tempo depois, ele trouxe seu amigo Kirby para trabalhar com ele lá e essa parceria renderia ao menos um grande fruto que atravessaria gerações a fio. Em 1940, influenciados pela Segunda Guerra Mundial e o forte sentimento nacionalista que crescia, os dois artistas criaram o ''Capitão América'' e lhe deram um início logo com um golpe literal na ideologia nazista, como pode ser visto na capa da primeira edição do personagem. Eles produziram dez edições do personagem antes de migrar para a DC Comics, onde trabalhariam em títulos como ''Boy Commandos''. Então, em 1943, Kirby foi convocado para a guerra. Ele se tornou membro da Infantaria e viajou para Liverpool, Southampton e, enfim, a Normandia, onde chegou dez dias após o Dia D. Após dormir muito tempo em trincheiras, porém, seus pés começaram a inchar pelo frio e as péssimas condições sanitárias, e Kirby foi levado a um hospital do exército, de onde foi mandado de volta para casa. Seu temperamento esquentado e o fato de que não gostava de receber ordens qualificou esse período como algo de que Jack não gostava de lembrar, mas foi um período que enriqueceu ainda mais a visão de Kirby e lhe preencheu de experiências que jamais teria em outras circunstâncias.

Kirby trabalhou em títulos de romance também
durante o período de caça às bruxas de Joseph McCarthy
Jack e Joe continuaram trabalhando juntos até a crise da arte sequencial com a opinião pública, quando Frederic Wertham e Joseph McCarthy aterrorizavam os sonhos de editores e produtores de qualquer mídia que pudesse ser considerada minimamente apologética aos princípios comunistas e/ou transgressores dos bons costumes. Kirby foi trabalhar com títulos como "Classics Illustrated'', a fim de evitar quaisquer conflitos com o comitê do Senado que realizava investigações sobre potenciais desvios de conduta. Os anos 1950 foram muito difíceis, mas renderam precursores para personagens que fariam história nos quadrinhos. Em 1957, Kirby criou a tira de ação ''SkyMasters'' e, em 1958, os ''Challengers of the Unknown'', para a DC. Ambas começaram a preparar o terreno para o surgimento, em 1961, do ''Quarteto Fantástico''. Em 1959, Jack ainda criou o personagem ''The Fly", um herói de poderes derivados de um inseto (no caso, de uma mosca), em sua última parceria com Simon antes de ele voltar à arte comercial, e que pode ser considerado um precursor do ''Homem-Aranha''. Foi, a partir desses eventos, que começou a surgir uma discussão acerca do que ocorreu em seguida e que revolucionou os quadrinhos de super-heróis.

Em 1959, Kirby retornou à Timely Comics para desenhar histórias com monstros gigantes, que estavam em moda na época, e reencontrou o jovem sobrinho do editor-chefe da editora, com quem não se dava tão bem desde os tempos de parceria com Simon, o ainda jovem Stanley Lieber, mais conhecido pela sua alcunha adotada Stan Lee. Eles foram creditados juntos por muitas histórias até culminar no surgimento da primeira família de super-heróis da nova era científica da nona arte, o já mencionado ''Quarteto Fantástico''. O que veio em seguida foi uma enxurrada de personagens novos e inovadores, repletos não apenas da ação comum aos trabalhos prévios de Kirby como também de indivíduos de personalidades complexas e desejos e medos humanos. Nos anos vindouros, viria-se a questionar a validade da autoria dessas histórias e o crédito à real criação dessa leva de personagens, mas o debate continua até os dias de hoje, onde os limites sobre a ação de um profissional sobre a de outro continuam muito nebulosos. Independente dessa polêmica, a parceria gerou um grande impacto na história do gênero heroico e influenciou muitas gerações de leitores das revistas em quadrinhos.

Em 1970, uma série de eventos causou uma ebulição de Kirby com a Marvel, que o levou a abandonar a editora. Os principais conflitos eram por conta da recusa da Casa das Ideias de firmar um contrato de longo-termo com o artista, nem tanto em termos de aumento de pagamento, mas sim de uma segurança maior quanto à chegada do mesmo na conta de Jack; e o cúmulo foi a postura da empresa com uma série de pôsteres produzidos por Kirby para uma firma de correio que queria distribuir material do super-herói "Hulk". Jack criou o conteúdo, mas alguns editores acharam que seria melhor que o desenho fosse produzido por Herb Trimpe, desenhista da revista nesse momento, e, então, mandaram-no redesenhar o pôster à risca por sobre a arte de Jack. Essa postura gerou ira no artista e o fez se sentir desrespeitado de forma drástica pela editora que ele ajudou a realmente colocar no topo da lista de vendas de títulos mensais de quadrinhos. Foi então que surgiu o convite de Carmine Infantino para que Kirby migrasse para a DC.

A gota d'água pra Kirby com a Marvel foi o pôster do "Hulk"




Fã do trabalho de Jack desde os tempos de criança, Infantino lutou contra a antipatia do editor Mort Weisinger, que havia trabalhado brevemente com a dupla Kirby-Simon e tivera sua dose de conflitos de autoridade com os dois, mas conseguiu que o desenhista fosse contratado pela editora com as condições que ele agora exigia. Jack não mais aceitaria tomar parte em uma estrutura empresarial onde alguém apenas escreveria os diálogos e ele teria o trabalho de desenvolver todo o processo criativo por conta própria. Além disso, Kirby chegou à conclusão de que ele tinha valores e histórias a serem contadas que o gênero super-heroico não era capaz dedar vazão. Foi assim, então, que surgiram as histórias épicas dos ''Novos Deuses'', que exploravam elementos espaciais com uma ótica mitológica e científica. Ele ainda aplicou novos estudos artísticos com colagens e montagens visuais inovadoras. Ele criou títulos como "The Forever People", com as histórias da "Grande Barda" e do "Senhor Milagre", e até personagens de teor mais fantasioso, como "Kamandi - The Last Boy on Earth" e o sobrenatural "Ettrigan".

Não foi para menos que Kirby foi encarregado de realizar a adaptação para os quadrinhos de uma das obras máximas do diretor Stanley Kubrick para o cinema, o épico de ficção científica "2001 - Uma Odisseia no Espaço", o que era considerado de viés quase impossível, mas que foi produzido em uma edição de 71 páginas em 1976. Neste tempo, ele já havia retornado à Marvel, que agora reconheceria seu trabalho e lhe creditaria conforme suas requisições. Nessa nova passagem pela editora, Kirby produziu títulos como "The Eternals" e revisitar antigos conhecidos como o "Pantera Negra" e o próprio "Capitão América", 35 anos depois de sua criação. Kirby já se encontrada enfadado com o meio editorial, tendo praticamente a mesma faixa de renda a vida toda e os trabalhos parecendo sempre mais do mesmo. Na década seguinte, ele viria se queixar muitas vezes porque se sentia mais preso à prancheta e sua visão já lhe pregava algumas peças pela alta quantidade de horas trabalhando. Ele se aposentou de forma não-oficial na década seguinte, vindo a receber algumas de suas páginas originais pelo correio em 1987, após uma disputa judicial em que a Marvel ficou com a imagem pública um tanto manchada pela negligência com um de seus mais importantes artistas.

A manhã de 4 de fevereiro de 1994 começou de forma normal para a família Kirby, um domingo comum, quando Jack acordava antes de sua esposa Roz Goldstein e pegava o jornal na parte da frente de sua casa e o levava para ler à mesa da cozinha, quando um ataque do coração o vitimou, deixando toda uma indústria de luto pela perda de um de seus maiores mestres. Sua esposa continuou a travar duras lutas com a Marvel pelos direitos relativos aos personagens criados por Kirby, o que lhe rendeu apenas uma magra pensão suficiente apenas para custear a hipoteca do lar do casal e os gastos com cuidados médicos que ela precisava receber. Em 1998, a DC lhe telefonou para informar que as vendas das edições de Jack estavam tendo um bom retorno do mercado no seu relançamento, e ela, enfim, sentiu que o marido começava a ser compreendido pelo mercado. Ela faleceu pouco depois, antes de conseguir ver o quanto seu marido se tornaria reverenciado por gerações de artistas e admiradores da arte sequencial. A produção de Kirby continua sendo republicada em volume até os dias de hoje e tem ampla receptividade que cresce e tem cada vez mais o merecido reconhecimento.

Kirby encontrou sua criação no início dos anos 2000 em história do Quarteto



O legado deixado por Jack é algo tangível que aparenta, hoje, ser uma unanimidade entre os profissionais da nona arte. A qualidade narrativa e a criatividade expansionista de Kirby gerou fãs nas mais diversas esferas culturais, sendo homenageado em 2002 pelo músico de jazz Greggn Bendian com um álbum intitulado "Requiem for Jack Kirby", e lembrado com muita admiração por escritores como Michael Chabon e Mark Evanier, entre muitos outros, dentre os quais vale destacar o ilusionista David Copperfield, que destacou as histórias de Kirby como "alegorias sobre a coragem, da luta entre o bem e o mal, da disposição particular de sonhar".

Hoje, na data em que o apelidado "Rei dos Quadrinhos" completaria 98 anos de vida, muitos artistas decidiram prestar respeito e homenagem à memória do artista que transcendeu as barreiras do tempo e do espaço, lhes apresentou o fantástico e o mirabolante mundo de aventuras sem fim, e que tão inadvertidamente se despediu antes de ter o reconhecimento que lhe era cabido. Aqui, honramos mais uma vez seu legado, e jamais havemos de deixar sua jornada ser menosprezada, muito menos esquecida. O Rei dos Quadrinhos morreu; Longa vida ao Rei dos Quadrinhos.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Sobre Responsabilidades e um Valente Trabalho com Mercado de Nicho

Por Gabriel Guimarães


Exatamente um mês atrás, comentamos aqui no blog sobre o papel das editoras na formação de novos leitores, abordando muito superficialmente o caso da editora HQM e o cancelamento da linha de revistas mensais do selo norte-americano Valiant. Conforme destacamos na época, a defasagem entre a tiragem da revista e a procura pela mesma nas bancas de jornal e demais pontos de venda ao redor do Brasil foi a causa para essa decisão por parte dos editores, que criticaram nas redes sociais a falta de participação dos leitores que aparentemente enchiam os títulos lançados de elogios, mas que deixavam de contribuir com a compra propriamente dita das revistas. Isso gerou uma discussão considerável em sites como o Ponto Zero e o Terra Zero, que fizeram questão de observar a situação dos dois pontos de vista do caso. A fim de observar de forma adequada o panorama do mercado editorial de histórias em quadrinhos no Brasil, é importante adentrar neste caso em particular, esclarecendo algumas dúvidas que podem ter surgido em nossa última matéria e aprofundando um pouco mais nas considerações do trabalho de responsabilidade das editoras para o fomento do mercado leitor brasileiro.

Anunciado em abril de 2013, o lançamento da HQM pretendia preencher uma lacuna no mercado de revistas de super-heróis com projeções realistas no mundo globalizado no qual nos encontramos hoje. Enquanto muitos leitores reclamavam da falta de veracidade dos personagens das histórias do gênero heroico dos quadrinhos, a editora norte-americana Valiant, fundada no ano de 1989 por dois ex-profissionais da Marvel, Jim Shooter e Bob Layton, procurou dar nova perspectiva à existência de seres com capacidades extra-ordinárias em seus próprios títulos, reiniciados em 2012, dentre os quais se destacavam o carro-chefe "X-O Manowar", "Harbinger", "Archer &Armstrong" e "Bloodshot". Contratando autores com bagagem na indústria de quadrinhos, como Robert Venditti, Cary Nord, Duane Swierczynski, Matt Kindt, Clayton Henry, entre outros, a editora rapidamente se tornou relevante nas vendas das comic shops norte-americanas, como já ocorrera na primeira investida da editora na década de 1990.

Uma das edições dos anos 1990 da editora
O auge prévio da editora foi entre os anos de 1992 e 1993, quando sua parcela no mercado norte-americano rivalizava com as duas gigantes Marvel e DC, quase igualando seus números de vendas aos da editora de Superman, Batman e companhia. As histórias dos personagens atiçavam os jovens leitores das revistas com contos mirabolantes e ação extrapolada, marcas comuns da época da bolha de especulação no mercado editorial de quadrinhos, quando empresas, como a Image, escalaram de forma meteórica até o topo da indústria, para levar todo o mercado a uma perigosa queda, que quase condenou o gênero dos super-heróis, predominante no mainstream da época. Os investidores na Valiant venderam, então, suas ações para uma empresa de videogames, a Acclaim, que tentou ainda relançar o material em 1996 e que, aos trancos e barrancos, continuou em produção até 2002. Dois anos depois, a empresa declarou falência e a propriedade intelectual dos personagens da editora ficaram em um limbo judicial por quase meia década, quando os executivos Dinesh Shamdasani e Jason Khotari, dois fiéis leitores do conteúdo clássico dos títulos "X-O Manowar", enfim, conseguiram reaver a possibilidade de dar uma nova vida para os personagens que marcaram suas infâncias.

Pôster da parceria da editora Valiant com o
programa BiblioBoard
Após algumas tratativas nos bastidores e adquirir um pouco mais de experiência na nona arte como produto, a dupla japonesa conseguiu chegar a um acordo com vários profissionais da indústria que não estavam exatamente sob a luz dos holofotes nas editoras onde estavam e, assim, em 2012, promoveram uma nova fase dos personagens da Valiant nos Estados Unidos. Os títulos novamente cativaram o interesse dos leitores, com tramas atuais e uma pegada mais realista, apesar das sinopses serem as mesmas da época mirabolante do primeiro grande sucesso da editora. A fim de engajar o mercado em seus lançamentos, a editora ainda tem marcado presença de forma constante em uma série de convenções da arte sequencial ao redor do país, como a Florida Supercon e a Phoenix Comicon, e vem procurando alcançar relevância nas novas mídias digitais, como, por exemplo, pela parceria com o programa BiblioBoard, que vai disponibilizar o catálogo das revistas Valiant nas bibliotecas norte-americanas.

Tabela dos eventos e convenções nos quais a Valiant participará
em 2015 nos Estados Unidos
Esse contexto do trabalho realizado com esse conteúdo no território americano apresenta, de antemão, algumas questões pertinentes na análise do processo ocorrido na publicação desse conteúdo no Brasil. Algo que tange desde as responsabilidades da editora quanto das mídias cabíveis de cobrir esses lançamentos. Em primeiro lugar, é necessário destacar que a natureza do mercado editorial brasileiro não possui o poderio financeiro e nem a estrutura cultural que os Estados Unidos possui (existem altos e baixos em ambas, não uma valorização de um sobre o outro aqui), então, a partir disso, é necessária uma colaboração bastante íntima entre todas as partes envolvidas para que o processo seja bem sucedido. Editores, jornalistas e, afinal, leitores, precisam estar em sintonia para um funcionamento positivo dessa ferramenta de comunicação.

 As mídias especializadas precisam estar atentas e ativas, o que nem sempre acontece no que diz respeito a todas as publicações de quadrinhos no Brasil, mas é da responsabilidade delas trabalhar com os conteúdos publicados a fim de que o mercado tenha consciência do que lhe é oferecido e como e onde pode consumir esses produtos. Quanto ao selo Valiant, ocorreu, de fato, uma defasagem, se não ausência, desse trabalho em várias frentes. Nós, do Quadrinhos Pra Quem Gosta, nos incluímos, também, nesse mote. Os títulos da HQM estavam em nossa pauta para discussão, porém, uma série de fatores acabaram nos tirando a perspectiva que deveríamos ter tido quanto ao caso em seu momento de construção. Com dificuldades para conseguir novos leitores e equilibrar financeiramente o projeto, a editora acabou passando por um hiato de publicação de quase seis meses durante a tentativa de fomentar o mercado para essa "nova" linha de personagens e, alguns meses atrás, acabou por confirmar o cancelamento dos títulos mensais de "X-O Manowar" e "Universo Valiant".

Há, contudo, que se apontar também que existe uma responsabilidade por parte da editora, no caso, em que, dadas oportunidades para tomar parte em eventos do meio e participar de forma mais ativa nas comic shops parecem não ter sido devidamente aproveitadas pelos profissionais a cargo dela. A mídia especializada, que falhou ao não abordar a publicação do selo Valiant no Brasil, também não foi procurada pelos editores responsáveis para que uma parceria pudesse ser construída em termos de constante feedback sobre o que poderia ser melhorado nos títulos mensais. Em eventos de média e grande porte, o selo HQM só pode ser conferido em estandes de terceiros, responsáveis pela mera venda e não produção daquele conteúdo, como é o caso da Devir e da Livraria da Travessa. Nas grandes mídias, como televisão e jornais impressos, sequer foi ventilada qualquer menção aos títulos da editora, talvez à exceção da revista "Mundo dos Super-Heróis", da editora Europa. Se os profissionais envolvidos não tomarem mais iniciativa no organismo vivo que é a produção cultural no Brasil, não é possível esperar resultados exorbitantes. Parece, enfim, ter faltado a determinação que Shamdasani e Kothari demonstraram ter para com o trabalho no mercado norte-americano, sempre procurando estar presentes e procurando novas parcerias e relevância. A culpa, contudo, não é só da editora, vale mais uma vez ressaltar, porém, existe sim uma parcela de ações possíveis de serem tomadas para remediar o déficit da linha Valiant que não foram realizadas pelos profissionais que a elas poderiam ter recorrido.

Um elemento que nos chama a atenção, para comentar algo específico e não apenas abordar superficialmente o caso, é a publicação todos os meses de capas alternativas dos títulos. O que seria um elemento maravilhoso para os colecionadores acabou por virar uma confusão para os consumidores ocasionais, que constituem a maior parcela de leitores de revistas no Brasil. Pela irregularidade com que as revistas eram lançadas nas bancas, consumidores corriam o risco de comprar mais de uma vez a mesma edição acreditando se tratar de material inédito, o que os desestimularia a continuar acompanhando as histórias. A própria defasagem na chegada dos novos números foi algo que influenciou muito negativamente quem não interagia diretamente com a editora e não sabia em que passo se encontravam os títulos, acreditando, assim, que estes poderiam ter sido cancelados, como ocorrera, por exemplo, com a série "Face Oculta", do italiano Gianfranco Manfredi e do croata Goran Parlov, que foi cancelada após apenas duas edições pela editora Panini, em 2012.

Conforme referimo-nos ao desenhista Orlando Pedroso, a responsabilidade pela formação do público leitor não é exclusivo das editoras, mas algo que todas as partes necessitam de assumir suas respectivas ações necessárias para um trabalho conjunto em prol dessa boa troca entre produtores, editores e leitores. Nós, mais uma vez, assumimos nossa parcela de responsabilidade sobre os erros praticados no caso do selo Valiant, porém, rechaçamos tanto uma crítica extrema aos profissionais do livro como aos leitores e interessados nesses conteúdos. Não adianta buscar bodes-expiatórios para reduzir um problema maior a uma nomenclatura ou atribuir simplesmente a alguns a culpa e dar o caso por encerrado. Como mercado e como participantes ativos nesse processo de formação cultural e expressivo por meio da arte sequencial, é da responsabilidade de todos nós sempre atentar para o que nos é possível melhorar para que as próximas grandes oportunidades não sejam desperdiçadas, mas sim comemoradas e aproveitadas ao máximo.


Agora, para encerrar, a editora HQM trouxe à tona uma discussão extremamente pertinente e que pode ser fator de grande impacto no mercado editorial de revistas em quadrinhos no Brasil. Diante do lamento que muitos dos leitores expressaram diante da notícia do cancelamento dos títulos mensais, o editor Artur Tavares levantou a possibilidade de trabalhar as histórias que ainda estavam abertas para serem encerradas em revistas no mesmo formato e molde dos títulos mensais, mas que seriam vendidos de forma direta das editoras para os leitores, publicando, assim, apenas o montante referente aos pedidos já previamente estabelecidos pelo mercado consumidor. Esse esquema é similar ao realizado nas comic shops norte-americanas, que recebem muitas vezes das editoras exatamente o número contado de edições requisitadas com base nos seus clientes e na potencial procura por aqueles materiais. Isso pode superar uma limitação comum que já é encarada por muitos produtores de conteúdo impresso no nosso país, o monopólio das distribuidoras, conforme o site Judão apontou em matéria que pode ser conferida aqui. Caso essa proposta de Tavares e da HQM surta efeitos positivos, isso pode revolucionar a produção da arte sequencial no país, apresentando toda uma nova estratégia de comércio e veiculação do conteúdo editorial. Resta-nos, então, observar os resultados que essa proposta vai apresentar e, cada um, assumir as responsabilidades por um funcionamento adequado da estrutura do mercado cultural brasileiro.

A quem tiver interesse, o editor Artur Tavares deu uma entrevista sobre a realidade do mercado encarada pela HQM no momento do cancelamento dos títulos Valiant, para o site Terra Zero, que pode ser conferida aqui. Há, também, uma matéria minuciosa realizada pelo editor Abraham Reisman, da New York Magazine, sobre a história da editora Valiant e dos executivos responsáveis por esse novo tempo áureo que as suas publicações estão vivendo no momento, que pode ser conferida aqui. E, para encerrar, há confirmação da chegada dos títulos da Valiant aos cinemas a partir de 2016, o que poderia ser uma oportunidade para alavancar em muito as vendas das revistas desses personagens tanto nos Estados Unidos, como no Brasil, conforme pode ser observado aqui.

Novos horizontes podem se apresentar à editora do título "X-O Manowar"

domingo, 10 de maio de 2015

Super Curso Especializado

Por Gabriel Guimarães

Michael Uslan é o principal responsável por essa empreitada
O site de ensino à distância edX, criado pelo professor Anant Agarwal, parte do corpo docente do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), com a finalidade de disponibilizar a usuários da rede do mundo inteiro programas de ensino online em parceria com várias universidades e instituições credenciadas, iniciará no dia 12 de maio dessa próxima semana um curso dedicado exclusivamente ao estudo da figura cultural dos sueper-heróis, sua história na mídia dos quadrinhos e como eles são elementos integrantes de uma jornada vivida pela sociedade humana desde a Antiguidade. Apresentado pelo professor e produtor cinematográfico Michael Uslan (um dos responsáveis por todas as adaptações do Batman para o cinema nos últimos quase 30 anos), o curso irá dispor de atividades com estudiosos do meio, como o acadêmico Christopher Robichaud, e autoridades no campo da produção na nona arte, como o roteirista e ícone pop Stan Lee (sim, você leu certo, ele mesmo!).

Stan Lee, criador do Homem-Aranha será parte integrante do curso
Programado para durar 5 a 6 semanas, o curso irá oferecer aos inscritos material de leitura e vídeos para acompanhamento no início de cada nova etapa, e abordará desde a mitologia inerente à figura pública do herói até os impactos da globalização e das novas mídias na compreensão sobre o papel desses superseres na nossa cultura. Será realizada também uma apresentação sobre as transições vividas no mercado editorial norte-americano ao longo do século XX, com a chegada dos personagens da Marvel e da DC nas televisões e nos cinemas, e o crescente boom que essa vertente tem experimentado nos últimos anos.

Uma das sedes do Instituto Smithsoniano, que estão dispostas ao longo de Washington, EUA
Organizado pelo Instituto Smithsoniano, que compreende à complexa rede de museus mais famosa do mundo e administrada pelo próprio Governo dos Estados Unidos, o curso procura trazer à tona a necessidade de se encarar seriamente a importância dos personagens que ganharam destaque a partir de revistas baratas e suplementos dominicais e que hoje são parte de nossa identidade pessoal e elemento comum em nossa formação social. Conforme o próprio responsável pelo curso, Michael Uslan, aponta, em outros tempos, a discussão acadêmica sobre conteúdo vindo da arte sequencial era considerado uma piada, menosprezando seus interessados e a própria mídia em si. Com o passar dos anos, contudo, isso foi mudando e, hoje, quando encaramos a plena aceitação desse material como objeto de valor midiático, é possível dar vazão a iniciativas como essa e se aprofundar mais nas minúcias que compõem esse universo maravilhoso das histórias em quadrinhos de heróis e explorar o significado particular e social que esses personagens podem representar.

Phil Jimenez já trabalhou para as duas gigantes do gênero
O curso, intitulado ''The Rise of Superheroes and Their Impact in Pop Culture'', será ministrado em inglês, podendo ser acessado em diversos pontos do mundo. Com tanto ávidos apaixonados pela mídia quanto iniciantes nessa jornada na nona arte, de países como Austrália, Argentina, Uruguai e Canadá, já inscritos antes do início das atividades e outros muitos mais a cada minuto até lá, a experiência tende a aproveitar a divergência da perspectiva nacional e cultural de cada indivíduo de forma muito instigante. A inscrição é feita através de perfil produzido no site do edX, e pode ser gratuita (voltada para os ouvintes que tiverem interesse em conferir apenas o conteúdo disponibilizado online para as aulas e atividades) ou paga, com uma tarifa única de U$50 (voltada para os interessados em receber certificado de realização do curso com credenciamento oficial e avaliação do domínio sobre os materiais apresentados no decorrer das  semanas). Foi informado aos estudantes que já se inscreveram, contudo, que àqueles que optarem pela opção paga, será enviada uma arte desenvolvida especificamente para o curso, autografada pelo desenhista Phil Jimenez, que trabalha hoje para a Marvel e já foi responsável por títulos como ''Homem-Aranha'' e ''X-men'' na Casa das Ideias e ''Crise Infinita'' e ''Jovens Titãs'' para a DC. A peça contará, ainda, com um selo oficial do Instituto Smithsoniano e as assinaturas de Michael e David Uslan, e do antológico Stan Lee.


Aberto a inscrições desde o dia 5 de maio, os interessados já tiveram disponíveis pequenos textos de introdução e acesso a uma lista de quadrinhos recomendados de leitura (praticamente uma amostra básica do essencial do gênero). Também foram estendidos links para ingresso nas comunidades virtuais do curso no Facebook e no Reddit, além de um fórum aberto a interações entre os próprios alunos, a fim de que a comunicação intercultural seja elemento fundamental das aulas, além de oferecer esclarecimento de dúvidas e trocas de contatos. Aos interessados em ingressar no curso e que ainda não o fizeram, o link para a sua página pode ser encontrado aqui. Ademais, as expectativas são muito positivas e um levantamento acadêmico sobre os aspectos históricos e culturais desse gênero de quadrinhos já era mais do que necessário, ainda que isso já viesse sendo realizado de forma gradual em escalas menores ao redor do planeta. Que esse seja um dia mais claro para a arte sequencial e um de seus mais reconhecidos gêneros! Excelsior!

sexta-feira, 8 de maio de 2015

O Espírito dos Quadrinhos no Planetário do Rio

Por Gabriel Guimarães


Na sexta-feira da semana que vem, dia 15 de maio, será realizado no Planetário da Gávea, no Rio de Janeiro, um evento dedicado a comemorar os 75 anos de um dos grandes personagens do quadrinista Will Eisner, o Spirit. Publicado a partir da parceria entre Eisner e o editor Everett ''Busey'' Arnold, responsável por edições da Quality Comics, o personagem representou uma grande ruptura na vida do autor nova-iorquino e ofereceu ao público leitor das funny pages e das revistas de aventura um material mais maduro e com maior domínio das ferramentas visuais das histórias em quadrinhos do que era o habitual do período. Publicado de forma ininterrupta até 1952, tendo sido produzido integralmente pelo próprio Eisner a maior parte desse tempo, o personagem tornou a aparecer nas décadas seguintes, principalmente através de republicações, enquanto seu criador passou a se dedicar às suas obras de graphic novel (termo, inclusive, cunhado por ele, fato que abordamos em matéria anterior aqui no blog), que o consagraram ainda mais no meio.

Antes da criação do detetive Denny Colt, que se tornaria o Spirit logo em sua estreia nos quadrinhos, Eisner era parceiro do também quadrinista Jerry Iger no syndicate responsável pela produção de dezenas de títulos veiculados nos jornais da época, o Eisner & Iger, que contava ainda com nomes de peso em suas pranchetas, como Lou Fine e Jack Kirby. Após um início complicado financeiramente, o estúdio já oferecia um retorno bastante positivo aos dois sócios no final da década de 1930, porém, não saciava o desejo de Eisner em produzir um conteúdo que diferisse do padrão majoritariamente infantil do período anterior à Segunda Guerra Mundial. Abordado pelo editor ''Busey'' Arnold após os jornais demonstrarem interesse em lançar suplementos que concorressem pela atenção dos leitores das bancas com as revistas especialmente dedicadas aos quadrinhos, Eisner viu a oportunidade de produzir um material de teor mais maduro, que apontasse os elementos humanos na sociedade americana depois da Crise da Bolsa de 1929. Após discutir com Arnold sobre a necessidade de o personagem entrar no recém-criado filão dos heróis de capa e superpoderes, algo a que Eisner era contrário, chegou-se à conclusão de que o personagem carregaria um pseudônimo e uma máscara para combater o crime, além de ter uma origem mirabolante e fantasiosa, porém, as histórias carregariam uma temática policial mais do que heroica, e os seus personagens seriam trabalhados de forma mais dedicada que as fantasias joviais rotineiras. Depois de chegarem a esse acordo, Eisner encerrou sua participação no syndicate, que passou a ser chamado de Phoenix Features, e reuniu uma nova leva de profissionais para auxiliá-lo na produção das histórias do personagem, que seriam depois distribuídas de forma sindical por Arnold junto aos jornais interessados.

Por anos, Eisner trabalhou de forma empenhada na sua nova criação, que ocasionalmente dividia espaço na ''The Spirit Section'' com outros personagens menores como Mr Mystic e Lady Luck, mas, em 1942, o autor foi convocado para o exército dos Estados Unidos e precisou se ausentar do mercado editorial, cabendo a Arnold substituí-lo por outros quadrinistas durante os anos seguintes. Uma vez regresso, Eisner novamente assumiu seu personagem e construiu de vez a mitologia que este carrega até hoje, contando com um traço mais refinado pelo fato de Eisner ter trabalhado na confecção de muitos manuais técnicos para as Forças Armadas. Com ricas aventuras imersas em drama e suspense, os leitores e os próprios profissionais do ramo admiravam o espírito de inovação que estava sendo desenvolvido naquele período para os quadrinhos, que recebeu muitas influências cinematográficas. Contudo, no final dos anos 1940, o mercado de histórias em quadrinhos passou a sofrer com a perda de novos leitores, cujo interesse passou a se concentrar em torno da televisão, que começava a crescer na época; além de conviver com a constante desconfiança das autoridades moderadoras sobre o uso dessa mídia no desvirtuamento das crianças e jovens. Eisner, que já estava mais envolvido pelo projeto que tinha junto da editora governamental American Visuals (algo mais seguro social e economicamente para um artista que começava a construir uma família), tentou ainda aproveitar o viés da exploração espacial para tornar novamente relevante seu personagem, porém, seu trabalho com o Spirit, que já vinha ganhando suporte de outros profissionais como Jerry Grandenetti, Jules Feiffer, Wally Wood e Jim Dixon, acabou chegando a um final em 1952.

Mais tarde, já nos anos 1960, Eisner encontrava-se em conflito com os novos responsáveis pela produção de seu conteúdo na ''P*S Magazine'', para a qual trabalhava desde então, mantendo um taxa de serviço constante do autor para o preparo de segmentos de características técnicas para os soldados do exército, em meio à crise no mercado editorial dos quadrinhos. Durante a Guerra do Vietnã, o volume de trabalho oferecido a Eisner era o suficiente para que ele pudesse sustentar sua casa e conquistar maior segurança financeira, porém, os movimentos antiguerra o faziam balançar sobre o que separava seus manuais voltados para o uso adequado do maquinário militar (que salvava vidas de soldados) com guias para executar inimigos. A experiência que Eisner viveu em Saigon, quando o exército norte-americano ainda ocupava grande parte do território do Vietnã do Sul, foi determinante ao mostrar-lhe o horror do campo de batalha real, uma vez que a experiência militar de Eisner ainda era muito limitada ao serviço burocrático e administrativo nos centros nervosos das Forças Armadas, dentro dos próprios Estados Unidos. Eisner estava passando por uma séria reavaliação sobre sua experiência com a produção para o Governo nesse sentido.

A grande mudança, porém, que o trouxe de volta para o ramo dos quadrinhos se deu em 1971. Convidado pelo organizador Phil Seuling para participar de uma convenção de leitores dos novos comix, revistas de linha independente com teor adulto e que eram distribuídas e vendidas em lojas de medicamentos farmacêuticos até então ilegais no país, e do material clássico publicado nas revistas e suplementos de quando seus pais eram crianças, Eisner demonstrou interesse em ver como o mercado estava se reestruturando diante da nova realidade da sociedade. Lá, ele conheceu o jovem editor Denis Kitchen, que viria a se configurar como um dos grandes nomes do quadrinho underground pelo seu trabalho diferenciado como editor do ramo (seu esquema de distribuição para as lojas, sua política de pagamento de royalties aos autores, além da devolução dos originais para os devidos responsáveis por eles e a manutenção particular dos direitos autorais). Juntos, Eisner e Kitchen chegaram a um acordo para republicar a saga do Spirit, aproveitando a onda de interesse dos leitores por conteúdos que transgredissem as normas vigentes nos quadrinhos das grandes editoras como a Marvel e a DC já o eram. Kitchen, que já publicava histórias de Robert Crumb, Harvey Kurtzman e Art Spiegelman, ficou extasiado de felicidade com a oportunidade de trabalhar com uma das lendas vivas do quadrinho na Era de Ouro como era Eisner (o pioneirismo de Eisner, inclusive, foi comentado também, aqui no blog), e este se viu animado em participar de uma nova etapa do mercado editorial de revistas, que passava por uma repaginação de forma estrutural e temática.

Denis Kitchen, em frente à entrada para a exposição de Will Eisner, na Rio Comicon de 2011
Poucos anos depois, Eisner acabou transferindo a publicação para a empresa do editor Joe Warren, a Warren Publishing, com quem já havia trabalhado mais de uma década antes e havia autorizado republicar algumas de suas histórias do Spirit na revista de humor ''Help!''. Comandado por W. B. DuBay, editor que já havia conhecido Eisner em uma entrevista de emprego para a ''P*S Magazine'', Eisner viu a publicação bimestral das histórias de Denny Colt decolar. Kitchen ficou levemente ressentido pela perda do título de Eisner, mas compreendeu a opção do autor por uma empresa que pudesse publicar seu conteúdo em formato mais adequado em termos de tamanho, distribuição nacional e qualidade técnica, além de que Eisner recusara a oferta da Marvel para lançar seu personagem pelas exigências de conteúdo inédito e as burocracias recorrentes em editoras de maior porte. A amizade dos dois se manteve e rendeu frutos para a indústria de livros e revistas em 1974, quando, além de tornar a ser a responsável pela publicação do Spirit, a Kitchen Sink deu vazão aos primeiros experimentos de Eisner com material novo, como ''The Spirit's Casebook of True Haunted Houses and Ghosts'', livro de prosa narrado pelo personagem clássico sobre histórias de teor sobrenatural e fantasioso, e ''The Invader'', história inédita criada por Eisner junto de jovens aspirantes a quadrinistas para o Spirit.


Em 1978, Eisner já dava aulas na School of Visual Arts, uma instituição em Manhattan dedicada às artes plásticas e comerciais, tinha seu próprio selo editorial, a Poorhouse Press, lançava regularmente material em torno do Spirit pela Kitchen Sink e conteúdo didático em quadrinhos pela Scholastic Books. Ainda assim, ele resolveu ir além da visão padronizada por quadrinhos e iniciou o mercado de graphic novels com ''Contrato com Deus'', material que carregava muita carga emocional do próprio autor em suas páginas acerca da perda de sua filha mais nova décadas antes (acontecimento que o marcou profundamente e que ele manteve em segredo até o lançamento, em 2006, de um volume especial incluindo esta obra e algumas outras de suas histórias passadas na Avenida Dropsie, no qual apresentou a sua experiência de perda pessoal de forma pública no prefácio deste). Publicada pela Baronet Books, após uma série de negociações editoriais, a obra revolucionou o mercado de quadrinhos apresentando-o ao universo literário presente nas livrarias. Passada a crise mercadológica experimentada pela obra com a dificuldade de sua categorização nos pontos de venda, os quais não sabiam se o colocavam entre as obras de cunho ficcional, aos materiais religiosos ou entre as revistas em quadrinhos tradicionais, o gênero revolucionou a indústria e apresentou uma vertente de potencial criativo que é observado e praticado com muito valor e qualidade até os dias de hoje.

A partir, então, da publicação do Spirit, que Eisner começou gradativamente a apresentar novas perspectivas que os quadrinhos ofereciam aos seus profissionais, com um uso mais qualificado dos elementos gráfico-textuais e posteriormente um desenvolvimento mais dedicado e profundo das histórias humanas apresentadas nos quadrinhos. A revolução da arte sequencial de Will Eisner se iniciou muito antes da sua cunhagem do termo, antes também do lançamento original da sua primeira graphic novel e antes, até, do amplo escopo potencial que a mídia oferecia em termos didáticos, contempladores e de entretenimento observado por Eisner. Tudo se iniciou na composição realista na qual formou seu único herói mascarado, muitas vezes mais coadjuvante das histórias que protagonista propriamente dito, mas sempre símbolo de justiça e luta pelos mais fracos.

O Planetário da Gávea, no Rio de Janeiro, irá realizar, em homenagem a essa data comemorativa dos três quartos de século do personagem de Eisner uma série de atividades no dia 15 de maio, a partir das 17h30. O evento contará com palestra, exibição de curtas e discussão com grandes nomes do meio gráfico como Carlos Patati, ávido estudioso da nona arte e roteirista; Ricardo Leite, designer responsável por produções de diversas frentes diferentes, desde capas de discos até a logomarca do Rio 450 anos; Marcelo Martinez, autor da capa da biografia ''Will Eisner - Um Sonhador nos Quadrinhos'' publicada em 2013 pelo selo Biblioteca Azul, da editora Globo; Marisa Furtado de Oliveira, diretora e produtora do elogiado documentário ''Will Eisner - Profissão Cartunista''; Heitor Pitombo, jornalista colaborador de diversas publicações acerca dos quadrinhos, entre elas, a revista ''Mundo dos Super-Heróis''; Esse Lobo, editor responsável pela antiga editora Barba Negra; e Roberto Ribeiro, diretor da Casa 21, que organizou as edições da Rio Comicon em 2010 e 2011 (ambas cuja cobertura completa pode ser conferida aqui no blog). Prevista para durar até o fechamento do Planetário, às 22h, o evento busca destacar o feito do personagem e as revoluções promovidas na mídia por seu criador. A entrada e o estacionamento serão gratuitos e o convite é estendido a todos os interessados em aprender um pouco mais da história dos quadrinhos e/ou admiradores da arte sequencial que queiram comemorar juntos essa marca tão especial. A página do evento no Facebook pode ser conferida aqui, e quaisquer dúvidas acerca dele podem ser esclarecidas por lá.


A quem mais tiver interesse de saber um pouco mais sobre o período entre 1940 e 1952 de Will Eisner a cargo do Spirit, vale conferir o interessante artigo de Michael Barrier, que pode ser conferido, em inglês, aqui.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Sobre o Papel das Editoras na Formação de Novos Leitores

Por Gabriel Guimarães

 

Esta semana um assunto importante voltou à tona em meio a discussões recentes sobre a educação no cenário brasileiro. O quadrinista Orlando Pedroso, em sua coluna no site Uol (que pode ser conferida aqui), redigiu uma crítica à falta de estrutura encontrada no mercado editorial do Brasil. Comentando sobre o grande papel desempenhado no comércio livreiro pelos programas estabelecidos pelo Governo, ele aponta os riscos e os problemas que o mercado está tendo que encarar diante da recente redução nos investimentos feitos nessas plataformas. Traçando uma análise histórica, ele observa a dependência que muitas editoras passaram a ter em cima desses programas e critica de forma direta a falta de participação das editoras na formação de um público leitor que capacitasse um mercado livreiro mais qualificado e independente das intervenções governamentais. Seu artigo, porém, levanta uma discussão interessante que precisa ser devidamente expandida no cenário cultural e econômico brasileiro.

Em primeiro lugar, é importante destacar o papel desempenhado pela publicação de conteúdo didático e paradidático dentro da gestão de uma editora. Para os profissionais do livro, esse material é a base na qual a maioria das principais empresas do setor tem a possibilidade de encontrar uma estabilidade financeira que lhes permita, reinvestindo seu capital, publicar obras de outras naturezas, como ficção, arte, esporte, lazer, além de conteúdo educativo de grau mais específico academicamente. A composição do catálogo de títulos disponíveis em uma editora se compõe levando em consideração essa hierarquia necessária para se construir uma empresa financeiramente sustentável, trazendo, assim, um destaque ao segmento didático para apresentar, quando possível, a produção de obras menos prestigiadas em termos de custo. Dentro do cenário cultural que se apresenta em nosso país, o mercado é limitado demais para que as editoras ajam de forma alheia a essa hierarquia na hora de estabelecer uma política de prioridades administrativas. Ou seja, programas como o PNBE (Programa Nacional Biblioteca na Escola) e o PNLD (Programa Nacional do Livro Didático) auxiliam não apenas na distribuição de mais conteúdo às escolas ao redor do Brasil, como também incentivam uma gestão financeiramente mais viável para as editoras, possibilitando, assim, que elas possam pegar o capital captado dessa maneira em novos conteúdos e na própria expansão do público leitor.


Orlando critica que as editoras ficaram acomodadas a essa estrutura e deixaram de trabalhar na linha de frente da montagem de um novo público leitor, encarando, então, um cenário caótico diante dos problemas envolvendo o investimento feito pelo Governo na edição dos programas, com ênfase na alarmante suspensão do PNBE de 2015. Os conflitos vão desde a troca da banca avaliadora do conteúdo submetido pelas editoras no edital lançado pelo Ministério da Educação, que desde 2005 era responsabilidade do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita, da Universidade Federal de Minas Gerais (CEALE-UFMG), em um processo estagnado pela burocracia governamental que atrasou diversas vezes a data de divulgação da nova instituição selecionada, até o atraso no pagamento às editoras pelo material adquirido no PNLD, conforme destacado pela jornalista Raquel Cozer no jornal ''Folha de São Paulo'' (matéria que pode ser conferida aqui). Diante desse cenário, o mercado apresentou reticências quanto ao avanço econômico nas livrarias, experimentando uma queda de 4,75% em relação ao primeiro trimestre de 2014.

Por conta dos atrasos na seleção de material para ser distribuído aos colégios de primeiro e segundo grau, os livros não puderam ser entregues aos alunos que fariam uso deles e aos professores que os utilizariam como instrumento pedagógico. Se em 2013, o PNBE distribuiu 7,4 milhões de livros a quase 70 mil escolas, o cenário que se apresenta é basicamente ausente em 2015 (dados apresentados pelo profissional do jornal ''O Globo'', Lauro Neto, cujo artigo pode ser conferido aqui e cuja discussão se iniciou em matéria da colega jornalista Graça Ramos, que também pode ser conferida aqui). A partir disso, é possível ver que o prejuízo com toda essa situação não é apenas financeiro, mas um sintoma que denota a falta de privilégio que o governo tem para com a educação. As editoras, acusadas por Orlando de agirem de forma displicente com os leitores, em função de tirarem 37% de todo o seu rendimento dos acordos com a administração federal e estatal, são tão vítimas quanto podem ser consideradas potencialmente culpadas.

O Brasil vinha experimentando um crescimento considerável na indústria do livro nas últimas décadas, com novos autores e novas editoras surgindo tanto com conteúdo físico como virtual. Desde que o PNBE foi instaurado em 1997, ele e o PNLD compreendiam 90% do investimento em livros feitos pelo Governo. Por meio desses programas, as editoras tiveram maior oportunidade de crescer e gerar empregos, além de alcançar uma quantidade maior de jovens e fomentar neles o gosto pela leitura. Apesar de Orlando apontar corretamente que a mera entrega do produto livro nos colégios não assegura a formação de um público leitor, é necessário indagar sobre as razões dessa discrepância. O papel dos professores nas redes de ensino e das famílias dentro de casa são elementos que carregam um grande peso na estruturação de um pensamento acerca do valor de saber ler e escrever, e ao aprendizado que essas atividades podem levar ao indivíduo. Conforme destaca o antropólogo amazonense Felipe Lindoso em seu livro ''O Brasil pode ser um país de leitores?'', o professorado brasileiro encontra uma ampla diversidade de aplicações que os programas de incentivo à leitura não são capazes de se adequar em função da ausência de uma grade curricular padronizada pelo Governo Federal às esferas estatais. A rede de ensino brasileira é difusa em muitos sentidos, e encontra as limitações socioeconômicas e tecnológicas como entraves para um trabalho produtivo, relevante e consciente. As mídias mais visadas no país são as de natureza audiovisual e o conteúdo apresentado ali não estimula um aprofundamento no prazer do aprendizado e da inovação, muito pelo contrário, opta, em sua maioria, por repetir fórmulas e privilegiar a superficialidade das personalidades públicas.

Estande da editora Leya na CCXP 2014
As editoras de livros, contudo, vem se mostrando atentas às novas nuances do mercado, encontrando em eventos como as Feiras Internacionais do Livro ou a ComiCon XPerience oportunidade de criar um vínculo com potenciais leitores. Dessa forma, investem na montagem de estandes e na divulgação pelas redes sociais, por onde seus admiradores podem compartilhar experiências e ampliar o conteúdo publicado de forma literária em um agradável complemento para enriquecer suas vidas, direta e indiretamente. Tal qual ocorreu com a transição do foco da indústria fonográfica que era voltado para a venda de discos e passou a priorizar o comércio de experiências (ao invés de lucrar mais com o produto físico, a indústria passou a dar mais atenção a shows e encontros com fãs, que pagavam por algo particular que não poderia ser massificado, a experiência de estar lá), as editoras não apenas brasileiras estão passando por uma transição geral. Os leitores estão se consolidando cada vez mais como seres de natureza multifacetada e cuja atenção carece de ser captada em diferentes frentes, sempre com uma estimulando a outra; algo que os editores estão percebendo e, dessa forma, já vem trabalhando a respeito.

Trabalhos vem sendo bem realizados por editoras como a Draco, que vem investindo em autores nacionais dos gêneros de ficção científica e fantasia, que quase não tinham espaço no Brasil, a Balão Editorial, que investe em autores de quadrinhos nacionais em formatos que privilegiem a história em si mais do que apenas uma visão lucrativa do produto, e a Novo Conceito, que vem aproveitando as mídias sociais para descobrir novos autores e lançar conteúdo inédito no mercado impresso, fora as já tradicionais JBC e Panini. Enquanto esta primeira investe bastante tempo nas mídias digitais e vem organizando o Brasil Mangá Awards, premiando os vencedores com a publicação de suas histórias em uma edição intitulada ''Henshin Mangá'', com mesmo acabamento gráfico que os volumes vindos do Japão; a Panini tem se tornado ponto de referência nos eventos de larga escala da cultura pop no Brasil, além de lançar no mercado conteúdo alternativo dos autores convidados pelos estúdios MSP a tomar parte no selo editorial de graphic novels com os personagens criados por Maurício de Sousa, como foi o caso dos volumes de ''Valente'', série de tirinhas do quadrinista mineiro Vitor Caffagi.

O descaso despendido aos problemas consequentes da perda dos programas de incentivo do Governo às editoras e à rede de ensino público é um erro grave, uma vez observados os seus desdobramentos. Tanto editoras de larga escala quanto as menores estão sofrendo as consequências disso, tendo que diminuir a projeção de 1ivros a serem publicados no ano e diminuindo o plantel de profissionais empregados, como é o caso da editora Melhoramentos, que vai precisar reduzir o número de títulos que lançaria de livros este ano de 230 para 180. Uma redução pesada em termos culturais e financeiros.

Página da revista "X-O Manowar", da linha Valiant
Uma vez apresentado o contexto, a crítica de Orlando parece um tanto injusta, mas é necessário também lembrar que existem editoras que não encontraram ainda um ponto certo de equilibrar sua participação no mercado, como foi o caso recente da linha Valiant, publicada pela HQM. Ao cancelar seus títulos por falta de procura do público leitor, a editora assumiu o discurso de que há uma crítica sobre a falta de material intelectualmente estimulante no mercado de bancas de jornal, mas quando se lança um conteúdo novo que pode suprir essa necessidade, o público e a mídia não se mobilizam para que a empreitada dê certo. Essa crítica é embasada nos números de vendas que a editora recebeu e que lhes deixou no prejuízo financeiro. O trabalho, contudo, que foi realizado com os quadrinhos do selo Valiant, apesar de graficamente estar impressionante, foi extremamente limitado por uma regularidade inconstante nas bancas de jornal e uma confusão provocada por um elemento que poderia até estimular o público especializado: as capas alternativas. A editora deveria ter se movimentado para se aproximar dos sites especializados e marcado presença nos eventos do segmento de forma mais assertiva, mesmo que se limitasse a tomar parte em palestras sobre a mídia no Brasil, como outras vem fazendo muito bem nos últimos anos. As páginas dedicadas aos quadrinhos poderiam ter colaborado mais para ajudar essa linha de títulos a encontrar sucesso no país (até levando em conta que trata-se de um conteúdo que recentemente foi apontado para ser levado às grandes salas de cinema nos próximos anos), mas não se pode assumir o discurso radical de que as pessoas deveriam saber melhor o que fazem. A HQM já voltou atrás do cancelamento de seus títulos para uma discussão mais aberta sobre como tornar sua publicação sustentável financeiramente, o que pode, inclusive, beneficiar em muito o mercado e a própria editora (algo que pretendemos abordar de forma mais dedicada em outra matéria futura aqui no blog).

O ProAc é um exemplo de programa que precisa crescer
Em suma, as consequências são sentidas por todos os lados, não adianta buscar um bode expiatório. É necessário apenas procurar aprender com os erros e corrigi-los enquanto existe essa possibilidade. O fomento de novos leitores, portanto, até pode pesar sobre as responsabilidades das editoras, mas a carência recente disso é fruto de má gestão administrativa do Estado e omissão optativa do Governo, trabalho inconsequente das mídias sensacionalistas e falhas consideráveis de divulgação quanto a eventos do mercado literário (não as feiras internacionais, mas os eventos de pequeno e médio porte, que justamente ajudam o mercado a continuamente se renovar). Em uma sociedade, não são apenas as glórias que devem ser partilhadas após uma encruzilhada, mas o peso das decisões erradas também. E o que se deve aproveitar disso é identificar as formas de melhor aprimorar os procedimentos tomados por todas as partes envolvidas. Os problemas com o PNBE e o PNLD precisam ser abordados com a devida seriedade, tanto pelos profissionais do livro, em todas as suas etapas (desde a autoria até o consumo, inclusive), como por aqueles que desejam ver nossa sociedade brasileira ter melhores condições socioeconômicas como um todo, porque a cerne de todo esse processo está na educação. Programas, ainda, como o Proac, em São Paulo, precisam continuar relevantes e serem adotados por outros estados, a fim de que, estimulando a produção cultural, o povo possa se sentir melhor representado na mídia e compreender suas responsabilidades para que receba seus direitos e possa executar de forma adequada sua função na sociedade.


É necessária, ainda, uma educação apropriada para estimular a leitura e o aprendizado, e não apenas o estabelecimento de uma grade de etapas a serem cumpridas para que o indivíduo seja inserido em uma sociedade que não se leva a sério o suficiente para garantir a valorização de sua cultura e da formação de seus membros. A responsabilidade pelos problemas que estão ocorrendo é de todos nós, e cabe a cada um questionar honesta e razoavelmente o que poderia fazer para ajudar-nos a melhorar. Sempre como um todo, vale ressaltar. Apenas assim, talvez possamos ter um futuro digno e com boas promessas de igualdade.

terça-feira, 28 de abril de 2015

All You Need is an Edge

Por Gabriel Guimarães


O ano de 2004 foi bastante turbulento para a humanidade. Ainda sob o jugo do temor provocado pelos atentados terroristas às Torres Gêmeas, nos Estados Unidos, alguns anos antes, muitos países viveram situações tensas com radicais ideológicos que optaram por utilizar os mesmos meios para combater aqueles opostos aos seus propósitos. A Austrália sofria com ameaças do tipo, a Ucrânia vivia grande caos em meio ao seu período eleitoral, a Rússia viu dois massacres ocorrerem em seus aeroportos e escolas, a Espanha sofreu atentados graves em pontos de seu sistema público de transporte, o Kosovo, ainda então parte da Sérvia, era cenário de grandes conflitos populares, insurgentes no Iraque atacaram uma de suas prisões. O mundo inteiro, portanto, passava por um período de reconfiguração de seu cenário político e militar. Nada, porém, surpreendente que essa temática, já tão emblemática na indústria de entretenimento desde os tempos da Primeira Guerra Mundial, tenha sido representada em obras da época como o documentário ''Farenheit 11/9'', o jogo ''Counter-Strike: Source'' e a obra que é o foco de nossa matéria hoje, a light novel ''All You Need is Kill''. Escrita por Hiroshi Sakurazaka e com ilustrações de Yoshitoshi Abe, a história foi publicada pela editora Shueisha dentro da revista ''Super Dash Bunko''. Uma década depois, foi adaptada para os quadrinhos por Ryosuke Takeuchi com desenhos de Takeshi Oda, e para os cinemas pelo diretor norte-americano Doug Liman.

Keiji Kiriya acordando após mais um loop
Apresentando a história do recruta Keiji Kiriya em sua primeira luta na frente de batalha do seu pelotão contra os Mimetizadores, raça alienígena que atacou o nosso mundo com o objetivo direto de dominá-lo como a uma presa, o livro aborda a mudança causada no personagem a partir do momento em que este adquire um dos poderes dos seres inimigos, o qual faz com que ele volte no tempo até um dia antes de sua morte toda vez que ele cai em confronto. Com um estilo similar ao do filme de comédia de 1993, ''Feitiço do Tempo'', o protagonista se vê preso em uma rotina repetitiva cujo fim sempre termina por levá-lo de volta ao começo. Revivendo centenas de vezes o combate, o ingênuo Kiriya vai se tornando mais frio e calculista, uma vez que retinha todas as experiências das mortes anteriores e continuava fadado a experimentá-las continuamente. Transformando-se de um soldado novato em especialista, o personagem apresenta o desumanismo provocado pelo cenário caótico da guerra e os frequentes encontros com a morte, elemento apontado com grande pesar pelo escritor e veterano soldado alemão Erich Maria Remarque em sua obra de 1929, ''All Quiet on the West Front'', acerca da experiência alemã na Primeira Guerra Mundial.

Acima, a representação dos Mimetizadores no filme, abaixo a versão do mangá
No decorrer da trama, Kiriya conhece pessoalmente outra oficial que teria passado por experiência similar à sua com o loop do campo de batalha, a norte-americana Rita Vrataski. Apelidada em batalha de 'Valquíria' e empunhando um longa e pesada lâmina, ela lhe explica a origem do fenômeno pelo qual está passando e o ajuda a treinar para que, juntos, possam eliminar os Mimetizadores responsáveis pela salvaguarda do grupo inimigo ao gerar a viagem no tempo para que possam se reorganizar e se defender melhor dos ataques humanos. Diante da realidade grotesca das guerras e as inúmeras baixas que se repetem a cada novo loop, eles se veem confrontados por uma determinação que talvez seja a única forma de romper a repetição e terminar a batalha, mas isso não será realizado sem grandes sacrifícios.

Tendo iniciado a desenvolver sua história a partir da experiência que leu de um jogador de videogame onde o seu personagem ressurgia nos checkpoints depois de morrer em uma parte mais avançada da fase, mas com maior experiência e entendimento do que viria a encontrar mais pra frente, o autor Hiroshi Sakurazaka procurou observar o outro lado dessa dinâmica e avaliar os efeitos que esse contínuo retorno teria em um indivíduo na linha de frente de combate. Muito menos luxuosa do que alguns poderiam presumir, a história dá um enfoque dramático e aterrorizante no ciclo de mortes sem fim testemunhado por Kiriya.

O mangá produzido a partir da light novel adquiriu grande popularidade pela arte de Takeshi Oda, responsável por renomados outros títulos como ''Death Note'' e ''Bakuman'', e foi publicado em duas revistas no Japão, a ''Weekly Young Jump'' e a ''Weekly Shonen Jump'', sendo trazido para as bancas brasileiras pela editora JBC em dezembro do mesmo ano. Com bastante dinamismo nas cenas e uma abordagem tensa dos efeitos psicológicos no personagem principal, ''All You Need is Kill'' agradou bastante ao público e conseguiu ter boa visibilidade no estande da editora na ComiCon XPerience em São Paulo.

O filme, renomeado para ''Edge of Tomorrow'' (em português, ''No Limite do Amanhã''), foi um grande responsável por trazer os holofotes para a história de Hiroshi. Dirigido por Doug Liman, reconhecido por seu trabalho no filme ''Identidade Bourne'', e estrelado por Tom Cruise e Emily Blunt, o filme arrecadou mais 100 milhões de dólares só dentro dos Estados Unidos e mais que o dobro disso no resto do mundo. Com uma pegada um pouco diferente da narrativa original, o filme apresenta a perspectiva do major Willian Cage, uma figura mais pública que ativa no combate aos Mimetizadores, que acaba sendo enviado para o campo de batalha contra sua vontade e que se vê preso ao loop temporal logo em sua primeira investida. Em meio ao ciclo repetitivo de morte em ação, Cage conhece Rita, apresentada então como 'o anjo de Verdun', uma vez que a trama se desenrola em terras europeias ao invés da original nipônica. Ela o treina e, juntos, traçam um plano para destruir os Mimetizadores que vinham provocando o caos na França e Alemanha. Diferente da versão original, a trama não alcança o clímax que o mangá apresenta, mas apresenta um ambiente menos hospitaleiro que rende uma boa evolução na personalidade dos personagens. A trilha sonora, também, ficou marcada como um elemento fundamental para o filme e foi um dos grandes pontos positivos da produção, conforme é possível conferir no trailer abaixo. Forte concorrente a uma das trilhas sonoras mais notáveis de 2014.

 
A atuação de Emily Blunt esteve excelente no filme
Em ambos, a personagem de Rita Vrataski é emblemática e expõe a ruptura com a visão conservadora das mulheres no campo de batalha. Forte, segura e determinada, a personagem representa grande parte da evolução da história e é tão protagonista da história quanto Kiryia ou Cage. Carismática, ela é respeitada por companheiros e superiores, e no filme, é uma das personagens melhor representadas, em compasso com sua participação no mangá.

O filme rendeu, ainda, outra adaptação para as história em quadrinhos, desta vez em volume único, pela dupla Nick Mamatas e Lee Ferguson, produzida nos Estados Unidos a partir da trama original. Publicada pelo grupo editorial Viz Media, responsável em 2009 pela tradução do original de Hiroshi e de outras centenas de obras japonesas para o inglês, a edição mantém-se inédita no Brasil. Tanto o mangá quanto o filme e a graphic novel saíram por volta da mesma época, no primeiro semestre de 2014 e impulsionaram uma discussão mais ampla sobre a possibilidade de mais mangás e light novels serem adaptadas para os cinemas norte-americanos, trazendo assim maior atenção para seus autores e para a mídia, muitas vezes marginalizada por uma imagem pública demasiado infantil.


A quem tiver interesse em conferir uma entrevista de Hiroshi Sakurazaka para o portal Japan Times acerca da produção em cima de sua obra estreando nas grandes salas de cinema, o link segue aqui. O site Anime News Network também fez uma matéria interessante sobre o sucesso alcançado pelo filme ''No Limite do Amanhã'', que pode ser conferida aqui. Para concluir, o site The Motley Fool preparou uma matéria interessante sobre a graphic novel do ''All You Need is Kill'', da Viz Media, que pode ser conferida aqui.

NOTA GERAL (FILME): 4 ESTRELAS.
NOTA GERAL (MANGÁ): 4,5 ESTRELAS.