quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Uma Quinzena de Quadrinhos na Travessa e Uma Noite de Design na Veiga de Almeida

Por Gabriel Guimarães


Teve início nesta quarta-feira, dia 26 de novembro de 2014, a Primeira Quinzena de Quadrinhos na Livraria da Travessa, que, em parceria com o CCBB, promoverá debates e encontros com alguns autores de quadrinhos cariocas, como André Dahmer, que esteve esta quinta pela manhã apresentando seu procedimento de trabalho aos visitantes presentes. O evento pretende atrair o público leitor de quadrinhos na cidade maravilhosa e aproximar um pouco mais os autores de quadrinhos de seu público. Contando com a participação de autores como Daniel Lafayette, Rafael Coutinho e Pacha Urbano, o evento ainda traz questões interessantes para serem discutidas, como o fator transmídia nos quadrinhos, a relação da realidade com as histórias apresentadas nas páginas de arte sequencial, além de já estar abrindo um espaço para discussão sobre o mercado independente no Rio de Janeiro.

O evento acontecerá até o dia 5 de dezembro de 2014, iniciando-se na Livraria da Travessa dentro do próprio CCBB e encerrando em workshops que serão realizados na Travessa do Shopping Leblon. A entrada é franca e a distribuição de senhas para participar das atividades começa a ser realizada uma hora antes do início destas. Quem quiser saber mais detalhes da programação, o link para a página do evento encontra-se aqui. Para maiores dúvidas, recomenda-se procurar os organizadores, com destaque para a ilustradora Tatyane Menendes, na página do evento no Facebook, que pode ser acessada aqui.


Nesta quinta-feira, dia 27 de novembro, além das atividades na Livraria da Travessa, também ocorreu a palestra "Design Fora da Caixa", no campus da Universidade Veiga de Almeida da Tijuca. Com o objetivo de apresentar um pouco a história da nona arte no Brasil e aproximar os quadrinhos do pensamento dos designers que estão em formação na faculdade, o professor Octávio Aragão e o roteirista e pesquisador Carlos Patati realizaram uma apresentação muito interessante.

Comentando desde os precursores da imprensa brasileira como Ângelo Agostini, Henrique Fleiuss e Luigi Borgomaniero, a apresentação destacou bastante a relação da produção de quadrinhos com a história da imprensa no Brasil, adaptando-se às evoluções tecnológicas que eram disponibilizadas ao mercado, com ênfase na construção da cultura da leitura em bancas de revista nas cidades brasileiras e como a transição de imagens pictóricas singulares para a construção de uma narrativa sequenciada geraram mudanças estruturais na compreensão do quadrinista enquanto profissão. Foi muito discutido o teor infantil com que as histórias acabaram ficando associadas e o potencial de expressão que a narrativa dessa mídia oferecia, comentando ainda sobre as raízes contextuais em que a censura surgiu nos quadrinhos, tanto internacionalmente como no próprio cenário brasileiro.

Um tópico, porém, muito interessante destacado na palestra foi a necessidade de existir publicações tanto luxuosas quanto independentes, tanto de acabamento rico quanto de qualidade popular. O mercado que se estabeleceu no Brasil assim o fez graças a um contínuo esforço de editores que procuravam toda e qualquer forma de veicular conteúdos em quadrinhos nos mais diversos tamanhos e teores. Octávio vê com certo alarmismo a transição que o mercado brasileiro vem apresentando no que tange à produção de quadrinhos feitos apenas para serem comercializados em livrarias como edições de muitas páginas e lombada quadrada. Acreditando que o mercado pode sofrer um revés da superexploração desse modelo, o professor espera que projetos de financiamento colaborativo sejam apenas uma ferramenta dentro do espectro geral das publicações em quadrinhos no país, antes que a única chave para tal. Patati ressaltou a extinção que vem tomando o mercado mundial das revistas periódicas que outrora foram referências onde surgiram e se estabeleceram grandes autores, como é o caso da "Pilote", revista francesa onde as aventuras de personagens como Asterix e Lucky Luke foram originalmente publicados. A ausência de material dessa natureza é, de fato, algo a ser considerado em relação aos rumos da nona arte no mercado internacional.

Foi discutido, ainda, a inteligibilidade das histórias atuais no mercado, colocando na balança o papel que as adaptações para o cinema tem desempenhado na produção de histórias mesmo antes de sua confecção e veiculação na mídia. Conceitos como a cronologia aplicada aos universos nos quadrinhos por autores como Stan Lee foram abordados, a fim de se ponderar a direção que os filmes de grande orçamento podem se encaminhar, levando-se em consideração suas fontes originais. Elementos como a importância da distribuição e as ferramentas eletrônicas de divulgação também foram abordados com alguma cautela mas como fundamentais em uma economia globalizada como a que vivemos hoje.

O dia 27 de novembro de 2014 certamente foi um dia bastante pleno em termos de abordagem da arte sequencial nas terras cariocas, mas ainda há muito pelo que se esperar nas semanas vindouras. O 4º Colóquio Internacional de Filosofia e Histórias em Quadrinhos será realizado no campus da UFRJ no Centro do Rio de Janeiro no dia 5 de dezembro (a página do evento no Facebok pode ser conferida aqui), e a ComiCon XPerience está cada dia mais próxima. É muito bom viver um período de maior relevância para o mercado de quadrinhos, contudo, é necessário tomar precaução para que as festividades com os quadrinhos não impliquem em menos dedicação à produção de conteúdo de qualidade nestes. Continuaremos a fazer sempre uma cobertura justa com todos os eventos em torno da arte sequencial, mas esperem por novidades nossas em breve!

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Panteão de Heróis pela Ordem e pelo Progresso

Por Gabriel Guimarães



Pouco mais de dois anos atrás, o roteirista Elenildo Lopes deu seus primeiros passos para transformar seu site de cobertura da nona arte "Meu Herói" em um projeto para publicar seu principal personagem, o Capitão R.E.D. em uma edição com belo acabamento (essa iniciativa foi coberta aqui no blog na época). A partir de então, ele passou a buscar novas formas que possibilitariam a veiculação de conteúdo produzido pelos quadrinistas brasileiros que não contavam com grande evidência nas mídias tradicionais. Exercendo, então, um papel de defensor da cultura brasileira e mantendo uma postura de sempre respeitar o conteúdo que o influenciou como leitor, Elenildo iniciou o planejamento para um projeto mais ambicioso cujo grande objetivo é expor o material de muitos autores nacionais a uma parcela maior do público consumidor de quadrinhos e, dessa forma, lhes garantir o reconhecimento e valor devidos. O projeto "A Ordem!" compreende uma história em torno de 100 páginas, com personagens de 24 autores diferentes, provenientes de estados de norte a sul do país, e está em processo de financiamento colaborativo no Catarse desde 10 de novembro, com previsão para fechar a disponibilidade de colaborações no início da segunda semana de janeiro.

A iniciativa, que reflete muito da luta pela valorização da produção brasileira na nona arte, que Elenildo tem travado desde que fundou, junto do cartunista Fernando Rebouças, o movimento DQB - Democracia ao Quadrinho Brasileiro, em 2010, tem uma proposta de potencial admirável, e sua temática central toca em um tópico que muitos levantam ao ingressar no mercado das revistas em quadrinhos no nosso país: Por que não há heróis brasileiros nas bancas?

Em primeiro lugar, é fundamental destacar que há, sim, muitos heróis brasileiros, cada qual refletindo seu contexto de criação e influências, porém, o que torna complicado o processo de consolidar os personagens em um mercado saturado de material estrangeiro sendo distribuído pelas editoras a preços mais acessíveis é, em grande parte, um fator: evidência. O destaque dado às publicações de cunho nacional é bastante limitado, tendo apenas ganhado reforço a partir da primeira década do século XXI, com o advento da internet e a ferramenta de divulgação nas redes sociais, enquanto o conteúdo estrangeiro que chega ao Brasil, uma vez já tendo sido avaliado como um sucesso de vendas em seu próprio mercado de berço, conquista a atenção daqueles editores e empresários que possuem condições de custear sua distribuição nas terras tupiniquins. Isso, contudo, não quer dizer que não haja profissionais do setor que acreditem na qualidade do material brasileiro, porém, o processo para trabalhar com ele possui ônus mais pesado para as editoras, além de ser algo que faz frente ao conflito cultural que vivenciamos no Brasil há décadas, por não compreendermos o valor daquilo que nós mesmos produzimos.

Como Nelson Rodrigues certa vez destacou, o povo brasileiro possui uma cultura de "vira-lata", ou seja, compreende a si mesmo como um ser de natureza abaixo das dos demais, mas que consegue superar os obstáculos que se apresentam diante de si para continuar vivo. Nossa determinação, enquanto povo, é realmente algo muito precioso, sendo fonte para muitas histórias de vida com vitórias sobre a pobreza ou doença, em cidades ao redor do Brasil todo. Nossa jornada, porém, não pode ser composta apenas de pobreza e doença a serem superadas. O valor de nosso trabalho precisa ser reconhecido, a técnica particular com a qual executamos nossa produção cultural precisa ser respeitada. Apenas assim, poderemos construir uma base segura na qual construir uma identidade sociocultural digna de um povo tão determinado e criativo. Elenildo, por meio deste projeto, organizado em parceria com outros talentosos profissionais da arte sequencial, como Augusto Velazquez, Gian Danton, Gil Santos, Joe Benett e José Luis, entre tantos outros hábeis quadrinistas, oferece ao leitor brasileiro uma oportunidade de transformar esse cenário, talvez não de uma única vez, mas possivelmente no início de um processo gradual, passo a passo, livro a livro, quadrinho a quadrinho.

O livro "A Ordem!" promete ser, portanto, uma boa exposição para muitos personagens pouco conhecidos do grande público, ainda que todos já tenham sido publicados previamente. A evidência que o projeto tende a trazer sobre essas criações pode oferecer aos seus autores novas oportunidades para encorpar a produção cultural nacional com o gênero heroico que atrai tantos leitores de quadrinhos, mas que não tem tanta atenção do mercado interno como um todo. Aos interessados em colaborar com a proposta (lembrando que cada valor preestabelecido no Catarse compreende itens que vão desde o álbum impresso até extras como sketchbooks e edições dos personagens representados na história em suas próprias publicações originais), o link pode ser conferido aqui.

A quem tiver interesse em conhecer mais, o jornal eletrônico "FolhaZ" entrevistou recentemente Elenildo Lopes sobre sua proposta no Catarse e a iniciativa do DQB, que pode ser conferida aqui. O jornal mineiro "O Tempo" também realizou uma entrevista muito interessante com o criador de um dos personagens que estarão no projeto, Wellington Santos, traçando sua carreira desde a primeira publicação de seu herói Vulto, de forma independente em 1990. Ela pode ser conferida aqui. Para maiores informações e novidades do projeto "A Ordem!", fiquem atentos à página deste no Facebook, que pode ser conferida aqui.

domingo, 16 de novembro de 2014

Rumo a Uma Grande Experiência

Por Gabriel Guimarães



Entre os dias 4 e 7 de dezembro de 2014, será realizado no Centro de Convenções dos Imigrantes, em São Paulo, a primeira edição da ComiCon Experience (CCXP), com uma estimativa de público considerável vinda de todo o Brasil, além de dezenas de artistas brasileiros e estrangeiros cujo trabalho na indústria de quadrinhos tem rendido obras de grande sucesso de público e crítica nos últimos anos. A fim de trazer a experiência dos grandes eventos da indústria de entretenimento realizados nos Estados Unidos, os organizadores do evento, com destaque para o pessoal do site "Omelete" e para o entusiasta dos quadrinhos Ivan Freitas de Costa, pretendem oferecer a oportunidade ao público de conhecer os responsáveis pela produção do conteúdo que os atrai, entretêm e motiva.

Para tanto, atores como Jason Momoa ("Game of Thrones" e o futuro filme "Superman V Batman - Dawn of Justice") e Edgar Vivar (o clássico "Seu" Barriga, do seriado "Chaves"), atrizes como Katie Cassidy (Laurel Lance, do seriado "Arrow") e Fiona Dourif (que interpretou a personagem Casey de "True Blood"), foram convidados para painéis voltados para a mídia televisiva, enquanto desenhistas como José García-López (responsável pelo design da maioria dos personagens do Universo DC pós-Crise nas Infinitas Terras e pré-Novos 52) e Don Rosa (aclamado artista por décadas das revistas do "Tio Patinhas", para a Disney), e roteiristas como Scott Snyder (atual roteirista do Batman para a DC), comporão o núcleo dedicado à arte sequencial. No campo dos games, a Arena Go4Gold realizará torneios dos jogos online "League of Legends", "Crossfire" e "Smite - A Arena dos Deuses", com a maior premiação do cenário brasileiro, totalizando cerca de 150 mil reais.

Procurando abrir espaço para novos autores também, o evento contará com muitos lançamentos de obras independentes, além de anúncios sobre as publicações previstas para as bancas e livrarias brasileiras no ano de 2015. Do âmbito nacional, serão muitos autores, vindos de norte a sul do país, oferecendo uma mistura cultural de todos os tipos que compõem o Brasil. Muitos autores que tiveram seu conteúdo recentemente lançado graças ao financiamento colaborativo, inclusive, estarão lá, como é o caso da dupla Denis Mello e Ana Recalde, com o álbum "Beladona", Alex D'Ates, com a revista "Mercenary Crusade" (comentada na época de seu financiamento aqui no blog) e o premiado Mário Cau, com o primeiro volume de sua webcomic, "Terapia", entre muitos artistas que merecem uma atenção especial e um forte estímulo para continuarem produzindo suas obras.

O evento será, definitivamente, um marco no panorama cultural brasileiro durante a sua realização e, com tanto para se desenrolar em tão pouco tempo, nós do "Quadrinhos Pra Quem Gosta" não poderíamos ficar de fora desse grande evento. Portanto, por meio desta matéria, estamos confirmando nossa participação na cobertura do evento, nos mesmos moldes em que cobrimos no passado as duas edições da Rio Comicon (que podem ser conferidas aqui), as duas últimas edições da Feira Internacional do Livro no Rio de Janeiro (que também podem ser conferidas aqui) e outros tantos eventos nos quais a arte sequencial esteve em destaque ou em debate. Até lá, ainda haverá muitos outros tópicos que serão trabalhados em nosso site, porém, o destaque para nossa presença na CCXP é claramente um fator que precisava ser feito em proporcional medida com seu significado para a indústria de entretenimento no Brasil.

Que venha a grande #ComiXperiencia!



quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Diferentes Perspectivas Para o Desejo de Vingança

Por Gabriel Guimarães




Lançada de forma seriada na revista "Weekly Manga Action" entre 1996 e 1998, e chegando às mãos dos leitores japoneses em 8 volumes compilados pouco tempo depois, a história "Oldboy", escrita por Garon Tsuchiya e desenhada por Nobuaki Minegishi, cativou de forma determinante o público com uma trama envolta em mistério, intriga e suspense psicológico, porém, só ganhou a atenção da mídia internacional a partir da adaptação para as grandes telas feita pelo diretor sul-coreano Chanwook Park em 2003. Essa repercussão no cinema, destacada pelos prêmios acumulados em festivais ao redor do mundo todo, com destaque para o Grand Prix do Festival de Cannes, causou, porém, uma certa confusão acerca da fonte original da história. Recentemente, o diretor norte-americano Spike Lee produziu uma refilmagem da obra de Park, que trouxe de novo à tona algumas questões que merecem ser destacadas no original de Tsuchiya e Minegishi.

O mangá "Oldboy" segue a história do amnésico Shinichi Gotou, que acabara de ser liberado de um cárcere de dez anos sem qualquer contato com o mundo externo além do que era transmitido na pequena televisão que possuía no cubículo onde era mantido. Sem se lembrar inicialmente de quase nada sobre seu passado, o personagem vaga pelas ruas até conhecer a jovem Eri e começar a procurar pistas sobre quem o aprisionou por tanto tempo e a razão disso. A trama se desenrola ao longo dos 79 capítulos publicados pela editora Futabasha, ganhando uma forte carga psicológica a partir da metade da história. A resolução da trama se dá de forma prolongada, com o jogo de gato e rato protagonizado por Gotou e seu captor alternando entre lados continuamente até o desfecho da jornada com a morte de um dos dois. A obra, entretanto, não se conclui de forma absoluta, deixando no ar mais um pouco do suspense com que a série foi guiada desde seu início.

O filme de Chanwook Park consegue captar o clima de mistério do mangá, porém, se distingue deste em muitos outros aspectos. A história agora se passa na Coreia do Sul ao invés do Japão e o protagonista é o intimidador Oh Dae-su, que ficara encarcerado por 15 anos e cujo propósito de sua punição se deve ao efeito devastador que provocou no passado de alguém a quem não consegue se lembrar. Embora a trama de Tsuchiya e Minegishi também carregue muito essa noção das consequências do passado no presente, o filme transforma esse fator em algo consideravelmente mais sério e carregado de tabu que o mangá. A quantidade de violência e o terror psicológico consequente dessas mudanças proporcionam uma experiência bastante diferente do material original, mais focado no mistério em si. A produção de Park, contudo, não perde a qualidade por essas divergências, apenas recaracteriza o tema e proporciona uma perspectiva mais severa para o sentimento de vingança com o qual Oh Dae-su inicia sua jornada.

É necessário, portanto, discernir o filme do mangá original. Com o sucesso de crítica do filme, muitos passaram a considerá-lo como uma peça única, sem conhecer sua fonte verdadeira. E o caso do filme lançado em 2013 pelo diretor Spike Lee com atores como Josh Brolin e Elizabeth Olsen parece trazer essa discussão novamente à tona. Inicialmente planejado para ser uma verdadeira adaptação dos quadrinhos, a ser dirigida por Steven Spielberg e estrelada por Will Smith, o filme foi cancelado após os estúdios Dreamworks abandonarem o projeto devido a uma série de desacordos sobre os direitos de adaptação do conteúdo entre os detentores do material sul-coreano e do mangá japonês original. A produtora Mandate Pictures, após anos desse incidente, anunciou em 2011 a produção do novo filme com novo elenco e cujo propósito se restringiria apenas a refilmar o material de Chanwook Park. Transportando os eventos da história  para outra localidade e outro tempo, o filme agora seguia a jornada por vingança do malandro Joseph Doucett atrás de seus captores, que o deixaram preso por 20 anos. Seguindo várias cenas do filme de Park, a ponto de ser possível associar designs de ambientes e ângulos de filmagem, o material americano não agregou quase nada em relação ao filme anterior, realizando pequenas mudanças no desfecho da história, que é drasticamente diferente do desfecho do mangá.


Uma vez que a sua adaptação cinematográfica alcançou a mídia internacional, a Dark Horse Publishing House adquiriu os direitos para lançar o mangá nos Estados Unidos, em 2005, rendendo à editora um prêmio Eisner por melhor edição de material estrangeiro do Japão no mercado americano. Em 2013, foi a vez da editora Nova Sampa chegar a um acordo com os detentores dos direitos de distribuição da história de Shinichi Gotou, lançando nas bancas brasileiras as oito edições da obra em quadrinhos. Agora, está nas mãos dos leitores a oportunidade de conferir o que essa trama tem de tão instigante em termos de roteiro e tão detalhado em termos de desenho. Não deve-se esperar a mesma experiência do filme, mas, pelo contrário, recomenda-se manter a mente aberta ao ritmo de mistério que a trama oferece, ainda que ocasionalmente isso imponha um desenvolvimento lento na história. É relevante aqui destacar que o filme "Oldboy" de Chanwook Park, com seus acertos e defeitos, é uma obra válida de ser reconhecida como um desenvolvimento interessante para o cenário proposto por Tsuchiya e Minegishi, porém, é importante ressaltar que o conteúdo original merece ser considerado, diferente do que acontece em muitas análises desse material.

NOTA GERAL (MANGÁ ORIGINAL): 3,5 ESTRELAS.
NOTA GERAL (ADAPTAÇÃO DE CHANWOOD PARK): 3,5 ESTRELAS.
NOTA GERAL (REFILMAGEM DE SPIKE LEE): 3 ESTRELAS.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Entrevista: Emerson Lopes

Por Gabriel Guimarães

 

O desenhista Emerson Lopes começou sua carreira ainda muito novo na indústria de animação brasileira, porém, após anos de uma jornada bem sucedida no meio, tendo trabalhado em grandes projetos de destaque nacional, ele vem procurando criar seu próprio espaço em outro segmento do mercado visual, as histórias em quadrinhos. Pai do personagem Alfredo e do pequeno Arthur, Emerson tem participado de muitas publicações nos últimos anos e sua produção na arte sequencial está crescendo exponencialmente, tendo reunido recentemente pela primeira vez as tirinhas de seu blog (o qual pode ser acessado aqui) em um livreto impresso pela editora Estronho. Mesmo em meio a esse momento muito ativo, ele se mostrou extremamente solícito para nos contar um pouco mais acerca de sua história de vida e suas considerações a partir de experiências que viveu no mercado editorial brasileiro.

QUADRINHOS PRA QUEM GOSTA - Emerson, como foi, de fato, seu ingresso na indústria da animação? Você se lembra de qual foi o primeiro projeto no qual teve seu nome creditado? 

Emerson Lopes - Comecei a trabalhar com animação em 1997, no Estúdio Alexandre Martins, em São Gonçalo. Descobri a existência do estúdio através de um amigo do ramo e eu, curioso, logo liguei para o Alexandre em pessoa e marquei uma entrevista. Não demorou para que eu me tornasse estagiário lá, onde fiquei por uns dois anos. Foi onde conheci os princípios básicos do que era a produção de desenhos animados. Quanto ao meu primeiro trabalho na área onde tive meu nome creditado, se bem me lembro, foi um curta-metragem deste mesmo estúdio chamado “Perrengue nas Alturas”.
Em entrevistas anteriores, você disse que, quando era mais jovem, chegou a começar a faculdade, mas acabou precisando trancar o curso para poder se dedicar ao trabalho com a indústria de animação. O que o levou a essa decisão?

Eu estudei por um ano na Escola de Belas Artes da UFRJ, e nesse meio tempo ingressei num estúdio de animação onde precisavam de mim em tempo integral. Como os horários não eram compatíveis, não tive outra opção. Mas pretendo retornar em outro curso num futuro próximo.
 
De lá para cá, você construiu uma carreira sólida, trabalhando em muitas animações que tiveram destaque por todo Brasil, como “Peixonauta”, “Guerreiros da Amazônia” e “Xuxinha e Guto Contra os Monstros do Espaço”, ainda assim, em 2011, quando você criou seu próprio personagem, “Alfredo, o Vampiro”, você o inseriu no universo das histórias em quadrinhos antes do que no da animação. Você poderia nos contar por que escolheu o formato de quadrinhos para introduzir sua criação ao público?

Em termos práticos, eu poderia dizer que a produção autoral de quadrinhos é algo bem mais intimista e pessoal, sem falar que a veiculação do trabalho é algo menos complexo. Mas, na verdade, o projeto do que veio a se tornar a série do "Alfredo, o Vampiro" sempre foi pensado pra ser inicialmente em quadrinhos. Desde muito antes de sua criação, eu tinha a ideia de criar uma tirinha. Depois de perceber o alvoroço em torno do livro "MSP+50", do qual participei, quis criar algum tipo de trabalho que fosse uma espécie de referencial para a minha produção autoral de quadrinhos. O momento era propício. Então, juntei essas vontades, pensei, pesquisei, rabisquei, testei, escrevi, e finalmente estreei a tirinha do Alfredo na internet. 

Sua ligação com as histórias em quadrinhos surgiu em que momento de sua vida? Como a arte sequencial te impactou, uma vez que você teve contato com ela?

Os quadrinhos existem em minha vida desde que me entendo por gente. Praticamente aprendi a ler com eles. Começando com os gibis da Disney, Maurício de Sousa, passando pelos saudosos quadrinhos dos Trapalhões e Spectreman dos anos 80, até os heróis da Marvel e DC, entre outros. Enfim, essa mídia sempre esteve presente em minha vida, me maravilhando e fazendo rir, chorar, pensar e viajar com seus milhares de universos, heróis e aventuras. E, como sempre gostei de desenhar, desde moleque criava os meus próprios personagens e histórias.


As tirinhas protagonizadas pelo “Alfredo”, publicadas de forma regular no seu blog, apresentam um humor que une elementos do relacionamento adulto com personagens lúdicos e carismáticos do universo infantil. Como foi a experiência de criar um personagem que se diferenciava dos demais no quadrinho brasileiro?

Enquanto estava pensando em quê, de fato, seria o Alfredo, não tinha a intenção de fazer algo “diferente” ou “revolucionário”. Queria me desafiar a criar uma historia de humor leve, nem muito ingênua nem muito adulta, e com um personagem que fosse simpático ao leitor. Eu tinha uma idéia básica, um cara atrapalhado e que não se dava bem com as garotas. Somei a isso algumas influências de artistas que eu admiro, minhas próprias experiências de vida e procurei um caminho que queria seguir. Curiosamente, a ideia do Alfredo ser um vampiro surgiu praticamente na reta final desse processo.


Piteco desenhado por Emerson
Você participou do trabalho de revitalização de personagens infantis em sua versão jovem com a “Luluzinha teen”, e auxiliou na produção de animações com os personagens clássicos de Maurício de Sousa no filme “Turma da Mônica – Uma Aventura no Tempo”. Quais são as diferenças entre trabalhar com personagens criados por outros autores e trabalhar com os seus próprios? Quais são os prós e contras desses dois casos?

Basicamente, quando se trabalha com personagens de outros autores, você pode se divertir mais com eles, e se acostuma a trabalhar com características diferentes das que você geralmente cria, o que sempre é bom - profissionalmente falando. Mas, por outro lado, há regras criadas para esses personagens que você precisa respeitar. 

Quando se trabalha com criações 100% suas, a liberdade já é completa, e você não tem limites para o seu trabalho, além daqueles a que você mesmo se impõe. Só que nessa situação, claro, o trabalho também é todo seu.

Em 2012, você participou de uma atividade pedagógica na Escola Municipal João de Camargo, em São Cristóvão, onde os alunos interpretaram algumas de suas tirinhas com temática ecológica e você, depois, palestrou para todo o colégio no aniversário da instituição. O que essa experiência representou para você?

Foto de Emerson reunido com a turma da professor Maria Fernanda
Foi uma experiência muito legal proporcionada pela professora de Artes Cênicas, Maria Fernanda Lamim. Ela propôs o exercício de encenar minhas tirinhas aos seus alunos, e me convidou para assistir e responder as perguntas das crianças em sala de aula. Foi muito gratificante poder satisfazer a curiosidade dos pequenos e perceber o fascínio que eles tem nesse universo. Sinceramente, me senti o Mauricio de Sousa naquele momento... (risos)

Como era aniversário da instituição, também me convidaram a dizer algumas palavras na solenidade que se seguiu. Comentei brevemente sobre a importância que a leitura poderia ter na vida deles e também um pouco sobre o meio ambiente, que era a temática da festa naquele ano. Não sou muito bom em falar em publico, mas me disseram que fui bem... (risos)

Você também expôs, entre março e abril de 2013, seu trabalho na Bedeteca de Beja, em Portugal. Como foi isso? Há muita diferença entre a forma como o artista profissional é encarado em Portugal e aqui no Brasil?

O convite para expor em Portugal veio de um bate-papo com Paulo Monteiro, diretor da Bedeteca de Beja. Foi uma grande felicidade para mim poder ter meu trabalho reconhecido por leitores de outro país, e mais ainda porque tive a chance de visitar a cidade antes da exposição e conhecer o Paulo, que se tornou um grande amigo, tendo feito, inclusive, o prefácio do livro do Alfredo.

Foto do passeio de seu personagem por Portugal

Com relação as histórias em quadrinhos em Portugal (lá chamadas de BD, sigla para Banda Desenhada), apesar das limitações industriais, senti um respeito maior dedicado aos autores, a exemplo do que ocorre em países como a França. O Festival internacional de Banda Desenhada de Beja é referência na área no país.

Você é um artista premiado tanto em categorias ligadas à propaganda e publicidade (13º Prêmio de Propaganda O Globo, por campanha feita pela agência PS 10 para a Hiunday em 2010), quanto em produções na arte sequencial (Troféu do 23º HQMix por Melhor Publicação Infanto-Juvenil, com o álbum “Pequenos Heróis”, no qual fez uma das histórias, em 2011). O que podemos esperar de conteúdo novo saindo no futuro próximo?

Fotos do primeiro livro de tirinhas compiladas
do "Alfredo, o Vampiro" (disponível para compra por este link)
Por enquanto, meu principal projeto é cuidar de meu filho, que nasceu esse ano... (risos)

Mas, falando especificamente de quadrinhos, se tudo correr bem, pretendo lançar um segundo livro de tirinhas do "Alfredo, o Vampiro" no ano que vem e uma HQ do personagem, com histórias mais longas, na sequência.

Tenho ainda outros projetos, como a série "Pequenas Coisas", que no momento conta só com duas páginas (disponíveis em meu site), e que está em stand-by por falta de tempo para me dedicar a ela como ela precisa. Mas pretendo retoma-la num futuro próximo. Há outros projetos além desse, mas é melhor deixar pra falar a respeito quando tiver algo pra mostrar. (risos)

Para finalizar, queremos lhe desejar muito sucesso com seu personagem, parabeniza-lo pelo seu filho, e garantir que estamos sempre atentos aos passos dados por talentosos profissionais do mercado editorial brasileiro de quadrinhos como você. Foi um imenso prazer conversar contigo e agradecemos mais uma vez pela disponibilidade.

Muito obrigado! Quem faz quadrinhos no Brasil sabe o quanto são importantes veículos como este para não só mostrar nossos trabalhos ao público, mas também ajudar a reforçar o valor desta arte que tanto amamos e que é tão pouco reconhecida em nosso país. Um grande abraço e, sempre que precisarem, estamos aí!

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

A New Long Yesterday

Por Gabriel Guimarães




Em maio de 2005, a pequena editora Comic Store lançou nas livrarias o álbum "The Long Yesterday", uma trama noir ambientada nos Estados Unidos dos anos 1940 com fortes elementos policiais e um acabamento gráfico que expressava de forma interessante a atmosfera de mistério, detetives particulares e capangas de mafiosos da época. Diferente, porém, do que poderia parecer, a produção possuía elementos díspares daqueles às quais ela inicialmente estaria associada. Primeiramente, a história foi produzida pela dupla de brasileiros Osmarco Valladão e Manoel Magalhães, artistas cujos trabalhos já foram publicados em países como México, Itália, Romênia, Inglaterra, além das terras americanas e tupiniquins. Em seguida, a história não se limita apenas ao universo policial padrão do gênero das revistas de polpa* que eram moda na metade do século XX, possuindo traços de ficção científica extremamente interessantes no que diz respeito a viagens no tempo. Ambientado em um universo ficcional preestabelecido na coletânea "Intempol - Uma Antologia de Contos Sobre Viagens no Tempo", criado pelo professor da UFRJ e escritor Octávio Aragão, em 2000, a história narra alguns dos casos protagonizados pelo detetive Timothy Lace O'Malley, que acaba se envolvendo de forma indireta com a Empresa, corporação responsável pelo gerenciamento do fluxo temporal mediante a contratação dos seus serviços enquanto polícia particular.


Cena da história "The Long Yesterday"
Com elementos que homenageiam grande autores e quadrinistas como Raymond Chandler e Moebius, a história repercutiu de forma bastante positiva junto à crítica, vindo a ser requisitada pelo editor Sidney Gusman, então responsável pela publicação "Wizard Brasil", uma outra história curta com os personagens de Osmarco e Manoel para ser publicada em uma das edições da revista dois anos depois do seu lançamento. "Belvedere Blues", como ficou intitulada, apresentou uma trama de poucas páginas que complementavam o cenário apresentado em "The Long Yesterday" com uma nova história do detetive O'Malley. Desde então, o universo da Intempol continuou em expansão, por meio do livro "O Rei de Todos os Tempos Possíveis", do quadrinho "Para Tudo se Acabar na Quarta-Feira", (cujos lançamentos foram cobertos aqui e aqui no blog, respectivamente), ambos publicados pela editora Draco, e de projetos futuros que estão por ser divulgados ainda, porém, a produção de Osmarco e Manoel acabou ficando em um hiato de quase uma década.


Recentemente, os autores tornaram a se encontrar, todavia, para reverter isso, oferecendo ao público leitor a oportunidade de conferir o material original publicado pela dupla, o qual já se encontrava esgotado há anos. Para tanto, eles iniciaram uma campanha pelo site de financiamento colaborativo Catarse, onde esperam alcançar o valor necessário para a republicação do álbum "The Long Yesterday", contando, ainda, com a história "Belvedere Blues" e textos complementares inéditos. Há, ainda, para os colaboradores mais fortuitos a possibilidade de adquirir itens de colecionador, como canecas, bonés e camisas preparados especificamente para este projeto. Aos interessados em colaborar com essa iniciativa, o link para a página do projeto encontra-se aqui, e aos interessados em acompanhar as novidades do universo desenvolvido por Octávio Aragão, o link para seu site encontra-se aqui.




*Esclarecimento pra quem gosta: a expressão "revista de polpa", advinda do inglês "Pulp magazine" se deve ao fato de as publicações do gênero noir em revistas de papel jornal trazerem cenas de forte violência e imagens de crimes, o que atraía muito os leitores jovens da época. Os críticos de então diziam que esse conteúdo era sensacionalista e que, caso exprimissem uma edição destas, era capaz de escorrer sangue com polpa de dentro das páginas. Em consequência dessa característica, o tipo de produção e de histórias publicadas com essas características noir acabaram, popularmente, ficando associadas a esta expressão até os dias de hoje, perdendo, contudo, seu contexto pejorativo e adquirido uma quantidade maior de adeptos e leitores dedicados.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

A Despedida do Xaxado

Por Gabriel Guimarães


A cidade de Miguel Calmon, na Bahia, perdeu hoje, pela manhã, um de seus filhos mais ilustres. O quadrinista Antônio Luiz Ramos Cedraz, criador dos personagens da Turma do Xaxado, faleceu aos 69 anos, vítima de câncer no intestino, deixando para trás um legado de imenso valor, principalmente no que se refere à abordagem que trazia para elementos do cotidiano do Nordeste brasileiro, além de uma profunda admiração pelos profissionais brasileiros que trabalhavam com a arte sequencial, como Waldyr Ygaiara, Gedeone Malagola, Júlio Shimamoto e Maurício de Sousa.

Apaixonado pelo desenho desde seus 16 anos, Antônio se formou e ocupou a posição de professor de Ensino Fundamental na cidade de Jacobina, tornando-se funcionário do Banco Econômico pouco depois, profissão esta que seguiu até se aposentar. Com o resguardo financeiro adquirido ao longo de sua carreira, investiu no Estúdio Cedraz, onde retomou a produção de muitos personagens que fora criando ao longo dos anos. Tendo sido premiado no 2º Encontro Nacional de Histórias em Quadrinhos, realizado em 1989 na cidade do Araxá, Minas Gerais, Cedraz foi chamado pelo jornal "A Tarde", de Salvador, para produzir tirinhas de forma regular a partir de 1998.

Seus personagens Xaxado, Zé Pequeno e Marieta, entre outros, foram obtendo sucesso junto aos leitores e acabaram ganhando publicação por editoras como Escala e HQM, chegando até a protagonizar cartilhas para o Estado sobre métodos de prevenção de doenças, além de contínuos estímulos ao respeito ao próximo, o voto consciente e à escolarização dos jovens. Após um período de grande reconhecimento pelos críticos, em que o autor foi premiado com quatro Prêmios HQmix (1999, 2001, 2002 e 2003), Cedraz ainda viu seus personagens receberem apoio da UNESCO. Em meio a essa premiação, Antônio ainda foi premiado com o Prêmio Ângelo Agostini por sua colaboração para os quadrinhos brasileiros (premiação esta restrita apenas àqueles com, pelo menos, 25 anos de trabalho dedicado ao meio). Em 2015, inclusive, o autor seria um dos grandes homenageados do IX Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), em Belo Horizonte.


Cedraz não tinha, contudo, uma estrutura que lhe permitia ir tão além como ele pretendia com sua criação. Ele sempre se mostrou reticente com a preferência do mercado editorial brasileiro de publicar conteúdo estrangeiro ou centralizado no eixo Rio-São Paulo. Em suas entrevistas, ele sempre reafirmava seu desejo de dar voz aos tipos brasileiros esquecidos pelas grandes mídias, acendendo uma consciência social em seus personagens e transmitindo várias facetas da cultura dos nordestinos que acabavam sendo marginalizados ou estereotipados tradicionalmente. Cedraz foi um destemido defensor da cultura genuinamente brasileira, e seu legado, algo muito além de seus personagens e de sua produção gráfica, há de permanecer vivo em cada um de seus muitos leitores, amigos e admiradores. O Xaxado perdeu seu principal cangaceiro, mas a dança não pode parar, e nem deve.

Há, ainda, uma entrevista concedida pelo quadrinista baiano à escritora pernambucana Michelle Ramos, realizada entre fevereiro e março de 2007 para o site "Recanto das Letras", que pode ser conferida aqui, para quem tiver interesse.