quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Diferentes Perspectivas Para o Desejo de Vingança

Por Gabriel Guimarães




Lançada de forma seriada na revista "Weekly Manga Action" entre 1996 e 1998, e chegando às mãos dos leitores japoneses em 8 volumes compilados pouco tempo depois, a história "Oldboy", escrita por Garon Tsuchiya e desenhada por Nobuaki Minegishi, cativou de forma determinante o público com uma trama envolta em mistério, intriga e suspense psicológico, porém, só ganhou a atenção da mídia internacional a partir da adaptação para as grandes telas feita pelo diretor sul-coreano Chanwook Park em 2003. Essa repercussão no cinema, destacada pelos prêmios acumulados em festivais ao redor do mundo todo, com destaque para o Grand Prix do Festival de Cannes, causou, porém, uma certa confusão acerca da fonte original da história. Recentemente, o diretor norte-americano Spike Lee produziu uma refilmagem da obra de Park, que trouxe de novo à tona algumas questões que merecem ser destacadas no original de Tsuchiya e Minegishi.

O mangá "Oldboy" segue a história do amnésico Shinichi Gotou, que acabara de ser liberado de um cárcere de dez anos sem qualquer contato com o mundo externo além do que era transmitido na pequena televisão que possuía no cubículo onde era mantido. Sem se lembrar inicialmente de quase nada sobre seu passado, o personagem vaga pelas ruas até conhecer a jovem Eri e começar a procurar pistas sobre quem o aprisionou por tanto tempo e a razão disso. A trama se desenrola ao longo dos 79 capítulos publicados pela editora Futabasha, ganhando uma forte carga psicológica a partir da metade da história. A resolução da trama se dá de forma prolongada, com o jogo de gato e rato protagonizado por Gotou e seu captor alternando entre lados continuamente até o desfecho da jornada com a morte de um dos dois. A obra, entretanto, não se conclui de forma absoluta, deixando no ar mais um pouco do suspense com que a série foi guiada desde seu início.

O filme de Chanwook Park consegue captar o clima de mistério do mangá, porém, se distingue deste em muitos outros aspectos. A história agora se passa na Coreia do Sul ao invés do Japão e o protagonista é o intimidador Oh Dae-su, que ficara encarcerado por 15 anos e cujo propósito de sua punição se deve ao efeito devastador que provocou no passado de alguém a quem não consegue se lembrar. Embora a trama de Tsuchiya e Minegishi também carregue muito essa noção das consequências do passado no presente, o filme transforma esse fator em algo consideravelmente mais sério e carregado de tabu que o mangá. A quantidade de violência e o terror psicológico consequente dessas mudanças proporcionam uma experiência bastante diferente do material original, mais focado no mistério em si. A produção de Park, contudo, não perde a qualidade por essas divergências, apenas recaracteriza o tema e proporciona uma perspectiva mais severa para o sentimento de vingança com o qual Oh Dae-su inicia sua jornada.

É necessário, portanto, discernir o filme do mangá original. Com o sucesso de crítica do filme, muitos passaram a considerá-lo como uma peça única, sem conhecer sua fonte verdadeira. E o caso do filme lançado em 2013 pelo diretor Spike Lee com atores como Josh Brolin e Elizabeth Olsen parece trazer essa discussão novamente à tona. Inicialmente planejado para ser uma verdadeira adaptação dos quadrinhos, a ser dirigida por Steven Spielberg e estrelada por Will Smith, o filme foi cancelado após os estúdios Dreamworks abandonarem o projeto devido a uma série de desacordos sobre os direitos de adaptação do conteúdo entre os detentores do material sul-coreano e do mangá japonês original. A produtora Mandate Pictures, após anos desse incidente, anunciou em 2011 a produção do novo filme com novo elenco e cujo propósito se restringiria apenas a refilmar o material de Chanwook Park. Transportando os eventos da história  para outra localidade e outro tempo, o filme agora seguia a jornada por vingança do malandro Joseph Doucett atrás de seus captores, que o deixaram preso por 20 anos. Seguindo várias cenas do filme de Park, a ponto de ser possível associar designs de ambientes e ângulos de filmagem, o material americano não agregou quase nada em relação ao filme anterior, realizando pequenas mudanças no desfecho da história, que é drasticamente diferente do desfecho do mangá.


Uma vez que a sua adaptação cinematográfica alcançou a mídia internacional, a Dark Horse Publishing House adquiriu os direitos para lançar o mangá nos Estados Unidos, em 2005, rendendo à editora um prêmio Eisner por melhor edição de material estrangeiro do Japão no mercado americano. Em 2013, foi a vez da editora Nova Sampa chegar a um acordo com os detentores dos direitos de distribuição da história de Shinichi Gotou, lançando nas bancas brasileiras as oito edições da obra em quadrinhos. Agora, está nas mãos dos leitores a oportunidade de conferir o que essa trama tem de tão instigante em termos de roteiro e tão detalhado em termos de desenho. Não deve-se esperar a mesma experiência do filme, mas, pelo contrário, recomenda-se manter a mente aberta ao ritmo de mistério que a trama oferece, ainda que ocasionalmente isso imponha um desenvolvimento lento na história. É relevante aqui destacar que o filme "Oldboy" de Chanwook Park, com seus acertos e defeitos, é uma obra válida de ser reconhecida como um desenvolvimento interessante para o cenário proposto por Tsuchiya e Minegishi, porém, é importante ressaltar que o conteúdo original merece ser considerado, diferente do que acontece em muitas análises desse material.

NOTA GERAL (MANGÁ ORIGINAL): 3,5 ESTRELAS.
NOTA GERAL (ADAPTAÇÃO DE CHANWOOD PARK): 3,5 ESTRELAS.
NOTA GERAL (REFILMAGEM DE SPIKE LEE): 3 ESTRELAS.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Entrevista: Emerson Lopes

Por Gabriel Guimarães

 

O desenhista Emerson Lopes começou sua carreira ainda muito novo na indústria de animação brasileira, porém, após anos de uma jornada bem sucedida no meio, tendo trabalhado em grandes projetos de destaque nacional, ele vem procurando criar seu próprio espaço em outro segmento do mercado visual, as histórias em quadrinhos. Pai do personagem Alfredo e do pequeno Arthur, Emerson tem participado de muitas publicações nos últimos anos e sua produção na arte sequencial está crescendo exponencialmente, tendo reunido recentemente pela primeira vez as tirinhas de seu blog (o qual pode ser acessado aqui) em um livreto impresso pela editora Estronho. Mesmo em meio a esse momento muito ativo, ele se mostrou extremamente solícito para nos contar um pouco mais acerca de sua história de vida e suas considerações a partir de experiências que viveu no mercado editorial brasileiro.

QUADRINHOS PRA QUEM GOSTA - Emerson, como foi, de fato, seu ingresso na indústria da animação? Você se lembra de qual foi o primeiro projeto no qual teve seu nome creditado? 

Emerson Lopes - Comecei a trabalhar com animação em 1997, no Estúdio Alexandre Martins, em São Gonçalo. Descobri a existência do estúdio através de um amigo do ramo e eu, curioso, logo liguei para o Alexandre em pessoa e marquei uma entrevista. Não demorou para que eu me tornasse estagiário lá, onde fiquei por uns dois anos. Foi onde conheci os princípios básicos do que era a produção de desenhos animados. Quanto ao meu primeiro trabalho na área onde tive meu nome creditado, se bem me lembro, foi um curta-metragem deste mesmo estúdio chamado “Perrengue nas Alturas”.
Em entrevistas anteriores, você disse que, quando era mais jovem, chegou a começar a faculdade, mas acabou precisando trancar o curso para poder se dedicar ao trabalho com a indústria de animação. O que o levou a essa decisão?

Eu estudei por um ano na Escola de Belas Artes da UFRJ, e nesse meio tempo ingressei num estúdio de animação onde precisavam de mim em tempo integral. Como os horários não eram compatíveis, não tive outra opção. Mas pretendo retornar em outro curso num futuro próximo.
 
De lá para cá, você construiu uma carreira sólida, trabalhando em muitas animações que tiveram destaque por todo Brasil, como “Peixonauta”, “Guerreiros da Amazônia” e “Xuxinha e Guto Contra os Monstros do Espaço”, ainda assim, em 2011, quando você criou seu próprio personagem, “Alfredo, o Vampiro”, você o inseriu no universo das histórias em quadrinhos antes do que no da animação. Você poderia nos contar por que escolheu o formato de quadrinhos para introduzir sua criação ao público?

Em termos práticos, eu poderia dizer que a produção autoral de quadrinhos é algo bem mais intimista e pessoal, sem falar que a veiculação do trabalho é algo menos complexo. Mas, na verdade, o projeto do que veio a se tornar a série do "Alfredo, o Vampiro" sempre foi pensado pra ser inicialmente em quadrinhos. Desde muito antes de sua criação, eu tinha a ideia de criar uma tirinha. Depois de perceber o alvoroço em torno do livro "MSP+50", do qual participei, quis criar algum tipo de trabalho que fosse uma espécie de referencial para a minha produção autoral de quadrinhos. O momento era propício. Então, juntei essas vontades, pensei, pesquisei, rabisquei, testei, escrevi, e finalmente estreei a tirinha do Alfredo na internet. 

Sua ligação com as histórias em quadrinhos surgiu em que momento de sua vida? Como a arte sequencial te impactou, uma vez que você teve contato com ela?

Os quadrinhos existem em minha vida desde que me entendo por gente. Praticamente aprendi a ler com eles. Começando com os gibis da Disney, Maurício de Sousa, passando pelos saudosos quadrinhos dos Trapalhões e Spectreman dos anos 80, até os heróis da Marvel e DC, entre outros. Enfim, essa mídia sempre esteve presente em minha vida, me maravilhando e fazendo rir, chorar, pensar e viajar com seus milhares de universos, heróis e aventuras. E, como sempre gostei de desenhar, desde moleque criava os meus próprios personagens e histórias.


As tirinhas protagonizadas pelo “Alfredo”, publicadas de forma regular no seu blog, apresentam um humor que une elementos do relacionamento adulto com personagens lúdicos e carismáticos do universo infantil. Como foi a experiência de criar um personagem que se diferenciava dos demais no quadrinho brasileiro?

Enquanto estava pensando em quê, de fato, seria o Alfredo, não tinha a intenção de fazer algo “diferente” ou “revolucionário”. Queria me desafiar a criar uma historia de humor leve, nem muito ingênua nem muito adulta, e com um personagem que fosse simpático ao leitor. Eu tinha uma idéia básica, um cara atrapalhado e que não se dava bem com as garotas. Somei a isso algumas influências de artistas que eu admiro, minhas próprias experiências de vida e procurei um caminho que queria seguir. Curiosamente, a ideia do Alfredo ser um vampiro surgiu praticamente na reta final desse processo.


Piteco desenhado por Emerson
Você participou do trabalho de revitalização de personagens infantis em sua versão jovem com a “Luluzinha teen”, e auxiliou na produção de animações com os personagens clássicos de Maurício de Sousa no filme “Turma da Mônica – Uma Aventura no Tempo”. Quais são as diferenças entre trabalhar com personagens criados por outros autores e trabalhar com os seus próprios? Quais são os prós e contras desses dois casos?

Basicamente, quando se trabalha com personagens de outros autores, você pode se divertir mais com eles, e se acostuma a trabalhar com características diferentes das que você geralmente cria, o que sempre é bom - profissionalmente falando. Mas, por outro lado, há regras criadas para esses personagens que você precisa respeitar. 

Quando se trabalha com criações 100% suas, a liberdade já é completa, e você não tem limites para o seu trabalho, além daqueles a que você mesmo se impõe. Só que nessa situação, claro, o trabalho também é todo seu.

Em 2012, você participou de uma atividade pedagógica na Escola Municipal João de Camargo, em São Cristóvão, onde os alunos interpretaram algumas de suas tirinhas com temática ecológica e você, depois, palestrou para todo o colégio no aniversário da instituição. O que essa experiência representou para você?

Foto de Emerson reunido com a turma da professor Maria Fernanda
Foi uma experiência muito legal proporcionada pela professora de Artes Cênicas, Maria Fernanda Lamim. Ela propôs o exercício de encenar minhas tirinhas aos seus alunos, e me convidou para assistir e responder as perguntas das crianças em sala de aula. Foi muito gratificante poder satisfazer a curiosidade dos pequenos e perceber o fascínio que eles tem nesse universo. Sinceramente, me senti o Mauricio de Sousa naquele momento... (risos)

Como era aniversário da instituição, também me convidaram a dizer algumas palavras na solenidade que se seguiu. Comentei brevemente sobre a importância que a leitura poderia ter na vida deles e também um pouco sobre o meio ambiente, que era a temática da festa naquele ano. Não sou muito bom em falar em publico, mas me disseram que fui bem... (risos)

Você também expôs, entre março e abril de 2013, seu trabalho na Bedeteca de Beja, em Portugal. Como foi isso? Há muita diferença entre a forma como o artista profissional é encarado em Portugal e aqui no Brasil?

O convite para expor em Portugal veio de um bate-papo com Paulo Monteiro, diretor da Bedeteca de Beja. Foi uma grande felicidade para mim poder ter meu trabalho reconhecido por leitores de outro país, e mais ainda porque tive a chance de visitar a cidade antes da exposição e conhecer o Paulo, que se tornou um grande amigo, tendo feito, inclusive, o prefácio do livro do Alfredo.

Foto do passeio de seu personagem por Portugal

Com relação as histórias em quadrinhos em Portugal (lá chamadas de BD, sigla para Banda Desenhada), apesar das limitações industriais, senti um respeito maior dedicado aos autores, a exemplo do que ocorre em países como a França. O Festival internacional de Banda Desenhada de Beja é referência na área no país.

Você é um artista premiado tanto em categorias ligadas à propaganda e publicidade (13º Prêmio de Propaganda O Globo, por campanha feita pela agência PS 10 para a Hiunday em 2010), quanto em produções na arte sequencial (Troféu do 23º HQMix por Melhor Publicação Infanto-Juvenil, com o álbum “Pequenos Heróis”, no qual fez uma das histórias, em 2011). O que podemos esperar de conteúdo novo saindo no futuro próximo?

Fotos do primeiro livro de tirinhas compiladas
do "Alfredo, o Vampiro" (disponível para compra por este link)
Por enquanto, meu principal projeto é cuidar de meu filho, que nasceu esse ano... (risos)

Mas, falando especificamente de quadrinhos, se tudo correr bem, pretendo lançar um segundo livro de tirinhas do "Alfredo, o Vampiro" no ano que vem e uma HQ do personagem, com histórias mais longas, na sequência.

Tenho ainda outros projetos, como a série "Pequenas Coisas", que no momento conta só com duas páginas (disponíveis em meu site), e que está em stand-by por falta de tempo para me dedicar a ela como ela precisa. Mas pretendo retoma-la num futuro próximo. Há outros projetos além desse, mas é melhor deixar pra falar a respeito quando tiver algo pra mostrar. (risos)

Para finalizar, queremos lhe desejar muito sucesso com seu personagem, parabeniza-lo pelo seu filho, e garantir que estamos sempre atentos aos passos dados por talentosos profissionais do mercado editorial brasileiro de quadrinhos como você. Foi um imenso prazer conversar contigo e agradecemos mais uma vez pela disponibilidade.

Muito obrigado! Quem faz quadrinhos no Brasil sabe o quanto são importantes veículos como este para não só mostrar nossos trabalhos ao público, mas também ajudar a reforçar o valor desta arte que tanto amamos e que é tão pouco reconhecida em nosso país. Um grande abraço e, sempre que precisarem, estamos aí!

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

A New Long Yesterday

Por Gabriel Guimarães




Em maio de 2005, a pequena editora Comic Store lançou nas livrarias o álbum "The Long Yesterday", uma trama noir ambientada nos Estados Unidos dos anos 1940 com fortes elementos policiais e um acabamento gráfico que expressava de forma interessante a atmosfera de mistério, detetives particulares e capangas de mafiosos da época. Diferente, porém, do que poderia parecer, a produção possuía elementos díspares daqueles às quais ela inicialmente estaria associada. Primeiramente, a história foi produzida pela dupla de brasileiros Osmarco Valladão e Manoel Magalhães, artistas cujos trabalhos já foram publicados em países como México, Itália, Romênia, Inglaterra, além das terras americanas e tupiniquins. Em seguida, a história não se limita apenas ao universo policial padrão do gênero das revistas de polpa* que eram moda na metade do século XX, possuindo traços de ficção científica extremamente interessantes no que diz respeito a viagens no tempo. Ambientado em um universo ficcional preestabelecido na coletânea "Intempol - Uma Antologia de Contos Sobre Viagens no Tempo", criado pelo professor da UFRJ e escritor Octávio Aragão, em 2000, a história narra alguns dos casos protagonizados pelo detetive Timothy Lace O'Malley, que acaba se envolvendo de forma indireta com a Empresa, corporação responsável pelo gerenciamento do fluxo temporal mediante a contratação dos seus serviços enquanto polícia particular.


Cena da história "The Long Yesterday"
Com elementos que homenageiam grande autores e quadrinistas como Raymond Chandler e Moebius, a história repercutiu de forma bastante positiva junto à crítica, vindo a ser requisitada pelo editor Sidney Gusman, então responsável pela publicação "Wizard Brasil", uma outra história curta com os personagens de Osmarco e Manoel para ser publicada em uma das edições da revista dois anos depois do seu lançamento. "Belvedere Blues", como ficou intitulada, apresentou uma trama de poucas páginas que complementavam o cenário apresentado em "The Long Yesterday" com uma nova história do detetive O'Malley. Desde então, o universo da Intempol continuou em expansão, por meio do livro "O Rei de Todos os Tempos Possíveis", do quadrinho "Para Tudo se Acabar na Quarta-Feira", (cujos lançamentos foram cobertos aqui e aqui no blog, respectivamente), ambos publicados pela editora Draco, e de projetos futuros que estão por ser divulgados ainda, porém, a produção de Osmarco e Manoel acabou ficando em um hiato de quase uma década.


Recentemente, os autores tornaram a se encontrar, todavia, para reverter isso, oferecendo ao público leitor a oportunidade de conferir o material original publicado pela dupla, o qual já se encontrava esgotado há anos. Para tanto, eles iniciaram uma campanha pelo site de financiamento colaborativo Catarse, onde esperam alcançar o valor necessário para a republicação do álbum "The Long Yesterday", contando, ainda, com a história "Belvedere Blues" e textos complementares inéditos. Há, ainda, para os colaboradores mais fortuitos a possibilidade de adquirir itens de colecionador, como canecas, bonés e camisas preparados especificamente para este projeto. Aos interessados em colaborar com essa iniciativa, o link para a página do projeto encontra-se aqui, e aos interessados em acompanhar as novidades do universo desenvolvido por Octávio Aragão, o link para seu site encontra-se aqui.




*Esclarecimento pra quem gosta: a expressão "revista de polpa", advinda do inglês "Pulp magazine" se deve ao fato de as publicações do gênero noir em revistas de papel jornal trazerem cenas de forte violência e imagens de crimes, o que atraía muito os leitores jovens da época. Os críticos de então diziam que esse conteúdo era sensacionalista e que, caso exprimissem uma edição destas, era capaz de escorrer sangue com polpa de dentro das páginas. Em consequência dessa característica, o tipo de produção e de histórias publicadas com essas características noir acabaram, popularmente, ficando associadas a esta expressão até os dias de hoje, perdendo, contudo, seu contexto pejorativo e adquirido uma quantidade maior de adeptos e leitores dedicados.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

A Despedida do Xaxado

Por Gabriel Guimarães


A cidade de Miguel Calmon, na Bahia, perdeu hoje, pela manhã, um de seus filhos mais ilustres. O quadrinista Antônio Luiz Ramos Cedraz, criador dos personagens da Turma do Xaxado, faleceu aos 69 anos, vítima de câncer no intestino, deixando para trás um legado de imenso valor, principalmente no que se refere à abordagem que trazia para elementos do cotidiano do Nordeste brasileiro, além de uma profunda admiração pelos profissionais brasileiros que trabalhavam com a arte sequencial, como Waldyr Ygaiara, Gedeone Malagola, Júlio Shimamoto e Maurício de Sousa.

Apaixonado pelo desenho desde seus 16 anos, Antônio se formou e ocupou a posição de professor de Ensino Fundamental na cidade de Jacobina, tornando-se funcionário do Banco Econômico pouco depois, profissão esta que seguiu até se aposentar. Com o resguardo financeiro adquirido ao longo de sua carreira, investiu no Estúdio Cedraz, onde retomou a produção de muitos personagens que fora criando ao longo dos anos. Tendo sido premiado no 2º Encontro Nacional de Histórias em Quadrinhos, realizado em 1989 na cidade do Araxá, Minas Gerais, Cedraz foi chamado pelo jornal "A Tarde", de Salvador, para produzir tirinhas de forma regular a partir de 1998.

Seus personagens Xaxado, Zé Pequeno e Marieta, entre outros, foram obtendo sucesso junto aos leitores e acabaram ganhando publicação por editoras como Escala e HQM, chegando até a protagonizar cartilhas para o Estado sobre métodos de prevenção de doenças, além de contínuos estímulos ao respeito ao próximo, o voto consciente e à escolarização dos jovens. Após um período de grande reconhecimento pelos críticos, em que o autor foi premiado com quatro Prêmios HQmix (1999, 2001, 2002 e 2003), Cedraz ainda viu seus personagens receberem apoio da UNESCO. Em meio a essa premiação, Antônio ainda foi premiado com o Prêmio Ângelo Agostini por sua colaboração para os quadrinhos brasileiros (premiação esta restrita apenas àqueles com, pelo menos, 25 anos de trabalho dedicado ao meio). Em 2015, inclusive, o autor seria um dos grandes homenageados do IX Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), em Belo Horizonte.


Cedraz não tinha, contudo, uma estrutura que lhe permitia ir tão além como ele pretendia com sua criação. Ele sempre se mostrou reticente com a preferência do mercado editorial brasileiro de publicar conteúdo estrangeiro ou centralizado no eixo Rio-São Paulo. Em suas entrevistas, ele sempre reafirmava seu desejo de dar voz aos tipos brasileiros esquecidos pelas grandes mídias, acendendo uma consciência social em seus personagens e transmitindo várias facetas da cultura dos nordestinos que acabavam sendo marginalizados ou estereotipados tradicionalmente. Cedraz foi um destemido defensor da cultura genuinamente brasileira, e seu legado, algo muito além de seus personagens e de sua produção gráfica, há de permanecer vivo em cada um de seus muitos leitores, amigos e admiradores. O Xaxado perdeu seu principal cangaceiro, mas a dança não pode parar, e nem deve.

Há, ainda, uma entrevista concedida pelo quadrinista baiano à escritora pernambucana Michelle Ramos, realizada entre fevereiro e março de 2007 para o site "Recanto das Letras", que pode ser conferida aqui, para quem tiver interesse.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Uma Volta no Circuito Carioca de Quadrinhos

Por Gabriel Guimarães




A manhã desta quinta-feira (04/09) trouxe para a cidade do Rio de Janeiro não apenas uma chuva oscilante que se dissipou por volta do meio-dia, mas proporcionou o início de mais um evento dedicado à paixão pela nona arte, o "HQ-Rio". Organizado pelo professor Carlos de Hollanda em parceria com a universidade Cândido Mendes, em Ipanema, o evento propõe uma nova abertura para a discussão dos quadrinhos no ambiente acadêmico, promovendo o curso de Pós-graduação em Arte Sequencial que tem previsão para ter início no sábado dia 20 de setembro de 2014. Aos interessados em ingressar no curso, sua proposta pode ser encontrada no blog de Hollanda, cujo link encontra-se aqui.

A fim de apresentar as diferentes faces do mercado de quadrinhos, o evento exibe uma amostra com material selecionado de artistas como o também professor Ricardo Leite logo na entrada do sexto andar do edifício, onde o evento está sendo realizado. Com material em preto e branco e colorido, é possível observar o uso da cor como recurso gráfico tanto quando bem aplicada ou quando ausente. Há, ainda, uma ala dedicada ao comércio de revistas antigas tanto nacionais como importadas pelo grupo "Empório do Tempo", representado por Carlos Arafatt e Sérgio Lima. Com pequenas memorabílias de outros eventos como a Rio Comicon de 2010 (cuja cobertura foi realizada integralmente aqui no blog) e salões de humor e quadrinhos, o espaço dedicado a este segmento oferece uma experiência agradável e as histórias por trás de cada item certamente compensam uma visita.

A revista "Potencial Invisível"
é um bom exemplo do uso antropológico
que os quadrinhos podem possuir
Lado a lado com as revistas e álbuns de novela gráfica clássicos, há um espaço dedicado para os autores independentes, que, no primeiro dia, foram Luciano Cunha e Letícia Leão. O primeiro é o autor do quadrinho "O Doutrinador", lançado inicialmente de forma digital por meio do Facebook a partir de abril de 2013, com as páginas sendo publicadas de forma periódica ao longo do tempo no perfil do desenhista e, posteriormente, na fanpage da própria história. Tendo tido contato com a arte gráfica desde os 16 anos, quando trabalhou com Ziraldo, Luciano cresceu como artista no segmento de propaganda e marketing até tornar a lidar profissionalmente com quadrinhos alguns anos atrás, para atender pedidos específicos da editora Abril para algumas de suas revistas ligadas à prática de esportes e vida social ativa, como a "Fluir". Uma vez de volta à arte sequencial, ele se viu muito realizado com a autopublicação de seu primeiro material autoral e pretende dar sequência ao projeto no futuro. Aos interessados em conferir seu trabalho, ele continua postando novas páginas de sua história no Facebook (o link pode ser encontrado aqui). Letícia Leão, junto de seu colega Emanuel Morais, que não pode estar presente, produziu uma revista independente como projeto antropológico para a PUC-RJ sob a orientação dos professores Miguel Carvalho, Gabriel Leitão e Cláudia Bolshaw, narrando a história de quatro ex-moradores de rua acolhidos pela ASAB (Associação Solidários Amigos de Betânia). "Potencial Invisível", como a revista foi intitulada, apresenta uma proposta instigante sobre o olhar que é dado sobre as pessoas ao longo de seu momento de maior necessidade e compreende uma abordagem da narrativa gráfica extremamente interessante pelo seu potencial enquanto ferramenta social.
O personagem de Luciano Cunha, "O Doutrinador" foi um dos
grandes destaques do espaço independente

A pequena réplica do personagem Groot tende
a ser um dos itens mais cobiçados do evento
no estande da "Movie-se"
No corredor que dá no auditório onde serão realizados debates sobre a nona arte, há três estandes de venda de objetos de decoração e de beleza com a temática nerd. "Mari. C" é uma loja virtual desde 2006 com especialidade em pingentes, administrada pela carioca Mariana, enquanto "Movie-se" compreende objetos com temática nerd em geral, como peças customizadas de Playmobile no modelo "Game of Thrones", além de camisas, canecas e quadros. O terceiro estande, da "NanePanda", pertence a Elaine, que organiza todo segundo sábado do mês o evento "El Bazzar", no Colégio ICE, no bairro do Flamengo, onde uma ampla comunidade de empreendedoras na customização de peças de roupa. Especializada em cordões de acrílico, o estande tende a agradar muito o público feminino do evento pelo cuidado aos detalhes em cada peça. Os links para as páginas destes três estandes podem ser encontrados aqui, aqui e aqui, respectivamente.


A entrada do evento é de R$ 3,00, destinados Hospital do Câncer do Rio de Janeiro. É possível ainda dar um quilo de alimento não perecível no lugar do valor do ingresso, que permite ao visitante conferir tudo que o evento oferece. Ao final deste primeiro dia e amanhã, dia 5 de setembro de 2014, ainda ocorrerão as já mencionadas palestras focadas na nona arte, com a participação de profissionais como o ilustrador Diego de Almeida, diretor da Black Fox Studios, o jornalista Carlos Amorim, do Jornal dos Sports, e Hamilton Kabuna, um dos quadrinistas responsáveis pela Capa Comics. O evento vai durar até este sábado, quando contará com uma série de palestras ao longo de todo o dia até seu encerramento às 17h30. Não deixem de conferir!

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

As peripécias de Zózimo Barbosa

Por Gabriel Guimarães



 O quadrinista Wander Antunes talvez não seja tão conhecido do público no mercado brasileiro, uma vez que suas mais premiadas obras foram lançadas no mercado europeu pela editora suíça Paquet, porém, em 2007, a editora Pixel lançou aqui no Brasil um álbum com histórias curtas de um de seus primeiros personagens, o investigador particular e boêmio Zózimo Barbosa. "O Corno Que Sabia Demais & outras aventuras de Zózimo Barbosa" apresentava sete histórias ambientadas no Rio de Janeiro da década de 1950, com os sonhos, costumes e personalidades da época sob a perspectiva do pouco ortodoxo protagonista e sua rotina de lidar com as figuras de estirpe elevada porém questionável da sociedade carioca.

Criado originalmente pelo autor goiano para a revista Estação Leitura, produzida em parceria com a Secretaria de Cultura de Mato Grosso, em março de 2004, Zózimo Barbosa preencheu o imaginário de muitos cidadãos mato-grossenses durante o horário de pico nos transportes públicos onde a revista era distribuída gratuitamente. Ainda que a publicação tenha tido um número pequeno de edições, reflexo do investimento reduzido feito de forma anual no conteúdo, o personagem adquiriu alguma popularidade e a revista, que contava com artigos de acadêmicos brasileiros e textos de autores pouco conhecidos do público manteve-se em circulação até 2008. Antunes, que ocupara também a função de editor da publicação, passou a focar sua produção para o mercado europeu, onde já criara graphic novels como "Ernie Adams" e "Big Bill est mort" (uma entrevista muito interessante dada pelo autor para o jornal "Diário de Cuiabá", em setembro de 2007, acerca de sua carreira no mercado de quadrinhos pode ser conferida aqui).

Já conhecido dentro do mercado de revistas em quadrinhos  por seu trabalho junto a títulos como "Os Trapalhões", "Sérgio Mallandro" e outras publicações que adaptavam apresentadores de sucesso na televisão brasileira para a nona arte, o desenhista Gustavo Machado não foi apenas o responsável por ilustrar as desventuras de Barbosa, como ajudou a criar todo seu universo visual da época. Com um traço limpo e  um bom domínio da narrativa gráfica, Machado conduziu com fluidez o desenrolar dos casos escritos por Antunes, e garantiu um material de grande qualidade como um todo para a publicação. Após o término da revista, o desenhista continuou a produzir conteúdo para as revistas de dentro do próprio Brasil, com destaque para sua participação em revistas como "Zé Carioca" e outras publicações Disney.

Para complementar o material produzido pela dupla, o desenhista Paulo Borges, também conhecido por seu trabalho nos quadrinhos Disney e premiado cinco vezes pela editora Abril, colaborou na ilustração de duas das histórias de Zózimo Barbosa publicadas no livro da editora Pixel. Ativo no meio desde 1987, os desenhos de Borges mantiveram o teor clássico das tramas noir escritas por Antunes e proporcionaram um belo resultado junto ao material produzido pela dupla responsável original, rendendo à publicação o prêmio HQMix no seu ano de publicação.

Paulo Borges, Wander Antunes e Gustavo Machado, respectivamente

As aventuras protagonizadas por Barbosa na edição da Pixel oferecem ao leitor uma experiência agradável tanto em termos de enredo quanto em termos de desenho, trazendo em ambos uma parte da "inocência" das publicações da época em que as tramas se desenrolam, ao mesmo tempo em que subvertendo várias expectativas, apresentando os elementos contraditórios que compunham muitos dos homens de negócio e dos relacionamentos conjugais da época. Apresentado em uma estrutura de casos curtos, o conteúdo das histórias se assemelha às crônicas de Nelson Rodrigues acerca das particularidades da natureza humana dos personagens trabalhados, elemento este que o próprio Antunes afirma ter considerado como uma referência para a criação de seu trabalho. Contando com algumas poucas cenas mais voltadas para o público mais adulto, envolvendo sexo, morte e desvirtuamento de valores, a publicação certamente torna-se um conteúdo mais restrito sem, contudo, por isso perder suas grandes qualidades.

Exemplo de uma das páginas do álbum
A leitura do material instiga o leitor a querer saber mais dos personagens comuns na estrutura das histórias de Antunes, como Bonitão, o policial Paranhos e o próprio Zózimo, mas satisfaz ao apresentar casos de arco fechado (com introdução, desenrolar e conclusão), cada qual de acordo com aquilo que se propunha. A pesquisa histórica também é algo que merece ser elogiada na avaliação da obra, uma vez que todos os elementos da história parecem realmente ter saído de fotos clássicas e livros de história. As gírias da época oferecem um certo entrave nas primeiras histórias da publicação, porém, são rapidamente absorvidas e tornam os diálogos consideravelmente mais fluídos. O grande destaque negativo da publicação, entretanto, é que termina tão rápido quanto começa, tendo apenas 64 páginas, das quais algumas ainda são dedicadas a argumentos pré e pós-textuais.

O álbum "O Corno Que Sabia Demais & outras aventuras de Zózimo Barbosa", portanto, é um material que merece ser conferido pelos leitores interessados em histórias de detetive do gênero noir, além de ser uma proposta muito interessantemente adaptada para o contexto nacional brasileiro da década de 1950. Apesar de não dar sinais de existir uma nova publicação desse conteúdo, uma vez que cada um dos quadrinistas envolvidos estão engajados em novos materiais, o material deixa um desejo de ler mais histórias no universo desses personagens. Torçamos para que o futuro nos reserve algo dessa natureza em breve. 

NOTA GERAL: 4 ESTRELAS

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Um Castelinho Para Tezuka

Por Gabriel Guimarães


Foi inaugurada, em 17 de dezembro de 2013, a exposição "Tezuka, o Rei do Mangá", no Centro Cultural Municipal Oduvaldo Vianna Filho, mais popularmente conhecido como o Castelinho, entre os bairros do Flamengo e do Largo do Machado, no Rio de Janeiro. Contando um pouco do processo artístico do animador e quadrinista japonês Osamu Tezuka, responsável por revolucionar a narrativa gráfica tanto no seu formato impresso como na sua composição audiovisual, a exposição traz para o público brasileiro um pouco dos conceitos que o autor trazia de mais importantes em sua formação enquanto artista profissional.

Tezuka desenhado junto de seus carismáticos personagens
Tendo sido o criador de muitas das grandes obras que se tornariam clássicas do estilo mangá, o trabalho de Tezuka criou os alicerces no qual quase toda a produção posterior de histórias em quadrinhos se baseou nas décadas seguintes no Japão, apresentando boa dinâmica gráfica, estudos detalhados de texturização e tramas com personagens profundamente humanos, ainda que muitos fossem máquinas, como é o caso de seu jovem Astroboy e de Michi, protagonista de sua história de ficção científica "Metrópolis". Dedicando-se a aproximar o leitor das histórias que apresentava, Tezuka trabalhou temas como preconceito, dependência tecnológica, responsabilidade e identidade com grande propriedade, tornando-se um pioneiro na abordagem de alguns desses temas.


Trecho de uma das entrevistas disponíveis
A exposição, que vai até o final de março, apresenta ainda uma série de curtas experimentais produzidos por Tezuka no terceiro andar do prédio e, também, duas entrevistas dadas pelo autor acerca de sua carreira na animação japonesa. Dispondo de tempo para assistir todos, o visitante sai de lá com uma boa perspectiva dos elementos mais importantes para o grande quadrinista japonês e ainda tem a oportunidade de conhecer um pouco mais de sua história de vida e de seu papel para todo a indústria de animação japonesa, em franca expansão há décadas.


A entrada do evento é gratuita e ele está aberto à visitação de terça a domingo, das 10 às 18 horas. O programa, ainda que mais focado na veia de animação de Tezuka, é um evento bastante interessante e recomendado também para os fãs da arte sequencial, para que possam conhecer um pouco mais de um dos grandes mestres desse meio, que faleceu em 1989, mas cujo trabalho continua pertinente e em voga até os dias de hoje.