quinta-feira, 11 de setembro de 2014

A Despedida do Xaxado

Por Gabriel Guimarães


A cidade de Miguel Calmon, na Bahia, perdeu hoje, pela manhã, um de seus filhos mais ilustres. O quadrinista Antônio Luiz Ramos Cedraz, criador dos personagens da Turma do Xaxado, faleceu aos 69 anos, vítima de câncer no intestino, deixando para trás um legado de imenso valor, principalmente no que se refere à abordagem que trazia para elementos do cotidiano do Nordeste brasileiro, além de uma profunda admiração pelos profissionais brasileiros que trabalhavam com a arte sequencial, como Waldyr Ygaiara, Gedeone Malagola, Júlio Shimamoto e Maurício de Sousa.

Apaixonado pelo desenho desde seus 16 anos, Antônio se formou e ocupou a posição de professor de Ensino Fundamental na cidade de Jacobina, tornando-se funcionário do Banco Econômico pouco depois, profissão esta que seguiu até se aposentar. Com o resguardo financeiro adquirido ao longo de sua carreira, investiu no Estúdio Cedraz, onde retomou a produção de muitos personagens que fora criando ao longo dos anos. Tendo sido premiado no 2º Encontro Nacional de Histórias em Quadrinhos, realizado em 1989 na cidade do Araxá, Minas Gerais, Cedraz foi chamado pelo jornal "A Tarde", de Salvador, para produzir tirinhas de forma regular a partir de 1998.

Seus personagens Xaxado, Zé Pequeno e Marieta, entre outros, foram obtendo sucesso junto aos leitores e acabaram ganhando publicação por editoras como Escala e HQM, chegando até a protagonizar cartilhas para o Estado sobre métodos de prevenção de doenças, além de contínuos estímulos ao respeito ao próximo, o voto consciente e à escolarização dos jovens. Após um período de grande reconhecimento pelos críticos, em que o autor foi premiado com quatro Prêmios HQmix (1999, 2001, 2002 e 2003), Cedraz ainda viu seus personagens receberem apoio da UNESCO. Em meio a essa premiação, Antônio ainda foi premiado com o Prêmio Ângelo Agostini por sua colaboração para os quadrinhos brasileiros (premiação esta restrita apenas àqueles com, pelo menos, 25 anos de trabalho dedicado ao meio). Em 2015, inclusive, o autor seria um dos grandes homenageados do IX Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), em Belo Horizonte.


Cedraz não tinha, contudo, uma estrutura que lhe permitia ir tão além como ele pretendia com sua criação. Ele sempre se mostrou reticente com a preferência do mercado editorial brasileiro de publicar conteúdo estrangeiro ou centralizado no eixo Rio-São Paulo. Em suas entrevistas, ele sempre reafirmava seu desejo de dar voz aos tipos brasileiros esquecidos pelas grandes mídias, acendendo uma consciência social em seus personagens e transmitindo várias facetas da cultura dos nordestinos que acabavam sendo marginalizados ou estereotipados tradicionalmente. Cedraz foi um destemido defensor da cultura genuinamente brasileira, e seu legado, algo muito além de seus personagens e de sua produção gráfica, há de permanecer vivo em cada um de seus muitos leitores, amigos e admiradores. O Xaxado perdeu seu principal cangaceiro, mas a dança não pode parar, e nem deve.

Há, ainda, uma entrevista concedida pelo quadrinista baiano à escritora pernambucana Michelle Ramos, realizada entre fevereiro e março de 2007 para o site "Recanto das Letras", que pode ser conferida aqui, para quem tiver interesse.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Uma Volta no Circuito Carioca de Quadrinhos

Por Gabriel Guimarães




A manhã desta quinta-feira (04/09) trouxe para a cidade do Rio de Janeiro não apenas uma chuva oscilante que se dissipou por volta do meio-dia, mas proporcionou o início de mais um evento dedicado à paixão pela nona arte, o "HQ-Rio". Organizado pelo professor Carlos de Hollanda em parceria com a universidade Cândido Mendes, em Ipanema, o evento propõe uma nova abertura para a discussão dos quadrinhos no ambiente acadêmico, promovendo o curso de Pós-graduação em Arte Sequencial que tem previsão para ter início no sábado dia 20 de setembro de 2014. Aos interessados em ingressar no curso, sua proposta pode ser encontrada no blog de Hollanda, cujo link encontra-se aqui.

A fim de apresentar as diferentes faces do mercado de quadrinhos, o evento exibe uma amostra com material selecionado de artistas como o também professor Ricardo Leite logo na entrada do sexto andar do edifício, onde o evento está sendo realizado. Com material em preto e branco e colorido, é possível observar o uso da cor como recurso gráfico tanto quando bem aplicada ou quando ausente. Há, ainda, uma ala dedicada ao comércio de revistas antigas tanto nacionais como importadas pelo grupo "Empório do Tempo", representado por Carlos Arafatt e Sérgio Lima. Com pequenas memorabílias de outros eventos como a Rio Comicon de 2010 (cuja cobertura foi realizada integralmente aqui no blog) e salões de humor e quadrinhos, o espaço dedicado a este segmento oferece uma experiência agradável e as histórias por trás de cada item certamente compensam uma visita.

A revista "Potencial Invisível"
é um bom exemplo do uso antropológico
que os quadrinhos podem possuir
Lado a lado com as revistas e álbuns de novela gráfica clássicos, há um espaço dedicado para os autores independentes, que, no primeiro dia, foram Luciano Cunha e Letícia Leão. O primeiro é o autor do quadrinho "O Doutrinador", lançado inicialmente de forma digital por meio do Facebook a partir de abril de 2013, com as páginas sendo publicadas de forma periódica ao longo do tempo no perfil do desenhista e, posteriormente, na fanpage da própria história. Tendo tido contato com a arte gráfica desde os 16 anos, quando trabalhou com Ziraldo, Luciano cresceu como artista no segmento de propaganda e marketing até tornar a lidar profissionalmente com quadrinhos alguns anos atrás, para atender pedidos específicos da editora Abril para algumas de suas revistas ligadas à prática de esportes e vida social ativa, como a "Fluir". Uma vez de volta à arte sequencial, ele se viu muito realizado com a autopublicação de seu primeiro material autoral e pretende dar sequência ao projeto no futuro. Aos interessados em conferir seu trabalho, ele continua postando novas páginas de sua história no Facebook (o link pode ser encontrado aqui). Letícia Leão, junto de seu colega Emanuel Morais, que não pode estar presente, produziu uma revista independente como projeto antropológico para a PUC-RJ sob a orientação dos professores Miguel Carvalho, Gabriel Leitão e Cláudia Bolshaw, narrando a história de quatro ex-moradores de rua acolhidos pela ASAB (Associação Solidários Amigos de Betânia). "Potencial Invisível", como a revista foi intitulada, apresenta uma proposta instigante sobre o olhar que é dado sobre as pessoas ao longo de seu momento de maior necessidade e compreende uma abordagem da narrativa gráfica extremamente interessante pelo seu potencial enquanto ferramenta social.
O personagem de Luciano Cunha, "O Doutrinador" foi um dos
grandes destaques do espaço independente

A pequena réplica do personagem Groot tende
a ser um dos itens mais cobiçados do evento
no estande da "Movie-se"
No corredor que dá no auditório onde serão realizados debates sobre a nona arte, há três estandes de venda de objetos de decoração e de beleza com a temática nerd. "Mari. C" é uma loja virtual desde 2006 com especialidade em pingentes, administrada pela carioca Mariana, enquanto "Movie-se" compreende objetos com temática nerd em geral, como peças customizadas de Playmobile no modelo "Game of Thrones", além de camisas, canecas e quadros. O terceiro estande, da "NanePanda", pertence a Elaine, que organiza todo segundo sábado do mês o evento "El Bazzar", no Colégio ICE, no bairro do Flamengo, onde uma ampla comunidade de empreendedoras na customização de peças de roupa. Especializada em cordões de acrílico, o estande tende a agradar muito o público feminino do evento pelo cuidado aos detalhes em cada peça. Os links para as páginas destes três estandes podem ser encontrados aqui, aqui e aqui, respectivamente.


A entrada do evento é de R$ 3,00, destinados Hospital do Câncer do Rio de Janeiro. É possível ainda dar um quilo de alimento não perecível no lugar do valor do ingresso, que permite ao visitante conferir tudo que o evento oferece. Ao final deste primeiro dia e amanhã, dia 5 de setembro de 2014, ainda ocorrerão as já mencionadas palestras focadas na nona arte, com a participação de profissionais como o ilustrador Diego de Almeida, diretor da Black Fox Studios, o jornalista Carlos Amorim, do Jornal dos Sports, e Hamilton Kabuna, um dos quadrinistas responsáveis pela Capa Comics. O evento vai durar até este sábado, quando contará com uma série de palestras ao longo de todo o dia até seu encerramento às 17h30. Não deixem de conferir!

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

As peripécias de Zózimo Barbosa

Por Gabriel Guimarães



 O quadrinista Wander Antunes talvez não seja tão conhecido do público no mercado brasileiro, uma vez que suas mais premiadas obras foram lançadas no mercado europeu pela editora suíça Paquet, porém, em 2007, a editora Pixel lançou aqui no Brasil um álbum com histórias curtas de um de seus primeiros personagens, o investigador particular e boêmio Zózimo Barbosa. "O Corno Que Sabia Demais & outras aventuras de Zózimo Barbosa" apresentava sete histórias ambientadas no Rio de Janeiro da década de 1950, com os sonhos, costumes e personalidades da época sob a perspectiva do pouco ortodoxo protagonista e sua rotina de lidar com as figuras de estirpe elevada porém questionável da sociedade carioca.

Criado originalmente pelo autor goiano para a revista Estação Leitura, produzida em parceria com a Secretaria de Cultura de Mato Grosso, em março de 2004, Zózimo Barbosa preencheu o imaginário de muitos cidadãos mato-grossenses durante o horário de pico nos transportes públicos onde a revista era distribuída gratuitamente. Ainda que a publicação tenha tido um número pequeno de edições, reflexo do investimento reduzido feito de forma anual no conteúdo, o personagem adquiriu alguma popularidade e a revista, que contava com artigos de acadêmicos brasileiros e textos de autores pouco conhecidos do público manteve-se em circulação até 2008. Antunes, que ocupara também a função de editor da publicação, passou a focar sua produção para o mercado europeu, onde já criara graphic novels como "Ernie Adams" e "Big Bill est mort" (uma entrevista muito interessante dada pelo autor para o jornal "Diário de Cuiabá", em setembro de 2007, acerca de sua carreira no mercado de quadrinhos pode ser conferida aqui).

Já conhecido dentro do mercado de revistas em quadrinhos  por seu trabalho junto a títulos como "Os Trapalhões", "Sérgio Mallandro" e outras publicações que adaptavam apresentadores de sucesso na televisão brasileira para a nona arte, o desenhista Gustavo Machado não foi apenas o responsável por ilustrar as desventuras de Barbosa, como ajudou a criar todo seu universo visual da época. Com um traço limpo e  um bom domínio da narrativa gráfica, Machado conduziu com fluidez o desenrolar dos casos escritos por Antunes, e garantiu um material de grande qualidade como um todo para a publicação. Após o término da revista, o desenhista continuou a produzir conteúdo para as revistas de dentro do próprio Brasil, com destaque para sua participação em revistas como "Zé Carioca" e outras publicações Disney.

Para complementar o material produzido pela dupla, o desenhista Paulo Borges, também conhecido por seu trabalho nos quadrinhos Disney e premiado cinco vezes pela editora Abril, colaborou na ilustração de duas das histórias de Zózimo Barbosa publicadas no livro da editora Pixel. Ativo no meio desde 1987, os desenhos de Borges mantiveram o teor clássico das tramas noir escritas por Antunes e proporcionaram um belo resultado junto ao material produzido pela dupla responsável original, rendendo à publicação o prêmio HQMix no seu ano de publicação.

Paulo Borges, Wander Antunes e Gustavo Machado, respectivamente

As aventuras protagonizadas por Barbosa na edição da Pixel oferecem ao leitor uma experiência agradável tanto em termos de enredo quanto em termos de desenho, trazendo em ambos uma parte da "inocência" das publicações da época em que as tramas se desenrolam, ao mesmo tempo em que subvertendo várias expectativas, apresentando os elementos contraditórios que compunham muitos dos homens de negócio e dos relacionamentos conjugais da época. Apresentado em uma estrutura de casos curtos, o conteúdo das histórias se assemelha às crônicas de Nelson Rodrigues acerca das particularidades da natureza humana dos personagens trabalhados, elemento este que o próprio Antunes afirma ter considerado como uma referência para a criação de seu trabalho. Contando com algumas poucas cenas mais voltadas para o público mais adulto, envolvendo sexo, morte e desvirtuamento de valores, a publicação certamente torna-se um conteúdo mais restrito sem, contudo, por isso perder suas grandes qualidades.

Exemplo de uma das páginas do álbum
A leitura do material instiga o leitor a querer saber mais dos personagens comuns na estrutura das histórias de Antunes, como Bonitão, o policial Paranhos e o próprio Zózimo, mas satisfaz ao apresentar casos de arco fechado (com introdução, desenrolar e conclusão), cada qual de acordo com aquilo que se propunha. A pesquisa histórica também é algo que merece ser elogiada na avaliação da obra, uma vez que todos os elementos da história parecem realmente ter saído de fotos clássicas e livros de história. As gírias da época oferecem um certo entrave nas primeiras histórias da publicação, porém, são rapidamente absorvidas e tornam os diálogos consideravelmente mais fluídos. O grande destaque negativo da publicação, entretanto, é que termina tão rápido quanto começa, tendo apenas 64 páginas, das quais algumas ainda são dedicadas a argumentos pré e pós-textuais.

O álbum "O Corno Que Sabia Demais & outras aventuras de Zózimo Barbosa", portanto, é um material que merece ser conferido pelos leitores interessados em histórias de detetive do gênero noir, além de ser uma proposta muito interessantemente adaptada para o contexto nacional brasileiro da década de 1950. Apesar de não dar sinais de existir uma nova publicação desse conteúdo, uma vez que cada um dos quadrinistas envolvidos estão engajados em novos materiais, o material deixa um desejo de ler mais histórias no universo desses personagens. Torçamos para que o futuro nos reserve algo dessa natureza em breve. 

NOTA GERAL: 4 ESTRELAS

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Um Castelinho Para Tezuka

Por Gabriel Guimarães


Foi inaugurada, em 17 de dezembro de 2013, a exposição "Tezuka, o Rei do Mangá", no Centro Cultural Municipal Oduvaldo Vianna Filho, mais popularmente conhecido como o Castelinho, entre os bairros do Flamengo e do Largo do Machado, no Rio de Janeiro. Contando um pouco do processo artístico do animador e quadrinista japonês Osamu Tezuka, responsável por revolucionar a narrativa gráfica tanto no seu formato impresso como na sua composição audiovisual, a exposição traz para o público brasileiro um pouco dos conceitos que o autor trazia de mais importantes em sua formação enquanto artista profissional.

Tezuka desenhado junto de seus carismáticos personagens
Tendo sido o criador de muitas das grandes obras que se tornariam clássicas do estilo mangá, o trabalho de Tezuka criou os alicerces no qual quase toda a produção posterior de histórias em quadrinhos se baseou nas décadas seguintes no Japão, apresentando boa dinâmica gráfica, estudos detalhados de texturização e tramas com personagens profundamente humanos, ainda que muitos fossem máquinas, como é o caso de seu jovem Astroboy e de Michi, protagonista de sua história de ficção científica "Metrópolis". Dedicando-se a aproximar o leitor das histórias que apresentava, Tezuka trabalhou temas como preconceito, dependência tecnológica, responsabilidade e identidade com grande propriedade, tornando-se um pioneiro na abordagem de alguns desses temas.


Trecho de uma das entrevistas disponíveis
A exposição, que vai até o final de março, apresenta ainda uma série de curtas experimentais produzidos por Tezuka no terceiro andar do prédio e, também, duas entrevistas dadas pelo autor acerca de sua carreira na animação japonesa. Dispondo de tempo para assistir todos, o visitante sai de lá com uma boa perspectiva dos elementos mais importantes para o grande quadrinista japonês e ainda tem a oportunidade de conhecer um pouco mais de sua história de vida e de seu papel para todo a indústria de animação japonesa, em franca expansão há décadas.


A entrada do evento é gratuita e ele está aberto à visitação de terça a domingo, das 10 às 18 horas. O programa, ainda que mais focado na veia de animação de Tezuka, é um evento bastante interessante e recomendado também para os fãs da arte sequencial, para que possam conhecer um pouco mais de um dos grandes mestres desse meio, que faleceu em 1989, mas cujo trabalho continua pertinente e em voga até os dias de hoje.


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Vida de Passarinho


Por Gabriel Guimarães




Foi realizado na noite desta quarta-feira, na Livraria da Travessa de Ipanema, o lançamento do terceiro volume das coletâneas de tirinhas dos personagens criados pelo autor capixaba Estevão Ribeiro. Com o título "Vida de Escritor" e um design similar ao do primeiro volume da publicação, os personagens Hector a Afonso tornam a protagonizar tirinhas com bom humor, dessa vez em histórias acerca do universo dos escritores e algumas das situações peculiares pelas quais muitos deles passam em alguns momentos ao longo de suas carreiras.


Atraindo a atenção de uma grande quantidade de pessoas que estavam na Livraria, que formaram uma considerável fila para conseguir o autógrafo de Estevão, além de reunir outros autores de quadrinhos e da literatura fantasiosa brasileira, como Carlos Ruas, Gerson Lodi-Ribeiro e Luiz Felipe Vasquez, que estiveram presentes para prestigiar o autor, o evento foi de grande sucesso. Contando ainda com a presença do editor responsável pela publicação, o paulista Guilherme Kroll (a quem já entrevistamos aqui no blog), da Balão Editorial, que recebeu a todos com bastante ânimo e entusiasmo, o lançamento proporcionou momentos extremamente agradáveis e conversas muito interessantes, dentre as quais vale destacar a origem do formato particular do primeiro e terceiro volumes das coletâneas dos "Passarinhos". Inicialmente pensado como uma forma de viabilizar a impressão do material nas máquinas de larga escala que eram utilizadas para imprimir em papel de nota fiscal, o formato acabou servindo para permitir uma economia maior nas gráficas habituadas à impressão em folha A4, vindo, apenas por final, a representar um objeto de estética atraente e fortemente convidativa para os leitores.

Uma vez que o custo com a publicação do seu material foi reduzido, Estevão permitiu à editora lançar o conteúdo de seus personagens a um preço mais acessível, atraindo, por conseguinte, uma maior gama e volume de leitores ao redor do país. A editora Balão Editorial ficou tão feliz com a receptividade da publicação, que, em breve, pretende relançar o segundo volume das coletâneas (cujo lançamento foi também coberto aqui no blog) no formato de livro-tira, segundo o próprio Estevão.

A vitrine da Livraria ganhou uma área temática especial para o evento
A noite fluiu de forma tranquila e o público da livraria foi ficando cada vez mais centralizado em torno do lançamento de Estevão, que pode receber todo o carinho dos leitores, que chegavam a trazer outras de suas publicações para conseguir sua assinatura. Todos os que estiveram presentes puderam sair satisfeitos com a nova obra adquirida e realizados com os encontros e conversas tidas.


domingo, 12 de janeiro de 2014

Sonho, Dedicação e Saudade

Por Gabriel Guimarães

Antonio Luiz Cagnin, Waldomiro Vergueiro, Sonia Bibe Luyten,
Moacy Cirne e Álvaro de Moya, da esquerda para a
direita, respectivamente

Ontem, dia 11 de janeiro de 2014, o rol de estudiosos da nona arte perdeu um de seus grandes representantes nas terras tupiniquins. Aos 70 anos de idade, o professor aposentado da Universidade Federal Fluminense, Moacy Cirne, faleceu após uma parada cardíaca decorrente de uma cirurgia a qual fora submetido para tratamento de hepatite, conforme noticiado à tarde pelas páginas online dos jornais "Tribuna do Norte" e "O Globo". Com uma vasta bibliografia dedicada ao estudo da arte sequencial, seus elementos semióticos e aspectos sociopolíticos, Cirne deixa um legado de importância incalculável para os admiradores das histórias em quadrinhos, que tiveram nele um de seus mais empenhados pesquisadores.
 
Autor de obras como "Bum! - A Explosão Criativa dos Quadrinhos" (1970), "História e Crítica dos Quadrinhos no Brasil" (1990) e "Quadrinhos, Sedução e Paixão" (2001), dentre tantos outros, Cirne nasceu na cidade de Jardim do Seridó em 1943, tendo se mudado para a parte baixa da rua Coronel Martiniano ainda aos 2 anos, na cidade de Caicó. Impressionado desde sempre pela dinâmica envolvente das revistas em quadrinhos que adquiria com seu vizinho Benedito, que trazia os materiais de Recife e os vendia frente à sua casa todas as quintas-feiras e admirado também pelas obras cinematográficas apresentadas no cinema Pax, Cirne iniciou uma carreira de grande destaque acadêmico, se tornando figura conhecida publicamente a partir de sua parceria com a editora Vozes, localizada em Petrópolis, no começo da década de 1970. Lá, ele exerceu a função de secretário de redação, aprofundando seus conhecimentos acerca da semiótica, da semântica e dos movimentos literários, ainda que já fosse parte fundamental da vanguarda artística que inaugurou o poema-processo enquanto forma de expressão, no ano de 1967.
 
Dedicando-se à poesia e ao estudo da narrativa gráfica, Cirne trabalhou em diversos artigos ao longo das décadas seguintes, trazendo para o leitor seu posicionamento firme quanto ao poder do formato em termos de divulgação ideológica e sua crítica acerbada sobre o predomínio norte-americano no consumo de quadrinhos nos mercados latinos. Sua análise sobre os elementos formadores da mídia, exemplificados majoritariamente por materiais europeus, foram de grande relevância para uma maior abertura dos campi universitários para os quadrinhos enquanto objeto de estudo. Seu último livro, "Seridó Seridós", que tratava de sua infância e formação nos arredores da ponte do Rio Barra Nova, à beira da estrada para o Itans, com muita poesia e sinceridade, foi lançado no último dia 14 de dezembro, e carrega em si talvez parte daquilo que compôs um dos maiores pesquisadores brasileiros da indústria de quadrinhos mundial.
 
Cena da história "Reco-Reco,
Bolão e Azeitona", de Luiz Sá,
recolorida digitalmente
A notícia do falecimento de Cirne vem poucos meses depois da perda de outra importante figura no mesmo campo de estudo acadêmico. Fundamental no reconhecimento do artista ítalo-brasileiro Ângelo Agostini como um dos precursores das histórias em quadrinhos enquanto meio de comunicação de massa, o professor Antonio Luiz Cagnin faleceu no dia 9 de outubro de 2013, vítima de um infarto fulminante durante uma reunião de colegas no Embu das Artes, em São Paulo. Nascido no bairro de Araras, Cagnin se apaixonou pela nona arte desde seu contato com a obra "Reco-Reco, Bolão e Azeitona", do desenhista cearense Luiz Sá, que participou da revista "O Tico-Tico" durante o período em que o conteúdo da revista que vinha do exterior sofria com atrasos e problemas de transporte decorrentes do período da Primeira Guerra Mundial. Cagnin, então, se empenhou no magistério, saindo de casa aos 15 anos para trabalhar no Instituto Tecnológico da Aeronáutica, localizado em São José dos Campos, e dando aulas de línguas no tempo sobressalente.
 
Antonio Luiz Cagnin
Durante seu período de pós-graduação na USP, a partir de 1972, Cagnin vivenciou com bastante gana o Congresso Internacional de Quadrinhos, realizado em São Paulo por artistas brasileiros, como o futuro estudioso Álvaro de Moya, fazendo contato com professores da França e da Itália acerca do estudo aprofundado da arte gráfica na narrativa de histórias, sendo posteriormente convidado para participar da Organização de Professores de Quadrinhos, organizada pelo professor Francisco Araújo, da faculdade de Brasília. Participante ativo nos congressos posteriores, realizados na Bordighera e Lucca, ambas em terras italianas, Cagnin viria a se tornar professor efetivo da USP apenas em 1984, no setor de semiologia na Escola de Comunicações e Artes.
 
Já tendo publicado em 1975 o livro "Os Quadrinhos", na série "Ensaios", da editora Ática, Cagnin encontrou na seção de obras raras da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro  "As Aventuras de Nhô Quim" e "As Aventuras do Zé Caipora", ambas produzidas pelo ítalo-brasileiro Ângelo Agostini e publicadas no jornal "Vida Fluminense", no ano de 1869. Observando mais atentamente o trabalho de Agostini, Cagnin se deu conta da aferição imprecisa do artista apenas como caricaturista, título que  lhe fora atribuído devido ao estudo feito pelo contista e historiador Herman de Castro Lima sobre o tema, durante a década de 1960. Cagnin explorou o restante do material produzido por Agostini e conseguiu realizar, em 1994, uma exposição sobre o artista nas instalações da USP na rua Maria Antonia, com apoio do consulado italiano. A repercussão da exposição foi enorme, percorrendo várias cidades brasileiras , além de muitos pontos ao redor da Europa, onde hoje é guardada no Centro de Estudos do Bordalo Pinheiro, em Portugal.
 
Cirne e Cagnin foram homens que dedicaram muito de suas vidas ao reconhecimento da arte dos quadrinhos e de seus representantes, valorizando a contribuição humana e cultural promovida por esse meio, e o material que eles nos permitiram ter acesso hoje, é certamente uma ferramenta de valor inestimável para uma visão ampla e acertada sobre o cenário brasileiro no campo da produção na nona arte. Suas palavras farão falta, mas seu empenho, dedicação e, acima disso, seus sonhos de validação da mídia, permanecerão vivos em cada um de nós em nossa jornada. 
 
Àqueles que tiverem interesse, a matéria sobre o falecimento do professor Moacy Cirne pode ser conferida no link aqui. Uma valiosa entrevista realizada com o professor Antônio Luiz Cagnin, realizada em 2010, também pode ser conferida no site "Bigorna 3.0", que pode ser acessado por aqui.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Nova Fragata pelos Quadrinhos Literários

Por Gabriel Guimarães



Uma das páginas do primeiro volume
de "História do Brasil em Quadrinhos"

Colaborador da revista "Mundo dos Super-Heróis" desde o mês de setembro de 2007, o jornalista Jota Silvestre tem se tornado presente em vários eventos de quadrinhos na cidade de São Paulo e em debates nas redes sociais sobre a nona arte e seus mais renomados personagens e autores. Com uma veia histórica acentuada, Jota logo começou a colaborar com trabalhos de propriedade educativa na arte sequencial, auxiliando a traduzir o argumento do escritor Edson Rossatto para a primeira história em quadrinhos produzida e publicada pela editora Europa, "História do Brasil em Quadrinhos", de pouco mais de 50 páginas e cujo público-alvo consistia em crianças com nível de escolaridade do Ensino Fundamental, majoritariamente.
 
 
Aydano Roriz, autor do romance
"O Fundador", que originou a HQ
publicada pela editora Europa
Com o sucesso alcançado por essa primeira publicação, o editor responsável, Manoel de Souza, levou adiante o planejamento de outros dois materiais de semelhantes características, um sendo uma continuação direta do material de Rossatto, e outra, uma adaptação mais madura sobre o romance histórico "O Fundador", escrito pelo historiador Aydano Roriz acerca da trajetória de vida do navegador português Tomé de Souza em seu tempo nas terras tupiniquins e seu papel na fundação da Bahia. Interessado pelo projeto e admirado pela fluidez do texto de Roriz, Jota assumiu as rédeas do trabalho, adaptando o conteúdo literário original em um roteiro coeso de quadrinhos de quase 75 páginas.
 
Ao longo de mais de três anos, ele e o desenhista JB Fernandes tiveram uma considerável carga de trabalho a fim de encontrar referências precisas sobre o período histórico em que a história se passa e o contexto no qual os personagens estavam inseridos, porém, o resultado valeu a pena. Com uma arte detalhada e uma preferência pelos diálogos enquanto ferramenta narrativa, a história captura o leitor, guiando-o confortavelmente pelos eventos históricos apresentados, servindo, dessa forma, como uma bela ferramenta de ensino para os interessados no tema.

O acabamento editorial aplicado pela editora Europa agregou, ainda, muito valor ao material, dispondo-o no mercado com acabamento de qualidade em papel couché a um preço acessível. A colorização da história, realizada pela dupla Marcio Menyz e Mauricio Leone, ambos professores representados pelo Instituto dos Quadrinhos, é igualmente elemento de destaque na obra, dando maior profundidade para os desenhos de Fernandes e implementando na história os tons e cores que a rica fauna e flora brasileiras apresentavam aos navegantes europeus.
 
Os prazos de produção da obra, porém, levaram a certas decisões editoriais que tiveram altos e baixos. Sem ter como dispor do tempo necessário para a arte-final das páginas a nanquim, o projeto foi inteiramente colorido sobre as ilustrações feitas a lápis por Fernandes e escaneadas para o computador. Isso acrescentou um tom marcante em determinadas cenas da história, tendo os traços indígenas dos personagens das tribos nativas do Brasil ganho uma naturalidade louvável, como a cena em que a filha de Diogo Álvares, Uyara, é apresentada ao seu futuro marido, entretanto, determinadas expressões faciais e marcas de sombra delineadas pelo traço acabaram perdendo certa qualidade que poderiam ter conservado em caso de um acabamento mais cuidadoso, ao exemplo da cena da união de Tomé de Souza com Jurecê e Yuruti, na casa de seu outrora criado, Garcia.
 
 
A história em quadrinhos, afinal, é de grande valia como ferramenta didática e até como instrumento de entretenimento. Obviamente, o período histórico em que tudo transcorre é rico demais em termos de detalhe para conseguir ser apresentado em suas minúcias para o leitor, porém, a adaptação de "O Fundador" para a nona arte é um material extremamente rico, tanto em texto quanto em arte, e merece uma chance para surpreender e cativar o público. A editora Europa certamente acertou ao desbravar esse nicho de mercado para as próximas gerações através das hábeis mãos de todos estes profissionais envolvidos no processo.

NOTA FINAL: 4,5 ESTRELAS.