quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Uma (Não Tão) Breve Visão do Potencial Expressivo das Histórias em Quadrinhos

Por Gabriel Guimarães


Mais que uma indústria, as histórias em quadrinhos representam um modo de expressão válido de observação minuciosa e considerações apropriadas. Observando atentamente as etapas de sua história enquanto ferramenta sociocultural, é fascinante constatar as potencialidades que o meio possui e as formas inovadoras e instigantes encontradas por diversos artistas ao longo de sua existência para reproduzir suas mensagens particulares. Acompanhemos, então, uma jornada histórica e sociologicamente importante para se compreender o assunto.

Desde os primórdios da nossa existência, a raça humana protagonizou uma jornada de autoconhecimento para aprender sobre suas capacidades e limitações. Através das percepções do ambiente em que estavam inseridos, os primeiros indivíduos puderam descobrir noções que, muito tempo depois, viriam a se tornar universais, como a lei de Newton sobre ação e reação (causa e consequência) e a lei da sobrevivência do mais apto, atribuída a Darwin. Ainda que estas constatações tenham tido uma origem visceral e rudimentar, os seres humanos também estiveram submetidos a certos aspectos externos à sua própria consciência, os quais desempenharam papéis de importância imperiosa na sua compreensão particular enquanto ser pensante. A comunicação é um destes fatores. De grunhidos a urros, a humanidade foi aprendendo a compartilhar entre seus semelhantes o testemunho particular de determinados eventos, a fim de evitar cometer erros passados e permitir uma sobrevivência mais fácil para o coletivo. Então, surgiu a escrita.
 

Exemplo de escrita cuneiforme
Diferente da estrutura que possui hoje e das suas múltiplas facetas ao redor do planeta, a origem da palavra escrita reside no objetivo de representar um determinado som que continha um significado para que outros pudessem compreendê-lo mesmo sem estar presentes quando a mensagem original era transmitida. Inicialmente pictórica, a arte rupestre trazia lições dos períodos de caça e da gestão das sociedades primitivas, auxiliando o processo de construção de um convívio pacífico e harmônico. Com o tempo, a humanidade aprimorou não apenas suas habilidades laborais, que facilitaram sua sobrevivência, como também permitiu especificidades na sua forma de expressar seus conhecimentos, que passavam a transcender a mera prática e começava a migrar para um campo mais simbólico da essência humana. Os hieróglifos egípcios e a escrita cuneiforme, desenvolvida pelos sumérios, são considerados, hoje, as primeiras representações desse tipo de expressividade desassociada de eventos físicos propriamente ditos. Os pictogramas que compunham essas linguagens, inicialmente de formato diferenciado para cada indivíduo, então, começavam a adquirir formas mais fixas, sendo adotadas por diversos povos ao redor da Mesopotâmia, encontrando apenas alguma resistência entre os povos do Leste Asiático, que já haviam desenvolvido um sistema de língua próprio da região, denominado de língua semítica (termo este de certo debate entre os etimólogos por conta de suas variações, desde o aramaico e o hebraico até o árabe e o acadiano).
 
Representação das etapas necessárias para
a confecção da folha de papel original
Com o passar do tempo, a língua foi adquirindo tons particulares de cada região em que era utilizada, dando nascimento, dessa forma, a muitos idiomas que, posteriormente, adquiririam o formato com que são observados hoje. A plataforma em que a escrita se dava igualmente sofreu mudanças, passando das paredes de cavernas para a argila, o barro e até em materiais de origem óssea. Mediante a necessidade de registro para o comércio e a gestão dos primeiros Estados criados pelas sociedades humanas, foram surgindo, eventualmente, novas formas de armazenar o conteúdo escrito, desenvolvendo-se instrumentos dedicados a este propósito, como os pergaminhos, os códices, os papiros e, por final, o papel. Desenvolvido na China pelo funcionário da corte imperial Cai Lun, também conhecido como Ts'ai Lun, o papel originalmente produzido a partir da polpação das redes de pesca para depois passar a ser composto de fibras vegetais, se mostrou uma das formas mais seguras de assegurar a manutenção dos escritos, e foi adotado como padrão ao redor de todo o planeta.
 
Pode parecer um tanto detalhista demais observar este panorama histórico da escrita, porém, é importante destacar a grande importância da função desempenhada por essa atividade. A história da humanidade é incrivelmente vasta e cheia de momentos de saltos tecnológicos que mudaram a maneira como se vivia até então, porém, é praticamente unânime entre os historiadores a relevância que o desenvolvimento de uma forma de expressão teve em termos de permitir ao homem começar a sair da terra batida de lama para assumir uma posição imponente diante da natureza, enquanto seu maior transformador. Uma questão, entretanto, é extremamente importante de destacar: a necessidade do homem em se fazer compreender pelos seus semelhantes.
 

Eadrweard Muybridge e um de seus estudos
sobre a composição da imagem
em movimento

A sociedade avançou muito desde que as línguas se tornaram elemento de identificação regional e as formas de manutenção destas se aprimorou a ponto de permitir guardar registros milenares de indivíduos há muito tempo finados para novas gerações de indivíduos que poderiam vir a aprender com aqueles. Ainda assim, a necessidade de se expressar, de ser compreendido por outros seres, continuou presente no cerne do homem. Novos meios para fazer isso foram surgindo, com a arte adquirindo seu auge histórico no período da Renascença e administrando uma comunicação visual que se manteria soberana até o surgimento dos primeiros dispositivos de registro pictórico por meio da captação da luz sobre as pessoas, no final do século XIX. Desde então, esse registro evoluiu para outras formas de capturar as expressões do homem, físicas e emocionais, como a captura do áudio realizada por cientistas como Guglielmo Marconi, Thomas Edison, David E. Hughes e Nikola Tesla; e a construção de imagens de efeito contínuo, que davam a impressão de movimento, cujas técnicas eram desenvolvidas por Eadweard Muybridge, os irmãos Auguste e Louis Lumière, e William Kennedy Dickson. Mesmo com todos esses processos sendo desenvolvidos para expandir a voz e a presença da mensagem humana, haviam nuances e sentimentos que extrapolavam as limitações do discurso direto, havendo aqueles que recorressem às imagens pictóricas para conseguir alcançar o seu objetivo original.

Exemplo do trabalho do suíço Rodolphe
Töpffer, um dos precursores das
histórias em quadrinhos no século XIX
E, então, as narrativas gráficas começaram a ganhar forma. Com o trabalho de habilidosos profissionais como o alemão Wilhelm Busch, o suíço Rudolphe Töpffer e o ítalo-brasileiro Ângelo Agostini, a estrutura de expressão gráfica aliada a um acompanhamento textual foi evoluindo, até encontrar, no trabalho do norte-americano Richard Outcault, o berço de um novo meio de comunicação de massa - as histórias em quadrinhos. Deixando os aspectos mercadológicos e comerciais para uma abordagem mais detalhada em outra ocasião, os aspectos semióticos desse formato adquiriram significados especiais ao longo dos anos, dando vida aos pensamentos e devaneios de seus mais diversos autores. A expressividade que essa mídia oferecia, entretanto, não se limita apenas ao contexto em que o conteúdo das mensagens é desenvolvido, indo além para representar uma grande parcela na repercussão que essa composição tem junto aos seus receptores. O filósofo francês Gilles Deleuze aponta que vivemos em uma sociedade imagética onde as ferramentas comunicacionais funcionam de acordo com um pretexto de uniformização dos discursos para que estes sejam inteligíveis socialmente; ainda assim, ele ressalta que, dentro das imagens, há uma pluralidade de sentidos cujo resultado depende do próprio receptor desta para dar-lhe sentido. A expressão de uma imagem contém, portanto, tanto as vertentes daquele que a cria quanto daquele que a consome. O mesmo vale para as histórias em quadrinhos; mesmo que se trate de uma narrativa, em sua maioria, fechada, com personagens estabelecidos e eventos narrados de forma a compor uma estrutura cronológica compreensível, a narrativa gráfica depende muito daquilo que os autores têm a dizer, e do que os leitores têm a assimilar.

Exemplo da expressividade desenvolvida por
Eisner em uma página de modelo, que
produziu para seu livro "Quadrinhos e
Arte Sequencial"
Os norte-americanos Will Eisner e Scott McCloud foram alguns dos que procuraram estudar a origem expressiva das histórias em quadrinhos, enquanto ferramentas sociais de comunicação. Em suas respectivas obras, eles observaram a origem arcaica das pinturas rupestres e a evolução da expressão por meio de ilustrações, atravessando os séculos e passando pelas mais diversas culturas. Para eles, o potencial expressivo dos quadrinhos podia apenas ser limitado à capacidade particular daqueles que tomavam seus instrumentos como ferramentas para compor suas mensagens. Esse discurso encontrou alguma resistência nos estudos de alguns sociólogos, como os alemães Walter Benjamin e Theodore Adorno, que apontavam para a perda da aura artística em função da reprodução massificada das obras de arte no começo do século XX. Eles implicavam que a composição de uma obra para consumo desmedido provocaria uma perda irreparável no ato de testemunhar um material original em sua plenitude; a expressão máxima da arte perderia, dessa forma, seu maior grau de validação: sua autenticidade absoluta, tanto em termos de produção do espírito humano quanto de composição de experiência social.

A resistência especificamente contra os quadrinhos encontraram voz no psicólogo germano-americano Frederic Wertham, cujo trabalho não se concentrava na expressão da narrativa gráfica em si, mas na transmissão de ensinamentos que considerava alarmantes através das revistas vendidas na primeira metade do século XX. Um dos maiores adeptos do conceito de indústria cultural apresentado por Adorno e Horkheimer, Wertham incitou o pânico entre os cidadãos mais conservadores da sociedade norte-americana, ganhando voz em outros países através da tradução de seus artigos, provocando um período de censura como jamais se vira antes para este meio de comunicação. A propriedade expressiva dos quadrinhos sofreu um grande baque, precisando se submeter a selos de adequação quanto a determinados princípios considerados universalmente aceitos, como o Comics Code da Associação de Editores de Revistas em Quadrinhos (Association of Comics Magazine Publishers - A.C.M.P.) e, posteriormente, o polêmico Comics Code Authority (nota: ainda pretendemos trabalhar a história acerca desse selo mais detalhadamente no futuro, então, nos restringiremos aqui apenas à sua menção).

Apesar de todos esses obstáculos, a livre expressão prevaleceu, permitindo aos quadrinhos serem ferramentas de recursos únicos para aqueles que se dispusessem a utilizá-los como mídia. O já mencionado Eisner foi um dos grandes pioneiros no aprimoramento dos recursos característicos do próprio formato da arte sequencial para poder transmitir noções, compondo, assim, toda uma nova forma de transmitir ideias, sentimentos e histórias. Mediante as características que qualificam determinado conteúdo como uma história em quadrinhos - a apresentação de imagens pictóricas sequenciadas a fim de construir um elo que as une através da percepção do seu leitor, aliada ao recurso do uso da palavra escrita para expandir e aprofundar o contexto que o autor procura transmitir são os mais básicos, unindo as propriedades gráficas e textuais da comunicação humana como nenhum outro meio o faz - surgiu toda uma gama de possibilidades de abordagem. Utilizando elementos igualmente comuns à maioria das histórias como o tamanho dos requadros, a dimensão da sarjeta (área entre os quadrinhos de uma página) e o formato particular dos balões, autores de ao redor do mundo inteiro viram ali uma forma de se expressar.

Página de "O Paraíso de Zahra" sobre os movimentos estudantis
que aconteceram no Irã
Ainda que, conforme o semiólogo francês Roland Barthes tenha aferido à existência da linguagem um paradoxo de permitir expressar o âmago dos ideais humanos, também expressa a limitação semântica de não poder romper com suas próprias regras de regência ortográfica, a linguagem dos quadrinhos ofereceu a muitas vozes, outrora fadadas ao esquecimento, a oportunidade de se expor, de mostrar suas perspectivas particulares do mundo em que vivem, do tempo e da cultura em que estão inseridas. Seja pela delicada ponderação sobre a vida adulta, do ponto de vista daqueles que começam a dar seus primeiros passos nessa jornada, como em "Solanin", do japonês Inio Asano (cuja obra foi comentada aqui antes), ou a denúncia efusiva contra as normas que regem a estrutura de uma sociedade e uma cultura, como em "O Paraíso de Zahra", dos iranianos Khalil e Amir; seja na singela apresentação do valor das amizades, como em "Laços", feita pelos irmãos brasileiros Vitor e Luciana Caffagi (que também foi comentada aqui), ou então na mera exposição de eventos que as grandes mídias apenas cobrem a superficialidade de conflitos étnicos e religiosos, como em várias obras do jornalista americano Joe Sacco.
 
Como destacou o sociólogo e aposentado professor da Universidade Federal Fluminense, do Rio de Janeiro, Moacy Cirne, "os quadrinhos são criativos e merecedores do nosso respeito artístico e intelectual não [apenas] pela possível profundidade  (filosófica, literária, "humana", etc.) desse ou daquele personagem, mas por uma série de procedimentos semióticos no cerne da própria linguagem quadrinística.", o que é complementado pelo professor de Letras da USP, Paulo Ramos, que aponta que "ler quadrinhos é ler sua linguagem. Dominá-la, mesmo que em seus conceitos mais básicos, é condição para a plena compreensão da história [completa] e para a aplicação dos quadrinhos em salas de aula e em pesquisas científicas sobre o assunto."
 
 
As histórias em quadrinhos, portanto, nos oferecem uma nova forma de apresentar o mundo por nossos olhos e mentes a outros, que, de outra forma, não teriam compreensão plena da mensagem que desejamos transmitir. O potencial comunicacional e expressivo da nona arte se torna claro e suas mais diversas facetas, objeto de análise admirável. O assunto permite uma discussão muito maior e abrangente, porém, a exposição de certos elementos-chave e contextualizações necessárias são extremamente importantes para tal finalidade. Que essa apresentação possa ter esclarecido um pouco das origens acerca da expressividade que esse meio de comunicação possui, e que as vertentes de abordagens dos recursos da arte sequencial possam frutificar em quantidade e qualidade cada vez crescente, na construção de nossas identidades socioculturais naturalmente.

domingo, 28 de julho de 2013

Laços Encontrados

Por Gabriel Guimarães


No final de 2011, os estúdios MSP anunciaram uma coleção especial de quatro títulos isolados, que apresentariam os personagens pertencentes ao estúdio através dos olhos e estilos de artistas em ascensão no cenário editorial brasileiro selecionados a dedo. Tratava-se do selo editorial Graphic MSP.
 
Contando com a alta expectativa que se aglomerava durante a Feira Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte, onde o anúncio aconteceu (o qual foi coberto aqui no blog), o editor Sidney Gusman deu um pequeno vislumbre do que estava por vir nos anos seguintes, contando apenas com uma imagem ilustrativa definindo de que se trataria cada obra do conjunto. Utilizando de estratégia similar àquela implementada na divulgação da trilogia "MSP50" (que foi observada de perto aqui no blog), Gusman manteve o público atento conforme ia liberando teasers das páginas de quadrinhos através das redes sociais nos meses seguintes.
 
Ano passado, em 2012, foi lançada a primeira edição desse projeto, "Astronauta: Magnetar", pelo traço do desenhista paulista Danilo Beyruth. A obra, que inaugurou com brilhantismo a série, narrou um episódio protagonizado pelo personagem Astronauta, originalmente criado por Maurício de Sousa em 1963, dando-lhe, porém, um maior tom de ficção científica e de suspense do que lhe era habitual. Mantendo os elementos característicos do material original, Beyruth apresentou uma história intrigante e envolvente, aproveitando até, em determinado momento, para referenciar o seu próprio personagem, o Necronauta, na trama do hábil explorador do espaço sideral. Tendo conquistado tanto a crítica quanto os leitores, a história não apenas se tornou um dos quadrinhos mais vendidos do ano e um dos destaques editoriais daquele ano.
 
Em maio deste ano, foi lançado o segundo título das Graphic MSP, com um elemento a mais válido de gerar expectativa: o aniversário de 50 anos de uma das personagens mais importantes da obra e a principal protagonista do universo de personagens criados por Maurício de Sousa em toda a sua carreira, a Mônica. Com teor mais lúdico, "Laços", produzido pelos irmãos mineiros Vitor e Luciana Caffagi, ganhou as prateleiras e os corações daqueles que vieram a conhece-lo. E é sobre essa obra que vamos discorrer, de fato, a seguir.
 
Ambientada no pacato bairro do Limoeiro, cenário tradicional das histórias da turma da Mônica, a obra dos irmãos Caffagi procura trabalhar questões inerentes ao período em que os personagens principais se encontram, ou seja, a infância, e as diferentes percepções de mundo e de certos conceitos como amizade e lealdade existentes nesta etapa de vida.

Logo de início, há uma construção narrativa muito interessante a se ressaltar: Apesar de serem elemento comum na formação do leitor brasileiro há várias décadas, há uma apresentação sutil, todavia, clara, dos quatro personagens principais da trama - Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão -, além de referenciar outros personagens secundários que tiveram papel interessante no passado. Logo em seguida, porém, a história adentra em sua verdadeira trama: o desaparecimento do cachorro Floquinho, pertencente ao personagem Cebolinha. Conhecido por seus planos mirabolantes para ser o menino mais respeitado da região, ele vê sua confiança abalada pela perda de seu fiel bicho de estimação, cujo primeiro contato foi belamente retratado pelo traço simplesmente poético de Luciana Caffagi (cujo trabalho junto ao grupo Lady's Comics já foi comentado aqui no blog).

Cena em que Cebolinha vê Floquinho pela primeira vez,
no traço da desenhista Luciana Caffagi 
Convencido pelos demais amigos a não desistir tão fácil da esperança de reencontrar Floquinho, Cebolinha orquestra uma estratégia para guia-los, a qual eles seguem de forma determinada. Com o passar do tempo, porém, eles se deparam com um grupo de garotos de outra rua, que ridiculariza o ato do grupo. Vale destacar que esses personagens são referências óbvias a outra turma de personagens de quadrinhos reconhecidos mundialmente, a turma da Luluzinha e do Bolinha (que já foram observados anteriormente aqui no blog). Respondendo com autoridade, a turma da Mônica consegue com os garotos a informação para o próximo passo na jornada atrás do Floquinho e decide visitar o Parque das Andorinhas, onde fora visto mais cedo. O grupo se prepara, pega os recursos de que podem vir a precisar e partem para a ação.

Deste ponto em diante, comentar detalhadamente seria privar os leitores de deliciar essa obra com a maestria com que ela foi produzida, entretanto, alguns comentários ainda são pertinentes. O traço cuidadoso de Vitor Caffagi se destaca em diversos momentos ao longo da história, ressaltando seu dom para a narrativa nostálgica com que produziu muitas de suas histórias no passado, como "Puny Parker" e "Valente" (o artista já foi comentado aqui no blog). O volume de detalhes preciosos também é algo digno de nota, com o fato de que, nas histórias em quadrinhos tradicionais dos personagens, o único deles a usar sapatos é o Cebolinha, e a forma como isso é sutilmente abordado no decorrer da trama; e o clima de filme clássico dos anos 1980, como "Goonies" e "Conta Comigo", sentido na obra como um todo também é sublime, sensibilizando ao mesmo tempo em que entretêm.

Cena emblemática dos personagens como guerreirinhos
do bairro do Limoeiro
 
Procurando, dessa forma, as raízes dos elos que uniram os quatro personagens principais, é apresentado ao leitor uma bela história de amizade e confiança que certamente gerará uma leitura agradável e de fluidez pautada pelo fluxo de emoções experimentadas pelos personagens. Diferente dos garotos perdidos companheiros de Peter Pan, os personagens de Maurício encontraram, nas mãos dos irmãos Caffagi, uma boa morada e um laço de apoio fraternal difícil de encontrar na indústria de quadrinhos, à exceção de poucos casos como os dos gêmeos paulistanos Fábio Moon e Gabriel Bá, e dos irmãos norte-americanos Adam e Andrew Kubert.

A leitura, afinal, é altamente recomendada, e o título tende a ser um dos mais vendidos do ano, uma vez que, ainda em seu segundo mês disponível nas bancas e livrarias, já se encontra na segunda tiragem.

NOTA GERAL: 5 ESTRELAS.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Nova Cruzada Impressa

Por Gabriel Guimarães

 
Iniciado em 2003, o grupo Kaplan surgiu do desejo dos quadrinistas mineiros Alex D'Ates e Gio Vieira Rocha de terem seu trabalho reconhecido e expandido país e mundo afora. Com o passar dos anos, o projeto avançou, tomou rumos diversificados e apresentou uma proposta inovadora para o quadrinho nacional de então, sendo responsável pelo lançamento da primeira história produzida para iPhone no Brasil, em 2009.
 
Em abril de 2012, o grupo, que vinha produzindo a série de webcomics "Mercenary Crusade", alcançou um novo patamar, expandindo o universo de seus personagens para um jogo de cards colecionáveis produzidos mediante financiamento colaborativo no site Catarse (o qual fizemos a cobertura aqui no blog). Observando a repercussão positiva de sua primeira empreitada neste esquema de participação dos leitores nas etapas de estruturação dos seus materiais, o grupo Kaplan decidiu agora dar o passo seguinte, trazendo a proposta da primeira revista impressa protagonizada pelos personagens Málef e Ryaad, que ocupam o papel de destaque nas histórias em quadrinhos feitas por ele até então.
 
Exemplo de card produzido no último projeto
do grupo Kaplan
Alguns dos cenários em que se
passam as aventuras de Málef e Ryaad
Com o objetivo de conquistar novos leitores e ainda agregar conteúdo ao seu universo de histórias preexistente, a revista "Contos de Mercenary Crusade" contará com uma aventura inédita em 50 páginas coloridas e acabamento no formato clássico das edições da editora Abril, em A5. Observando o sucesso que teve com a última proposta, o grupo optou novamente pelo financiamento colaborativo a fim de integrar o público com o material que está sendo produzido. Mediante a colaboração particular do leitor, este ainda pode vir a receber outros itens disponibilizados pelos autores, que vão desde ilustrações originais e pôsteres, até a cópia digital da revista. Para aqueles que tiverem interesse em conferir a nova empreitada do grupo Kaplan, o site do projeto pode ser conferido neste link.
 
O projeto teve início no começo deste mês de julho e vai ter conclusão no final de agosto. Enquanto isso, o site do grupo, Kaplan Project Comics, continuará a apresentar o quarto capítulo da sua série, que pode ser conferido aqui. Desde novembro de 2009 no ar, o site pode retirar quaisquer dúvidas e é um portal interessante para conferir o conteúdo da Kaplan. O grupo possui, ainda, uma página no Facebook, que pode ser conferida aqui

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Saúde de Aço

Por Gabriel Guimarães


Existe, no campo das histórias em quadrinhos, em especial àquele relativo ao universo dos super-heróis, uma imagem consideravelmente estabelecida de protagonistas fortes, talentosos e dotados de habilidades especiais que os tornam únicos, ao mesmo tempo em que semelhantes ao resto da população que os cerca. Com capacidade sobre-humana e dons provenientes da vasta imaginação dos roteiristas e autores, esses personagens travam batalhas e percorrem jornadas de grande dificuldade para se afirmarem enquanto indivíduos e conquistarem seu lugar de direito. Na vida real, porém, a linha que separa a ficção da fantasia não é tão tênue e tampouco os protagonistas são tão poderosos. Ainda assim, a mensagem transmitida pelas história ficcionais é capaz de exercer grande impacto na realidade de pessoas que necessitam de ajuda.
 
O mais recente caso dessa relação teve como cenário o hospital A. C. Camargo, em São Paulo. Inaugurado em 23 de abril de 1953 como um estabelecimento independente voltado para o tratamento de pessoas com câncer, o hospital recebeu seu nome em homenagem ao professor de medicina da USP, Antônio Cândido de Camargo, que, quase vinte anos antes, fora o responsável pela fundação da Associação Paulista de Combate ao Câncer (APCC). Com o passar do tempo, os tratamentos foram sendo aprimorados e adaptados à realidade dos pacientes, para que estes pudessem lidar com as dificuldades de sua doença. É por essa razão que o hospital firmou parceria com a agência de propaganda e publicidade JWT Brasil, a fim de viabilizar uma estratégia diferente de apresentar o processo da quimioterapia para crianças e jovens com câncer. Com apoio da DC comics, que disponibilizou os personagens de seu catálogo, o hospital desenvolveu a campanha "Super-fórmulas contra o Câncer". Apresentada em formato de uma história em quadrinhos, produzida especificamente para contextualizar a necessidade do soro hospitalar, as crianças tiveram a chance de compreender melhor a importância do tratamento que estavam fazendo e que, apesar de difícil, elas poderiam se recuperar em breve, tal qual seus heróis. O vídeo abaixo detalha melhor o projeto e o significado dessa parceria internacional por um tratamento melhor e mais atencioso aos jovens pacientes.
 



Geoff Johns, Diane Nelson e Jim Lee,
respectivamente, no lançamento da
campanha "We Can Be Heroes"
Outras campanhas no passado igualmente utilizaram personagens das editoras Marvel e DC para inspirar um maior cuidado contra doenças e perigos do mundo real. A proposta utilizada pela Associação de Luta Contra o Cancro (ALCC), de Moçambique, em parceria com a agência DDP Maputo, que utilizava as super-heroínas das duas editoras norte-americanas para a divulgação dos exames preventivos contra o câncer de mama é um exemplo forte disso. Com repercussão mundial em 2011, a campanha sensibilizou muitas pessoas e ganhou destaque nas redes sociais na época. Em 2012, a DC também organizou um outro projeto em parceria com organizações médicas internacionais para combater a fome na África, com atenção especial para a Etiópia, o Quênia e a Somália, com o título "We Can Be Heroes", cujo site pode ser acessado aqui. A campanha continua em atividade e conta também com a parceria do cantor Chris Daughtry, que relançou uma música especial para o projeto, chamada "Rescue Me". O vídeo com a introdução da versão acústica dela pode ser conferido abaixo.
 
 
 
 
Exemplo de cartilha protagonizada pela
"Turma do Xaxado"
O uso de personagens do universo dos quadrinhos como ferramenta de conscientização social e de recurso de inspiração para uma vida mais saudável, porém, não se restringe apenas ao campo dos super-heróis. Outros personagens da nona arte já figuraram campanhas de saúde e de mobilização social. A "Turma do Xaxado", do baiano Antônio Luiz Ramos Cedraz, participou este ano de cartilhas contra a proliferação do mosquito da dengue, e a "Turma da Mônica", do paulista Maurício de Sousa, esteve presente em campanhas ao longo de várias décadas para explicar aos seus leitores assuntos relativos à saúde e ao convívio social. O jornal "O DIA", inclusive, realizou uma entrevista com Maurício no último mês de fevereiro dando atenção especial ao tema, que pode ser conferida aqui.
 
De maneira menos politicamente correta, o assunto da saúde também já ganhou as páginas de diversas histórias em quadrinhos, que adquiriram um tom de testemunho pessoal e de compartilhamento de experiências. O quadrinista americano Harvey Pekar apresentou aos seus leitores uma maior conscientização sobre os efeitos do câncer na vida e mente de uma pessoa através de suas histórias autobiográficas "American Splendor" e "Our Year With Cancer". Na França, o autor Pierre-François Beauchard, mais conhecido por seu pseudônimo David B., apresentou em "Epilético", também uma obra autobiográfica de teor instrucional e pessoal, suas experiências com seu irmão que sofria de epilepsia. Na tira "A Vida com Logan", o autor paulista Flavio Soares apresenta detalhes de seu convívio com seu filho Logan, que tem síndrome de Down. As histórias dele já alcançaram muitas famílias que passam por situações parecidas e permitiram uma união maior de pessoas pelo bem estar de crianças com necessidades especiais. O site dele pode ser conferido aqui.
 
Exemplo de tirinha da "A Vida com Logan"

Portanto, o potencial das narrativas gráficas para a propagação de informações sobre questões de saúde é enorme, tal como seu poder de inspiração para ajudar pessoas a superarem obstáculos e alcançar objetivos cada vez maiores. É muito gratificante observar os efeitos dessas obras e atentar para a repercussão que estas têm para com o público, então, fica dado o convite para que você, leitor, possa estimular também aos outros e a si mesmo por uma vida melhor. Apenas juntos seremos capazes de cuidar de quem mais precisa.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Entrevista: Flávio Teixeira de Jesus

Por Gabriel Guimarães


Ao longo de mais de 23 anos, o roteirista Flávio Teixeira de Jesus tem desempenhado um papel de grande destaque no cenário brasileiro de histórias em quadrinhos. Responsável por uma grande quantidade de estórias publicadas nas revistas produzidas pelos estúdios MSP, desde aquelas da turma da Mônica até as peripécias do jovial Rolo ou as aventuras do fantasma Penadinho, Flávio tem ajudado a preencher sonhos e brincadeiras de leitores brasileiros de todas as idades.
 
Com um bom humor que é marca registrada de sua personalidade, Flávio inaugurou em 2011 seu próprio blog, o Aquarium Nerd, onde contou algumas de suas experiências na indústria de quadrinhos, com direito a fotos dos bastidores da construção do primeiro Parque da Mônica, em São Paulo. Mais presente nas redes sociais como Facebook e Twitter, porém, ele se tornou figura ilustre e sempre presente na timeline daqueles que acompanham as novidades da arte sequencial, com informações recém saídas na mídia e montagens de grande poder humorístico. A quem tiver interesse em segui-lo nestas duas redes, seu perfil pode ser acessado aqui e aqui, respectivamente.

QUADRINHOS PRA QUEM GOSTA - Qual foi seu primeiro contato com as histórias em quadrinhos? Qual o papel que elas tiveram na sua formação?

 
Flávio Teixeira de Jesus - Acredito que o meu primeiro contato com quadrinhos foi realmente com a própria Turma da Mônica, no jornal "Folhinha de São Paulo". Ali, eu via as historinhas dos personagens de Maurício e aquilo foi me instigando até o ponto de começar a pedir cadernos de desenho pros meus pais. Uma vez em mãos, eu não conseguia parar mais de desenhar, criar histórias. Eu digo que toda criança desenha mas, em algum ponto da sua vida, muitas acabam parando, se interessando por outras coisas. Quem não para, começa a desenhar em papel de pão, na parte de trás dos blocos de nota fiscal do pai, entre muitas outras possibilidades. Ou seja, ainda que isso não seja necessariamente determinante, acaba proporcionando grandes chances de a criança vir a se tornar artista de quadrinhos no futuro. (risos)
 
A Folhinha de São Paulo me instigou tanto na minha formação que, em 1975, quando ainda tinha 7 anos de idade (curiosamente a idade dos personagens que tanto me fascinava, olha só), resolvi fazer um desenho pra uma sessão chamada "FUTURO ARTISTA". Era uma historinha de 4 quadrinhos de um personagem meu, chamado Pirata Azarado. Mal sabia eu que, 15 anos depois, eu seria um artista da turma da Mônica.
 
Você lembra em que momento da sua vida você tomou a decisão de ser roteirista de quadrinhos e o que o levou a isso? Se sim, qual foi?

Na verdade, eu sempre quis ser desenhista, mas sempre usei minha criatividade criando histórias, personagens, jogos... Só não sabia que existia uma profissão específica para essa etapa de criação, chamada "roteirista". Eu comecei trabalhando com desenhos de estampas pra camisetas, depois fui para um grande estúdio de animação, fazendo clean-up e storyboard. Até então, não trabalhei em nada relativo aos roteiros. Com o Plano Collor, entretanto, fui mandado embora do emprego que tinha na época, e um grande amigo meu, Marcos Félix, me indicou para ir fazer um teste na Mauricio de Sousa Produções, pois achava que eu tinha bastante criatividade e lá seria o melhor lugar para mim. Segui o seu conselho, mas tentei a área de animação do MSP. O Kanton, outro profissional que trabalhava lá, viu meu material e falou que eu devia tentar me candidatar para o setor de roteiro. E assim eu fiz. Preparei várias páginas e um dia o Mauricio em pessoa me chamou e lançou o desafio de fazer 60 paginas aprovadas por mês. Eu topei e, conforme mais eu ia criando, mais feliz ficava, pois tinha encontrado meu propósito. Era isso que eu queria desde o começo, mas não sabia o nome: Roteiro. Eu me encontrei na profissão e me sinto, hoje, um grande privilegiado.
 
Quando tomou essa decisão profissional, encontrou alguma resistência (familiar, dos amigos, de uma namorada, de si mesmo...)?
 
Na verdade não. Meus pais sempre foram um grande suporte pra mim, aliás, toda minha família sempre me incentivou (e ainda incentiva, comemora junto e torce por mim), o que é muito bom, revigorante, maravilhoso e essencial.
 
Você trabalha há mais de vinte anos no estúdio de quadrinhos mais prestigiado do país. Como você se sente fazendo parte disso tudo? Como é o seu cotidiano lá?
 
Fazendo parte dessa grande história, eu me sinto extremamente honrado e muito feliz por contribuir um pouco com ela. Eu me sinto muito realizado em poder fazer algo que amo e sou muito dedicado no que eu faço. Essas emoções passam para o meu trabalho e acho que passam para o público também! Esse retorno que tenho com os fãs da turma da Mônica não tem preço e só me faz ter a certeza de que estou no caminho certo. Tudo isso só me dá forças pra melhorar cada vez mais e mais!
Quanto ao meu cotidiano, ele é composto de muita pesquisa antes de começar um roteiro. Se é de uma paródia de um filme ou um livro, tenho que ler, rever, fazer anotações. Depois, sento e começo a ver como aquilo se encaixa no universo da Mônica com os cuidados que devo ter. Então, vem a parte gostosa de escrever, soltar a imaginação, procurar referências nerds (que quase sempre ponho em minhas histórias) e, uma vez concluída essa etapa, com tudo preparado com início, meio e fim, tem início a revisão, que passa a limpo o material. Admito que, com essa revisão, acaba surgindo novas mudanças, em função de novas ideias, o que gera uma nova revisão e assim por diante. (risos) Daí, quando tudo acaba, vai para a mesa do Mauricio e, quando aprovada, começa meu desafio com os desenhistas e o resto da galera, porque sou exigente com o material. Assumo que sou chato com relação ao meu trabalho, para que tudo saia o mais perfeito possível.
 
Você é sempre reconhecido por sua vasta bagagem de cultura popular, que você constantemente transmite para suas histórias. De onde veio essa sua característica particular?
 
Isso é bastante interessante. Veio com o tempo, acho. Eu sempre curti essa coisa de cultura nerd. Com o tempo, fui colocando mais nas histórias que escrevia. A saga da "Tina e os Caçadores de Enigma", tinha bastante disso e o legal é que, no fim das revistas, vinham algumas explicações de onde estavam essas referências. Hoje, coloco muito em algumas historias da série "Clássicos do Cinema" e os leitores atentos já identificam. Até aqueles que não conhecem, acabam ficando instigados a procurar mais sobre aquilo na internet, o que é maravilhoso.
 
Há algum personagem específico com o qual você prefira trabalhar?

Complicado isso! Eu sempre digo que, se o Mauricio é o Pai, eu sou um padrinho zeloso de todos! Começaram até a  brincar aqui no MSP, me chamando de Poderoso Padrinhão (risos). Mas o fato é que tenho bastante carinho pelo quarteto extraordinário (Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali) e um especial também pela Dona Morte (minha primeira historia que saiu foi com ela). Por isso, fica a dica para prestar uma atenção especial nela, que sempre que posso eu a coloco fazendo uma participação especial. Ultimamente, tenho brincado muito também com o Louco, o Xaveco e o Bugu .


Quadrinho da história produzida por Flávio para o álbum
"Ouro da Casa MSP", publicado ano passado
Você já se tornou parte do universo de personagens do MSP como primo do Rolo há vários anos. Como é a experiência de ser imortalizado nas páginas da turma da Mônica?

Nossa, deu até um frio na espinha quando você falou "imortalizado". Eu nunca pensei assim, aliás, nem achava que as pessoas lembravam do primo Flavio que o Rolo tinha. Aquilo foi uma brincadeira do Robson (um dos mais antigos roteiristas da casa) e que rendeu algumas historias. Eu mesmo fiz uma comigo mesmo, o que é estranho! (risos) Esse tipo de brincadeira é comum por aqui. O João, outro roteirista dos estúdios, me transformou num Pokémon certa vez, e até eu mesmo já me fiz numa versão cachorro. Na verdade, nós, roteiristas, quando não aparecemos assim, acabamos até fazendo uma ponta como nós mesmos. Fico realmente feliz de fazer parte deste universo tanto do lado de fora quanto de dentro da revista. É uma honra. 
 
 
Você esteve bastante ligado ao projeto do Parque da Mônica, certo? Como foi isso? Que papel você desempenhou nessa grande etapa da consolidação da marca Mônica dentro do Brasil?
 
Sim, fiz parte do time criativo que criou os parques de São Paulo, Curitiba e Rio de Janeiro. Fui chamado com o Robson para criarmos juntos com Mauricio e Alice o conceito do Parque da Mônica. Eram varias reuniões desenvolvendo as áreas temáticas de acordo com os personagens e as limitações técnicas que eram impostas pelos engenheiros. Íamos visitar os estúdios que faziam os moldes do carrossel e dar consultoria técnica. Foi uma época agitada e bem divertida. Aquilo depois se estendeu e se desdobrou com as revistas, as peças temáticas, além de shows e desenvolvimento de cartazes e produtos relacionados. Foi uma experiência magnífica e um grande aprendizado.
 
Você é um ferrenho usuário das redes sociais para interagir com seus fãs. Como você vê a internet e as redes sociais na nova estrutura editorial das HQs? A sua experiência nesse sentido tem sido positiva?

A interação com os fãs é sempre maravilhosa e podemos ver o que funciona e o que precisa ser corrigido, ou até mesmo mudado. A internet é uma ferramenta poderosa. Acho o contato com a internet sempre benéfico, desde que se saiba utilizá-lo. É uma questão de saber usufruir sem se tornar escravo dela. A internet é como uma ótima biblioteca de referência, de conhecimento e de debates. É preciso ter discernimento, cautela e respeito. Editorialmente, é muito boa também, pois você sente o público e o mercado com que você está lidando, além de saber o que acontece em outros mercados do planeta e o que pode ser tendência. Como disse, é uma ferramenta poderosa: basta saber usá-la e usufruir com respeito.
 
Para finalizar, quais são os planos do estúdio MSP para homenagear a Mônica neste ano em que ela completa 50 anos? Há algum projeto em desenvolvimento que você possa compartilhar conosco?

Este ano será o ano da Mônica. Já estamos desenvolvendo isso há algum tempo com várias ações que acontecerão ao longo do ano. Nunca foi feito um planejamento assim neste nível antes na empresa, por ser algo grandioso mesmo. Projetos? Sim, temos vários, mas, como você sabe, não posso falar nada ou me arrisco a levar uma coelhada, entende? (risos)

sábado, 6 de abril de 2013

100 Aventuras de Uma Criminóloga

Por Gabriel Guimarães

 
Capa da centésima edição de "J. Kendall -
Aventuras de Uma Criminóloga"
A editora Mythos lançou recentemente aqui no Brasil a 100ª edição da revista mensal "J. Kendall - Aventuras de Uma Criminóloga", que narra as investigações da perita em psicologia criminal Julia Kendal em casos onde colabora com a polícia de Garden City, em Nova York. Criada pelo italiano Giancarlo Berardi em outubro de 1998, a personagem ganhou grande destaque no acervo da editora italiana Bonelli ao longo da última década. Sempre mostrando o cotidiano de uma personagem feminina segura, inteligente e perspicaz, as história de Júlia ganharam leitores de ambos os sexos em vários países ao redor do mundo, quebrando muitos paradigmas que existiam na indústria e estabelecendo um novo rosto para a luta da maior participação da mulher nos ambientes de trabalho normalmente ocupados apenas por homens. Este rosto, entretanto, não é algo inteiramente novo.
 
Capa da primeira edição da
personagem no Brasil
Inspirada fisionomicamente na atriz Audrey Hepburn, Júlia possui traços delicados que contrastam dos ambientes obscuros e carrancudos nos quais a maior parte de seus casos acontece. Munida de uma vasta bagagem intelectual, porém, ela supera os obstáculos que cada caso lhe apresenta e evolui, crescendo em seu papel tanto dentro da delegacia quanto dentro da universidade onde dá aulas. Sempre aconselhada por sua amiga Emily, cuja aparência também é inspirada em outra atriz norte-americana, Whoopie Goldberg, Júlia também experimenta incertezas quanto à sua vida pessoal e familiar, que ajudam os leitores e leitoras a se relacionar mais profundamente com ela, ao mesmo tempo em que se veem instigados pelos mistérios e enigmas que a protagonista precisa desvendar.
 
Uma das edições especiais da série
A mais ferrenha, porém, das lutas travadas por Júlia se deu nos bastidores brasileiros de sua publicação. Lançada em novembro de 2004 nas terras tupiniquins com muita pompa junto ao público aficionado da arte sequencial mundial, após apenas quatro edições, a revista teve que passar por sua primeira grande mudança, trocando seu nome de "Júlia - Aventuras de Uma Criminóloga" para "J. Kendall - Aventuras de Uma Criminóloga", por questões relacionadas aos direitos autorais atrelados à editora Nova Cultural quanto ao uso desse particular nome feminino no título de seus romances de linha. Alguns anos depois, em julho de 2010, a série enfrentou um outro problema que quase cancelou sua publicação definitivamente: o baixo número de vendas. Após o anúncio oficial de que a série sofreria uma interrupção para planejamento editorial, o alvoroço dos leitores nas redes sociais e em fóruns de discussão sobre a nona arte acabou chamando a atenção dos editores responsáveis pela revista, que lhe deram mais quatro edições de sobrevida para ver se o rendimento mudaria. Conforme as edições foram sendo lançadas, as vendas cresceram e a série conseguiu se firmar como publicação fixa da Mythos desde então. Hoje, cerca de 30 edições depois da época mais sombria que a personagem precisou encarar, é um grande prazer observar o sucesso dos mistérios criados por Berardi, que chegaram até a ganhar 5 edições especiais além do modelo mensal.
 
 
Publicada desde seu início no formato 13,5cm x 17,5cm, a série manteve sempre seu rendimento em termos de qualidade de traço e quantidade de páginas, fixada em 132, atraindo novos leitores e expandindo a experiência dos grandes fumetti italianos no Brasil. A qualidade do papel, que se assemelha ao utilizado no país pelos principais jornais em circulação, nem sempre consegue fazer justiça ao conteúdo que é usado para transmitir, mas o cuidado com erros gráficos tem crescido nos últimos anos e gerdo bons resultados. Júlia, junto do aventureiro Ken Parker, representa a grande contribuição de Berardi para o universo dos quadrinhos, e somos todos muito gratos por esse legado. Que venham sempre mais mistérios e emoções pela frente.
 
A quem tiver interesse, o site Universo HQ destacou também o feito da criminóloga dos quadrinhos, comentando, inclusive, os planos da editora Mythos para o futuro da publicação, que ainda não são exatamente ideias para a revista, mas que podemos esperar na torcida que a situação da editora melhore. A matéria em questão pode ser conferida aqui.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

A Gênese de um Nêmese

Por Gabriel Guimarães


Pouco mais de um mês atrás, a editora Panini publicou aqui no Brasil a história em quadrinhos "Nêmesis", lançada em 2011 nos Estados Unidos pela dupla Mark Millar (roteiro) e Steve McNiven (desenho). Criada a partir da seguinte questão "O que aconteceria se existisse alguém inteligente e com recursos infindáveis, como o Batman, mas com a mentalidade deturpada de alguém como o Coringa?", a história gira em torno das ações desse personagem hipotético, em sua encruzilhada para destruir policiais considerados exemplares ao redor do mundo inteiro.
 
Capa da edição da Panini
Iniciando sua jornada no Japão, com uma prévia do seu estilo de planejamento, Nêmesis deixa Tóquio em uma situação extremamente caótica antes de rumar para os Estados Unidos para atacar o chefe policial Blake Morrow, futuro candidato a secretário de defesa. A trama se desenrola adquirindo um tom brutal cheio de adrenalina, conforme o criminoso ameaça e ataca Morrow tanto física quanto psicologicamente. Com um humor ácido e várias sequências de muito envolvimento visual, a história proporciona um suspense de grande qualidade para o leitor, prendendo-o da primeira à última página.
 
Entretanto, há determinadas características da trama que merecem ser analisadas de forma mais particular. A completa ausência de limites no que tange ao valor descartável das vidas humanas e a falta de profundidade nos personagens envolvidos na história acabam pesando bastante contra o universo proposto por Millar e McNiven. A dupla, outrora criadora de histórias memoráveis como o arco "Guerra Civil", protagonizado pelos principais personagens da editora Marvel, e a saga "Oldman Logan", que apresenta um futuro devastado que precisa ser corrigido pelo personagem Wolverine, da mesma editora; não consegue repetir o mesmo nível de sucesso em sua nova empreitada. O posto de protagonista oscila tanto entre o policial e o criminoso que torna difícil se identificar com qualquer um dos dois, ainda que a evolução da história torne o leitor bastante sensível ao drama vivenciado por determinados personagens.
 
A personalidade do Nêmesis, porém, se caracteriza como o grande elemento da história em si. Com uma visão radical sobre a moral universal, a qual não é, de certo modo, justificada em alguns momentos da trama, o sadismo do personagem se destaca como a principal semente de seu caráter duvidoso. Dessa forma, o vilão se qualifica junto a outros vilões e anti-heróis admirados pelo público, como Lobo, da DC Comics, Deadpool, da Marvel, e o Juiz Dredd, da britânica Rebellion Developments, como parte do catálogo de personagens que podem ser encontrados nas páginas de revistas em quadrinhos ao redor do planeta.

Blake Morrow enfrentando Nêmesis

A história também representa uma estratégia recorrente de Millar. Como ele fizera com outras histórias suas, como "Kick-Ass", o roteirista vendeu os direitos de adaptação para o cinema antes mesmo de o material final ser publicado. "Nêmesis" já tem confirmado até o momento a direção de Joe Carnaham, um dos responsáveis pela revitalização do "Esquadrão Classe A" nos cinemas, que trabalhará em cima de um roteiro que está em fase de produção a partir da história de Millar e McNiven. Dessa forma, a trama dos quadrinhos em si é mais como uma introdução ao universo que será apresentado de forma mais minuciosa na grande tela das salas de cinema. Algo similar ocorreu também com "R.E.D. - Aposentados e Perigosos", de Warren Ellis e Cully Hamner, que surgiu nos quadrinhos, ganhou mais substância no cinema e acabou ganhando o interesse do público.
 
O acabamento editorial de "Nêmesis", da editora Panini, vale também ser destacado. Parte da política recente da editora em lançar histórias de arco fechado em papel couché e capa dura, com preço moderado, a edição chama a atenção nas livrarias e pontos de venda, atraindo bastante o público que está começando sua jornada na leitura da arte sequencial. Fica apenas o alerta para o conteúdo adulto em termos de violência empregados na história, detalhadamente desenhado por McNiven. A experiência apresentada em "Nêmesis", portanto, é algo válido de ser conferido, dadas as devidas condições em que a obra se sustenta, sendo, dessa forma, recomendável para públicos de estômago mais forte e de boa compreensão da divisão entre a ficção e a realidade.
 
NOTA GERAL: 1,5 ESTRELAS.