domingo, 30 de dezembro de 2012

Recomendações e Conclusões de 2012

Por Gabriel Guimarães


Ainda que nossas atividades do blog tenham sido restringidas ao longo deste final de ano por questões técnicas e de cronograma, a publicação de histórias em quadrinhos continuou em ritmo acelerado, tal qual acontecera no resto do ano todo. A fim de apresentar obras que se destacaram e que talvez vocês, leitores, talvez não tenham tomado conhecimento, selecionamos uma lista de edições publicadas neste ano de 2012 que mereceram nossa recomendação. Para evitar uma ordem de valorização entre as obras que compõem  nossa lista, não a organizamos numa estrutura de qualidade, mas de uma forma que ela possa ser compreendida por todos de acordo com seu potencial de interesse. Para aproveitar nossa retrospectiva das publicações em quadrinhos de 2012, optamos por acrescentar os comentários sobre o que este ano representou para o meio em si e para nossa realidade brasileira, em particular, a carioca.

O ano começou bastante promissor para a arte sequencial, com a publicação da graphic novel iraniana "Paraíso de Zahra", produzida pela dupla Amir e Khalil, acerca do desaparecimento do irmão do jovem protagonista durante os movimentos estudantis contra as decisões do governo do Irã. De teor dramático e qualidade narrativa precisa, a história emociona e denuncia as barbaridades que muitas pessoas inocentes vivem em meio aos jogos de guerra travados pelos governantes e suas ferramentas sociais. De igual característica expositiva, a história americana "The Silence of Our Friends", do trio Mark Long, Jim Demonakos e Nate Powell, foi lançada no mercado americano, retratando o duro período da batalha pelos direitos civis dos cidadãos afro-descendentes numa comunidade do Texas, nos Estados Unidos. Com relação à primeira publicação citada, vale destacar a triste confirmação do cancelamento do selo editorial Barba Negra, por falta de interesse da editora Leya em manter parceria. Durante seus três anos de funcionamento, o selo dirigido pelo editor Lobo foi de grande importância para a expansão da nova geração de quadrinistas nacionais, sendo responsável por muitos títulos brasileiros, além de outros tantos de qualidade inquestionável provenientes dos mais diversos países.

Na contramão desse triste desinteresse por parte da editora Leya, outras editoras continuaram e até expandiram sua participação no cenário brasileiro de histórias em quadrinhos. É impossível deixar de mencionar as editoras Nemo e L&PM neste caso. A primeira continuou publicando a "Coleção Moebius", com títulos bastante aguardados pelos fãs do artista francês Jean Giroud, que faleceu este ano (fato este que foi comentado aqui no blog), além de expandir o universo do marinheiro Corto Maltese, criado pelo italiano Hugo Pratt, com volumes que até então não haviam sido publicados nas terras tupiniquins, e organizar o material do francês Enki Bilal, com a "Trilogia Nikopol". A produção de clássicos da literatura com a mão de artistas nacionais, como "20.000 Léguas Submarinas", adaptada por João Marcos e Will, também esteve em alta no ano e tornou a editora parte do grupo Autêntica uma das mais atuantes ao longo do ano. A L&PM, que teve sua origem na publicação de tirinhas, foi outra editora que também ganhou muito destaque em 2012, com as duas edições de "Simon's Cat" feitas por Simon Toefeld e publicadas no segundo semestre deste ano, cuja temática tem claras influências no felino protagonista de Jim Davies, Garfield; além do segundo volume da HQ marfinense "Aya de Yopougon", de Marguerite Abouet e Clément Oubrerie, que dá continuidade à história iniciada em 2009 sobre um trio de mulheres africanas e seu cotidiano; e continuou com o excelente trabalho realizado em parceria com a UNICEF para a adaptação de clássicos da literatura como "Mil e Uma Noites", "Guerra e Paz" e "Os Miseráveis" para a nona arte.

Editoras como a GAL e a Companhia das Letras também continuaram com um alto número de publicações de qualidade. A primeira publicou a conclusão da série "Fracasso de Público", de Alex Robinson, que conta a história de aspirantes e profissionais dos quadrinhos e suas jornadas diárias de trabalho e amadurecimento, além de começar a republicar a obra "Love Rockets", de Jaime Hernandez, que fez muito sucesso na década de 1980, e a primeira parte da história "Nação Fora da Lei", de Jamie Delano, Goran Sudzuka e Goran Parlov. O selo de quadrinhos da segunda, a Quadrinhos na Cia., também manteve a diversidade em sua produção, indo desde a esperada segunda graphic novel do americano Craig Thompson, centrada no mundo cultural dos muçulmanos, "Habibi", até a nacional "Máquina de Goldberg", de Fido Nesti e Vanessa Barbara, passando pela elogiadíssima compilação da obra "Diomedes", do brasileiro Lourenço Mutarelli, a biografia em quadrinhos do psicólogo austríaco Sigmund Freud, entitulada apenas "FREUD", da dupla francesa Anne Simon e Corinne Maier e a belíssimamente trabalhada história "Monstros", do chargista Gustavo Duarte.

Apesar de tantas obras terem sido lançadas por estas duas editoras, a Panini, porém, talvez tenha sido a editora responsável pelo maior número de quadrinhos publicados este ano. Responsável pelas histórias da Marvel e da DC, este ano foi um ano de suma importância para a realidade da editora no Brasil. Repetindo o que foi feito nos Estados Unidos quando ocorreu o reboot do universo da DC, ocorreu a zeragem dos títulos publicados aqui, além da mudança na lista de edições disponíveis. No selo Vertigo da editora americana para quadrinhos adultos, a Panini lançou a história de mistério, ficção e questionamento existencialista "O Inescrito", que vale a pena ser conferido, além da republicação dos, então esgotados, primeiros volumes da premiada história "Fábulas", de Bill Willingham, que permanece em alta com o público e a crítica. Para a Casa das Ideias, a editora relançou de forma completa em seis volumes uma das mais populares sagas dos heróis mutantes desse universo em "X-men: Era do Apocalipse", além de ter publicado o segundo arco da saga de futuro alternativo para todos os personagens da editora, "Universo X", de Jim Krueger, Doug Braithwaite e Alex Ross, cuja primeira parte havia sido lançada ainda em 2009. Outra saga que a Panini deu continuidade este ano foi com o maior grupo de heróis do versão Ultimate do universo Marvel, com "Os Supremos 2", de Mark Millar e Brian Hitch, que, apesar de não terem o mesmo nível de aproveitamento da primeira saga dos personagens, em termos de conteúdo, ainda apresentam uma boa narrativa, em sintonia com o filme dos Vingadores lançado no cinema em abril deste ano.

A Panini, entretanto, não se limitou apenas aos lançamentos internacionais, sendo a responsável pela publicação de títulos como o "Ouro da Casa MSP", coletânea no estilo da trilogia MSP organizada pelo editor paulista Sidney Gusman com artistas brasileiros utilizando os personagens do padrinho dos quadrinhos brasileiros, Maurício de Sousa (que já foi comentada aqui no blog), o que também inspirou a  série "Graphic MSP", iniciada este ano com "Astronauta: Magnetar", feita pelo desenhista Danilo Beyruth. Dentro da série da "Turma da Mônica Jovem", a Panini ainda publicou duas sagas que chamaram a atenção de leitores e admiradores dos quadrinhos em todo o país. No primeiro semestre, aconteceu o tão aguardado crossover entre os personagens da turma da Mônica e os protagonistas das aventuras do universo do quadrinista japonês Osamu Tezuka. Ambientada na selva amazônica, a história promoveu a importância da ecologia e permitiu, de vez, unir o trabalho de dois valiosos quadrinistas que foram grandes mestres para o meio e grandes amigos entre si (esse marco foi comentado aqui no blog). Em outubro, foi a vez de outro evento aguardado ganhar as páginas, com uma visão do futuro sobre o casamento da Mônica e do Cebolinha (cujo evento de lançamento no Rio de Janeiro foi coberto aqui no blog).

A editora Devir foi outra a participar do ano dos quadrinhos, lançando "The Spirit - Mais Aventuras", segundo volume em homenagem a um dos pioneiros da arte sequencial, o americano Will Eisner, o segundo volume da série brasileira produzida em parceria com o ProAC, "Jambocks! 2", de Celso Menezes e Felipe Massafera, sobre a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial, a conclusão das histórias dos personagens literários reunidos por Alan Moore e Kevin O'Neill, em "Liga Extraordinária 2009", além do livro "Revolução do Gibi", que apresenta em forma impressa uma grande quantidade de postagens do Blog dos Quadrinhos, organizado pelo professor de Letras na USP, Paulo Ramos.

Adaptação da Bíblia para história em quadrinhos

"20th Century Boys", de Naoki Urasawa,
começou a ser publicado em 2012



Outros títulos que merecem destaque são "Mas Ainda Podemos Continuar Amigos", do alemão Mawil, publicado pela editora Zarabatana, sobre os percalços do autor na procura por um relacionamento amoroso; "Valente para Todas", segunda coletânea de tiras do talentoso desenhista mineiro Vitor Cafaggi (que já foi tema de matéria aqui), publicada de forma independente; A  edição de luxo com histórias clássicas do bárbaro mais famoso dos quadrinhos, "Conan, O Libertador - Edição Histórica", pela editora Mythos; O polêmico livro de análise do universo dos super-heróis sob a ótica mitológica, escrito pelo roteirista Grant Morrison, "Superdeuses", pela editora Seoman; A visceral ficção com referências ao escritor chinês Sin Tzu e sua principal obra, "A Arte da Guerra", feita pela dupla de primeira viagem Kelly Roman e Michael DeWeese (para o qual, realizamos um review para o site Universo HQ, que pode ser conferido aqui), publicada pela editora BestSeller, parte do grupo Record; A adaptação do livro que deu origem ao cristianismo, feita de forma atenta e cuidadosamente bela pelo brasileiro Sergio Carielo, "Bíblia em Ação - A História da Salvação do Mundo", de mais de 300 páginas, publicadas pela editora Geographica; A nova série de mangá "20th Century Boys", de Naoki Urazawa, publicado pela já destacada editora Panini, sobre uma conspiração de dominação do mundo que tem origem na infância dos protagonistas da história, que já chegou até a virar filme no Japão; "Face Oculta", do italiano Gianfranco Manfredi e do desenhista já citado Goran Parlov, publicado também pela Panini, cujo enredo se desenrola nas colônias italianas do Século XIX; O livro de homenagem à exposição realizada em 1951 com a indústria de quadrinhos como tema, "A Reinvenção dos Quadrinhos - Quando o Gibi Passou de Réu a Herói", escrito e vivido por Alvaro de Moya, publicado pela editora Criativo; E a primeira graphic novel produzida pelo site Jovem Nerd de forma autoral, "Independência ou Mortos", com uma visão diferente do momento de independência do Brasil soba ótica da cultura de terror dos filmes de mortos-vivos, feita por Fábio Yabu e Harald Stricker.

"Independência ou Mortos", de Fábio Yabu e Harald Stricker
Fora do Brasil, também foram lançados materiais que merecem destaque, tais como a edição de luxo em homenagem a um dos pioneiros do quadrinho underground, "The Art of Harvey Kurtzman", escrito por Denis Kitchen e Paul Buhle e publicado pela editora Harry N. Abrams, Inc.; A biografia do matemático Richard Feynman, feita em quadrinhos pela dupla Jim Ottaviani e Leland Myrick sob o título simples de "Feynman"; E o mais recente trabalho do americano Joe Sacco, "Journalism", que é composto de uma série de pequenas histórias de coberturas jornalísticas realizadas pelo autor ao redor do mundo todo. Estes dois últimos foram publicados pelas editoras First Second e Metropolitan Books, respectivamente.

Não propriamente contando como publicações novas, dois títulos acabaram ganhando destaque por uma razão diferente. A editora HQM decidiu lançar a partir deste ano as edições avulsas de "The Walking Dead" de regularidade mensal, além de manter sua tradicional publicação no formato graphic novel, a fim de explorar todos os nichos de mercado que estão sendo afetados pela alta popularidade da versão televisiva do quadrinho feito pelo americano Robert Kirkman. Enquanto isso, a editora Europa deu uma grande notícia para os fãs de quadrinhos, ao tornar sua revista "Mundo dos Super-Heróis" uma publicação mensal, suprindo, dessa forma, a crescente demanda que o mercado vem apresentando.

Em suma, o ano de 2012 teve uma quantidade realmente incrível de publicações valiosas apresentadas em forma de arte sequencial ou sobre esta, e nós, leitores, ganhamos muito com isso. Ganhamos histórias de vida, modelos de comportamento, qualidade de conteúdo para divulgarmos e novos meios pelo qual interagirmos recorrendo às nossas mais intrínsecas emoções. 2012, todavia, não foi perfeito. Perdemos grandes nomes que marcaram nossas vidas com seus trabalhos, como Joe Kubert (fato que foi comentada aqui no blog), Keiji Nakazawa e até o já citado Moebius. A organização do maior evento internacional de quadrinhos do Rio de Janeiro encontrou problemas para formar parcerias e deixou de ser realizado após dois anos de sua abertura. As histórias em quadrinhos brasileiras perderam uma grande marca que vinha se consolidando, o selo editorial Barba Negra, conforme já foi destacado no começo desta matéria.

Não nos concentremos, porém, nos pesares, mas inspiremos o máximo possível dos bons momentos deste ano que finda amanhã. Que os relacionamentos criados através dos quadrinhos possam se fortalecer, criando laços de amizade e cordialidade para durarem eternamente. Que possamos nos reunir no próximo ano para continuar nossas discussões sobre este meio que tanto nos apaixona e nos seduz, e no ano seguinte a esse, e no ano seguinte a esse, e assim por diante. Que vejamos esta arte crescer e assumir seu posto de direito dentro da cultura popular e erudita. Que possamos todos, afinal, ter um 2013 pleno de emoções e de quadrinhos, regados a muitas amizades fortalecidas e outras novas. Nos vemos lá!

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Quadrinhos em Cena

Por Gabriel Guimarães


Em "Quadrinhos, Sedução e Paixão", o estudioso dos quadrinhos Moacy Cirne destaca o potencial apaixonante inerente à narrativa criada pela estrutura de requadros que todas as histórias em quadrinhos dispõem, estando apenas limitadas à potencial habilidade daqueles envolvidos na sua composição. Destacando a sedução como uma arte de envolver o leitor, ele expande e analisa algumas outras mídias, criando pontes entre esses diferentes universos ficcionais. Dando destaque ao cinema, ele compara a atuação dos profissionais das grandes telas e a escolha de ponto de vista dos diretores às decisões editoriais que ficam a cargo de roteiristas e desenhistas talentosos. Cirne, porém, não aborda, ainda que fosse de teor plenamente compatível, a arte do teatro e sua semântica corporal com as obras gráfico-textuais que inundaram nosso consciente ao longo de mais de um século até agora.
 
Tendo sido talvez o grande meio de entretenimento das sociedades no período anterior à captura da imagem, o teatro é literalmente palco para grandes obras e grandes profissionais. O potencial de sua dramaticidade crua e sua metamorfose contínua acabam por tornar um pequeno segmento construído, em geral, de madeira, uma tela em branco para as mais mirabolantes aventuras e histórias. O romance e a poesia inerentes a esse processo permancem até os dias de hoje, servindo como instrumento de exposição social. Igualmente, os quadrinhos, que outrora representaram apenas uma arte semiótica básica, hoje possuem uma profundidade de destaque, o que leva a um interessante ponto de observação sobre essas duas formas de representação.
 
Adaptação de "Hamlet"
feita por Sam Hart
A arte que consagrou Shakespeare, hoje reconhece e engrandece ainda mais a obra de Eisner. Isso é um marco que merece e deve ser lembrado, tal qual a direção oposta dessa ocasião, que igualmente ocorre. Estes dois nomes são extremamente importantes nessa análise por terem uma natureza tão viva, ainda que estes dois consagrados profissionais já não mais estejam vivos. Shakespeare hoje é adaptado de forma constante para as histórias em quadrinhos, em graphic novels de qualidade variante, mas sempre de conteúdo rico. A sua obra "Hamlet", por exemplo, foi adaptada pelas mãos do desenhista inglês naturalizado brasileiro Sam Hart, e publicado em vários países ao redor do mundo por sua qualidade. Igualmente, o próprio Eisner prestou homenagem ao grande autor de peças em um pequeno exemplo narrativo dentro de sua obra máxima, "Quadrinhos e Arte Sequencial", que apresenta em dado momento um diálogo escrito por Shakespeare no telhado de um prédio decadente da grande metrópole, cenário tradicional do material de Eisner, por uma figura completamente inesperada, de um hippie, ao admirar o céu e o próprio espectador. Ademais, a editora Nemo, atualmente, tem publicado uma série de histórias shakespearianas em formato quadrinístico com grande qualidade de conteúdo e de material editorial.
 
Eisner foi um dos ainda poucos quadrinistas que conseguiram seguir o caminho oposto, e teve sua obra "Avenida Dropsie" adaptada para o palco das artes cênicas. Apresentada nos Estados Unidos e Brasil, a peça teve um retorno bastante positivo, ainda que sua temporada de apresentação tenha sido curta. Outros grandes nomes do meio também já passaram por essa transição, mas não da mesma forma. O roteirista britânico Chris Claremont, responsável por um dos períodos de maior sucesso nos quadrinhos dos "X-men", se formou em um curso de teatro originalmente, e trabalhou com esse setor em algumas escassas ocasiões, sem, porém, haver qualquer conexão com sua faceta quadrinística. Ainda assim, é com orgulho que podemos mencionar um trabalho brasileiro que seguiu o trajeto percorrido pela obra de Eisner. O desenhista paulistano Mário Cau, que participou de projetos como "MSP50", além de muitas outras publicações pelo selo do grupo de autores independentes "Quarto Mundo", teve, em 2011, sua história "Pieces" adaptada para o palco sob direção de Max Sawaya. Quem tiver o interesse de conferir como foi a performance do trabalho sobre a obra de Mário pode conferir em seu blog, que pode ser acessado aqui, e cuja primeira parte pode ser vista abaixo.



Outras obras, ainda, apresentam uma forma um tanto similar à metalinguagem sobre essas duas obras, como o quadrinho brasileiro independente "Ato 5", de autoria da dupla André Diniz e José Aguiar, que conta a história da composição de uma peça de teatro e seus percalços durante a ditadura militar no Rio de Janeiro.

Conforme destaca Cirne, "a arte que não sabe seduzir não leva à paixão, não leva à reflexão" e, portanto, não há como desconsiderar a capacidade e conexões entre essas duas formas de arte tão fundamentais e essenciais para o nosso cenário social atual. O teatro Oi Casa Grande, no Rio de Janeiro, tem incentivado essa relação com a exposição "Os Novos dos Quadrinhos Brasileiros", que estará em exibição até o dia 13 de dezembro e já foi conferido aqui no blog. Apesar de não apresentar uma interligação entre os dois meios propriamente dita, a apresentação serve para atrair um olhar mais atento para a arte dos quadrinhos por aqueles que estão mais acostumados às peças teatrais, e vale a pena ser conferida.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Exposição de Quadrinhos em Leblon

Por Gabriel Guimarães

 
Desde o dia 13 de agosto deste ano, no Teatro Oi Casa Grande, localizado praticamente em anexo ao Shopping Leblon, está sendo realizada a exposição "Os Novos dos Quadrinhos Brasileiros", pela curadoria da historiadora carioca Cristina Tepedino. Com páginas originais de grandes quadrinistas do mercado brasileiro, como os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, o proeminente João Montanaro e os cartunistas André Dahmer e Arnaldo Branco, a apresentação merece uma conferida dos amantes da arte sequencial.
 
Apesar de não possuir uma área muito ampla para apresentar o trabalho, a exposição expõe as obras com um cuidado especial em prol de sua preservação e permite um olhar abrangente sobre a nova face do quadrinho nacional. Apresentada no saguão de entrada do Teatro, a exposição ocupa dois corredores à direita de quem entra no recinto, com uma breve introdução apresentada na parede de entrada. Contando com uma pequena cafeteria ao fim da exposição, o clima é agradável e permite que o visitante possa observar pacientemente todos os quadros.
 
Para quem quiser aproveitar a viagem para um passeio pelo bairro do Leblon, fica a recomendação de visitar os dois shoppings próximos ao Teatro, com seus respectivas livrarias. Além do já citado Shopping Leblon, ao atravessar a rua, fica o shopping Rio Design, que dispõe de grande parte do quarteirão onde se localiza.
 
É extremamente animador ver mais eventos focados no trabalho com os quadrinhos nacionais e seus principais nomes atualmente. Ainda que não seja da mesma dimensão de uma convenção como a Rio Comicon (que foi coberta em suas duas edições aqui no blog e cuja ausência esse ano foi tema de matéria aqui também), este tipo de evento permite uma maior relação do público com o conteúdo vendido nas bancas e livrarias e torna a história transmitida através da arte gráfica algo mais humano e belo. Que este ano ainda possa nos reservar boas surpresas assim.
 
O público das peças e shows apresentados no Teatro tem a
chance de conhecer um pouco mais dos quadrinhos brasileiros atuais
O Teatro funciona a partir das 16h e a entrada é franca. A exposição permanecerá lá até o dia 13 de dezembro e possui o patrocínio dos Correios. Fica dada a recomendação.

sábado, 13 de outubro de 2012

Guerreiros da Amazônia na FNAC

Por Gabriel Guimarães


Aproveitando a empolgação do público infanto-juvenil com o dia das crianças, comemorado ontem, a livraria FNAC, do Barrashopping, realizou o evento de lançamento de dois novos volumes da história "Amazon - Guerreiros da Amazônia", feitos pelos cariocas Ronaldo Barcelos e Ronaldo Santana. Com uma apresentação convidativa e participantes fantasiados para uma performance das aventuras dos personagens que protagonizam os livros, o evento atraiu muitas famílias e teve ótima recepção.
 
A dupla de autores, Ronaldo Santana e Ronaldo Barcelos,
respectivamente, no estande de lançamento na Bienal do
Livro, de São Paulo, este ano
Com um estilo de contar histórias similar aos tradicionais quadrinhos de heróis, mas apresentado em formato textual com ilustrações ocasionais, a história foca em questões como a preservação da mata e a conservação das espécies habitantes da Amazônia brasileira, a fim de gerar maior conscientização no leitor do seu papel em meio ao habitat do qual faz parte. Inicialmente um projeto organizado em parceria com o site do jornal "O Globo", em 2000, os criadores produziram uma série de 21 episódios de animação, com 10 minigames disponibilizados à parte para os internautas. Em janeiro de 2008, as animações foram exibidas no portal Amazon Sat, com duração em torno de 15 minutos por episódio. Hoje, infelizmente, o site que continha esse conteúdo não está mais acessível, porém, os autores decidiram levar o projeto além em uma trilogia de livros que poderia dar maior profundidade à trama, que gira em torno dos personagens Cynthia, Kleyton e Allan, que vão para a Amazônia como prêmio por um concurso do qual tinham participado, mas que, lá, descobrem que sua viagem representa muito mais do que apenas um passeio pelo grande patrimônio natural brasileiro.
 
Promoção feita durante a Rio+20, neste ano, na estação
rodoviária do Rio de Janeiro
Em 2009, na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, a editora Litteris lançou o primeiro volume dessa trilogia, introduzindo os personagens a toda uma nova leva de leitores, a fim de educar os mais jovens quanto à importância de realizar um desenvolvimento sustentável nas capitais nacionais e a atenção que a natureza carece para poder ser preservada. O projeto, entretanto, sofreu atrasos e acabou mudando de casa editorial. Em 2011, a produtora RJR realizou uma nova edição do material escrito por Ronaldo Barcelos, acrescentando um glossário que auxiliasse no uso do material em sala de aula pelos professores, e deu uma nova dimensão aos desenhos de Ronaldo Santana, produzindo um novo layout e acrescentando novas ilustrações. Para reforçar o objetivo da obra, os organizadores ainda confeccionaram o livro a partir de companhias de política responsável com o meio ambiente.
 
Após tanto tempo, enfim, está sendo lançado o segundo volume da trilogia, além de um livro extra, com atividades educativas voltadas para o público dos 6 aos 14 anos. No novo livro, entram na história novos personagens, além de dar continuidade ao trabalho realizado pela dupla carioca. A livraria FNAC do Barrashopping recebeu muito bem a empreitada e conseguiu sediar um chamativo evento para uma melhor compreensão do papel ambiental na nossa sociedade brasileira, contando ainda com uma apresentação animada de um jovem grupo de dançarinas trajadas especificamente para o lançamento dos livros. O desenhista ainda esteve presente, também, no local, para autografar as edições adquiridas pelos muitos visitantes presentes, além de reforçar a ideia do projeto e dar mais ânimo a todos os pequenos leitores presentes.
 
O desenhista, Ronaldo Santana,
posa para foto com os alegres
visitantes que conferiram o
lançamento
Para o ano que vem, está previsto o lançamento do terceiro e último livro da série, sem, porém, com isso, dizer que as histórias dos personagens terão terminado. A RJR tem planos ainda de produzir além de uma série animada novamente com esses personagens, um filme de animação voltado para o cinema, mediante novas parcerias que podem vir a ser firmadas futuramente. O que podemos fazer, por enquanto, é desejar que tudo corra bem para a dupla de autores e para a produtora e aguardar, ansiosamente, que essa história possa representar um grande passo rumo a uma maior participação da própria mão de obra brasileira na constituição de conteúdo cultural a ser consumido pelo público brasileiro.
 
Para quem tiver interesse, a série de livros "Amazon - Os Guerreiros da Amazônia" possui um site próprio, que pode ser conferido aqui e uma página no Facebook, que pode ser acessada aqui. Uma matéria publicada na página virtual da revista "Época" com uma entrevista com o roteirista da série, que pode ser conferido aqui. O site "Overmundo" também produziu, em 2009, matéria sobre o andamento do projeto naquela época, porém, que acabou sofrendo mudanças ao longo do tempo. Ainda assim, é interessante conferir a matéria produzida, que pode ser conferida aqui. Outra produção feita para o projeto que vale a pena ser conferida pode ser encontrada no Youtube ou assistida, abaixo.

 

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Arrowsmith, ShockRockets e a Magia da Guerra

Por Gabriel Guimarães


No começo do Século XX, a humanidade testemunhou um período muito complicado, onde os conflitos internacionais ganhavam proporção antes inimaginável, afetando todos os habitantes do planeta de alguma forma, direta ou indiretamente. A partir desse momento, muitas editoras viram que o espírito nacional de seus países carecia de algo que lhes motivasse a continuar lutando. Artistas como Will Eisner, principal responsável pela publicação do título "P. S. Magazine", de 1951 a 1971, e Joe Kubert (que recebeu uma devida homenagem póstuma aqui no blog), eterno grande nome das histórias de guerra com o personagem Sgt. Rock, pela DC, dedicaram grande parte de suas carreiras à narrativa de eventos relacionados a esses desastres, procurando sempre focar no fato de que há uma maneira melhor de resolvermos nossas diferenças do que apenas empunhando armas e julgando os outros. Histórias como a graphic novel "VietSong", produzida pelo espanhol Manfred Sommer, com claras influências no trabalho do italiano Hugo Pratt, ainda abordavam uma humanização dos personagens envolvidos nos conflitos, trazendo à tona o que havia no mais interior de seus seres e de suas histórias de vida.
 
O Justiceiro surgiu
na editora Marvel
durante a década de 1970
como um veterano da
Guerra do Vietnã, para
demonstrar também os
efeitos desse conflito que
tanto abalou o mundo na forma
como os soldados eram vistos

A sequência de eventos catastróficos como as guerras acabaram afetando a percepção do indivíduo enquanto parte de uma sociedade, o que repercurtiu de forma estrutural na gestão do mercado editorial de quadrinhos, em especial, no norte-americano, ganhando desdobramentos extremamente importantes para a história do meio. Com a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, os personagens que serviriam para dar esperança às nações envolvidas não mais poderiam ser apenas meros mortais, precisando ter poderes maiores do que as limitações humanas permitiam, produzindo, dessa forma, a primeira geração de super-heróis, a partir do Superman, de Jerry Siegel e Joe Shuster, em 1938. Hoje, toda a indústria originada desta necessidade representa grande parte das vendas no mercado da arte sequencial como um todo, uma vez que as motivações dos personagens foram se adaptando aos novos tempos e novos conflitos socioculturais. Passando pelo conflito interno de igualdade entre as raças até batalhas perdidas e esperanças destruídas, como a Guerra do Vietnã e a revelação do horror dos campos de batalha, os quadrinhos de herói seguiram as deixas que a sociedade apresentava e, dessa forma, se tornaram referência para todas as gerações de leitores que surgiram posteriores à criação dos protagonistas das histórias em si. Vale destacar aqui também a história espetacular criada em 1985 pela dupla britânica Alan Moore e David Gibbons, "Watchmen", que leva o questionamento da guerra aos seus últimos estágios, abalando toda a estrutura da moralidade e da ética com que os heróis da sociedade sempre eram percebidos (essa obra já foi analisada uma vez no blog, o que pode ser conferido aqui).
 
Cena de "Paraíso de Zahra", que mostra a repressão
contra os movimentos estudantis, no Irã

Atualmente, continuamos sendo testemunhas de muitos conflitos no mundo, seja na recente Guerra do Iraque, nos problemas políticos dentro do Irã ou mesmo nos conflitos territoriais africanos. E as histórias em quadrinhos não deixaram de servir como meio para abordar o tema. A graphic novel "Paraíso de Zahra", de Amir e Khalil, pseudônimos dos verdadeiros autores, conta, por exemplo, a jornada de um jovem iraniano à procura de seu irmão, desaparecido em meio a uma manifestação popular numa das maiores praças do país. Os quadrinhos do repórter da nona arte, Joe Sacco, são óbvios exemplos disso também, basta observar a forma como conduz suas narrativas e o preciosismo que ele dispõe em cada informação coletada pessoalmente nas zonas abaladas pelas guerras, como a região de Sarajevo, Bósnia e na própria Palestina.
 
 
Há, porém, outra corrente na abordagem da guerra nas histórias em quadrinhos, que se constitui pela apresentação histórica ou fantasiosa acerca de como os eventos do passado se deram ou poderiam se dar, e seus respectivos reflexos na nossa sociedade nos dias de hoje. A história brasileira "Jambocks!" é um excelente caso, que se foca na participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Escrita pelo talentoso e afinco pesquisador Celso Menezes e cujos dois primeiros volumes foram desenhados pelo espetacular Felipe Massafera, a história apresenta bases muito bem fixadas nos eventos reais e dá ao leitor a oportunidade de compreender um pouco melhor a natureza de certos frutos dessa participação brasileira que até hoje são percebidos em nossa cultura, como o surgimento da música forró, a partir de comemorações realizadas entre o povo nordestino e os soldados norte-americanos nas bases e casas do estado do Rio Grande do Norte, enquanto os americanos ensinavam os brasileiros como utilizar de forma apropriada os aviões de guerra. Oriundo da expressão "for all", as músicas populares na região ganharam um contexto que viria a ser utilizado por todo um gênero de música popular, anos depois.
 
O jovem Fletcher Arrowsmith
observa atento os pôsteres sobre
as ameaças do outro lado do mundo
Entretanto, nossa matéria de hoje procura comentar acerca de duas obras em particular. Ainda que consistam de uma abordagem fantasiosa sobre um evento real e uma abordagem realista para um evento fantasioso, o teor de ambas demonstra raíz em toda a relação entre a guerra e os quadrinhos e, por conta disso, não poderia vir a ser apresentado sem a devida contextualização.
 
 
"Arrowsmith - A Guerra da Magia", produzida em 2003 pela dupla consagrada composta pelo roteirista Kurt Busiek e o desenhista mexicano Carlos Pacheco, e publicada aqui no Brasil em 2005, pela editora Devir, conta também a história da Primeira Guerra Mundial, porém, sob um prisma diferenciado pela magia enquanto elemento das narrativas clássicas da Era Medieval. Em um mundo onde seres mágicos dividem espaço com pessoas normais, a forma de organização social e o desenvolvimento tecnológico dão lugar a uma estrutura bastante diferente do mundo real.
 
Apresentado de maneira primorosa pelos desenhos de Pacheco, com uma bela adaptação construída pela mente de Busiek, a história se desdobra no período de amadurescimento da guerra, que subentende-se à aceitação da morte de companheiros de equipe, à separação das origens simples com os novos cenários que se apresentam nos campos de batalha, e à compreensão de questões como sacrifício próprio, físico ou ideológico, em prol de um bem maior. Com uma história sensível em meio aos espólios da guerra, "Arrowsmith" leva o leitor a um mundo mágico cheio de dragões, entes, atlantes e feitiçaria, mas que, ainda assim, se assemelha ao nosso mundo pacato, pelo drama dentro de cada um de seus personagens, e pelas tragédias e descobertas ao longo dessa jornada. 
 
 
Em "ShockRockets - Esquentando os Motores", produzido pelo mesmo roteirista, Kurt Busiek, mas com traços do canadense Stuart Immonen, em 2000, apesar de ter sido publicado no Brasil apenas em 2006, pela editora Pixel, a narrativa parte no outro sentido, inteiramente. Em uma realidade futurista, a partir do ano de 2071 ou 2087 (não fica muito claro, por conta de algo que aparenta ser uma confusão editorial na apresentação da edição brasileira), o jovem protagonista latino Alejandro Cruz se une por uma jogada do destino à última linha de defesa da sociedade global contra as hordas do vilão Emílio Korda, que carrega em si o desejo mais clássico dos vilões das histórias em quadrinhos, literalmente dominar o mundo. Armados principalmente por suas naves, a tropa de defensores, que dá nome à obra de Busiek e Immonen, eles precisam superar suas diferenças e unir seus pontos fortes para garantir que o planeta não seja tanto acometido pelas forças do vilão quanto por uma nova invasão alienígena, que já havia ocorrido anteriormente ao começo da história e causara uma reconstrução completa da identidade nacional, após sua dispersão.
 
Com intrigas e traições, a história empolga até sua última página, que deixa em aberto a possibilidade de uma continuação e ainda realiza uma crítica concisa sobre a gestão de uma guerra. Dando ênfase também aos conflitos entre a origem simples do protagonista e toda a maravilha tecnológica com que ele aprende a trabalhar para sobreviver no conflito, a história se assemelha muito ao outro trabalho de Busiek.
 
Alejandro Cruz, no traço
do canadense Stuart Immonen
As similaridades entre essas histórias, que refletem muito do espírito do começo dos anos 1930, são a principal razão desta matéria. Busiek, em ambos os casos, trabalhou de forma inteligente a identidade de seus personagens principais, como jovens provenientes do gueto ou de uma comunidade rural, mas que tinham consciência e desejo de participar de conflitos extremamente importantes para todo o mundo, que aconteciam em terras distantes daquelas onde estavam. Com ânimo, ambos aproveitam a oportunidade de se alistarem como forma de reafirmar suas identidades e tomar parte no conflito, porém, à medida que se vêem envolvidos pelos acontecimentos das guerras, perdem a noção de ideologia tão forte que carregavam antes para assumir uma carga emocional muito forte, em histórias que apresentam uma análise da solidão, do preparo psicológico e do relacionamento interpessoal durante momentos de conflito.
 

Minissérie original de "ShockRockets", publicada
nos Estados Unidos
Immonen e Pacheco dão o tom das obras de forma bastante particular, cada um com seu modelo de narrativa preciso, mas, no cerne de tudo, há a questão principal do ser humano em si, e da sua relação com o conflito com outros diferentes dele.

Apresentando ainda em seu conteúdo da edição nacional, algumas artes originais entre os capítulos que caracterizaram a venda em forma de minissérie, nos Estados Unidos, as versões brasileiras ficaram com uma boa qualidade e valem a pena serem conferidas pela emoção vividas pelos personagens e pelas maravilhosas cenas de batalha.
 
 
NOTA GERAL ("ARROWSMITH"): 3 ESTRELAS.
 
NOTA GERAL ("SHOCKROCKETS"): 3 ESTRELAS.

sábado, 6 de outubro de 2012

Por Você, Teria Mais Herdeiros que um Coelho

Por Gabriel Guimarães

 
Há 49 anos, inspirado na sua filha que carregava um bichinho de pelúcia de um lado para o outro da casa, o paulista Maurício de Sousa criou a mais célebre das personagens dos quadrinhos brasileiros. Se enturmando fácil, apesar de seu temperamento arredio, com sua preexistente turminha de personagens, dentre os quais, se incluía um certo garoto travesso de poucos fios de cabelo, a personagem foi adquirindo contornos mais suaves e entrando calmamente no coração de todo jovem brasileiro, independente de que região do país morasse.
 
Seguranças estiveram presentes para assegurar
que a comemoração corresse da melhor forma possível
Se tornando representante da UNICEF em 2005, a Mônica se consagrou como uma marca que já vinha de uma estratégia bem sucedida mundialmente. Presente em dezenas de países e expandindo a quantidade de produtos com a sua marca oficialmente licenciada, as histórias do bairro do Limoeiro ganharam uma dimensão muito maior do que, acredito, fosse originalmente o sonho de Maurício. Porém, frente à realidade que se apresentava para os quadrinhos brasileiros no novo século que se iniciava e observando o sucesso avassalador do estilo de quadrinhos japonês, ele decidiu dar o próximo passo para tornar seus personagens inesquecíveis: Ele os fez crescer.
 
Resultado de muita pesquisa mercadológica e trabalho dos muitos e excelentes profissionais dos estúdios MSP, em 2007, Maurício lançou com a parceria da editora Panini e sob o olhar atento do editor Sidney Gusman e milhões de leitores fiéis, a nova versão de seus personagens, que haviam passado da infância para a adolescência conforme qualquer pessoa real faria. E tudo mudou.
 
O público compareceu em massa para o evento
O mercado se revelou mais aberto do que se imaginava com uma empreitada cuidadosa como foi feita por Maurício, diferente, por exemplo, do que aconteceu no caso da "Luluzinha Jovem", que não conseguiu atingir o público desejado pela falta de identificação. A "Turma da Mônica Jovem" mostrou uma preocupação enorme com os consumidores clássicos, e uma forma de divulgação extremamente efetiva e nova, a partir dos meios eletrônicos disponíveis ao produtor e ao leitor de hoje. Tendo maior retorno do público, os personagens da turminha ficaram mais fáceis de serem relacionados às suas versões clássicas, que permaneceram sendo publicadas em prol dos clássicos fãs da série e dos leitores mais novos, que, muitas vezes, começavam a dar seus primeiros passos na leitura folheando com destaque as revistas de Maurício e companhia.
 
Como qualquer história onde os personagens crescem, é natural que o mundo ao redor deles também cresça, ganhando tons e dimensões antes não tanto abordados. A tecnologia e a narrativa com que eram produzidas as revistas passaram por uma grande revisão e os leitores responderam de forma altamente positiva. Além de ter permitido ao título o reconhecimento de revista de maior tiragem no mundo inteiro no ano passado (a edição 34, que foi comentada aqui no blog, na época, chegou à tiragem de 500 mil exemplares, superior à primeira edição da nova versão da Liga da Justiça, que chegou à casa dos 300 mil), proporcionou aos próprios personagens uma nova forma de relacionamento, mais íntimo e instigante.
 
O casal de ouro dos quadrinhos brasileiros, enfim, pode dar seus primeiros passos oficiais, ganhando o coração de todos e alavancando uma avalanche de tanto jovens quanto velhos leitores às bancas de jornal e lojas especializadas. Mônica e Cebola (novo nome ao qual o personagem clássico de Maurício agora responde) se comprometeram a estar sempre juntos e, na edição deste mês, num salto temporal de mais 10 anos no futuro dos personagens, os dois se uniram até que a morte os separe.
 
Ainda que não seja um fator que afete diretamente as histórias da linha cronológica atual da turma jovem, a edição representou um marco para a história dos personagens feitos pelo MSP. Como um casamento é motivo de comemoração e alegria incondicionais no mundo real como na fantasia, logicamente, um evento deste porte não poderia ter passado em branco, e o pai da noiva (compreenda aqui com ou sem aspas, conforme quiser), recebeu ao todo mais de duas centenas de leitores na livraria FNAC de duas das maiores capitais do país, em São Paulo e no Rio de Janeiro, a fim de autografar a edição comemorativa e oferecer a todos a chance de conferir detalhes do casório que, mais importante e significativo do que é para todos nós, certamente é para ele. Réplicas dos anéis usados pelos personagens, ao lado do buquê que teria sido utilizado na cerimônia são apenas dois dos detalhes disponibilizados. A mesa com doces temáticos e o painel para fotos do público com os noivos, apenas mais um elemento no dia. O principal, porém, era a festa, a alegria compartilhada, o sorriso impresso no rosto de cada um dos convidados ali presentes. Fossem estes conhecidos publicamente, como a autora Thalita Rebouças, que compareceu ao evento no Rio de Janeiro, ou muitos dos ainda infantis e puros jovens de coração doce. A festa ali era para todos, e o evento em si que motivou tudo isso, jamais será esquecido.
 
Maurício abraça Thalita Rebouças no evento de
comemoração no Rio de Janeiro
Por todas essas e muitas outras razões, o blog Quadrinhos Pra Quem Gosta e toda a sua equipe deseja a mais sincera felicidade e um abraço muito apertado para o grande criador de tudo isso, o padrinho dos quadrinhos brasileiros, e possivelmente, até do casamento em si mesmo, Maurício de Sousa. E que este evento seja apenas um dentre a enorme quantidade de  momentos maravilhosos da história recente da turminha, que revela a cada edição ter um futuro mais e mais brilhante. Obrigado a todos, e que sejam felizes para sempre. Parabéns! 

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

As Similaridades Entre o Estudo Antropológico e o Discurso Quadrinístico

Por Gabriel Guimarães

Conforme pode ser concluído a partir de textos como os do sociólogo Roy Wagner, a exemplo dos presentes em sua obra “A Invenção da Cultura”, a constituição do “ser” depende fundamentalmente da relação deste com o contexto em que está inserido, ou seja, sem as determinadas circunstâncias socioespaciais e comportamentais de que ele faz parte, seria irrelevante a determinação de uma “identidade” deste, em si. Da mesma forma, se dá a constituição de termos como “cultura” e “sociedade”, que dependem invariavelmente de todos os fatores externos a eles para serem compreendidos como aspectos determinantes no convívio social.

Wagner explora as diferenças entre os povos analisados pelos antropólogos como sendo responsáveis não apenas pela formulação de nossa compreensão sobre eles, mas também para a reafirmação de nós mesmos e nossas tradições e costumes. Através da análise das diferenças que tangem o habitat social nos diferentes cantos do planeta, é que conseguimos chegar a uma compreensão mais abrangente sobre o nosso próprio ambiente social.

Muitos autores da narrativa em história em quadrinhos se tornaram mundialmente conhecidos pelo papel analítico deste ponto de vista antropológico sobre seus personagens. Seja nas histórias do marinheiro “Corto Maltês”, do italiano Hugo Pratt, nas intrépidas investigações do repórter “Tintin”, do belga Georges Remy (mais conhecido pelo seu pseudônimo, Hergé), nas observações do contrato social a que estamos todos submetidos nas grandes metrópoles e o papel deste na constituição das histórias e dramas dos seus habitantes, marca das histórias do americano Will Eisner, ou mesmo na crítica da discriminação, presente desde o começo das histórias dos “X-men”, criados por Stan Lee e Jack Kirby na década de 1960, porém, cuja fase de maior sucesso e que se focou neste ponto mais especificamente fora conduzido pelo britânico Chris Claremont com desenhos de artistas variados, dentre os quais, se destaca o talentoso John Byrne, cerca de vinte anos depois, o discurso dos autores sempre procurou expor a crítica social com relação a questões vigentes no período em que seus trabalhos estavam sendo publicados.

Para o mundo em que vivemos hoje, onde a veiculação da informação quebrou barreiras geográficas antes altamente limitantes do ponto de vista cultural, é fundamental termos a compreensão das demais culturas que nos cercam, dando ênfase ao fato de que, quanto mais culturas nós conhecemos, melhor somos capazes de nos delinearmos com determinadas linhas de raciocínio, algo que antes era apenas possível àqueles que viajavam longas distâncias, como os personagens de quadrinhos europeus citados no parágrafo anterior.

Um dos primeiros a trabalhar com a questão da diferenciação da identidade dentro da sociedade e das formas como isso era absorvido culturalmente nos Estados Unidos dentro dos quadrinhos, o roteirista Stan Lee, abordou questões que vão muito além da superficialidade do universo dos quadrinhos de super-heróis. Sendo posteriormente complementado e tido seu discurso atualizado por Claremont, Lee demonstrou de forma metafórica os efeitos da discriminação racial através de seus personagens mutantes mencionados anteriormente, que carregavam dentro de seu DNA um fator a mais que não era de posse dos demais habitantes do cenário social, sendo tratados, assim, de forma diferenciada e menosprezada. Conforme o professor de comunicação social e editor Mário Feijó destacou em seu livro “Quadrinhos em Ação – Um Século de História”, e o sociólogo Nildo Vianna apontou em sua obra “Heróis e Super-heróis no Mundo dos Quadrinhos”, Lee foi um dos autores que revolucionou o setor desse gênero de quadrinhos ao trazer para dentro das histórias, as questões que estavam em vigor na sociedade no momento em que estas eram consumidas, dentre as quais a segregação racial era algo realmente determinante durante a década de 1960. Lee trouxe esse debate para seus leitores em histórias que serviam para observar os dois lados da questão, tanto dos discriminados quanto dos discriminantes, em aspectos emblemáticos, como a comparação entre o líder de seus heróis, o “Professor Xavier” e o pastor Martin Luther King, na luta por uma sociedade mais igualitária; e na comparação entre o seu grande rival na história e antigo amigo, o vilão “Magneto” e o revolucionário Malcolm X, reflexo da revolta dos discriminados que acabavam por cometer os mesmos erros de seus discriminantes, trocando violência por mais violência e intolerância. Neste quesito, Vianna destacou acertadamente que “o mundo dos super-heróis, como mundo do extraordinário, é palco das manifestações dos valores de seus produtores (...) e, ao mesmo tempo, do inconsciente coletivo”. Lee criou um grupo que se tornou um marco para a luta social que acontecia, e trouxe o mundo real para as páginas de quadrinhos mensais de uma forma que jamais deixaria de ser trabalhada posteriormente ao seu período como profissional da editora Marvel.

Na Europa, entretanto, esse discurso do contato entre as identidades e culturas diferentes já vinha de muito tempo antes do trabalho de Stan Lee nos Estados Unidos. O belga Remy trabalhara desde o ano de 1929 em seu grande personagem, o repórter “Tintin”, para abordar assuntos interessantes e instigantes das demais culturas do mundo e, a partir de 1969, ganhou outro grande parceiro nesse objetivo de uso para os quadrinhos, o italiano Hugo Pratt, que vivera em constante mudança ao longo de sua vida por conta de sua carreira naval e que havia se maravilhado com o universo fantástico apresentado nas histórias de autores como Joseph Conrad e Herman Melville, estando, então, determinado a passar para o papel suas experiências e devaneios na figura de seu personagem “Corto Maltês”.

O cidadão congolês  Bienvenu Mbutu Mondondo, junto do
Conselho Representativo de Associações Negras (CRAN),
da França,  requisitou a proibição da venda do livro "Tintin
no Congo", do belga Hergé
 
Enquanto Pratt levou seu navegador a cruzar o mundo inteiro, passando por países de todos os continentes, experimentando das situações políticas mais variadas, e testemunhando cenários dos mais diversos culturalmente possíveis, indo das savanas africanas ao deserto árabe, passando pelos oceanos de posse internacional e pelo matagal sul-americano; Hergé procurou detalhar ao máximo possível os ambientes e tradições culturais que cercavam seu repórter, realizando ou pessoalmente ou através da sua equipe de estúdio, pesquisas meticulosas acerca das culturas mais longínquas que pudessem vir a ser abordadas. Neste quesito, infelizmente, o belga acabou caindo em uma armadilha que o tempo e o desenvolvimento sociocultural lhe pregaram. Em 1931, quando o Congo ainda era uma colônia de exploração francesa, Hergé mandou seu personagem para lá em uma de suas primeiras aventuras, adaptando todo o material que lhe era disponível na época sobre o assunto. Anos mais tarde, o autor foi acusado de racismo e de ter caracterizado tanto os habitantes quanto a cultura dos congoleses de forma pejorativa. Na sua história biográfica, lançada em quadrinhos na Europa ano passado, sob o título “The Adventures of Hergé”, produzida pelo trio francês Jose-Louis Boucquet, Jean-Luc Fromental e Stanislas Barthelemy, é mencionada a frustração com que o autor recebia esses comentários acerca de sua obra. É necessário compreender a disponibilidade corrente de informações que temos hoje e a que existia para ser utilizada pelo criador de “Tintin” na sua época, o que denota a datação de sua história em particular, não a tornando universal, como alguns acreditam que esta seria, mas sim como um retrato histórico de como a colônia era regida na época pelos seus colonizadores.

A antropóloga Margareth Mead, durante sua
etapa de pesquisa, na Samoa Americana
Igualmente, tal evento pode ocorrer no núcleo de observação dos antropólogos. Conforme pode ser observado nas discussões acerca da veracidade de informações coletadas por estes, é relevante lembrar o caso da americana Margareth Mead e seu estudo acerca da vida sexual das garotas da região da Samoa americana, onde ela estabeleceu moradia por bastante tempo e foi abastecida de informações pelas garotas jovens da região, posteriormente rendendo-lhe conteúdo para seu estudo sobre as diferenças de sexualidade e da forma como o ato sexual era socialmente visto no ambiente público nas diferentes culturas (neste caso, entre a cultura de Samoa e a norte-americana), se tornando uma referência quase absoluta no meio antropológico por anos e virando símbolo da cultura hippie que crescia na época de sua publicação, até que outros antropólogos, como Derek Freeman e Martin Orans, fossem confirmar os dados reais do assunto, que não bateram com os que Mead havia apresentado inicialmente. Essa disparidade não se deu por uma distorção dos dados colhidos por Mead, mas sim por conta de informações erradas que foram passadas à antropóloga durante sua pesquisa. O discurso desta, então, tornou-se novamente assunto de discussão, levantando dúvidas acerca de sua credibilidade, porém, sua importância em apresentar o papel da mulher no cenário antropológico global e da sexualidade como elemento de repercussão e diferenciação social se tornaram inegáveis. Igualmente, é possível observar o discurso de Hergé, que fora abastecido das informações da época em que concebeu seu trabalho, diferentes da percepção que temos hoje sobre a vida no Congo africano. Por mais que o assunto não tenha sido trabalhado com a veracidade que se acredita hoje, não é necessário negar toda a importância à que o autor da obra está merecidamente atribuído.
 
Concluindo, o trabalho dos quadrinistas está intrinsecamente ligado à cultura da qual eles fazem parte e, por mais que possa haver casos do uso de estereótipos (que ainda ocorrem em demasia, infelizmente), tal qual existe a preocupação ética do antropólogo em produzir um trabalho digno e merecedor de credibilidade ´para todos os envolvidos no projeto, desde as sociedades estudadas à sociedade onde o estudo será veiculado, o mesmo ocorre com o mercado editorial de quadrinhos, que se preocupa em oferecer histórias de entretenimento e reflexão que respeitem a maior quantidade de leitores possível sem, entretanto, negar suas próprias origens culturais.