quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Arrowsmith, ShockRockets e a Magia da Guerra

Por Gabriel Guimarães


No começo do Século XX, a humanidade testemunhou um período muito complicado, onde os conflitos internacionais ganhavam proporção antes inimaginável, afetando todos os habitantes do planeta de alguma forma, direta ou indiretamente. A partir desse momento, muitas editoras viram que o espírito nacional de seus países carecia de algo que lhes motivasse a continuar lutando. Artistas como Will Eisner, principal responsável pela publicação do título "P. S. Magazine", de 1951 a 1971, e Joe Kubert (que recebeu uma devida homenagem póstuma aqui no blog), eterno grande nome das histórias de guerra com o personagem Sgt. Rock, pela DC, dedicaram grande parte de suas carreiras à narrativa de eventos relacionados a esses desastres, procurando sempre focar no fato de que há uma maneira melhor de resolvermos nossas diferenças do que apenas empunhando armas e julgando os outros. Histórias como a graphic novel "VietSong", produzida pelo espanhol Manfred Sommer, com claras influências no trabalho do italiano Hugo Pratt, ainda abordavam uma humanização dos personagens envolvidos nos conflitos, trazendo à tona o que havia no mais interior de seus seres e de suas histórias de vida.
 
O Justiceiro surgiu
na editora Marvel
durante a década de 1970
como um veterano da
Guerra do Vietnã, para
demonstrar também os
efeitos desse conflito que
tanto abalou o mundo na forma
como os soldados eram vistos

A sequência de eventos catastróficos como as guerras acabaram afetando a percepção do indivíduo enquanto parte de uma sociedade, o que repercurtiu de forma estrutural na gestão do mercado editorial de quadrinhos, em especial, no norte-americano, ganhando desdobramentos extremamente importantes para a história do meio. Com a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, os personagens que serviriam para dar esperança às nações envolvidas não mais poderiam ser apenas meros mortais, precisando ter poderes maiores do que as limitações humanas permitiam, produzindo, dessa forma, a primeira geração de super-heróis, a partir do Superman, de Jerry Siegel e Joe Shuster, em 1938. Hoje, toda a indústria originada desta necessidade representa grande parte das vendas no mercado da arte sequencial como um todo, uma vez que as motivações dos personagens foram se adaptando aos novos tempos e novos conflitos socioculturais. Passando pelo conflito interno de igualdade entre as raças até batalhas perdidas e esperanças destruídas, como a Guerra do Vietnã e a revelação do horror dos campos de batalha, os quadrinhos de herói seguiram as deixas que a sociedade apresentava e, dessa forma, se tornaram referência para todas as gerações de leitores que surgiram posteriores à criação dos protagonistas das histórias em si. Vale destacar aqui também a história espetacular criada em 1985 pela dupla britânica Alan Moore e David Gibbons, "Watchmen", que leva o questionamento da guerra aos seus últimos estágios, abalando toda a estrutura da moralidade e da ética com que os heróis da sociedade sempre eram percebidos (essa obra já foi analisada uma vez no blog, o que pode ser conferido aqui).
 
Cena de "Paraíso de Zahra", que mostra a repressão
contra os movimentos estudantis, no Irã

Atualmente, continuamos sendo testemunhas de muitos conflitos no mundo, seja na recente Guerra do Iraque, nos problemas políticos dentro do Irã ou mesmo nos conflitos territoriais africanos. E as histórias em quadrinhos não deixaram de servir como meio para abordar o tema. A graphic novel "Paraíso de Zahra", de Amir e Khalil, pseudônimos dos verdadeiros autores, conta, por exemplo, a jornada de um jovem iraniano à procura de seu irmão, desaparecido em meio a uma manifestação popular numa das maiores praças do país. Os quadrinhos do repórter da nona arte, Joe Sacco, são óbvios exemplos disso também, basta observar a forma como conduz suas narrativas e o preciosismo que ele dispõe em cada informação coletada pessoalmente nas zonas abaladas pelas guerras, como a região de Sarajevo, Bósnia e na própria Palestina.
 
 
Há, porém, outra corrente na abordagem da guerra nas histórias em quadrinhos, que se constitui pela apresentação histórica ou fantasiosa acerca de como os eventos do passado se deram ou poderiam se dar, e seus respectivos reflexos na nossa sociedade nos dias de hoje. A história brasileira "Jambocks!" é um excelente caso, que se foca na participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Escrita pelo talentoso e afinco pesquisador Celso Menezes e cujos dois primeiros volumes foram desenhados pelo espetacular Felipe Massafera, a história apresenta bases muito bem fixadas nos eventos reais e dá ao leitor a oportunidade de compreender um pouco melhor a natureza de certos frutos dessa participação brasileira que até hoje são percebidos em nossa cultura, como o surgimento da música forró, a partir de comemorações realizadas entre o povo nordestino e os soldados norte-americanos nas bases e casas do estado do Rio Grande do Norte, enquanto os americanos ensinavam os brasileiros como utilizar de forma apropriada os aviões de guerra. Oriundo da expressão "for all", as músicas populares na região ganharam um contexto que viria a ser utilizado por todo um gênero de música popular, anos depois.
 
O jovem Fletcher Arrowsmith
observa atento os pôsteres sobre
as ameaças do outro lado do mundo
Entretanto, nossa matéria de hoje procura comentar acerca de duas obras em particular. Ainda que consistam de uma abordagem fantasiosa sobre um evento real e uma abordagem realista para um evento fantasioso, o teor de ambas demonstra raíz em toda a relação entre a guerra e os quadrinhos e, por conta disso, não poderia vir a ser apresentado sem a devida contextualização.
 
 
"Arrowsmith - A Guerra da Magia", produzida em 2003 pela dupla consagrada composta pelo roteirista Kurt Busiek e o desenhista mexicano Carlos Pacheco, e publicada aqui no Brasil em 2005, pela editora Devir, conta também a história da Primeira Guerra Mundial, porém, sob um prisma diferenciado pela magia enquanto elemento das narrativas clássicas da Era Medieval. Em um mundo onde seres mágicos dividem espaço com pessoas normais, a forma de organização social e o desenvolvimento tecnológico dão lugar a uma estrutura bastante diferente do mundo real.
 
Apresentado de maneira primorosa pelos desenhos de Pacheco, com uma bela adaptação construída pela mente de Busiek, a história se desdobra no período de amadurescimento da guerra, que subentende-se à aceitação da morte de companheiros de equipe, à separação das origens simples com os novos cenários que se apresentam nos campos de batalha, e à compreensão de questões como sacrifício próprio, físico ou ideológico, em prol de um bem maior. Com uma história sensível em meio aos espólios da guerra, "Arrowsmith" leva o leitor a um mundo mágico cheio de dragões, entes, atlantes e feitiçaria, mas que, ainda assim, se assemelha ao nosso mundo pacato, pelo drama dentro de cada um de seus personagens, e pelas tragédias e descobertas ao longo dessa jornada. 
 
 
Em "ShockRockets - Esquentando os Motores", produzido pelo mesmo roteirista, Kurt Busiek, mas com traços do canadense Stuart Immonen, em 2000, apesar de ter sido publicado no Brasil apenas em 2006, pela editora Pixel, a narrativa parte no outro sentido, inteiramente. Em uma realidade futurista, a partir do ano de 2071 ou 2087 (não fica muito claro, por conta de algo que aparenta ser uma confusão editorial na apresentação da edição brasileira), o jovem protagonista latino Alejandro Cruz se une por uma jogada do destino à última linha de defesa da sociedade global contra as hordas do vilão Emílio Korda, que carrega em si o desejo mais clássico dos vilões das histórias em quadrinhos, literalmente dominar o mundo. Armados principalmente por suas naves, a tropa de defensores, que dá nome à obra de Busiek e Immonen, eles precisam superar suas diferenças e unir seus pontos fortes para garantir que o planeta não seja tanto acometido pelas forças do vilão quanto por uma nova invasão alienígena, que já havia ocorrido anteriormente ao começo da história e causara uma reconstrução completa da identidade nacional, após sua dispersão.
 
Com intrigas e traições, a história empolga até sua última página, que deixa em aberto a possibilidade de uma continuação e ainda realiza uma crítica concisa sobre a gestão de uma guerra. Dando ênfase também aos conflitos entre a origem simples do protagonista e toda a maravilha tecnológica com que ele aprende a trabalhar para sobreviver no conflito, a história se assemelha muito ao outro trabalho de Busiek.
 
Alejandro Cruz, no traço
do canadense Stuart Immonen
As similaridades entre essas histórias, que refletem muito do espírito do começo dos anos 1930, são a principal razão desta matéria. Busiek, em ambos os casos, trabalhou de forma inteligente a identidade de seus personagens principais, como jovens provenientes do gueto ou de uma comunidade rural, mas que tinham consciência e desejo de participar de conflitos extremamente importantes para todo o mundo, que aconteciam em terras distantes daquelas onde estavam. Com ânimo, ambos aproveitam a oportunidade de se alistarem como forma de reafirmar suas identidades e tomar parte no conflito, porém, à medida que se vêem envolvidos pelos acontecimentos das guerras, perdem a noção de ideologia tão forte que carregavam antes para assumir uma carga emocional muito forte, em histórias que apresentam uma análise da solidão, do preparo psicológico e do relacionamento interpessoal durante momentos de conflito.
 

Minissérie original de "ShockRockets", publicada
nos Estados Unidos
Immonen e Pacheco dão o tom das obras de forma bastante particular, cada um com seu modelo de narrativa preciso, mas, no cerne de tudo, há a questão principal do ser humano em si, e da sua relação com o conflito com outros diferentes dele.

Apresentando ainda em seu conteúdo da edição nacional, algumas artes originais entre os capítulos que caracterizaram a venda em forma de minissérie, nos Estados Unidos, as versões brasileiras ficaram com uma boa qualidade e valem a pena serem conferidas pela emoção vividas pelos personagens e pelas maravilhosas cenas de batalha.
 
 
NOTA GERAL ("ARROWSMITH"): 3 ESTRELAS.
 
NOTA GERAL ("SHOCKROCKETS"): 3 ESTRELAS.

sábado, 6 de outubro de 2012

Por Você, Teria Mais Herdeiros que um Coelho

Por Gabriel Guimarães

 
Há 49 anos, inspirado na sua filha que carregava um bichinho de pelúcia de um lado para o outro da casa, o paulista Maurício de Sousa criou a mais célebre das personagens dos quadrinhos brasileiros. Se enturmando fácil, apesar de seu temperamento arredio, com sua preexistente turminha de personagens, dentre os quais, se incluía um certo garoto travesso de poucos fios de cabelo, a personagem foi adquirindo contornos mais suaves e entrando calmamente no coração de todo jovem brasileiro, independente de que região do país morasse.
 
Seguranças estiveram presentes para assegurar
que a comemoração corresse da melhor forma possível
Se tornando representante da UNICEF em 2005, a Mônica se consagrou como uma marca que já vinha de uma estratégia bem sucedida mundialmente. Presente em dezenas de países e expandindo a quantidade de produtos com a sua marca oficialmente licenciada, as histórias do bairro do Limoeiro ganharam uma dimensão muito maior do que, acredito, fosse originalmente o sonho de Maurício. Porém, frente à realidade que se apresentava para os quadrinhos brasileiros no novo século que se iniciava e observando o sucesso avassalador do estilo de quadrinhos japonês, ele decidiu dar o próximo passo para tornar seus personagens inesquecíveis: Ele os fez crescer.
 
Resultado de muita pesquisa mercadológica e trabalho dos muitos e excelentes profissionais dos estúdios MSP, em 2007, Maurício lançou com a parceria da editora Panini e sob o olhar atento do editor Sidney Gusman e milhões de leitores fiéis, a nova versão de seus personagens, que haviam passado da infância para a adolescência conforme qualquer pessoa real faria. E tudo mudou.
 
O público compareceu em massa para o evento
O mercado se revelou mais aberto do que se imaginava com uma empreitada cuidadosa como foi feita por Maurício, diferente, por exemplo, do que aconteceu no caso da "Luluzinha Jovem", que não conseguiu atingir o público desejado pela falta de identificação. A "Turma da Mônica Jovem" mostrou uma preocupação enorme com os consumidores clássicos, e uma forma de divulgação extremamente efetiva e nova, a partir dos meios eletrônicos disponíveis ao produtor e ao leitor de hoje. Tendo maior retorno do público, os personagens da turminha ficaram mais fáceis de serem relacionados às suas versões clássicas, que permaneceram sendo publicadas em prol dos clássicos fãs da série e dos leitores mais novos, que, muitas vezes, começavam a dar seus primeiros passos na leitura folheando com destaque as revistas de Maurício e companhia.
 
Como qualquer história onde os personagens crescem, é natural que o mundo ao redor deles também cresça, ganhando tons e dimensões antes não tanto abordados. A tecnologia e a narrativa com que eram produzidas as revistas passaram por uma grande revisão e os leitores responderam de forma altamente positiva. Além de ter permitido ao título o reconhecimento de revista de maior tiragem no mundo inteiro no ano passado (a edição 34, que foi comentada aqui no blog, na época, chegou à tiragem de 500 mil exemplares, superior à primeira edição da nova versão da Liga da Justiça, que chegou à casa dos 300 mil), proporcionou aos próprios personagens uma nova forma de relacionamento, mais íntimo e instigante.
 
O casal de ouro dos quadrinhos brasileiros, enfim, pode dar seus primeiros passos oficiais, ganhando o coração de todos e alavancando uma avalanche de tanto jovens quanto velhos leitores às bancas de jornal e lojas especializadas. Mônica e Cebola (novo nome ao qual o personagem clássico de Maurício agora responde) se comprometeram a estar sempre juntos e, na edição deste mês, num salto temporal de mais 10 anos no futuro dos personagens, os dois se uniram até que a morte os separe.
 
Ainda que não seja um fator que afete diretamente as histórias da linha cronológica atual da turma jovem, a edição representou um marco para a história dos personagens feitos pelo MSP. Como um casamento é motivo de comemoração e alegria incondicionais no mundo real como na fantasia, logicamente, um evento deste porte não poderia ter passado em branco, e o pai da noiva (compreenda aqui com ou sem aspas, conforme quiser), recebeu ao todo mais de duas centenas de leitores na livraria FNAC de duas das maiores capitais do país, em São Paulo e no Rio de Janeiro, a fim de autografar a edição comemorativa e oferecer a todos a chance de conferir detalhes do casório que, mais importante e significativo do que é para todos nós, certamente é para ele. Réplicas dos anéis usados pelos personagens, ao lado do buquê que teria sido utilizado na cerimônia são apenas dois dos detalhes disponibilizados. A mesa com doces temáticos e o painel para fotos do público com os noivos, apenas mais um elemento no dia. O principal, porém, era a festa, a alegria compartilhada, o sorriso impresso no rosto de cada um dos convidados ali presentes. Fossem estes conhecidos publicamente, como a autora Thalita Rebouças, que compareceu ao evento no Rio de Janeiro, ou muitos dos ainda infantis e puros jovens de coração doce. A festa ali era para todos, e o evento em si que motivou tudo isso, jamais será esquecido.
 
Maurício abraça Thalita Rebouças no evento de
comemoração no Rio de Janeiro
Por todas essas e muitas outras razões, o blog Quadrinhos Pra Quem Gosta e toda a sua equipe deseja a mais sincera felicidade e um abraço muito apertado para o grande criador de tudo isso, o padrinho dos quadrinhos brasileiros, e possivelmente, até do casamento em si mesmo, Maurício de Sousa. E que este evento seja apenas um dentre a enorme quantidade de  momentos maravilhosos da história recente da turminha, que revela a cada edição ter um futuro mais e mais brilhante. Obrigado a todos, e que sejam felizes para sempre. Parabéns! 

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

As Similaridades Entre o Estudo Antropológico e o Discurso Quadrinístico

Por Gabriel Guimarães

Conforme pode ser concluído a partir de textos como os do sociólogo Roy Wagner, a exemplo dos presentes em sua obra “A Invenção da Cultura”, a constituição do “ser” depende fundamentalmente da relação deste com o contexto em que está inserido, ou seja, sem as determinadas circunstâncias socioespaciais e comportamentais de que ele faz parte, seria irrelevante a determinação de uma “identidade” deste, em si. Da mesma forma, se dá a constituição de termos como “cultura” e “sociedade”, que dependem invariavelmente de todos os fatores externos a eles para serem compreendidos como aspectos determinantes no convívio social.

Wagner explora as diferenças entre os povos analisados pelos antropólogos como sendo responsáveis não apenas pela formulação de nossa compreensão sobre eles, mas também para a reafirmação de nós mesmos e nossas tradições e costumes. Através da análise das diferenças que tangem o habitat social nos diferentes cantos do planeta, é que conseguimos chegar a uma compreensão mais abrangente sobre o nosso próprio ambiente social.

Muitos autores da narrativa em história em quadrinhos se tornaram mundialmente conhecidos pelo papel analítico deste ponto de vista antropológico sobre seus personagens. Seja nas histórias do marinheiro “Corto Maltês”, do italiano Hugo Pratt, nas intrépidas investigações do repórter “Tintin”, do belga Georges Remy (mais conhecido pelo seu pseudônimo, Hergé), nas observações do contrato social a que estamos todos submetidos nas grandes metrópoles e o papel deste na constituição das histórias e dramas dos seus habitantes, marca das histórias do americano Will Eisner, ou mesmo na crítica da discriminação, presente desde o começo das histórias dos “X-men”, criados por Stan Lee e Jack Kirby na década de 1960, porém, cuja fase de maior sucesso e que se focou neste ponto mais especificamente fora conduzido pelo britânico Chris Claremont com desenhos de artistas variados, dentre os quais, se destaca o talentoso John Byrne, cerca de vinte anos depois, o discurso dos autores sempre procurou expor a crítica social com relação a questões vigentes no período em que seus trabalhos estavam sendo publicados.

Para o mundo em que vivemos hoje, onde a veiculação da informação quebrou barreiras geográficas antes altamente limitantes do ponto de vista cultural, é fundamental termos a compreensão das demais culturas que nos cercam, dando ênfase ao fato de que, quanto mais culturas nós conhecemos, melhor somos capazes de nos delinearmos com determinadas linhas de raciocínio, algo que antes era apenas possível àqueles que viajavam longas distâncias, como os personagens de quadrinhos europeus citados no parágrafo anterior.

Um dos primeiros a trabalhar com a questão da diferenciação da identidade dentro da sociedade e das formas como isso era absorvido culturalmente nos Estados Unidos dentro dos quadrinhos, o roteirista Stan Lee, abordou questões que vão muito além da superficialidade do universo dos quadrinhos de super-heróis. Sendo posteriormente complementado e tido seu discurso atualizado por Claremont, Lee demonstrou de forma metafórica os efeitos da discriminação racial através de seus personagens mutantes mencionados anteriormente, que carregavam dentro de seu DNA um fator a mais que não era de posse dos demais habitantes do cenário social, sendo tratados, assim, de forma diferenciada e menosprezada. Conforme o professor de comunicação social e editor Mário Feijó destacou em seu livro “Quadrinhos em Ação – Um Século de História”, e o sociólogo Nildo Vianna apontou em sua obra “Heróis e Super-heróis no Mundo dos Quadrinhos”, Lee foi um dos autores que revolucionou o setor desse gênero de quadrinhos ao trazer para dentro das histórias, as questões que estavam em vigor na sociedade no momento em que estas eram consumidas, dentre as quais a segregação racial era algo realmente determinante durante a década de 1960. Lee trouxe esse debate para seus leitores em histórias que serviam para observar os dois lados da questão, tanto dos discriminados quanto dos discriminantes, em aspectos emblemáticos, como a comparação entre o líder de seus heróis, o “Professor Xavier” e o pastor Martin Luther King, na luta por uma sociedade mais igualitária; e na comparação entre o seu grande rival na história e antigo amigo, o vilão “Magneto” e o revolucionário Malcolm X, reflexo da revolta dos discriminados que acabavam por cometer os mesmos erros de seus discriminantes, trocando violência por mais violência e intolerância. Neste quesito, Vianna destacou acertadamente que “o mundo dos super-heróis, como mundo do extraordinário, é palco das manifestações dos valores de seus produtores (...) e, ao mesmo tempo, do inconsciente coletivo”. Lee criou um grupo que se tornou um marco para a luta social que acontecia, e trouxe o mundo real para as páginas de quadrinhos mensais de uma forma que jamais deixaria de ser trabalhada posteriormente ao seu período como profissional da editora Marvel.

Na Europa, entretanto, esse discurso do contato entre as identidades e culturas diferentes já vinha de muito tempo antes do trabalho de Stan Lee nos Estados Unidos. O belga Remy trabalhara desde o ano de 1929 em seu grande personagem, o repórter “Tintin”, para abordar assuntos interessantes e instigantes das demais culturas do mundo e, a partir de 1969, ganhou outro grande parceiro nesse objetivo de uso para os quadrinhos, o italiano Hugo Pratt, que vivera em constante mudança ao longo de sua vida por conta de sua carreira naval e que havia se maravilhado com o universo fantástico apresentado nas histórias de autores como Joseph Conrad e Herman Melville, estando, então, determinado a passar para o papel suas experiências e devaneios na figura de seu personagem “Corto Maltês”.

O cidadão congolês  Bienvenu Mbutu Mondondo, junto do
Conselho Representativo de Associações Negras (CRAN),
da França,  requisitou a proibição da venda do livro "Tintin
no Congo", do belga Hergé
 
Enquanto Pratt levou seu navegador a cruzar o mundo inteiro, passando por países de todos os continentes, experimentando das situações políticas mais variadas, e testemunhando cenários dos mais diversos culturalmente possíveis, indo das savanas africanas ao deserto árabe, passando pelos oceanos de posse internacional e pelo matagal sul-americano; Hergé procurou detalhar ao máximo possível os ambientes e tradições culturais que cercavam seu repórter, realizando ou pessoalmente ou através da sua equipe de estúdio, pesquisas meticulosas acerca das culturas mais longínquas que pudessem vir a ser abordadas. Neste quesito, infelizmente, o belga acabou caindo em uma armadilha que o tempo e o desenvolvimento sociocultural lhe pregaram. Em 1931, quando o Congo ainda era uma colônia de exploração francesa, Hergé mandou seu personagem para lá em uma de suas primeiras aventuras, adaptando todo o material que lhe era disponível na época sobre o assunto. Anos mais tarde, o autor foi acusado de racismo e de ter caracterizado tanto os habitantes quanto a cultura dos congoleses de forma pejorativa. Na sua história biográfica, lançada em quadrinhos na Europa ano passado, sob o título “The Adventures of Hergé”, produzida pelo trio francês Jose-Louis Boucquet, Jean-Luc Fromental e Stanislas Barthelemy, é mencionada a frustração com que o autor recebia esses comentários acerca de sua obra. É necessário compreender a disponibilidade corrente de informações que temos hoje e a que existia para ser utilizada pelo criador de “Tintin” na sua época, o que denota a datação de sua história em particular, não a tornando universal, como alguns acreditam que esta seria, mas sim como um retrato histórico de como a colônia era regida na época pelos seus colonizadores.

A antropóloga Margareth Mead, durante sua
etapa de pesquisa, na Samoa Americana
Igualmente, tal evento pode ocorrer no núcleo de observação dos antropólogos. Conforme pode ser observado nas discussões acerca da veracidade de informações coletadas por estes, é relevante lembrar o caso da americana Margareth Mead e seu estudo acerca da vida sexual das garotas da região da Samoa americana, onde ela estabeleceu moradia por bastante tempo e foi abastecida de informações pelas garotas jovens da região, posteriormente rendendo-lhe conteúdo para seu estudo sobre as diferenças de sexualidade e da forma como o ato sexual era socialmente visto no ambiente público nas diferentes culturas (neste caso, entre a cultura de Samoa e a norte-americana), se tornando uma referência quase absoluta no meio antropológico por anos e virando símbolo da cultura hippie que crescia na época de sua publicação, até que outros antropólogos, como Derek Freeman e Martin Orans, fossem confirmar os dados reais do assunto, que não bateram com os que Mead havia apresentado inicialmente. Essa disparidade não se deu por uma distorção dos dados colhidos por Mead, mas sim por conta de informações erradas que foram passadas à antropóloga durante sua pesquisa. O discurso desta, então, tornou-se novamente assunto de discussão, levantando dúvidas acerca de sua credibilidade, porém, sua importância em apresentar o papel da mulher no cenário antropológico global e da sexualidade como elemento de repercussão e diferenciação social se tornaram inegáveis. Igualmente, é possível observar o discurso de Hergé, que fora abastecido das informações da época em que concebeu seu trabalho, diferentes da percepção que temos hoje sobre a vida no Congo africano. Por mais que o assunto não tenha sido trabalhado com a veracidade que se acredita hoje, não é necessário negar toda a importância à que o autor da obra está merecidamente atribuído.
 
Concluindo, o trabalho dos quadrinistas está intrinsecamente ligado à cultura da qual eles fazem parte e, por mais que possa haver casos do uso de estereótipos (que ainda ocorrem em demasia, infelizmente), tal qual existe a preocupação ética do antropólogo em produzir um trabalho digno e merecedor de credibilidade ´para todos os envolvidos no projeto, desde as sociedades estudadas à sociedade onde o estudo será veiculado, o mesmo ocorre com o mercado editorial de quadrinhos, que se preocupa em oferecer histórias de entretenimento e reflexão que respeitem a maior quantidade de leitores possível sem, entretanto, negar suas próprias origens culturais.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Rio Comicon - Ponderações e Reflexões

Por Gabriel Guimarães
 

Os organizadores da Rio Comicon, por meio de um informe oficial postado no site do evento ontem (que pode ser conferido aqui), anunciaram que, este ano, não haverá a esperada terceira edição da reunião internacional de fãs e produtores de quadrinhos na cidade do Rio de Janeiro, devido a problemas no acordo com os patrocinadores e demais questões relativas à verba necessária para custear o porte cada vez maior da ocasião.
 
Tendo acontecido nos últimos dois anos, e cujas coberturas completas foram feitas aqui no blog (as quais podem ser conferida aqui e aqui, respectivamente), a Rio Comicon deu um gatilho inicial numa nova geração de admiradores da arte sequencial nas terras cariocas e trouxe para perto do público profissionais de renome que jamais haviam posto os pés no Brasil, como o roteirista Chris Claremont, o desenhista Kevin O'Neill e a mangaká Junko Mizuno. Apresentando exposições maravilhosas sobre grandes artistas que se consagraram no meio, como o americano Will Eisner e o italiano Milo Manara, além de oferecer ao público a oportunidade de conhecer os estilos mais diversos dos artistas nacionais, apresentados nos esquetes que ficavam no meio do grande pavilhão da Estação Leopoldina, o evento estimulou uma nova geração a conhecer mais da cultura da nona arte que se desenvolvia pelas beiradas dos meios de comunicação mainstream. Apesar de terem suas limitações físicas e de verba, as duas edições do evento foram muito bem sucedidas, e resgataram uma quantidade de leitores considerável para a leitura da arte sequencial.
 
Materiais do escritório de Eisner estiveram expostos em 2011
 
As portas abertas pela Rio Comicon para os eventos de quadrinhos no Rio de Janeiro foram imprescindíveis para o panorama positivo com que vemos a arte sequencial hoje. Apesar de encontrar resistência na escassez de investidores de grande porte e da visibilidade do evento, os organizadores conseguiram promover o lançamento de novos artistas, que deram seu primeiro passo profissional nos corredores onde outrora a população pegava os trens para ir para o trabalho ou voltar para suas casas. Não deixa, portanto, de ser um fato particularmente curioso este modo de promover os aspirantes a quadrinistas, uma vez analisada a similaridade desse início profissional em pleno Século XXI com a forma como a própria cultura de massa começou a se expandir, através dos folhetins nas estações ferroviárias do Século XIX.
 
Imagem usada para ilustrar os
membros do site "Jovem Nerd" em
seu popular podcast
Nestes dois anos, porém, foi possível observar alguns aspectos de considerável importância que foram relevados ou mesmo não trabalhados por conta dos organizadores do evento e que, caso fossem, talvez a edição deste ano tivesse condições de ser realizada. Dentre eles, a captação de parceiros para montar estande no evento chama bastante atenção. Contando apenas com a Livraria da Travessa e deixando de lado grandes nomes do mercado nacional livreiro como as livrarias Saraiva, FNAC e Cultura, além das lojas especializadas Point HQ, Comix e Devir, é um tanto restritivo demais. A participação destes demais, não como forma de competição agressiva pelo leitor, mas como ferramenta de diversidade para consumo do visitante do evento, é um fator bastante importante. A ausência de bancos eletrônicos 24 horas nas imediações é outro aspecto relevado que pesou muito para muitos dos presentes nestes dois últimos anos. A ausência de um sistema geral de pagamento via cartão de crédito nos estandes dos quadrinhos independentes acabava, por conta disso, inviabilizando a compra de material nacional de qualidade e de expansão de percepção da nossa realidade brasileira.
 
Observando de um ponto de vista mais focado na visibilidade do evento, destaca-se também a ausência de anúncios do evento nas mídias impressas, estando concentrada principalmente nas redes sociais, que apesar de serem extraordinárias para a replicabilidade dos anúncios do evento, não dão o suporte físico muitas vezes necessário para atrair o público alheio. Procurar a parceria de grandes centros da atenção online, como os sites Omelete e Jovem Nerd poderiam ser uma opção muito interessante, sem ter que sair do panorama virtual, mas a presença maior da marca da Rio Comicon no cenário público carioca real seria, certamente, de grande importância. Um anúncio mais antecipado sobre o evento também seria um fator muito elogiado pelo público, pois este, em geral, tem sido feito muito em cima da hora, ocasionando problemas de agendamento dos visitantes para com as oficinas e palestras oferecidas.
 
 
Um terceiro aspecto que vale a pena ressaltar é a falta de suporte dado por alguns dos estandes presentes no evento nestes dois anos, cujo principal exemplo é o da editora Panini, responsável pela publicação no território nacional de grande parte dos produtos mais consumidos entre os leitores de quadrinhos. Apesar de ter percebido o resultado incrivelmente positivo que teve na última edição da Bienal de Livros do Rio de Janeiro, ano passado (que foi completamente coberto aqui no blog, também), a ponto de já confirmar um estande maior ainda do que o utilizado para a próxima edição da Bienal, a editora insistiu nos dois anos em estar presente no evento apenas com uma pequena bancada oferecendo pacotes de assinatura mensal de seus títulos. A demanda do público era imensa, mas a oferta de material era muito escassa, e não dava vazão, gerando insatisfação em muitos dos visitantes presentes.
 
Por quase duas décadas, enquanto não houve atividades relacionadas à arte sequencial no Rio de Janeiro, uma grande comunidade permaneceu inerte, sem saber por onde ganhar voz para sua paixão, mas isso terminou com a realização da primeira Rio Comicon. Só neste ano, a quantidade de eventos relacionados a quadrinhos, que aconteceram nos mais diversos bairros da cidade, é extremamente maior do que fora anteriormente, e o público continua faminto por mais. Talvez nenhum destes eventos de 2012 tenha tido o mesmo porte que a Rio Comicon oferecia, mas foram, sem dúvida, fonte de memórias espetaculares, bons encontros entre autores nacionais e estrangeiros, e uma forma maravilhosa de fazer novas amizades e adquirir contatos. Não choremos pelo cancelamento da Rio Comicon deste ano, pois temos certeza do empenho dos organizadores para com o público e para com a arte que eles vêm trabalhando há anos. Torçamos apenas para que possam confirmar a edição de 2013 em tempo mais promisso a boa resposta do público, e que possamos mais uma vez nos reunir pela nossa sincera admiração à arte sequencial.
 
 
Nós, do Quadrinhos Pra Quem Gosta, desejamos apenas o melhor para todos os organizadores da Rio Comicon, e deixamos com vocês nosso apoio irrestrito, nos disponibilizando para tentar ajudá-los da melhor maneira possível. Que possamos juntos, enquanto forma de expressão de toda uma comunidade de leitores e artistas, elevar essa arte que tanto nos engrandeceu ao longo do tempo por experiência e empolgação. Aguardamos os futuros pronunciamentos no belíssimo site do evento, que pode ser conferido aqui, ou clicando na figura acima.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Promoção de Mangás

Por Gabriel Guimarães


Normalmente envolvida com os eventos relacionados à arte sequencial no sul do país, a loja Pumpkin Store está lançando uma promoção que sorteará a coleção completa do mangá "Banya - O Mensageiro", da editora Panini, ou "Galism", da editora Conrad, ficando a critério do vencedor escolher qual título desejará receber. A promoção foi a forma que a loja encontrou para retribuir o sucesso que vem tendo em sua empreitada nas redes eletrônicas ao redor de todo o país, permitindo que os fãs de mangá possam conhecer um novo ponto de encontro para comentar e comprar seu material de paixão. Enquanto a primeira opção de prêmio possui grande teor de ação, com traços realistas e muitas cenas de luta, tendo feito grande sucesso na Coréia do Sul, produzida por Kim Young-oh, a segunda é voltada um pouco mais para o público feminino, contando a história de três irmãs e suas aventuras e desventuras amorosas, feita pela mangaká Mayumi Yokoyama.
 
As duas obras estão um pouco fora do meio mainstream da mídia, mas são boas oportunidades para conhecer outras culturas e personagens marcantes, produzidos a meio mundo de distância de nós, brasileiros.
 
Localizada oficialmente em Palhoça, no estado de Santa Catarina e especializada na aquisição de mangás e animês novos e usados, a loja Pumpkin Store começou este ano sua entrada no mercado online e conquistou até agora uma quantidade considerável de fãs. Pensando justamente nestes, é que ela iniciou o "Combo Pumpkin Store", que funcionará no seguinte esquema:
 
Primeiramente, o participante deve curtir a página da loja no Facebook, que pode ser acessada aqui ou através da imagem abaixo.
 

Em seguida, deve-se compartilhar de forma pública a imagem da promoção no próprio mural do participante, finalizando, então, com a inscrição completa no link que se encontra aqui.

O sorteio será realizado neste sábado, dia 8 de setembro de 2012, e o resultado será divulgado na página oficial da loja no Facebook. Boa sorte para todos!

sábado, 25 de agosto de 2012

Clube de Leitura na Travessa

Por Gabriel Guimarães


Ocorreu hoje, na Livraria da Travessa do Barrashopping, no Rio de Janeiro, a primeira sessão do Clube de Leitura HQ, organizado pelo funcionário André Guimarães, a fim de reunir os admiradores da nona arte para um debate saudável e estimulante acerca de histórias específicas abordadas e quaisquer outros assuntos que acabem por surgir através da troca de experiências entre os visitantes presentes.
 
Organizado nesta primeira edição com foco no recém lançado encadernado "Batman: Vitória Sombria" pela editora Panini, o evento teve início às 16 horas e reuniu um grupo ainda esparso, com pessoas de diferentes idades e de conhecimento diverso sobre o meio. Com duração de pouco mais de uma hora, foi apresentado ao público um pequeno panorama da obra da dupla Jeph Loeb e Tim Sale, com destaque para a organização da ficção apresentada nas três obras destes, realizadas no universo do herói mascarado de Gotham City, sob uma perspectiva mais ampla. Estando bem no meio da trilogia também composta por "Batman: O Longo Dia das Bruxas""Mulher Gato: Cidade Eterna", o encadernado do Homem Morcego se concentra em torno dos problemas da família mafiosa Falcone no submundo do crime, sem, entretanto, deixar de lado a vasta gama de vilões e personagens da galeria que preenche o Asilo Arkham e os computadores do vigilante encapuzado.
 
O grupo presente não foi muito, mas
foi um excelente começo para o
tipo de encontro
A obra se foca nas figuras de Batman e do comissário Gordon, que se encontram à frente de um momento crucial de sua composição enquanto personagens das histórias que preencheram tantas revistas ao longo de mais de 70 anos. Com a figura antológica do herói mascarado como cavaleiro solitário, Tim Sale apresenta em seu prefácio uma explicação sobre sua opinião acerca do personagem antes da obra e de como Loeb o convenceu a trabalhar neste projeto, que nos revela facetas pouco destacadas do personagem, como, por exemplo, seu viés investigador e sua relação com aqueles ao seu redor. Noções como família e riscos são continuamente postas em questão na obra, e acabam por tornar a leitura algo agradável, ainda que o leitor precise compreender a questão cronológica com que a história em si é apresentada.
 
 
De resto, a reunião foi bastante agradável e rendeu excelentes conversas entre os presentes sobre as raízes dos quadrinhos americanos e seu impacto na nossa realidade brasileira, enquanto leitores deste material. A Livraria da Travessa já confirmou a realização de mais outras duas reuniões deste tipo, de caráter mensal, sempre acontecendo no último sábado de cada mês, contando com uma obra diferente cada vez. Para o próximo encontro, que ocorrerá dia 29 de setembro, a história em quadrinhos "Kick-Ass: Quebrando Tudo" será o tema da vez, e para a reunião seguinte, já está confirmada a obra brasileira "Daytripper", dos gêmeos paulistas Fábio Moon e Gabriel Bá. Com expectativa de tornar esse encontro algo recorrente, André já informou que pretende dar sequência às discussões do público sobre temas da arte sequencial, partindo, por enquanto, de publicações vinculadas à editora Panini, chegando a oferecer 10% de desconto sobre os livros comentados na reunião em seu respectivo dia de debate. Com a duração, em geral, atrelada à marca de uma hora, os papos acabam sendo ágeis e bastante estimulantes. Conforme o evento crescer, porém, acreditamos que o tempo possa ser expandido e a interação possa seguir determinado padrão de ação, dependendo da resposta do público.
 
 
Quem esteve lá para conferir essa primeira sessão, certamente, saiu satisfeito, e ficamos na torcida para que este seja apenas o primeiro passo de uma estratégia de boa relação com os leitores dos quadrinhos por parte da Livraria da Travessa, que demonstrou excelente iniciativa nesse campo.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Carioca da Gema e da Pena

Por Gabriel Guimarães


Nesta sexta-feira, dia 24 de agosto, um dos mais emblemáticos personagens da Disney para o povo brasileiro completa exatos 70 anos, com uma história de grande sucesso e muita irreverência, semelhantes àquele que é seu elemento mais fundamental: a alma carioca. Criado em 1942, o personagem Zé Carioca surgiu para apresentar ao público a belíssima música "Aquarela do Brasil", do grande músico Ary Barroso (que pode ser conferido logo abaixo), que atraiu a atenção de um importante criador de quadrinhos norte-americano, Walt Disney. Nos anos posteriores, acabou ganhando cada vez mais a atenção do público e chegou a ser quase totalmente produzido em sua suposta terra-natal, de fato, sob a batuta de grandes profissionais da editora Abril.
 
 
 
Conforme destaca a belíssima matéria do blog "Planeta Gibi" (a qual pode ser conferida aqui), o projeto que deu vida ao periquito verde cheio de trejeitos é fruto da Política de Boa Vizinhança, realizada pelos Estados Unidos, durante a década de 1940, pelo presidente Franklyn Delano Roosevelt, onde o governo americano procurava se entrosar com seus parceiros do outro lado do hemisfério para gerar uma resistência maior à adoção de ideais comunistas, que iam de encontro com os interesses americanos. Para reunir todos os países, o já mencionado Disney, um dos mais ferrenhos defensores das "boas causas", decidiu produzir um filme que retratasse a boa experiência entre os americanos e os brasileiros. O filme como um todo ficou conhecido como "Alô Amigos", em 1942, com quase uma hora de duração e uma mistura bastante interessante de cores e costumes, além de apresentar trechos da visita de diversos artistas dos estúdios Disney, dentre os quais o próprio Walt, às terras do Rio de Janeiro. Não se limitando, porém, ao povo tupiniquim, a estratégia de atingir novos povos e gerar novos mercados se estendeu à Argentina, onde surgiu o personagem Gauchinho Voador, e ao México, onde surgiu o personagem Panchito.

Em dezembro daquele ano, Zé Carioca, enfim, ganhou as páginas das revistas em quadrinhos, através da história "The Carnival King", de Carl Buettner. Tendo já sido protagonista de tiras em jornais que seriam lançadas e relançadas incontáveis vezes sob uma ótica de material inédito, Zé galgou de forma lenta a presença nos quadrinhos Disney, aparecendo em uma história de página única em 1943 e uma história de dez páginas em 1944. Logo depois, Zé Carioca estrelou sua segunda produção animada em "Você Já Foi à Bahia?", onde apresentava as terras baianas num esquema similar ao de sua primeira produção. Neste que foi o sétimo filme de animação dos estúdios Disney, o Pato Donald novamente serve como representante americano nas terras latinas, onde interage com as culturas locais e através de mistura entre animação e live-action, propõe uma maior troca de valores e experiências com os demais povos do continente americano.
 
O número 479 da revista do "Pato
Donald" foi a primeira protagonizada
pelo personagem carioca
Anos depois, Zé Carioca foi, então, produzido e publicado fora do solo americano pela primeira vez, pelo traço do argentino Luis Destuet, que se consagrou com o personagem, vindo a ser o responsável pela produção de outras histórias do personagem, publicadas aqui em terras brasileiras em 1955. Entretanto, foi apenas em 1960 que um brasileiro foi, de fato, responsável pela constituição de uma história do personagem carioca. O desenhista Jorge Kato, consagrado previamente por ser o primeiro brasileiro a publicar histórias Disney completamente produzidas no Brasil, assumiu o personagem no final de 1959 e a partir de 1961, começa a produzir todo o material das edições ímpares da revista do Pato Donald, que passaram a ser intercaladas com as histórias de Zé Carioca a partir do número 479. Por meio das histórias produzidas aqui no país, o personagem foi adquirindo reais características próprias, e se consolidando como uma grande personalidade dentre o vasto elenco da Disney. Uma vez que o contingente de histórias com o personagem não era suficiente para comportar a demanda para uma edição, ainda que bimestral, os editores da empresa de Victor Civita começaram a editar o material que recebiam de fora, inserindo Zé Carioca em histórias que anteriormente eram protagonizadas por Mickey ou Donald. Dessa forma, surgiram até outros personagens secundários de escala, como os sobrinhos Zico e Zeca, criados para substituir os três sobrinhos de Donald nas histórias adaptadas para o mercado brasileiro.
 
Zé Carioca esteve presente
desde a primeira edição da editora
Abril, em julho de 1950
Em 1972, enfim, a produção de material no solo brasileiro se mostrou capaz de suprir a demanda do mercado, e começaram a serem publicadas histórias exclusivamente produzidas para o personagem especificamente, desenvolvendo, dessa forma, seu universo pessoal e permitindo aos leitores associarem cenários e situações àquelas do contexto brasileiro. Nos vinte anos seguintes, o personagem se consagrou, foi repaginado, teve sua figura produzida mais de acordo com o padrão brasileiro, e se tornou uma grande referência para os leitores das revistas Disney dentro do Brasil.
 
Infelizmente, no final dos anos 1990, o mercado nacional de quadrinhos passou por uma grande crise financeira, e núcleos de produção como o da editora Abril acabaram fechando suas portas, encerrando assim um dos mais viáveis meios de criar um quadrinho brasileiro de qualidade, sonho de um dos grandes editores da história da Abril, o paulista Waldir Igaiara. A partir de então, a editora Abril passou a se dedicar nas republicações, e a última história inédita do personagem foi lançada pouco mais de uma década atrás, em dezembro de 2001, com roteiros de Rafles Magalhães Ramos e desenhos de Eli Marcos M. Leon.
 
Atualmente, o personagem continua sendo publicado, porém, contando raramente com material que poderia ser considerado novo, apesar de a editora Abril ainda ter em seus arquivos histórias não publicadas do periquito verde mais famoso da Disney. Vale destacar, ainda, que o potencial que o personagem demonstrou para ser feito aqui no país é digno de conferir, por ser um grande exemplo da capacidade criativa do brasileiro na expressão através da arte sequencial. Fica a recomendação, também, de que a editora Abril confirmou o lançamento de uma edição especial em comemoração a essa data com todas as tiras dominicais originais, publicadas entre 1942 e 1944, com o personagem no traço de Paul Murry, que posteriormente, se tornaria um dos grandes profissionais dos estúdios americanos da Disney. Pelos seus 70 anos de existência e grande papel na composição de muitas gerações de profissionais a admiradores da nona arte no Brasil, além de uma muito bem calhada comemoração justamente no dia do artista aqui no Brasil, certamente este malandro gente boa de penugem esverdeada merece uma devida salva de palmas. Parabéns, Zé!