quinta-feira, 3 de maio de 2012

Piratas do Rio Pequeno

Por Gabriel Guimarães

Os personagem mais conhecidos de Laerte, "Piratas do Tietê", acabam
por retratar de forma irônica a atual situação do autor, que merece atenção do público

Para se conhecer o trabalho do cartunista Laerte Coutinho não é preciso pesquisar tão a fundo. Presente em livros escolares, tiragens diárias de diversos jornais ao redor do Brasil e em livros dedicados unicamente a seu trabalho, o autor, já bastante conhecido pela sua produção desde a década de 1970, com personagens como "Overman" e "Piratas do Tietê" e histórias como "Strip Tiras", recentemente voltou a chamar grande atenção da mídia por outra razão: mesmo sem haver um interesse na homossexualidade, Laerte passou a se vestir unicamente como mulher há alguns anos e se tornou uma das grandes caricaturas ambulantes do universo em que suas próprias histórias tomam lugar. Falar da história de vida profissional dele iria muito além dos vestidos, brincos ou mesmo nanquim e papéis gastos em seus trabalhos. Seu papel para o crescimento da arte sequencial no país é imprecindível, e vale ser lembrado mediante a luz de acontecimentos recentes.

Larte Coutinho no seu visual dos anos 1980
Fundador junto com o outro quadrinista Luiz Gê, também em atividade nos dias de hoje, da revista "Balão", enquanto ainda estudava na Escola de Belas Artes, Laerte contribuía com diversas publicações voltadas para o mercado nacional de quadrinhos, e suas histórias rapidamente refletiram o tom político no qual o Brasil estava sob efeito: o da ditadura militar. Produzindo material em apoio aos presos políticos e participando ativamente dos periódicos do sindicato dos metalúrgicos, como forma de dar algum apoio às causas mais populares, foi apenas na década de 1980 que a carreira de Laerte deslanchou. Através de parcerias com outros grandes nomes do quadrinho brasileiro fortemente influenciado pelo estilo underground norte-americano, como Angeli e Glauco, Laerte publicou material em publicações que tiveram grande retorno do público, o que permitiu, em 1985, que ele lançasse seu primeiro livro solo, "O Tamanho da Coisa", que era composto por uma coletânea de suas tiras.

Anos depois, em 1991, começou a apresentar de forma sequenciada no jornal "Folha de São Paulo" sua tira mais famosa, "Piratas do Tietê", após oito anos sendo publicadas em fontes das mais diversificadas, em geral pela editora Circo, o que o catapultou aos holofotes como um dos grandes cartunistas do país. Laerte se tornou um dos sinônimos do humor nos quadrinhos do país e até hoje é considerado um dos grandes mestres do gênero na mais que centenária história do meio.

Laerte com seu visual mais recente, que tem sido referência
nos atuais eventos envolvendo a nona arte ao redor do Brasil
À luz de toda essa grande história de vida profissional, é com grande choque que hoje chega a informação que, durante a madrugada do dia 1º de maio, no bairro paulistano de Rio Pequeno, onde se encontra a casa de Laerte, ocorreu uma invasão por assaltantes que levaram dois computadores e um disco rígido externo contendo nada menos que cerca de 12 anos do trabalho deste grande quadrinista, além de dois violões, um microondas, um aparelho de DVD e dois botijões de gás. É uma grande lástima ver um país que vive um momento de grande ascensão do interesse pela nona arte sofrer baques de notícias como essa, e a mobilização nas redes sociais pelo retorno desse trabalho tem sido bastante considerável, o que demonstra uma maior preocupação com a preservação dos objetos de valor cultural para o mercado de quadrinhos brasileiro e para a própria história política do país. O autor, entretanto, quando questionado acerca do roubo, demonstrou que considera os esforços do público louváveis, mas de resultado bastante difícil, porém, aproveitou para denunciar, como sempre foi sua marca fazê-lo, outras atividades de interesse social que muitas vezes não chegam ao olhar da mídia tradicional, como uma disputa entre policiais e sem-tetos que ocorreu na Praça da Sé, no dia seguinte ao do assalto de sua casa.

Quem tiver qualquer informação sobre esse material roubado, fica aqui o desejo sincero de que entre em contato com os representantes legais envolvidos no caso, em especial, as autoridades que estão investigando o caso. A comoção tem sido muito grande pelos fãs do artista, e eles merecem realmente ver seus esforços serem recompensados com a justiça devida. Temos sido bombardeados com notícias relacionadas a problemas de ordem social que partem para o prejuízo de pessoas honestas, sejam ligadas aos quadrinhos ou não, e isso não pode continuar a acontecer sem que haja um acerto de ordem moral sobre o que tem sido passado pelas mídias mainstream à sociedade. Em 2010, perdemos a irreverência de Glauco, antes disso, um proeminente colorista brasileiro, Hermes Tadeu, que trabalhava na época para a Marvel, também foi assassinado durante um assalto fracassado no litoral de São Paulo. É mais do que hora de dar um basta nesse problema de violência com o qual acabamos por nos acomodar, e a pressão sobre as autoridades responsáveis torna-se algo mais que necessário. Não deixemos o crime passar sem retificação, e que os prejudicados, como neste caso específico de hoje Laerte o foi, possam ter o retorno de forma justa. Não basta apenas admirarmos as atitudes dos heróis nos quadrinhos, devemos aplicar os ensinamentos éticos aos cenários particulares de cada  um de nós. Se todos fizermos nossa parte, podemos chegar muito além dos sonhos mais otimistas para o cenário brasileiro, seja no mercado editorial quanto na vida em sociedade em si. Afinal, como belamente o disse o estadista, escritor e autor Edmund Burke, "Tudo o que é necessário para que o mal triunfe é que os homens de bem nada façam". Reflitamos acerca disso.

O jornal do SBT produziu um pequeno vídeo com o anúncio do assalto à casa de Laerte que pode ser conferido aqui, a quem interessar possa. O cartunista e sua família passam bem, de acordo com os meios de comunicação.

ATUALIZAÇÃO DA MATÉRIA


Nesta sexta-feira, dia 29 de junho de 2012, o 93º Departamento Policial de São Paulo, localizado na região do Jaguaré, onde foi registrado originalmente o furto do material de Laerte, chamou o cartunista para reconhecer seu material, que fora encontrado e apreendido durante a investigação de dois suspeitos no envolvimento do roubo de sua casa. Em meio a dezenas de celulares e uma pistola calibre 38, foram encontrados os HDs onde estariam contidos mais de 12 anos de trabalho do artista, segundo informa matéria da versão online do jornal Folha de São Paulo, que pode ser conferida aqui.

Uma vez que ainda não conseguiu acessar os arquivos pelos meios tradicionais, Laerte está agora procurando algum funcionário ligado ao setor de informática para saber se os arquivos foram corrompidos ou não e se eles estão com toda sua integridade de conteúdo. A comunidade dos quadrinistas e admiradores da arte sequencial fez uma movimentação impressionante em prol da captura dos ladrões e da recuperação do material roubado, e agora ficamos na expectativa de que tudo esteja em condições boas e com esperança de que este grande nome da nona arte brasileira possa ter seu trabalho de volta em mãos, conforme deveria sempre estar. Gostaríamos também, aqui, deixar de um agradecimento sincero a todos os que se mobilizaram e denunciaram o crime, pois enquanto não fizermos nada, não há como esperar mudanças. É preciso lutar para preservar o que produzimos e ainda mais para ir além. Obrigado a todos e qualquer outra novidade sobre o caso, anunciarei aqui no blog.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

L&PM E O Mercado Nacional de Quadrinhos

Por Gabriel Guimarães


Ano passado, as histórias em quadrinhos no Brasil tiveram um ano extremamente feliz, marcado por grandes eventos, lançamentos de alta qualidade e talentosos profissionais se destacando no ramo. O mercado editorial brasileiro apontou um número recorde de publicações independentes no setor da arte sequencial, destacando tanto o crescente interesse de jovens autores em ingressar no meio como uma nova realidade para a publicação de títulos no país. Uma vez que os formatos digitais permitem uma divulgação maior por parte dos próprios autores da obra, além de gráficas que oferecem serviços por encomenda limitada com bom acabamento, como a gráfica J. Sholna, presente na última edição da Rio Comicon, as editoras brasileiras passaram a se movimentar mais para trazer material às livrarias para suprir a recente demanda do público, e uma delas, especificamente, tem se destacado de forma inesperada mas muito bem vista nestes últimos meses, trata-se da editora L&PM.

Já presente no mercado de quadrinhos há décadas, sendo a principal responsável pela publicação de tirinhas como Garfield, Charlie Brown, Hagar, Dilbert e Recruta Zero, além de vários volumes de outros personagens, desde material internacional como a vencedora do prêmio Ângoloume em 2006 de melhor álbum de estreia, "Aya de Yopougon", da dupla Marguerite Abouet e Clément Oubrerie, a emocionante "Valsa com Bashir", de Ari Folman e David Polonsky, e mesmo materiais do grande pioneiro dos quadrinhos Will Eisner (que já foi tema de matéria aqui e aqui no blog), até republicações de material da turma da Mônica, do padrinho dos quadrinhos brasileiros Maurício de Sousa, fora outros grandes quadrinistas da produção nacional, como os cartunistas Angeli e Iotti, a editora L&PM aparentemente entrou forte na disputa do nicho de mercado voltado para a nona arte, que vem representando a cada ano uma fatia maior dos leitores de livros em geral. Já tendo publicado no ano passado a nova versão revisada e ampliada da "Enciclopédia dos Quadrinhos", de Goida e André Kleinert, e iniciado sua série de adaptações dos clássicos da literatura para a arte sequencial, em apoio com a Unesco, com um trabalho que, diga-se de passagem, possui grande qualidade tanto narrativa quanto artísticamente, a L&PM vem se mostrando disposta a investir mais em quadrinhos e recentemente, lançou mais dois livros do setor.

O erótico "Erma Jaguar", do francês Alex Marene, e o cômico "Simon's Cat", do britânico Simon Tofield, que segue numa linha entre Jim Davies e o brasileiro Estevão Ribeiro, são os dois mais recentes lançamentos da editora, que chamaram a atenção entre as estantes das livrarias. Tendo publicado já no final do ano passado três volumes em seu formato mais tradicional e que o cansagrou junto ao público, o pocket, de mangás que ainda não haviam chegado ao Brasil, como "Aventuras de Menino", de Mitsuru Adachi, e o já comentado e recomendado "Solanin" (cuja resenha pode ser conferida aqui no blog), de Inio Asano, a editora vem mostrando interesse em participar mais ainda da publicação de quadrinhos no país, o que é uma grande vitória para os quadrinistas e fãs do ramo.


Com um catálogo recheado de títulos de grande respeito e uma qualidade de trabalho reconhecida desde sua fundação, em 1974, pela dupla Paulo de Almeida Lima e Ivan Pinheiro Machado, a editora L&PM, que se destacou pelo rico catálogo de livros em formato de mais fácil transporte e leitura, em geral, denominados pocket books, curiosamente iniciou suas atividades justamente com material de arte nacional, do cartunista Edgar Vasques, com seu personagem "Rango", um anti-herói que se tornou marca da luta contra a ditadura militar que acontecia no Brasil. Com essa origem, não é tanto uma surpresa que a editora tenha mantido uma tradição de trabalhar com o campo da arte sequencial visando sempre a publicação com melhor qualidade possível de grandes autores do meio. Em 40 anos de existência, seu papel só fez crescer e sua presença nas casas dos leitores brasileiros aumentou cada vez mais. O futuro parece reservar boas novas vindas da editora, e sua crescente participação no mercado editorial de quadrinhos brasileiros mais do que merecia uma congratulação já há algum tempo aqui no blog. Que essa grande iniciativa e bom trabalho continuem a crescer em número e em expansão para o meio. Observaremos ansiosamente por futuros lançamentos da editora.

domingo, 15 de abril de 2012

Dia Mundial do Desenhista

Por Gabriel Guimarães



Certa vez, o poeta americano Robert Penn Warren afirmou que "os homens vivem pelas imagens. Elas se oferecem a nós das paredes do mundo e do tempo". Observando a cultura pré-histórica e os estudos arqueológicos dos últimos séculos, a declaração de Warren tem uma grande correlação com a realidade. Através do tempo, o uso de imagens como forma de expressão e consumo cultural e/ou material foi uma das atividades mais realizadas pelo homem, como se o ato de explicar por traços que simbolizam a realidade estivesse sempre dentro da essência de nossa própria humanidade.

Pinturas rupestres das cavernas onde
os primeiros homens habitaram
A relação dessa natureza fundamental do 'narrar' por imagens pode ser muito bem estudada nos livros de história antiga, e sua ligação com a arte sequencial das histórias em quadrinhos corriqueiramente lidas não tardou muito em aparecer. Através de estudos de grandes quadrinistas como Will Eisner e Scott McCloud, majoritariamente, é fácil perceber as nuances entre a primeira forma usada para comunicação efetiva na história da humanidade e o meio de comunicação de massa assumido em 1895 no jornal "New York World", sob a autoria do americano Richard Outcault, apesar de haverem alguns precursores muito interessantes que merecem destaque, como o sueco Rodolphe Töpffer, o alemão Wilhelm Busch e o ítalo-brasileiro Ângelo Agostini.

Imagem da Times Square, área mundialmente
conhecida de Nova York por seus banners
O desenho está na área mais profunda de nossa essência, pois nada mais o alfabeto é que imagens desenhadas para representar sons, e sem a língua escrita, jamais poderíamos construir uma sociedade e manter relações entre indivíduos diferentes. Tal afirmação pode soar como uma extrapolação do sentido de desenhar, mas creio que serve devidamente para enfatizar a ordem de importância do desenho na realidade. Num mundo onde hoje a comunicação visual se expandiu para todos os lados, muitas vezes provocando até uma poluição mental e dificuldade de concentração, o desenho nunca esteve tão presente e a comunicação através de imagens nunca foi tão comum e fundamental como é agora. Ziraldo afirmou, em uma entrevista dada há alguns anos, que "as histórias em quadrinhos tem o ritmo que o Século XXI exige", oferecendo assim ao leitor uma forma de adquirir novos conhecimentos e dominar novos conteúdos de forma a ter uma assimilação mais rápida e de fácil identificação.

Neste dia 15 de abril, então, nós, do blog Quadrinhos Pra Quem Gosta, gostaríamos de parabenizar todos os muitos e dedicados profissionais da arte do desenho, seja para fins narrativos ou mesmo meramente expressivos, pelo dia mundial do desenhista. A arte com a qual cada um de vocês preencheu nossas vidas tornou tudo em nós mais belo e gerou por si só dimensões de significado que muitas vezes não foram sequer imaginadas por seus autores. A vida construída a partir da arte nunca é fácil, a batalha pelo reconhecimento e valorização é árdua e duradoura, precisando muitas vezes ser travada continuamente, rompendo barreiras e conceitos previamente estabelecidos. Porém, foi nessa área que grandes homens imortalizaram seu legado para nossa espécie. Desde a pintura renascentista até a atual arte narrativa dos comerciais, o desenho foi uma grande ferramenta de mudança. Paradigmas, conceitos e até governos ruíram ou se erigiram a partir das imagens, e assim continuarão, enquanto durar nossa existência.

Vitor Cafaggi em destaque, autografando
edição de "Pequenos Heróis" na Rio Comicon 2010
Nos quadrinhos, grandes nomes ficaram marcados na história do gênero por suas contribuições. O próprio Eisner, que realizou alguns dos principais estudos acerca do cerne no qual a arte sequencial se baseia (termo, inclusive, o qual ele teve total autoria), é um forte exemplo disso, além de muitos outros mestres do traço, como os hábeis John Buscema e Jack Kirby, o despretensioso porém marcante Bill Waterson, os desinibidos Milo Manara e Guido Crepax, o imaginativo Jean Giraud (que já foi tema de matéria aqui no blog antes), o eficiente Milton Caniff, o realista Alex Ross, ou mesmo no campo brasileiro, no traço cheio de narrativas em sua estrutura do paraibano Mike Deodato Jr, a pureza do mineiro Vitor Cafaggi, o sensível e romântico paulistano Mário Cau, o peculiar e absorto carioca Lourenço Mutarelli, e os poéticos e gênios gêmeos, também de São Paulo, Fábio Moon e Gabriel Bá, entre tantos outros, sem contar o grande padrinho dos quadrinhos nacionais, que foi tema citado na última matéria do blog, o paulistano Maurício de Sousa.

Mário Cau, em frente a uma de suas histórias, cuja
narração é feita de forma linear porém dando liberdade
ao espectador de construir sua própria compreensão da obra

A todos os grandes companheiros de quadrinhos, deixo as mais sinceras congratulações e o desejo por um futuro cada vez melhor, com mais reconhecimento e mercado para suas grandes obras de arte, que tornam-se nossas também ao assumir um canto muitas vezes esquecido dentro de nossos corações, o campo do imaginário e da emoção. Se o ditado "uma imagem vale mais que mil palavras" tivesse qualquer porção de acertividade, através dos trabalhos de vocês pudemos ouvir suas almas cantarem as mais belas árias e atentar para as mais questionadoras exposições do mundo social em que vivemos. Porém, acredito que a palavra tenha igual valor à imagem e, portanto, gostaria também de deixar sinceros votos de alegria e realização para os autores de roteiros e peças escritas, que inundam nosso imaginário das imagens que pretenderam construir.

Grupo de quadrinistas da revista "Beleléu",
reunidos para desenhar suas histórias

Fica, então, um grande agradecimento a todos por suas colaborações singulares e de valia inestimável para a vida de cada um de seus espectadores e/ou "leitores". Parabéns pelo dia do desenhista a todos, e que a arte que os guia possa sempre render-lhes novas experiências tanto dentro quanto fora de vocês mesmos e para cada um de nós também. Parabéns!

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O Encontro de Dois Mestres

Por Gabriel Guimarães



Recentemente, chegou às bancas ao redor do Brasil inteiro a edição número 44 da Turma da Mônica Jovem, que representou a união das criações de dois dos grandes mestres na arte sequencial, o brasileiro Maurício de Sousa e o japonês Osamu Tezuka. Considerados padrinhos das histórias em quadrinhos de seus respectivos países pelo papel e importância adquirido por suas criações e dedicação profissional, a dupla já mereciam ter uma homenagem como essa há tempo até demais.
Edição número 43 da Turma
da Mônica Jovem, onde
o crossover começou

Amigos pessoais desde que se conheceram durante uma visita realizada por Maurício por convite da Fundação Japão, há décadas atrás, para que o autor brasileiro pudesse aprender um pouco mais sobre a cultura das crianças japonesas, a relação dos dois começou com um grande aperto de mãos. Tezuka foi um dos primeiros a receber Maurício no aeroporto, o que já era considerado uma grande honra na época, uma vez observada a importância do autor japonês para toda a cultura de desenhistas que surgia no país.

Originário da cidade de Takarazuka, Osamu conquistou o Japão com sua arte e seu desejo sincero de entreter ao mesmo tempo que proporcionar experiências únicas , tocantes e reflexivas, em cada uma de suas histórias. Com uma vida dedicada à arte, fosse em páginas impressas ou em filmes produzidos por seu estúdio de animação, Tezuka proporcionou ao seu país os pilares sobre os quais construir uma das indústrias de fantasia e ficção mais impactante do mundo. Tezuka era um deus para os quadrinistas japoneses, e seu reconhecimento era mundial. A disponibilidade oferecida pelo próprio autor para receber e acolher bem Maurício era um reflexo de seu alto caráter e dedicação ao meio. Apaixonado pela atuação em si, uma vez que sua cidade natal tinha um gigantesco teatro como um de seus principais pontos de referência local, Tezuka passava dias e noites trabalhando sem parar em suas obras, sem, por isso, deixar de comparecer e prestigiar outros mestres dos quadrinhos que conhecia.

Maurício e Osamu
A fim de conhecer um pouco também da produção brasileira de quadrinhos, Tezuka aceitou o convite da mesma Fundação Japão que levara Maurício às terras do Oriente para vir até o Brasil e conhecer seus colegas de profissão, um oceano além. No dia 29 de setembro de 1984, Tezuka chegou às terras brasileiras no aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Iniciada dois dias antes, no Museu de Artes de São Paulo (MASP), a exposição com a arte do mestre japonês atraía muitos dos seus admiradores, além de oferecer ao público um contato com o trabalho de muitos dos autores brasileiros que se destacavam na época. Durante a visita a esta exposição, no dia 30 de setembro, Tezuka pôde conhecer essa comunidade artística nacional, representada por nomes como Jayme Cortez (o blog já o homenageou aqui), Gedeone Malagola, Rodolfo Zalla, Naumin Aizen, filho do grande editor russo-brasileiro de quadrinhos Adolfo Aizen, dentre muitos outros honrados autores, além, é claro, do já companheiro Maurício. Segundo a Associação Brasileira de Desenhistas de Mangá e Ilustração (ABRAMI), Tezuka elogiou principalmente o trabalho de Cortez e de outro brasileiro cuja etnia nipônica era a mesma de Tezuka, o recentemente homenageado pela escola de desenho Impacto Quadrinhos no último Dia do Quadrinho Nacional, Julio Shimamoto.

Osamu e Maurício
A visita de Tezuka continuou, contando com outras muitas festividades para comemorar a presença ilustre do padrinho dos mangás, mas logo ele teve de voltar ao Japão, onde deu continuidade a seus incontáveis projetos. Apenas anos depois, agora novamente em viagem de Maurício à terra do Sol nascente, os amigos se reencontraram, em 1989, sob circunstâncias nada adequadas. Vitimado por um câncer, que poucos dias depois viria a tirar sua vida, Tezuka precisou organizar todo um esquema especial para encontrar com o mestre dos quadrinhos brasileiros e passar alguns conselhos de sua tão representativa vida para seu companheiro de arte sequencial. O arrependimento pela violência presente na maioria dos mangás que ganhava popularidade na época foi um dos assuntos comentados, além de pedidos pessoais para Maurício, como um maior aproveitamento da vida do brasileiro, para que não repetisse seu erro de exaurir sua vida apenas pelo trabalho, deixando em alguns momentos de lado sua família e vida pessoal. O padrinho dos quadrinhos brasileiros ouviu atenta e melancolicamente os desejos de seu amigo e soube que aquela seria sua última conversa com ele.

Imagem produzida por Maurício pouco após a morte de
seu grande amigo e companheiro de profissão, Osamu Tezuka
Ao chegar no Brasil, Maurício foi informado do falescimento do mangaká Osamu Tezuka, em 9 de fevereiro de 1989, quando decidiu produzir a seguinte imagem, em homenagem ao seu amigo. O mundo perdia um homem, mas a arte japonesa e a riqueza cultural mundial perdeu um de seus maiores e mais importantes autores, responsável por criações atemporais e consagradas, como "Astroboy", "Metrópolis", o jovem leão "Kimba", precursor da história do Rei Leão, além dos personagens "Black Jack", Safiri, de "A Princesa e o Cavaleiro", que estiveram presentes na mais recente história da turma jovem dos personagens de Maurício, numa forma de homenagem à parceria e amizade destes dois grandes mestres.

Abaixo, o vídeo de divulgação da primeira edição que continha essa história especial, realizada na loja Saraiva Mega Store, do Shopping Center Norte, em São Paulo, no dia 28 de fevereiro deste ano de 2012. Certamente, a história, centrada em torno da proteção da selva amazônica e da relação entre os personagens, originados de suas próprias histórias para se reunirem em um ponto comum, entrará para a lista fundamental de material a ser conferido dentre as publicações deste ano. Não deixem de conferir.


sexta-feira, 30 de março de 2012

Solanin - Ode Solene à Despedida da Inocência

Por Gabriel Guimarães


Inio Asano

Entre os anos de 2005 e 2006, o quadrinista japonês Inio Asano apresentou sua obra que viria a ter maior repercussão dentre suas criações. Centrada no rito de passagem para a vida adulta da jovem Meiko Inoue, a obra "Solanin" apresenta uma sensibilidade ímpar quanto às inseguranças do crescimento e aos anseios e batalhas pela realização de sonhos.

Ambientada no período pós-término de faculdade dos personagens, em Tóquio, ao mesmo tempo em que apresenta algumas cenas relacionadas ao tempo em que estes estudavam na faculdade de Tamagawa, onde se conheceram, a história apresenta um ritmo de leitura extremamente tranquilo e de fácil identificação. Perante o abismo do mistério que representa a vida adulta, Asano apresenta os questionamentos vividos pelos jovens japoneses que não querem apenas serem mais um em meio a um mundo mecanizado. A fim de fugir da rotina frustrante e dos constantes desentendimentos entre suas expectativas e a realidade, é que Meiko decide abandonar seu emprego numa firma para se dedicar a algo que nem mesmo ela sabe explicar o que é. A partir deste momento é que passamos a acompanhar a jornada dela e de seu namorado e companheiro de apartamento, Naruo Taneda.

Grupo tocando num dos ensaios da banda formada por
Taneda, Kato e Yamada
Observando as reações dessa atitude naqueles ao seu redor e em sua família, que é de uma província mais do interior do país, Meiko passa por um período de descobertas e redescobertas, onde encara todas as nuances do mundo em que vive, principalmente através do seu relacionamento amoroso. Taneda, o outro grande protagonista da história, trabalha como freelancer para uma empresa, realizando tratamento de imagens em trabalhos que serão veiculados para o grande público, mas igualmente, não possui qualquer paixão real pela atividade. Quando encara a realidade do pedido de demissão de Meiko, ele também inicia uma jornada de amadurescimento e busca por realização. Contando com o apoio invariável de seu círculo de amigos, formado pelo imaturo Kenichi Kato e sua namorada por insistência Ai Kotani, e do igualmente imaturo porém mais sério Jiro Yamada, mais conhecido pelo apelido "Billy", o casal passa por experiências marcantes na formação de seu caráter e na própria concepção da união dos dois, que já durava mais de seis anos.

Decidindo ir atrás do sonho principal do grupo, de formar uam banda e transformar o mundo de alguma forma através de sua música, o grupo passa a se reunir para praticar junto e começa a procurar oportunidades junto às grandes gravadoras, encarando, de forma inesperada, a mesma burocracia da qual a vida parecia encher-lhes o tempo e esvaziar-lhes de esperança. Em momentos de grande conflito psicológico, é possível ao leitor crescer junto com seus personagens, elemento o qual é peça essencial das grandes obras, independente da mídia em que é apresentada. Com muito humor, drama, romance e toques de nostalgia, "Solanin" ganha status de uma história que merece ser lida devido ao seu alto nível de sensibilidade sobre o assunto trabalhado. A fim de não estragar a leitura da obra para o leitor, o que de forma alguma pretendemos fazer no blog Quadrinhos Pra Quem Gosta, não revelaremos ou comentaremos sobre alguns excelentes momentos chave da história, entretanto, deixamos aqui nossa sincera e veemente recomendação pela leitura desse material. Publicado no Brasil no ano passado pela editora L&PM em dois volumes de pouco mais de 200 páginas cada, reunindo os 28 capítulos da história (o excelente trabalho recente que a editora L&PM vem realizando com as histórias em quadrinhos, diga-se de passagem, ainda será tema de matéria específica aqui no blog), o trabalho é surpreendentemente pouco conhecido no mercado ocidental, apesar de ter concorrido ao Prêmio Eisner, em 2009, por melhor edição de material estrangeiro publicado nos Estados Unidos.
Capa da versão do mangá lançado no Brasil
Pôster do filme no Japão


Adaptado para o cinema japonês em 2009, com a consagrada atriz Aoi Myiazaki no papel de Meiko, e sob a direção de Takahiro Miki, "Solanin" possui em si um caráter sublime. O primeiro trecho do filme pode ser conferido no site Dramacrazy, que pode ser acessado aqui. Curiosamente esquecido na lista do livro "1001 Comics You Must Read Before You Die", publicado ano passado pela editora Cassell Illustrated, que apesar de ser uma editora dos Estados Unidos, contou com a colaboração de Tatsuya  Seto, renomada crítica de quadrinhos no Japão, Chie Kutsuwada, entusiasta do mangá e graduando da Escola Real de Arte, em Londres, sem contar o próprio organizador do livro, o americano Paul Gravett, autor do livro "Mangá - Como o Jaão Reinventou os Quadrinhos", a obra de Inio Asano não merece ser relevada, figurando entre estas grandes recomendações com igual merecimento.

O mangá de Asano é, portanto, uma ode ao adeus para a inocência, da fase da vida em que tomamos as principais decisões sobre nossos sonhos e do que estamos dispostos a fazer para ir atrás deles. Tanto na história, quanto em suma, "Solanin" é uma despedida, melodia com a qual a vida segue seu caminho e transforma as pessoas, das formas mais inesperadas possíveis. Simplesmente inesquecível e arrebatadoramente tocante.


NOTA GERAL: 5 ESTRELAS.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Quando o Humor Perdeu a Graça

Por Gabriel Guimarães

Chico Anysio
Em menos de uma semana, a cultura popular brasileira perdeu dois de seus maiores mestres. Donos de habilidade ímpar sobre fazer os outros rirem, Chico Anysio e Millôr Fernandes concluíram sua passagem por esse mundo deixando marcas em todos aqueles que tiveram o prazer de conhecê-los ou assistirem às suas apresentações, independente da plataforma, voltadas para o humor puro e simples.


Nascidos em uma época de grande potencial para o humor político, ambos iniciaram suas carreiras, porém, com dedicação a campos mais tradicionais, como o locutor de jornal no caso de Chico e assistente de produção da revista "O Cruzeiro", no caso de Millôr. A notoriedade começou a ganhar forma depois na vida dos dois humoristas. Escrevendo sob o pseudônimo 'Notlim', Fernandes passou a assumir posições mais distinguidas dentro da hierarquia editorial, assuminando a direção da revista "A Cigarra", onde ganhara um concurso público de contos. Pouco depois, tornou-se o responsável também pela renomada revista "O Guri", publicada pelo editor Frederico Chateubriand no começo da década de 1940.  Chico, por outro lado, começou participando de concursos para locutor de rádio junto de sua irmã, ainda aos seis anos, alcançando, porém, aos 17 anos, sua melhor colocação, em segundo lugar, atrás apenas de um outro jovem que começava a mostrar seu potencial para o manejo social que viria a consagrá-lo em absoluto no futuro, Sílvio Santos. Trabalhando em vários setores da Rádio Guanabara, Chico começou a se arriscar escrevendo diálogos para peças promocionais, e em 1957, estreou pela primeira vez na frente das telas, no programa "Noite de Gala".

Millôr em seu escritório. A importância dos quadrinhos em sua
vida foi um dos fatores que o cartunista mais destacou ao longo de sua vida

"Chico City" foi um dos programas mais populares feito por
Chico Anysio, que estreou em 1973 e durou até 1980
Antes, porém, de Chico alcançar o estrelato televisivo, seu companheiro de campo Millôr se consagrou enquanto profissional dos mais diversos meios de comunicação, a partir de seu empenho, quando aprendeu, por exemplo, a ser tradutor a partir de seus próprios conhecimentos, sem orientação de outrem. Ao mesmo tempo, escreveu peças, artigos e produziu caricaturas para as publicações da época, chegando, ainda aos 18 anos, a participar da Exposição Internacional do Museu da Caricatura de Buenos Aires. Curiosamente, no mesmo ano em que o rosto de Chico Anysio se tornava conhecido na televisão, Millôr recebeu sua primeira exposição particular no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Chico mostrou sua estrela nas participações iniciais e conseguiu seu próprio show para estrelar em 1959, sob o nome "Só Tem Tantã", que mais tarde viria a ser chamado de "Chico Anysio Show". Vale destacar também que em 1972, Chico Anysio chegou a ser publicado em quadrinhos também, a partir da alta popularidade de alguns de seus personagens.

Após uma série de prêmios, ambos estes grandes mestres do humor se consagraram como figuras facilmente reconhecidas e respeitadas no meio social, atingindo leitores de todas as camadas sócio-econômicas da população. Chico, através de seus cerca de 453 personagens e Millôr, através de seu instigante senso crítico, se tornaram ícones de uma geração carente da discussão suave e ponderada sobre os conflitos experimentados pela sociedade. Conforme Anysio destacou, em uma de suas últimas entrevistas, "o humor é tudo, até engraçado." Com uma frase simples como essa, mas poderosa em termos de conteúdo, todo o produto da vida destes dois mestre na arte do humor se torna semente para a transformação do mundo em um ambiente mais agradável para todos. O riso levado ao máximo de pessoas possível jamais será esquecido, e os livros, programas, artigos, entrevistas, entre tantas outras criações maravilhosas feitas por ambos não perderão sua validade nem seu valor.

Um dos muitos livros de Millôr,
cujo caráter político sempre esteve
em grande evidência
Usando do humor como ferramenta de conscientização social e de suas próprias histórias de vida como exemplo da superação de dificuldades, uma vez que Millôr perdeu seus pais muito novo ainda, quando foi morar com seus tios, aos 12 anos, e Chico veio para o Rio de Janeiro junto com sua família da cidade de Maranguape, do estado do Ceará, à procura de melhores condições de vida num centro urbano, estes dois mestres escreveram em linhas fortes suas mensagens e, conforme Fernandes destacou "viver é desenhar sem borracha." Ambos encararam grandes riscos em cada decisão que tomaram ao longo do caminho, e voltar atrás de algumas delas é um fato que nem sempre foi possível. Portanto, a consolidação de suas histórias de vida vitoriosas é reflexo do esforço e talento de ambos para com as áreas em que se envolveram. Obstáculos foram superados, erros foram cometidos, mas no final, tudo correu bem.

Hoje, consagramos a memória de mais do que estes dois profissionais modelo, mas sim de pessoas inestimáveis pelo seu desejo de ir além do que oferecido de bandeja. Perdemos mestres na arte de viver bem, mas ficamos com suas lições de vida e seus grandes bordões imortalizados em nossa memória. Citando novamente Chico, "a frase 'Todos são substituíveis' não se aplica aos humoristas, porque todos os humoristas são insubstituíveis. Jamais teremos outro Costinha, jamais teremos outro Oscarito, jamais teremos outro Mussum", complemento, sem hesitar, que jamais teremos outro Chico Anysio e jamais teremos outro Millôr Fernandes também. Obrigado por tudo e descansem em paz e em alegria, tamanha a que os dois causaram a seus grandes públicos.

O jornal "Correio Braziliense" apresentou um histórico da carreira de Chico Anysio muito interessante que pode ser conferido aqui, e o jornal "O Globo", onde Millôr mais consagrou seu material, também prestou uma merecida homenagem ao cartunista, que pode ser vista aqui também.

quarta-feira, 21 de março de 2012

A Poesia nos Quadrinhos

Por Gabriel Guimarães 


Seja no trovadorismo, no romantismo ou mesmo na pós-modernidade, a poesia sempre esteve presente na literatura. Por rima, tom lúdico e melódico, ou mesmo uma estética atípica e instigante, a essência da poesia sempre esteve no desejo mais profundo do ser humano, de almejar sonhos grandiosos e inspirados. Ao lidar com temas relativos ao cerne das emoções, passando pelas grandes aventuras e intensas paixões, esse gênero literário se consolidou como um dos mais belos e dos mais importantes para a complitude de uma vida textual para o leitor.

Mario Cau autografando
uma das edições de
"Nós - Dream Sequence Revisited"
Esteja presente nas cartas de amor do escritor Mark Twain para sua esposa Olivia Langdon, ou mesmo nas canções inesquecíveis do gênero musical da Bossa Nova, que se consolidou como melodia na década de 1960 na cidade do Rio de Janeiro, o amor tem sido, talvez, o grande desencadeador de poesias, e isso também pode ser encontrado nos quadrinhos. Histórias como "Meu Coração, Não Sei Por Quê", dos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, e a edição especial "Nós - Dream Sequence Revisited", do talentoso quadrinista Mario Cau (cujo lançamento na Rio Comicon de 2010 foi comentado aqui no blog), são alguns exemplos disso. Apesar de apresentarem tramas diferentes, ambas dançam com as emoções do leitor, trazendo-o para dentro do universo dos personagens e tornando-o parte fundamental da história, como o responsável por dar vida aos traços de nanquim em uma simples folha em branco. Brincando com a cor, inclusive, é que Cau explicita o vínculo de seu protagonista com seu amor, e brincando com a densidade da arte-final, por sua vez, os gêmeos também convidam o leitor a considerar o amor em meio à fantasia que compõe o mundo de sua história.

Representação do próprio Norman Rockwell sobre
a produção de sua arte
Entretanto, não é apenas ao romance amoroso que se resume a poesia. Seja por um pequeno detalhe em meio ao turbilhão de informações ao redor da vida social nos dias de hoje ou mesmo por uma reflexão momentânea e inesperada acerca de memórias, estamos sempre sob o efeito daquilo que esse gênero mais se preenche: sentimento. Praticamente tangível na sensibilidade do trabalho de Will Eisner quando este expõe a vida cotidiana nas grandes metrópoles e as relações entre as construções e as pessoas, que pode ser visto com grande perspicácia, por exemplo, em sua obra "O Edifício", a poesia pode estar presente tanto na nossa relação com o exterior a nós, quanto em momentos de intimidade e aconchego, como é possível observar nas ilustrações familiares do artista que tornou marcante visualmente o âmbito familiar, Norman Rockwell.


A semelhança é nítida entre Neil Gaiman e o protagonista de sua grande história
Igualmente importante é destacar a porta que a poesia nos abre para a fantasia do imaginário. Desprendido de sensos e consensos, em poucas linhas, retas ou tortas, o gênero pode nos levar muito além dos limites da visão e ampliar, dessa forma, nossas capacidades sensoriais de forma primorosa. Poucos se comparam nesse quesito ao do roteirista britânico Neil Gaiman, com sua obra máxima "Sandman", cuja abordagem e propriedades limitam-se apenas por aquilo que nomeia sua própria forma de apresentação: os sonhos. Lógicos ou não, agradáveis ou aterrorizantes, Gaiman realiza um mergulho na fonte da humanidade de seus personagens, atraindo para as páginas de suas histórias todas as características fundamentais de sua composição, desde seus desejos até suas falhas, suas glórias e decepções. Além dessa obra, Gaiman já explorou seu potencial narrativo de diversas outras maneiras, sem jamais, porém, abandonar sua mirabolante paixão pela fantasia. Obras como "Stardust" e "Coraline" são grandes exemplos disso.

Cena do trabalho de George Pratt sobre
as memórias da Primeira Guerra Mundial
Em outro aspecto passível da formação da poesia, encontra-se um estilo quase difícil de compreender sua exata conexão com o tema, representado na epopéia, grande formato das poesias épicas, em geral, cujo tema é relacionado a grandes aventuras épicas e envoltas em aspectos morais. Possível de encontrar em recentes adaptações da literatura para os quadrinhos, como o clássico "A Odisséia", de Homero, adaptado por Christophe Lemoine e Miguel Lalor Imbiriba, publicado recentemente numa excelente fase da editora L&PM aqui no Brasil, a partir de apoio da Unesco, ou mesmo em histórias sobre redenção e conflito durante as grandes guerras, como é o caso da edição "Ás Inimigo - Um Poema de Guerra", do quadrinista George Pratt, a poesia épica também oferece grandes oportunidades de enriquecimento pessoal para seus leitores.


Apesar da extensão para a poesia além das palavras feita aqui, o núcleo desse gênero que tanto nos toca vai além de determinados suportes, parando apenas onde nossa percepção e imaginação nos permite associar. Seja no leve assobio dos pássaros ou mesmo na suavidade de um beijo, a poesia se faz presente em cada dia das nossas vidas, e jamais podemos tampar nossos ouvidos ao seu maravilhoso chamado para, mais uma vez, vivermos intensamente tudo aquilo que ela tem a nos oferecer, ainda que seja apenas eterno enquanto dure.