domingo, 11 de março de 2012

Guerreiros do Quadrinho Nacional

Por Gabriel Guimarães

  
Imagem da primeira tentativa do grupo de produzir quadrinhos
eletrônicos, que acabou não indo para frente na época
Em 2003, o grupo Kaplan, composto pela dupla de Minas Gerais, Alex D'Ates e Gio Vieira Rocha, começou a esboçar seu desejo de entrar no mercado de quadrinhos eletrônicos. Com uma proposta de  oferecer quadrinhos digitais em um formato confortável, onde cada quadrinho seria exibido na tela inteira do dispositivo de leitura, eliminando dessa forma o estilo tradicional da narrativa de página das revistas, porém, cuja principal característica se encontra no fator econômico do projeto: os quadrinhos produzidos pelo grupo seriam fornecidos gratuitamente para seus leitores.

Com o objetivo de tornar essa aspiração algo viável, o grupo batalhou muito para conseguir lançar, em 2009, a primeira história em quadrinhos produzida para iPhone do Brasil. Entitulada "O Legado", a história narra a luta do personagem Tersano para derrubar o sistema social totalitário em que seu mundo estava inserido. Com o gênero de fantasia com que as histórias do grupo ficaram marcadas, esse primeiro título produzido foi uma iniciativa extremamente positiva, em uma época em que o formato mobile ainda estava começando a se consolidar, mas cuja repercussão já demonstrava que nele carregaria muito do futuro potencial comunicativo dos quadrinhos. Apesar de ter sido lançado ao custo de R$ 0,99 na Apple Store, como forma de procurar sustentar o projeto, o grupo percebeu que o fato de ainda ser um embrião do quadrinho nacional junto à concorrência de conglomerados americanos de arte sequencial tornava a continuidade desta estratégia especificamente inviável.


Com isso, voltaram-se para sua proposta original e decidiram investir na produção de um site onde as histórias de seu universo de personagens poderia ser mais de acordo com a ideia original, focada no livre acesso aos quadrinhos sem qualquer custo financeiro. Utilizando ainda do modelo de visualização em que seu primeiro material foi distribuido, o grupo Kaplan decidiu lançar uma nova série, entitulada "Mercenary Crusade", cujas edições acompanham as aventuras da dupla de mercenários Málef e Ryaad em um mundo repleto de criaturas mirabolantes e de uma natureza particular.

Agora disponibilizado gratuitamente apenas no site do grupo, chamado "Kaplan Project Comics", que pode ser conferido aqui, a série apresenta um sistema de publicação semanal e uma interatividade com o público muito grande, onde os autores procuram observar as reações dos leitores ao desenrolar da história, a fim de construírem uma narrativa capaz de evoluir os personagens e agradar a todos os potenciais fãs do título. Outra questão tratada com bastante atenção pelo grupo tem sido a exploração de novas plataformas para a expansão do universo de seu novo título e, em breve, grandes novidades acerca disso devem surgir nas postagens do perfil do grupo no Facebook, cuja página pode ser conferida aqui.

Uma das artes originais do universo em que se passa
a história "Mercenary Crusade", divulgada na FIQ de 2011
O recurso mais recentemente divulgado de expandir as sensações do mundo de Kaplan foi exposto na última edição da Feira Internacional de Quadrinhos (já comentamos sobre o FIQ aqui no blog antes), de Belo Horizonte, em 2011, no formato do primeiro cardgame inteiramente brasileiro. Com cerca de 3500 cards distribuidos ao público, o resultado foi uma nova leva de leitores bastante empolgados pelo universo dos mercenários. Observando esse retorno, o grupo Kaplan agora iniciou uma batalha para conseguir bancar o custo de produção de toda uma leva de cards para permitir aos leitores tomarem parte no mundo dos personagens e, para isso, abriu uma conta no site Movere, de financiamento coletivo. Já tendo sido utilizado por outros projetos, como a história "Achados e Perdidos" (que já foi citado aqui no blog), do site Quadrinhos Rasos, o sistema de financiamento coletivo tem sido uma forma de produção mais custeável para produtores independentes e também tem inovado o campo da interação entre os produtores e consumidores de conteúdo para entretenimento, o que vem revolucionando o modelo editorial de produção dentro das editoras e profissionais do ramo.

Exemplos dos cards que serão lançados pelo grupo Kaplan

A quem tiver interesse de colaborar de alguma forma para a produção do cardgame do grupo Kaplan, o link contendo as informações para tal pode ser visto aqui. O vídeo disponibilizado na página explica mais detalhadamente como funciona o jogo em que as cartas a serem produzidas estarão aptas para serem utilizadas, e explica também um pouco do projeto do grupo como um todo. O retorno pelo investimento feito também é descrito minuciosamente na página, permitindo uma maior compreensão da importância da participação de cada colaborador. Aguardaremos ansiosos pela confirmação do projeto, que estará aberto a investimento até o dia 13 de abril deste ano. Confiram!

sábado, 10 de março de 2012

Jean Giraud e a Lenda de Moebius

Por Gabriel Guimarães


Em 1954, ao ingressar para a École des Arts Apliqués, em Paris, o ainda jovem Jean Giraud iniciou sua trajetória rumo a uma vida marcada pelo extraordinário. Fosse pelas estruturas colossais e detalhadamente compostas, os excêntricos personagens, as tramas megalomaníacas ou mesmo a premiada e internacionalmente reconhecida carreira, Giraud marcou seu nome na história da arte sequencial, entretanto, não é pelo nome que constava em sua carteira de identidade que o público mais conheceu seu trabalho. Sob o pseudônimo de Moebius, os trabalhos experimentais de ficção científica de Giraud conquistou o mundo, e arrebatou o mundo dos quadrinhos em um turbilhão de cores e movimentos inovadores.

Quadrinho de uma das histórias do "Sargento Blueberry",
publicado em 1970
Publicando pela primeira vez em um períodico na revista "Far West", na história entitulada "Frank et Jeremie", em 1956, Giraud, ainda com 18 anos de idade, entrou no mercado de banda desenhada de forma desconhecida. Foi apenas a partir de 1963, desenhando os roteiros de Jean-Michel Charlier para um personagem que viria a se tornar referência no estudo de evolução de personagens, o "Tenente Blueberry", que foi publicado até os anos 1980 pela dupla e, posteriormente, sob a autoria única de Giraud até 2005, que o artista francês começou a chamar a atenção dos holofotes. Aproveitando da atenção sobre seu trabalho, lança, em 1973, sua primeira fábula de ficção científica e fantasia, "O Desvio". Nos anos seguintes, começa a lançar uma série de histórias que começam a montar a estrutura na qual sua carreira foi se fortalecendo, com "O Homem é Bom?", em 1974, e "O Pesadelo Branco", em 1975.

Cena de uma das histórias de Moebius,
onde o grande destaque fica por conta do visual
industrial e altamente avançado da metrópole
Em 1976, porém, é que o pseudônimo de Giraud começa a ser citado ao redor do mundo todo, com sua história "Arzach", publicada mediante pedido da revista "Metal Hurlant". Publicado recentemente de forma extremamente bela pela editora Nemo aqui no Brasil, o material expôs uma qualidade de traço inigualável para os quadrinhos da época, o que levou a revista a pedir novo material para o artista, encontrado em "Le Garage Hermétique". Moebius, então, começa a apresentar um ritmo de produção impressionante, realizando ilustrações para pôsteres e cartazes publicitários, além de prestar serviço ao amigo roteirista de quadrinhos e produtor cinematográfico Alejandro Jodorowsky, desenhando conceitos visuais para o projeto de adaptação que Jodorowsky tinha, de levar o conto "Duna", escrito em 1965 pelo escritor Frank Herbert, para a sétima arte. Apesar de esse trabalho não ter se concretizado, sendo apenas produzido em 1984 pelo diretor David Lynch, Moebius colaborou com a concepção visual de diversas obras cinematográficas, como "Alien", em 1979, "TRON", em 1982, "O Segredo do Abismo", em 1989, "O Quinto Elemento", em 1997, entre muitos outros.

Cena de "O Quinto Elemento", em que é bastante clara
a influência do estilo de Moebius
Com seus cenários futurísticos e repletos de elementos de fantasia e ciência, e seus personagens, em geral, marcados pelo ceticismo e cansados do fardo de viverem em uma sociedade cuja essência é corrupta, Moebius criou obras de grande qualidade visual e narrativa, como a série "Incal", onde conta as histórias do detetive particular atrapalhado John Difool em sua desventura ao redor de um mundo de moral nebulosa e personalidade questionável pela segurança de um artefato transcendental de poderio inimaginável.



Ilustração de Escher, cujo estilo detalhado
se assemelha ao de Moebius
Moebius se tornou sinônimo de um trabalho minuciosamente detalhado e construtivamente desafiador. Com elementos visuais que parecem remeter à qualidade impressionante do trabalho do artista gráfico holandês Maurits Cornelis Escher, referência na arquitetura paradoxa, o trabalho deste quadrinista francês jamais será esquecido por seu valor para a arte sequencial. O site americano Paleofuture publicou, recentemente, um pequenos documentário sobre a carreira deste grande artista, produzido pela rede BBC, que vale a pena ser conferido, ainda que esteja apenas em inglês. A quem interessar, a matéria em questão pode ser conferida aqui.

Hoje, porém, o mundo perdeu um pouco de seu brilho artístico, quando foi noticiado nos veículos de comunicação internacional que Jean Giraud falecera, aos 73 anos de idade, em consequência de uma luta contra um câncer, segundo relatou o editor do artista, em nota da editora Dargaud, conforme informou o portal Reuters de notícias para o Brasil. Tendo sido um dos grandes nomes da indústria dos quadrinhos em que a já mencionado editora Nemo investiu para conquistar o público leitor da nona arte, Moebius deve continuar em evidência no mercado editorial brasileiro, dando, assim, a oportunidade ao público de acompanhar a carreira célebre de um dos grandes artistas a marcar seu nome na história do gênero. É com um pesar que essa matéria se consolida, nas lágrimas de um meio que perdeu um de seus grandes provedores de qualidade. Conforme o estudioso dos quadrinhos brasileiro, Carlos Patati, ressaltou, no começo do ano, em seu curso ministrado no Centro Cultural da Caixa Econômica, no Centro do Rio de Janeiro (que pode ser conferido aqui, aqui, aqui e aqui), a qualidade de Moebius é algo único, e a densidade de seu trabalho enquanto forma de narrativa um exemplo de como esse recurso pode ser trabalhado. Os pesquisadores Goida e André Kleinert, na última e um pouco carente edição da "Enciclópédia dos Quadrinhos", também destacam a carreira deste profissional como algo que merece ser relevado pela sua importância e alta produtividade, e o professor e referência do estudo de quadrinhos no Brasil, Álvaro de Moya, em seu livro "Vapt-Vupt", aponta a mistura entre a fantasia e realidade, a mística e o delírio nas obras deste grande artista francês, e o quanto elas são ferramentas importantes para a compreensão do potencial das histórias em quadrinhos enquanto recurso expressivo.

Os dois volumes publicados pela editora Nemo, que trouxe
o grande mestre dos quadrinhos franceses de novo para a frente
dos holofotes no mercado editorial brasileiro
Portanto, o papel desempenhado por Giraud, e posteriormente por Moebius, é de suma importância para a história dos quadrinhos como meio de comunicação, e seu trabalho jamais poderá ser ignorado enquanto instrumento de composição ficcional e de potencial representativo do meio. Os quadrinhos perdem mais um de seus grandes pilares, e nos resta absorver o que pudermos das obras deixadas por esse mestre para que possamos dar continuidade à sua jornada de valorização devida para a arte sequencial.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Mulheres nos Quadrinhos

Por Gabriel Guimarães


Já há muito tempo, esse assunto está em pauta para ser trabalhado aqui no blog, porém, a sua vasta extensão em termos de relevância, vertentes e núcleo de pesquisa acabaram por tornar complicada sua abordagem. Hoje, entretanto, para celebrar o dia internacional da mulher, que merece toda forma de carinho, reconhecimento e respeito, não apenas neste dia, mas em todos os dias do ano, o blog Quadrinhos Pra Quem Gosta decidiu dar início a uma análise do papel da mulher nos quadrinhos, algo que deve ainda ser muito trabalhado no futuro, ao longo de muitas matérias, mediante a boa oportunidade para isso.

Quando os quadrinhos tiveram início, em 1895, nas páginas do jornal New York World, jamais eles imaginariam todo o furor que o meio alcançaria no século seguinte e em diante. Com temática mais próxima das classes sociais mais baixas e o público leitor masculino, os quadrinhos começaram a estar cada vez mais presentes no cotidiano das grandes metrópoles, fosse nas páginas de jornal ou mesmo em revistas dedicadas unicamente ao gênero. Porém, com o passar do tempo, a nona arte cresceu, e começou a se desdobrar, adquirindo formas de um meio de comunicação por si só. Não mais os quadrinhos eram meramente infantis, mas começavam a exibir características que expandia seu conteúdo a públicos antes pouco levados em consideração. É nesse momento, então, que a mulher começa a fazer parte da história desse meio, e hoje, a contribuição de profissionais mulheres é compreendida como algo simplesmente inestimável para a história dos quadrinhos.
A brasileira Mônica jamais poderia ser esquecida no que trata
de personagens femininas dos quadrinhos, ainda mais, tendo se
tornado embaixadora da cultura do Brasil, em junho de 2009
Personagens variadas criadas pelo grupo de
mulheres quadrinistas CLAMP, do Japão
Fosse por sua participação ativa enquanto protagonista ficcional dos quadrinhos, como as heroínas Mulher Maravilha e Canário Negro, as investigativas Julia Kendall e Lois Lane, as sensuais Valetina e Barbarella, ou mesmo as jovens Mônica, Mafalda e Luluzinha, ou então pelo traço e história desenvolvidos nas demais etapas editoriais, como é o caso da desenhista americana Marjorie Henderson Buell, criadora desta última personagem citada, a editora Louise Jones Simonson, responsável por muitos dos grandes títulos da editora Marvel, ou a pioneira dos quadrinhos autobiográficos underground Dori Seda, o sexo feminino esteve muito ativamente ligado ao universo dos quadrinhos. Ao longo do século XX, a participação de mulheres na produção de histórias só fez crescer, ainda que enfrentando vez ou outra alguma desconfiança por parte da ferramenta mais tradicionalmente paternalista de produção editorial do mercado mainstream, algo que repercute ainda nos dias de hoje, como foi noticiado em agosto de 2011 pelo site Bleeding Cool, onde foram avaliados os créditos de participação dos cerca de 160 artistas envolvidos na reformulação mais recente da editora DC, e que foi constatado que apenas 1,9% eram do sexo feminino, o que compreende apenas três entre a mais de centena de profissionais relacionados a esse grande projeto. Esse alerta foi recebido pela DC como uma oportunidade para se posicionar de forma mais direta em termos de participação do gênero feminino na composição das suas histórias, e a editora anunciou que procuraria contratar mais mulheres para seu quadro de funcionários. Pouco tempo antes, a DC parecia já tentar reverter esse cenário, quando a administração do setor de entretenimento da editora, a DC Entertainment, passou a ser chefiado pela extremamente capaz Diane Nelson.

Jill Thompson, autografando
em uma Comicon americana
Hoje, porém, o cenário que é apresentado pelas autoras femininas de quadrinhos se mostra extremamente promissor, com grandes nomes se destacando. Entre as muitas profissionais de renome, vale a pena lembrar as americanas Jen Wang, autora da história "Koko be Good" (que já foi comentada aqui no blog), e a polivalente Jill Thompson, que já trabalhou em projetos como "Sandman" e "Monstro do Pântano", a iraniana Marjane Saltrapi, que revelou nos quadrinhos sua história de vida de forma inspiradoramente tocante em "Persepolis", a argentina Maitena, autora das tiras "Mulheres Alteradas", as japonesas Hiromu Arakawa, co-autora do mangá "Full Metal Alchemist", e Junko Mizuno, autora de "Cinderalla", além do grupo CLAMP, que, inclusive, ganhou uma merecida homenagem na última Rio Comicon (que foi conferida aqui no blog). No cenário brasileiro, é que talvez se encontre um dos maiores números de autoras talentosas em ascensão dentre o panorama mundial atual. Contando com a produção de material pelas quadrinistas Érica Awano, Roberta Pares, Luciana Cafaggi, Samanta Flôor, Julia Bax, Adriana Melo, Verônica Saiki, Viviane Machado, Marcela Godoy (cuja palestra na Rio Comicon foi comentada aqui no blog), Cristina Eiko, dentre muitas outras, o Brasil tem ganho muita força em termos da produção em quadrinhos por parte das profissionais do sexo feminino, e isso só tende a crescer e melhorar cada vez mais.


Vale ressaltar também a quantidade considerável de blogs e sites sobre quadrinhos gerenciados por mulheres, onde o maior destaque é o site "Lady's Comics", a partir da proposta de que "HQ não é só para seu namorado". O site pode ser conferido através da imagem ou por aqui, e a qualidade dele como fonte de conhecimento e estimulador de discussão inteligente são inegáveis. Iniciado através da parceria entre as apaixonadas por arte sequencial Mariamma Fonseca, Samanta Coan, e a já mencionada Luciana Cafaggi, o site se tornou uma referência para a participação feminina no mercado de quadrinhos, e a presença ativa do trio nos eventos nacionais de nona arte tem se tornado comum, conforme foi visto na palestra dada pelas ladys na Feira Internacional de Quadrinhos de 2011, em Belo Horizonte.

Ilustração das personagens femininas da editora DC

Por fim, a mulher é um elemento fundamental aos quadrinhos, proporcionando uma perspectiva única e valorosa que jamais poderia ser negada. O tema permite uma abrangência imensa, que pretendemos nos extender mais no futuro, mas desde já, deixamos aqui com imensa satisfação o desejo de um feliz Dia Internacional da Mulher a todas as muitas leitoras e profissionais dos quadrinhos ao redor de todo o Brasil e mundo. Sem elas, os quadrinhos jamais seriam o que são hoje, portanto, fica aqui também um muito obrigado a todas as que tornaram a história dos quadrinhos uma parte tão importante de nós e de nossa história.

FELIZ DIA INTERNACIONAL DA MULHER!

segunda-feira, 5 de março de 2012

Ultrapassando a Quarta Parede

Por Gabriel Guimarães


No setor de produção de conteúdo audiovisual, é comum observar termos relacionados ao uso da "quarta parede" em cena. O potencial de recursos usados para trabalhar esse elemento é incrível, e cada diretor, seja focado no cinema ou na televisão, utiliza-se disso de forma particular, tornando muitas vezes essa característica um grande referencial de seu trabalho. Aos quadrinhos, isso também pode ser facilmente aplicado, tal qual já foi possível ver em vários casos.

Cena durante a gravação de um dos filmes de Hitchcock, em
que é possível observar claramente o conceito da "quarta parede"
Para aqueles não familiarizados com o termo, "quarta parede" refere-se ao lado do cômodo retratado em cena no qual a câmera se posiciona, ou seja, através do qual nossos olhos observam a cena. Conforme o comunicólogo e sociólogo Marshal McLuhan destacou, os meios de comunicação funcionam como extensão dos sentidos humanos, ampliando, dessa forma, nossa capacidade de tornar-mo-nos parte de algo, mesmo a quilômetros de distância do ambiente em que essa determinada ação acontece. Para tanto, cabe ao diretor definir a posição exata em que esse nosso olhar estará fixado para testemunhar a cena. Em geral, a composição de um set de filmagens é organizado para se remeter a um quarto tradicional, com quatro paredes, porém, apenas três são retratadas, a fim de que seja possível para as câmeras utilizadas abordar de diferentes ângulos os eventos a serem filmados. À parede localizada hipoteticamente atrás das câmeras, ou seja, que raramente é vista, é dado o nome de "quarta parede". O diretor americano Alfred Hitchcock é um dos grandes nomes da indústria cinematográfica que trabalhou com esse recurso de formas inesperadas e brilhantes. Suas obras "Janela Indiscreta" e "Festim Diabólico" são exemplos muito recomendados disso. O primeiro, usou de apenas um galpão de estúdio e um ângulo de referência para se construir toda a história do filme, e o segundo, foi composto todo em apenas um plano, sem cortes, tornando a trama sinistra de assassinato tensa e em um ritmo de mistério e suspense únicos, característica marcante no trabalho de Hitchcock.

John Byrne foi parte de várias histórias
da Mulher-Hulk como ele mesmo
Esse recurso também retrata a expansão do sentido mostrado em cena para além dos limites tradicionais da narrativa convencional. Exemplo disso é a animação "A Nova Onda do Imperador", onde o personagem principal dirige seu discurso em determinados momentos ao espectador, consciente de ser ele o protagonista da história. Nos quadrinhos, esse recurso também é muito utilizado por autores e editoras, a fim de aproximar a ficção da realidade dos leitores. O trabalho do quadrinista underground Harvey Pekar é um caso claro disso (conforme já foi comentado aqui e aqui no blog). Outro exemplo muitas vezes relevado disso é a temática muito encontrada nas histórias da personagem Mulher-Hulk, em especial, no seu período sob o traço e concepção do americano John Byrne, na editora Marvel. Chegando a utilizar termos relativos à produção de roteiros da indústria dos quadrinhos, é impressionante o trabalho feito por Byrne, trabalhando a personalidade sarcástica da personagem em tons hilários e instigantes. O roteirista Grant Morrison, igualmente, realizou tal trabalho com o personagem "Homem-Animal", na editora DC, chegando a colocar frente a frente o personagem com uma representação ficcional do próprio Morrison como roteirista dentro da história. Na recentemente republicada saga "Novos Vingadores - Motim", essa representação dos autores dentro de suas obras foi feita de forma curiosa. Em meio a uma das histórias da coletânea lançada pela Panini, o roteirista Paul Jenkins, responsável por trazer o personagem Sentinela "de volta" ao universo Marvel surge na história ficcional como o único que lembra quem o personagem era, através das histórias em quadrinhos que ele fazia. O fator curioso nisso reside no fato de que o roteirista desta trama em que a ficção e a realidade se misturam não é Jenkins, mas sim o roteirista Brian Michael Bendis, numa forma talvez singela de homenagear ou brincar com seu colega de trabalho.


Outra forma de ruptura da "quarta parede" é o uso da metalinguagem, onde o meio em que a produção ficcional se dá aborda justamente o universo real de sua produção. Exemplos disso são fáceis de se observar, tanto no cinema quanto nos quadrinhos, como são os casos da comédia "Os Picaretas" e a ficção científica "Super 8", na sétima arte, enquanto que a trilogia de graphic novels "Fracasso de Público", do americano Alex Robinson, e a excelente história autobiográfica de Will Eisner, "O Sonhador", são casos mais claros disso na nona arte. O mangá "Bakuman" (já citado em outras matérias do blog, que podem ser vistas aqui), é um exemplo de igual força e qualidade, produzido pela dupla Tsugumi Ohba e Takeshi Obata, publicado no Japão pela editora Shueisha, referência no mercado japonês no setor de entretenimento desde sua fundação em 1925. No cenário brasileiro, o livro "HQs - Quando a ficção invade a realidade", escrita pela paulista Rosana Rios e belissimamente ilustrada por Amilcar Penna, é outro bom exemplo disso.


No filme "Mais Estranho que a Ficção", de 2006, foi abordada a questão da "quarta parede" de uma forma diferente, relevando a faceta da ficção invadindo o campo da realidade, onde o protagonista do filme, Harold Crick, ouve espantado a narração da autora de um livro que supostamente seria sua vida, e que culminaria com sua morte. Agoniado com a iminência da fatalidade que o espreita, Harold procura de todas as formas possíveis mudar o rumo da ficção sendo escrita sobre si, para que possa ser salvo. Algo similar é possível ser encontrado na história em quadrinhos "Superman - Identidade Secreta", feita pela dupla Kurt Busiek e Stuart Immonen, centrada na história de vida de um garoto real, morador da cidade de Kansas, que teve seu nome dado em homenagem ao personagem de quadrinhos Clark Kent, e que precisa aprender a lidar com as provocações e responsabilidades a isso atribuídas.

De forma apaixonante, somos convidados a romper essa barreira entre o quadrinho e a realidade, e nos deliciarmos com os frutos maravilhosos dessa união. Os autores, como os chargistas João Montanaro e Will Leite, este cujo site pode ser visto aqui, são os grandes responsáveis por nos oferecer essas nuances memoráveis entre a ficção e o nosso cotidiano, e certamente o futuro reserva muito mais possibilidades para essa relação multimídia.


quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A Arte de Representar o Real

Por Gabriel Guimarães


Conforme o historiador de quadrinhos Carlos Patati afirmou em seu curso sobre as relações entre a nona arte e o cinema (que pode ser conferido aqui, aqui, aqui e aqui), a realidade ganhou cada vez mais espaço dentro das histórias em quadrinhos, tornando as temáticas e personagens mais maduros e passíveis de identificação por parte do público. Com o surgimento dos quadrinhos de ação, e talentosos desenhistas como Milton Caniff e Hugo Pratt, a complexidade com a qual lidava o universo da arte sequencial se expandiu assustadoramente. Fosse na caracterização dos protagonistas ou então na construção da realidade em que a trama principal acontecia, como foi apresentado por Patati o exemplo da caça de baleias, vista na tira norte-americana Wash Tubbs, os quadrinhos ganharam, em termos de expressividade, como nunca antes havia acontecido em sua história.

Cena da morte de Gwen Stacy, que chocou os leitores da época
Com o passar do tempo, surgiram vertentes dessa nova veia realista de contar histórias, e a partir disso, os gêneros preexistentes se adaptaram aos novos recursos que lhe foram oferecidos para crescerem ainda mais. As histórias de ação adquiriram maior profundidade moral e tons de dramaticidade semelhantes às peças de teatro e filmes de grande sucesso. A história da morte de Gwen Stacy, o amor de Peter Parker, alter-ego do Homem-Aranha, e a longa passagem do roteirista britânico Chris Claremont pelo título dos X-men, onde abordou todos os desejos e frustrações dos jovens mutantes, ambos os casos da editora Marvel, e "Cavaleiro das Trevas" e "A Morte de Robin", duas obras do personagem da DC, Batman, representam muito bem isso. Enquanto isso, os adeptos da contra-cultura seguiram num sentido não oposto, mas diferente de abordar a questão da realidade. Autores como Robert Crumb e Harvey Pekar alcançaram um alto grau de reconhecimento por seus materiais underground. "Minha Vida" e "Our Cancer Year", produzidas por estes respectivos autores, foram obras que marcaram muito os leitores por oferecerem uma apresentação da vida crua sem floreios acerca de dramas vividos por pessoas reais. Pekar, inclusive, utilizou de sua história como forma de fazer o público atentar para problemas que iam muito além dos quadrinhos, retratando curiosamente até da própria alienação causada pela mera leitura vazia de suas histórias.


Cena de "Ao Coração da Tempestade", onde o
personagem encara os cenários que passam
do lado de fora do trêm
Porém, poucos dominaram essa arte da representação do real tanto quanto o nova-iorquino Will Eisner. Praticamente um pilar sobre o qual as histórias em quadrinhos se estabeleceram, Eisner ficou marcado por suas histórias sobre a natureza humana e o convívio da sociedade nas grandes metrópoles (conforme já foi destacado aqui e aqui). Seja por "Nova York - A Vida na Grande Cidade", "Avenida Dropsie" (este que foi adaptado de forma bem sucedida para os palcos de teatro e apresentado a públicos ao redor do mundo), "Ao Coração da Tempestade", "Pequenos Milagres" ou mesmo no seu único personagem heróico "Spirit", cujas histórias sempre eram centradas nos personagens secundários, mais do que nas intrépidas aventuras do vigilante mascarado, Eisner mostrou o potencial de criação que os quadrinhos possuíam dentro de si e que muitos não conseguiam ver. Não é, portanto, grande surpresa que seu nome tenha sido dado ao maior prêmio da indústria de quadrinhos.


Detalhado painel da história "A Lótus Azul",
onde Tintin vai a uma vila chinesa
No que se trata de abordar a realidade, porém, a forma como são representadas ilustradamente as histórias também é um elemento de enorme importância, e de onde se destacaram grandes artistas, como o belga Georges Remy, mais conhecido por seu pseudônimo Hergé e por sua maior criação, o jovem repórter Tintin. Contando com artistas que visitavam vários locais onde o personagem estaria presente em suas histórias futuras, para ilustrar todos os detalhes e estilos de arquitetura necessários para mostrar um trabalho minuciosamente realista, Hergé transformou suas histórias em banquetes visuais, onde todos os elementos retratados foram detalhadamente estudados antes de serem publicados. Desde aviões a armas, carros a navios e estilos de roupa, as histórias desse ícone dos quadrinhos de aventura se tornaram memoráveis pela riqueza em sua representação do mundo real. Hergé, também, utiliza de um recurso narrativo muito semelhante ao realizado nos quadrinhos japoneses, onde os personagens são desenhados de forma simplificada, sem grande marcações, o que permite ao público se identificar com ele mais facilmente, ao mesmo tempo em que os cenários são brilhantemente realistas, posicionando a perspectiva do leitor no campo do real. Tamanho grau de dedicação para criar histórias visualmente realistas pode ser visto hoje em artistas como o americano Alex Ross e o brasileiro Felipe Massafera, além dos títulos da série "Cidades Ilustradas".

Nos dias atuais, a realidade parece tão intrínseca ao universo dos quadrinhos que parece curioso observar a história de como esse processo se deu até que alcançasse o equilíbrio corrente. Como demonstrou Patati, o predomínio para essa questão hoje se encontra no volume de material autobiográfico disponível nas livrarias, em formato de arte sequencial. Tendo seu maior representante na obra do quadrinista americano Art Spiegelman, "Maus", única história em quadrinhos já premiada com o Pullitzer, sobre as experiências antropomorfizadas dos pais do quadrinista no campo de concentração de Auschwitz, o gênero hoje é um dos grandes vendedores dentre a quantidade crescente de ofertas na linguagem da nona arte. "Retalhos", de Craig Thompson, "Cicatrizes", de David Small, "Persépolis",  "Morro da Favela", dos brasileiros André Diniz e Maurício Hora (cuja obra já foi comentada aqui no blog antes), e o dramático e pessoal "Paraíso de Zahra", da dupla iraniana Amir e Khalil, cujos nomes reais não são revelados por conta de conflçitos políticos existentes no país, são exemplos desse novo cenário.

Imagem que retrata um passeio
do protagonista pelo campo em "Logicomix"
As obras históricas, abordando a vida de personagens marcantes ao longo dos anos, também vêm se mostrando um segmento em ampla expansão no meio, com exemplos como são o caso da série sobre ícones da música e da cultura pop, feita pela editora Bluewater, nos Estados Unidos, e até mesmo o belíssimamente estudado, ainda que com uma narrativa um tanto enfraquecida, "Logicomix", do quarteto europeu Apostolos Doxiadis e Christos H. Papadimitriou, nos roteiros, e Alecos Papadatos e Anne Di Donna, na arte. A forma como eventos da realidade afetaram a vida das pessoas também são temas hoje mais corriqueiros nos quadrinhos, como são os casos das coletâneas "À Sombra das Torres Ausentes" e "11-9", e da história publicada na edição 36 da revista "Amazing Spider-Man", e a minissérie "A Serviço da Vida", todos sobre a queda das Torres Gêmeas; de histórias como "A Busca" e "Magneto: Testamento", sobre a Segunda Guerra Mundial; e "Quando Lá Tinha o Muro", do cartunista alemão Flix, sobre a queda do muro de Berlin.

Cena da excelente web comic "Terapia"

Página do mangá "Gourmet"
Concluindo, a realidade está cada vez mais impressa nas páginas dos quadrinhos, e os profissionais do meio percebem a importância dessa relação ainda na etapa de construção de suas histórias, o que é capaz de render resultados inesperados e facilitar a relação com os leitores. Para o futuro, os quadrinhos parecem aproveitar cada vez mais do realismo crescente, a ponto de tornarem-se eles mesmos tema de suas tramas, como é o caso do mangá "Bakuman", centrado na consolidação de dois jovens como mangakás em meio ao mercado editorial japonês de quadrinhos, através de histórias minuciosamente detalhadas e personagens carismáticos. Outros mangás, como a história do executivo que visita restaurantes em "Gourmet", e obras brasileiras, como a premiadíssima "Daytripper", dos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, e a web comic "Terapia", belamente ilustrada pelo desenhista paulista Mário Cau (a qual pode se conferida no site Petisco HQ ou neste link), também oferecem uma nuance da realidade de forma inovadora, facilitando muito a imersão dentro das histórias em quadrinhos, o que só deve vir a crescer no futuro. Vivemos um período de abundância de recursos e a criatividade quanto à percepção do real tem tudo para nos trazer novas e animadoras perspectivas.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Encenando Grandes Quadrinhos

Por Gabriel Guimarães



Nesta noite de fevereiro, acontece na glamouroso estado norte-americano da Califórnia a 84ª edição da entrega dos prêmios máximos da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, os Oscars. Fundada no ano de 1927 por indicação do então presidente dos estúdios da Metro-Goldwin Mayer, Louis B. Mayer, com o intuito de estimular a produção cinematográfica, que começava a atrair a atenção do público, a Academia realizou sua primeira edição em 1929, dentro do Hotel Rossevelt, de Los Angeles. Formada originalmente por 36 diretores e atores, atualmente, a apuração de votos compreende mais de 4 mil votos por parte de diversos profissionais do meio, dentre todas as funções envolvidas na produção de um filme, desde o responsável pela confecção de roteiro até os músicos, cujo papel para transpassar a intensidade da trama do filme é imprecindível.

Em virtude dessa grande premiação, os estúdios passaram a reorganizar a forma como a seleção de roteiros para virar filme era feita. Hoje, a possibilidade de disputar uma estatueta é capaz de qualificar um filme o suficiente para ser produzido, independente de sua temática. Estúdios procuram por fórmulas de produzir conteúdo de acordo com os padrões da Academia onde podem, a partir de livros consagrados histórica e culturalmente, roteiros inteiramente originais, ou mesmo nas histórias em quadrinhos.

Paul Newman concorreu ao Oscar
por sua atuação na adaptação
de "Estrada para Perdição"
Ainda que não haja uma grande quantidade de premiações para filmes baseados em quadrinhos por parte da Academia, isso não quer dizer nada acerca da qualidade dos que alcançaram esse patamar. Seja por categorias consagradas ou por questões relativas aos bastidores, filmes adaptados dos quadrinhos já alcançaram grande destaque na maior premiação do gênero cinematográfico do mundo. Enquanto o primeiro filme do "Superman" concorreu a 3 estatuetas, por melhor edição, música original e melhor mixagem de som, em 1978, a adaptação da história em quadrinhos dramática "Estrada para Perdição" concorreu em nada menos que 5 categorias (ator coadjuvante para Paul Newman, melhor direção de arte, melhor trilha sonora, melhor som e melhor efeitos sonoros), além de ter ganho o Oscar por melhor fotografia, em 2003 (essa obra especificamente já foi comentada aqui no blog antes).

Responsáveis pelos efeitos especiais do filme "Homem-Aranha 2",
John Dykstra, Scott Stokdyk, Anthony LaMolinara e John Frazier,
respectivamente, após receberem as estatuetas
Independente de seu gênero, os quadrinhos já estiveram presentes de forma destacada nesse grande cenário da sétima arte, revelando faceta de atores que jamais haviam sido contempladas antes em nível tão particular, como foi a surpreendente interpretação do americano Heath Ledger em seu papel como o vilão Coringa, no filme "Batman - The Dark Knight", de 2008, vencedor de um merecido Oscar póstumo de melhor ator coadjuvante. Igualmente importante foi a relevância dos filmes de quadrinhos para as premiações de aspectos técnicos, relacionados a efeitos especiais e a designs gráficos espantosos para a produção de filmes. "Homem-Aranha 2", vencedor do Oscar de melhores efeitos especiais, em 2005, é um exemplo disso. Indicado também a outras duas categorias (melhor mixagem de som e melhor som), a sequência para as histórias do personagem mais carismático da editora Marvel chamou muito a atenção por sua riqueza visual em termos de composição e de cenas de tirar o fôlego.

O cinema e os quadrinhos possuem muito que oferecer um ao outro ainda, e esperamos sinceramente que essa relação seja ainda muito trabalhada, nas mais diferentes vertentes e maneiras imagináveis. Seja em IMAX ou em 3D, ou ainda no formato tradicional com o qual o cinema se consolidou, que o futuro nos reserve ainda muitos frutos dessa boa fusão de linguagens expressivas.

Arte para a divulgação do Oscar, feita pelo
desenhista de quadrinhos Alex Ross, em 2002

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

50 Anos Balançando na Teia

Por Gabriel Guimarães



Stan Lee e seu personagem
Ontem, dia 19 de fevereiro, o personagem que por muito tempo foi o grande nome da editora Marvel, Homem-Aranha, completou 50 anos exatos de sua primeira publicação. Lançado originalmente na última edição do título "Amazing Fantasy", em seu décimo quinto mês de publicação, como forma de meramente ocupar as páginas da edição, que carecia de material inédito e não possuía qualquer pretensão de estender seu conteúdo, uma vez que o título havia sido cancelado previamente. Para que a edição não fosse um fracasso total de vendas, a editora optou por chamar seu grande nome da época (que viria a se tornar, inclusive, o maior nome da história da editora), Stan Lee, para escrever alguma história com temática heróica que pudesse ter algum apelo ao público mais jovem, e foi assim que surgiu, da parceria de Lee com o desenhista Steve Ditko, o personagem Marvel que mais atraiu multidões e se tornou símbolo de uma nova fase para a indústria dos quadrinhos de super heróis, o "Amigão da Vizinhança, o Espetacular Homem-Aranha".

Adotando uma postura diferente de todas as demais feitas até então pelas editoras norte-americanas de quadrinhos de heróis, Stan Lee propôs um personagem que, apesar de usar um traje que lhe cobre a aparência real dos pés à cabeça e que sai por aí todas as noites para enfrentar os criminosos de Nova York, na verdade, é apenas um jovem, inseguro e em fase de crescimento, como tantos dos próprios leitores das revistas em quadrinhos. Essa identificação pessoal, reforçada por esse fato de a roupa do personagem não permitir sequer uma mínima indicação de quem o veste, que permitia ao público se visualizar no papel do protagonista, independente de etnia, credo ou qualquer outra questão física, levou o herói aracnídeo a um patamar de popularidade jamais imaginado.

As histórias do Homem-Aranha, centradas até mais nos próprios conflitos pessoais do jovem Peter Parker do que nas lutas diárias com meliantes e vilões extravagantes, mudaram o panorama dos quadrinhos da época, de forma que jamais poderia ter sido prevista. Uma vez que o resultado das vendas das revistas levava meses naquela época para chegar às mãos dos editores, era muito difícil imaginar que a última edição daquela revista sobre histórias fantasiosas, produzida de forma tão despretensiosa, acabaria por trazer em si uma fórmula de tremendo sucesso que ninguém havia encontrado ainda: a importância do lado humano do personagem heróico.

Ao longo de décadas, o personagem evoluiu, cresceu, aprendeu com muitos erros, e sofreu muitas perdas, ficando cada vez mais forte na memória de seus admiradores, e atingindo um grau de intimidade com o leitor que pouco foi visto no mercado de quadrinhos. O grande papel do Homem-Aranha foi mostrar que heróis de verdade têm limitações, e não basta ter super poderes para resolver todos os problemas do mundo, ou mesmo seus próprios problemas. A identidade por trás da máscara valia mais do que as teias por cima destas. Isso influenciou diversos títulos, e alavancou uma nova onda de procura pelas revistas em quadrinhos formando uma nova geração de leitores assíduos verdadeiramente apaixonados pelo material que estavam lendo. As histórias em quadrinhos agora eram objetos sentimentais para seus leitores, e o que ocorria no universo denso de personagens fictícios da Marvel e da DC passou a influenciar na opinião e na formação daqueles que liam esse material todo.

A popularidade do personagem é tanta que ele possui um balão de
ar quente personalizado na parada do dia de Ação de Graças nos Estados Unidos

Apesar de todo o sucesso alcançado pelo personagem, que no começo dos anos 2000 ganhou não só uma nova versão nos quadrinhos, com a concepção do universo Ultimate, mas também uma forma física tangível, na interpretação do ator Tobey Macguire, na trilogia de filmes dirigidos por Sam Raimi, e produzidos pelo apaixonado fã do Cabeça de Teia, o americano Avi Arad. O personagem ganhava novo fôlego após um período conturbado cheio de questionamentos por parte dos fãs e de histórias de qualidade curiosa que afastou muitos dos antigos admiradores das histórias do personagem. Entretanto, isso não durou muito, e após mais uma fase em baixa nos quadrinhos e uma recepção pouco amigável para o último filme da trilogia de Raimi, o personagem acabou começando a perder espaço. Através de uma polêmica decisão editorial, o editor-chefe Joe Quesada optou por fazer uma história que trouxesse ao personagem aracnídeo de volta seu brilho, porém, para isso, precisou-se apagar os últimos quase 30 anos de histórias vividas por Peter Parker, que viveu mudanças drásticas em sua cronologia pessoal e sentimental, a ponto de gerar uma confusão enorme na mente dos leitores recorrentes. Muitos nesse momento abandonaram o personagem, livraram-se das últimas edições do herói, quando foi escrito pelo roteirista J. Michael Straczinsky, e passaram a prestar mais atenção em outros personagens dos quadrinhos, ou então, mesmo, abandonaram a leitura dos quadrinhos como um todo. O Homem-Aranha vivia um momento de extrema cautela e de dúvidas sobre sua viabilidade futura (conforme foi destacado aqui no blog antes).

Para acrescentar mais lenha na fogueira em que o personagem começava a ser posto, a Marvel decidiu realizar mais uma ação de alto risco com o personagem, mas desta vez, quem sofreu o baque foi a versão Ultimate do personagem, que apesar de oscilar em termos de qualidade, mantinha ainda um certo tom de originalidade e possibilidade de crescimento da identificação do público.

ALERTA: SPOILER!

 Foi decidido que, para haver maior reconhecimento dos leitores com o personagem, Peter Parker deveria dar a vez para um novo alter-ego por baixo da máscara. A história em que o ainda jovem Parker morre ainda não chegou ao Brasil, mas a repercussão dessa decisão, sim. Conforme já foi comentado em matéria aqui no blog antes, o latino-americano afro-descendente Miles Morales passa a ser o novo Homem-Aranha do universo Ultimate, e ainda é cedo demais para dizer se essa estratégia dará certo a longo prazo ou não, mas a decisão de realizar essa grande mudança é de uma repercussão impressionante na história do personagem aracnídeo.

Novo Aranha Ultimate
Hoje, nos encontramos à beira da chegada do novo filme do personagem nos cinemas, agora reformulado sob a batuta do diretor Marc Webb e com elenco de atores completamente reconfigurado, e cujo último trailer teve sua premiere mundial conferido aqui no blog. A expectativa para com a nova obra do personagem nas grandes telas da sétima arte ainda divide a comunidade de leitores, e acreditamos que essa divisão persistirá mesmo após o filme estrear. Tal qual a primeira versão do personagem no cinema, que surpreendeu a todos e lançou de vez a nova era dos quadrinhos nas telas, essa nova versão representará um novo momento para o personagem, porém, apenas o tempo dirá que sorte de consequências isso trará ao universo pessoal desse grande protagonista. Para que o personagem alcance novamente suas glórias passadas, fica aqui o desejo de que este seja um novo começo em seu universo para que tudo aquilo que ele carregou em si um dia e pelo qual foi tanto reconhecimento possa vir novamente à tona, e mostrar a uma nova leva de jovens leitores e relembrar os mais antigos admiradores, de que, além de grandes poderes trazerem grandes responsabilidades, grandes projetos de vida de um personagem também o trazem.

Cena do novo filme do herói aracnídeo
O portal eletrônico do jornal "Folha" também trouxe ontem uma boa matéria sobre esse marco do personagem, e pode ser conferido aqui.