sábado, 9 de julho de 2011

Sem Medo?

Por Gabriel Guimarães


Apesar de estar presente entre os super heróis mais poderosos do universo DC, o Lanterna Verde Hal Jordan tem sua verdadeira essência, aquilo que lhe faz ser tão admirado pelos seus leitores recorrentes, não no seu anel, que lhe permite fazer tudo que sua mente desejar, numa abordagem moderna para a lâmpada do clássico personagem literário Aladin, mas sim em sua força de vontade humana, que é justamente o que lhe permite todos os feitos enquanto empunha a arma mais poderosa do universo.

A história de Jordan não é tão conhecida como a de Bruce Wayne ao virar Batman ou a de Clark Kent ao se tornar Superman, porém, de modo alguma, é menos incrível e essencial para se compreender o personagem, suas motivações e sua verdadeira força. Ainda criança, Jordan testemunhou o acidente que causou a morte de seu pai, piloto de testes da Aeronáutica Ferris, num ato de coragem para afastar o avião que pilotava da multidão. Aquele momento definiu a escolha de Jordan como Lanterna, tantos anos antes do moribundo Abin Sur cair com sua nave no meio do deserto norte-americano e mandar seu anel encontrar o ser naquele setor espacial que mereceria ostentar com honra o símbolo da Tropa dos Lanternas Verdes em seu peito e em sua mão.

Para compreender a razão de tamanha importância daquele momento, é preciso conhecer a história da Tropa. Organizada pelos Guardiões, a raça mais antiga do universo, a fim de patrulhar todo o cosmos com o propósito de assegurar a ordem e a paz, a Tropa dos Lanternas Verdes é composta por 3600 membros, um para cada setor espacial, conforme divisão feita pelos seus mestres. Para usar o anel, há requisitos essenciais, dentre os quais, o mais importante é a capacidade de superar o medo, algo que aquele momento tão jovem ainda na vida de Jordan lhe garantiu. Conforme o próprio Hal diz na história "Lanterna Verde: Renascimento",: "Quando o pior de todos os temores acontece diante dos seus olhos, não resta mais nada do que se ter medo."


Eis aí a essência do personagem. Para adentrar em seu universo, seria preciso explicar a origem da Bateria Central de Oa, planeta dos Guardiões, a essência do arqui-inimigo de Jordan, o korugariano T'aal Sinestro, e o ser que era a razão da clássica fraqueza do anel dos Lanternas Verdes contra a cor amarela, Parallax. Porém, acredito que estes pontos sejam um tanto quanto um desvio do tema principal dessa matéria, no momento.

Na última década, a partir de uma estratégia muito bem implementada pela editora DC, o roteirista Geoff Johns revitalizou o personagem de uma forma brilhante mesclando questões ligadas à atualidade dos leitores de quadrinhos às tradições das revistas do personagem publicadas ao longo de décadas desde seu surgimento (conforme já destaquei em matéria aqui no blog). O sucesso foi estrondoso, rendendo muita atenção para toda a mitologia por trás dos Lanternas Verdes e alavancou as vendas dos títulos ligados a ele num nível que poucos poderiam imaginar. Observando esse crescimento da procura por ele, a DC começou a investir na produção de um filme para o personagem (a relação entre a nona arte e o cinema também já foi abordada aqui no blog antes), além de uma série de produções em desenho animado direto para DVD a fim de motivar o público e aquecê-lo para a grande obra nas telas de cinema (uma dessas produções foi analisada também em matéria aqui no blog antes).

 
Howard Murphy como Lanterna
Verde em 1979

Entretanto, todos esses investimentos para a propaganda do personagem não foram algo tão inovador com relação à sua aparição em outras mídias fora dos quadrinhos. Presente em séries de desenho animado desde 1967, Hal Jordan sempre lutou contra o mal de todas as formas que podia, usando de construtos de seu anel que iam do bizarro ao extraordinário. Porém, foi só em 1979 que ele foi interpretado pela primeira vez em carne e osso, pelo ator Howard Murphy no especial para a televisão americana "Legends of the Superheroes", onde o personagem tinha seus poderes roubados por um grupo de supervilões composto por inimigos de vários dos heróis da Liga da Justiça. Curiosamente, essa trama foi construída para que a rede não precisasse gastar muito com efeitos especiais e ainda assim a história parecesse plausível. Anos mais tarde, em 1997, novamente o Lanterna foi personificado por um outro ator, Matthew Settle, que, porém, interpretava Guy Gardner, outro terráqueo Lanterna, no filme "Liga da Justiça da América", baseado na fase humorística que a Liga tinha vivido recentemente pelas mãos de Keith Giffen e J. M. DeMatteis. Diga-se de passagem que Hal se livrou por pouco de ser motivo de piada até os dias de hoje com essa mudança na escalação do anel naquele momento.

Vale aqui uma nota para o excelente trabalho de pesquisa e organização feito pelo blog Pipoca e Nanquim sobre o histórico do personagem antes de seu filme, que pode ser observado tanto no endereço eletrônico deles quanto no seu livro "Quadrinhos no Cinema", publicado pela editora Generale.

Como foi dito anteriormente, a atenção que o personagem vem recebendo nos últimos anos motivou a DC a investir novamente numa encarnação do herói, dessa vez, para um filme de longa duração a ser exibido nas salas de cinema ao redor do mundo inteiro, e o resultado disso poderá ser visto dia 19 de agosto aqui no Brasil no filme "Lanterna Verde", estrelado pelo ator Ryan Reynolds, mais conhecido pelos seus papéis em filmes de comédia, mas que, porém, tem capacidade para protagonizar boas cenas de ação.

É, então, que chegamos ao tema da matéria de hoje. Consegui recentemente um acesso a esse filme, que será lançado aqui mês que vem, o assisti, e venho aqui dar alguns comentários sobre minhas impressões que podem ser observadas durante o filme (há algum tempo atrás, fiz duas matérias que já visavam comentar sobre o andamento do projeto desse filme que podem ser vistas aqui e aqui no blog). A fim de garantir o direito de cada leitor para tomar conhecimento até onde ele próprio decidir, alerto que a partir deste momento, estarei comentando sobre partes do filme e que a decisão de ler o que vem em seguida deve partir única e exclusivamente de cada leitor (já fiz uma matéria sobre essa questão do spoiler que pode ser vista aqui no blog, também).


ALERTA: SPOILER




Visando mostrar o momento em que Hal Jordan recebe o anel da Tropa e se torna o Lanterna Verde responsável pelo setor espacial 2814, o filme inicia destacando o confronto entre Abin Sur e Parallax. Apesar do altíssimo investimento em efeitos visuais no filme, o vilão não consegue lembrar tanto sua figura nos quadrinhos, entretanto. Além disso, sua origem e a razão de este ter desejo pela destruição dos Guardiões são extremamente diferentes dos que existem nos quadrinhos. Enquanto nos quadrinhos, ele é aprisionado na Bateria Central de Oa para que seja contido, causando assim a impureza amarela, no filme, Parallax é inicialmente utilizado como forma de dar mais poder à Tropa dos Lanternas Verdes, uma vez que a luz verde não seria tão capaz de muní-los ao redor de todo o universo, o que acredito ser uma justificativa deveras fraca e que reduz aquilo que a força de vontade por trás da história dos Lanternas Verdes a algo insignificante.

Quando o filme chega à Jordan, vivido por Reynolds, vemos que este é um irresponsável de marca maior, que, porém, possuí uma característica que, em hipótese alguma poderia ter,: medo. O Jordan dos quadrinhos pode ser irresponsável, porém, tem um senso de luta muito grande. A morte de seu pai o entristece, porém, também lhe dá forças. O exemplo de seu pai é um dos elementos que mais o motiva a fazer tudo que faz, não fosse por isso, com certeza, Hal não teria se tornado piloto de testes, seguindo o seu legado. No filme, a abordagem do momento da morte de figura tão importante é feito de forma extremamente trivial e convencional demais, e os efeitos deste momento em Jordan, também.

Para que não seja tão criticada assim as atuações do elenco de atores, o roteiro do filme possui largas falhas estruturais e demonstra uma superficialidade excessiva em momentos que deveriam ser mais aprofundados. Diferente do trabalho excelente que em sendo realizado pelo diretor Christopher Nolan no Batman, o filme do Lanterna, infelizmente, não acerta no tom que é dado à película, adotando em muitos momentos estilos próximos ao cômico ou ao clássico de heróis e personagens sem sal.

Continuando, o filme tem uma quantidade de efeitos especiais bastante numerosa, porém, a qualidade destes não consegue agradar tanto assim a vista. Muitos dos demais membros da Tropa mostrados nas cenas em Oa poderiam ficar melhor se utilizassem processo similar ao realizado em filmes como "MIB - Homens de Preto", apesar de que há exceções para isso. As representações feitas de Abin Sur, Kilowog e Tomar-Re estão muito bem trabalhadas e com um nível de detalhamento fantástico. A forma como o traje dos Lanternas se adapta à fisiologia específica de cada raça que o usa também está muito bem mostrada, e merece destaque por isso. O traje que Jordan usa, todavia, não agrada tanto, e poderia ter sido melhor desenhado.


Peter Sarsgaard como Hector Hammond,
um dos grandes destaques do filme


Um dos personagens que realmente chamou a atenção, porém, foi o vilão Hector Hammond. Apesar de estar em um contexto diferenete dos quadrinhos, uma vez que, no filme, ele é um professor de biologia, enquanto nos quadrinhos, era um cientista especializado em astrofísica, o personagem realmente ganha vida na história, e a atuação de Peter Sarsgaard dá um toque especial nisso. Este ponto merecia ser comentado.



Dois outros pontos que merecem ser comentados aqui são a participação da manda-chuva Amanda Waller, bastante abaixo do padrão que criou na série de desenho animado da "Liga da Justiça - Ação Sem Limites"; e a aparência dos Guardiões, que está quase oposta à dos quadrinhos, já que são representados como seres de fisionomia esguia e elevada, enquanto na nona arte, são seres de baixa estatura e bem mais numerosos.


Cena do filme com Amanda Waller aparecendo em segundo plano
A linha de roteiro, porém, não é muito positiva, e chega ao clichê em diversos momentos, bem mais até do que seria aceitável. Para ser absolutamente sincero, creio poder resumir o filme em uma frase: "Lanterna Verde" é um filme feito para os anos 1990, com uma trama estereotipada nos padrões da época, porém, com efeitos especiais dos dias de hoje.
Infelizmente, o personagem não conseguiu atingir todo o potencial que poderia, e nós, leitores e admiradores da arte sequencial em que suas histórias são contadas, vamos ter que esperar um pouco mais de tempo até vê-lo em sua posição devida. Ainda assim, como filme isolado da produção de quadrinhos, pode agradar a alguns que estejam querendo assistir um filme tradicional sobre mocinhos e bandidos. Fica a cargo de cada um a decisão de assistir ou não, e tirar suas próprias conclusões. Convido desde já, inclusive, quem o vier a fazer, para dividí-las conosco aqui nos comentários. Quanto ao quesito adaptação, continuemos aguardando nosso dia mais claro.

NOTA GERAL: 1 estrela.


terça-feira, 5 de julho de 2011

Calvin, Haroldo e Watterson

Por Gabriel Guimarães

"Os quadrinhos podem ser tudo aquilo que a mente lhes permitir ser."
O autor dessa frase, que representa de forma bastante eficaz todo o potencial comunicativo que as histórias em quadrinhos possuem, é um dos profissionais mais reconhecidos no meio desde 18 de novembro de 1985, quando publicou sua primeira tirinha no jornal da sua dupla de personagem mais famosa: calvin e Haroldo. Ao longo de sua vida, sempre lutou para que essa forma artística recebesse toda a atenção que merecia, e, por essa sua contínua luta, hoje prestamos uma sincera e justa homenagem ao quadrinista americano Bill Watterson.


Neste dia, em que Bill completa 53 anos, não há outro assunto que se mostre mais relevante para os quadrinhos mundiais como este. Nascido em Washington, ele teve uma infância regada à base de muitas produções de quadrinhos, que lhe enchiam de sentimentos e sonhos. Tendo sido muito influenciado pelas tirinhas produzidas por Charles Schultz, criador do Charlie Brown, Bill adotou algumas características que eram marcas de Schultz para seus próprios desenhos, como a simplificação das linhas nos desenhos, que, conforme o próprio afirmava, "encaixava perfeitamente com minha falta de paciência e minha pouca habilidade para o desenho."

Preocupando-se assim mais com o conteúdo do que com a forma, Watterson conseguiu atingir milhões de leitores através das suas tiras publicadas em mais de 2000 jornais ao redor do mundo e em dezenas de línguas diferentes, se tornando assim uma referência para o meio. Uma vez que sua distribuição era feita pelo Universal Press Syndicate, um dos mais respeitados consórcios de tiras dos Estados Unidos, é difícil acreditar que o criador de tão facilmente identificáveis personagens passara por muitas dificuldades antes de lançar sua obra mais conhecida. Cerca de 4 anos antes da publicação da primeira tira de Calvin e Haroldo, Watterson havia acabado de voltar a morar com casa de seus pais, após uma série de insucessos num emprego de cartunista editorial para o Cincinnati Post, onde passou por um dos desafios mais comuns da área artística: a produção contínua e seriada com limites de prazo para ser concluída.

Neste momento, ele quase desistiu de sua carreira como ilustrador, desmoralizado pela conturbada experiência, e, então, decidiu se voltar para sua paixão inicial, que eram as histórias em quadrinhos. Partindo do princípio exposto na sua frase citada no começo da matéria, Watterson criou uma tira despretensiosa sobre um garoto de vestes espaciais e seu desastrado assistente, baseados em uma produção que fizera certa vez, quando estava no Ensino Médio, para uma aula de alemão. E ali, voltou a arriscar novas criações voltadas para a arte sequencial, que viriam a ser o alicerce no qual as tiras do Calvin iriam se estruturar. O próprio Watterson admite com entusiasmo que aqueles primeiros anos voltando a produzir quadrinhos foram de uma importância sem igual, ainda que tudo que desenvolveu não tenha tido a qualidade ou o desempenho ideal. Ele aprendeu muito com os erros, e, após, partiu para seu maior feito, que o viria a pôr em destaque como um dos grandes profissionais do ramo.

Uma situação que determinou muito da postura que o quadrinista viria a ter nos anos posteriores ao surgimento de sua fama e que é um dos traços mais reconhecidos de sua personalidade, que é o fato dele abrir mão de todo licenciamento de imagem com relação a seus personagens, merece ter um destaque aqui. Ainda antes de criar seu pequeno grande protagonista de tirinhas, um syndicate demonstrou interesse pelo estilo utilizado por Watterson, e o convidou para viajar até Nova York para assinar seu primeiro contrato profissional como membro de uma grande organização voltada para a produção de quadrinhos, ainda que não tivessem realmente se apaixonado pelo conteúdo em si do que estava sendo desenvolvido por ele na época. Entretanto, Watterson se deparou com um pedido do syndicate que o deixou enfurecido. Foi passado a ele a ordem de escrever e desenhar histórias de um personagem que não era seu, além de criar outra tira cômica com único fim de fazer propagandas de um determinado produto. Neste momento, Watterson abandonou a empresa e definiu sua postura com relação ao tratamento comercial de suas criações para todo o resto de sua vida.

E foi então, que um pequeno garoto muito esperto para sua idade e um certo tigre laranja de pelúcia entram na história da vida desse quadrinista. Após estar novamente num ponto inicial profissionalmente, Bill enviou um protótipo de tirinha com seus dois novos personagens para dois diferentes syndicates, e recebeu uma resposta positiva do Universal Press, que requisitou novas tiras da dupla. Em dúvida quanto ao que deveria pôr nas tiras, Bill ligou para seu amigo editor Jake Morrissey, que lhe deu a fórmula para todo o seu sucesso seguinte: "Apenas faça aquilo de que gosta."

 

Auto retrato de Watterson conversando com
seu personagem Calvin

Dali em diante, como dizem as pessoas do ramo da comunicação, é história. Ainda que não tenha sido um estouro da noite para o dia, Watterson recebeu, enfim, o destaque que merecia, recebendo prêmios como o Eisner e o Harvey Awards e pelo conjunto de sua obra, dentre outros diversos. Porém, ele jamais se mostrou muito confortável com essas homenagens, preferindo uma reclusão artística que caracterizou muito sua relação com seus leitores. Aposentado desde 1995, quando publicou sua última tirinha de Calvin e Haroldo em 31 de dezembro, ele mantém um hábito de pintar quadros, apesar de não expô-los para os seus fãs, e não dá sinais de novos projetos futuros. Ao longo da década de 1990, todavia, dava palestras em faculdades para destacar o quanto as pessoas se esforçavam de verdade para fazer aquilo de que realmente gostavam. Acredito que essa sua lição vá permanecer com todos nós, seus leitores, por muitos e muitos anos. E, tal qual o pequeno Charlie Brown se tornou uma influência tão grande na formação de Watterson como artista (e na de muitos leitores do personagem, como pode ser um pouco visto neste artigo de um blog parceiro nosso), Calvin é, hoje, uma parte de todos nós, que o lemos e acompanhamos suas aventuras por tanto tempo (um pequeno estudo sobre alguns conceitos da psicologia nas tiras de Calvin já foi feito aqui no blog antes). Apesar de não ter um gosto tão especial por homenagens, não havia como esse dia passar em branco, e, por isso, venho aqui por meio desta matéria agradecer por tudo que foi feito por esse grande profissional de quadrinhos, tanto dentro das linhas que delineavam seu trabalho, quanto fora, pelas lições com relação às paixões que nos movem.

Para aqueles que tiverem interesse em ir mais a fundo na história do quadrinista, recomendo esta matéria publicada no blog "Depósito do Calvin", que detalha muitos dos momentos expostos aqui e traz excelentes recursos visuais para essa trajetória vitoriosa de Watterson.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Uma Breve Retrospectiva

Por Gabriel Guimarães


As duas gigantes do mercado editorial de quadrinhos de heróis não estão num bom momento criativamente. Apesar de essa afirmação definitivamente não ser novidade para qualquer um que acompanhe os títulos mensais e/ou edições especiais publicados por elas, é preciso destacar que é possível sim ainda produzir material de qualidade com esses personagens, ainda que estejam desgastados pelas décadas de aventuras ininterruptas.

Quando os quadrinhos sugiram no fim do século XIX, traziam em si um ar de mudança, de ferramenta para que temas importantes pudessem ser abordados de forma a alcançar uma proporção muito maior do que os livros inteiramente textuais seriam capazes. Presentes nos jornais de forma diária, muitos artistas utilizaram esse meio de comunicação para fazer críticas a aspectos sociais, econômicos e políticos que afetavam a vida de grande parte da população que consumia aqueles periódicos e, dessa forma, influenciaram muito mais pessoas do que jamais imaginariam. Esse canal criado entre os quadrinhos e seus leitores se fortaleceu ao longo dos anos, e os quadrinhos foram, de certa forma, amadurecendo.

Com o começo do século XX, vieram as duas Grandes Guerras, e o mercado consumidor já não era mais o mesmo. Fantasias, brincadeiras infantis e críticas brandas não mais encontravam tanto espaço, em meio a uma agenda preenchida por ações movidas por um grande medo do que viria a seguir. Em tempos de grande angústia, que foi reforçada pela grande crise financeira de 1929, as pessoas precisavam de alguém que as tirasse de todo aquele caos, e lhes mostrasse que existe alguém em quem elas podiam esperar. Alguém que lutasse contra o vilão todos os meses seguidos para salvar a bela donzela em perigo. As pessoas precisavam de heróis.

Quando as ameaças à vida comum superaram os limites que personagens como o Fantasma, Flash Gordon, Agente Secreto X-9 ou o Príncipe Valente, poderiam lidar, o "universo" dos quadrinhos se adaptou em si mesmo, e lhes deu um dom acima das pessoas normais: os super poderes. É, então, que surgem Superman e Batman, para renovar a esperança do mercado consumidor de quadrinhos. A partir da repercussão que tiveram junto aos leitores e com a sociedade como um todo, as editoras todas começaram a se arriscar, buscando a produção de uma nova geração de defensores dos interesses humanos. Ainda que tenham se limitado à ideologia que foi chamada de "american way of life", esses personagens foram muito importantes na formação de muitos jovens, que adotaram os alicerces ideológicos destes para si.


Stan Lee ao lado de seu Homem-Aranha

Com o fim da guerra, foi um novo momento de mudança. Os super-heróis acabaram perdendo espaço justamente pela mesma razão que os levou ao topo: sua condição sobre-humana. Uma vez que não eram afetados pelos problemas corriqueiros dos seus admiradores, a identificação com eles foi ficando cada vez mais difícil, até que um roteirista resolveu trazer esses seres maravilhosos para o nosso mundo real, e pôs rostos de verdade por trás das máscaras e capas. Assim, a Marvel começou seu universo de aventuras, e Stan Lee se tornou o rosto mais conhecido do mercado de quadrinhos ao redor do mundo todo (fiz uma matéria em homenagem a esse grande quadrinista aqui no blog antes, porém, a fim de tentar fazer chegar o texto até ele pessoalmente, a escrevi totalmente em inglês). Observando a mudança na receptividade dos quadrinhos da editora rival, o editor Julius Schwartz, junto com Gardner Fox, trouxe nova vida aos personagens da DC também.

  
Zap Comix, um dos títulos mais populares
dos quadrinhos underground e a revista do
Lanterna e do Arqueiro feita pela dupla
Adams e O'Neill

O mercado novamente estava agitado, com muita procura e conteúdo original sendo produzido. Por décadas tudo se manteve bem, o que prermitiu aos quadrinhos se arriscar em experimentos no rádio, na televisão, e até no cinema (já fiz uma análise da história dos quadrinhos no cinema aqui, que em breve, deve ser expandida). Os símbolos desses heróis passou a figurar entre os mais reconhecidos ao redor do planeta todo, e suas histórias atraíam multidões, porém, toda fonte criativa uma hora seca, e neste caso não foi diferente. Na década de 1970, com o movimento cultural que estava em atividade nos concertos de música e a queda de dogmas nas gerações que assitiram horrizadas os terrores da Guerra do Vietnã, os quadrinhos passaram por mudanças. O estilo underground, mais voltado a dar um tom sarcástico à vida comum na sociedade, começou a ganhar muito espaço e popularidade, enquanto os heróis tentavam abordar o tema de todas as formas como poderiam. Neste campo, Neal Adams e Dennis O'Neill merecem um grande destaque pelo trabalho feito com a dupla Lanterna Verde e Arqueiro Verde, pela DC, além do também brilhante trabalho feito no Homem-Aranha, pelas mãos do ainda extremamente habilidoso Stan Lee e o talentoso artista John Romita Sr.




Na década seguinte, para muitos um período marcado pela falta de fé e pela desesperança em um mundo melhor, os quadrinhos novamente tiveram que se adaptar, e é nessa época que o nome de Frank Miller ficou conhecido, através do seu trabalho no Batman, porém, não foi apenas pela trama que escreveu que ele ficou reconhecido na história da arte sequencial americana. O grande papel desempenhado por Miller foi algo que nos dias atuais está em xeque: o destaque maior para o autor da obra do que para a obra em si. O mercado passou a valorizar mais as produções de determinados nomes em detrimento a valorizar bons trabalhos de escritores e desenhistas menos renomados. Ainda que tenham existido casos espetaculares vindos dessa estratégia, como Watchmen, criado pela dupla britância Alan Moore e David Gibbons (cujo trabalho já foi analisado em matéria aqui no blog), os resultados não foram tão bons como eram pretendidos, gerando uma série de graves consequências para as editoras voltadas para esse mercado.

Com isso, a década de 1990 quase causou a ruína dos quadrinhos. O mercado passou a ser o foco, e não mais as questões relativas à criatividade e habilidade dos produtores das histórias. Com isso, surgiu a Image Comics, cujo foco se encontrava quase que exclusivamente em criar material visual atraente feito por profissionais do mercado que já possuíam um nome junto conehcido junto aos leitores, como Jim Lee e Marc Silvestri. Essa estratégia, uma vez que ignorava a real importância dos roteiros das histórias, acabou por afastar muitos consumidores regulares dos quadrinhos em si, já que as duas grandes editoras decidiram realizar algo similar em suas linhas tradicionais, tentando recuperar os números de vendas perdidas que estavam acumulando. A Marvel, então, quase entrou em falência, não fosse uma busca desenfreada por parceiros que a bancassem existindo, como, por exemplo, através do acordo firmado entre a editora e a produtora Fox, que adquiriu todos os direitos de produção audiovisual dos personagens do grupo X-men em teor de exclusividade.

Na última década (que teve seus principais acontecimentos voltados para os quadrinhos analisados meticulosamente aqui no blog no começo do ano), os quadrinhos novamente passaram por grandes mudanças. A evolução do relacionamento entre a nona e a sétima artes cresceu em níveis incríveis, e isso atraiu toda uma nova gama de leitores e admiradores para os quadrinhos, que precisaram manter o interesse dos seus consumidores que já eram tradicionais, além de expandir para novos nichos. Um tanto abalados pelos eventos decorridos no começo da década, em 2001, os quadrinhos passaram por um período de luto (que foi explicado aqui no blog), e de recomeço após isso. O mundo se tornou um ambiente em geral político, e isso passou a ser percebido de forma clara no universo de personagens queridos pelos leitores, como eram os da Marvel e da DC. "A Guerra Civil" pela Marvel e a eleição de Lex Luthor para presidente dos Estados Unidos pela DC mostra bem isso (um estudo superficial sobre essa relação entre política e quadrinhos também já foi feita aqui no blog antes, e em breve deve ser complementada).

Para encurtar um pouco essa contextualização, que poderia se extender por um texto muito longo, nos dias de hoje, estamos em um período talvez não tão claramente caótico, mas nem por isso, menos desorientador. Com o desenvolvimento contínuo da tecnologia e a velocidade cada vez crescente com que as relações sociais têm sido pautadas, os quadrinhos deveriam observar, tal qual fizeram no passado, aquilo de que seus consumidores mais precisam, e não tanto aquilo que seus consumidores compram. Pode parecer um tanto ideológico demais imaginar uma editora focar seu trabalho na criação de um universo caloroso para tempos um tanto frios de relacionamento pessoal, porém, o principal objetivo dos meios de comunicação deveria ser suprir as carências que a sociedade comunicativa demanda. Em qualquer rede social que se va pesquisar, é muito fácil observar uma quantidade imensa de usuários nostálgicos, perdidos em memóriaa que parecem longe demais para serem alcançadas ou igualadas em termos de relevância nos dias atuais. Entretanto, não acredito ser impossível criar algo desse porte, apenas observo que o foco que a sociedade vem tomando está indo numa direção que não tem essa satisfação de necessidades como meta, o que é um tanto preocupante.

Acredito que, hoje, há muito poucas pessoas se preocupando com o que os quadrinhos fazem seus leitores sentir, e muitas questionando apenas aspectos relativos a cifras e rendimento de capital. Por mais que vivamos em uma economia de mercado, que carece de contínuos rendimentos para a manutenção das marcas, a questão criativa não pode sair de discussão, e precisa de novos argumentos para se chegar a um ponto comum que mantenha boa recepção do mercado consumidor e agrade a longo prazo a vida de seus leitores. Leitores e consumidores são dois lados de uma mesma moeda, e esta não pode ficar viciada em apenas dar sempre um mesmo resultado.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Quadrinhos, Literatura e Ensino

Por Gabriel Guimarães


Vivemos hoje num mundo em contínuo movimento. Ao longo do Século XX, os meios de comunicação avançaram de forma bastante acelerada, o que provocou mudanças fundamentais na forma como nos relacionamos entre si e como um todo. Nas últimas décadas, esse processo acelerou de uma forma que jamais poderia ser prevista, atingindo patamares que poucos acreditavam ser possível. Com toda essa mudança na forma de se comunicar, não é surpresa alguma que os meios de comunicação tradicionais passariam por adaptações, visando sua permanência em vigor, e mantendo todo seu legado e influência entre seus consumidores.

Para que hajam esses avanços, há um elemento que exige absoluta atenção e que jamais pode ser deixado de lado: educação. Sem aprendermos sobre os acertos e os erros do passado, a tendência é para que os repitamos, e jamais cheguemos a uma condição mais evoluída. Nessa questão, entretanto, reside um dos maiores problemas da atualidade, quando percebemos a escassez de investimentos devidos nas condições de ensino que são dadas aos professores, que são os verdadeiros arquitetos do amanhã.

Os professores, quando postos em frente a esses obstáculos, muitas vezes não têm como fugir deles, e acabam não apenas eles próprios sendo prejudicados, mas toda a sociedade, pois os alunos, que deveriam adquirir conhecimento através desses profissionais, não conseguem, e, portanto, se tornam apenas parte de uma estatística sem muito valor. Tamanho descaso gera um efeito tenebroso para todos nós: a perda de interesse por parte dos responsáveis pela educação.

Enquanto alguns desses educadores permanecem inabaláveis na luta por uma rede de ensino mais justa e de melhor qualidade, muitos acabam caindo no erro de se acomodar às condições que lhe são oferecidas. Com isso, perdem a vontade de passar conhecimento e ensinar sobre vida, e passam a meramente distribuir padronizadamente um conteúdo previamente programado que não vai gerar fruto nenhum nos alunos. Um dos erros mais cometidos que gera essa consequência acaba partindo de professores ligados à literatura, não por vontade própria, mas por determinação do Estado: a obrigação em ler.

Independente do conteúdo que é passado, o ato de obrigar um jovem a ler algo contra sua vontade não pode, na maior parte dos casos, criar bons resultados. Ainda assim, a fim de preparar os estudantes para lidar com os exames de avanço de grau acadêmico, esse crime continua sendo cometido.

De forma alguma, pretendo criticar a leitura em si ou os clássicos que são transmitidos pelos professores de ensino fundamental e médio aos seus alunos, porém, quero destacar algo: acima de ensinar a ler, deveria ser colocada a importância de ensinar a amar ler. A leitura é uma das experiências mais únicas e pessoais possíveis. Por mais que livros sejam padronizados e distribuidos com o mesmo conteúdo para dezenas, centenas, milhares de leitores, o processo de consumo de um livro sempre se dá de forma diferente. Nunca as impressões de determinado leitor são absolutamente iguais às de outro, há similaridades, mas jamais igualdade por completo.

O ensino tem sido prejudicado justamente em cima desse aspecto há muito tempo. Escolas obrigam a leitura de clássicos como "O Cortiço" e "Memórias Póstumas de Brás Cubas" para indivíduos cujo desenvolvimento intelectual sequer alcançou um status necessário para compreender o que aquelas obras significam. Há exceções, claro, para isso, entretanto, aqui desejo formular um estudo o mais amplo possível. Para facilitar a absorção desses conteúdos, as instituições de ensino acabam procurando materiais mais fáceis de serem compreendidos pelos alunos, e, nessa jornada, entram as histórias em quadrinhos.

As adaptações de clássicos da literatura global para o formato de arte sequencial é uma prática muito antiga, que sempre produziu bons frutos. Adolfo Aizen e Gilberto Freire ficaram muito conhecidos, inclusive, quando se tratou dessa questão no passado (já escrevi matéria sobre o papel dos dois nos quadrinhos brasileiros aqui no blog antes), gerando muitas opções de alto grau de qualidade para serem lidos e estudados.


Aizen em frente ao museu das histórias em quadrinhos,
que ficava na sede da Editora Brasil-América (EBAL)

Com o tempo e a evolução dos meios de comunicação, como destaquei ao início da matéria, as editoras passaram a lidar com muita concorrência nesse campo, e a alta demanda levou a uma busca por soluções mais em conta em termos de orçamento e de prazos. Ao passar por isso, os quadrinhos acabaram sofrendo do mesmo erro que o ensino em si sofreu: a banalização do seu conteúdo. Não mais se procurava estimular o amor pela leitura através dessas histórias, mas apenas um consumo rápido das páginas que compunham aquele material para que pudessem ser feitos testes e avaliações que visavam medir o quanto foi absorvido daquele material pelos seus consumidores.

Neste ponto, entramos no tema da matéria de hoje. Ontem, foi públicado um artigo escrito por um dos editores da revista Época, Luís Antônio Giron, que envolve o uso dos quadrinhos na sala de aula e de recursos eletrônicos como fonte de estudo para os jovens da atualidade. Criticando a condição em que se encontra atualmente a produção de adaptações dos clássicos literários para a nona arte, Giron afirma que essa produção massificada de tão importante material pode acabar com tudo o que a literatura representa.

Uma vez que estamos numa realidade onde os textos estão diminuindo de tamanho e relevância conforme os dias passam, Giron vê com certo receio o aumento do uso das histórias em quadrinhos como fonte de referência para os estudantes, ainda que estas sejam indicadas pelos professores. Seu ponto é válido mediante essa contextualização em que se encontra a produção de elementos culturais nos dias de hoje. As histórias em quadrinhos não podem, entretanto, servir de bode expiatório para a crítica a um sistema de ensino errôneo que está em vigência. No passado, a arte sequencial passou por sérios problemas junto ao público por questões parecidas, e isso não pode se repetir.

Para deixar clara sua posição de que não está criticando os quadrinhos, Giron destaca no final de seu texto a importância e a qualidade de conteúdos gerados pelos grandes mestres dos quadrinhos, como Will Eisner e Joe Sacco, destacando ainda o bom trabalho nas adaptações literatura-quadrinhos feito pelo desenhista Flávio Colin em suas obras "Estórias Gerais" e "Fawcett". Acredito que valeria a pena destacar nesse campo, também, o trabalho dos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá na graphic novel "O Alienista", feita sobre a clássica história de Machado de Assis, e os muitos trabalhos produzidos pelo já mencionado Aizen (a relação dos quadrinhos e as livrarias na última década também já foi analisada aqui no blog antes).


O quadrinista Spacca ficou
conhecido por suas excelentes obras históricas
produzidas em quadrinhos
Para histórias em quadrinhos cujo conteúdo poderia ser bastante aproveitado nas salas de aula, vale mencionar os trabalhos históricos do quadrinista Spacca, como "D. João Carioca", "Santô e os Pais da Aviação" e "Debret em Viagem Histórica e Quadrinhesca ao Brasil", junto com o trabalho feito pela editora HEINLE CENGAGE, responsável pela produção e publicação da versão em quadrinhos de histórias como "Macbeth", "A Christmas Carol" e "Frankestein". Há, também, é claro, os casos mencionados por Giron de adaptações meramente voltadas para um mercado com crescente demanda, porém, não podemos tratá-los como se estes fossem a regra e as boas adaptações, exceções.

Desde 2008, o Programa Nacional Biblioteca na Escola (PBNE), investe bastante na adoção de histórias em quadrinhos como forma de ampliar a dimensão do contéudo passado em sala de aula, e, sinceramente, espero que isso cresça mais e mais. Ainda que existam editores que têm como objetivo lucrar em cima de consumidores desavisados, há uma enorme gama de profissionais sérios que reconhecem o potencial artístico-narrativo que a nona arte possui, e estes sim devem ser tratados como regra. Aos que quiserem conhecer um pouco mais dessa questão, os estudiosos Waldomiro Vergueiro e Paulo Ramos têm uma extensa bibliografia no assunto, que recomendo bastante. Para quem quiser conferir o artigo de Giron, basta lê-lo na sua coluna eletrônica no site do Globo aqui, e quem tiver algum conhecimento na área para levantar uma discussão mais aberta sobre o tema, sinta-se livre para fazê-lo. Pois apenas nos comunicando é que podemos conquistar vitórias, tanto no campo da educação como no campo da vida.

domingo, 26 de junho de 2011

Legado Esmeralda

Por Gabriel Guimarães


Graças a um meticuloso trabalho de pesquisa feito pelo roteirista Geoff Johns no fim de 2004, a DC ganhou um reforço de peso na luta pelo gosto dos leitores de quadrinhos. Trazendo o Lanterna Verde Hal Jordan de volta dos mortos em "Lanterna Verde: Renascimento", Johns deu não apenas um motivo para os leitores tradicionais do personagem voltarem a acompanhar os títulos relacionados com ele, mas renovou inteiramente o universo e a mitologia por trás do anel que este carregava consigo (já fiz uma matéria sobre a reinvenção do Lanterna Verde aqui no blog antes).

A arma mais poderosa do universo DC passou a ganhar mais força entre os admiradores da arte sequencial, e, com isso, os personagens a ela ligados foram tendo mais destaque na mídia. A DC cresceu em representatividade no mercado, e, logo, o universo esmeralda em que Hal Jordan era o tradicional centro ganhou novos protagonistas importantes, novas cores baseadas no espectro emocional dos seres vivos e novas histórias memoráveis (comentei também sobre uma delas já aqui no blog). Utilizando de referências a trabalhos clássicos feitos com os personagens da Tropa dos Lanternas Verdes, como os feitos por Alan Moore há quase 30 anos atrás, Johns adaptou muitas estórias, dando uma roupagem nova para o mundo em que vivemos hoje. E os resultados foram se mostrando cada vez mais positivos.

Como a década passada foi um marco para a transição entre os quadrinhos e o cinema (como já comentei aqui no blog), não é nenhuma surpresa que a editora resolveu colocar em prática uma estratégia para dar vida aos desenhos dos personagens da Tropa. Primeiro, foi lançado o filme de animação "Lanterna Verde: Primeiro Voo", em 2009, a fim de contar a primeira aventura de Hal Jordan como Lanterna Verde e seu primeiro confronto com Sinestro. Despois, dois projetos foram tocados em compasso para serem lançados esse ano de 2011. O primeiro é o filme live action estrelado por Ryan Reynolds (cujo comentário inicial pode ser visto aqui, e cuja política de escolha de elenco foi comentada aqui), que já está sendo exibido nos Estados Unidos, e que estará disponível nos cinemas brasileiros a partir de 19 de agosto. O segundo, que é o tema da matéria de hoje, é um segundo filme animado, chamado "Lanterna Verde: Cavaleiros Esmeralda".

Partindo do desejo da editora de mostrar toda a gama de personagens que são membros da Tropa dos Lanternas Verdes além dos nomes mais conhecidos, o filme faz uma bela apresentação para quem não conhece a cronologia dos quadrinhos, além de apresentar certos pontos de vistas pouco comuns para as histórias de heróis. Através de uma trama centrada na jovem Arísia, personagem bastante conhecida da década de 1980 das histórias de Jordan, o filme narra os contos mais marcantes dentro da própria Tropa, relembrando a origem desta (apesar de não mencionar os Caçadores Cósmicos) e algumas das figuras mais ilustres que já portaram o anel.

A história principal em si, que se desenrola em meio a esses contos, é um tanto fraca e superficial, mas por se tratar de apenas um esquema de expôr a mitologia da Tropa para quem ainda não a conhecia, funciona de forma eficaz, servindo ainda para apresentar o vilão Krona, que é ligado de fato à origem dos Guardiões do universo, mentores dos Lanternas, e que teve seu papel contado na história "O Conto de Ganthet", feita pelos grandes profissionais de quadrinhos Larry Niven e John Byrne.

O filme é interessante, porém, nada muito impressionante. Houve algumas adaptações feitas entre a versão em quadrinhos e a animada, mas nada que condene uma ou outra. Os personagens estão bem representados, apesar de que o som é um dos pontos mais fracos do filme. A falta de uma trilha sonora de peso e de maior vivacidade nas vozes dos protagonistas acaba dando um tom similar às aulas de história do colégio em alguns momentos, evitando assim que você consiga se prender à trama. A experiência também me chamou atenção para um fato: não há como unir os dois filmes animados produzidos pela DC, pelo fato de Sinestro ter sido o vilão no primeiro e neste segundo, ser um dos membros da Tropa ainda, entretanto, o estilo dos personagens foi mantido e a caracterização deles é a mesma. Não sei ao certo qual foi o objetivo dos produtores com isso. Os destaques positivos, porém, ficam por conta de Kilowog e Mogo, que são os Lanternas que conquistaram maior carisma com suas respectivas histórias.

NOTA GERAL: 2,5 estrelas.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Alerta: SPOILER!

Por Gabriel Guimarães
O objetivo das grandes histórias em quadrinhos sempre foi o mesmo: cativar o leitor e inserí-lo no universo onde os personagens que protagonizam as histórias estão. Quando essa missão é bem sucedida, a procura pelas revistas com essas aventuras naturalmente cresce, e, com ela, a ansiedade por saber o que vai acontecer a seguir no decorrer da trama. Essa vontade de saber e de poder contar o que acontecerá em seguida nas obras ficcionais é conhecida como 'spoiler'.

Formulada depois do surgimento da internet, em função do desencontro temporal e geográfico entre os velhos e novos meios de comunicação, o termo em si surgiu a partir de um determinado evento que ocorria há muito tempo atrás nos Estados Unidos, quando um programa de televisão era exibido na Costa Leste três horas antes do que era Costa Oeste. Os espectadores da Costa Leste, então, ávidos pelos acontecimentos que acabaram de testemunhar no episódio da semana de seus seriados favoritos, partiam para os portais de discussão e divulgavam abertamente tudo que aconteceria no episódio, além de propor interpretações pessoais e determinar valor a determinados momentos em detrimento de outros. Quando alguém da Costa Oeste acessava esses portais ou tinha qualquer forma de contato com essas informações, toda a graça que o episódio possuía pela sua inviolabilidade, ou seja, o desconhecimento por todos do que de fato aconteceria, era estragada (ou era, como se diz em inglês, 'spoiled'). A esses usuários da Costa Leste que postavam o conteúdo dos episódios antes da sua exibição por todo o território norte-americano, passou a ser, então, dado o título de 'spoilers', a fim de obrigá-los a anunciar nos seus comentários que lá haveriam dados privilegiados da trama que era acompanhada, dando assim, a todos os espectadores e internautas um direito de escolha sobre até que ponto pretendiam saber de antemão os mistérios que os fascinavam ou não.

Com o decorrer dos anos, a dimensão dessa ação acabou se expandindo, atingindo todos os meios de comunicação que produziam conteúdo ficcional e que era consumido em espaços e tempos diferentes. O âmbito internacional disso, talvez, seja o que mais está em destaque hoje, onde um determinado programa, revista em quadrinhos ou até livro é disponibilizado primeiramente em um ponto do mundo e a informação sobre tudo ali exposto logo é  distribuida através da rede das mídias digitais para o mundo inteiro.

Até aí, esse tema é muito bem documentado. Há blogs, sites e programas quase que exclusivamente voltados para isso. Os seus leitores ou espectadores habituais não reclamam do que é feito lá, pois estão cientes da proposta desses locais e estes oferecem exatamente aquilo pelo qual eles procuravam para consumir. Seriados como LOST e Survivor foram grandes exemplos disso, agregando milhares de fãs dos seriados para debater sobre temas dos episódios, sobre a origem e/ou desfecho de determinado personagem na trama ou simplesmente sobre o funcionamento do universo ambiente das estórias. Agora, apesar de toda a estrutura de existência positiva dos spoilers como instrumentos de discussão entre os mais diferentes grupos de admiradores dessas obras, há diversos casos de completo descaso com o leitor ou espectador assíduo de determinado meio de comunicação.

Como aqui procuramos focar os estudos midiáticos e análises à nona arte, existem muitos casos que merecem ser destacados, em prol dos verdadeiros fãs de quadrinhos, que são severamente prejudicados por atitudes egoístas e desconsiderativas por parte de repórteres completamente desprovidos de consciência moral, que acabam por quebrar o laço ético que rege o fluxo de informações entre os profissionais do meio e os leitores do mesmo. No portal eletrônico do Globo, já testemunhei mais de um caso dessa impensada atitude, onde não foi dado ao internauta esse direito de escolha de conhecer ou não o porvir ficcional: aqui e aqui (ALERTA: SPOILER - Nestes links, há spoilers para eventos futuros nas histórias dos personagens Marvel). A chamada para estas matérias, que se encontravam na página inicial do portal não apenas desrespeitam o leitor dos quadrinhos como denigrem as histórias produzidas pela Casa das Ideias frente aos olhos públicos dos demais internautas, que perdem qualquer interesse de acompanhar as revistas para saber o que vai acontecer ao final de cada título, uma vez que essa informação é dada de forma gratuita no título das reportagens.

Acredito que essa postura não pode mais ser tolerada nos dias atuais, onde a liberdade de expressão é direito de todos, o que inclui, claro, o direito de se surpreender com as obras que se acompanha ou não, e de ser respeitado por isso. Cabe, agora, a nós, leitores e admiradores da arte sequencial, lutar por nossos direitos e não cedermos enquanto não formos reconhecidos e respeitados.

sábado, 18 de junho de 2011

Homenagem ao Louco que Nos Fez Rir

Por Gabriel Guimarães

Hoje, o Anjinho ganhou um companheiro especial no céu.

Por muitos e muitos anos, o personagem Bugu invadiu as história do Bidu para dar seu clássico bordão "alô mamãe", porém, neste dia, todos nós, leitores e admiradores das histórias em quadrinhos, prestaremos um momento especial de respeito e atenção, enquanto ele dá pela última vez seu "adeus, papai". Com lágrimas, que caem de suas orelhas, o Louco também está de luto, e, com isso, as suas palhaçadas rotineiras tiram um momento de folga, pois não encontram razão para a birutice que caracterizou o personagem desde seu surgimento em 1973.

Neste dia, 18 de junho de 2011, Marcio Roberto Araujo de Sousa, criador desses dois personagens e irmão do criador da turma da Mônica, Maurício de Sousa, faleceu aos 64 anos de vida, em decorrência de uma luta contra o câncer que já travava há algum tempo, e nós, admiradores da nona arte que nos tornamos, e, mais ainda, humanos que somos, hoje prestamos um profundo sentimento de respeito a tudo aquilo que Marcio nos fez sentir. Não fosse por ele, talvez não existissem Cebolinha e Cascão, criados a partir de amigos de infância deste irmão de Maurício, ou até o Rolo, criado a partir dele próprio, Marcio.

Entretanto, eu jamais poderia medir apenas por contribuições a um meio de comunicação a vida de um ser tão querido que se vai. O pesar que hoje sentimos é reflexo da vida dedicada a nos fazer rir que esse talentoso homem teve, a fim de tirar o peso da nossa correria cotidiana e nos lançar em um universo de gargalhadas, onde quem procura a felicidade desprendida do status social é visto como Louco. Hoje, o bairro do Limoeiro não tem festa, mas sim um profundo sentimento de honrar a memória de tão importante figura para sua existência.

E não poderíamos mostrar o quanto aprendemos com tudo que se passou nas páginas daquelas revistinhas sem fazer o mesmo. Deixo aqui, portanto, minhas mais sinceras consolações à família Sousa, e um agradecimento sem palavras para a memória deste "verdadeiro artista da família", como afirmou Maurício. O velório está acontecendo neste instante na Funeral Home, na rua Carlos de Pinhal, 376, em São Paulo, e vai se extender até 15:30. Aos que desejem prestar uma última homenagem a Marcio, estão convidados a fazê-lo.