terça-feira, 14 de junho de 2011

500 Vezes Mônica

Por Gabriel Guimarães
 

Alguns dos pontos de divulgação
da edição do mês passado da Turma
da Mônica Jovem contaram com a
presença ilustre do próprio Maurício
de Sousa, da Mônica e do Cebolinha

Para qualquer um que já tenha observado mesmo sutilmente o mercado editorial de quadrinhos, é fácil perceber que a quantidade de feitos de Maurício de Sousa poderia preencher uma vasta bibliografia que se tornaria referência para todos os que desejam ingressar no mercado de quadrinhos no Brasil. Mês passado, Maurício causou um grande alvoroço no mercado em torno do romance entre Mônica e Cebolinha nas páginas da Turma da Mônica Jovem número 34 (cujo signifcado para a história dos quadrinhos nacionais pode ser visto aqui), alcançando a incrível tiragem de 500 mil exemplares disponíveis para todas as bancas de jornal ao redor do Brasil, o que é um número impressionante para os dias atuais. Este mês, a comemoração na turma de personagens mais conhecida do Brasil continua, mas em decorrência de um evento na linha mais tradicional de estórias, mais propropriamente, na edição número 54 da revistinha da Mônica.

Lançada pela primeira vez em um título próprio em 1970 pela editora Abril, a personagem Mônica, baseada na filha do grande quadrinista, cativou multidões, se tornando um elemento recorrente em gerações e gerações de jovens brasileiros ao redor de todo o país. Devido ao sucesso que obteve, a baixinha gordinha de vestidinho vermelho favorita dos leitores de quadrinhos preencheu 200 edições antes de mudar de editora. Depois de 26 anos, a turma da Mônica deixou sua antiga casa editorial e passou a ser encontrada na editora Globo, onde se tornou quase uma unanimidade nos pontos de venda de quadrinhos, em função da quantidade de títulos disponíveis protagonizados pelos mais variados tipos de personagens de Maurício. Novamente, porém, o destaque ficou por conta do título solo da Mônica, que chegou à marca de 246 edições publicadas.


Em 2007, entretanto, veio novamente o momento de mudança, e a turminha migrou para a editora Panini, hoje responsável pela publicação de grande parte dos produtos voltados para o mercado de quadrinhos no país, que são distribuidos para os jornaleiros e livrarias. Dentro da nova casa, a turminha cresceu e passou a almejar voos mais altos com o lançamento da Turma da Mônica Jovem em estilo mangá (o qual já foi discutido antes aqui no blog como um dos eventos que mais marcaram os quadrinhos na década passada). E as atenções pareciam ter se voltado quase que exclusivamente para esse novo universo de estórias, tendo a versão infantil dos personagens da turminha ficado talvez em um segundo plano, momentaneamente. Este mês, todavia, aquelas que ficaram marcadas como as figuras mais tradicionais no mercado de quadrinhos produzidos no Brasil resolveram mostrar que continuam sendo motivo de comemoração, mais que isso, que jamais deixaram de ser. Com a edição número 54 da revista da Mônica, a personagem chega a uma marca que poderia ser considerada impossível de ser atingida por um trabalho produzido no Brasil: são agora ao todo 500 edições lançadas exclusivamente no título principal da Mônica.

Para celebrar esse feito, a edição que representará este marco trará uma história especial que percorre toda essa longa trajetória dos personagens do bairro do Limoeiro, além de capas clássicas e passatempos voltados para os momentos históricos da turma, se tornando um deleite para os colecionadores tradicionais e, ainda assim, uma revista bastante interessante para os leitores eventuais, que podem recordar os momentos mais importantes do percurso da turminha.
A edição já está disponível nas bancas ao preço de R$4,50 e, com certeza, quem se aventurar por entre suas páginas, não se arrependerá de ter esse intenso contato com a história da turminha que revolucionou os quadrinhos brasileiros.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Com Grandes Ideias, Vêm Grandes Oportunidades

Por Gabriel Guimarães




O pequeno "Puny Parker"
saindo de dentro da cabeça
do seu criador
Há uma semana exatamente, o público leitor de quadrinhos recebeu triste, porém, satisfeito, a notícia de que a série de tirinhas do quadrinista mineiro Vitor Cafaggi protagonizada por uma versão infantil de Peter Parker, o Homem-Aranha, chegou ao fim. Iniciada em agosto de 2008, a tirinha "Puny Parker" narrou as desventuras do Cabeça de Teia muito tempo antes de este conseguir seus poderes que lhe deram tanta fama, num traço simples e sensível que lembra bastante os trabalhos de Bill Waterson, criador dos personagens Calvin e Haroldo, e Charles Schultz, criador do Charlie Brown.
Tendo como destaque o ínicio da vida amorosa de Peter, seu relacionamento com seus tios e a sua dificuldade de se relacionar com as outras crianças do colégio, "Puny Parker" rapidamente entrou na lista de tiras favoritas entre os leitores de quadrinhos. E não foi pra menos. Ao longo desses 3 anos de existência do blog oficial, foram 140 tirinhas que se disseminaram pela internet de forma ágil e fácil, através das ferramentas cada vez mais comuns de compartilhamento nas redes sociais.

A proposta de Vitor começou ainda no Orkut, mas foi ganhando tanta atenção que culminou na criação de um blog específico para o personagem, e, assim, o trabalho desse artista mineiro foi ganhando cada vez mais destaque. Ao apresentar todas as tiras que produzia em português e em inglês, expandiu seu público leitor de forma impressionante, atraindo muitas pessoas para conhecer o seu trabalho, e para conseguir manter todo esse público que chegava ávido ao seu blog a partir das indicações, Vitor usou de uma sensibilidade ímpar, reforçando uma certa nostalgia a esse período da infância, o que deu um efeito ainda mais especial para os leitores de suas histórinhas que tiveram o hábito de acompanhar séries de quadrinhos quando menores. Tamanha dedicação não tinha como dar errado, e assim o pequeno Parker começou a entrar na mente e nos corações dos leitores tanto quanto o grande Homem-Aranha fizera quando ainda éramos crianças.
Auto retrato de Vitor Cafaggi ao lado de seu personagem
Enquanto o Homem-Aranha original nos fazia ficar apaixonados pelas aventuras que poderiam ser vividas quando um dia nos tornássemos adultos, o jovem "Puny Parker" segue no caminho oposto, nos saudando com as memórias da pureza da juventude e da beleza da simplicidade, que hoje já não se mostram tão fáceis de recordar assim. Com o mundo cada vez mais rápido, precisamos dessas âncoras para nos prender ao cerne de nossos sonhos, à origem de nossas esperanças e força de vontade; e esse trabalho de Vitor com certeza atingiu esse patamar.


Chico Bento observando a vida de
cima do pé de goiaba do Nhô Lau

Portanto, não foi algo inesperado quando o reconhecimento para esse grande quadrinista brasileiro começou a crescer, chegando ao convite para colaborar com a série que homenageava os 50 anos de carreira do patrono dos quadrinhos nacionais, Maurício de Sousa, no primeiro volume do MSP50. E Vitor, mais uma vez, não deixou passar a oportunidade e nos presenteou com uma bela história do Chico Bento, novamente nos remetendo às emoções da infância, com as quais ele consegue trabalhar tão bem. Ano passado, colaborou também com o álbum "Pequenos Heróis", lançado pela editora Devir, onde narrava uma história protagonizada por uma versão infantil do Flash na vida real, onde os poderes são apenas aqueles dados pela imaginação e empenho.


O jovem Wally West (Flash) desenhado por
Vitor para o álbum "Pequenos Heróis"

A contribuição de Vitor para os quadrinhos nacionais é algo admirável e acredito que passaremos a ouvir falar dele cada vez mais frequentemente. Ontem, ele foi tema de matéria no site Supernovo, que vale a pena ser conferida para que se possa compreender ainda mais o significado da sua criação para os leitores de quadrinhos. 

Ano passado, ele e a irmã, Luciana Cafaggi (outra bela profissional de quadrinhos sobre a qual pretendo falar em matéria posterior aqui no blog, e cujo site artístico pessoal pode ser visto aqui), estiveram na Rio Comicon (cuja cobertura completa pode ser vista aqui), mas infelizmente não consegui falar com ele para poder lhe dizer o quanto suas tirinhas são importantes para os quadrinhos no Brasil hoje, mas espero que ele saiba disso. Esse ano, caso ele venha para a segunda edição da Rio Comicon, que ainda está para ser confirmada, espero sinceramente reverter isso e poder conhecê-lo pessoalmente.

Para os interessados no trabalho de Vitor, ele disponibilizou no seu blog todas as tirinhas do "Puny Parker" para serem baixadas, além de diversas wallpapers e trabalhos artísticos que apenas fazem crescer suas qualidades profissionais, tudo de graça. Eu garanto que, quem começar a ler as histórias lá, não vai conseguir parar até terminar.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Chibata e a Discórdia!

Por Gabriel Guimarães

Há três anos, a editora Conrad publicou uma história em quadrinhos sobre a vida do marinheiro que iniciou o movimento social que veio a ser conhecido como a Revolta da Chibata em 1910, João Cândido, ou, como era mais conhecido, o Almirante Negro. A obra trata-se de "Chibata!", produzida pelo roteirista Olinto Gadelha com belíssimos desenhos de Hemeterio, ambos nascidos em Fortaleza, capital do estado do Ceará. À época, a qualidade do material chamou bastante atenção nas livrarias, tendo talvez o uso do contraste entre luz e sombra sido o seu grande trunfo visual.

Com um estilo que oscila entre o realista e o cartunesco, ainda que sempre com uma profunda riqueza de detalhes, a história cativa o leitor e o prende a uma grande trama que envolve o povo brasileiro no começo do século XX. Usando muito de estilos diferentes de hachura (técnica caracterizada pela repetição de traços para criar impressão de profundidade ou para dar sensação de sombras e tons), os desenhos de Hemeterio são simplesmente apaixonantes, e o tratamento que ele dá às referências históricas é algo, no mínimo, impressionante, vide a referência que faz ao jornalista Aparício Torelly, que já encapou edição da revista "Almanhaque", onde fora entitulado "O Barão de Itararé", e cuja representação nessa capa mencionada é idêntica àquela foi usada nessa história em quadrinhos.

Para os bons leitores de histórias em quadrinhos, essa obra não pode faltar à coleção, pois simboliza bem o quanto uma história real brasileira pode emocionar, se contada de forma instigante e sensível. Falo com certeza que essa obra possui um grau de destaque dificilmente encontrado nas obras brasileiras, e a admiro muito por isso.

Tendo sido feita essa introdução, vamos ao cerne que motivou essa matéria. O jornal O Estado de São Paulo divulgou em matéria hoje que o dramaturgo e diretor de teatro César Vieira, pseudônimo do advogado Idibal Piveta, ganhou um processo em 1ª instância contra a editora Conrad sob a alegação que trechos da história em quadrinhos "Chibata!" foram copiadas de sua peça "João Cândido do Brasil - A Revolta da Chibata", inclusive nomes de personagens e ambientes fictícios.

Iniciada em maio de 2010, a ação ainda estipulou o pagamento de indenização por danos morais e materiais, em função da distribuição e comércio de duas edições da obra, além do recolhimento de todas os volumes disponíveis no mercado destas. A editora, em resposta, afirmou que recorrerá da decisão da juiza da 2ª Vara Cível do Fórum de Pinheiros, alegando que a HQ se baseia em dados históricos. Um tanto independente do resultado, levantou-se com essa disputa uma questão, que passou a ser discutida depois da divulgação da disputa judicial: a responsabilidade de publicar uma história de teor original que não fira a integridade de outras obras e autores que já discorreram previamente sobre o assunto que esta aborda é de quem, principalmente? Ela é obrigação dos produtores da obra (roteiristas, desenhistas, arte-finalistas, etc) ou deve ser algo a cargo da editora que publica a história?

Arte de Alex Ross para o Batman,
mostrando seus ferimentos de batalha

No Brasil, as editoras claramente têm em mãos uma capacidade de se defender contra esse tipo de acusação muito melhor do que os produtores individuais das obras, e a forma como se dá a disseminação de uma influência aqui é algo que merece um olhar muito atento, uma vez que em meio a uma miscigenação cultural tão grande, as obras que são criadas sempre acabam usando de referências encontradas em outros materiais publicados ou encenados previamente com os quais os autores tiveram contato. A página 40 de "Chibata!", por exemplo, eu vejo claramente como resultado da influência do desenho que o artista norte-americano Alex Ross produziu para o personagem Batman exposto ao lado, porém, uma alegação de plágio nesse caso seria algo um tanto radical, a meu ver, uma vez que quando se pesquisa imagens sobre a chibata, encontra-se esta que destaquei aqui entre elas, que também pode ser fácil e igualmente atribuída como referência para a página da HQ. Caso as acusações de Vieira quanto ao uso impróprio de suas criações e diálogos sejam confirmadas, caberá uma nova discussão sobre estes termos de responsabilidade que descrevi, e com certeza atentaremos para um diálogo em que ambos os lados da história estejam em pé de igualdade, a fim de que quem vença no final das contas seja o patrimônio cultural a que todos temos direito.

De qualquer forma, essa notícia é importante para o mercado editorial como um todo atualmente, pois a ocorrência de plágio é algo extremamente nocivo para quem sofre a partir dele e principalmente para quem o pratica, e é preciso que hajam medidas para evitá-lo. Ainda assim, acrescento: apesar desses pontos destacados que pesam no pré-julgamento da obra "Chibata!", permaneço com minha opinião de que se trata de uma obra nacional com altíssima qualidade e que merece ter seu reconhecimento como produto cultural. Aos que não tiveram ainda contato com ela, recomendo que o façam, pelo menos enquanto ainda há tempo.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

A Nova Cara da Marvel

Por Gabriel Guimarães


 Nesse último mês, a Marvel voltou a ficar em evidência no mercado com as recentes adaptações para o cinema das histórias em quadrinhos de alguns de seus personagens, como Thor e o grupo de mutantes X-men. Em breve, outro que entrará nessa lista de adaptações é o Capitão América, cujo filme protagonizado pelo ex-Tocha Humana Chris Evans, deve estrear por volta de julho nas grandes salas de cinema. Todo esse destaque para os filmes da Marvel me chamou a atenção para uma transição de foco que estou percebendo na política da editora.

Os roteiros e a qualidade dessas duas últimas produções para o cinema ("Thor" e "X-men - First Class") são aspectos que de forma alguma podem ser duvidados. A trama dos dois foi trabalhada de forma extremamente cuidada e resultou em espetáculos para os olhos e a mente dos espectadores, superando assim as expectativas de grande parte dos fãs dos personagens. Em especial esse segundo, o sucesso se deve, acredito, a todos os envolvidos colaborarem de forma realmente focada para garantir um bom resultado para o projeto. E isso é facilmente notado enquanto você está assistindo o filme. A narrativa flui de forma natural, sem peso, e o mundo onde os personagens estão inseridos realmente se torna crível e majestoso. Há, entretanto, um fator a mais que pude perceber nesses dois filmes, que também podem ser encontrados nos filmes que são considerados algumas das melhores obras baseadas em quadrinhos no cinema, que deve ser destacado: a arte da adaptação.

Quando assistimos a uma obra adaptada de um meio de comunicação para outro, é imprecindível que compreendamos que não se trata de uma transcrição literal. Uma adaptação, em hipótese alguma, pode conter em si todos os elementos que a obra original possui, pois o meio pelo qual uma mensagem é transimitda influencia de forma essencial na mensagem que é transmitida (como destacou o teórico de comunicação Marshal McLuhan em sua obra máxima "Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem"). Cada forma artística tem suas próprias qualidades e falhas, e é sabendo trabalhar em cima desses aspectos específicos de cada um que se consegue o que a Marvel tem conseguido em suas últimas empreitadas nas grandes telas: ela tem trabalhado com bastante afinco para adaptar o universo de seus personagens, suas motivações, suas personalidades, sem querer adaptar o formato detalhe a detalhe de suas histórias mais antológicas, se concentrando dessa forma em manter viva a essência da história, porém, dando-lhe uma abordagem repaginada e original.

Quem for assistir "X-men - First Class" perceberá essa liberdade criativa de forma claríssima e nem por isso ficará decepcionado com o filme, que funciona de forma perfeita unindo seus detalhes e personagens. Os filmes anteriores do Homem de Ferro podem servir de forma óbvia para essa questão. A HQ "A Guerra das Armaduras", que gerou o argumento para o segundo filme do cabeça de lata é completamente diferente da história contada no filme, porém, ela está inserida lá em caráter fundamental para toda a criação e desenvolvimento dos personagens e da trama central. A Marvel, portanto, está acertando precisamente no alvo com essas últimas adaptações, porém, está cometendo um erro que foi o que me motivou a escrever essa postagem: ela está investindo cada vez mais na sua divisão Marvel Studios, responsável atualmente por todo planejamento de adaptação das obras da Casa das Ideias para demais meios de comunicação, e deixando cada vez mais de lado a origem de todo seu grande público, as revistas em quadrinhos.

Eventualmente, surgem bons arcos e boas histórias com os personagens Marvel, mas se for observar de perto, essas são limitadas a poucas séries e com um período de duração muito curto. "Os Supremos", de Mark Millar e Brian Hitch; "Guerra Civil", também de Mark Millar, porém, em parceria com Steve McNiven; toda a reconstrução da mitologia do Homem-Aranha no universo Ultimate, feita por Brian Michael Bendis, com ajuda de várias mãos que desenharam histórias que realmente envolviam o universo jovial em que o personagem está inserido, como Mark Bagley, Stuart Immonen e David Lafuente; dentre outros, são alguns exemplos singulares de que é possível ainda produzir boas histórias em quadrinhos e atrair tanto o público mais antigo quanto o novo que se forma pela geração pipoca e controle remoto. As últimas tentativas, porém, de gerar crossovers entre os personagens da editora, como "Invsão Secreta", "Reinado Sombrio" e o "Cerco", por outro lado, têm sido pífias, para dizer o mínimo.


John Byrne posa ao lado de um dos
seus desenhos originais para os X-men

O público que começa hoje a ler as revistas em quadrinhos nem sente muito essa diferença, pois não teve contato com as grandes fases dos personagens que lêem, como Stan Lee e John Buscema no Surfista Prateado; Stan Lee de novo com John Romita Sr no Homem-Aranha; Chris Claremont e John Byrne nos X-men; John Byrne novamente, mas junto à Mulher-Hulk; Barry Windsor-Smith no Wolverine; entre outras dúzias de bons e memoráveis momentos. O que acontece é que há falta de um elemento comparativo para o novo público. E, com isso, a Marvel investe em excelentes roteiros de cinema, uma vez que são em geral a maior fonte de primeiro contato com os personagens que os leitores de hoje têm, e relevam a manutenção de histórias emocionantes nas páginas de quadrinhos, sendo em grande parte estas hoje movidas por temas e confrontos mencionados nestes filmes (já fiz uma matéria sobre o quanto as adaptações para o cinema têm influenciado as histórias em quadrinhos em geral aqui no blog antes, quem quiser pode dar uma conferida).


Admiro muito todo o trabalho que a editora está fazendo com aquilo que é seu cerne, que apesar de muitos não perceberem, não se trata de histórias em quadrinhos em si, mas sim de um universo vasto e cheio de personagens e estórias. Entretanto, tenho desejo sincero e profundo que a Marvel não esqueça suas origens e seus leitores que lhe fizeram atingir o patamar onde se encontra hoje, porque o público novo de hoje é fugaz e passageiro, enquanto aqueles que acompanham a editora desde seus primórdios ou desde que eram crianças pequenas, são leitores recorrentes que criam um vínculo com o que lêem que dificilmente pode ser quebrado. Nota-se que existe essa possibilidade de quebra-lo, o que não pode ser esquecido de forma alguma.



Esta matéria também me serviu para poder falar do filme "X-men - First Class", que fui assistir na primeira sessão no dia da estreia e que relutava em fazer uma resenha sobre ele a fim de não estragar eventuais surpresas e dar spoilers de cenas. Como pode ser percebido, não cometi nenhuma dessas violações de consideração com meu público leitor, e meu objetivo era esse, para que o julgamento de vocês do filme não se paute de forma alguma pelo meu julgamento dele. Acredito que todos têm direito a uma opinião, e a minha ficou bem claro nessa matéria, o que só poderia ser qualificado pelo meu grau de avaliação de material em 5 estrelas. Desejo a todos uma boa sessão e convido-os a dividir conosco suas opiniões sobre o filme e/ou a política de adaptações da Marvel para o cinema, aqui depois. Excelsior!

sábado, 4 de junho de 2011

Workshop sobre Narrativa de Quadrinhos na UFRJ

Por Gabriel Guimarães
O campus da Praia Vermelha da UFRJ está sediando esse fim de semana (dias 4 e 5 de junho), o evento "Arte Fórum - Ocupação Artística", com diversas atrações voltadas para o público envolvido com os meios artísticos, como teatro, exposições de esquemas e até a criação de games, e as histórias em quadrinhos não foram deixadas de lado na organização da faculdade.

Hoje cedo e amanhã no mesmo horário (das 10 às 14 horas), o professor de Jornalismo Gráfico da Escola de Comunicação da própria UFRJ e estudioso da nona arte, Octávio Aragão, estará administrando um workshop de narrativa nas HQs muito interessante. Explorando os recursos básicos de qualquer história em quadrinhos e instigando o público a produzir alguns exemplos que ele passa na sala, a oficina é bastanta abrangente e com certeza acrescenta muito ao repertório de conhecimentos e práticas para quem é aficcionado pela arte sequencial.

A oficina é realizada na sala 210 do prédio de Administração da UFRJ na Urca, que é de fácil acesso, tanto de transporte para chegar até lá, quanto para localizar a sala dentro do campus. Os organizadores do evento e os professores da faculdade que estão participando dessa iniciativa são bastante solícitos e estão distribuidos de forma aberta pelo campus para tirar dúvidas e dar indicações. Uma outra oficina que deve atrair bastante público também é a de narrativa na construção de games, que foi realizada hoje e será também amanhã, na mesma sala que a de quadrinhos, porém, cujo horário é das 14 às 18 horas, e será apresentada por Guilherme Xavier, diretor de Artes e Design do jogo independente Capoeira Legends - Path to Freedom, e Arthur Protasio, autor do site Vagrant Bard.

É um evento interessante que reúne um grupo bem diversificado de pessoas, que têm alguma relação com a arte, seja de qual meio for. Estive lá hoje e aproveitei bastante o tempo do workshop. O convite está feito, espero que aproveitem o máximo possível.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Ares de Recomeço?

Por Gabriel Guimarães


 
Ontem, as redes sociais e os fóruns de discussão de quadrinhos estiveram a toda velocidade e movimentação com a confirmação de uma notícia da DC comics que pode mudar muito o panorama do mercado de quadrinhos de heróis. Após meses de especulação com os possíveis desdobramentos da futura grande saga da editora, "Flashpoint", os responsáveis pela edição e publicação do material da editora confirmaram uma das especulações que já era feita há tempo: a DC recomeçará a contagem de praticamente todas as suas revistas a partir do fim da saga. Previsto para acontecer em setembro, essa reformulação geral tem alguns aspectos que chamam bastante a atenção.


Em primeiro lugar, façamos um panorama de como se encontra o universo de Superman, Batman e cia atualmente. Desacreditada junto ao público pela sequência ininterrupta de crises e falta de uma estabilidade de boas histórias, salvo algumas raras exceções, os personagens da DC tiveram que encarar de tudo recentemente, desde vilões megalomaníacos a zumbis de todo o universo (quanto a este último, fiz uma matéria sobre a saga "A Noite Mais Densa" que postei aqui no blog algum tempo atrás). Porém, o maior obstáculo de todos ainda está neles mesmos. Os personagens não empolgam mais, ainda que o cinema lhes dê algum fôlego com as adaptações dos quadrinhos, tudo permanece muito igual, sem elementos de ação e, principalmente, emoção.
 
A DC tem uma das mais vastas e mais bem qualificadas listas de personagens dentre as editoras de quadrinhos, conta com um arsenal de roteiristas e desenhistas de ponta, um sistema de distribuição que sempre foi sinônimo de qualidade e uma galeria de fãs quase imensurável. Seus personagens foram os primeiros a marcar o imaginário dos leitores de quadrinhos de seres com super poderes e sua marca pode ser encontrada em quase todos os cantos do planeta. Então, me pergunto: por que a DC não consegue solucionar o caos em que seu universo está e cria uma estabilidade de vendas e de qualidade?
 
Hoje, a indústria vive dos modismos, e quando alguma ideia dá certo e passa a atrair o interesse público para determinado tema, não tarda muito para que todos as outras editoras e demais meios de comunicação venham para beber dessa fonte – o maior exemplo recente disso foi o já mencionado tema dos zumbis. Desde a mega-saga "Crise de Identidade", a DC se reestruturou (como destaquei em uma das matérias na minha lista especial dos dez acontecimentos que mais marcaram os quadrinhos na década passada aqui, no começo do ano). Essa história, inclusive, a meu ver, teria sido a mais bem sucedida reformulação de um universo tradicional de super heróis em muito tempo, porém, apesar de ter elevado muito o nível dos quadrinhos da editora por algum tempo, logo caiu na mesmice, e sua fórmula passou a ser repetida em escalas menores para puxar o público de tempo em tempo para comprar os exemplares da casa. Um caso para exemplificar isso, acredito ser a recente reviravolta na história do personagem Arsenal (ex-Ricardito), que fora o fiel ajudante do Arqueiro Verde por muitos anos, e que perdeu seu braço esquerdo e sua filha Lyan num massacre provocado pelo vilão Prometheus em Star City. Há muito drama hoje e pouca história.

Em meio a tanto vai-e-vem da atenção do público, a DC decidiu revolucionar de uma forma inovadora. Ao término da saga "Flashpoint", liderada pelo provedor de ovos de ouro dos últimos tempos da DC, Geoff Johns, a editora recomeçará sua numeração em 52 de seus títulos, além de promover uma reformulação geral do universo de personagens, desde os uniformes que usam (o desenhista e editor-chefe Jim Lee confirmou que redesenhou as roupas de cerca de 50 personagens) às suas motivações pessoais, a princípio. O título pós-Flashpoint que terá maior destaque será o da Liga da Justiça, comandada justamente por estes dois profissionais que mencionei, com roteiros de Johns e arte de Lee. Ontem, inclusive, foi liberada uma imagem teaser com essa Liga, onde já é possível ver uma série de pequenas modificações nos personagens, além de alguns destes demonstrarem um tom mais jovial do que tradicionalmente.
 
Além desse quesito de criação, onde o foco me pareceu seguir na busca da DC por uma estratégia de renovar os ares de seu universo no estilo do que foi feito na Marvel com a linha Ultimate (cuja importância para o rumo da editora nos últimos anos também já foi discutido aqui antes), as novidades anunciadas pela editora vão muito além disso, como bem destacou o blog "Em Quadrinho", o que permite uma compreensão muito maior acerca dessa grande mudança e do recomeço da numeração.
 
A DC, juntamente com a notícia de seu reboot, anunciou que a partir dele, lançará simultaneamente as revistas no formato impresso e eletrônico, disponível para aplicativos de Ipad e demais tablets de leitura. E eu pergunto: que forma melhor de começar essa nova era de publicação de quadrinhos dos heróis DC do que dar ao leitor digital a oportunidade de comprar a partir do número 1 todos os títulos que for do seu interesse? A venda desse conteúdo, portanto, representará um grande volume de vendas para a editora e permitirá que a DC entre no meio eletrônico de forma forte e visando os mercados futuros de consumo de quadrinhos digitais. O formato impresso muitas vezes se vê contestado ainda, e a tendência é que o número de publicações feitas exclusivamente para esse meio seja cada vez menor. Eu não acredito que o livro ou a revista em quadrinhos vá acabar, mas acredito sim que sem essas mudanças nas estratégias de divulgação e acesso, nenhuma publicação pode dar totalmente certo hoje em dia, quanto mais manter uma fonte contínua de renda e lucro para as editoras responsáveis pela sua produção, como é o desejo de editoras como a DC e a Marvel (essa evolução do mercado digital já foi discutida em duas matérias antes no blog, aqui e aqui).
 
Paul Levitz ostenta sua
obra de homenagem à DC

Esse momento será, então, berço de um recomeço, mas este não se limitará apenas aos seus personagens, mas ao futuro da companhia como empresa também. O livro "75 Years of DC Comics - The Art of Modern Mythmaking", do editor Paul Levitz, e que foi premiado há pouco tempo com o prêmio Eagle, já antecipava isso, quando após descrever todas as eras pelas quais a editora passou, previu ao final que o futuro estaria na era digital e que a editora já começara a pensar nela desde a criação da Zuda comics, seu antigo portal que não funciona mais hoje.




Os desdobramentos econômicos dessa mudança na forma de publicação das revistas da DC ainda estão muito cedo para serem definidos com clareza, porém, é bastante claro que esse tema é algo a ser observado atentamente. O roteirista Brian Michael Bendis, responsável pela criação do universo Ultimate na Marvel, foi um dos primeiros a criticar essa decisão da DC em seu twitter, alegando que isso arruinaria o comércio com os revendedores das tradicionais comic-shops americanas, questão que foi respondida pelo gerente de vendas da DC, Bob Wayne, que assegurou que haverá uma política de benefícios para os revendedores que contribuírem com a divulgação e comércio dos títulos da editora de forma geral.
 
Concluindo, esperemos para ver os próximos capítulos e o desenrolar desses acontecimentos no mercado editorial, o que promete ainda muita discussão pela frente, e torçamos também para que os produtores compreendam a necessidade de inovação em seu conteúdo mais do que apenas de seu formato. Torçamos por dias mais emocionantes para a arte sequencial, como um dia estes já foram e acredito que, um dia, ainda possam vir a ser.

domingo, 29 de maio de 2011

Origens Perdidas

Por Gabriel Guimarães


Por anos, os quadrinistas brasileiros travam batalhas épicas pelo reconhecimento das histórias em quadrinhos como forma de arte, pois nunca bastou ter a rara capacidade e determinação necessárias para se produzir uma história gráfico-textual que emociona e liga culturalmente milhões de pessoas. Dos quadrinistas, sempre foi necessário mudar a figura do imaginário popular nacional de que todo artista é o que é por ser um desocupado, incapaz de realizar uma função mais comum e produtiva em termos de consumo para a sociedade. Esse, meus caros leitores, é o grande problema do Brasil. Enquanto em países europeus e em grande parte dos Estados Unidos, o artista, seja ele escritor, pintor, escultor, etc, sempre é visto como uma figura de destaque, alguém cujas particularidades na visão de mundo lhe dão uma impressão tão extraordinária de tudo, que os resultados de sua obra devem ser compartilhados com o resto do mundo, assim engrossando o contingente de conteúdo cultural da humanidade. Entretanto, basta que se olhe para o mercado brasileiro de artes que você não demora muito para ver uma série de problemas.

Mesmo tendo sido defendido como meio de comunicação valioso por grandes autores como Gilberto Freyre e Jorge Amado, e editores extremamente capazes e destacados como Adolfo Aizen, Sérgio Machado, Victor Civita, Waldyr Igaiara, entre tantos e tantos outros, os quadrinhos não gozam de uma boa imagem pública até os dias de hoje. Por mais que você encontre hoje, às centenas, pessoas comentando que leram esse ou aquele livro em quadrinhos e acharam seu conteúdo espetacular, muitas dessas mesmas pessoas não aceitariam de imediato a idéia de ver os quadrinhos como uma forma de arte válida como a pintura ou a escrita literária. Neste último mês, ouvi alguns discursos aleatórios, fosse no shopping ou na faculdade, que me deixaram bastante a par de como essa visão tem se dado nos dias atuais.

Considero este talvez o grande problema do povo brasileiro quando se trata de buscar melhorias como sociedade e de mostrar seu valor cultural para o mundo: a depreciação e desvalorização de seus artistas. Vale aqui lembrar, que na década de 1960, a cidade do Rio de Janeiro foi considerada o pólo artístico-cultural de maior destaque e influência no mundo inteiro. Hoje, ocupar tal posto novamente me parece algo muito difícil de se conseguir, porém, eu acredito na mudança. Acredito sim que é possível mudar, amadurecer essa visão deturpada da maioria dos brasileiros. Porém, sei que essa tarefa é grande demais para apenas uma, duas ou até mil pessoas. Para alcançar tal objetivo, é preciso uma comoção maior, um reconhecimento que deve ser estimulado por todos os fãs de quadrinhos quando possível.

Muitos devem estar estranhando talvez o tom revoltado do meu discurso, porém, ele decorre da notícia que motivou essa postagem: o roubo dos dois primeiros exemplares da revista que inaugurou os quadrinhos no Brasil, "O Tico-Tico", direto de dentro do acervo da Fundação Biblioteca Nacional (FBN), aqui no Rio de Janeiro, há pouco mais de um mês, mas que só agora foi noticiado. A proteção aos artefatos culturais deveria ser uma das funções mais prioritárias desse órgão público, porém, essa notícia demonstra a incapacidade dos seus organizadores para administrar algo de tamanha importância para nós, brasileiros, e isso, despertou em mim a vontade de escrever sobre esse déficit de valor que os produtores de bens culturais e intelectuais vêm sofrendo por anos, décadas. De acordo com a notícia que saiu no jornal O Globo, os erros da FBN vão muito além do roubo de seus artefatos históricos, chegando a erros de contabilidade e de avaliação de licitações.

A FBN não pode, em hipótese alguma, se dar ao luxo de passar por erros como esses, pois eles são os responsáveis pela manutenção do maior bem que qualquer brasileiro pode ter: seu patrimônio cultural. Acho sinceramente ridículo o quão desvalorizado que chega a ser o status do artista no país, e realmente luto por essa mudança de paradigma a cada oportunidade que me surge. O que isso tem a ver com o roubo da FBN? É preciso compreender o quanto é imprecindível o artigo de maior valor que a instituição guarda, a cultura, e como isso deve ser de fato guardado, administrado e, ainda assim, disponibilizado para todos os cidadãos brasileiros que venham a necessitar desse conteúdo. É um trabalho complicado, difícil, eu sei, porém, é preciso que os demais setores da sociedade compreendam a necessidade de investimentos maiores nisso e, é claro, em estar atentos a como esses investimentos são gastos propriamente dito. Os gastos abusivos por falta de administração não podem mais ser tolerados, e precisam de reformas imediatamente.

Enquanto isso, o patrimônio cultural que foi um dia, e ainda é, as edições de "O Tico-Tico" perde parte essencial de seu acervo e, com isso, deixa de atingir aqueles que desejavam procura-lo como referência para a formação da sociedade brasileira ao longo do século XX, através do qual sua história se extendeu e permaneceu viva através de dedicados pesquisadores como Waldomiro Vergueiro. Perdem-se mais que duas revistas, perdem-se dois pilares da cultura do Brasil, e isso é, absolutamente, inaceitável.