quarta-feira, 8 de junho de 2011

Chibata e a Discórdia!

Por Gabriel Guimarães

Há três anos, a editora Conrad publicou uma história em quadrinhos sobre a vida do marinheiro que iniciou o movimento social que veio a ser conhecido como a Revolta da Chibata em 1910, João Cândido, ou, como era mais conhecido, o Almirante Negro. A obra trata-se de "Chibata!", produzida pelo roteirista Olinto Gadelha com belíssimos desenhos de Hemeterio, ambos nascidos em Fortaleza, capital do estado do Ceará. À época, a qualidade do material chamou bastante atenção nas livrarias, tendo talvez o uso do contraste entre luz e sombra sido o seu grande trunfo visual.

Com um estilo que oscila entre o realista e o cartunesco, ainda que sempre com uma profunda riqueza de detalhes, a história cativa o leitor e o prende a uma grande trama que envolve o povo brasileiro no começo do século XX. Usando muito de estilos diferentes de hachura (técnica caracterizada pela repetição de traços para criar impressão de profundidade ou para dar sensação de sombras e tons), os desenhos de Hemeterio são simplesmente apaixonantes, e o tratamento que ele dá às referências históricas é algo, no mínimo, impressionante, vide a referência que faz ao jornalista Aparício Torelly, que já encapou edição da revista "Almanhaque", onde fora entitulado "O Barão de Itararé", e cuja representação nessa capa mencionada é idêntica àquela foi usada nessa história em quadrinhos.

Para os bons leitores de histórias em quadrinhos, essa obra não pode faltar à coleção, pois simboliza bem o quanto uma história real brasileira pode emocionar, se contada de forma instigante e sensível. Falo com certeza que essa obra possui um grau de destaque dificilmente encontrado nas obras brasileiras, e a admiro muito por isso.

Tendo sido feita essa introdução, vamos ao cerne que motivou essa matéria. O jornal O Estado de São Paulo divulgou em matéria hoje que o dramaturgo e diretor de teatro César Vieira, pseudônimo do advogado Idibal Piveta, ganhou um processo em 1ª instância contra a editora Conrad sob a alegação que trechos da história em quadrinhos "Chibata!" foram copiadas de sua peça "João Cândido do Brasil - A Revolta da Chibata", inclusive nomes de personagens e ambientes fictícios.

Iniciada em maio de 2010, a ação ainda estipulou o pagamento de indenização por danos morais e materiais, em função da distribuição e comércio de duas edições da obra, além do recolhimento de todas os volumes disponíveis no mercado destas. A editora, em resposta, afirmou que recorrerá da decisão da juiza da 2ª Vara Cível do Fórum de Pinheiros, alegando que a HQ se baseia em dados históricos. Um tanto independente do resultado, levantou-se com essa disputa uma questão, que passou a ser discutida depois da divulgação da disputa judicial: a responsabilidade de publicar uma história de teor original que não fira a integridade de outras obras e autores que já discorreram previamente sobre o assunto que esta aborda é de quem, principalmente? Ela é obrigação dos produtores da obra (roteiristas, desenhistas, arte-finalistas, etc) ou deve ser algo a cargo da editora que publica a história?

Arte de Alex Ross para o Batman,
mostrando seus ferimentos de batalha

No Brasil, as editoras claramente têm em mãos uma capacidade de se defender contra esse tipo de acusação muito melhor do que os produtores individuais das obras, e a forma como se dá a disseminação de uma influência aqui é algo que merece um olhar muito atento, uma vez que em meio a uma miscigenação cultural tão grande, as obras que são criadas sempre acabam usando de referências encontradas em outros materiais publicados ou encenados previamente com os quais os autores tiveram contato. A página 40 de "Chibata!", por exemplo, eu vejo claramente como resultado da influência do desenho que o artista norte-americano Alex Ross produziu para o personagem Batman exposto ao lado, porém, uma alegação de plágio nesse caso seria algo um tanto radical, a meu ver, uma vez que quando se pesquisa imagens sobre a chibata, encontra-se esta que destaquei aqui entre elas, que também pode ser fácil e igualmente atribuída como referência para a página da HQ. Caso as acusações de Vieira quanto ao uso impróprio de suas criações e diálogos sejam confirmadas, caberá uma nova discussão sobre estes termos de responsabilidade que descrevi, e com certeza atentaremos para um diálogo em que ambos os lados da história estejam em pé de igualdade, a fim de que quem vença no final das contas seja o patrimônio cultural a que todos temos direito.

De qualquer forma, essa notícia é importante para o mercado editorial como um todo atualmente, pois a ocorrência de plágio é algo extremamente nocivo para quem sofre a partir dele e principalmente para quem o pratica, e é preciso que hajam medidas para evitá-lo. Ainda assim, acrescento: apesar desses pontos destacados que pesam no pré-julgamento da obra "Chibata!", permaneço com minha opinião de que se trata de uma obra nacional com altíssima qualidade e que merece ter seu reconhecimento como produto cultural. Aos que não tiveram ainda contato com ela, recomendo que o façam, pelo menos enquanto ainda há tempo.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

A Nova Cara da Marvel

Por Gabriel Guimarães


 Nesse último mês, a Marvel voltou a ficar em evidência no mercado com as recentes adaptações para o cinema das histórias em quadrinhos de alguns de seus personagens, como Thor e o grupo de mutantes X-men. Em breve, outro que entrará nessa lista de adaptações é o Capitão América, cujo filme protagonizado pelo ex-Tocha Humana Chris Evans, deve estrear por volta de julho nas grandes salas de cinema. Todo esse destaque para os filmes da Marvel me chamou a atenção para uma transição de foco que estou percebendo na política da editora.

Os roteiros e a qualidade dessas duas últimas produções para o cinema ("Thor" e "X-men - First Class") são aspectos que de forma alguma podem ser duvidados. A trama dos dois foi trabalhada de forma extremamente cuidada e resultou em espetáculos para os olhos e a mente dos espectadores, superando assim as expectativas de grande parte dos fãs dos personagens. Em especial esse segundo, o sucesso se deve, acredito, a todos os envolvidos colaborarem de forma realmente focada para garantir um bom resultado para o projeto. E isso é facilmente notado enquanto você está assistindo o filme. A narrativa flui de forma natural, sem peso, e o mundo onde os personagens estão inseridos realmente se torna crível e majestoso. Há, entretanto, um fator a mais que pude perceber nesses dois filmes, que também podem ser encontrados nos filmes que são considerados algumas das melhores obras baseadas em quadrinhos no cinema, que deve ser destacado: a arte da adaptação.

Quando assistimos a uma obra adaptada de um meio de comunicação para outro, é imprecindível que compreendamos que não se trata de uma transcrição literal. Uma adaptação, em hipótese alguma, pode conter em si todos os elementos que a obra original possui, pois o meio pelo qual uma mensagem é transimitda influencia de forma essencial na mensagem que é transmitida (como destacou o teórico de comunicação Marshal McLuhan em sua obra máxima "Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem"). Cada forma artística tem suas próprias qualidades e falhas, e é sabendo trabalhar em cima desses aspectos específicos de cada um que se consegue o que a Marvel tem conseguido em suas últimas empreitadas nas grandes telas: ela tem trabalhado com bastante afinco para adaptar o universo de seus personagens, suas motivações, suas personalidades, sem querer adaptar o formato detalhe a detalhe de suas histórias mais antológicas, se concentrando dessa forma em manter viva a essência da história, porém, dando-lhe uma abordagem repaginada e original.

Quem for assistir "X-men - First Class" perceberá essa liberdade criativa de forma claríssima e nem por isso ficará decepcionado com o filme, que funciona de forma perfeita unindo seus detalhes e personagens. Os filmes anteriores do Homem de Ferro podem servir de forma óbvia para essa questão. A HQ "A Guerra das Armaduras", que gerou o argumento para o segundo filme do cabeça de lata é completamente diferente da história contada no filme, porém, ela está inserida lá em caráter fundamental para toda a criação e desenvolvimento dos personagens e da trama central. A Marvel, portanto, está acertando precisamente no alvo com essas últimas adaptações, porém, está cometendo um erro que foi o que me motivou a escrever essa postagem: ela está investindo cada vez mais na sua divisão Marvel Studios, responsável atualmente por todo planejamento de adaptação das obras da Casa das Ideias para demais meios de comunicação, e deixando cada vez mais de lado a origem de todo seu grande público, as revistas em quadrinhos.

Eventualmente, surgem bons arcos e boas histórias com os personagens Marvel, mas se for observar de perto, essas são limitadas a poucas séries e com um período de duração muito curto. "Os Supremos", de Mark Millar e Brian Hitch; "Guerra Civil", também de Mark Millar, porém, em parceria com Steve McNiven; toda a reconstrução da mitologia do Homem-Aranha no universo Ultimate, feita por Brian Michael Bendis, com ajuda de várias mãos que desenharam histórias que realmente envolviam o universo jovial em que o personagem está inserido, como Mark Bagley, Stuart Immonen e David Lafuente; dentre outros, são alguns exemplos singulares de que é possível ainda produzir boas histórias em quadrinhos e atrair tanto o público mais antigo quanto o novo que se forma pela geração pipoca e controle remoto. As últimas tentativas, porém, de gerar crossovers entre os personagens da editora, como "Invsão Secreta", "Reinado Sombrio" e o "Cerco", por outro lado, têm sido pífias, para dizer o mínimo.


John Byrne posa ao lado de um dos
seus desenhos originais para os X-men

O público que começa hoje a ler as revistas em quadrinhos nem sente muito essa diferença, pois não teve contato com as grandes fases dos personagens que lêem, como Stan Lee e John Buscema no Surfista Prateado; Stan Lee de novo com John Romita Sr no Homem-Aranha; Chris Claremont e John Byrne nos X-men; John Byrne novamente, mas junto à Mulher-Hulk; Barry Windsor-Smith no Wolverine; entre outras dúzias de bons e memoráveis momentos. O que acontece é que há falta de um elemento comparativo para o novo público. E, com isso, a Marvel investe em excelentes roteiros de cinema, uma vez que são em geral a maior fonte de primeiro contato com os personagens que os leitores de hoje têm, e relevam a manutenção de histórias emocionantes nas páginas de quadrinhos, sendo em grande parte estas hoje movidas por temas e confrontos mencionados nestes filmes (já fiz uma matéria sobre o quanto as adaptações para o cinema têm influenciado as histórias em quadrinhos em geral aqui no blog antes, quem quiser pode dar uma conferida).


Admiro muito todo o trabalho que a editora está fazendo com aquilo que é seu cerne, que apesar de muitos não perceberem, não se trata de histórias em quadrinhos em si, mas sim de um universo vasto e cheio de personagens e estórias. Entretanto, tenho desejo sincero e profundo que a Marvel não esqueça suas origens e seus leitores que lhe fizeram atingir o patamar onde se encontra hoje, porque o público novo de hoje é fugaz e passageiro, enquanto aqueles que acompanham a editora desde seus primórdios ou desde que eram crianças pequenas, são leitores recorrentes que criam um vínculo com o que lêem que dificilmente pode ser quebrado. Nota-se que existe essa possibilidade de quebra-lo, o que não pode ser esquecido de forma alguma.



Esta matéria também me serviu para poder falar do filme "X-men - First Class", que fui assistir na primeira sessão no dia da estreia e que relutava em fazer uma resenha sobre ele a fim de não estragar eventuais surpresas e dar spoilers de cenas. Como pode ser percebido, não cometi nenhuma dessas violações de consideração com meu público leitor, e meu objetivo era esse, para que o julgamento de vocês do filme não se paute de forma alguma pelo meu julgamento dele. Acredito que todos têm direito a uma opinião, e a minha ficou bem claro nessa matéria, o que só poderia ser qualificado pelo meu grau de avaliação de material em 5 estrelas. Desejo a todos uma boa sessão e convido-os a dividir conosco suas opiniões sobre o filme e/ou a política de adaptações da Marvel para o cinema, aqui depois. Excelsior!

sábado, 4 de junho de 2011

Workshop sobre Narrativa de Quadrinhos na UFRJ

Por Gabriel Guimarães
O campus da Praia Vermelha da UFRJ está sediando esse fim de semana (dias 4 e 5 de junho), o evento "Arte Fórum - Ocupação Artística", com diversas atrações voltadas para o público envolvido com os meios artísticos, como teatro, exposições de esquemas e até a criação de games, e as histórias em quadrinhos não foram deixadas de lado na organização da faculdade.

Hoje cedo e amanhã no mesmo horário (das 10 às 14 horas), o professor de Jornalismo Gráfico da Escola de Comunicação da própria UFRJ e estudioso da nona arte, Octávio Aragão, estará administrando um workshop de narrativa nas HQs muito interessante. Explorando os recursos básicos de qualquer história em quadrinhos e instigando o público a produzir alguns exemplos que ele passa na sala, a oficina é bastanta abrangente e com certeza acrescenta muito ao repertório de conhecimentos e práticas para quem é aficcionado pela arte sequencial.

A oficina é realizada na sala 210 do prédio de Administração da UFRJ na Urca, que é de fácil acesso, tanto de transporte para chegar até lá, quanto para localizar a sala dentro do campus. Os organizadores do evento e os professores da faculdade que estão participando dessa iniciativa são bastante solícitos e estão distribuidos de forma aberta pelo campus para tirar dúvidas e dar indicações. Uma outra oficina que deve atrair bastante público também é a de narrativa na construção de games, que foi realizada hoje e será também amanhã, na mesma sala que a de quadrinhos, porém, cujo horário é das 14 às 18 horas, e será apresentada por Guilherme Xavier, diretor de Artes e Design do jogo independente Capoeira Legends - Path to Freedom, e Arthur Protasio, autor do site Vagrant Bard.

É um evento interessante que reúne um grupo bem diversificado de pessoas, que têm alguma relação com a arte, seja de qual meio for. Estive lá hoje e aproveitei bastante o tempo do workshop. O convite está feito, espero que aproveitem o máximo possível.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Ares de Recomeço?

Por Gabriel Guimarães


 
Ontem, as redes sociais e os fóruns de discussão de quadrinhos estiveram a toda velocidade e movimentação com a confirmação de uma notícia da DC comics que pode mudar muito o panorama do mercado de quadrinhos de heróis. Após meses de especulação com os possíveis desdobramentos da futura grande saga da editora, "Flashpoint", os responsáveis pela edição e publicação do material da editora confirmaram uma das especulações que já era feita há tempo: a DC recomeçará a contagem de praticamente todas as suas revistas a partir do fim da saga. Previsto para acontecer em setembro, essa reformulação geral tem alguns aspectos que chamam bastante a atenção.


Em primeiro lugar, façamos um panorama de como se encontra o universo de Superman, Batman e cia atualmente. Desacreditada junto ao público pela sequência ininterrupta de crises e falta de uma estabilidade de boas histórias, salvo algumas raras exceções, os personagens da DC tiveram que encarar de tudo recentemente, desde vilões megalomaníacos a zumbis de todo o universo (quanto a este último, fiz uma matéria sobre a saga "A Noite Mais Densa" que postei aqui no blog algum tempo atrás). Porém, o maior obstáculo de todos ainda está neles mesmos. Os personagens não empolgam mais, ainda que o cinema lhes dê algum fôlego com as adaptações dos quadrinhos, tudo permanece muito igual, sem elementos de ação e, principalmente, emoção.
 
A DC tem uma das mais vastas e mais bem qualificadas listas de personagens dentre as editoras de quadrinhos, conta com um arsenal de roteiristas e desenhistas de ponta, um sistema de distribuição que sempre foi sinônimo de qualidade e uma galeria de fãs quase imensurável. Seus personagens foram os primeiros a marcar o imaginário dos leitores de quadrinhos de seres com super poderes e sua marca pode ser encontrada em quase todos os cantos do planeta. Então, me pergunto: por que a DC não consegue solucionar o caos em que seu universo está e cria uma estabilidade de vendas e de qualidade?
 
Hoje, a indústria vive dos modismos, e quando alguma ideia dá certo e passa a atrair o interesse público para determinado tema, não tarda muito para que todos as outras editoras e demais meios de comunicação venham para beber dessa fonte – o maior exemplo recente disso foi o já mencionado tema dos zumbis. Desde a mega-saga "Crise de Identidade", a DC se reestruturou (como destaquei em uma das matérias na minha lista especial dos dez acontecimentos que mais marcaram os quadrinhos na década passada aqui, no começo do ano). Essa história, inclusive, a meu ver, teria sido a mais bem sucedida reformulação de um universo tradicional de super heróis em muito tempo, porém, apesar de ter elevado muito o nível dos quadrinhos da editora por algum tempo, logo caiu na mesmice, e sua fórmula passou a ser repetida em escalas menores para puxar o público de tempo em tempo para comprar os exemplares da casa. Um caso para exemplificar isso, acredito ser a recente reviravolta na história do personagem Arsenal (ex-Ricardito), que fora o fiel ajudante do Arqueiro Verde por muitos anos, e que perdeu seu braço esquerdo e sua filha Lyan num massacre provocado pelo vilão Prometheus em Star City. Há muito drama hoje e pouca história.

Em meio a tanto vai-e-vem da atenção do público, a DC decidiu revolucionar de uma forma inovadora. Ao término da saga "Flashpoint", liderada pelo provedor de ovos de ouro dos últimos tempos da DC, Geoff Johns, a editora recomeçará sua numeração em 52 de seus títulos, além de promover uma reformulação geral do universo de personagens, desde os uniformes que usam (o desenhista e editor-chefe Jim Lee confirmou que redesenhou as roupas de cerca de 50 personagens) às suas motivações pessoais, a princípio. O título pós-Flashpoint que terá maior destaque será o da Liga da Justiça, comandada justamente por estes dois profissionais que mencionei, com roteiros de Johns e arte de Lee. Ontem, inclusive, foi liberada uma imagem teaser com essa Liga, onde já é possível ver uma série de pequenas modificações nos personagens, além de alguns destes demonstrarem um tom mais jovial do que tradicionalmente.
 
Além desse quesito de criação, onde o foco me pareceu seguir na busca da DC por uma estratégia de renovar os ares de seu universo no estilo do que foi feito na Marvel com a linha Ultimate (cuja importância para o rumo da editora nos últimos anos também já foi discutido aqui antes), as novidades anunciadas pela editora vão muito além disso, como bem destacou o blog "Em Quadrinho", o que permite uma compreensão muito maior acerca dessa grande mudança e do recomeço da numeração.
 
A DC, juntamente com a notícia de seu reboot, anunciou que a partir dele, lançará simultaneamente as revistas no formato impresso e eletrônico, disponível para aplicativos de Ipad e demais tablets de leitura. E eu pergunto: que forma melhor de começar essa nova era de publicação de quadrinhos dos heróis DC do que dar ao leitor digital a oportunidade de comprar a partir do número 1 todos os títulos que for do seu interesse? A venda desse conteúdo, portanto, representará um grande volume de vendas para a editora e permitirá que a DC entre no meio eletrônico de forma forte e visando os mercados futuros de consumo de quadrinhos digitais. O formato impresso muitas vezes se vê contestado ainda, e a tendência é que o número de publicações feitas exclusivamente para esse meio seja cada vez menor. Eu não acredito que o livro ou a revista em quadrinhos vá acabar, mas acredito sim que sem essas mudanças nas estratégias de divulgação e acesso, nenhuma publicação pode dar totalmente certo hoje em dia, quanto mais manter uma fonte contínua de renda e lucro para as editoras responsáveis pela sua produção, como é o desejo de editoras como a DC e a Marvel (essa evolução do mercado digital já foi discutida em duas matérias antes no blog, aqui e aqui).
 
Paul Levitz ostenta sua
obra de homenagem à DC

Esse momento será, então, berço de um recomeço, mas este não se limitará apenas aos seus personagens, mas ao futuro da companhia como empresa também. O livro "75 Years of DC Comics - The Art of Modern Mythmaking", do editor Paul Levitz, e que foi premiado há pouco tempo com o prêmio Eagle, já antecipava isso, quando após descrever todas as eras pelas quais a editora passou, previu ao final que o futuro estaria na era digital e que a editora já começara a pensar nela desde a criação da Zuda comics, seu antigo portal que não funciona mais hoje.




Os desdobramentos econômicos dessa mudança na forma de publicação das revistas da DC ainda estão muito cedo para serem definidos com clareza, porém, é bastante claro que esse tema é algo a ser observado atentamente. O roteirista Brian Michael Bendis, responsável pela criação do universo Ultimate na Marvel, foi um dos primeiros a criticar essa decisão da DC em seu twitter, alegando que isso arruinaria o comércio com os revendedores das tradicionais comic-shops americanas, questão que foi respondida pelo gerente de vendas da DC, Bob Wayne, que assegurou que haverá uma política de benefícios para os revendedores que contribuírem com a divulgação e comércio dos títulos da editora de forma geral.
 
Concluindo, esperemos para ver os próximos capítulos e o desenrolar desses acontecimentos no mercado editorial, o que promete ainda muita discussão pela frente, e torçamos também para que os produtores compreendam a necessidade de inovação em seu conteúdo mais do que apenas de seu formato. Torçamos por dias mais emocionantes para a arte sequencial, como um dia estes já foram e acredito que, um dia, ainda possam vir a ser.

domingo, 29 de maio de 2011

Origens Perdidas

Por Gabriel Guimarães


Por anos, os quadrinistas brasileiros travam batalhas épicas pelo reconhecimento das histórias em quadrinhos como forma de arte, pois nunca bastou ter a rara capacidade e determinação necessárias para se produzir uma história gráfico-textual que emociona e liga culturalmente milhões de pessoas. Dos quadrinistas, sempre foi necessário mudar a figura do imaginário popular nacional de que todo artista é o que é por ser um desocupado, incapaz de realizar uma função mais comum e produtiva em termos de consumo para a sociedade. Esse, meus caros leitores, é o grande problema do Brasil. Enquanto em países europeus e em grande parte dos Estados Unidos, o artista, seja ele escritor, pintor, escultor, etc, sempre é visto como uma figura de destaque, alguém cujas particularidades na visão de mundo lhe dão uma impressão tão extraordinária de tudo, que os resultados de sua obra devem ser compartilhados com o resto do mundo, assim engrossando o contingente de conteúdo cultural da humanidade. Entretanto, basta que se olhe para o mercado brasileiro de artes que você não demora muito para ver uma série de problemas.

Mesmo tendo sido defendido como meio de comunicação valioso por grandes autores como Gilberto Freyre e Jorge Amado, e editores extremamente capazes e destacados como Adolfo Aizen, Sérgio Machado, Victor Civita, Waldyr Igaiara, entre tantos e tantos outros, os quadrinhos não gozam de uma boa imagem pública até os dias de hoje. Por mais que você encontre hoje, às centenas, pessoas comentando que leram esse ou aquele livro em quadrinhos e acharam seu conteúdo espetacular, muitas dessas mesmas pessoas não aceitariam de imediato a idéia de ver os quadrinhos como uma forma de arte válida como a pintura ou a escrita literária. Neste último mês, ouvi alguns discursos aleatórios, fosse no shopping ou na faculdade, que me deixaram bastante a par de como essa visão tem se dado nos dias atuais.

Considero este talvez o grande problema do povo brasileiro quando se trata de buscar melhorias como sociedade e de mostrar seu valor cultural para o mundo: a depreciação e desvalorização de seus artistas. Vale aqui lembrar, que na década de 1960, a cidade do Rio de Janeiro foi considerada o pólo artístico-cultural de maior destaque e influência no mundo inteiro. Hoje, ocupar tal posto novamente me parece algo muito difícil de se conseguir, porém, eu acredito na mudança. Acredito sim que é possível mudar, amadurecer essa visão deturpada da maioria dos brasileiros. Porém, sei que essa tarefa é grande demais para apenas uma, duas ou até mil pessoas. Para alcançar tal objetivo, é preciso uma comoção maior, um reconhecimento que deve ser estimulado por todos os fãs de quadrinhos quando possível.

Muitos devem estar estranhando talvez o tom revoltado do meu discurso, porém, ele decorre da notícia que motivou essa postagem: o roubo dos dois primeiros exemplares da revista que inaugurou os quadrinhos no Brasil, "O Tico-Tico", direto de dentro do acervo da Fundação Biblioteca Nacional (FBN), aqui no Rio de Janeiro, há pouco mais de um mês, mas que só agora foi noticiado. A proteção aos artefatos culturais deveria ser uma das funções mais prioritárias desse órgão público, porém, essa notícia demonstra a incapacidade dos seus organizadores para administrar algo de tamanha importância para nós, brasileiros, e isso, despertou em mim a vontade de escrever sobre esse déficit de valor que os produtores de bens culturais e intelectuais vêm sofrendo por anos, décadas. De acordo com a notícia que saiu no jornal O Globo, os erros da FBN vão muito além do roubo de seus artefatos históricos, chegando a erros de contabilidade e de avaliação de licitações.

A FBN não pode, em hipótese alguma, se dar ao luxo de passar por erros como esses, pois eles são os responsáveis pela manutenção do maior bem que qualquer brasileiro pode ter: seu patrimônio cultural. Acho sinceramente ridículo o quão desvalorizado que chega a ser o status do artista no país, e realmente luto por essa mudança de paradigma a cada oportunidade que me surge. O que isso tem a ver com o roubo da FBN? É preciso compreender o quanto é imprecindível o artigo de maior valor que a instituição guarda, a cultura, e como isso deve ser de fato guardado, administrado e, ainda assim, disponibilizado para todos os cidadãos brasileiros que venham a necessitar desse conteúdo. É um trabalho complicado, difícil, eu sei, porém, é preciso que os demais setores da sociedade compreendam a necessidade de investimentos maiores nisso e, é claro, em estar atentos a como esses investimentos são gastos propriamente dito. Os gastos abusivos por falta de administração não podem mais ser tolerados, e precisam de reformas imediatamente.

Enquanto isso, o patrimônio cultural que foi um dia, e ainda é, as edições de "O Tico-Tico" perde parte essencial de seu acervo e, com isso, deixa de atingir aqueles que desejavam procura-lo como referência para a formação da sociedade brasileira ao longo do século XX, através do qual sua história se extendeu e permaneceu viva através de dedicados pesquisadores como Waldomiro Vergueiro. Perdem-se mais que duas revistas, perdem-se dois pilares da cultura do Brasil, e isso é, absolutamente, inaceitável.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Um Lugar para Recordar Jayme Cortez

Por Gabriel Guimarães



É um fato conhecido que os quadrinhos brasileiros tiveram muitos de seus pilares mias antigos construídos em cima de talentosos estrangeiros que descobriram no Brasil algo que os prendeu indefinidamente aqui, sendo então responsáveis por muito da produção de histórias em quadrinhos que era feita em editoras como  a Ebal, a La Selva e a editora Abril (todas presididas por figuras da mais alta importância para a história dos quadrinhos no Brasil, apesar de não terem nascido propriamente aqui, o russo Adolfo Aizen e os italianos Vito La Selva e Victor Civita, respectivamente - um breve histórico de sua participação na formação do mercado editorial brasileiro pode ser encontrada em matéria já publicada antes aqui no blog e no excelente livro do pesquisador Gonçalo Júnior, "Guerra dos Gibis").


Jayme Cortez à direita junto do
ainda jovem Maurício de Sousa

Dentre os grandes nomes dessa época, destacaram-se muito o italiano Eugênio Colonnese, o nipônico Julio Shimamoto e o português Jayme Cortez, que, em meio a uma precariedade inicial de recursos, foram capazes de levar seus trabalhos às mãos de milhares de brasileiros. A matéria de hoje é para destacar um projeto que homenageia este último que citei, Jayme Cortez, do qual tomei conhecimento recentemente. Produzido por Jayme Cortez Filho e Fabio Moraes, começou a ser disponibilizado há pouco tempo na forma de um museu virtual com fotos antigas e trabalhos produzidos pelo luso-brasileiro, o blog Jayme Cortez, a fim de honrar a memória do desenhista e manter sua contribuição para os quadrinhos brasileiros viva.


Cortez conversando com o
americano Stan Lee, criador de
grande parte do universo Marvel

Essa iniciativa é algo que merece uma atenção especial pelo currículo que Cortez desenvolveu ao longo de toda sua vida trabalhando com quadrinhos, fazendo centenas de capas para revistas como "Terror Negro", da editora La Selva, tiras para o jornal Diário da Noite, e contribuições na produção de diversos títulos de humor impulsionados pelas figuras célebres do cinema da época, como Oscarito e o Grande Otelo. Além disso, Cortez participou ativamente da montagem da Primeira Exposição Internacional de Histórias em Quadrinhos, em 1951 na cidade de São Paulo, ao lado de muitos outros admiradores e profissionais da arte sequencial que até hoje são lembrados pelo papel desempenhado na divulgação da nona arte no país, como Alvaro de Moya e Miguel Penteado.


Will Eisner e Cortez

No blog que o homenageia, é possível ver muitas fotos dele ao lado de seus colegas de profissão e não demora muito para que se perceba o quanto sua participação no meio artístico da época era algo importante para o mercado nacional. Não é, portanto, grande surpresa que, em 2009, foi inaugurada a Gibiteca Jayme Cortez para lembrar a memória do artista na cidade onde morou grande parte de sua vida, em São Paulo.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

NÃO ENTRE EM PÂNICO!

Por Gabriel Guimarães


Se você viu ou é uma pessoa que carregou sua toalha fielmente sobre seus ombros ou enrolada em sua testa neste dia, você já sabe do que se trata essa matéria. Para os que não compartilham dessa tradição, gostaria de dar uma breve explicação sobre o porquê de tamanha comoção nas redes sociais como Twitter e Facebook para algo que muitos pensariam ser um detalhe irrelevante no dia-a-dia dos grandes centros urbanos: o dia internacional da toalha.

O dia da toalha nada mais é que um símbolo, uma homenagem póstuma a um dos autores que mais marcaram o imaginário popular de uma tribo social que hoje se expande a passos largos ao redor do globo inteiro: os nerds. Não é por acidente, então, que hoje seja também chamado de dia do orgulho nerd. Para explicar as origens dessa comemoração, é preciso recordar o escritor britânico Douglas Adams, autor da "trilogia de cinco livros" do Guia do Mochileiro das Galáxias, obra de ficção científica cujo humor ácido e irônico em cima da estrutura social com que os humanos organizam seu viver a tornou um clássico para todos aqueles que a leram.

No dia 11 de maio de 2001, Douglas Adams faleceu em decorrência de um ataque cardíaco, e os fãs e admiradores do autor e de sua criação decidiram prestar sua homenagem duas semanas após, no dia 25 de maio (data do lançamento nos cinemas do primeiro filme da série Star Wars, em 1977), instituindo o dia internacional da toalha como uma referência ao ítem que teve tanto destaque nas obras de Adams. Para ele, a toalha é o bem mais útil do universo, uma vez que pode: ser usada como agasalho quando se atravessa luas frias; quando molhada vira uma arma de combate corpo a corpo; enrolada em torno da cabeça, pode proteger a pessoa de emanações tóxicas; servir para enxugar o corpo, caso esteja limpa; e, mais importante, dá a sensação de segurança psicológica ao mochileiro. Se um mochileiro a leva com ele, tem tudo de que precisa, como escova de dentes, esponja, sabonete, lata de biscoitos, bússola, mapa, barbante, capa de chuva e traje espacial.

No ano passado, a UFRJ comemorou este dia com um evento especial que foi divulgado aqui no blog na época, porém, este ano, as comemorações se darão de forma mais organizada nos ambientes públicos ao redor do país. Para um cronograma preciso e bem detalhado de todas as festividades para o dia dos nerds, o site em inglês Towel Day é o lugar certo para você. Lá, você pode encontrar detalhes tanto de eventos acontecendo dentro do Brasil quanto de vários outros pontos no mundo, como Canadá, Austrália, Quênia e China. A organização é algo que me chamou muito a atenção.

Há ainda destaque para os concursos e promoções sendo feitas em cima da mitologia da série literária, principalmente o do grupo Jovem Nerd em parceria com a marca de informática CCE Info, que pode ser conferida aqui.

Portanto, deixo aqui meus mais sinceros desejos de um bom e feliz dia da toalha para todos os meus leitores e um profundo desejo de que seus sonhos possam se tornar realidade, contanto que não sejam ir almoçar no restaurante no fim do universo. Lá, está sempre lotado.