quarta-feira, 1 de junho de 2011

Ares de Recomeço?

Por Gabriel Guimarães


 
Ontem, as redes sociais e os fóruns de discussão de quadrinhos estiveram a toda velocidade e movimentação com a confirmação de uma notícia da DC comics que pode mudar muito o panorama do mercado de quadrinhos de heróis. Após meses de especulação com os possíveis desdobramentos da futura grande saga da editora, "Flashpoint", os responsáveis pela edição e publicação do material da editora confirmaram uma das especulações que já era feita há tempo: a DC recomeçará a contagem de praticamente todas as suas revistas a partir do fim da saga. Previsto para acontecer em setembro, essa reformulação geral tem alguns aspectos que chamam bastante a atenção.


Em primeiro lugar, façamos um panorama de como se encontra o universo de Superman, Batman e cia atualmente. Desacreditada junto ao público pela sequência ininterrupta de crises e falta de uma estabilidade de boas histórias, salvo algumas raras exceções, os personagens da DC tiveram que encarar de tudo recentemente, desde vilões megalomaníacos a zumbis de todo o universo (quanto a este último, fiz uma matéria sobre a saga "A Noite Mais Densa" que postei aqui no blog algum tempo atrás). Porém, o maior obstáculo de todos ainda está neles mesmos. Os personagens não empolgam mais, ainda que o cinema lhes dê algum fôlego com as adaptações dos quadrinhos, tudo permanece muito igual, sem elementos de ação e, principalmente, emoção.
 
A DC tem uma das mais vastas e mais bem qualificadas listas de personagens dentre as editoras de quadrinhos, conta com um arsenal de roteiristas e desenhistas de ponta, um sistema de distribuição que sempre foi sinônimo de qualidade e uma galeria de fãs quase imensurável. Seus personagens foram os primeiros a marcar o imaginário dos leitores de quadrinhos de seres com super poderes e sua marca pode ser encontrada em quase todos os cantos do planeta. Então, me pergunto: por que a DC não consegue solucionar o caos em que seu universo está e cria uma estabilidade de vendas e de qualidade?
 
Hoje, a indústria vive dos modismos, e quando alguma ideia dá certo e passa a atrair o interesse público para determinado tema, não tarda muito para que todos as outras editoras e demais meios de comunicação venham para beber dessa fonte – o maior exemplo recente disso foi o já mencionado tema dos zumbis. Desde a mega-saga "Crise de Identidade", a DC se reestruturou (como destaquei em uma das matérias na minha lista especial dos dez acontecimentos que mais marcaram os quadrinhos na década passada aqui, no começo do ano). Essa história, inclusive, a meu ver, teria sido a mais bem sucedida reformulação de um universo tradicional de super heróis em muito tempo, porém, apesar de ter elevado muito o nível dos quadrinhos da editora por algum tempo, logo caiu na mesmice, e sua fórmula passou a ser repetida em escalas menores para puxar o público de tempo em tempo para comprar os exemplares da casa. Um caso para exemplificar isso, acredito ser a recente reviravolta na história do personagem Arsenal (ex-Ricardito), que fora o fiel ajudante do Arqueiro Verde por muitos anos, e que perdeu seu braço esquerdo e sua filha Lyan num massacre provocado pelo vilão Prometheus em Star City. Há muito drama hoje e pouca história.

Em meio a tanto vai-e-vem da atenção do público, a DC decidiu revolucionar de uma forma inovadora. Ao término da saga "Flashpoint", liderada pelo provedor de ovos de ouro dos últimos tempos da DC, Geoff Johns, a editora recomeçará sua numeração em 52 de seus títulos, além de promover uma reformulação geral do universo de personagens, desde os uniformes que usam (o desenhista e editor-chefe Jim Lee confirmou que redesenhou as roupas de cerca de 50 personagens) às suas motivações pessoais, a princípio. O título pós-Flashpoint que terá maior destaque será o da Liga da Justiça, comandada justamente por estes dois profissionais que mencionei, com roteiros de Johns e arte de Lee. Ontem, inclusive, foi liberada uma imagem teaser com essa Liga, onde já é possível ver uma série de pequenas modificações nos personagens, além de alguns destes demonstrarem um tom mais jovial do que tradicionalmente.
 
Além desse quesito de criação, onde o foco me pareceu seguir na busca da DC por uma estratégia de renovar os ares de seu universo no estilo do que foi feito na Marvel com a linha Ultimate (cuja importância para o rumo da editora nos últimos anos também já foi discutido aqui antes), as novidades anunciadas pela editora vão muito além disso, como bem destacou o blog "Em Quadrinho", o que permite uma compreensão muito maior acerca dessa grande mudança e do recomeço da numeração.
 
A DC, juntamente com a notícia de seu reboot, anunciou que a partir dele, lançará simultaneamente as revistas no formato impresso e eletrônico, disponível para aplicativos de Ipad e demais tablets de leitura. E eu pergunto: que forma melhor de começar essa nova era de publicação de quadrinhos dos heróis DC do que dar ao leitor digital a oportunidade de comprar a partir do número 1 todos os títulos que for do seu interesse? A venda desse conteúdo, portanto, representará um grande volume de vendas para a editora e permitirá que a DC entre no meio eletrônico de forma forte e visando os mercados futuros de consumo de quadrinhos digitais. O formato impresso muitas vezes se vê contestado ainda, e a tendência é que o número de publicações feitas exclusivamente para esse meio seja cada vez menor. Eu não acredito que o livro ou a revista em quadrinhos vá acabar, mas acredito sim que sem essas mudanças nas estratégias de divulgação e acesso, nenhuma publicação pode dar totalmente certo hoje em dia, quanto mais manter uma fonte contínua de renda e lucro para as editoras responsáveis pela sua produção, como é o desejo de editoras como a DC e a Marvel (essa evolução do mercado digital já foi discutida em duas matérias antes no blog, aqui e aqui).
 
Paul Levitz ostenta sua
obra de homenagem à DC

Esse momento será, então, berço de um recomeço, mas este não se limitará apenas aos seus personagens, mas ao futuro da companhia como empresa também. O livro "75 Years of DC Comics - The Art of Modern Mythmaking", do editor Paul Levitz, e que foi premiado há pouco tempo com o prêmio Eagle, já antecipava isso, quando após descrever todas as eras pelas quais a editora passou, previu ao final que o futuro estaria na era digital e que a editora já começara a pensar nela desde a criação da Zuda comics, seu antigo portal que não funciona mais hoje.




Os desdobramentos econômicos dessa mudança na forma de publicação das revistas da DC ainda estão muito cedo para serem definidos com clareza, porém, é bastante claro que esse tema é algo a ser observado atentamente. O roteirista Brian Michael Bendis, responsável pela criação do universo Ultimate na Marvel, foi um dos primeiros a criticar essa decisão da DC em seu twitter, alegando que isso arruinaria o comércio com os revendedores das tradicionais comic-shops americanas, questão que foi respondida pelo gerente de vendas da DC, Bob Wayne, que assegurou que haverá uma política de benefícios para os revendedores que contribuírem com a divulgação e comércio dos títulos da editora de forma geral.
 
Concluindo, esperemos para ver os próximos capítulos e o desenrolar desses acontecimentos no mercado editorial, o que promete ainda muita discussão pela frente, e torçamos também para que os produtores compreendam a necessidade de inovação em seu conteúdo mais do que apenas de seu formato. Torçamos por dias mais emocionantes para a arte sequencial, como um dia estes já foram e acredito que, um dia, ainda possam vir a ser.

domingo, 29 de maio de 2011

Origens Perdidas

Por Gabriel Guimarães


Por anos, os quadrinistas brasileiros travam batalhas épicas pelo reconhecimento das histórias em quadrinhos como forma de arte, pois nunca bastou ter a rara capacidade e determinação necessárias para se produzir uma história gráfico-textual que emociona e liga culturalmente milhões de pessoas. Dos quadrinistas, sempre foi necessário mudar a figura do imaginário popular nacional de que todo artista é o que é por ser um desocupado, incapaz de realizar uma função mais comum e produtiva em termos de consumo para a sociedade. Esse, meus caros leitores, é o grande problema do Brasil. Enquanto em países europeus e em grande parte dos Estados Unidos, o artista, seja ele escritor, pintor, escultor, etc, sempre é visto como uma figura de destaque, alguém cujas particularidades na visão de mundo lhe dão uma impressão tão extraordinária de tudo, que os resultados de sua obra devem ser compartilhados com o resto do mundo, assim engrossando o contingente de conteúdo cultural da humanidade. Entretanto, basta que se olhe para o mercado brasileiro de artes que você não demora muito para ver uma série de problemas.

Mesmo tendo sido defendido como meio de comunicação valioso por grandes autores como Gilberto Freyre e Jorge Amado, e editores extremamente capazes e destacados como Adolfo Aizen, Sérgio Machado, Victor Civita, Waldyr Igaiara, entre tantos e tantos outros, os quadrinhos não gozam de uma boa imagem pública até os dias de hoje. Por mais que você encontre hoje, às centenas, pessoas comentando que leram esse ou aquele livro em quadrinhos e acharam seu conteúdo espetacular, muitas dessas mesmas pessoas não aceitariam de imediato a idéia de ver os quadrinhos como uma forma de arte válida como a pintura ou a escrita literária. Neste último mês, ouvi alguns discursos aleatórios, fosse no shopping ou na faculdade, que me deixaram bastante a par de como essa visão tem se dado nos dias atuais.

Considero este talvez o grande problema do povo brasileiro quando se trata de buscar melhorias como sociedade e de mostrar seu valor cultural para o mundo: a depreciação e desvalorização de seus artistas. Vale aqui lembrar, que na década de 1960, a cidade do Rio de Janeiro foi considerada o pólo artístico-cultural de maior destaque e influência no mundo inteiro. Hoje, ocupar tal posto novamente me parece algo muito difícil de se conseguir, porém, eu acredito na mudança. Acredito sim que é possível mudar, amadurecer essa visão deturpada da maioria dos brasileiros. Porém, sei que essa tarefa é grande demais para apenas uma, duas ou até mil pessoas. Para alcançar tal objetivo, é preciso uma comoção maior, um reconhecimento que deve ser estimulado por todos os fãs de quadrinhos quando possível.

Muitos devem estar estranhando talvez o tom revoltado do meu discurso, porém, ele decorre da notícia que motivou essa postagem: o roubo dos dois primeiros exemplares da revista que inaugurou os quadrinhos no Brasil, "O Tico-Tico", direto de dentro do acervo da Fundação Biblioteca Nacional (FBN), aqui no Rio de Janeiro, há pouco mais de um mês, mas que só agora foi noticiado. A proteção aos artefatos culturais deveria ser uma das funções mais prioritárias desse órgão público, porém, essa notícia demonstra a incapacidade dos seus organizadores para administrar algo de tamanha importância para nós, brasileiros, e isso, despertou em mim a vontade de escrever sobre esse déficit de valor que os produtores de bens culturais e intelectuais vêm sofrendo por anos, décadas. De acordo com a notícia que saiu no jornal O Globo, os erros da FBN vão muito além do roubo de seus artefatos históricos, chegando a erros de contabilidade e de avaliação de licitações.

A FBN não pode, em hipótese alguma, se dar ao luxo de passar por erros como esses, pois eles são os responsáveis pela manutenção do maior bem que qualquer brasileiro pode ter: seu patrimônio cultural. Acho sinceramente ridículo o quão desvalorizado que chega a ser o status do artista no país, e realmente luto por essa mudança de paradigma a cada oportunidade que me surge. O que isso tem a ver com o roubo da FBN? É preciso compreender o quanto é imprecindível o artigo de maior valor que a instituição guarda, a cultura, e como isso deve ser de fato guardado, administrado e, ainda assim, disponibilizado para todos os cidadãos brasileiros que venham a necessitar desse conteúdo. É um trabalho complicado, difícil, eu sei, porém, é preciso que os demais setores da sociedade compreendam a necessidade de investimentos maiores nisso e, é claro, em estar atentos a como esses investimentos são gastos propriamente dito. Os gastos abusivos por falta de administração não podem mais ser tolerados, e precisam de reformas imediatamente.

Enquanto isso, o patrimônio cultural que foi um dia, e ainda é, as edições de "O Tico-Tico" perde parte essencial de seu acervo e, com isso, deixa de atingir aqueles que desejavam procura-lo como referência para a formação da sociedade brasileira ao longo do século XX, através do qual sua história se extendeu e permaneceu viva através de dedicados pesquisadores como Waldomiro Vergueiro. Perdem-se mais que duas revistas, perdem-se dois pilares da cultura do Brasil, e isso é, absolutamente, inaceitável.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Um Lugar para Recordar Jayme Cortez

Por Gabriel Guimarães



É um fato conhecido que os quadrinhos brasileiros tiveram muitos de seus pilares mias antigos construídos em cima de talentosos estrangeiros que descobriram no Brasil algo que os prendeu indefinidamente aqui, sendo então responsáveis por muito da produção de histórias em quadrinhos que era feita em editoras como  a Ebal, a La Selva e a editora Abril (todas presididas por figuras da mais alta importância para a história dos quadrinhos no Brasil, apesar de não terem nascido propriamente aqui, o russo Adolfo Aizen e os italianos Vito La Selva e Victor Civita, respectivamente - um breve histórico de sua participação na formação do mercado editorial brasileiro pode ser encontrada em matéria já publicada antes aqui no blog e no excelente livro do pesquisador Gonçalo Júnior, "Guerra dos Gibis").


Jayme Cortez à direita junto do
ainda jovem Maurício de Sousa

Dentre os grandes nomes dessa época, destacaram-se muito o italiano Eugênio Colonnese, o nipônico Julio Shimamoto e o português Jayme Cortez, que, em meio a uma precariedade inicial de recursos, foram capazes de levar seus trabalhos às mãos de milhares de brasileiros. A matéria de hoje é para destacar um projeto que homenageia este último que citei, Jayme Cortez, do qual tomei conhecimento recentemente. Produzido por Jayme Cortez Filho e Fabio Moraes, começou a ser disponibilizado há pouco tempo na forma de um museu virtual com fotos antigas e trabalhos produzidos pelo luso-brasileiro, o blog Jayme Cortez, a fim de honrar a memória do desenhista e manter sua contribuição para os quadrinhos brasileiros viva.


Cortez conversando com o
americano Stan Lee, criador de
grande parte do universo Marvel

Essa iniciativa é algo que merece uma atenção especial pelo currículo que Cortez desenvolveu ao longo de toda sua vida trabalhando com quadrinhos, fazendo centenas de capas para revistas como "Terror Negro", da editora La Selva, tiras para o jornal Diário da Noite, e contribuições na produção de diversos títulos de humor impulsionados pelas figuras célebres do cinema da época, como Oscarito e o Grande Otelo. Além disso, Cortez participou ativamente da montagem da Primeira Exposição Internacional de Histórias em Quadrinhos, em 1951 na cidade de São Paulo, ao lado de muitos outros admiradores e profissionais da arte sequencial que até hoje são lembrados pelo papel desempenhado na divulgação da nona arte no país, como Alvaro de Moya e Miguel Penteado.


Will Eisner e Cortez

No blog que o homenageia, é possível ver muitas fotos dele ao lado de seus colegas de profissão e não demora muito para que se perceba o quanto sua participação no meio artístico da época era algo importante para o mercado nacional. Não é, portanto, grande surpresa que, em 2009, foi inaugurada a Gibiteca Jayme Cortez para lembrar a memória do artista na cidade onde morou grande parte de sua vida, em São Paulo.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

NÃO ENTRE EM PÂNICO!

Por Gabriel Guimarães


Se você viu ou é uma pessoa que carregou sua toalha fielmente sobre seus ombros ou enrolada em sua testa neste dia, você já sabe do que se trata essa matéria. Para os que não compartilham dessa tradição, gostaria de dar uma breve explicação sobre o porquê de tamanha comoção nas redes sociais como Twitter e Facebook para algo que muitos pensariam ser um detalhe irrelevante no dia-a-dia dos grandes centros urbanos: o dia internacional da toalha.

O dia da toalha nada mais é que um símbolo, uma homenagem póstuma a um dos autores que mais marcaram o imaginário popular de uma tribo social que hoje se expande a passos largos ao redor do globo inteiro: os nerds. Não é por acidente, então, que hoje seja também chamado de dia do orgulho nerd. Para explicar as origens dessa comemoração, é preciso recordar o escritor britânico Douglas Adams, autor da "trilogia de cinco livros" do Guia do Mochileiro das Galáxias, obra de ficção científica cujo humor ácido e irônico em cima da estrutura social com que os humanos organizam seu viver a tornou um clássico para todos aqueles que a leram.

No dia 11 de maio de 2001, Douglas Adams faleceu em decorrência de um ataque cardíaco, e os fãs e admiradores do autor e de sua criação decidiram prestar sua homenagem duas semanas após, no dia 25 de maio (data do lançamento nos cinemas do primeiro filme da série Star Wars, em 1977), instituindo o dia internacional da toalha como uma referência ao ítem que teve tanto destaque nas obras de Adams. Para ele, a toalha é o bem mais útil do universo, uma vez que pode: ser usada como agasalho quando se atravessa luas frias; quando molhada vira uma arma de combate corpo a corpo; enrolada em torno da cabeça, pode proteger a pessoa de emanações tóxicas; servir para enxugar o corpo, caso esteja limpa; e, mais importante, dá a sensação de segurança psicológica ao mochileiro. Se um mochileiro a leva com ele, tem tudo de que precisa, como escova de dentes, esponja, sabonete, lata de biscoitos, bússola, mapa, barbante, capa de chuva e traje espacial.

No ano passado, a UFRJ comemorou este dia com um evento especial que foi divulgado aqui no blog na época, porém, este ano, as comemorações se darão de forma mais organizada nos ambientes públicos ao redor do país. Para um cronograma preciso e bem detalhado de todas as festividades para o dia dos nerds, o site em inglês Towel Day é o lugar certo para você. Lá, você pode encontrar detalhes tanto de eventos acontecendo dentro do Brasil quanto de vários outros pontos no mundo, como Canadá, Austrália, Quênia e China. A organização é algo que me chamou muito a atenção.

Há ainda destaque para os concursos e promoções sendo feitas em cima da mitologia da série literária, principalmente o do grupo Jovem Nerd em parceria com a marca de informática CCE Info, que pode ser conferida aqui.

Portanto, deixo aqui meus mais sinceros desejos de um bom e feliz dia da toalha para todos os meus leitores e um profundo desejo de que seus sonhos possam se tornar realidade, contanto que não sejam ir almoçar no restaurante no fim do universo. Lá, está sempre lotado.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Lançamento de livro no Amapá

Por Gabriel Guimarães


No próximo dia 17 de junho, no Sesc Centro, em Amapá, será lançado o novo livro do professor Ivan Carlo Andrade de Oliveira, mais conhecido por seu pseudônimo literário Gian Danton, entitulado "O Roteiro nas Histórias em Quadrinhos".

Conhecido no mercado de quadrinhos pela sua graphic novel Manticore, que venceu os prêmios Ângelo Agostinni, HQ Mix e o prêmio da Associação Brasileira de Arte Fantástica, foi roteirista também de projetos em parceira com o talentoso desenhista Eugênio Colonnese. Além disso, escreveu vários livros teóricos sobre as histórias em quadrinhos, analisando as relações da obra Watchmen (também analisada em matéria aqui no blog há algum tempo), de Alan Moore e Dave Gibbons, e a teoria do caos; o laço entre a arte sequencial e a ciência; e um livro anterior a esse também sobre a produção de roteiros para quadrinhos. Os dois primeiros foram lançados pela mesma editora que publica essa sua nova obra, a editora Marca de Fantasia, já essa versão inicial sobre os roteiros de quadrinhos, foi publicada pela editora Popmídia em 2009.
Em 2010, Danton foi um dos profissionais de quadrinhos que participaram da criação do especial MSP+50, em que criou uma história do personagem de Maurício de Sousa, o Astronauta, em parceria com o cearense JJ Marreiro. Atualmente, ele é colaborador da revista MAD e de edições especiais da editora Escala e constante parceiro na criação de fanzines nacionais, além de escritor de contos premiado.

No evento do dia 17 de junho, Danton também estará vendendo e autografando no local outras de suas obras já publicadas, tanto de ficção quanto de estudo para introdução à metodologia científica. Para quem estiver por perto, vale a pena conferir.

sábado, 21 de maio de 2011

O Amor Está nos Quadrinhos

Por Gabriel Guimarães

Desde a criação da Turma da Mônica há décadas, o desenhista paulistano Maurício de Sousa foi se consolidando no panorama nacional como o padrinho dos quadrinhos brasileiros, mostrando os usos possíveis para esse meio de comunicação que ainda se consolidava. Ao longo dos anos, os rostos de seus personagens estamparam campanhas a favor da alfabetização e do respeito às diferenças e contra atitudes de violência ou de bulying (tema hoje comum em qualquer discussão sobre a criação de crianças e jovens ao redor do mundo todo). Por mais tempo do que qualquer um poderia prever, sua criação se fez fator presente na formação de novas gerações de leitores, tornando-se parte do imaginário popular brasileiro quando associado às questões da juventude. Porém, como qualquer mercado de bem, as revistas desses personagens sofreram algumas quedas de vendas e de prestígio com o surgimento de novas mídias e a mudança na ênfase dada aos quadrinhos, ainda que os estúdios desse grande mestre tenham sempre se esforçado ao máximo para definir e adotar as mais recentes tendências que o público pudesse estar precisando.

Em 2008, ocorreu uma mudança de paradigma tão grande que poderia decretar o fim do sucesso caracterizado pela turminha de Cebolinha, Cascão e cia, ou então o seu renascimento para toda uma nova gama de leitores e admiradores da nona arte. Tomando como base algumas impressões que ele estava adquirindo nos últimos anos e informações sobre as mudanças de consumo de quadrinhos pelo público cuja faixa etária se desejava atingir, Maurício arriscou sua sorte no lançamento de uma versão repaginada dos seus clássicos e adorados personagens, no que veio a se tornar a Turma da Mônica Jovem.

Sei que já fiz uma matéria descrevendo o quanto esse evento representou para os quadrinhos na década aqui no blog antes, porém, o que venho a destacar neste dia é um acontecimento que trará muita repercussão para o futuro desses personagens. Por mais que tente se negar, todos os leitores sempre associaram os personagens da turma da Mônica em formas de casais, fosse devido à afinidade ou então a um relacionamento tão particular que não pode ser apenas mera amizade, e é dessa forma que o casal Mônica e Cebolinha teve sua concepção.

Nenhum garoto, por mais novo que seja, se esforçaria tanto para provocar uma garota se não houvesse por trás desse exterior de rivalidade um imenso sentimento de amor. Mesmo sendo surrado, ignorado e às vezes até tendo menos atenção do que os outros meninos da rua, Cebolinha sempre se manteve ao lado de Mônica, e sempre se dispôs a lutar quando fosse preciso, por ela. Sempre por ela.

Na edição número 4 da Turma da Mônica Jovem (diga-se de passagem, a edição que mais se vendeu na história do título), esse eterno romance platônico se consolidou na forma de um beijo, que preencheu a capa da edição e os corações e mentes dos leitores atuais e dos mais antigos da turminha. Entretanto, muito se passou depois disso e nada mais chegou a esse nível. Parecia que o amor tinha ficado em segundo plano e simplesmente fora deixado de lado. E é nesse panorama geral que, às vésperas do dia dos namorados, Maurício vem nos trazer a experiência máxima que tanto se esperou nos seus quadrinhos.

Na edição desse mês da revista, de número 34, que terá o lançamento antecipado por conta da enorme procura (dia 24 de maio sai em São Paulo, dia 25 no Rio de Janeiro e dia 26 nas demais partes do país), Cebolinha, depois de tanto sofrer nas mãos da garota de vestidinho vermelho e dentes "destacados", decide pedir Mônica em namoro, dando assim o próximo passo na relação dos dois e na forma do público se sentir conectado às histórias.

A procura pela edição, eu imagino, será colossal, e deve levar o título ao patamar de principal produto de quadrinhos vendido no bimestre maio/junho. Aos que admiram as histórias em quadrinhos tanto quanto eu, essa notícia não pode passar em branco, e merece um destaque imenso aqui no blog por tudo que a turma da Mônica já fez pela arte sequencial no Brasil e pela forma como a produção de quadrinhos brasileiros é vista no mundo, além, é claro, do quanto esses personagens significaram e ainda significam na vida de todos os leitores de quadrinhos no país. Portanto, fica aqui meu mais sincero agradecimento ao grande mestre que é Maurício de Sousa; minha mais pura admiração por toda a sua equipe de trabalho, que o auxilia todos os dias na produção das histórias da turminha, com destaque para o excelente editor e aficcionado da banda desenhada, Sidney Gusman; e um sentimento aqui para os leitores do meu blog: as crianças cresceram, tanto fisicamente (no caso, as filhas de Maurício que o motivaram a criar suas personagens) quanto ficcionalmente, e todos nós crescemos com elas. Hoje, elas dão mais um passo em direção ao futuro, à vida adulta que todos um dia passamos a ter, e momento este cuja transição nós jamais esquecemos pelo resto de nossas vidas quando se dá conosco. Agora, haverão dois momentos de transição a jamais serem esquecidos, duas vertentes, uma real e outra fantasiosa, a serem lembradas com todo carinho e admiração. Não deixe passar a oportunidade de guardar a sua edição desse momento antológico eternamente junto ao seu coração.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Reconhecimento Que Vale Ser Destacado

Por Gabriel Guimarães


Na última quinta-feira (12 de maio), ocorreu na sede da ABL (Academia Brasileira de Letras) no largo do Arouche, SP, uma digna e muito bem recebida homenagem à maior figura dos quadrinhos brasileiros no mundo e patrono da nona arte no país, o criador da turminha da Mônica, Maurício de Sousa. Após décadas de dedicação e trabalho focado na divulgação, expansão e manutenção dos públicos de seus personagens, Maurício enfim tomou posse como membro do círculo mais respeitado de profissionais da literatura brasileira e se tornou o primeiro quadrinista a atingir tal posto.

É com grande orgulho que recebi essa notícia, e é com profundo e sincero desejo de voos cada vez mais altos para os projetos de Maurício que eu venho trazê-la aqui para o blog como um gesto de reconhecimento da arte sequencial no campo literário brasileiro. Desde que os quadrinhos começaram a ser publicados no Brasil, a luta pela valorização desse meio de comunicação tem sido muito discutida, destacando grandes nomes que lutavam a favor desse processo, como os editores Adolfo Aizen e Sérgio Machado e o escritor Gilberto Freyre, e gerando marcantes figuras de oposição, como Samuel Wainer e Orlando Dantas, que por muito tempo atacaram os quadrinhos como uma brecha para criticar seu maior rival do meio jornalístico, Roberto Marinho, dono do jornal O Globo e da Rio Gráfica-Editora (RGE).

Anos se passaram, muitos discursos foram feitos de ambos os lados, tentativas de sindicalização, da criação de um selo de ética válido, além de muitas e muitas estratégias de aproximação da nona arte com os valores da sociedade brasileira. Ainda assim, a resistência aos quadrinhos como forma de estímulo intelectual é algo muito discutido até hoje e ainda não é plenamente aceito. Espero que esse reconhecimento e homenagem ao grande autor que é Maurício de Sousa venha para trazer de novo à tona esse debate, para que enfim os quadrinhos possam ter o respeito e consideração que merecem, e seus admiradores o devido tratamento e reconhecimento.

O próprio Eloyr Pacheco (à esquerda) e Alvaro de Moya,
na palestra na Garagem Hermética

Além disso, gostaria de também destacar a homenagem que foi feita a um dos estudiosos brasileiros da arte sequencial que é talvez uma das maiores referências da área no país, o também paulista Alvaro de Moya, que já escreveu diversos livros sobre o assunto, dentre os quais "A História das Histórias em Quadrinhos", "Vapt-Vupt" e "Shazam", e que no último dia 13, teve seu nome dado a uma quadrinhoteca no Centro Cultural Eloyr Pacheco. Um dia depois, o autor participou de um debate com admiradores da nona arte na sede da Garagem Hermética, espaço multiuso do próprio Centro Cultural. Muitas pessoas estiveram presente e a procura pelo conhecido comunicador foi grande atrás de autógrafos.

Ao ver essas duas figuras de extrema importância para os quadrinhos no Brasil terem esse merecido reconhecimento e atraindo tanta atenção, fico muito feliz pensando no rumo dos quadrinhos. Podemos estar caminhando a passos não tão longos ainda para uma expansão dos quadrinhos como arte diante dos críticos e do público em geral, mas não estamos parados, e o movimento é essencial para que um dia possamos chegar a dias onde o respeito seja algo comum e o tratamento entre os meios de comunicação se dê de forma igualitária. Pode ser apenas um sonho, um ideal, almejar tanto, mas não vamos parar de lutar até que esse sonho se torne realidade, porque a realidade nada mais é que fruto dos sonhos de quem veio antes de nós, e jamais podemos esquecer isso.