sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

3º Colocado: Pequenos Quadrinhos, Grandes Telas

Por Gabriel Guimarães

Hoje, começamos a contagem regressiva com os três grandes acontecimentos que marcaram os quadrinhos na década, e os ânimos começam a se exaltar. Na terceira colocação, um ítem que praticamente todos os quadrinistas e fãs de quadrinhos sabiam que, jamais, em hipótese alguma, poderia deixar de estar presente numa avaliação como a que estou fazendo aqui no blog: os quadrinhos no cinema.

Surgidos mais ou menos na mesma época, o cinema e os quadrinhos dispõem de muito mais elementos comuns do que normalmente se pensa. Na França e nos Estados Unidos do ano de 1895, grandes revoluções eram realizadas, criando "novos" meios de comunicação (o que de fato se reconhece como história em quadrinhos na história da humanidade merece uma nota aqui numa matéria posterior - fiquem atentos!) que causariam furor nas massas que se formavam nos grandes centros urbanos. Os irmãos Lumière são os responsáveis pela primeira exibição de uma película em movimento num café francês que chamou a atenção para todo um universo que se abria da imagem gravada, enquanto, do outro lado do oceano Atlântico, o desenhista Richard Outcault lançava nas páginas do jornal New York World sua mais nova ideia, sobre histórias contadas através de uma sequência de imagens desenhadas sobre personagens recorrentes num bairro multi-étnico da baixa Nova York chamada "Down Hogan's Alley". Fosse saindo de uma fábrica ou se relacionando com as outras culturas que eram os pilares da sociedade, ambos os meios de comunicação surgiram para mostrar a visão do novo operário, da nova mão com que se construía a sociedade.

O cinema foi crescendo de forma assustadora e, consigo, levou a fotografia como uma invenção científica que surgia à época a um patamar muito mais reconhecido. Ambas essas formas de se observar o mundo causaram toda uma quebra no paradigma das obras de arte. Não mais eram necessárias pinturas à óleo ou ter um espelho em casa (que era um dos maiores status de riqueza naqueles tempos) para que se tivesse condições de criar uma imagem de si mesmo para o mundo. Esses dois meios artísticos e comunicativos trouxeram esse direito para um número muito maior de pessoas do que os que o tinham antes.

Ainda assim, os desenhos que passavam a ser publicados cada vez com mais regularidade nos jornais americanos continuaram a crescer em termos de popularidade e procura. Os desenhos, com seu tom crítico e cômico, atraíam pessoas das mais distintas classes, gêneros e credos.

Ambos cresceram, atingiram novos estilos, criaram novas categorias, onde abordavam seus próprios recursos inerentes com suas propriedades únicas. O cinema começava a mostrar seus dramas, aventuras e romances ao mundo todo, enquanto os quadrinhos traziam à imaginação dos leitores heróis que combatiam o mal vindos dos mais longínquos pontos do universo, como o Fantasma, o Tarzã ou o Superman. E, por mais que fossem duas vertentes diferentes, ambos sempre tiravam algo de importante do contato de seus autores com o outro meio artístico em si. Will Eisner, por exemplo, sempre reforçava a importância da narrativa cinematográfica como elemento influenciador em suas histórias, como a que observou no filme "Cidadão Kane", de 1941.

Nessa década em questão, inclusive, é que começaram a surgir as primeiras fusões dos conceitos criados nesses dois meios de forma mais acentuada, com a série para televisão do personagem da DC comics, Batman, em 1943. Antes, em 1936, já havia ocorrido a adaptação do clássico de ficção científica "Flash Gordon", vindo dos quadrinhos. Com o sucesso dos novos super heróis, essa "união de forças" se intensificou, gerando seriados memoráveis, como "As Aventuras do Superman", de 1952, que foi um dos grandes destaques da época.

Com o passar dos anos, entretanto, os contatos entre o cinema propriamente dito e os quadrinhos ficaram um pouco estreitos, sendo muito mais comum encontrar relações da nona arte com a televisão através de desenhos animados e telesseriados, do que através de filmes nas grandes salas de exibição ao redor do mundo. Poucas tentativas eram feitas eventualmente, porém, nenhuma resultava em projetos muito memoráveis, como os filmes que retratavam os heróis da Marvel, Capitão América (que estrelou um filme solo em 1990) e o Quarteto Fantástico (que foi protagonista de uma versão muito lembrada pelos fãs de filmes trash, no ano de 1994). Entretanto, nem todas eram mal vistas, e, num contraste aos já citados, os filmes "Batman - O Homem Morcego" (1990) e "Batman - O Retorno" (1992), ambos do diretor Tim Burton, são constantemente lembrados com bons comentários.
No começo dessa década, em 2000, a Marvel, numa tentativa de se pôr em evidência novamente após uma década que muitos consideram como a perdida dos quadrinhos como um todo (devido à queda de nível nas histórias, a quantidade imensa de editoras pequenas e sem estrutura que entravam no mercado e acabavam afetando a visão geral desse gênero, etc), investiu numa produção para os cinemas de seu grupo de personagens mais populares, os X-men, composto por um elenco ainda não badalado e com um roteiro que buscava manter alguns elementos básicos da mitologia dos quadrinhos e, ainda assim, trazer algo de novo a esse universo de personagens. E o projeto mostrou que era algo que poderia valer muito a pena.




Investiu-se, então, em outros personagens, gerando uma leva de adaptações cinematográficas de histórias publicadas originalmente em papel e tinta nas revistas em quadrinhos, como "Homem-Aranha" (2002), "Hulk" (2003), "Demolidor" (2003), e uma nova tentativa de fazer uma representação do Quarteto Fantástico, em 2005. Além desses, também foram adaptados personagens como Homem de Ferro, Motoqueiro Fantasma, Blade e Wolverine. Alguns foram muito bem recebidos, outros foram altamente criticados pelo público recorrente dos heróis. Mas, num panorama geral, a indústria cinematográfica descobriu nessas adaptações um recurso que poderia suprimir o rombo criatrivo pelo qual Hollywood, central mundial do cinema, passava. E cada vez mais, estúdios passaram a investir junto às editoras em histórias que pudessem ser filmadas em película após serem publicadas impressas. Novas parcerias passaram a ser montadas, e começou uma enxurrada de filmes baseados em quadrinhos nos cinemas, expandindo-se além dos americanos, alcançando vários lugares no mundo. A triologia do personagem gaulês "Asterix", criação de René Goscinny e Albert Uderzo, e o filme "O Pequeno Nicolau", criação do mesmo René Goscinny com Jean-Jacques Sempé, da França,  foram algumas adaptações que repercutiram de forma muito elogiada.


E assim, as produções de quadrinhos em telonas deslanchou, rumo a novos horizontes, alcançando cifras de retorno financeiro astronômicas e atraindo milhões, até bilhões de pessoas às salas de exibição de todo o planeta, e continua levando cada semana que estréia um filme nessa categoria. Não pensem que a DC viu a Marvel decolar com suas adaptações e ficou para trás. Depois dos sucessos com os grandes pesos pesados de seu portfolio, Superman (que possuiu uma trilogia cinematográfica brilhante, a partir de 1978 até 1983, estrelada pelo ótimo ator Christopher Reeve, antes de este ficar paralítico) e Batman (nos filmes mencionados anteriormente e seguido de algumas sequências bem menos badaladas, dentre as quais uma que trouxe polêmica aos filmes de quadrinhos, onde o traje do herói mascarado possuía mamilos, apesar de não ser uma roupa colant ou qualquer coisa do gênero, o que foi visto e severamente criticado no filme dirigido por Joel Schumacher em 1997, "Batman e Robin"), a DC passou a investir em adaptações da sua linha de quadrinhos adultos, nos trazendo algumas obras memoráveis, como "Estrada para a Perdição" (2002), "Sin City" (2005), "V de Vingança" (2006), "Watchmen" (2009), e mais recentemente, "R.E.D. - Aposentador e Perigosos" (2010).


Essa década foi A década dos quadrinhos no cinema, e todos, sem exceção, sabem disso. Como tal, é um ponto que não poderia deixar de estar entre os 3 maiores acontecimentos dos quadrinhos na década. Além das adaptações para as telonas, a própria produção de quadrinhos mudou com essa nova relação inter-mídias, e os roteiros começaram a ser feitos para os quadrinhos já possuindo quase uma linguagem e montagem cinematográfica, o que, inclusive, acontecia às vezes por acordos firmados previamente até mesmo à criação da história original em quadrinhos, com os próprios autores, para a adaptação para o cinema, como foi o caso do roteirista Mark Millar e sua história"Kick-Ass", lançado quase simultaneamente em quadrinhos e filme em 2010.

Para os anos que virão, esse laço que liga a arte sequencial e o cinema mostra ainda ter muitos frutos para dar, com os projetos ainda em produção que estão por vir, como "Capitão América", "Thor", "Vingadores" e o reboot da série de filmes do Homem-Aranha, pela Marvel; e "Lanterna Verde" e a terceira parte da nova e incrível trilogia do Batman "Dark Knight Rises"; além de todas as demais filmagens feitas em cima de quadrinhos de outros gêneros e estilos, como o live-motion dos quadrinhos belgas do personagem Tintin, do quadrinista Hergé, que será produzido pelos experientes diretores Steven Spíelberg e Peter Jackson. Há ainda muito que falar sobre esse tema, e, por mais que eu tenha tentado expô-lo aqui o máximo possível, sempre acaba-se esquecendo de algo, além do fato de que não se pode dar a notoriedade detalhada a cada uma dessas singulares adaptações.











Neste vídeo que encontrei em meio à minha pesquisa, certos pontos muito importantes e interessantes, alguns dos quais que não consegui explorar de forma completa no artigo, mas que são importantes de destacar, são abordados de uma forma bastante instigante. Confira você mesmo:


Concluindo: uma vez, disseram que é preciso ver para crer. O que eu vejo é a expansão que isso tudo vem dando à nona arte, e o quão aparentemente perto que estamos cada vez mais do universo que as histórias em quadrinhos abordam, onde homens voam, adolescentes balançam em teias entre os prédios das grandes cidades, e onde sempre é possível sonhar E realizar sonhos. 

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

4º Colocado: Quadrinhos Brasileiros

Por Gabriel Guimarães


O ítalo-brasileiro Ângelo Agostini

A paixão do brasileiro pelos quadrinhos vem de muito tempo atrás, no começo de tudo. Considerados por muitos estudiosos como a primeira história em quadrinhos de fato (uma discussão na qual talvez um dia eu entre em um artigo futuro), "As Aventuras de Nhô Quim", do artista Ângelo Agostini, narra as histórias vividas por um homem do interior nas cidades do fim do século XIX e começo do século XX.

Desde então, a produção artística brasileira sempre procurou seu espaço e reconhecimento. Ainda antes do surgimento dos super heróis americanos, que influenciaram de forma intensa os profissionais dos quadrinhos brasileiros devido à forma como se deu sua difusão no território tupiniquim, houve uma história que merece um destaque pela sua ampla área de ação, "Garra Cinzenta", HQ de ação policial produzida por Francisco Armond e Renato Silva, em 1937, que fez grande sucesso aqui dentro, atingindo a marca de 100 capítulos, todos publicados pelo suplemento do jornal A Gazeta, a Gazetinha, como era chamado, e que chegou a ser exportado e muito bem recebido em países como Bélgica, México e França.

Com o surgimento dos novos heróis com poderes sobre-humanos em suplementos ao redor do Brasil todo, começou-se a disseminar uma "cultura do maravilhamento". Os leitores, entusiasmados com essa novidade, passaram a criar seus próprios personagens, suas próprias aventuras, muitas vezes adaptando sua realidade de vida para o formato. E não foram poucos os jovens que liam aqueles materiais que passavam a sonhar em desenhar eles mesmos aquelas histórias e trabalhar criando aventuras empolgantes nos jornais e revistas, dentre os quais, eu destaco o mineiro Ziraldo.

Entretanto, nem todos viam nas revistas um material produtor de sonhos, mas sim um elemento que corrompia a visão de realidade das crianças, que não teriam proteção suficiente para resistir à tendências rebeldes que se encontravam em algumas histórias. Além disso, os problemas que a arte sequencial encarava com o público tinham também, na verdade, haver com divergências e concorrência entre os produtores dos meios de comunicação da época (esse debate sobre concorrência e proteção do meio de produção de histórias em quadrinhos já foi debatido aqui no blog antes). Os editores e jornalistas que eram contra o dono da editora RGE e d jornal O Globo, Roberto Marinho, aproveitavam o fato de ele conseguir lucrar tanto com a venda dos suplementos de histórias em quadrinhos como uma brecha para ataca-lo de forma indireta.




Adolfo Aizen, dono da editora EBAL

Como não poderiam atacar Marinho sem envolver outros setores onde a influência do magnata da comunicação pudesse os prejudicar, os demais jornalistas, dentre os quais Carlos Lacerda, Samuel Weiner e Orlando Dantas viram na crítica e ataque à influência dos quadrinhos nos mais jovens uma brecha para atacar o império financeiro do "global". Com isso, muitos ataques contra os quadrinhos foram disferidos, porém, em muito pouco isso de fato reduziu a aceitação das historietas pelos mais jovens. E, da mesma forma que existiam críticos ferrenhos da nona arte, existiam seus defensores, igualmente capazes e empenhados, como o escritor e sociólogo pernambucano Gilberto Freyre, autor da obra clássica "Casa Grande Senzala", o editor que começou sua carreira como líder dos primeiros fãs clubes brasileiros para as histórias em quadrinhos publicadas no Brasil e fundador da editora Record, Alfredo Machado, e o russo-brasileiro que revolucionou o mercado editorial brasileiro com a sua Editora Brasil América (EBAL) e a política de investimento na nona arte que fazia, Adolfo Aizen.

Foram tempos complicados, porém, produtivos, com dezenas, às vezes centenas, de materiais publicados. Mas a produção de histórias nacionais sempre encontrou dificuldades. Foi apenas sob a batuta do quadrinista Waldir Igaiara, na editora Abril na década de 1980, que a produção de artistas de dentro do país teve maior reconhecimento, de fato. A maioria das histórias protagonizadas pelos personagens da Disney era produzida no Brasil, e muitas delas, eram até mesmo exportadas para serem publicadas na terra-natal dos personagens (como mencionei na matéria de ontem e já há algum tempo atrás aqui no blog também).

Entretanto, tamanho potencial não foi explorado, e a produção de quadrinhos brasileiros se esvaiu. Por um tempo depois, aqueles que desejavam ser parte dessa indústria passaram a se voltar para o exterior, enviando seu trabalho para ser publicado nos Estados Unidos em diversas editoras, inclusive nas duas gigantes, Marvel e DC.

Na década que acabou, entretanto, uma nova esperança foi surgindo. Alguns autores começaram a arriscar fazer algo voltado para o público brasileiro mesmo, criando alguns bons sucessos de público e crítica, como são so casos de Combo Rangers, do paulista Fábio Yabu, e da série que recebeu grande atenção em 42 edições e 6 especiais, Holy Avenger, da dupla Marcelo Cássaro e Érika Awano. E foi a partir desses casos na metade inicial da década que se viu uma mudança nesse panorama. Muitos desenhistas e roteiristas começaram a publicar seu material, querendo adquirir representação nessa fatia cada vez mais considerável do consumo no mercado de quadrinhos.

E com os anos passando, foram surgindo projetos cada vez melhores, como Jambocks! da dupla Celso Menezes e Felipe Massafera, Bando de Dois, do artista Danilo Beyruth, e Táxi, do chargista Gustavo Duarte.

Foi uma década muito importante por toda a produção que foi feita, e vejo cada vez mais abertura para isso, com a nova política do Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE), que compra tiragens excelentes de livros para uso escolar, e que está invetindo mais e mais no setor da arte sequencial como ferramenta de ensino (em 2007 foi talvez o primeiro grande destaque dessa adoção de material em quadrinhos, com 300 obras sendo escolhidas e distribuídas pelos colégios ao redor do país).

E cada vez mais nomes brasileiros ganham uma dimensão maior no contexto global, como os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, o quadrinista Rafael Grampá, o desenhista Mike Deodato Jr. (que começou a carreira na década de 1990 mas que teve seu trabalho mais reconhecido nessa última década), o artista Ivan Reis, dentre muitos outros.

Muitas mudanças foram realizadas, e hoje, mais que ontem, e, se Deus quiser, amanhã mais ainda que hoje, os quadrinistas brasileiros têm uma real chance de terem seus trabalhos publicados e de dizer que somos brasileiros, com muito orgulho, com muito amor. E isso não poderia de ser dito aqui.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

5º Colocado: A Compra da Marvel pela Disney

Por Gabriel Guimarães

Eu sei que, na época em que esse acontecimento se deu, em 2009, eu havia dito que discorreria sobre ele melhor, porém não o fiz, devido aos outros projetos que estavam em andamento, até mesmo aqui para o blog. Chegou a hora de cumprir com minha palavra.

Desde 2005, a Disney vinha passando por uma enorme crise no seu setor de histórias em quadrinhos, sendo constantemente avaliada e reavaliada pelos responsáveis pela publicação do material ao redor do mundo, dentre os quais a editora Abril, que volta e meia criava novos títulos e/ou cancela outros mais antigos ou que não haviam dado certo junto ao seu público-alvo. Entretanto, foi a partir de janeiro de 2007 que os cancelamentos começaram a atingir a terra-mãe dos personagens de Walt Disney. Acreditando que poderia se manter apenas com a republicação de clássicos dos quadrinhos de outras eras mais afortunadas de ideias, o grande conglomerado cancelou de cara duas de suas revistas mais antigas, "Mickey Mouse and Friends" e "Donald Duck and Friends".

E os negócios pareciam ir apenas de mal a pior, entrando e saindo ano, e linhas de histórias em quadrinhos continuando a serem canceladas, atingindo até a soberba revista do Tio Patinhas, em 2008, na Itália, um dos países que mais produzia histórias para a Disney no mundo(por curiosidade, o país que mais produziu histórias com os personagens de Walt Disney, além de criar outros tantos originais, que inclusive até exportava para os próprios Estados Unidos publicarem, era o Brasil! - isso já foi mencionado aqui no blog há algum tempo atrás).

Em agosto de 2009, porém, numa reviravolta que ninguém (eu posso afirmar isso com bastante certeza) esperava, o conglomerado Disney adquiriu pela quantia impressionante de 4 bilhões de dólares a posse da gigante de quadrinhos norte-americanos, Marvel comics. Que a Marvel estava cada vez mais badalada e trazendo lucros cada vez maiores, ninguém duvidava, e que esse fato atrairia olhares de grupos de executivos com alto poder aquisitivo, também não era nada inesperado. Então, por que e de que forma essa notícia nos chocou tanto?

A Disney sempre foi uma marca que primou pelos desenhos infantis, que evitavam ao máximo uma exposição de violência, temas inadequados, etc, e, como afirmei ontem, o clíma dos quadrinhos não-infantis, dentre os quais, os da Marvel, na década mostravam uma imagem bem diferente do tradicional padrão Mickey Mouse de abordagem. Porém, acima disso, venho propor algo que acredito que poucos pensaram: a política da gerência para com os quadrinhos da Disney desde a metade da década demonstrava, na verdade, até mesmo um certo descaso. Ou, talvez, fosse algo premeditado para pegar o mercado de sopetão. Afinal, toda propaganda é boa, e a forma como a notícia se deu no meio do entretenimento deixou todo o mundo estarrecido e de olhos focados na direção da nova aliança que prometia mexer com as estruturas da indústria da cultura popular.

Não houve um programa voltado para esse mercado, um site de informações ou um blog que não tenha dito, ao menos, algumas palavras quanto a isso. A Disney se pôs no mapa novamente no ramo de quadrinhos, e logo levou ao alvoroço dos leitores, que já imaginavam complexos crossovers entre o atabalhoado pato Donald e o irritadiço pato Howard, ou entre o clássico favorito Pateta e o gigante esmeralda, Hulk. E segue por aí.

Muitos, no entanto, se preocuparam com essa notícia. Acreditavam que um ou outro (Marvel ou Disney) perderia sua identidade máxima construída há décadas com o público leitor de suas revistas e espectador de seus filmes. Para acalmá-los, a Disney anunciou que não interferiria nos projetos da Marvel para o cinema que eram produzidos pelo estúdio que já pertencia à editora e que produzira obras primas para a telona, como os dois filmes do Homem de Ferro.

Quanto aos quadrinhos, tudo continuou o mesmo, o que mudou apenas foram decisões burocráticas, como nomenclaturas hierárquicas dentro da Marvel Entertainment Inc. O portfolio de personagens de ambas, entretanto, sofreu uma expansão assustadora, uma vez que a Marvel possuía direitos sobre cerca de mais de 5 mil personagens, e a Disney já possuía um repertório igualmente invejável.

No fim, ou pelo menos até o fim dessa década, esse grande acontecimento se limitou ao lado empresarial, porém, podemos esperar novos desdobramentos disso nos anos vindouros, sem a menor sombra de dúvida, como talvez um dia teremos a possibilidade de assistir um vídeo preparatório apresentado pelo Pateta sobre como se usar uma armadura das indústrias Stark, como tantos já devem ter começado a imaginar quando a notícia foi anunciada. Esperemos para ver.

Notas de complemento:

http://www.universohq.com/quadrinhos/2005/n22072005_07.cfm


http://www.universohq.com/quadrinhos/2007/n17012007_10.cfm

http://www.universohq.com/quadrinhos/2008/n27082008_07.cfm



http://entretenimento.uol.com.br/ultnot/2009/08/31/ult4326u1395.jhtm



terça-feira, 18 de janeiro de 2011

6º Colocado: Os Novos "Valores" dos Quadrinhos

Por Gabriel Guimarães

Nessa última década, vivemos momentos conturbados, tanto moralmente (a partir dos ataques de 11 de setembro de 2001) quanto financeiramente (com a crise econômica mundial que assolou o mundo em 2009), e estes tempos tiveram um grande impacto nos quadrinhos ao redor do planeta. Para a sexta colocação na lista dos 10 acontecimentos que mais marcaram os quadrinhos na década, a reação dos quadrinhos, principalmente a esses dois fatores que mencionei, ficaram empatados, ao meu ver.

Comecemos pelo fator econômico, que mostrou um panorama nessa década que poucos poderiam esperar quando esse meio de comunicação de massa tão popular começou a engatinhar no início do século XX. Uma vez que os imóveis, que costumavam ser talvez uma das formas mais seguras de investimento positivo, estavam sendo a causa da grande crise financeira norte-americana em 2009 (mas que afetou o mundo inteiro devido à interdependência monetária, principalmente do dólar), grandes empreendedores começaram a se perguntar sobre uma forma mais segura e sem tantos riscos de gastar o dinheiro pelo qual trabalharam que pudesse ter um retorno considerável mais tarde. E adivinhem qual a solução que encontraram? As revistas em quadrinhos!

Desde a crise, os leilões onde as revistas mais clássicas e históricas da arte sequencial estavam dispostas começaram a demonstrar quebra de recorde seguida de quebra de recorde, chegando a patamares jamais imaginados pelos artistas e editores que trabalharam na produção daquelas revistinhas à época. Acho impressionante o fato de que foi preciso tamanha crise financeira para que houvesse um reconhecimento maior desse material, que, se você observar de um panorama maior e mais amplo, influenciou milhões de vidas, e continua a influenciar. A cultura dos quadrinhos sempre foi e ainda é muito importante, e nessa década, isso realmente foi reconhecido. E não apenas em papel, artigos científicos, etc, mas em cifras, também. E isso foi algo muito importante. Quem sabe, com essa nova visão, haja mais investimento na produção artística voltada para a nona arte e seu público? Talvez então possamos ver as pessoas deixarem de tratar os admiradores de quadrinhos como alienados ou infantis, e, enfim, os vejamos ser respeitados e compreendidos.

Ao segundo ponto dessa colocação, a história vai um pouco mais para o começo da década. Em setembro de 2001, o mundo foi pego em choque com o atentado terrorista às torres gêmeas em Nova York, nos Estados Unidos. Muitas vidas se perderam, histórias foram interrompidas e o mundo perdeu um pouco a expressão de leveza que aparentava ter. Uma tensão global se instaurou, jogando vizinho contra vizinho, amigo contra amigo. Ninguém sabia mais em quem poderia confiar. Tamanha mudança de comportamento não passou desapercebida, e, logo, levou a ramificações nos quadrinhos.




O próprio atentado levou a respostas incrivelmente belas em termos de arte, como a edição da série Amazing Spider-Man onde o Homem-Aranha se depara com os prédios já em chamas e, junto de vários heróis E vilões da Marvel, auxilia no salvamento de inocentes presos nos destroços. Para mim, essa edição foi uma das mais especiais e de maior destaque na década, absolutamente impecável em termos de emoções humanas e solidariedade. Além disso, a Marvel lançou a minissérie "Emergência - A Serviço da Vida", onde contava a história de bombeiros que procuravam salvar suas vítimas e resolver cada caso de uma vez, como heróis da vida real, em 2003. A DC não ficou atrás, e passou a evidenciar em diversas de suas histórias o valor dos prestadores de serviços de resgate do mundo real, como mostrado na imagem que inicia o artigo.

Com essa reviravolta, os quadrinhos mudaram. O tom das histórias passou por um longo período de obscuridade, onde o lado negro dos personagens começou a vir à tona, e o gênero da vida deles passou a ser o drama ao invés das aventuras a que estavam acostumados. A DC passou uma Crise de Identidade em 2004 que a reformulou por completo, mudando a forma como seus principais personagens eram vistos, e a Marvel entrou em Guerra Civil um pouco mais tarde, em 2007,  ponderando os limites do bem que um herói mascarado pode fazer. Foram grandes mudanças, enormes, profundas e estruturais. Necessárias.

Foi um tempo de luto. Não apenas pelo desastre que marcou a década, mas pela inocência que se perdeu. A desconfiança fez lembrar de tempos nada agradáveis em que a certeza do bem triunfar sempre não era tão firme, ao menos não tão firme quanto deveria. E passou-se a questionar isso nos quadrinhos. O que pode ser evitado de fato?



 
Porém, essa mudança no tom das histórias não se limitou aos quadrinhos de heróis. O premiado autor
Art Spiegelman (único quadrinista vencedor do Prêmio Pullitzer pela sua história Maus) também reagiu a esse panorama na sua obra "À Sombra das Torres Ausentes", em que criticava o xenofobismo, algo atípico dentre os quadrinistas para responder ao governo Bush no momento.

Foram muitas mudanças em muito pouco tempo. E os quadrinhos estiveram lá, como todo bom meio de comunicação para mostrar os pontos de vista e reação das pessoas aos eventos que decorreram no mundo. Por todas essas razões, esses dois elementos merecem tamanho crédito, e marcaram a arte sequencial na década.

Notas de complemento:

http://extra.globo.com/tv-e-lazer/revista-com-primeira-aparicao-do-batman-vendida-por-mais-de-us-1-milhao-bate-recorde-92308.html

http://g1.globo.com/Noticias/Economia_Negocios/0,,MUL1549664-9356,00-GIBI+DE+SUPERMAN+REGISTRA+NOVO+RECORDE+EM+LEILAO+US+MILHAO.html


http://www.guardian.co.uk/culture/2004/apr/24/guesteditors3

http://www.universohq.com/quadrinhos/2007/n11092007_05.cfm

7º Colocado: O Boom do Mangá

Por Gabriel Guimarães
Caracterizado pela abertura a uma ampla margem de público, o estilo mangá dos quadrinhos japoneses tem um imenso repertório de tramas, desde simples histórias de uma garota que gosta de hamsters até épicas jornadas de heróis e aventureiros na luta pela sobrevivência do universo. E foi a partir desse estilo de quadrinizar que surgiram muitos dos desenhos animados (animês) que marcaram as vidas de muitos jovens já há várias décadas.

Entretanto, foi somente a partir dos anos 2000 que, de fato, os mangás realmente foram adotados como main stream dos quadrinhos consumidos no Brasil. A mudança editorial promovida nessa década de publicarem os mangás na sua ordem original ao invés de ocidentaliza-los foi talvez o grande fator influenciador para a nova e maior aceitação do material.

Criando uma identidade visual única, que diferenciava as revistas de estilo mangá das demais nas bancas, as histórias tiveram mais campo para serem bem recebidas (além do mais, a partir de então, elas passaram a ser lidas como haviam sido planejadas em sua publicação original no Japão). Aqui merece um crédito especial para a editora Conrad, que deu início a esse processo com a importação dos mangás Dragon Ball e Cavaleiros do Zodíaco.

O público começou a associar mais os desenhos animados que tanto eram vistos com seu material de origem, e muitos que o faziam passaram até a preferir o que era publicado em relação ao que era exibido. Por essa afirmação, é possível perceber a importância que o mangá teve nessa década: atraiu toda uma leva de novos leitores para as histórias em quadrinhos e expandiu de forma assustadora a aceitação da nona arte em meio ao público que já não era mais infatil. Desde então, é cada vez mais frequente você observar grupos de pessoas reunidas nos colégios, nos shoppings, nas faculdades, falando sobre uma história que todos acompanham mês após mês nas bancas.

Outra grande repercussão que o advento do mangá gerou foi a explosão do número de eventos organizados em prol de uma publicação em quadrinhos, que gerou até a realização mais frequente dos chamados cosplays, onde os fãs das séries se fantasiavam como seus personagens favoritos e competiam entre si para ver quem homenageara melhor a figura retratada. Tradição em alguns outros países, aqui no Brasil, esse costume não era tão efetivo, porém, a partir dessa última década, se tornou.

O mangá gerou uma massificação de consumo de quadrinhos que já não se via há anos, fossem os leitores de Dragon Ball, Naruto, One Piece, ou qualquer outro título, todos passaram a fazer parte de um mesmo universo, um mesmo contexto cultural, e assim se criou uma base muito forte onde se estruturou uma comunidade de jovens leitores que são influenciados pelas histórias que leem e pela cultura com a qual tomam contato. Não apenas a cultura do Japão, mas sim a cultura da integração, do conceito de respeito e honra, de amizade e de companheirismo.

O mangá, utilizando de um recurso gráfico em que os cenários são complexos para dar o tom de realidade e os personagens são simples para serem fáceis do leitor se identificar com eles, realmente alcançou hoje um patamar muito admirável nos quadrinhos como um todo, gerando uma ótima receptividade e produzindo momentos que serão lembrados por todos os seus jovens leitores pelo resto de suas vidas.


O tremendo crescimento do mangá é um elemento que não poderia deixar de figurar aqui entre os maiores acontecimentos da dácada nos quadrinhos de forma alguma, e acredito que ele só tende a crescer mais e mais, em vista sua estratégia já inerente da venda para o mercado de nichos, cada vez mais comum nos dias de hoje, como destaca o livro "A Teoria da Cauda Longa", de Chris Anderson.

domingo, 16 de janeiro de 2011

8º Colocado: Turma da Mônica Jovem

Por Gabriel Guimarães
Quem dos verdadeiros leitores de quadrinhos hoje pode dizer sinceramente que nunca leu uma revista, um gibi, da turma da Mônica a vida toda? A invenção do artista e empreendedor Maurício de Sousa não foi só mais uma revista em quadrinhos nas bancas de todo o país, ela se tornou sinônimo de quadrinho brasileiro em grande parte do mundo afora. Maurício, cuja carreira como desenhista começou cedo, quando fazia cartazes e ilustrações para os meios de comunicação da cidade de Mogi das Cruzes, onde morava, conquistou um espaço que pouquíssimos acreditavam ser possível conquistar e, com isso, marcou seu nome na história dos quadrinhos não só brasileiros (onde, entre eles, está irrevogavelmente na mais alta posição), mas também mundiais.
Por cerca de 48 anos, Mônica, Cebolinha, Cascão, Magali, e dezenas de outros personagens, se fizeram presentes nas vidas de praticamente todos os brasileiros, fosse através das consagradas revistinhas (que migraram por várias editoras ao longo dos anos), desenhos animados (que eram exibidos tanto em canais de acesso aberto quanto em canais de rede paga), bonecos, adesivos, cadernos, canetas, estojos, bichos de pelúcia, etc. Ainda que não houvesse tantos objetos com licenciamento de imagem dos personagens de Maurício, há uma imensa quantidade de programas de alfabetização e auxílio à educação incentivados pelo MSP, estúdio e produtora do grande quadrinista brasileiro.

Vendo todo esse panorama, não é nenhuma surpresa o alto nível de aceitação e credibilidade associados aos nomes e imagens da turminha. Entretanto, com o passar dos anos, nada também é tão natural quanto a necessidade de se reestruturar para alcançar novos mercados (como já foi estudado aqui no blog algum tempo atrás).

No ano de 2008, Maurício pôs em prática uma estratégia que poderia colocar em risco tudo aquilo que produziu em quase toda sua vida: amadurecer seus personagens, mudando alguns de seus elementos estruturais. Na Rio Comicon que foi realizada em 2010, ele revelou a motivação real que o levou à definitiva decisão de tomar tal risco: seu filho mais novo. Todo mês, o grande quadrinista brasileiro levava revistas em quadrinhos da banca para seu filho, dentre as quais, ele destacou os gibis da série Turma da Mônica e a série de mangá Naruto. Um dia, Maurício disse, ele viu a imagem que lhe faltava para perceber que precisava inovar seu universo de personagens: seu filho ficou em dúvida, pela primeira vez, quanto a qual das revistas leria primeiro, e acabou optando por Naruto.

Observando seu filho (que poderia simbolizar quase perfeitamente o seu legado para os quadrinhos no Brasil, nesse caso) e as mais recentes gerações de leitores da nona arte, Maurício viu a alta procura pelo estilo mangá, e o quanto que uma iniciativa de entrar nessa área poderia revigorar toda sua produção, renovando o público e reatraindo os leitores mais velhos. Não, não foi uma decisão tão fácil quanto parece. Se desse errado e o conservadorismo triunfasse nesse caso, todo o império que levou décadas para ser construído à base de muitas lapiseiras, borrachas, réguas, canetas e folhas de Maurício, poderia ruir.

É pelo sucesso dessa mudança de estratégia na produção da maior revista em quadrinhos produzida por e para o mercado brasileiro, que a invenção da Turma da Mônica Jovem em estilo mangá figura na lista dos 10 acontecimentos que marcaram a arte sequencial na década e acredito que não poderia deixar de estar.

Nos próximos anos, a expansão desse novo projeto quadrinístico de Maurício só tem projeção para crescer mais e mais, visando uma série de desenhos animados (já em fase de estudo, como também foi destacado anteriormente aqui no blog), edições especiais e cada vez mais leitores, tanto novos aos quadrinhos como experientes e ávidos leitores da turminha, que sempre sonharam ver os seus personagens favoritos crescerem junto com eles, e agora, conseguiram ou estão mais próximos disso. Para tanto, um outro nome merece ser destacado aqui por sua importância, o editor Sidney Gusman, responsável por todas as edições MSP 50, que homenageiam os 50 anos de carreira de Maurício de Sousa como quadrinista pela mão de vários outros desenhistas e artistas brasileiros, e que tem tomado a frente de tudo atualmente produzido pelo estúdio do criador da Mônica.

Seja falando ao público infantil ou aos novos jovens de hoje e amanhã, as ideias de Maurício se mostraram firmes quando todas as demais foram caindo frente aos obstáculos de produção e distribuição de quadrinhos no Brasil (também abordado previamente aqui no blog), e tudo que posso dizer, é que o Cebolinha inventou milhares de planos para virar o dono da Rua, enquanto o Maurício só precisou de um para virar o dono do Brasil (pode parecer uma metáfora forçada, mas quando se observa a influência de sua criação na formação de tantos dos que hoje são as cabeças governantes do país, percebe-se que não é tanto um absurdo minha afirmação): criou a identidade do brasileiro de forma pura e simples, a trajou com um vestidinho vermelho e lhe deu nas mãos um coelhinho para que pudesse se proteger dos que tentassem dela se aproveitar; e voilá, todo um universo de construiu naturalmente, e está hoje mais forte que nunca.

Parabéns e, mais uma vez, obrigado, Maurício.

sábado, 15 de janeiro de 2011

9º Colocado: A Marvel no Novo Milênio

Por Gabriel Guimarães


No começos dos anos 2000, a Marvel percebeu que precisava atrair novos leitores às suas revistas se não quisesse ter sérios problemas financeiros. Seus filmes começavam a surgir nas salas de cinema ao redor do mundo, começando pelo primeiro X-men (2000) e partindo rumo a uma sequência de personagens a serem aproveitados na grande tela. Com os espectadores dos cinemas, os executivos da Marvel sabiam que surgiriam novos potenciais leitores, e nisso, resolveram por em prática uma estratégia até já manjada no meio para atrair novos públicos: decidiram dar um reboot no universo Marvel como um todo e mostrar como ele funcionaria se todos os heróis e vilões tivessem surgido no novo milênio que se estendia diante de nós, e não mais na década de 1960. Esse projeto ficou conhecido como Marvel Millenium.

Com versões não só recontadas de personagens, como era tradição nesse estilo de abordagem, mas sim com reformulações e mudanças drásticas, esse novo universo criado pela Marvel surpreendeu o público, que começou a ser cada vez mais atraído para essa versão ultimate dos personagens do que para a tradicional. A versão tradicional, inclusive, com algumas poucas exceções, não passava e ainda não passa por bons momentos já há algum tempo. Tudo ficou complicado demais, engendrado demais. No novo universo proposto pela Marvel, tudo se simplificou, novas histórias antológicas para os personagens foram criadas, e velhos jargões repetidos à exaustão deram lugar às novas tentativas de se comunicar com a nova geração de consumidores de quadrinhos. E o resultado foi excelente.

Tamanho foi o bom retorno desse projeto, que o nome do talvez grande responsável por ele, o roteirista Brian Michael Bendis, se tornou quase sinônimo de boas histórias. Porém, não foi apenas ele que criou toda a ambientação dos personagens em suas novas versões. Essa tarefa foi encumbida a uma gama de talentosos roteiristas e artistas de altíssimo nível técnico. Mark Bagley (parceiro de Bendis na série do Homem-Aranha ultimate, personagem solo de maior sucesso da linha), Mark Millar, Adam Kubert, Brian Hitch, Greg Ruka, Stuart Immonen, Brandon Peterson, David Finch, entre muitos e muitos outros, foram alguns dos que deram forma à nova estrutura de como a Marvel passou a ser vista melhor nessa última década, e, portanto, não foi à toa a projeção que a estratégia adquiriu.

Com a nova versão dos Vingadores, maior grupo de heróis do universo Marvel, a editora conseguiu atingir todo um novo nível de leitores. Escrito de forma brilhante pelo escocês Mark Millar em parceria com os desenhos incríveis do britânico Brian Hitch, Os Supremos (como vieram a ser chamados) se tornaram uma referência no que tange aos bons quadrinhos de heróis dos últimos tempos. A abordagem cinematográfica foi tão bem recebida que virou praticamente o pilar sob o qual estão sendo trabalhados os filmes dos personagens integrantes do grupo e o filme do grupo em si, que ainda será produzido na sétima arte.

Considero a criação da Marvel Millenium um elemento quase divisor de águas na forma como a editora era vista nos anos que precederam a passagem das décadas anteriores para essa última; e a forma como tudo foi orquestrado, para permitir que novos leitores não se sentissem deslocados em termos de cronologia com o universo Marvel, levaram a uma ótima resposta do público e do mercado em si.

O ítem preenche a nona colocação nos acontecimentos que marcaram a década por causa da revitalização do público, da conexão com todos os elementos da geração atual nas histórias (desde a tecnologia utilizada às tendências de estilos urbanos) e da expansão da marca Marvel que foi possível através da união entre o cinema e a linha Marvel Millenium.

Sem mencionar o fator multimídia das histórias, que já chegaram aos video games nas duas edições do game Ultimate Alliance e as relações com referência à série de televisão LOST, que aparecem em alguns momentos da série do Homem-Aranha ultimate.

Com novos poderes, vem novas responsabilidades. E, apesar das ideias descabidas das últimas histórias (como a pífia Ultimato), os profissionais da Marvel têm conseguido lidar muito bem com tudo isso. Torçamos para que o futuro seja apenas de sucessos e novos voos rumo a histórias cada vez melhores.