sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

10º Colocado: A Reinvenção do Lanterna Verde

Por Gabriel Guimarães
Uma vez, Hal Jordan foi um dos maiores defensores do planeta Terra e considerado o maior dentre os membros da Tropa dos Lanternas Verdes, equipe formada pelos mais dignos e habilidosos seres dos 3600 setores do universo, que ostentavam a luz esmeralda de seus anéis municiados apenas de sua inabalável força de vontade. Então, um período de muita escuridão caiu sobre a alma de Jordan.
Após décadas utilizando o símbolo da Tropa como elemento de justiça e a garantia da luta pelo bem, o mundo de Hal começou a ruir ao seu redor. Em 1994, devido a eventos recorrentes da morte do Superman, dois inimigos do Homem de Aço (Super Ciborgue e Mongul) tentaram remodelar o mundo conforme suas vontades, e numa primeira investida, destruíram Coast City, cidade natal de Jordan, e, com ela, milhões de seus habitantes.
O peso de tal ato abalou aquele que era o maior dos Lanternas Verdes. Seu luto e vontade de reconstruir o que havia antes naquele agora desértico espaço de terra o fizeram tentar recriar vida a partir da força de seu anel, de sua força de vontade. Porém, os Guardiões do Universo, criadores e normalizadores da Tropa, não concordaram com a empreitada do herói, e ordenaram que entregasse seu anel.

Agora cego pela tristeza e com medo do que se seguiria a esse nível de destruição e abalo que sentiu, Jordan se rebelou contra seus outrora líderes e rumou para a Bateria Central da Tropa, a fim de absorver toda energia lá contida para poder recomeçar. Derrotando colega a colega de Tropa no caminho, Jordan foi adquirindo mais anéis e, com isso, mais poder, até que chegou a Oa, planeta dos Guardiões. Nas suas últimas frustradas tentativas de impedí-lo, os Guardiões usaram as únicas armas que restavam: Kilowog, oficial de alta patente da Tropa e um dos maiores amigos de Jordan nos anos passados; e Sinestro, ex-membro da Tropa, que se corrompeu desejando uma ordem perfeita para o universo, para a qual a única forma de sustentação seria um tipo de política universal que só poderia ser assemelhada talvez ao fascismo (além disso, Sinestro foi quase desde o começo da carreira de Jordan como Lanterna Verde, seu maior inimigo). Tentativas frustradas.

Jordan elimina os obstáculos e, num momento sublime em que expõe tudo o que passou, indaga os Guardiões quanto ao seu nível de participação na ordem de todas as coisas e relata que ninguém mais pode impedí-lo de atingir seu objetivo de absorver toda a energia da bateria, nem mesmo ele próprio. Jordan cumpre com o que diz e, ao absorver tamanha energia, elimina todos os Guardiões, menos um, que é protegido pela força de todos os demais, Ganthet, que fica emcumbido de dar o último anel da Tropa a um ser merecedor, que viria a ser o desenhista terráqueo Kyle Rayner. Voltando a Jordan, agora, sob a alcunha de Parallax, ele ostenta o poder que tanto procurou: o poder de recomeçar Coast City, a Tropa, a vida em si...

Numa tentativa radical de zerar todas as penitências da existência, Jordan se aliou ao vilão Extemporâneo e gerou o evento que ficou conhecido como Zero Hora, porém, foi detido na última tentativa dos heróis de impedí-lo, fazendo tudo voltar ao normal. Jordan, então, tentou voltar a ser o Lanterna Verde que já havia sido, retomar a força do último anel energético no universo, para enfim cumprir seu objetivo, mas Kyle Rayner não permitiu, confrontando-o diversas vezes, até que Jordan desistiu e vagou pelas galáxias, procurando uma nova forma de satisfazer seus propósitos.
Em 1996, uma nova ameaça surge na forma do vilão Devorador de Sóis, que quase causa a destruição da galáxia onde a Terra se encontra ao consumir toda a energia do nosso Sol. Jordan, movido pelos pedidos de seus antigos amigos e companheiros, decide utilizar toda sua força para reconstruir a fonte de vida dos planetas da via Láctea e destruir de uma vez por todas o causador desse mal, mas para isso, sacrifica sua vida.

Entretanto, a jornada de Hal não termina ali, e, vagando pelo limbo, acaba retornando ao mundo dos heróis sob o manto do espírito da vingança, Espectro, após uma épica batalha para ser o sucessor por trás da entidade.
Bom, isso é um resumo de tudo que aconteceu de realmente marcante na vida do personagem Hal Jordan até essa última década.

Em dezembro de 2004, através da excelente dupla Geoff Johns (ainda antes de se tornar o badalado roteirista da atualidade da DC) e Ethan Van Sciver, a DC publicou a minissérie Lanterna Verde: Renascimento, onde, explicando dezenas de fatores e eventos usando apenas elementos realmente presentes na mitologia ancestral do personagem, ocorreu aquilo que todos os grandes fãs do gladiador esmeralda da Era de Prata tanto esperavam: O retorno de Hal Jordan ao seu posto de Lanterna Verde oficial do setor espacial 2814.

Revelando que Parallax na verdade era um ser mítico que existia desde o início do universo e que se alimentava de todo o medo existente nas criaturas viventes, a história mostra a razão da impureza amarela nos poderes da Tropa (uma vez que Parallax era composto de energia amarela e estava aprisionado na bateria central de Oa), as motivações que levaram Hal Jordan ao limiar da loucura, e as prerrogativas de seu triunfal retorno. Bom, o mais importante nisso tudo, afinal, era: Hal Jordan estava de volta.

Nos anos que se seguiram, Jordan teve que trabalhar duro para reconstruir a imagem que possuía junto à comunidade heróica e aos membros da recém-reconstruída Tropa dos Lanternas Verdes, além de se deparar mais uma vez com eventos tenebrosos para o futuro do universo decorrente de falhas cometidas pelos Guardiões nos milênios em que viveram antes de tudo existir, como a profecia da Noite Mais Densa, história que é atualmente publicada aqui no Brasil pela editora Panini e que já terminou lá fora, causando toda uma reestruturação definitiva do universo DC.

Ok, tudo isso é sensacional, incrível, mirabolante. Mas o que isso tudo tem de tão especial a ponto de entrar para a lista das maiores mudanças / eventos nas histórias em quadrinhos na década? Olhem bem, Hal Jordan vinha de uma década onde a palavra caos imperava completamente. Não havia estrutura nem projeções muito boas para o personagem, o universo em que ele se inseria (Coast City e muitos dos personagens secundários) se encontrava em frangalhos.

Geoff Johns pegou referências onde nenhum outro roteirista pensara em fazer antes (pelo menos não com tamanha primazia): a própria mitologia esmeralda do personagem. Ele olhou para o passado, o começo de tudo, tal qual o primeiro vilão do universo DC, Krona, e decidiu recomeçar tudo, porém, não do zero, como pretendia Jordan, mas sim de onde tudo havia parado. Ele simplesmente despausou o personagem, que tal qual ele próprio (Hal) ficcionalmente estava por um período nos quadrinhos, estava editorialmente: no limbo.

Do marasmo, ele pegou as pontas necessárias para trabalhar toda a simbologia e expandir tudo que o símbolo dos Lanternas Verdes representava: a força de vontade e a superação do medo. E o fez de forma perfeita, impecável. Ele pegou Hal, que se encontrava numa posição irrelevante em meio a toda essa gama de personagens incríveis que a DC tem, e o catapultou ao carro chefe da editora na década, ultrapassando em muito a projeção de Batman, Superman, Liga da Justiça e etc. A DC conseguiu, surpreendentemente, inclusive, terminar 2010 à frente da Marvel tanto em arrecadação com a venda de revistas quanto em quantidade de revistas vendidas, fato este inédito no mercado de quadrinhos americanos. Quer saber a causa dessa surpreendente mudança? A DC reinventou o Lanterna Verde. Explorou seu potencial, e acreditou que poderia ir além de meras histórias que você compra todo mês nas bancas. Resolveu pela primeira vez em décadas expandir o conceito do universo do personagem esmeralda. E vejam só? Deu certo. E nem precisou de crises disso ou crises daquilo para isso. Hal Jordan se envolveu muito pouco em todos esses mega eventos, e, portanto, foi um dos poucos que se safou de toda a estrutura caquéitca que eles traziam e na qual deixavam vários personagens.

A reinvenção do Lanterna Verde figura aqui em décimo lugar porque a DC superou o medo de se arriscar com um personagem consagrado, e com isso, atingiu novos patamares jamais sonhados antes, nem mesmo pelos mais ferrenhos fãs do personagem, dentre os quais eu me incluo.
No ano que se iniciou há pouco, ainda nos é reservada a oportunidade de ver o personagem na grande telona (não que tenha me empolgado tanto ainda, como podem ver na análise que fiz do trailer liberado ao público, postado previamente aqui no blog) na pele do ator em ascenção Ryan Reynolds, fato que poucos esperavam ver um dia se isso fosse perguntado alguns anos atrás.

E olhe só pro futuro agora? Tudo que a DC vê pela frente por essa estratégia é um dia mais claro, onde, há poucos anos antes, tudo que havia era uma noite bem, bem densa.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Os Dez Acontecimentos Que Mais Marcaram as Histórias em Quadrinhos na Década

Por Gabriel Guimarães
Com a virada do ano, não só um número 0 se tornou um 1, como uma nova década teve início de fato. Uma década que nos vislumbra com a gama de possibilidades do por vir. Uma década onde os quadrinhos entram como um meio de comunicação e arte de forma imponente, ainda que não firmemente estabelecida, AINDA.

Porém, enquanto nos maravilhamos com o que pode surgir no amanhã, não devemos nos esquecer do ontem, pois foi devido ao que aconteceu ontem que o hoje e o amanhã são e serão possíveis. Sem o passado nos bairros mais pobres de Nova York onde moravam seus criadores, o Superman jamais teria se tornado o Homem do Amanhã. E assim, as coisas ainda acontecem.

Passamos por uma década em plena atividade, onde houve muitos altos e baixos, e um balanço geral se faz necessário. Para tal, estive e estarei trabalhando numa lista onde discorrirei sobre os 10 eventos / acontecimentos / ideias que mais revolucionaram as histórias em quadrinhos na década que passou. Não é uma lista das melhores histórias e nem de elementos absolutos, então, convido-os a debater comigo sobre possíveis fatos que eu não tenha tido conhecimento ou que eu possa ter diminuido sua noção de importância. Pelos próximos dias, postarei diariamente um dos membros dessa lista em que estou trabalhando, começando pelo décimo e indo até o primeiro colocado em termos de importância geral para a nona arte.

Nos vemos amanhã, caros leitores, com o 10º colocado, o qual só revelarei amanhã, tal qual ocorrerá com todos os pontos que selecionei como mais importantes da década. Que comecem as ponderações!

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

The man, the myth and The Stan Lee

By Gabriel Guimarães

Usually I don’t write my articles here in English but I will make an exception just in case my project to honor one of the comic book professionals I admire the most come true. I’m delighted to bring you a piece of my mind about the astonishing gentleman that is mr. Stan Lee.

I’m 100% sure to say that if it wasn’t for his excellent work maybe today I wouldn’t have achieved all the projection in the comic books world that I did so far. From his pen came most of Marvel’s most beloved characters and most of all, came sensitivity and humanity to super hero comics. His revolution in the industry in the 1960s is still remembered as one of the most important moments in the history of comic books all over the planet, and after it comics were never the same again.

By making real live human beings in flesh, bones and feelings behind the masks of the crime fighters, Stan brought the reader into the story and made him the greatest protagonist of his own private world of adventures, which could go from fighting Dr. Octopus on the top of the Empire State building to running across the whole city to buy Aunt May’s medication that is the only thing that could keep her alive. Stan made us truly believe that man could fly, either by wings as the original X-man Angel or by web as the spectacular Spidey.

Knowing this or not, we were all influenced by this man’s work. Either through our childhood, either through our defying teenage years, either through those difficult moments during our transition to become adults, Stan was there for us – in paper pages, films on the television and in our most intense memories.

No, he didn’t do this all by himself, there were a lot of hands helping him give birth to this whole universe of wonders (or marvels, if you may). Jack Kirby, Steve Ditko, John Buscema, John Romita Sr., among dozens, are only a few of the gold-handed artists that made a dynamic duo whit this legendary creator (I know that this expression comes from Marvel’s biggest competitor but I’m taking freedom of speech to use this in my article as a neutral reference).

Well, to put in a nutshell, this man is one of the greatest inspiration fonts for anyone that wants to become a comic book professional, no matter what would the function of this person be in the enormous process of comics production. And it’s no surprise to say that mr. Stan Lee is known as the most kindest man anyone could ever know. So, when you feel like taking a time to understand what emotions rule our fate or where to regain strength in the middle of an unending battle through life, don’t forget: You can always depend on the heart of this man’s characters. Either they’re standing on top of the world on a silver surfboard or upside-down on the Statue of Liberty torch, you can always count on these Stan Lee’s alter egos. After all, in the centre of all this, he is each and every one of them and, still, none of them at all. That’s the man, that’s the myth, that’s The Stan Lee.


EXCELSIOR!

sábado, 18 de dezembro de 2010

A Miscelânia de Culturas e o Contato entre as Identidades nas Obras do Corto Maltese

Por Gabriel Guimarães

Histórias em Quadrinhos como agregador cultural:


Desde seus primórdios como meio de comunicação de massa, as histórias em quadrinhos demonstraram ser um ambiente onde o contato entre as diferentes culturas é abordado de forma essencial. Na história em quadrinhos que é até hoje considerada oficialmente como a primeira com a finalidade de atingir os grandes públicos, “Down Hogan’s Alley”, publicada no jornal New York World, narrava a história de um garoto de origem asiática (posteriormente chamado de Yellow Kid) que mora nos bairros mais pobres de Nova York, dando destaque à enorme quantidade de culturas da qual a cultura norte-americana se constituiu no começo do século XX.

Seu autor, Richard Outcault, também foi o responsável por introduzir o balão de fala nas histórias e pelo cunho dado ao jornalismo de imprensa amarela, advindo da sua transferência junto de seu personagem mais conhecido do jornal onde fora lançado para um outro concorrente, sendo que ambos permaneceram produzindo conteúdo, com autores diferentes para um mesmo elenco de personagens, o que levou alguns críticos da época a atacar os jornais de só quererem vender jornal e não de entreter de forma responsável o público. Apesar disso tudo, a alta popularidade da história inventada por Outcault demonstrava que o povo americano era de fato uma mistura de diversas culturas, provenientes de vários lugares do mundo, e que se sentiam relacionados de alguma forma àquelas narrativas inter-étnicas e inter-culturais.

Conforme o tempo passou, as histórias em quadrinhos foram se dividindo em diversos gêneros com seus públicos-alvo se ramificando em nichos, ainda que muito superficialmente no começo, entretanto, sempre era possível perceber que as diferenças cultuais eram um tema tratado com uma delicadeza particular. Os alemães e chineses nos quadrinhos da Marvel, DC e Fawcett comics durante a Segunda Guerra Mundial e por um considerável período de tempo depois; os muitos países visitados pelo personagem Tintin, do belga Hergé, que mostravam muitas vezes apenas uma caricatura do que alguém de fora vê ao invés de uma versão inteiramente realista dos habitantes daqueles lugares; o vilão de aparência asiática nos quadrinhos de Flash Gordon, do talentoso artista Alex Raymond; entre muitos outros.

O continente africano, então, é um grande exemplo disso. Apresentado inicialmente pelo personagem Tarzan e depois pelo igualmente heróico Fantasma, os cenários eram sempre retratados de uma forma misteriosa, como uma terra abundante de seres diferentes dos de qualquer outra região do globo e cujo povo andava sempre junto, em tribos fechadas com seus rituais característicos. Nos quadrinhos de Tintin, a diferença entre a civilização européia e a africana, já por outro lado, marcou algo que foi muito debatido nos centros de discussão da nona arte: sobre o predomínio cultural entre os países e as influências nessa percepção do período colonialista em que os países africanos passaram sob controle de uma cultura diferente da deles.

Destoando da forma espetacularizada com que era tratada a África, eis que na década de 1970 surge um personagem que a olhou nos seus olhos mais reais, como uma cultura diferente que merece ser igualmente respeitada. Corto Maltese desembarcou nos cenários selvagens para mostrar que há mais do que simplesmente mistério naquele continente, há histórias e experiências de vida únicas que merecem ser conhecidas. E tudo isso com certeza veio da influência que seu talentoso autor Hugo Pratt sofreu de suas viagens ao redor do mundo, o que lhe pôs em contato com as mais diversas culturas e etnias, expandindo sua visão de mundo e de vida.

Base cultural do autor Hugo Pratt:

Nascido num pequeno povoado próximo à cidade de Rimini, na Itália, Hugo Pratt não passou muito tempo fixo em um local só, o que lhe permitiu expandir de forma incrível seu entendimento de termos como cultura e comunicação. Logo aos dez anos, se mudou com sua família para a Etiópia, ainda chamada na época de Abissínia, quando seu pai teve a oportunidade de se tornar chefe de estaleiro de uma estrada em construção que ia de Assab a Dessié. Para Pratt, a experiência de deixar Veneza, onde já estava morando com sua mãe, para ir para a África foi, nas suas próprias palavras, “uma grande aventura”, e suas recordações da viagem de barco permaneceram vivas em sua mente pelo resto de sua vida.

Passando a morar na Etiópia, Pratt se viu completamente maravilhado com os cenários que via pela frente, preenchendo vários cadernos com desenhos do que via, uma vez que não possuía uma máquina fotográfica para gravar as imagens de forma definitiva. Sua memória gráfica se revelou uma das principais ferramentas que usou na sua carreira de artista, reproduzindo em várias obras ao longo de sua vida cenas específicas que testemunhou nesse período de tempo, como a relação dos ingleses, escoceses e demais europeus com o povo africano. Somente com dezesseis anos é que Pratt retorna à Itália, mas sem jamais ter esquecido a vida peculiar que levou no continente africano.

Passando por um período meio tenso na Itália de Mussolini, que era envolvido com a Alemanha nazista, ele se alista a contra-gosto no exército que dava apoio ao alemão, porém, consegue fugir após três semanas de serviço. Aos vinte anos, dava suas escapadas de Veneza, viajando bastante. Em 1947, visita uma outra série de países, dentre os quais Áustria, Inglaterra e França, até que, em 1949, um editor também italiano instalado em Buenos Aires o convida para trabalhar com ele, César Civita, com quem trabalharia por treze anos.

Uma vez na América, começa a entrar em contato com as diversas culturas abaixo da linha do Equador que influenciariam dúzias de histórias suas. Dentre essas culturas, encontrava-se a brasileira. Curiosamente, o editor que o empregou na Argentina era irmão do editor que fundou a Editora Abril no Brasil, Victor Civita.

Depois, regressa para a Itália em 1962, quando começou a colaborar com a revista de contos infantis il Corrieri dei Piccoli. Em 1967, conhece o artista Florenzo Ivaldi, com quem cria um personagem baseado em suas próprias características, o Sargento Kirk, primeiramente escrito por Héctor Oesterfield, ambientada na Guerra de Secessão norte-americana. Na primeira edição da revista, lança aquele que viria a ser seu mais famoso personagem, o marinheiro Corto Maltese.

A partir de 1970, passa a se dedicar exclusivamente às histórias de Corto, utilizando como referência todas as culturas e experiências que conheceu na sua vida de eterno viajante, conseguindo uma sólida reputação nos fumetti italianos (como os quadrinhos são conhecidos lá) e conquistando consagração internacional.

Corto Maltese e o relacionamento inter-cultural:



Tendo sido criado nos moldes dos personagens de autores de muito renome internacional, como Joseph Conrad, Stevenson e Hermann Melville, Corto Maltese demonstra um caráter particular muito distinto.

Sempre com a figura de um viajante incurável, nômade por natureza, Corto é em si mesmo uma figura que representa o acúmulo de culturas diferentes, uma vez que é filho de uma cigana de Gibraltar e um oficial da marinha britânica, e por toda a sua vida nunca parou por muito tempo em um lugar, estando sempre em movimento, em transição.

Como afirmam os estudiosos da nona arte, Carlos Patati e Flávio Braga, “na obra de Hugo Pratt, assim, realiza-se o maior projeto de comunidade e renovação dos quadrinhos de aventura”, pois Corto integra-se como habitante do mundo, sem fronteiras as quais obedecer, sem uma nação específica que lhe motive as ações ou lhe diga o que fazer.

Indagado sobre se o seu personagem e ele seriam a mesma pessoa, Hugo Pratt foge dizendo que há elementos sim com que ele se relaciona com seu personagem ficcional, porém infelizmente se trata mais de um agregado de eventos e experiências do que alguém individual. Afirma, porém, que ele pode ser encontrado em qualquer porto no litoral da América do Sul, cheio de histórias para contar (entrevista concedida pelo autor ao repórter Claude Moliterni que pode ser encontrada na introdução do livro “Corto Maltese – Sempre um pouco mais distante”, 2006).

Corto Maltese é, portanto, todos do mundo e ao mesmo tempo, ninguém, também. Seu destino está no vento, no mar, nas suas eternas desventuras sem limite de espaço, tempo ou cultura.

Casos específicos:

Tomemos como exemplo do relacionamento inter-cultural nas obras do Corto Maltese as histórias “Conga das bananas”, contido no livro “Corto Maltese – Sempre um pouco mais distante”, e “O Golpe de Misericórdia”, do livro “Corto Maltese – As Etiópicas”.

No primeiro caso, a história retrata o conflito no território hondurenho entre a união dos estados do norte (no caso, os Estados Unidos da América) e a população local, na época em que começavam a ser realizadas greves nas fábricas de banana. Em decorrência da Primeira Guerra Mundial, o preço das bananas entra em queda e a taxa de exportação começa a cair, o que leva a população de Honduras a se revoltar, começando a organizar greves nas indústrias fruticultoras.

A primeira greve que caracterizou esse momento se deu precisamente em 1917, contra a companhia de frutas Cuaymel, que foi severamente punida pelo próprio exército de Honduras. Em 1920, uma greve geral na costa do Caribe levou os Estados Unidos a reagirem de forma bruta, despachando navios de combate para a região. Em resposta, o governo do país sul-americano começar a repreender de forma mais firme os líderes locais dessas rebeliões.

Na obra de Pratt, Corto Maltese se vê acidentalmente no meio de um jogo de interesses políticos em conflito indireto. Mais interessados em conseguir dinheiro do que em proteger qualquer ideal, tanto os oficiais do norte quanto aventureiros da própria região lutam num vai-e-vem de interesses, sempre escondendo suas reais intenções.

É só na figura de Boca Dourada, antiga conhecida de Corto de quando ele estava na Bahia, que se encontra alguma firmeza de interesse, que vai além do dinheiro, mas sim no cuidado de seu povo, que ela diz, ao final, ter vencido a guerra das bananas.

A comunicação entre os defensores do norte e os defensores do povo de Honduras se dá de forma falsa, no sentido que os primeiros fingem querer proteger os habitantes da região que tenham descendência da mesma região de origem deles, quando na verdade, buscam apenas uma forma de manter uma fonte de lucro com o comércio da região. Acredito que eles buscam uma razão para não saírem da região pois os Estados Unidos havia mandado que regressassem ao solo americano por causa do ingresso na Primeira Grande Guerra, em 1917, porém, isso não é confirmado claramente.

Na segunda história, numa das obras mais aclamadas do personagem pela crítica internacional, Corto Maltese se vê, no capítulo em questão, “O Golpe de Misericórdia”, no meio do conflito entre um oficial britânico e o xeque somali que reuniu os dervixes contra os colonizadores ‘infiéis’, Mohammed Bin Abdullah Hassan, conhecido pelos ingleses pelo apelido de Mad Mullah.

Entretanto, uma das figuras mais significativas para o contexto histórico-político-religioso-cultural da história é, na verdade, um dos ajudantes de Corto, o nômade Cush, cujo nome, em si só, já representa uma referência à sua raça: os cuchitas. Tal qual Corto, Cush é um andarilho sem casa ou destino, porém, diferente do marinheiro europeu, é fiel ao mulá, à lei do Corão, e a luta de seu povo pela liberdade. Seu conflito com o oficial britânico na história, o capitão Bradt, se dá justamente pela intolerância do oficial com seu posicionamento.

Agindo de forma intransigente, o oficial Bradt sela seu próprio destino ao desrespeitar o que Cush defende. Cush leva, então, a punição ao oficial, retornando à base comandada por Bradt depois de ter sido expulso de lá, mas desta vez na companhia dos guerreiros do mulá.

Corto se posiciona de forma isolada na história, mais observando o desenrolar dos eventos sem reagir fisicamente ao que ocorre, apenas lutando por sua própria sobrevivência, tomando uma atitude quanto à questão principal do capítulo apenas no seu final, realizando aquilo que o título da história entrega, tirando a vida de Bradt para preveni-lo de uma morte mais sofrida amarrado no centro de uma fogueira imensa.

Conclusão:


As histórias de Corto Maltese possuem um teor de narrativa da comunicação cultural num parâmetro dificilmente encontrado em outras obras. Tal qual o marinheiro Marlow, na obra “No Coração das Trevas”, de Joseph Conrad, Corto observa tudo que lhe acontece de uma posição particular, sem ser guiado por ideologias fechadas e/ou nacionalistas. Ambos não tem nação mental, são integrantes do mundo como um todo, prezam pelo ser humano e não põem uma cultura sobre a outra, apenas transitam entre aquelas a que são apresentados. Marlow, após sua experiência no coração do Congo, passa a refletir sobre o que é ser humano, o equilíbrio entre a civilidade e a selvageria que constituem o ser. Da mesma forma, Corto vê a vida sem prejulgar se uma nação está mais certa que a outra, se uma cultura é superior à outra, mas vê a preservação da vida em si como algo a ser zelado, contanto que isso não lhe prejudique, pois tal qual Marlow, ambos são capazes de matar quem quer que lhes ameace para poderem se salvar.

Sendo ambos personagens criados por escritores com experiência de vida real nos locais onde viajaram na ficção, é perceptível o tom naufrago de suas vidas num mundo em contínuo movimento, sendo guiados pelas ondas dos interesses coletivos e pessoais do restante do mundo, mas cuja embarcação está sempre sob seu comando, com a nau nas mãos de marinheiros da vida experientes e imparciais, rumo sempre ao horizonte inatingível, recheando páginas e páginas com histórias de suas jornadas pelo caminho.

Bibliografia:

http://www.omelete.com.br/

http://www.universohq.com.br/

http://quadrinhospraquemgosta.blogspot.com/

http://en.wikipedia.org/wiki/History_of_Honduras_(1838%E2%80%931932)

http://en.wikipedia.org/wiki/Hugo_Pratt

PRAT, Grégoire. “Corto Maltese et sés crimes”. Editora Hobay, França, 2005.

PRATT, Hugo. “Corto Maltese – Sempre um pouco mais distante”. Editora Pixel, 2006.

____________. “Corto Maltese – As Etópicas”. Editora Pixel, 2008.

PETITFAUX, Dominique. “Hugo Pratt – O desejo de ser inútil”. Editora Relógio D’Água, 2005.

MOYA, Álvaro de. “Vapt-Vupt”. Editora Clemente & Gramani Editora, 2003.

QUILLIEN, Christophe. “Le Guide dês 100 Bandes Dessinées Incontournables”. Editora Librio Inédit, 2009.

FEIJÓ, Mário. “Quadrinhos em Ação – Um Século de Histórias”. Editora Moderna, 1997.

VERGUEIRO, Waldomiro e RAMOS, Paulo. “Quadrinhos na Educação”. Editora Contexto, 2009.

DUC. “L’Art de La BD volume 1 – Du scenário à la réalisation”. Editora Glénat, 1982.

WALKER, Brian. “The comics before 1945”. Editora Harry N. Abrams, Incorporated Publishers, 2004.

IANNONE, Leila Rentroia e IANNONE, Roberto Antonio. “O Mundo das Histórias em Quadrinhos”. Editora Moderna, 5ª edição, 1996.

GOIDA. “Enciclopédia dos Quadrinhos”. Editora L&PM, 1990.

PATATI, Carlos e BRAGA, Flávio. “Almanaque dos Quadrinhos”. Editora Ediouro, 2006.

CALVINO, Italo. “Por que ler os clássicos”. Editora Companhia de Bolso, 2009.

CONRAD, Joseph. “No Coração das Trevas”. Editora Hedra, 2008.

JUNIOR, Gonçalo. “O Homem Abril”. Editora Opera Graphica, 2005.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

"Nós" na HQMix

Por Gabriel Guimarães
Neste sábado, dia 4 de dezembro, estará sendo realizado na HQMix, loja especializada em quadrinhos de São Paulo, o lançamento da história em quadrinhos "Nós - Dream Sequence Revisited", do quadrinista Mario Cau, pela editora Balão Editorial.


Com sua característica particular de narrar a história usando os desenhos e a alternância da espessura do traço, Mario Cau é um dos bons quadrinistas que vim a conhecer na Rio Comicon, e esse trabalho dele, que acompanha um DVD com a versão motion comic da história, vale muito a pena, pois se trata de uma proposta ótima para os quadrinhos como forma de arte e suas possibilidades de abordagem.
O autor e vários outros profissionais da área estarão na Praça Roosevelt, 142, São Paulo/SP a partir das 19h, e a minha dica é que vale muito a pena conferir.

domingo, 21 de novembro de 2010

Prevendo uma Noite bem Densa para o Filme do Lanterna Verde

Por Gabriel Guimarães
Essa semana foi liberado o primeiro trailer para o filme do Lanterna Verde que estreará nos cinemas ao redor do mundo ano que vem. Com Ryan Reynolds no papel principal do piloto de testes Hal Jordan e Blake Lively no papel da sua chefa e par romântico Carol Ferris, muito se fala da produção desse filme já há algum tempo.

Pois bem, o resumo dos fatos está aí, agora, quanto à opinião: A escolha de elenco foi fraca, procurou-se mais nome do que habilidade ou qualquer semelhança com os personagens originais. Ryan Reynolds, no máximo, daria um bom Kyle Rayner, pois ele não parece físicamente com o maior dos Lanternas Verdes, e sua própria personalidade está muito mais próxima de um Deadpool ou de um Guy Gardner do que de um Hal. Blake Lively também não demonstra ter o pulso firme que Carol Ferris demonstra nos quadrinhos, basta que se veja sua primeira aparição no trailer para perceber.
O trailer, a meu ver, já mostrou que o filme deve ser muito fraco, o que é uma grande decepção, uma vez que sou um grande fã do gladiador esmeralda há anos. Num clíma de sessão da tarde sem animar muito com história e efeitos especiais, não me empolguei em nada para assistir o filme nas telonas. Entretanto, como sei que não devemos julgar um livro pela capa, ou um filme por um trailer, vou assisti-lo inteiro quando tiver estreado e postarei a resenha aqui.
Enquanto isso, resta-nos torcer que, tal qual Robert Downey Jr. surpreendeu no papel de Tony Stark, também assim o elenco desse filme o faça, porque se não, a DC estará perdendo uma de suas franquias que poderia dar mais certo, com certeza.
Esperemos pelo dia mais claro para essa produção.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

RIO COMICON, BABY!!! - EPÍLOGO

Por Gabriel Guimarães
Hoje foi o primeiro dia depois do grande evento das histórias em quadrinhos que transformou a cidade do Rio de Janeiro num sonho tornado real. Fosse pelo entrosamento entre todos os quadrinistas e fãs, ou pelo ambiente propício para a criação encontrado nas oficinas, ou as grandes figuras e palavras que estiveram presentes nas palestras e debates, esse evento ficou marcado em todos que estiveram lá, e não será esquecido com tanta facilidade.
Os contatos e amizades que foram formados lá permanecerão, e com certeza, serão fortalecidos com o contato seja pessoal ou pelos meios eletrônicos. Eu, no caso, fiz grandes amizades. Além dos quadrinistas que já mencionei aqui no diário do evento, com quem falei um a um praticamente, também houveram muitas outras pessoas que cativaram com seu jeito confiável e amistoso. O editor Guilherme Krol, da editora Balão Editorial, por exemplo, foi um dos que me recebeu de forma cordial e amistosa no evento, e com quem eu certamente manterei amizade. O quadrinista Danilo Beyruth demonstrou ser um profissional de extrema disponibilidade para o público, e cujo relacionamento com as pessoas que estavam no evento vale uma nota aqui também.
O que estou querendo expôr aqui nesse post é isso: as amizades e laços que foram criados lá não têm que terminar simplesmente porque o evento terminou. Não. Não deixem esfriar a sensação de complitude que estar lá na Estação Leopoldina lhes deu, não esqueçam de imediato todos os sorrisos e situações incríveis que vocês viveram nessa semana. Enquanto essas memórias estiverem vivas em nós, o evento terá cumprido seu objetivo maior: ser um dos grandes eventos da arte sequencial para o público leitor no Brasil como um todo.
Ano que vem, tenho certeza, será muito mais para se contar. Mais histórias, mais amizades, mais experiências de vida. Mas nada mudará o que foi a Rio Comicon do ano de 2010: o primeiro passo.
Caminhemos juntos, em direção ao melhor. Para nós, para os quadrinhos, para o Brasil.
Obrigado pela experiência que vocês me proporcionaram, ela foi inestimável, e continuará viva em mim por toda a minha vida, não importa quanto o tempo passe.
Então, pela última vez, deixem-me dizer, que:

É RIO COMICON, BABY!!!