quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Concorrência nos Quadrinhos

Por Gabriel Guimarães

Qualquer que seja o produto a ser analisado, todos os especialistas chegam a uma conclusão invariável: é necessário a concorrência para que o produto seja percebido, de fato, pelo público. As marcas são construídas especificamente para que o consumidor X compre o produto com aquele símbolo único e não aquele com um símbolo diferente.
A indústria de quadrinhos demonstra não ser em nada diferente dessa máxima dos negócios. Para que o consumidor seja atraído a comprar a revista X ao invés da revista Y, a possuidora dos direitos referentes à publicação da primeira tomará atitudes para: ou elevar sua marca demonstrando sua respeitabilidade, seu grau de consciência ecológico e social, seu maior apreço com o leitor, seu baixo custo de aquisição, etc; ou depreciar o concorrente, a fim de criar uma sensação de que o público pode escolher qual produto vai comprar, mas se quiser um produto de qualidade, tem que ser o da marca X (no caso, gerando uma ilusão de liberdade de consumo).
Desde que os quadrinhos começaram como meio de comunicação de massa, há mais de um século, essa posição relativa ao marketing entre as editoras tem sido algo que vale ser notado e estudado com um certo grau de atenção. Muitos dos grandes casos foram e ainda são, inclusive, casos de tribunal de justiça, onde um autor ou editora luta pelos direitos sobre um personagem publicado por outra editora. Vide os casos do Capitão Marvel (caso DC comics x Fawcett comics) e Superman (caso herdeiros de Jerry Siegel e Joe Shuster x DC comics). Mas uma das recentes movimentações no mercado quadrinístico tem me chamado a atenção para as novas dimensões que a concorrência tem partido.

A DC comics abocanhou uma boa fatia das vendas de quadrinhos no mundo todo com a mais recente megassaga de seus heróis centrada no personagem que em breve estará nas telas de cinema, Lanterna Verde, com a história A Noite Mais Densa. Esse fato, logicamente, provocou  preocupação à Marvel, que se viu perdendo território. Quando outrora numa situação dessas, a Marvel responderia de cabeça erguida, sem dever nada a ninguém, publicando histórias de alto nível e refinada qualidade, a editora (hoje mais para empresa multimídia que mera editora de quadrinhos, na verdade) respondeu de uma forma que chocou muitos dos estudiosos do meio e até alguns artistas: prometeu premiar com uma edição de uma revista especial com capas alterntativas exclusivas os donos de comic shops que enviassem para a sede da Casa das Ideias 50 capas das edições da minissérie da DC rasgadas, sem o restante da edição. Isso é uma depredação de tudo aquilo que uma revista em quadrinhos deveria simbolizar. Nós lemos as histórias dessas editoras para podermos ir além das limitações físicas e sensoriais que temos nas nossas vidas corriqueiras, para estarmos em sintonia com um universo que, muitas vezes diferente do nosso, funciona com uma certa lógica e sem tanta burocracia estúpida.
Sou leitor assíduo tanto da Casa das Ideias, que no passado abrigou o mestre Stan Lee, quanto da editora DC, orquestrada de forma precisa por grandes profissionais como Dick Giordano. Concordo que é preciso a concorrência das duas para que não haja muita perda de qualidade em relação ao que é publicado, uma vez que se só houvesse uma editora no ramo, esta não precisaria se preocupar de perder o cliente para outra fornecedora desse meio de comunicação e, portanto, não primaria pela qualidade de suas histórias, porém, acho um absurdo chegar a esse ponto da violência contra o meio que ambas tratam em si.
Sei que esse tema já foi debatido alguns meses atrás quando estava mais em evidência que agora, porém, senti-me motivado a escrever sobre ele ao saber sobre o que seria o próximo grande evento Marvel.

--Alerta de SPOILER--

A saga Chaos War será marcada pelo retorno de muitos personagens falecidos no universo Marvel ao reino dos vivos, o que obviamente, gerou muitas críticas de plágio da história A Noite Mais Densa, da DC. Partindo de um ponto que infelizmente se tornou praxe no mercado de quadrinhos desde a década de 1990, a Marvel utiliza da regra de que 'as edições com morte de personagens vendem bem, e o seu retorno mais ainda' para usar e abusar de algo que deveria ser um grande diferencial no universo dos personagens de quadrinhos. Vou ponderar sobre esse tema da morte corriqueira em uma matéria voltada precisamente para isso, mas por agora, ponho na mesa o debate de: onde foi parar os parâmetros da concorrência?
Numa situação que poderia render frutos tanto para o público quanto para a nona arte em si, que seria impulsionada pelos profissionais envolvidos na produção de histórias a ir além do padrão, criando momentos que ficariam eternizados nas mentes e nas vidas dos leitores, as editoras têm se mostrado arredias, sem coragem de arriscar coisas novas, partindo para uma estratégia contra a cordialidade e reconhecimento de que ambas estão lutando por um mercado maior, que precisa ser lembrado de seus pontos positivos constantemente para não ser discriminado pela maioria, as histórias em quadrinhos.

Recentemente, o nível dos quadrinhos, os quais muitos estão indo para as grandes salas de cinema do mundo todo, tem sido analisado por psicólogos e sociólogos como más influências para os mais jovens. Isso te lembra alguma coisa? Essa discussão existe desde que os quadrinhos se expandiram e se tornaram integrantes fixos dos lares americanos, e, apesar de muitas vezes no passado, ter usado de argumentos fundados em histórias conscientes e inteligentes que eram publicadas aos montes, hoje há uma quantidade ínfima de exemplos para provar o contrário do que esses estudiosos propõem novamente trazer de volta à julgamento. Não podemos deixar que surjam novos Frederic Werthams, mas sim que hajam mais e mais exemplos de que este, que foi o maior crítico da arte sequencial, estava completamente errado nas suas conclusões.
Ponderemos então em que direção os quadrinhos estão indo, e percebamos que se não nos unirmos e realmente empenharmo-nos na busca por não apenas uma história, mas sim um padrão de qualidade mais elevado para os dias vindouros, não haverá sequer um amanhã pelo qual as grandes editoras tanto degladiarem. Há coisas maiores do que apenas a concorrência entre marcas neste caso, e a sobrevivência desse meio de comunicação é uma delas.

Referências:
BRETON, Phillipe. A Manipulação da Palavra, 1999. Editora Loyola.
http://www.omelete.com.br/quadrinhos/chaos-war-nova-saga-da-marvel-vai-ressuscitar-herois-da-editora/
http://www.universohq.com/quadrinhos/2010/n20082010_05.cfm

sábado, 21 de agosto de 2010

A Marvel e o Novo Mercado Digital


 Por Gabriel Guimarães
 Com a revolução dos suportes de leitura digital, não apenas as editoras de livros tiveram que passar por uma repaginada como também a indústria de revistas, tanto de conteúdo geral quanto de histórias em quadrinhos.
Passando a lidar com um aparelho de logística multimídia, editoras como a responsável pela publicação da revista de informática Wired perceberam a necessidade de mesclar o conteúdo escrito das matérias com outras formas de interface, como vídeos, sons e formas de adaptar o formato para a leitura no suporte em pé ou deitado. Uma vez que a indústria de quadrinhos já é multimídia em si mesma, já que é uma mescla de conteúdo semiológico com escrito, as editoras de quadrinhos têm tido que repensar em toda a sua linha de produção para tornar seu produto final igualmente atraente aos olhos de um leitor da nova era digital.
Quem comprou a primeira briga com o aparelho foi uma das gigantes do meio, a Marvel Comics, editora que tem ficado cada vez mais em destaque na mídia pelas suas mega-produções cinematográficas e pela compra majoritária de suas ações pela Disney ano passado. Alegando que suas histórias digitalizadas previamente ao lançamento do iPad para o site Marvel Digital Comics terem sido feitas no dispositivo Flash e este não ser compatível com o novo aparelho de leitura, ela se opôs à nova tecnologia.
Entretanto, poucos meses depois, a Marvel surpreendeu a todos ao lançar seu próprio aplicativo para o iPad, produzido pela Comixology, empresa responsável pela produção dos aplicativos de leitura de histórias em quadrinhos para celulares como o iPhone. Logo de início, ela anunciou centenas de revistas, desde artigos dos arquivos da editora aos mais recentes lançamentos nas lojas, muitas com novo acabamento e adaptadas ao novo modo de leitura.
Mais algum tempo depois, um novo passo foi dado pela editora: publicar uma revista impressa e digital simultaneamente. A edição de Invincible Iron Man #1 ficou marcada como teste para toda uma nova gama de possibilidades que o novo mercado possibilita, como a venda em termos internacionais imediatos, considerando que a edição digital pode ser adquirido por qualquer usuário do tablet ao redor do mundo.
Uma questão, então, fez-se relevante: o preço da edição. Enquanto a edição impressa custava U$4,99, a versão online encontrava-se divida em três partes, cada uma a U$1,99, o que tornaria o produto final mais caro. Como trata-se de um experimento recente, não se sabe ainda exatamente como o mercado reagiu a isso, porém, a grande a concorrente da Marvel, a DC Comics anunciou pouco tempo depois que lançaria também seu aplicativo para iPad, produzido pela mesma empresa que a Marvel, com edições da mini-série Justice League: Generation Lost simultaneamente impressa e digital, ao mesmo preço, U$2,99 cada.
O futuro parece guardar muitos desdobramentos ainda sobre a forma de trabalhar com os quadrinhos, e, notadamente, eles dependerão das reações do público consumidor dos mesmos, característico pela continuidade de consumo desse material por muitos e muitos anos. A forma desse público se comunicar entre si traz a tona o que o estudioso dos livros Robert Darnton destacou no que tange ao uso dos blogs como criadores de notícias, que assumem muitas vezes dimensões mais reais que a realidade que encontramos bem diante de nós. Blogs como Comics Should Be Good, Bleeding Cool, Newsrama, e os brasileiros Omelete e Universo HQ representam relativamente bem que a percepção de um formador de opinião pode ter enormes repercussões internamente no mercado.
A disposição do mercado é o que vai fazer realmente a balança pender para um dos lados, a permanência no formato impresso ou a nova aposta tecnológica. Encabeçada por grandes editores do setor de comunicação e desenvolvimento das editoras, como Joe Quesada (Marvel) e Jim Lee (DC), o futuro deste novo modelo ainda está por ser escrito. Cabe agora a eles um momento de reflexão e planejamento focado nas potencialidades e possibilidades do fantástico novo mundo digital.
Como Umberto Eco destacou, a cultura trata-se de um cemitério de livros e objetos desaparecidos para sempre, e é nossa função saber o que deve ser mantido e o que ser descartado, para permitir que sigamos adiante, numa trilha guiada pelo senso de evolução. Este é o momento onde os profissionais da área devem se mobilizar para analisar metodicamente o que pode surgir no dia do amanhã da maneira mais positiva possível.
A Marvel, foco principal dessa minha análise, tem uma estratégia que pode mudar muito a forma com que o mercado editorial de histórias em quadrinhos funciona há décadas. Ela propôs o pagamento de royalties aos artistas envolvidos no processo de criação do produto, algo que nunca antes havia sido vislumbrado. Muitos autores, inclusive, lutaram por isso tem muito tempo, porém suas esperanças eram ínfimas. Esse novo vislumbre de relação interna ao meio pode fazer uma considerável diferença nas ponderações finais da adoção do modelo digital.
Afinal, podemos falar o que quisermos, porém apenas o futuro ditará os rumos que serão necessários tomar para que as editoras possam sempre contar com aquilo de que mais essencialmente dependem, o cliente.

Bibliografia:
DARNTON, Robert. A Questão do Livro, editora Companhia das Letras, 2010.
ECO, Umberto e CARRIÈRE, Jean-Claude. Não Contem com o Fim do Livro, editora Record, 2010.
MENDO, Anselmo Gimenez. Histórias em Quadrinhos – Impresso vs. WEB, editora UNESP, 2008.
GOSCIOLA, Vicente. Roteiro para as Novas Mídias – Do Cinema às Mídias Interativas, 2003. Editora SENAC São Paulo, 2ª edição, 2008.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Concurso Artístico de um de Nossos Parceiros de Quadrinhos

 Por Gabriel Guimarães
O blog Freexpressionanquim abriu recentemente um concurso artístico com um dos temas que voltou a ficar em evidência nos últimos tempos, tanto nas mídias impressas quanto nas digitais, a obra clássica de Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas.

Dando como prêmio as quatro edições da Turma da Mônica Jovem que abordam a obra em si, o concurso permite inscrição tanto de fotos, desenhos e fotomontagem. Os interessados devem enviar suas imagens até o dia 31 de julho. Conforme as imagens forem sendo recebidas pelo dono no blog, ele as postará no blog, o que ainda rende uma boa divulgação do material de quem desenha e quer começar a mostrar seu estilo de traço. Para enviar seu material, é só mandar sua arte da Alice para freexpressionanquin@gmail.com, com assunto do email "Alice" e no corpo do email, seu nome completo

A escolha do vencedor será feita através dos próprios leitores do blog, que manifestarão seus favoritos.  O vencedor receberá seu prêmio na comodidade do seu lar, sem custos de fretagem.

Vale a pena participar. =)

domingo, 30 de maio de 2010

Eles Estão Escalados Para Tornar Nossos Sonhos Reais

Por Gabriel Guimarães

Essa semana foi anunciado o ator que fará o papel do novo professor Xavier no cinema, e não é ninguém menos que alguém que já trabalhou em outra adaptação de quadrinhos para a telona no filme “O Procurado”, o ator escocês James McAvoy. Não tenho absolutamente nada contra ele, porém isso me fez começar a tentar entender como o processo de formação do elenco principal dos filmes é importante.


A escalação do elenco certo pode muitas vezes ser o maior diferencial entre um filme de sucesso e um fracasso, e parece que alguns produtores ainda não perceberam isso tão claramente. Enquanto posso mencionar Hugh Jackman, Robert Downey Jr. e Tobey Maguire como atores que surpreenderam no papel de heróis e se tornaram a forma física com que todos olhamos para esses personagens hoje, há uma lista impressionante de atuações que marcaram os filmes de heróis de maneira negativa. Basta recordar Ben Affleck em Demolidor (2004), Halle Barry em Mulher-Gato (2004), Nicholas Cage em Motoqueiro Fantasma (2007) e Gabriel Macht em Spirit (2008).

Então, me pergunto, será que os atuais escalados ou pré-escalados para os próximos filmes de adaptação dos quadrinhos farão parte do primeiro grupo mencionado ou lutarão para serem esquecidos por sua atuação como os demais?

Alguns são ainda excelentes atores e atrizes e podem vir a surpreender, mas causam muito receio por sua fisiologia e/ou jeito de agir diferentes dos personagens das HQs, como é o caso de Ryan Reynolds, que ficou perfeito pelo seu perfil físico e psicológico no papel de Deadpool no sofrível filme solo do Wolverine, mas que em nada se assemelha a Hal Jordan, o principal Lanterna Verde dos quadrinhos que será o personagem central do filme que estreará em 2011. Como fã confesso do gladiador esmeralda, admito que fiquei muitíssimo temeroso pelo rumo que o filme vai ter, ainda que o elenco de bastidores seja de primeira linha. Assomando-se ao intérprete de Jordan, surge outra fonte de questionamento no filme, Blake Lively como Carrol Ferris. A atriz principal de Gossip Girl não me parece lembrar nem de longe a Carrol Ferris marcante e responsável do universo DC. Mas foi como disse antes, podem surpreender, e é o que eu sinceramente espero.

Chris Evans como Capitão América, os cinco candidatos a serem o novo Homem-Aranha no reboot das filmagens do cabeça-chave da Marvel, dentre outros, ainda geram muitas incertezas no público que mais conhece as obras originais.

Espero que, tal qual no universo dos quadrinhos, nossa força de vontade, que é o que alimenta a bateria econômica das grandes empresas de quadrinhos quando compramos as revistas e vamos ao cinema assistir aos filmes, seja grande o suficiente para que em caso de os critérios para a escolha de elencos permanecer a mesma para os filmes futuros, que os atores e atrizes escolhidos venham sinceramente a nos surpreender e honrar os personagens que inflamam em nossas memórias há tantas décadas.



Links relacionados:
http://www.omelete.com.br/cinema/filme-do-lanterna-verde-contrata-sua-carol-ferris/

http://www.omelete.com.br/cinema/anunciado-o-ator-que-vai-ser-o-lanterna-verde-nos-cinemas/

http://universohq.com/quadrinhos/2010/n28052010_10.cfm

http://cinemacomrapadura.com.br/livros/161788/conheca-os-cinco-candidatos-ao-papel-de-homem-aranha/

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Nerd Empire Rise

Por Gabriel Guimarães

Semana que vem, no dia 25 de maio de 2010 será realizado no campus da Praia Vermelha da UFRJ o evento Dia do Orgulho Nerd com mesas de discussão sobre séries de televisão, oficinas de quadrinhos e muito mais.
Convido-os desde já a comparecerem pois será um evento muito interessante para os integrantes dessa cultura conectada que é a nossa. 

Data: 25 de maio
Endereço: Av Pasteur, 250, Botafogo – fundos – 2º andar - Praia Vermelha/RJ 
Local: Salão Muniz Aragão – Fórum de Ciência e Cultura
Mesa-redonda: “O jornalista do futuro é nerd”
Horário: 10h às 13h

Oficina de mangá

Mesa-redonda: “Metafísica em Lost, Matrix e Star Wars”
Horário: 14h às 16h

Espero-os lá, vida longa e próspera.

sábado, 10 de abril de 2010

Como Publicar Quadrinhos de Maneira Rentável no Brasil?

Por Gabriel Guimarães
Recentemente, a subsidiária brasileira da editora Panini anunciou modificações no seu modelo de publicação dos quadrinhos de heróis nas bancas de jornal, o que levantou algumas questões editoriais quanto a esse ramo que gostaria de expor aqui.

As mudanças em si são: a redução do número de páginas em desproporcionalidade com a redução do preço da maioria das revistas de série mensais; a extinção de alguns títulos da linha Marvel; e o aumento também desproporcional do número de páginas e preço de outras séries, com periodicidade bimestral. Entretanto, essas decisões levantaram alguns pontos de debate sobre a publicação do gênero no Brasil nos últimos anos.

Os números têm caído nos últimos meses, o que pode ser tanto responsabilizado pelo aumento dos preços que as revistas demonstravam, chegando aos R$7,95 atuais e a queda de qualidade do conteúdo das histórias, sendo claramente influenciado pelo uso negativo dos princípios de persuasão da mensagem, conforme Breton argumenta, em seu livro "A manipulação da palavra".
Que as histórias das linhas DC e Marvel em sua grande parte têm decrescido em termos de qualidade, não há nenhuma novidade. O que fazer sobre isso então? A Panini tem em mãos uma oportunidade que se mostrou à editora Abril, mas que não foi aproveitada na época: Iniciar a publicação de material nacional de qualidade desse ramo.

Na editora Abril de uma das gerações mais perto do fim de carreira de Carlos de Souza como um dos grandes nomes na editora, surgiu a possibilidade de serem produzidas histórias nacionais de mesmo teor qualitativo das HQs Disney americanas, que na verdade, tinham quase todo seu contingente criado aqui mesmo no território nacional brasileiro, porém a borda de diretores não tomou o risco que essa decisão poderia ter. Sem riscos, não há glória.

Hoje, a Panini tem a chance de redimir essa falta de visão editorial. A quantidade de profissionais e semi-profissionais do ramo com a habilidade, técnica e aspiração necessárias tem crescido cada vez mais, o que realmente é algo que chama a atenção no mercado atual. Há a qualidade que se procura nos roteiros americanos aqui, só se precisa saber lapidar os diamantes brutos espalhados pelo território brasileiro. Chegou o tempo da revolução dos personagens nacionais. Fiquemos atentos aos próximos passos da Panini, torcendo sempre pelo melhor.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Estratégias para Chamar Novos Leitores

Por Gabriel Guimarães
Que os quadrinhos têm que lidar com o problema de constantemente renovar o interesse dos leitores veteranos e atrair novos para manter as vendas num nível economicamente suficiente, todos nós, leitores assíduos, sabemos muito bem. Mas a questão que levanto aqui é a seguinte: até que ponto vale a pena sobrepor uma classe de consumidor ao outro?

Muitos são os casos que criam esse debate, como "Homem-Aranha: Um Novo Dia", "Turma da Mônica Jovem", "Batman: Descanse em Paz", todas as séries da Marvel Millenium e da DC All-Star, entre muitos outros.

Pois bem, comecemos nossa arguição. Há casos e casos. Os editores, ainda mais aqueles que estão envolvidos com personagens de maior escalão (termo que hoje aparenta ser advindo apenas da popularidade do personagem no momento e não da qualidade de suas histórias recentes), precisam ter consciência da importância de suas decisões para com ambos os públicos de quadrinhos.

Joe Quesada e Dan Didio são dois pilares dessa questão. Ambos foram criticados e execrados pela comunidade de quadrinhos americanos, uma vez que suas atitudes ignoraram quase que inteiramente os leitores antigos dos personagens, no caso, respectivamente, Homem-Aranha e todo o universo DC. Quesada passou por cima de um número gigantesco de leitores para projetar seu projeto individual para o futuro do escalador de paredes, literalmente apagando quase 30 anos de histórias, desde o casamento de Peter Parker e Mary Jane, chegando ao nível de trazer de volta dos mortos (algo recorrente e negativo) o antigo melhor amigo de Peter, Harry Osborn. Alvo de críticas pesadas na época, hoje é possível ver a razão de sua ação. Como foi destacado em algumas matérias sobre essa reviravolta absurda e abusiva, esse movimento trouxe fatores positivos para os quadrinhos Marvel, pois renovou o público do Aranha que não tinha tido contato com as obras de Tom DeFalco e Roger Stern numa das épocas mais marcantes do 'amigão da vizinhança'. O que, para nós, foi uma atitude completamente manipuladora pela cabeça do editor que não liga para seu público, foi na verdade algo de bom para chamar mais pessoas ao nosso amado meio de comunicação. A maneira como foi feita é que chamou tanta atenção negativamente. Os editores precisam conhecer e reconhecer que dependem de ambos os típicos leitores de quadrinhos para se manterem bem no mercado. Quesada passou por cima dos leitores veteranos, o que acarretou toda a polêmica.

Do ponto de vista das pessoas que trabalham com marketing, toda polêmica é boa, uma vez que 'falem bem ou falem mal, mas falem de mim', e as críticas e tudo o mais foram as responsáveis por pôr na mídia propaganda gratuita das séries dos personagens em questão. Um que tem se aproveitado dessa mesma estratégia de marketing ultimamente é o mais renomado autor brasileiro, Maurício de Sousa, vide os dois principais casos: Turma da Mônica Jovem e o primeiro personagem supostamente gay da Turma da Tina. Ambas foram temas de discussão em jornais e revistas e o quadrinista não precisou pagar nada para ter tamanha divulgação do seu material. Aí você vê o porquê de ele se manter sempre bem no mercado quadrinístico brasileiro essas décadas todas, Maurício tem visão de empreendedor além de puro artista.

Gostaria de discorrer mais sobre o assunto, e possivelmente talvez o faça mais tarde, mas se fosse escrever tudo que gostaria não postaria nada no blog e esse tem sido um dos problemas pelo qual a postagem de matérias tem passado.

Para terminar, quero deixar minha impressão pessoal da mais noa estratégia para atrair novos leitores da Marvel lá fora. Será criada um nova linha de produção de séries de revistas com os principais personagens da editoracujas histórias ocorrerão desconexas da linha de funcionamento geral do universo Marvel chamada 'Astonishing' ('Fabulosos'), com histórias mais reduzidas e focadas com alguns artistas renomados como Adam Kubert. O problema é: qual percepção terão os personagens para se aproximar do público. Vi recentemente a imagem da edição dos X-men dessa série pelo traço de Kaare Andrews e só fiz me perguntar uma coisa: Eles vão tranformar os X-men em emos?? Aqui vai a imagem para vocês tirarem suas próprias conclusões, mas deixo aqui o seguinte pensamento e questionamento,: Até que ponto vale a pena mudar o modo de vermos os personagens só para atrair novos leitores? Onde foi parar a identidade dos personagens, que é o que eles têm de mais importante, convenhamos?
Sempre me lembro das palavras finais de Alan Moore na sua obra máxima Watchmen,: 'Deixo inteiramente em suas mãos'. Está nas nossas mãos, nas mãos do público, motrar que não topamos mais ver histórias de enredo fraco e puramente mercadológica. Queremos mais profunidade, queremos mais qualidade, queremos mais respeito com a capacidade intelectual do leitor.
Torço muito para que a Heroic Age e o Brightest Day resgatem os bons sentimentos dos quadrinhos. A fórmula é simples (Lealdade + Novidade), basta que a sigamos à risca.