sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Feliz Natal!!!

Por Gabriel Guimarães
Caros leitores, venho aqui desejar a todos vocês um natal maravilhoso, cheio de paz, alegria, comunhão, e muitas histórias em quadrinhos de presente!
Que possamos também renovar nossas forças para continuar produzindo conhecimento de nossa área e mostrar que bons quadrinhos não se limitam às obras de Stan Lee no início do Surfista Prateado ou às de Eisner narrando as histórias urbanas. O futuro nos aguarda, e que possamos preenchê-lo com muitas histórias verdadeiramente boas para serem dadas de presente e postas em baixo das árvores de natal nos anos por vir. Novamente, aqui vão meus mais sinceros votos de harmonia e alegria, satisfação e esperança, porque, acreditem, tudo é possível àqueles que amam a Deus, basta sabermos ter paciência.

******FELIZ NATAL!!!******

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Eisner, o Flâneur dos Quadrinhos



Por Gabriel Guimarães


Will Eisner foi um dos pioneiros das histórias em quadrinhos no início do século XX, apesar de ele só ter passado a ficar mais em evidência a partir da década de 1970. Habitante dos bairros judeus de Nova York, Eisner ganhou destaque pela profundidade emotiva de suas obras, em especial aquelas que tratavam do período negro da história americana durante a crise de 1929 nos Estados Unidos, retratando em muitas delas a determinação da população que, mesmo sem ter condições de uma vivência um mínimo que positiva em muitos casos, permanecia batalhando por algo melhor.
Como Eisner afirma,: “Por meio do manejo habilidoso dessa estrutura aparentemente amorfa [da arte da narração] e de uma compreensão da anatomia da expressão, o desenhista pode começar a empreender a exposição de histórias que envolvem significados mais profundos e tratam das complexidades da experiência humana.”[1], seus trabalhos foram muito marcados por uma humanização única das personagens, feita de maneira sutil e marcante.
Baseado nas definições propostas por Walter Benjamin no seu texto “O Flâneur”, e suas considerações sobre a posição do transeunte dos textos de Edgar Allan Poe e Baudellaire, sinto-me em condições de enquadrar Eisner como praticante da flanérie uma vez que tal qual Benjamin afirmou que “a rua se torna moradia para o flâneur que, entre as fachadas dos prédios, sente-se em casa, tanto quanto o burguês entre suas quatro paredes.”, é possível observar isso nas obras de Eisner, que costumam tratar da vida nos grandes centros e das reações humanas a ela, sendo muito pouco limitadas por histórias entre quatro paredes apenas, indo além, para um ambiente público e urbano.
Obras como “Um Contrato com Deus” (1978), “Avenida Dropsie” (1995), “Nova York: A Grande Cidade” (1981), “O Edifício” (1987), “Cadernos de Tipos Urbanos” (1989) e “Pessoas Invisíveis” (1992) são exemplos máximos disso, uma vez que, semelhante ao personagem protagonista de Poe em seu conto “O Homem da Multidão”, os olhos do artista através dos quais observamos as histórias são focados em personagens corriqueiras que nos chamam atenção muitas vezes pelo seu arquétipo humanizado. Sem caracterizar absolutamente um personagem sequer, Eisner deixa todos as pessoas que aparecem sem nome, sem identificação, sendo estes então tratados apenas como seres em trânsito, indo ou voltando do trabalho, cujas ambições muitas vezes passam desapercebidas dos olhares alheios, mas que por trás de cada um há uma história, há uma narrativa a ser contada.
É ainda mais evidente a flanerié de Eisner em seu único personagem cuja alcunha e fisionomia eram sempre reconhecidas todos os meses, o herói detetive Spirit, que não possuía sequer identidade secreta. Funcionando como uma visão pura da análise de suspeitos, Spirit foi um personagem muito marcado pelo fato de suas histórias quase nunca terem o protagonista em primeiro plano, dando muito mais atenção assim aos personagens coadjuvantes e ao seu lado mais humanizado da história.
Criado em 1940, Spirit destoava do padrão de herói que estava sendo desenvolvido na época, chamando atenção já naqueles tempos para a diferença que uma mudança de abordagem era capaz de fazer por uma história. Eisner adotou o mesmo padrão de narrativa humanizada em todas as suas grandes obras, suas graphic novels (novelas gráficas), termo que foi criado por ele mesmo para definir histórias em quadrinhos adultas de muitas páginas que podiam ser lançadas em formato de livro, e que seria mais socialmente reconhecido que o termo histórias em quadrinhos em si quando ele fosse questionado quanto a sua profissão.
Em sua graphic novel “Nova York: A Grande Cidade”, Eisner produziu uma série de vinhetas (histórias curtas) cujo objetivo era mostrar os fatores que realmente marcavam a cidade grande na visão do autor, vista de ângulos pouco ou nada convencionais, como bueiros, degraus de escada, metrôs – abordando aqui a questão destacada Benjamin do predomínio da comunicação visual a uma comunicação auditiva, onde as pessoas passaram a ter de encarar horas a fio indivíduos desconhecidos sem demonstrar necessariamente uma reação a eles, fato ao qual Eisner trata de maneira bem humorada, revelando-nos por balões de pensamento a infinidade de interesses inerentes de cada pessoa no vagão –, latas de lixo, hidrantes, caixas de correio, postes de luz, esgoto e janelas – este último talvez seu trabalho de maior destaque pela sensibilidade dada às idas e vindas dos habitantes da cidade e às representações simbólicas destas, como os quadrinhos anteriores demonstram.
Tal qual Poe destacou o fluxo das massas num ambiente urbano repleto de locais, ambientes e esferas específicas com seus respectivos habitantes para cada um, Eisner o fez em suas obras mostrando as diferenças dos bairros de população mais nobre, de renda mais farta, e os bairros pobres, marcados pela violência, pela existência de gangues, pelas muitas histórias de trabalhadores que dedicam suas vidas ao serviço e não vêem sua recompensa chegar, etc. Basta uma breve olhada em obras como “A Força da Vida” (1978), “Pessoas Invisíveis” e até os já mencionados “Avenida Dropsie” e “Nova York: A Grande Cidade” para poder constatar essas mudanças.
Entretanto, talvez seja na capa da coletânea mais recente de suas obras “Nova York: A Vida na Cidade Grande” e nas artes interiores de seu trabalho “Caderno de Tipos Urbanos” que a figura do flâneur pode ser vista mais nitidamente, uma vez que o próprio Eisner se retrata como um artista, parado com um bloco de folhas a desenhar em meio ao fluxo inesgotável de seres, que passam sem sequer perceber sua existência, imersos em seus próprios problemas e cotidianos. Eisner, nessas cenas, se mostra o verdadeiro estudioso das multidões, dedicando sua vida e sua carreira a esse objeto de estudo e mercadoria de prazer, fato confirmado pela afirmação de Eisner que “o tempo da cidade tem uma cadência especial. É afetado pela breve duração dos eventos. (...) O ritmo é um elemento da velocidade que dita como os habitantes têm de negociar o movimento. E o espaço é a limitada área habitável deixada pelos obstáculos no labirinto de concreto”[2], como pode ser visto abaixo.




Em sua vida, poucas foram as obras desse autor que não lidaram com essa temática, como “Último Dia no Vietnã” (2001) e alguns contos ilustrados que produziu como “O Último Cavaleiro Andante” (1999), que retratava a história escrita por Cervantes do cavaleiro Dom Quixote. Além dessas, houve algumas obras de autobiografia feitas por ele também, como “O Sonhador” (1986) e “No Coração da Tempestade” (1991), que contavam suas experiências de vida.
Tal qual Dickens se queixou da falta do barulho da rua, que era indispensável para a sua produção, fez Eisner, quando se mudou para o estado da Flórida, e não suportou viver lá por muito tempo, regressando o mais rápido que pôde para sua vida na sua cidade grande, lar de seus desejos e fonte de seus sonhos, Nova York. Lá, voltou a residir, produzir, criar, sonhar, até 2005, quando faleceu aos 87 anos.
Will Eisner foi, portanto, um homem da vida pública, cujo trabalho reflete sua paixão pela vida nos grandes centros como poucos o fizeram, adotando para si a visão de observador, estudioso dos movimentos, das idas e vindas, do fluxo com que os turbilhões de pessoas cruzam as ruas diariamente. Sua visão vai além do normalmente esperado, revelando-nos pela sua narrativa gráfica todo um novo mundo de interpretação dos fatos e eventos, uma interpretação pelo olhar de mera figura humana, limitada, esquizofrênica, porém forte em meio às fraquezas da vida. Seu fascínio pelas multidões pode se comparar ao do personagem de Poe, se não ultrapassá-lo, porque até seus últimos dias de vida, esse grande mestre dos quadrinhos, referência para todos os pretensos quadrinistas que vieram depois dele, permaneceu produzindo obras que exacerbavam os grandes centros, suas selvas de concreto, que eram suas grandes fontes de inspiração.


BIBLIOGRAFIA:



BENJAMIN, Walter. O Flâneur, editora Brasiliense, 1989.
POE, Edgar Allan Poe. O Homem da Multidão, editora Cultrix, 1985.
EISNER, Will. Quadrinhos e Arte Seqüencial, editora Martins Fontes, 2001.
EISNER, Will. Narrativas Gráficas, editora Devir, 2008.
EISNER, Will. Um Contrato com Deus, editora Brasiliense, 1978.
EISNER, Will. O Edifício. In: Nova York: A Vida na Grande Cidade, editora Companhia das Letras, 2009.
EISNER, Will. Caderno de Tipos Urbanos. In: Nova York: A Vida na Grande Cidade, editora Companhia das Letras, 2009.
EISNER, Will. Pessoas Invisíveis. In: Nova York: A Vida na Grande Cidade, editora Companhia das Letras, 2009.
EISNER, Will. Nova York: A Vida na Grande Cidade, editora Companhia das Letras, 2009.
EISNER, Will. A Força da Vida. Editora Devir, 2007.
EISNER, Will. Avenida Dropsie, editora Devir, 2004.
EISNER, Will. Pequenos Milagres, editora Devir, 2006.
EISNER, Will. O Último Cavaleiro Andante, editora Companhia das Letras, 1999.
EISNER, Will. Último Dia no Vietnã, editora Devir, 2001.
EISNER, Will. O Sonhador, editora Devir, 2007.
EISNER, Will. No Coração da Tempestade, editora Abril, 1996.


[1] EISNER, Will. Quadrinhos e Arte Seqüencial, editora Martins Fontes, 1999.
[2] EISNER, Will. Nova York: A Vida na Grande Cidade, editora Companhia das Letras, 2009.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Retomando Algumas Atividades

Por Gabriel Guimarães
Caros leitores, como perceberam, não posto nada novo relacionado a quadrinhos há um tempo já, como esclareci na última postagem até, uma vez que estava com trabalhos de faculdade se acumulando por fazer, e nenhum deles com possibilidade de relação com quadrinhos, na exceção do caso jornalismo e quadrinhos, que foi apresentado última quarta-feira (18/09), cujo tema na verdade de minha parte foi a parte antropológica dos meios de comunicação, em especial o jornal, que consegui relacionar com os quadrinhos de Manfred Sommer, "Memórias de um Correpondente - Frank Cappa", material de excelentíssima qualidade que aborda a mídia e a vida no meio dos conflitos transmitidos pelos meios de comnicação internacionais. Como o material escrito ainda está sendo desenvolvido, ainda vou postá-lo futuramente. Além dele, agora surgiu a possibilidade também de fazer um trabalho comparando a figura do Flâneur, criado por Edgar Allan Poe e Baudellaire, e analisada por Walter Benjamin, com os quadrinhos de Will Eisner e outros autores urbanos. Também pronto, este trabalho será postado aqui.
Mais uma vez gostaria de me desculpar pela demora com novas matérias e análises, mas brevemente estarei retomando um ritmo mais ativo.
Agradeço desde já a compreensão, continuem lendo quadrinhos, fiquem com Deus.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Tudo Está Bem com o seu Monitor

Por Gabriel Guimarães
Galera, sei que não tenho postado muitas matérias no blog, na verdade, há mais de um mês que não posto nada, mas é que a faculdade tem estado meio puxada esse período, e a quantidade de trabalhos que tive liberdade para fazer sobre os quadrinhos tem sido mais escasso que o previsto.

Agradeço a paciência de vocês, e lhes garanto que uma vez em condições de retomar a postagem de matérias quadrinísticas, voltarei a fazê-lo.

Gostaria apenas de deixar uma observação aqui com relação a uma coisa que percebi nesse meio tempo: postei um pedido de ajuda na comunidade do orkut 'Jornalismo e quadrinhos' quanto a um trabalho que tenho desenvolvido sobre formação do discurso jornalístico em quadrinhos, porém não recebi a menor resposta ou consideração que seja. Fiquei bastante decepcionado com tal egoísta ação dos membros da comunidade, porque para crescermos como indivíduos é primeiramente necessário que cresçamos como conjunto. Um conjunto de estudantes, conjunto de profissionais, conjunto de artistas, conjunto de amantes do meio. Um conjunto de sonhadores que farão de tudo para tornar seus sonhos reais.
Só queria deixar essa observação aqui.

Mais uma vez, agradeço a compreensão e espero que curtam as matérias mais antigas aqueles que não as leram ainda enquanto vou pensando no desenvolvimento de novas. Aos leitores mais antigos, agradeço em dobro sua paciência.
Fiquem todos com Deus, e continuem lendo quadrinhos!

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Lançamento de Livro no Rio de Janeiro

Por Gabriel Guimarães

Acontecerá neste sábado dia 19 de setembro a partir das 4 da tarde na rua do Catete o lançamento do livro "Darwin no Brasil", do cartunista brasileiro Flávio, mais conhecido pelos seus trabalhos na revista MAD e pela sua personagem Dasdô.

É um bom evento para reunir a galera do meio quadrinístico porque é num local de fácil acesso, pois fica em frente ao metrô da estação do Catete, além do horário mais cedo e da oficina de desenho com o autor para os mais jovens.
Além disso, o cartunista é um dos responsáveis por grande parte dos traços características das revistas MAD, estando presente no imaginário do público comum da revista.

Nos vemos por lá!

domingo, 13 de setembro de 2009

Aniversário e Sonhos Realizados

Por Gabriel Guimarães

Há dois dias atrás, o blog completou seu primeiro ano de vida! Mas não somos nós que mercemos os parabéns, nem nada, mas sim todos vocês, leitores, que tornaram possível ao blog crescer tanto em termo de postagens e de contatos com o meio quadrinístico. São vocês que merecem os parabéns, por terem incentivado a continuar indo em frente nessa iniciativa.
Há um ano atrás, comecei este blog com o texto "Para dizer que não falei de quadrinhos", e hoje posso dizer que não temos falado de outra coisa se não disso, com muito orgulho. Tenha sido por trabalhos de faculdade que fui postando aqui, tenha sido pelas mais que merecidas homenagens aos grandes profissionais da área, como Will Eisner e Mauricio de Sousa.
Em um ano, posso dizer que cresci muito como pessoa dentro desse meio de comunicação. Pude amadurecer muito com a ajuda dos comentários no blog e dos professores da UFRJ, os quais praticamente todos que me deram aula sabem que quero fazer quadrinhos da vida, ou melhor, vida em quadrinhos. Nesse meio tempo tive oportunidades únicas de conhecer teóricos da área pessoalmente, como Mário Feijó, Carlos Patati, e, principalmente, Mauricio de Sousa.

Ontem de tarde, fui à Bienal tentar encontrar com esse mestre dos quadrinhos e fiquei na fila do estande da Editora Globo durante quase uma hora, só para conhecê-lo sob o pretexto de assinar os livros que comprei dele, quando na verdade,o que queria de fato era conhecê-lo. E é graças ao Deus maravilhoso e bondoso que sigo que eu pude conhecer esse tão conhecido autor, realizando assim um dos meus grande sonhos desde que era criança.

Quando o vi vindo para a área onde autografaria os livros, estava muito nervoso, sem saber o que falar, afinal, como representar anos e anos de admiração, inspiração e nada menos que felicidade em breves e curtas palavras? Quando fui até a mesa onde ele estava sentado, não sabia que tipo de personalidade iria encontrar, mas nem nas minhas melhores expectativas esperava encontrar alguém tão hospitaleiro, caloroso, humilde, e incrivelmente simples, como o é Mauricio de Sousa em pessoa. São poucos os autores que são assim com seus fãs e com os aspirantes de sua área de atuação, e com certeza, esse tipo de atitude que ele teve comigo, sempre tentarei ter com todos que vierem a mim me buscar por qualquer razão. Tenho muito orgulho, melhor dizendo, honra, de poder dizer que este momento foi um dos meus momentos de maior amadurecimento como profissional, e que não esquecerei dele enquanto viver.

Dedico essas bençãos, tanto do aniversário do blog como conhecer Mauricio de Sousa, primeiramente a Deus, que tem cada dia me fortalecido e me motivado a buscar atingir todas as potencialidades maravilhosas que a vida tem, e, posteriormente, ao meu já finado avô Acyr Guimarães, que até 2002, ano em que morreu, foi quem me motivou mais a buscar essa carreira, alimentando esse meu sonho de um dia conhecer esse mestre que é o senhor Mauricio de Sousa. Até hoje a memória do meu avô tem sido um dos grandes fatores que me fazem ir em frente nessa jornada pela afirmação da profissão de desenhista/roteirista como algo de respeito e orgulho, e assim continuará para sempre.

Mais uma vez, agradeço verdadeiramente a todos que tornaram possível tudo neste ano que passou, e que ainda hajam muitos anos e conquistas a frente para serem comemoradas, não apenas no blog ou na minha vida apenas, mas na vida de todos você, leitores, também.

Obrigado, galera, e que Deus os abençoe abundantemente!

domingo, 30 de agosto de 2009

Psicologia e Histórias em Quadrinhos: Dilbert, Recruta Zero, Calvin e a Formação de Corpos Dóceis

Por Gabriel Guimarães

  1. A irreverência dos quadrinhos de humor e breve histórico do gênero
    “O humorismo alivia-nos das vicissitudes da vida, ativando o nosso senso de proporção e revelando-nos que a seriedade exagerada tende ao absurdo.” (Charles Chaplin)

Para se fazer uma boa análise do surgimento e irreverência das histórias em quadrinhos de humor, é preciso remetermo-nos ao século XIX, época de extrema importância para os meios de comunicação como os vemos hoje, pois foi durante ele que ocorreu a consolidação do capitalismo e a consequente expansão populacional dos grandes centros, modificando a estrutura das grandes cidades e a imprensa.

Ocorre então uma enorme mudança nos códigos e regras próprios da sociedade, devido à heterogeneidade das pessoas que passaram a constituir a população trabalhadora, caracterizando um novo tipo de cultura, não mais burguês e elitista, mas de mercado. “Essa cultura de massa surge como uma cultura de lazer, de entretenimento, que busca o lucro e que depende de certas tecnologias para existir e poder alcançar seu público. A relação pessoal é substituída por um meio técnico de comunicação à distância, impessoal e aberto, capaz de atingir milhares, ou milhões de pessoas.” (FEIJÓ, 1997). Não é à toa que é nessa época que surgem tantas referências no meio cultural que estão até hoje marcadas em nossas vidas, com destaque para o surgimento do cinema dos irmãos Lumiére, para os escritores de livros que tiravam da carência de material de distração no retorno dos operários para casa ao final do dia sua motivação para escrever, como H. G. Wells, e para o início da publicação de histórias em quadrinhos nos jornais norte-americanos.

E foi no dia 5 de maio de 1895, que foi publicada no jornal New York World a primeira história em quadrinhos da história, Down Hogan’s Alley, de Richard Outcault, cuja principal figura era um menino de aparência asiática que usava uma vestimenta amarela que lhe cobria quase todo o corpo, considerado por muitos como o primeiro personagem do gênero quadrinhos. Por não ter um nome definido, foi posteriormente apelidado pelo público de Menino Amarelo. Aí começava já a irreverência dos quadrinhos, uma vez que mostrava o ingresso das novas etnias ao mosaico cultural norte-americano (PATATI e BRAGA, 2006), evidenciando que a divulgação da cultura agora era para todos os habitantes dos grandes centros, e não mais apenas à burguesia dominante.

Esse novo tipo de publicação indignou tanto os integrantes dessa classe ‘superior’, que estes criaram a expressão Imprensa Amarela’, para identificar o jornalismo sensacionalista que buscava o lucro rápido e resposta do público.

Vendo o sucesso que essas tiras cômicas faziam, os demais jornais e editoras começaram a buscar mais desse material para publicarem, gerando assim um boom na criação de quadrinhos de humor, como Os Sobrinhos do Capitão (1897), Upside Downs (1903), Mutt e Jeff (1907), Krazy Kat (1913), Pafúncio e Marocas (1913), e O Gato Félix (1923).

Conforme o tempo passou, os quadrinhos foram ficando mais sérios, tendo suas narrativas muitas vezes ligadas às guerras reais, fictícias, ou ideológicas que aconteciam no mundo, como a figura do colonizador britânico nas terras africanas em Tarzã (1929), ou a batalha na Segunda Guerra Mundial travada em Terry and the Pirates (1934). Esse modo mais realista de ver o mundo nos quadrinhos influenciou muito as tiras cômicas, que passaram a ter um caráter mais crítico com relação ao modo como era gerida a sociedade capitalista e as suas figuras de autoridade, como foram os casos de Pinduca (1932), O Reizinho (1934), e Ferdinando (1934). Este último, inclusive, teve tanto retorno do público, que seu autor, Al Capp, chegou a ter sua importância comparada com a de D. W. Griffith nos cinemas e a de Gershwin no jazz (MOYA, 1987).

E o gênero cômico foi crescendo, se ramificando em diversas criações que iam surgindo, mas nenhuma que chamasse muita atenção, até que na prancheta de Mort Walker, em 1950, surge Zero, um universitário que não se dava bem com as figuras de controle em sua vida, mas que um ano depois iria se alistar no exército americano pela Guerra da Coréia, tornando-se então um dos mais famosos personagens de humor de todos os tempos.

  1. Recruta Zero e a idealização do modelo soldado

Poucos sabem, mas o personagem Zero existia antes mesmo de se alistar. Ele só veio a fazê-lo quando os Estados Unidos ingressaram na Guerra da Coréia em 1951, para tentar alavancar o espírito de servir o país nos seus leitores, uma vez percebida a influência das suas tiras nestes, o que é curioso, uma vez que sua atitude contestadora sempre esteve na síntese do seu modo de ser.

Em suas tiras, podem-se notar nitidamente a busca pela total submissão do indivíduo para que o poder seja exercido sem nenhuma resistência, tal qual ocorreria na formação de corpos dóceis proposta por Deleuze. A conscientização da supressão das vontades momentâneas, ou sacrifício atual, para uma recompensa posterior na vida também estava presente nas suas tirinhas desde seu surgimento, como pode ser visto na tirinha abaixo:

Uma vez alistado, Zero apenas mudou seu foco de desatenção, e ao invés de lidar com a autoridade professoral desencarnada, passa a encarar na figura do Sargento Tainha seu nêmese de trabalho obrigatório. Em ambas com a ciência de sua dívida eterna para com a sociedade, porém prorrogando sua cobrança até onde puder, tal qual ocorre nas sociedades de controle.

No exército, Zero encontra o que Foucault afirmara ser fontes de repressão constante, que penalizavam o campo indefinido do não-conforme com base nas micropenalidades de tempo (seus regulares atrasos na hora de levantar ou de realizar alguma tarefa), de atividade (sua constante desatenção e falta de cuidado), de maneira de ser (sua atitude de desobediência pela preguiça), de discurso (sua insolência entranhada), e de padronização do corpo (manchas e lama em seu uniforme).

Por nunca conseguir cumprir sua função de corretivo pela mecânica do castigo, Zero sempre permaneceu inerte às ordens que lhe eram dadas, se tornando o padrão do não-soldado americano. O exército americano que consumia suas tirinhas nas trincheiras coreanas passaram a se incomodar com aquela imagem de preguiça e desatenção passada para o público consumidor nos Estados Unidos, o que levou ao banimento dessas HQs de todos os quartéis quatro anos depois de sua criação.

As tiras do Recruta Zero foram apenas uma das que não lidavam bem com a figura de controle à qual os personagens eram impostos, esta se ampliando para todos os setores da vida social cotidiana, desde a relação dos laços familiares em Calvin (1985), das expectativas sociais impregnadas entre as classes profissionais em Hagar, o Horrível (1979), até as relações de empresa demonstradas em Dilbert (1989).

  1. Calvin e a (in)formalização do modelo familiar

Nomeado a partir de João Calvino, criador da doutrina calvinista e forte defensor do predestinismo, o qual é diversas vezes mencionado nas histórias, o personagem Calvin é uma criança de seis anos impulsiva, insubordinada, rabugenta, porém muito inteligente, questionadora e de imaginação muito fértil, em vista das suas intrépidas aventuras ao lado do seu tigre de pelúcia que ele vê como real, Haroldo. Sua principal c

aracterística talvez seja sua contestação com o que é feito no mundo apesar de ele viver em seu próprio mundo imaginário a maior parte do tempo.

Como pode ser visto na tirinha acima, a resposta do pai rompe com o que antigamente seria padrão natural de resposta – que essa ordem de dormir mais ce

do deveria-se ao fato de que seria melhor para a saúde de Calvin –, evidenciando a passagem da sociedade de disciplina, onde as ordens eram justificadas individualmente, para a sociedade de controle, onde é instigada a obediência hierárquica pura, isto é, o cumprimento de funções que lhe são outorgadas sem questionar, porque não há uma justificativa plausível e aceitável para tal.

Mesclando as características da sociedade de controle com a sociedade disciplinar, Calvin ironiza a condição em que as pessoas seriam mais de um para cada área de sua vida, tendo em si uma pluralidade de identidades cabíveis a cada setor desta. Ele o faz através da adoção de alter-egos diferentes em várias de suas histórias, a partir de elementos de s

ua imaginação.

Calvin também abordou questões relacionados ao posicionamento do homem em relação ao mundo e a si mesmo numa tentativa de fazer o leitor refletir sobre suas próprias ações, mesmo quando não há ninguém fisicamente o observando, como era o objetivo do panoptismo de Jeremy Bentham.

  1. Dilbert e a formação da relação Indivíduo X Empresa

Dilbert talvez seja o mais perfeito exemplo físico da formação de corpos dóceis nos quadrinhos, pois a forma com que ele aborda o relacionamento do funcionário com a empresa em que trabalha sempre traz em si uma crítica à falta de opção dos trabalhadores (no caso, engenheiros), que têm que viver dentro dos minúsculos cubículos da empresa, e ao despreparo das figuras de controle (no caso, os gerentes).

Dilbert é a figura máxima do trabalhador que faz o que é mandado, mas que tem noção do que está abrindo mão, ou seja, do sacrifício que está fazendo, tentando muitas vezes reverter isso. Ao mesmo tempo, seu colega Wally é a figura máxima do oposto, uma vez que ele ouve as ordens, mas não as cumpre, fazendo apenas aquilo que tem vontade de fazer, adiando a cobrança da dívida social o máximo possível.

Sempre relacionando o chefe com a figura de alguém sem conhecimento da área com ilusões de poder pela hierarquia a qual é exposto, Dilbert aborda muitas das questões cômicas mencionadas por Deleuze que se desenvolvem a partir da variabilidade salarial, valorização profissional e os efeitos na vida pessoal do fato de trabalhar nesse tipo de empresa.

A adequação constante do funcionário ao trabalho acaba sendo um símbolo da prorrogação infinita da cobrança da dívida para com a sociedade, como o fazem Wally e outros, enquanto Dilbert é um dos poucos remanescentes do modelo de abordagem da sociedade disciplinar, buscando pagar a ‘conta’ que tem para com os demais, porém sabendo que nunca conseguirá quitá-la completamente. Mesmo reconhecendo a incompetência das suas fontes de cobrança, suas ações continuam visando um avanço social, o qual não é possível de alcançar.

  1. Conclusão

As histórias em quadrinhos são um reflexo do que a sociedade na qual elas são produzidas passa, visivelmente. No caso das tirinhas de humor, é que o espírito da auto-crítica exprime talvez melhor as opiniões sobre esse estado social. Seja na pluralidade de identidades de Calvin, na prorrogação da cobrança da dívida eterna social do Recruta Zero, ou na vã crença de poder pagá-la à sociedade e consequente permanência nos laços de relacionamento da sociedade disciplinar de Dilbert, a psicologia se faz presente nos quadrinhos há anos, e permanecerá assim enquanto estes durarem. Resta-nos apenas perceber as delineações produzidas pelos autores.

  1. Bibliografia

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir, 1987. Editora Vozes, 2003.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder,

DELEUZE, Gilles. Post-scriptum sobre as Sociedades de Controle, 1972.

VAZ, Paulo. Corpo e Risco,____.

MOYA, Álvaro de. História das Histórias em Quadrinhos, 1987. Editora Brasiliense, 1996.

MOYA, Álvaro de. Vapt-Vupt, 2003. Editora Clemente & Gramani Editora.

MOYA, Álvaro de. Shazam!, 1977. Editora Perspectiva.

FEIJÓ, Mário. Quadrinhos em Ação – Um Século de História, 1997. Editora Moderna.

PATATI, Carlos e BRAGA, Flávio. Almanaque dos Quadrinhos, 2006. Editora Ediouro.

ADAMS, Scott. Corra, o Controle de Qualidade vem aí!, 1997. Editora Ediouro.

ADAMS, Scott. Trabalhando em Casa, 2009. Editora L&PM Pocket.

ADAMS, Scott. Você está Demitido!, 2008. Editora L&PM Pocket.

ADAMS, Scott. Preciso de Férias!, . Editora L&PM Pocket.

GOIDA. Enciclopédia dos Quadrinhos, 1990. Editora L&PM.

WALKER, Brian. The Comics before 1945, 2004. Editora Harry N. Abrams Inc. Publishers.

Especial Revista Scientific American – Coleção Exploradores do Futuro: H. G. Wells, 2005. Editora Duetto.

http://uninuni.com/tirinhas/category/dilbert/page/23/

http://www.interney.net/blogs/inagaki/2008/12/08/as_mais_belas_tiras_de_calvin_e haroldo/

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http://quadrinhospraquemgosta.blogspot.com/

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