É impossível uma análise dos quadrinhos sem passar pelo nome desse primoroso artista anorte-americano morador do bairro do Brooklyn, Nova York. Esta é minha homenagem a esse grandioso pioneiro responsável por trazer humanidade aos quadrinhos, por lutar pelo reconhecimento dessa modalidade como algo sério nos meios intelectuais, e por influenciar com seus ângulos à la Orson Welles tantos e tantos quadrinhistas.
Responsável por cunhar dois termos de extrema importância no ramo dos quadrinhos e da literatura (Arte Sequencial e Graphic Novel), todos os admiradores e produtores de quadrinhos têm a obrigação de conhecer a história e a influência que esse lendário artista teve.
Filho de imigrantes judeus que moravam nos Estados Unidos, Eisner foi criado de maneira bastante voltada para lutar pela sobrevivência. Quando jovem ainda, testemunhou os efeitos da queda da bolsa de 1929, que empobreceu todo o povo americano, especialmente os que moravam nos bairros suburbanos. E desse convívio com a pobreza de todos, é que Eisner posteriormente tirou sua principal fonte para as histórias 'Um Contrato com Deus', 'A Força da Vida', 'Pequenos Milagres' (abaixo), entre tantos outros.Devido à humanização de seus personagens, suas obras se tornaram algo sublime, fora do padrão heróico da época de sucesso que os quadrinhos viveram na década de 1940. Para poder divilgar esse seu modo de entreter e ensinar, Eisner criou um herói, o Spirit, que lutava contra os males do mundo, sempre focando nos personagens secundários de suas aventuras., ou seja, no lado humano da trama. Recentemente, foi lançado um filme de péssima qualidade desse personagem que o aborda de uma maneira completamente errônea. O diretor Frank Miller, responsável por importantíssimos momentos dos quadrinhos com seu Batman ou Sin City, fez algo com o personagem eisneriano que me deixou com uma profunda angústia, que foi traduzir Spirit nos moldes da obra do próprio diretor, ao invés de ser fiel aos quadrinhos do criador do personagem. Os tons preto e branco com poucas cores são o oposto das versões em HQ coloridas do personagem, fato que achei excruciante num filme que deveria ser uma adaptação dos quadrinhos.
Eisner ainda assistiu à muitos desenhistas, roteiristas, editores, e demais funcionários do ramo quadrinístico através de livros teóricos sobre a área, repletos de uma primazia única e de um conteúdo importantíssimo no que Eisner considerava o cerne da industria de quadrinhos, a narrativa gráfica. Até hoje, é possível encontrar esses livros nas livrarias comuns e sebos, tais como 'Narrativas Gráficas' e 'Quadrinhos e Arte Sequencial', ambos em posição de destaque dentre os livros já publicados sobre o tema.
Admirador dos grandes centros, Eisner tirava de cenas que observava da sua janela na cidade inspiração para seus romances gráficos. E até sua própria vida foi tema de algumas de suas histórias, como em 'O Sonhador' e 'No Coração da Tempestade'.Seu pioneirismo e paixão por esse meio de comunicação não ficou esquecido e hoje, há não um, mas O grande prêmio dos quadrinhos cujo nome é dedicado a ele, os Prêmios Eisner, pela honra que esse meio teve em conhecer tão profundo e dedicado artista. Não vamos nos esquecer dele jamais, com seu enquadramento inigualável e sua capacidade extraordinária de captar as expressões humanas tanto em seu traço quanto em suas estórias.
Esse grande homem se foi deste mundo e de sua amada metrópole em 2005, mas suas obras hão de nos preencher o vazio que ele deixou ao partir. Que no futuro haja mais pessoas como ele para lutar pela bandeira artística dos quadrinhos até a última fibra, e para tornar do mundo um ambiente de relacionamento mais humano entre as pessoas, tal qual ele o retratava. Que possamos ter a certeza de que seu esforço não foi em vão, e de que continuaremos a lutar pelo crescimento desse meio. A garantia que temos é que o pioneirismo de Will Eisner permanecerá em cada um de nós, forçando-nos a ir adiante, a irmos além dos padrões de nossos tempos, a sonharmos mais alto, sem medo dos desafios que podemos encontrar.
Nos últimos dias, tenho recebido comentários de apoio a essa iniciativa do blog de alguns interessados nessa área da comunicação. Primeiramente, gostaria de agradecer sinceramente pelos votos de incentivo que vocês têm me dado, porque eles têm sido de grande valia para que eu continue escrevendo. Diferente de vários outros sites, que ignoram seus apoiadores, não deixarei passar esse apoio em branco. Aqui estão os links dos blogs de quem comentou em minhas postagens:
Eu acho de suma importância a união dos quadrinistas e quadrinhistas brasileiros para que possamos quebrar a barreira do preconceito intelectual contra os quadrinhos em si e contra os quadrinhos nacionais. Então, conforme tomar conhecimento de outros blogs interessantes sobre o assunto, vou postando aqui para integrar os interessados.
As histórias em quadrinhos surgiram como um meio de comunicação de massa no dia 5 de maio de 1895, quando foi publicado pela primeira vez no caderno de domingo do jornal New York World uma tira chamada Down Hogan’s Alley, criada pelo artista norte-americano Richard Outcault (1863-1928). Além de ser a pioneira nesse ramo, essa tira ainda introduziu o primeiro personagem da história das histórias em quadrinhos, o Menino Amarelo, título que levou posteriormente o próprio meio jornal a ser chamado de imprensa amarela.
Por muito tempo ainda, os quadrinhos viriam a ter conteúdo meramente infantil, até 1929, quando, em decorrência da crise da bolsa,começam a surgir os primeiros heróis, Buck Rogers (1929), o Fantasma (1936), o Príncipe Valente (1937), Superman (1938) e Batman (1939). Eles significavam para os americanos que apesar de todos os obstáculos que apareciam, haveria quem os protegesse e impedisse que o mal vencesse no final.
Com a Segunda Guerra Mundial, houve um crescimento muito grande das vendas de revistas em quadrinhos como Captain America comics e Whiz comics, em que os heróis americanos apareciam combatendo nazistas do Velho Continente. Entretanto, nem tudo era um mar de rosas. Havia muitas discussões sobre o Superman, em que radicais americanos acusavam-no de ser o ideal proposto por Nietzche e radicais alemães acusavam-no de ser uma arma do imperialismo.
Quando a guerra acabou, muitos achavam que essa questão fosse ser deixada de lado, mas o que aconteceu foi o contrário. Os nazistas caíram, mas os comunistas iam surgindo como uma das maiores ameaças que o mundo capitalista já viu. Foram formados então comitês para denunciar as pessoas com tendências socialistas, dificultando a liberdade na criação de histórias. A obra ‘Sedução dos Inocentes’, do psiquiatra Frederic Wertham, atacou com tudo as histórias de heróis, em especial as do Batman, as quais foram acusadas de ter teor homossexual no que se tratava do relacionamento do vigilante de Gotham com seu parceiro mirim, Robin. Durante anos, foi muito difícil fazer quadrinhos, mas com o passar do tempo, esses debates foram tendo menos e menos destaque.
Nos anos 60, o destaque nas histórias em quadrinhos foi da Marvel Comics, antiga Timely Comics, graças ao roteirista Stan Lee, que renovou o meio dando um tom mais humano aos personagens super-heróicos, criando o Homem-Aranha (1962), os X-men (1963), o Hulk (1962), o Homem de Ferro (1963) e os Vingadores (1963), além de ‘trazer de volta da tumba’ o Capitão América. As histórias dos X-men, inclusive, foram muito usadas como símbolo da luta contra o preconceito racial. Enquanto isso, na sua maior concorrente, a DC Comics, personagens como o Lanterna Verde (1946; 1959) e Flash (1946; 1956) eram reinventados pelo editor Gardner Fox com maiores influências científicas, resultado do positivismo da época.
Os quadrinhos viam um futuro brilhante pela frente, entretanto, com exceção de algumas poucas histórias, como Lanterna Verde/Arqueiro Verde (1970), de Dennis O’Neil e Neal Adams, esse tipo de literatura caiu na mesmice, levando muitos leitores assíduos a parar de ler as revistas.
Na década de 1980, estava em andamento uma revolução na área, quando a Marvel e a DC expandiram suas linhas de história e, das lojas de varejo e das empresas de distribuição mais recentes, surgiram novas editoras para lidar com o ‘mercado direto de vendas’ (‘Homens do Amanhã’, pág. 395). Em 1985, é lançada a mini-série Batman: Dark Knight, de Frank Miller, que remodela o meio, visto que pela primeira vez, o autor se torna mais importante que o personagem que escreve, igualando os critérios do cinema, onde o foco maior é no seu autor, e não no mocinho da história (‘História das Histórias em Quadrinhos’, pág. 191).
É nesse contexto que, em 1988, ainda durante a Guerra Fria, que os britânicos Alan Moore e David Gibbons lançam a história em quadrinhos considerada até os dias de hoje como a melhor de todos os tempos, Watchmen.
II. História – ‘Quis custodiet ipsos custodes':
Baseada na linha de raciocínio filosófico ‘quem vigia os vigilantes?’, a história em quadrinhos Watchmen, através de uma história principal sobre os efeitos dos super-heróis no mundo real e nas guerras, e histórias coadjuvantes envolvendo acontecimentos obscuros das vidas dos heróis e daqueles no seu ciclo diário, analisa de uma forma profunda as questões psicológicas encontradas no universo dos vigilantes mascarados.
A trama começa com o assassinato de Edward Blake, que logo se revela como sendo a identidade secreta do herói Comediante, que representava a proposta artística de seus autores. Tal qual o Coringa, no prestigiado ‘A Piada Mortal’ (1989) do mesmo Alan Moore com arte de Brian Bolland, ele é um homem que reconhece o horror presente nas relações humanas e se refugia no humor. Para o personagem, a ironia é, em vários momentos, um reflexo amargo da percepção desse horror.
A morte dele, um dos únicos heróis ainda ativos depois do ato Keene de 1977, que baniu todos os super-heróis que não trabalhassem diretamente para o governo norte-americano, atrai a atenção de seus antigos colegas de equipe, os Combatentes do Crime, em especial o misterioso Rorschach, cuja identidade é um absoluto mistério até quase metade da história. Tal qual Blake, Rorschach descobre o terror humano, como relata no capítulo 6 da história, mas ao invés de encarar a vida de maneira cômica, volta-se para a obscuridade e a violência do submundo do crime.
Pouco depois de visitar os aposentos de seu antigo colega, começa a investigar um possível assassino de mascarados. A partir daí, a história mostra o reencontro dos antigos heróis: O segundo Coruja da Noite (Daniel Dreiberg), Miss Juspeczyk (Laurie Juspeczyk), Ozymandias (Adrian Veidt), e Dr. Manhattan (Jonnathan ‘Jon’ Osterman).
Conforme a trama se desenrola, o leitor toma ciência de toda a história dessa realidade alternativa, onde Nixon ainda é presidente dos Estados Unidos em 1985 e os americanos ganharam a Guerra do Vietnã com a ajuda do poderoso Dr. Manhattan e do Comediante. Entretanto, semelhante ao mundo real no ano em que a história se passa, a Guerra Fria permanece uma batalha em que não há vencedores, mas sim dois perdedores.
Apesar desse forte caráter político, Watchmen ganhou muito destaque entre os especialistas em histórias em quadrinhos e em ficção científica devido aos complexos perfis psicológicos de seus personagens (fonte: New York Times Book Review).
Não só os heróis da história têm que lidar com uma série de mentiras e dramas do passado, como também com os acontecimentos decorrentes da morte de Blake, como o auto-exílio do Dr. Manhattan, ocorrido depois de um programa de auditório em que um grupo de repórteres acusam-no de provocar câncer na sua antiga cônjuge, Janey Slater, e em um de seus antigos inimigos, Moloch.
Esse personagem teve talvez um dos maiores destaques devido a sua relação com a proposta da história de buscar a falta de limites para as ações dos super-heróis. Visto que seu nome vem do Projeto Manhattan, que buscava o desenvolvimento da primeira Bomba Atômica, seus poderes não poderiam ter uma origem muito distante da molecular. Tendo sido um cientista atômico antes de conseguir seus poderes em 1959, Jon fazia experiências sobre partículas nucleares num laboratório no Arizona até que sofre um acidente numa câmara de testes e ao invés de morrer, adquire o poder de manipular suas moléculas e as de quaisquer outros materiais, vivos ou não. Sem esse limite humano, ele acaba perdendo sua própria humanidade e vira um transeunte em meio a um mundo de seres ‘inferiores’. Há, inclusive, momentos na história em que ele chega a ser questionado sobre a razão de não ter feito nada para impedir o assassinato de John F. Kennedy e de uma mulher vietnamita.
Nessa linha de história, chega um ponto em que os personagens se vêem envolvidos numa trama tão grande e tão carregada de desumanidade que não sabem o que fazer para impedir que o mal aconteça, e até mesmo, se devem impedi-lo, uma vez que, através dele, é possível chegar a um estado de paz mundial, ainda que apenas momentaneamente.
É para esse momento que a história toda leva o leitor. Esse questionamento sobre se é certo matar para se viver, ou se o peso disso na consciência de um homem é um fardo pesado demais para se carregar.
Moore disse que ‘enquanto Miller salvou os super-heróis, eu tentei assassiná-los’ (‘História das Histórias em Quadrinhos’, pág. 193), revelando suas falhas, e que mesmo possuindo características sobre-humanas, eles também cometiam erros e muitas vezes não mediam todas as conseqüências dos seus atos.
III. Repercussão – Simetria do Medo:
Através da união do universo dos super-heróis típicos norte-americanos com o dimensionamento intelectual característico dos europeus (‘Enciclopédia das Histórias em Quadrinhos’, pág. 243), Alan Moore atingiu um novo patamar das histórias em quadrinhos, chegando a ter repercussão até em outras mídias.
Partindo do conceito de histórias em quadrinhos como arte seqüencial, criado pelo pioneiro Will Eisner (1917-2005) e reforçado pelo especialista Scott McCloud, a história seguiu uma linha de raciocínio que não teria sido atingida de nenhuma outra maneira se mão pelo traço do desenhista David Gibbons, ao qual foi creditado parte do realismo sensível nos personagens de Watchmen e em seu mundo (‘Enciclopédia das Histórias em Quadrinhos’, pág. 141), e que o levou a ser considerado um dos mais importantes ilustradores da época.
Se a importância das histórias em quadrinhos antes de Watchmen levou até o teórico Marshall McLuhan a ponderar sobre seu uso na comunicação de massa, ao dizer que ‘a violência de um ambiente industrial e mecânico tinha de ser vivida e ganhar motivação e significado nos nervos e nas vísceras dos jovens. Viver e ter a experiência de algo é traduzir seu impacto direto sob muitas formas indiretas de conhecimento. Damos aos jovens uma estridente e roufenha selva de asfalto, em comparação com a qual uma selva de animais tropicais parece mais calma e mansa do que uma coelheira. Achamos isto normal. Pagamos às pessoas para manter essa coisa em seu máximo de intensidade, só porque dá lucro. E os olhos se abriram surpresos quando a indústria do entretenimento se propôs realizar um fac-símile razoável da agitação urbana comum. (...) Tanto os quadrinhos como o anúncio pertencem ao mundo do jogo, ao mundo dos modelos e das extensões e prolongamentos das situações que se passam em outra parte. (...) Não há uma abordagem única para esta tarefa; nenhuma observação ou idéia isolada pode resolver um problema tão complexo, qual seja o da mudança da percepção humana.’ (‘OsMeios de Comunicação como Extensões do Homem’, págs. 193 e 194), e o comunicador Armand Mattelart a analisar sua influência nas mesmas massas, ao concluir, analisando as história do Pato Donald e do Tio Patinhas, ambas da Disney, que ‘é justamente um mundo onde a burguesia industrial pode impor suas leis a todas as atitudes e aspirações dos demais setores, internos e externos, utilizando ideologicamente o setor terciário da atividade econômica como utopia, como projeção sentimental, como único futuro. Essa dominação, em um momento histórico concreto, se traduz e se reflete numa dominação similar dentro do universo-Disney, seja por meio da própria indústria que vende a revista, seja pelas relações dos imaginários dos personagens entre si.’ (‘Para ler o Pato Donald’, pág. 129) , depois dela, chegou ao nível de ser considerada não só pela sua forma, mas também pelo seu conteúdo, analisando sob a perspectiva do método do UPGA.
Em 1988, ganhou o Prêmio Hugo como melhor história de ficção científica, o que surpreendeu muitas pessoas, visto que era a única história em quadrinhos dentre os concorrentes. Além disso, ainda figurou entre as 100 obras de ficção mais importantes do século XX pela revista TIME. Começava então a ter mais visibilidade e importância a indústria dos quadrinhos para o mundo literário adulto e o mundo real.
IV. Influências causadas por Watchmen – Um mundo mais forte:
É possível que Alan Moore já soubesse de antecedência a importância e influência que sua história teria para o meio ao concluir a obra de Watchmen com a frase ‘eu deixo isto inteiramente em suas mãos’. Essa frase acabou simbolizando a vontade de Moore em instigar os leitores a buscarem mais das histórias que lessem e medirem melhor as conseqüências de suas ações.
Depois que Watchmen foi lançado pela DC Comics em 1988, a indústria de quadrinhos passou por um período de transição. Os heróis não mais eram cem por cento heróicos, levando ao surgimento dos assim chamados anti-heróis. O mundo não era mais considerado meramente preto e branco no que se tratava da relação bem x mal, mas com diversas escalas de cinza.
Nas décadas seguintes, muitas histórias foram publicadas já a partir desse novo modo de olhar a ficção de super-herói, como ‘A Morte do Super-Homem’ (1993) e ‘A Queda do Morcego’(1993-1994), nas quais foi posto em cheque o paradigma de que os heróis nunca morriam, ‘Morte em Família’ (1988), ‘A Piada Mortal’ (1989), ‘Asilo Arkham’ (1989) e ‘Batman: Cidade Castigada’ (2007), as quais também seguiram na linha de raciocínio do cinismo heróico e da perda dos padrões morais dos vilões.
Porém, não foi só a DC Comics que passou por severas mudanças de tratamento sobre seus personagens. Sua maior rival, Marvel Comics, iniciou uma busca por fazer histórias mais verossímeis e violentas, como foram os casos de ‘Homem-Aranha: Tormento’ (1990), ‘A Última Caçada de Kraven’ (1989), ‘Os Supremos’ (2004), ‘Guerra Civil’ (2007) e ‘Livrosdo Destino’ (2008).
Outra inovação vinda de Watchmen foi a nova organização editorial das histórias em quadrinhos, onde nas revistas de linha passaram a ser publicadas histórias que durassem não mais só uma edição, mas seis, sete, num arco de histórias, com o intuito de que depois de lançadas normalmente, pudessem vir a ser reunidas e republicadas em edições mais luxuosas e caras, tal qual feito com a obra principal deste texto.
Hoje, é possível ver em qualquer gibiteria ou banca de jornal coletâneas de histórias antigas das editoras Marvel Comics, DC Comics, Dark Horse Publishing House, Wildstorm Comics, entre outras.
Mas não se limitou apenas à indústria de quadrinhos a influência de Watchmen. Séries de televisão como Heroes e LOST tiraram muito material para seus episódios da obra de Moore e Gibbons. O próprio criador de LOST, Damon Lindelof, fala de Watchmen como ‘a maior obra de ficção popular já publicada’, e um dos roteiristas da série, Brian K. Vaughan, mais conhecido pelo seu trabalho para as duas grandes indústrias norte-americanas de quadrinhos, afirma que decidiu seguir carreira na área de desenvolvimento de roteiros principalmente por causa dela. Em Heroes, há episódios da primeira temporada que simulam um futuro pós-apocalíptico quase idêntico ao de Watchmen, fato que levou a muitíssimas críticas de plágio tanto pelos fãs de quadrinhos que não viam a série quanto pelos seus próprios telespectadores.
No cinema também é possível analisar frutos de Watchmen na produção de histórias. ‘Os Incríveis’ (2003), da Disney, é um exemplo disso, uma vez que mostra uma realidade onde os heróis foram banidos por ação do governo norte-americano.
V. Conclusão – A verdade indizível:
Watchmen foi uma história que marcou o fim de um período infantil das histórias de super-heróis para trazer um tom mais real e humano para esse tipo de personagens, afetando toda uma geração de autores e leitores. Os limites literários dessa história ainda não são totalmente claros, uma vez que todos os críticos afirmam aprender mais com a trama cada vez que a lêem, mas uma conclusão é certa, a abordagem que Alan Moore e David Gibbons deram ao já desgastado tema de aventura de super-heróis renovou o meio, elevando os padrões buscados pelos leitores, e, por conseguinte, os dos escritores e desenhistas, que passaram a trabalhar juntos na busca por uma narrativa perfeita como vista em Watchmen. Além disso, revelou que ainda que antiquadas, essas histórias podem render muito mais do que se imagina, só depende da intenção e da qualidade de quem as cria.
Tendo se recuperado de uma cirurgia para retirar um coágulo de seu cérebro, o autor catarinense Samicler Gonçalves já está de volta à ativa, com suas mais recentes publicações, Cometa #8 e Grandes Encontros #0. Esse artista realmente me fascina. Seu traço e capacidades criativas são exemplares, mas acima disso, sua superação é algo realmente admirável.
Orgulhoso (e com razão) de ser o criador do herói nacional Cometa, desde 1985, Samicler tem se tornado uma referência para todo artista nacional. Suas habilidades para fazer anatomia e perspectiva são objeto que vale estudo dos aspirantes a desenhistas de quadrinhos. Nos últimos anos, inclusive, foram publicadas algumas edições especiais em que o próprio artista ensina como desenhar o corpo masculino e feminino (felizmente, consegui um deles, apesar da dificuldade de se adquirir material nacional de outro estado brasileiro), além de edições voltadas para ensinar as crianças sobre a importância de se preservar a fauna e a flora nacional.
Esse é outro aspecto que chama a atenção numa análise do artista. Seu sentimento de paixão pela cultura brasileira é algo difícil de se encontrar nos dias de hoje até naqueles envolvidos com o país diretamente. Quase sempre seu super-herói encontra com personagens poderosos da história dos quadrinhos nacionais, como o Topman, o Crânio, o Raio Negro, a Nova, entre outros. Seja o leitor assíduo ou não das publicações nacionais, esse interesse em fazer crescer o potencial dos quadrinhos brasileiros influencia bastante a buscar mais materiais que possam ter a qualidade dos de Samicler. Tenho certeza de que ele ainda vai conquistar muitos prêmios e reconhecimento nos anos por vir, pois seu esforço e dedicação são algo que me motiva muito a seguir nesse ramo ainda pouco conhecido pelo público de literatura em geral. Neste ano que seu personagem vai completar 24 anos, tudo que lhe desejo é que Deus sempre lhe guie e lhe dê inspiração para enriquecer nossas mentes com seu conhecimento da cultura brasileira, que não consiste apenas de violência, favela e mata, como a maioria acredita ser de fora do país. Samicler, muito obrigado pelo seu estímulo através de seu exemplo de vida! Com certeza, seu esforço me motiva a ir sempre adiante, sem nunca abater por nada deste mundo. Espero um dia ter a honra de conhecê-lo pessoalmente.
Faltam poucos dias para a estréia do aclamadíssimo filme que fará a adaptação da obra máxima de Alan Moore e David Gibbons para as telonas do cinema com a qualidade IMAX. Para os quadrinhos, Watchmen é uma obra arrebatadora capaz de surpreender o mais incrédulo leitor, seja de quadrinhos ou de literatura em geral. Sua abordagem de como seria o mundo real com super-heróis para lutar nas guerras é simplemente excitante à medida que você se depara com as diferentes nuances humanas incrustadas em cada um dos personagens. Para os cinemas, resta-me torcer para que toda a temática e polêmica da trama permaneça, atraindo o público e mostrando que as histórias em quadrinhos têm mais a oferecer do que os olhos despreparados podem ver. Tudo indica que o diretor Zack Snyder, fã confesso da HQ, vai conseguir satisfazer os admiradores da história de 1985. Infelizmente, a duração do filme teve que ser reduzido de 3h40min para 2h30min, o que deixa um sentimento de perda, mas de apoio ao diretor, que já anunciou que lançará a sua versão do filme em DVD com todas as cenas cortadas e muitos extras. Cenas como a anterior é que têm me deixado bastante ansioso por ver esse filme. A fidelidade com os quadrinhos é algo que primo muito (razão pela qual odiei o filme do Spirit desde o momento que vi o primeiro trailer dele), e Watchmen realmente segue conforme as linhas e traços que lhe deram forma da primeira vez há 24 anos.
Usando da sabedoria publicitária de um Ozymandias, da capacidade de manipular multidões de um Doutor Manhattan, do maquinário que daria inveja a um Coruja da Noite, da sensualidade propagandista de uma Espectral, do humor negro de um Comediante, e, acima de tudo, do mistério de um Rorschach, este filme demonstra que tem tudo para entrar para os anais do cinema como um clássico e uma ode à humanidade dos super-heróis no cinema.
Desde a invenção da imprensa de Gutemberg, todo tipo de material impresso já foi utilizado para fins políticos, desde jornais a revistas. Inclusive os quadrinhos. Correto ou não, imparcial ou não, ela sempre esteve lá, acalorando debates e fazendo tremer as bases do mundo dos super-heróis, até mais do que uma ou outra eventual vinda de Galactus ou de um Devorador de Sóis qualquer.
Sejam nos quadrinhos espaciais do Surfista Prateado, ou na Segunda Guerra, encarada de frente pelos heróis como Capitão América, Capitão Marvel e Superman, as ideologias políticas sempre estiveram presentes no meio quadrinhístico. Essa presença política nos territórios das HQs é tamanha, que tem sido discutida há muito tempo pelos teóricos e historiadores da área, como Moacy Cirne, em Quadrinhos, Sedução e Paixão, e Roberto Guedes, em A Era de Bronze dos Super-Heróis. Durante muito tempo, a política foi mostrada nos quadrinhos de forma a não indentificar o governo em vigência, mas sim a situação em que a população se encontrava, como é visto nas edições da década de 1970 do Lanterna Verde, em que ele encara a dura realidade enfrentada pelo povo afro-americano e pelos menos favorescidos, durante as grandes crises racial e social.
Na história dos quadrinhos de heróis, há, inclusive, duas ocasiões que merecem nossa atenção para uma análise precisa desse tema. Elas são: a candidatura do Capitão América para a presidência dos Estados Unidos (1980), e a eleição do Homem de Ferro para secretário da defesa dos Estados Unidos (2005).
Na trama de 1980, o Capitão América, depois de derrotar uma equipe vilã chamada Império Secreto, descobre que o cabeça da equipe era nada mais nada menos que o presidente dos Estados Unidos. Sabendo que o sonho americano pendia na balança, o capitão resolve se
candidatar à presidência para dar ao povo americano o que ele realmente merece. Esta história ficou sendo uma clara alusão ao caso Watergate, que remexeu com o lado político de cada americano da época, inclusive com Roger Stern, roteirista da linha do Capitão América para a Marvel. No final, o soldado desiste da candidatura, alegando que ser presidente é um cargo que exigiria 24 horas de sua atenção todos os dias da semana, e que se alcançasse esse status, não poderia mais ajudar os fracos e oprimidos pelo mundo afora, como o fazia como Capitão América. Porém, antes de o arco terminar, ainda houve tempo para mais uma referência política, quando J. Jonah Jameson, dono do Clárim Diário e renomado anti-mascarados, tem que decidir se o jornal vai ou não apoiar a candidatura de Steve Rogers. ''O Capitão é um bom homem, mas lembra quando estrelas de cinema começaram a fazer o mesmo?'', fala Jameson durante um debate com Robertson, seu editor-chefe. Essa pérola foi uma referência à eleição de Ronald Reagan para a Casa Branca. Na história do Homem de Ferro, Stark busca a política após ser convidado por assessores do presidente para ajudar na manutenção do armamento produzido pela sua empresa para ajudar o exército norte-americano na Guerra do Iraque. Este aceita se candidatar e começa a alegar que por ser presidente de uma empresa tão grande quanto as Indústrias Stark, tem condição de administrar melhor essa área tão em vista pelo governo Bush. No final, consegue convencer os senadores americanos a elegê-lo e passa a exercer o cargo sem abandonar sua armadura vermelho e dourada.
Esses dois casos são muito interessantes por fugirem ao padrão do esperado pelos fãs, e permitem-nos perceber a grande influência da política nos quadrinhos. Esta última ainda nos permite notar que durante o governo Bush (2001-2008), ocorreu o auge das histórias com base política, quando surgiram HQs como Authority, Black Summer, dentre outras, que representavam a crítica e a desaprovação do povo com o governo pró-guerra de George W. Bush.
Há pouco tempo, outra abordagem política 'surpreendeu' a todos os leitores de quadrinhos. Após a eleição do candidato Barack Obama para a presidência dos Estados Unidos, muitas HQs se voltaram para o lado político e declararam seu apoio ao novo presidente. A que mais chamou a atenção foi a aparição de Obama na revista de linha do Homem-Aranha, a qual esgotou no primeiro dia de venda, chegando à impressionante marca de 1,5 milhão de revistas vendidas até o momento. A comoção geral para a compra dessa edição só é similar à da venda da última edição do arco A Morte do Super-Homem, em 1992.
Esse apoio ao presidente Obama caiu nas graças do povo norte-americano de uma maneira jamais imaginada, mas muito bem vinda. E a política demonstra que permanecerá sendo um ponto crucial nas histórias da Marvel, DC, Wildstorm, entre outras... Agora, nos resta esperar que os quadrinhos caiam também nas graças dos políticos, para enfim haver investimentos nessa área da comunicação pouco reconhecida aqui no Brasil e em outros pontos do mundo, para que então seja possível quebrar essa barreira do preconceito e permitir aos artistas sonhar, pois a base das histórias em quadrinhos é o sonho, como o teórico Moacy Cirne definiu: ''A matéria prima dos quadrinhos, como a de qualquer outro produto no interior das artes plásticas, é o grafismo - o grafismo que nasce do sonho, que nasce do desejo, que nasce da paixão, que nasce da nossa mais profunda humanidade. Por isso, os quadrinhos, em sendo bons, podem seduzir, podem ser apaixonantes. E podem, amorosamente ou não, levar à reflexão.''
Tentando seguir na linha de sucesso provocado pelo Batman de Frank Miller, a Marvel lançou, 22 anos depois, uma versão apocalíptica para o futuro de um de seus mais prezados heróis. Em Homem-Aranha: Potestade, de Kaare Andrews e Jose Villarrubia, o herói aracnídeo já está numa idade muito avançada e toda a cidade de Nova York se encontra sob total controle do prefeito Waters, que governa a cidade com mão de ferro e todos andam de cabeça baixa, fingindo que nada de errado acontece. Prestes a ativar o projeto de segurança para a cidade chamado 'Teia' (bem sujestivo para o universo do amigão da vizinhança), começa a surgir uma resistência contra o governo formada por crianças órfãs e ignoradas pelos pais, lideradas por nada mais, nada menos, que J. Jonah Jameson. Sem contar mais com seu precioso Clarim Diário para divulgar sua opinião, ele passa a reunir os jovens dentro de uma velha igreja num beco da cidade.
Jameson passou muito tempo longe do grande centro urbano após vender sua empresa para um grupo de investidores barões do petróleo, que mais a frente, se revelam identidades falsas, usadas pelo prefeito Waters para criar um rede televisiva de jornal que o apoiaria e mostraria tudo que ele realizou em seu governo.
Não, não é o Comissário Gordon, é Peter Parker mesmo!
Peter continua sendo um fracassado, fato comprovado quando é despedido de seu emprego numa floricultura logo no início da história. Ele aparenta estar numa idade muito avançada na medida que cabelos brancos lhe cobrem a face e necessita de óculos novamente, fato que não ocorria desde o início de sua carreira de herói. Ele abandonou o traje de Homem-Aranha de vez, depois de mais uma vez faltar para com aqueles que ama, levando à morte de sua amada Mary Jane Watson-Parker.
Partindo desse futuro estranho (para dizer o mínimo), a trama se inicia quando Jameson entrega um pacote a Peter contendo sua antiga câmera e a máscara que este usava em seus tempos joviais. A partir daí, o antigo editor começa sua campanha para abrir os olhos dos cidadãos contra o vilão por trás do prefeito, Venom, e ao retorno do ícone que era o Homem-Aranha.
A história tem momentos de narrativa brilhante e certos momentos de clímax realmente emocionantes, que agradam muito. Quanto à arte, é uma clara cópia do estilo usado por Frank Miller em 1985. Porém, há momentos muito estranhos nessa visão deturpada do cabeça-de-teia. Alguns deles posso listar,: Quando a população está indo para o prédio em que Peter vive, surge um ex-herói ou ex-vilão (não dá pra ter certeza de qual dessas classes seria), chamado DJ Hypno, cujo poder é tão ridículo (ele usa seu rádio que toca fita-cassetes para fazer os seus inimigos dançarem funk, dá pra acreditar??) que não chega a durar nem duas páginas inteiras vivo; Em meio a uma das melhores cenas de luta da edição, quando o Homem-Aranha está para ser decapitado por Kraven, surge um Doutor Octopus, não se sabe de onde, que arranca o aracnídeo do meio da briga e o leva até o cemitério onde a família Parker está enterrada para depois simplesmente sumir sem deixar rastro; - Ao encontrar o cadáver de sua amada MJ no cemitério, os autores da história devem ter pensado 'o que mais poderia acontecer se não o beijo mais nojento já mostrado numa história em quadrinhos?', mostrando Peter como um necrófilo muito estranho;
O final, apesar das emocionantes batalhas e estimulantes reviravoltas, é meio sem graça, deixando uma sensação de que ficou faltando alguma coisa.
Essa história é, para mim, um exemplo óbvio de que nem todas as abordagens bem sucedidas nos quadrinhos com um personagem podem ser bem sucedidas com outros. O Homem-Aranha é de um universo totalmente diferente do Batman, e não digo no sentido Marvel/DC, mas sim no contexto e motivações dos personagens.
Ao Batman o que é do Batman, e ao Homem-Aranha o que é do Homem-Aranha, não adianta tentar trocar as bolas porque não dá certo.