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quarta-feira, 9 de setembro de 2015

XVII Bienal - Sete Dias de Jornada

Por Gabriel Guimarães


O sétimo dia da XVII edição da Bienal Internacional do Livro no Rio de Janeiro foi um dia majoritariamente dedicado aos alunos de colégios em excursão nos três Pavilhões do evento. Aproveitando muitas ofertas nos corredores e estandes laranjas, o público infantil se sentiu prestigiado, podendo ainda conferir a exposição em homenagem aos 80 anos do quadrinista Maurício de Sousa. Com exemplares de amostra dos lançamentos recentes protagonizados pelos personagens da Turma da Mônica, Astronauta, Horácio, entre as muitas criações do desenhista paulistano, a exposição ofereceu aos jovens a oportunidade de conhecer mais das raízes do desenhista e suas novas empreitadas no mercado, como a "Turma da Mônica Jovem" reinterpretando a clássica lenda de Troia, em volume trabalhado todo em cordel e publicado pela editora Melhoramentos.


Editoras, ainda, como a L&PM ofereceu títulos no formato pocket de personagens clássicos, como "Recruta Zero", de Mort Walker, "Hagar, O Terrível", de Dick Browne, e "Radicci", do brasileiro Iotti; e adaptações de clássicos da literatura para o estilo mangá, como "Os Irmãos Karamazov", de Fiódor Dostoiévski, e "A Interpretação de Sonhos", do psiquiatra Sigmund Freud; além de livros e mangás de forte apelo ao público de jovens adultos, como "Além do Tempo e Mais um Dia", da brasileira Lu Piras, e "Solanin", de Inio Asano (obra esta que já comentamos aqui no blog antes).

Outro estande interessante foi o da editora Zahar, disposto em um palanque de altura maior que os demais, com uma área interna para leitura, e com muitas obras de fantasia relançadas em formato mais cuidadoso, além de também contarem com versões pocket, como as clássicas obras de Alexandre Dumas e Edgar Rice Burroughs. Quase em frente a esse estande, a editora Leya disponibilizou o trono de ferro da série televisiva "Game of Thrones", baseada nos livros do escritor George R. R. Martin, o que cativou a atenção dos jovens estudantes, que fizeram fila para tirar fotos sentados na réplica.

Com o término da primeira semana de evento, a Bienal começa a se direcionar para o encerramento neste final de semana, mas certamente ainda há o que conferir no Rio Centro, palco dessas grandes experiências dos últimos dias. Até lá, #PartiuBienal!

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Entrevista: Emerson Lopes

Por Gabriel Guimarães

 

O desenhista Emerson Lopes começou sua carreira ainda muito novo na indústria de animação brasileira, porém, após anos de uma jornada bem sucedida no meio, tendo trabalhado em grandes projetos de destaque nacional, ele vem procurando criar seu próprio espaço em outro segmento do mercado visual, as histórias em quadrinhos. Pai do personagem Alfredo e do pequeno Arthur, Emerson tem participado de muitas publicações nos últimos anos e sua produção na arte sequencial está crescendo exponencialmente, tendo reunido recentemente pela primeira vez as tirinhas de seu blog (o qual pode ser acessado aqui) em um livreto impresso pela editora Estronho. Mesmo em meio a esse momento muito ativo, ele se mostrou extremamente solícito para nos contar um pouco mais acerca de sua história de vida e suas considerações a partir de experiências que viveu no mercado editorial brasileiro.

QUADRINHOS PRA QUEM GOSTA - Emerson, como foi, de fato, seu ingresso na indústria da animação? Você se lembra de qual foi o primeiro projeto no qual teve seu nome creditado? 

Emerson Lopes - Comecei a trabalhar com animação em 1997, no Estúdio Alexandre Martins, em São Gonçalo. Descobri a existência do estúdio através de um amigo do ramo e eu, curioso, logo liguei para o Alexandre em pessoa e marquei uma entrevista. Não demorou para que eu me tornasse estagiário lá, onde fiquei por uns dois anos. Foi onde conheci os princípios básicos do que era a produção de desenhos animados. Quanto ao meu primeiro trabalho na área onde tive meu nome creditado, se bem me lembro, foi um curta-metragem deste mesmo estúdio chamado “Perrengue nas Alturas”.
Em entrevistas anteriores, você disse que, quando era mais jovem, chegou a começar a faculdade, mas acabou precisando trancar o curso para poder se dedicar ao trabalho com a indústria de animação. O que o levou a essa decisão?

Eu estudei por um ano na Escola de Belas Artes da UFRJ, e nesse meio tempo ingressei num estúdio de animação onde precisavam de mim em tempo integral. Como os horários não eram compatíveis, não tive outra opção. Mas pretendo retornar em outro curso num futuro próximo.
 
De lá para cá, você construiu uma carreira sólida, trabalhando em muitas animações que tiveram destaque por todo Brasil, como “Peixonauta”, “Guerreiros da Amazônia” e “Xuxinha e Guto Contra os Monstros do Espaço”, ainda assim, em 2011, quando você criou seu próprio personagem, “Alfredo, o Vampiro”, você o inseriu no universo das histórias em quadrinhos antes do que no da animação. Você poderia nos contar por que escolheu o formato de quadrinhos para introduzir sua criação ao público?

Em termos práticos, eu poderia dizer que a produção autoral de quadrinhos é algo bem mais intimista e pessoal, sem falar que a veiculação do trabalho é algo menos complexo. Mas, na verdade, o projeto do que veio a se tornar a série do "Alfredo, o Vampiro" sempre foi pensado pra ser inicialmente em quadrinhos. Desde muito antes de sua criação, eu tinha a ideia de criar uma tirinha. Depois de perceber o alvoroço em torno do livro "MSP+50", do qual participei, quis criar algum tipo de trabalho que fosse uma espécie de referencial para a minha produção autoral de quadrinhos. O momento era propício. Então, juntei essas vontades, pensei, pesquisei, rabisquei, testei, escrevi, e finalmente estreei a tirinha do Alfredo na internet. 

Sua ligação com as histórias em quadrinhos surgiu em que momento de sua vida? Como a arte sequencial te impactou, uma vez que você teve contato com ela?

Os quadrinhos existem em minha vida desde que me entendo por gente. Praticamente aprendi a ler com eles. Começando com os gibis da Disney, Maurício de Sousa, passando pelos saudosos quadrinhos dos Trapalhões e Spectreman dos anos 80, até os heróis da Marvel e DC, entre outros. Enfim, essa mídia sempre esteve presente em minha vida, me maravilhando e fazendo rir, chorar, pensar e viajar com seus milhares de universos, heróis e aventuras. E, como sempre gostei de desenhar, desde moleque criava os meus próprios personagens e histórias.


As tirinhas protagonizadas pelo “Alfredo”, publicadas de forma regular no seu blog, apresentam um humor que une elementos do relacionamento adulto com personagens lúdicos e carismáticos do universo infantil. Como foi a experiência de criar um personagem que se diferenciava dos demais no quadrinho brasileiro?

Enquanto estava pensando em quê, de fato, seria o Alfredo, não tinha a intenção de fazer algo “diferente” ou “revolucionário”. Queria me desafiar a criar uma historia de humor leve, nem muito ingênua nem muito adulta, e com um personagem que fosse simpático ao leitor. Eu tinha uma idéia básica, um cara atrapalhado e que não se dava bem com as garotas. Somei a isso algumas influências de artistas que eu admiro, minhas próprias experiências de vida e procurei um caminho que queria seguir. Curiosamente, a ideia do Alfredo ser um vampiro surgiu praticamente na reta final desse processo.


Piteco desenhado por Emerson
Você participou do trabalho de revitalização de personagens infantis em sua versão jovem com a “Luluzinha teen”, e auxiliou na produção de animações com os personagens clássicos de Maurício de Sousa no filme “Turma da Mônica – Uma Aventura no Tempo”. Quais são as diferenças entre trabalhar com personagens criados por outros autores e trabalhar com os seus próprios? Quais são os prós e contras desses dois casos?

Basicamente, quando se trabalha com personagens de outros autores, você pode se divertir mais com eles, e se acostuma a trabalhar com características diferentes das que você geralmente cria, o que sempre é bom - profissionalmente falando. Mas, por outro lado, há regras criadas para esses personagens que você precisa respeitar. 

Quando se trabalha com criações 100% suas, a liberdade já é completa, e você não tem limites para o seu trabalho, além daqueles a que você mesmo se impõe. Só que nessa situação, claro, o trabalho também é todo seu.

Em 2012, você participou de uma atividade pedagógica na Escola Municipal João de Camargo, em São Cristóvão, onde os alunos interpretaram algumas de suas tirinhas com temática ecológica e você, depois, palestrou para todo o colégio no aniversário da instituição. O que essa experiência representou para você?

Foto de Emerson reunido com a turma da professor Maria Fernanda
Foi uma experiência muito legal proporcionada pela professora de Artes Cênicas, Maria Fernanda Lamim. Ela propôs o exercício de encenar minhas tirinhas aos seus alunos, e me convidou para assistir e responder as perguntas das crianças em sala de aula. Foi muito gratificante poder satisfazer a curiosidade dos pequenos e perceber o fascínio que eles tem nesse universo. Sinceramente, me senti o Mauricio de Sousa naquele momento... (risos)

Como era aniversário da instituição, também me convidaram a dizer algumas palavras na solenidade que se seguiu. Comentei brevemente sobre a importância que a leitura poderia ter na vida deles e também um pouco sobre o meio ambiente, que era a temática da festa naquele ano. Não sou muito bom em falar em publico, mas me disseram que fui bem... (risos)

Você também expôs, entre março e abril de 2013, seu trabalho na Bedeteca de Beja, em Portugal. Como foi isso? Há muita diferença entre a forma como o artista profissional é encarado em Portugal e aqui no Brasil?

O convite para expor em Portugal veio de um bate-papo com Paulo Monteiro, diretor da Bedeteca de Beja. Foi uma grande felicidade para mim poder ter meu trabalho reconhecido por leitores de outro país, e mais ainda porque tive a chance de visitar a cidade antes da exposição e conhecer o Paulo, que se tornou um grande amigo, tendo feito, inclusive, o prefácio do livro do Alfredo.

Foto do passeio de seu personagem por Portugal

Com relação as histórias em quadrinhos em Portugal (lá chamadas de BD, sigla para Banda Desenhada), apesar das limitações industriais, senti um respeito maior dedicado aos autores, a exemplo do que ocorre em países como a França. O Festival internacional de Banda Desenhada de Beja é referência na área no país.

Você é um artista premiado tanto em categorias ligadas à propaganda e publicidade (13º Prêmio de Propaganda O Globo, por campanha feita pela agência PS 10 para a Hiunday em 2010), quanto em produções na arte sequencial (Troféu do 23º HQMix por Melhor Publicação Infanto-Juvenil, com o álbum “Pequenos Heróis”, no qual fez uma das histórias, em 2011). O que podemos esperar de conteúdo novo saindo no futuro próximo?

Fotos do primeiro livro de tirinhas compiladas
do "Alfredo, o Vampiro" (disponível para compra por este link)
Por enquanto, meu principal projeto é cuidar de meu filho, que nasceu esse ano... (risos)

Mas, falando especificamente de quadrinhos, se tudo correr bem, pretendo lançar um segundo livro de tirinhas do "Alfredo, o Vampiro" no ano que vem e uma HQ do personagem, com histórias mais longas, na sequência.

Tenho ainda outros projetos, como a série "Pequenas Coisas", que no momento conta só com duas páginas (disponíveis em meu site), e que está em stand-by por falta de tempo para me dedicar a ela como ela precisa. Mas pretendo retoma-la num futuro próximo. Há outros projetos além desse, mas é melhor deixar pra falar a respeito quando tiver algo pra mostrar. (risos)

Para finalizar, queremos lhe desejar muito sucesso com seu personagem, parabeniza-lo pelo seu filho, e garantir que estamos sempre atentos aos passos dados por talentosos profissionais do mercado editorial brasileiro de quadrinhos como você. Foi um imenso prazer conversar contigo e agradecemos mais uma vez pela disponibilidade.

Muito obrigado! Quem faz quadrinhos no Brasil sabe o quanto são importantes veículos como este para não só mostrar nossos trabalhos ao público, mas também ajudar a reforçar o valor desta arte que tanto amamos e que é tão pouco reconhecida em nosso país. Um grande abraço e, sempre que precisarem, estamos aí!

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

A Despedida do Xaxado

Por Gabriel Guimarães


A cidade de Miguel Calmon, na Bahia, perdeu hoje, pela manhã, um de seus filhos mais ilustres. O quadrinista Antônio Luiz Ramos Cedraz, criador dos personagens da Turma do Xaxado, faleceu aos 69 anos, vítima de câncer no intestino, deixando para trás um legado de imenso valor, principalmente no que se refere à abordagem que trazia para elementos do cotidiano do Nordeste brasileiro, além de uma profunda admiração pelos profissionais brasileiros que trabalhavam com a arte sequencial, como Waldyr Ygaiara, Gedeone Malagola, Júlio Shimamoto e Maurício de Sousa.

Apaixonado pelo desenho desde seus 16 anos, Antônio se formou e ocupou a posição de professor de Ensino Fundamental na cidade de Jacobina, tornando-se funcionário do Banco Econômico pouco depois, profissão esta que seguiu até se aposentar. Com o resguardo financeiro adquirido ao longo de sua carreira, investiu no Estúdio Cedraz, onde retomou a produção de muitos personagens que fora criando ao longo dos anos. Tendo sido premiado no 2º Encontro Nacional de Histórias em Quadrinhos, realizado em 1989 na cidade do Araxá, Minas Gerais, Cedraz foi chamado pelo jornal "A Tarde", de Salvador, para produzir tirinhas de forma regular a partir de 1998.

Seus personagens Xaxado, Zé Pequeno e Marieta, entre outros, foram obtendo sucesso junto aos leitores e acabaram ganhando publicação por editoras como Escala e HQM, chegando até a protagonizar cartilhas para o Estado sobre métodos de prevenção de doenças, além de contínuos estímulos ao respeito ao próximo, o voto consciente e à escolarização dos jovens. Após um período de grande reconhecimento pelos críticos, em que o autor foi premiado com quatro Prêmios HQmix (1999, 2001, 2002 e 2003), Cedraz ainda viu seus personagens receberem apoio da UNESCO. Em meio a essa premiação, Antônio ainda foi premiado com o Prêmio Ângelo Agostini por sua colaboração para os quadrinhos brasileiros (premiação esta restrita apenas àqueles com, pelo menos, 25 anos de trabalho dedicado ao meio). Em 2015, inclusive, o autor seria um dos grandes homenageados do IX Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), em Belo Horizonte.


Cedraz não tinha, contudo, uma estrutura que lhe permitia ir tão além como ele pretendia com sua criação. Ele sempre se mostrou reticente com a preferência do mercado editorial brasileiro de publicar conteúdo estrangeiro ou centralizado no eixo Rio-São Paulo. Em suas entrevistas, ele sempre reafirmava seu desejo de dar voz aos tipos brasileiros esquecidos pelas grandes mídias, acendendo uma consciência social em seus personagens e transmitindo várias facetas da cultura dos nordestinos que acabavam sendo marginalizados ou estereotipados tradicionalmente. Cedraz foi um destemido defensor da cultura genuinamente brasileira, e seu legado, algo muito além de seus personagens e de sua produção gráfica, há de permanecer vivo em cada um de seus muitos leitores, amigos e admiradores. O Xaxado perdeu seu principal cangaceiro, mas a dança não pode parar, e nem deve.

Há, ainda, uma entrevista concedida pelo quadrinista baiano à escritora pernambucana Michelle Ramos, realizada entre fevereiro e março de 2007 para o site "Recanto das Letras", que pode ser conferida aqui, para quem tiver interesse.

sábado, 7 de setembro de 2013

Bienal: Dez Estrófes de uma Composição Literária

Por Gabriel Guimarães 


No penúltimo dia da 16ª edição da Bienal do Livro na cidade do Rio de Janeiro, a palavra mais recorrente foi "paciência". Com um público tão numeroso quanto diverso, filas quilométricas e muitos eventos simultâneos acontecendo ao longo dos três Pavilhões do Rio Centro, o visitante precisou exercer ao máximo seu autocontrole e equilibrar momentos de exaltação com uma espera às vezes incômoda. Ainda assim, para quem sabia o roteiro do que gostaria de conferir, o dia foi extremamente positivo, proporcionando um bom contato entre os leitores e seus autores favoritos, além de oferecer novos produtos que estavam sendo lançados de forma especial nos estandes e outros descontos que começavam a surgir para dar os primeiros sinais de que o evento estava por terminar.
 
Os quadrinistas autores
dos volumes já lançados
da coleção Graphic MSP
O estande da Panini recebeu, além de uma nova remessa do material de que já dispunha antes, novos títulos, como "Kick-Ass 2" e os dois volumes da edição especial "Todas as Capas da Mõnica", coleção que apresentava todas as capas da revista da personagem criada por Maurício de Sousa desde o lançamento de sua própria revista, pela editora Abril, em 1970. Ainda estiveram presentes no estande os quadrinistas Danilo Beyruth, Gustavo Duarte, Vitor Caffagi e Luciana Caffagi para autografar seus respectivos trabalhos na coleção Graphic MSP, o que atraiu um grande volume de leitores ocasionais e outros vários admiradores de sua arte narrativa, o que levou o grupo a permanecer atendendo aos fãs por uma quantidade considerável de horas. Mais tarde, no mesmo espaço, quem compareceu foi o próprio quadrinista Maurício de Sousa, para lançar o livro "Mônica 50 Anos", gerando uma grande comoção no público.
 
"Soldado" e Figueiras, respectivamente,
no lançamento de seu livro "A Carta"
O cartunista Ziraldo também esteve presente em vários estandes ao longo do dia, sendo sempre rodeado de admiradores assíduos de seus trabalhos. Ao mesmo tempo, no Pavilhão Laranja, ocorreu o lançamento da graphic novel "A Carta", romance histórico que se passa durante a Guerra do Paraguai, em 1866. Produzido pela dupla Carlos Felipe Figueiras e Rodrigo Martins "Soldado", a história possui uma grande qualidade visual, ainda que o material utilizado para imprimi-lo não tenha sido exatamente o ideal. Com um fundo histórico relevante, a obra pode representar um bom material a ser utilizado de forma letiva por professores e educadores. O lançamento ocorreu no estande da editora 5W, ainda que o lançamento tenha sido promovido pela editora Devaneio, através de uma parceria entre as duas marcas.
 
No Pavilhão Verde, ocorreu ainda uma conversa aberta com o escritor Eduardo Spohr, autor de livros de ficção fantasiosa como "Batalha do Apocalipse" e "Filhos do Éden - Os Herdeiros de Atlântida", em uma área que foi inaugurada nesta edição da Bienal, chamada "#Acampamento na Bienal". Spohr comentou sobre a percepção que a figura social do nerd possui nos dias de hoje, da sua identificação com a terminologia e seu contato com esse tipo de conteúdo de maneira rotineira. Em seguida, ele seguiu para uma sessão de autógrafos em seu novo livro, o segundo da série "Filhos do Éden", "Anjos da Morte", no estande do Grupo Editorial Record. Com mais de 600 mil edições vendidas até o momento, Spohr vem representando uma voa face do autor no mercado editorial, tendo iniciado de forma independente para conquistar de forma gradativa o mercado tradicional de livros, conforme destaca matéria do jornal "O Globo", que pode ser conferida aqui.
 
Ator vestido de Freddy Kruger tira fotos
com os visitantes do estande da editora Novo Século 
 
No estande da editora Novo Século, ainda estiveram presentes dois atores fantasiados como os personagens clássicos de filme de terror Freddy Kruger e Jason para promover os títulos do gênero terror que a editora estava lançando. Com um acabamento detalhado e uma postura bastante similar àquela dos personagens que representavam, a presença dos dois atraiu bastante atenção para o estande e muitos visitantes tiraram fotos com ambos, ou, pelo menos, aqueles que tiveram coragem tiraram.
 
O fim do evento está cada vez mais próximo, mas a quantidade de elementos a retratar ainda é grande, então, continuem conosco.

domingo, 1 de setembro de 2013

Bienal: Quatro Estações

Por Gabriel Guimarães
 

O quarto dia da 16ª edição da Bienal do Livro na cidade do Rio de Janeiro começou com muita movimentação, principalmente para os admiradores da nona arte. Com os consagrados autores Maurício de Sousa e Ziraldo se alternando entre diversos estandes ao longo do dia, o público teve a oportunidade de conhecer pessoalmente os responsáveis por muitos dos conteúdos infantis que compunham o primeiro contato deles com a leitura. Indo desde a editora Globo Livros até a editora Ave Maria, passando ainda pelos estandes da Leya e da Melhoramentos, os dois quadrinistas conseguiram alcançar uma quantidade bastante abrangente de leitores, das mais diferentes idades, gêneros e origens. Para complementar as sessões de autógrafo, Maurício ainda participou de uma sessão de Encontro com os Autores, atividade programada pelos organizadores do evento no salão Rachel de Queiróz. Em companhia de sua filha, Mônica Spada e Sousa (que foi entrevistada algum tempo atrás aqui no blog), foi comentado o feito de sua personagem Mônica ter completado 50 anos em 2013, e os projetos provenientes dessa comemoração.
 
Pouco antes, o mesmo salão fora ocupado pelos membros do canal Porta dos Fundos, que recebeu o público e fez a divulgação do livro “Porta dos Fundos”, da editora Sextante, composto pelo texto de alguns dos esquetes que viraram vídeos no Youtube. Além disso, eles comentaram sobre o planejamento minucioso feito antes do lançamento oficial do grupo online e também aproveitaram para falar de seus próximos projetos. Apesar de o grupo não estar em sua totalidade, vários dos principais humoristas do canal estiveram presentes, como Fábio Porchat, Antonio Pedro Tarbet (criador também do site “Kibeloco”), Letícia Lima, Julia Rabello, Marcus Majella, Gabriel Totoro e Luis Lobianco.
 
Kleist autografa "O Bozeador"
 No estande da Alemanha, foi realizado o lançamento da nova obra do quadrinista Reinhard Kleist, “O Boxeador”, publicado aqui pela editora 8Inverso. Acostumado a produzir graphic novels de teor biográfico, Kleist é o autor de belas obras como “Cash – Uma Biografia” e “Castro”, além de ter organizado a obra “Elvis”. Partindo para uma figura não tão conhecida como aquelas com que trabalhara antes, Kleist apresenta, em sua nova obra, a vida do boxeador polonês Hertzko Haft, que foi obrigado a lutar para entreter os nazistas no campo de concentração onde era prisioneiro. Superando as limitações que a própria cultura alemã tinha de evitar tocar em assuntos relativos ao holocausto, Kleist realizou uma pesquisa minuciosa junto aos herdeiros de Haft e compôs essa obra, que ganhou, no começo do ano, um prêmio no Festival de Quadrinhos de Lyon, um dos mais respeitados da França. O autor se disponibilizou a autografar todos os volumes que haviam sido adquiridos pelo público com uma bela arte do protagonista da história, além da sua assinatura. Planejando já seus próximos passos, Kleist deve trabalhar em seguida com outras duas obras biográficas antes de investir em um material ficcional em si.
 
Bancada do estande da SUR
Próximo ao estande da Alemanha, também, fica um ponto de considerável interesse para os fãs da arte seqüencial. O estande da SUR – Distribuidora de Livros, Jornais e Revistas em Espanhol possui uma diversidade de títulos bastante interessante de nossos vizinhos argentinos. Indo desde a tradicional “Mafalda” e a série “Macanudo”, de Quino e Liniers, respectivamente, até títulos menos conhecidos, como “Bife Angosto”, do cartunista Gustavo Sala, a área é certamente interessante e vale dedicar uma visita a ela, tanto quanto à sua vizinha da esquerda, onde fica o estande conjunto da Livraria Francesa e do Pavillon France, com títulos como “Sibylline”, de Raymond Macherot, “Les Malheurs De Sophie”, de Mathieu Sapin, e “Le Serment dês Cinq Lords”, da dupla Yves Sente e André Juillard, todas em seu idioma original. Há, também, uma boa diversidade em títulos mais conhecidos, como os da série “Asterix”, de René Goscinny e Albert Uderzo. Portanto, dentro do Pavilhão Azul é possível fazer uma jornada bastante instigante a uma pequena amostra do mercado de quadrinhos ocidental, além do tradicional referencial norte-americano.
 
O estande da editora Novo Século ainda contou hoje com uma sessão de autógrafos interessante do livro “A Última Nota”, escrito por Ana Luísa Piras e Felipe Colbert, às vésperas do lançamento do segundo livro da série Equinócio, “Polaris – O Norte”, também escrito por Ana Luísa, que estará de volta ao evento a partir de quarta-feira, dia 4 de setembro. O estande ainda contou com um cartaz de larga escala referenciando ao seriado Walking Dead, baseada na série de histórias em quadrinhos com mesmo nome. A editora publicou, há pouco tempo, um livro contando os bastidores da produção, e pretende atrair o olhar dos visitantes que estejam acompanhando o desenrolar dos personagens dessa realidade pós-apocalíptica. Vale a pena conferir.
 
O primeiro final de semana da Bienal do Livro chegou ao fim, mas ainda há muitas histórias para contar e vivenciar nos três Pavilhões do Rio Centro, onde tudo está se desenrolando. Então, caso você ainda não tenha conferido pessoalmente tudo que está acontecendo, o que está esperando? Nos vemos lá!

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Bienal: Um Novo Capítulo

Por Gabriel Guimarães
 

Hoje teve início na cidade do Rio de Janeiro a 16ª edição da Bienal do Livro. Após meses de preparo, os estandes das editoras estiveram cheios de novidades e ofertas, o que atraiu muito a atenção dos primeiros visitantes do evento, provenientes, em grande parte, de excursões escolares. Contando com áreas dedicadas às atividades onde serão realizadas palestras e sessões de autógrafos com autores dos mais diversos países, a Bienal pareceu ganhar uma dimensão nova em termos de tamanho. Um desses destaques fica por conta do espaço Mundo Ziraldo, dedicado a apresentar para os mais jovens uma porta de entrada no mundo da leitura nas obras do cartunista mineiro. Com uma área específica para apresentações teatrais e outra ala cujo projeto visa a imersão na obra de Ziraldo, “Flicts”, o espaço realmente cativa visitantes das mais diferentes idades.
 
No Pavilhão Verde, porém, é que se encontram alguns dos principais estandes para os leitores de quadrinhos e admiradores da arte sequencial. Imediatamente em frente a uma de suas portas de entrada, a Comix se tornou referência nas últimas edições do evento por sua diversidade de títulos e oportunidade de encontrar itens das mais diversas vertentes do universo nerd. Este ano, a Comix traz ainda títulos que não possuem tanta circulação no mercado tradicional, como “#Sobreontem”, fanzine preparado pelos quadrinistas que se envolveram com os protestos sociais realizados ao redor de todo o Brasil nas primeiras semanas do mês de julho. Além disso, conta com várias obras de temática instrutiva para quem deseja aprender mais do processo artístico realizado pelos desenhistas das histórias em quadrinhos, dentre os quais se destaca a bela edição “Black White – O Processo Criativo de Eduardo Risso”.
 
Foto do espaço da Devir
Igualmente interessante para os aspirantes a desenhistas e admiradores da boa arte, existe a disponibilidade do livro “Frank Frazetta – Icons”, no estande da Devir, que apresenta um pouco da vida e obra do artistas cujas capas produzidas para a revista “Conan” o consolidaram como um dos mais talentosos ilustradores de sua época. O estande ainda oferece uma boa quantidade de títulos importados de arte sequencial, com destaque para as gigantes Marvel e DC, que valem a pena ser conferidos. Há, também, duas áreas específicas em seu espaço destinadas àqueles que desejarem participar de torneios do jogo de cartas “Magic: The Gathering” ou, até comprarem seus primeiros itens deste segmento.
 
Outro grande destaque fica por conta da editora Nemo, parte do Grupo Autêntica. Contando com descontos que chegam a 25% em seus títulos da série Moebius, o estande tende a se tornar uma área consideravelmente concorrida pelos leitores de quadrinhos europeus. Além disso, a editora ainda oferece outros títulos em quadrinhos bastante interessantes, como adaptações das obras de Shakespeare, em grande parte realizadas por artistas brasileiros, e obras voltadas para públicos mais jovens, como “Força Animal”, da dupla tupiniquim Wellington Srbek e Kris Zullo.
 
No Pavilhão Azul, porém, o grande centro das atenções não ficou com o estande da Panini, como poderia se prever diante dos resultados da última edição da Bienal. O tamanho do estande parece ter sido afetado pela sua organização, e ele parece menor que em 2011. Ainda assim, ele conta com muitos títulos, de vários gêneros, contando, inclusive, com lançamentos como o terceiro título da série Graphic MSP, “Pavor Espaciar”, de Gustavo Duarte. O estande, igualmente, mantém sua tradição de ostentas modelos em tamanho real de alguns de seus personagens publicados. Os escolhidos deste ano foram Ben10, para o público infanto-juvenil, e o Super-Homem, em alusão à sua recente produção para os cinemas. O volume de pessoas que deve preencher esse estande, porém, deve dificultar um pouco a mobilidade e aumentar o tempo de espera nas filas, mas a qualidade do material posto nas prateleiras certamente compensa. Vale ressaltar títulos inéditos até então, como “Tropa dos Lanternas Verdes: O Lado Negro do Verde” e a nova série “Chico Bento Jovem”.
 
Portanto, foi um dia de muitas novidades, que, certamente, serão desdobradas ao longo do evento, mas que, desde já, oferecem oportunidades incríveis para os fãs mais diversos da nona arte. Aguardamos vocês lá!

domingo, 28 de julho de 2013

Laços Encontrados

Por Gabriel Guimarães


No final de 2011, os estúdios MSP anunciaram uma coleção especial de quatro títulos isolados, que apresentariam os personagens pertencentes ao estúdio através dos olhos e estilos de artistas em ascensão no cenário editorial brasileiro selecionados a dedo. Tratava-se do selo editorial Graphic MSP.
 
Contando com a alta expectativa que se aglomerava durante a Feira Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte, onde o anúncio aconteceu (o qual foi coberto aqui no blog), o editor Sidney Gusman deu um pequeno vislumbre do que estava por vir nos anos seguintes, contando apenas com uma imagem ilustrativa definindo de que se trataria cada obra do conjunto. Utilizando de estratégia similar àquela implementada na divulgação da trilogia "MSP50" (que foi observada de perto aqui no blog), Gusman manteve o público atento conforme ia liberando teasers das páginas de quadrinhos através das redes sociais nos meses seguintes.
 
Ano passado, em 2012, foi lançada a primeira edição desse projeto, "Astronauta: Magnetar", pelo traço do desenhista paulista Danilo Beyruth. A obra, que inaugurou com brilhantismo a série, narrou um episódio protagonizado pelo personagem Astronauta, originalmente criado por Maurício de Sousa em 1963, dando-lhe, porém, um maior tom de ficção científica e de suspense do que lhe era habitual. Mantendo os elementos característicos do material original, Beyruth apresentou uma história intrigante e envolvente, aproveitando até, em determinado momento, para referenciar o seu próprio personagem, o Necronauta, na trama do hábil explorador do espaço sideral. Tendo conquistado tanto a crítica quanto os leitores, a história não apenas se tornou um dos quadrinhos mais vendidos do ano e um dos destaques editoriais daquele ano.
 
Em maio deste ano, foi lançado o segundo título das Graphic MSP, com um elemento a mais válido de gerar expectativa: o aniversário de 50 anos de uma das personagens mais importantes da obra e a principal protagonista do universo de personagens criados por Maurício de Sousa em toda a sua carreira, a Mônica. Com teor mais lúdico, "Laços", produzido pelos irmãos mineiros Vitor e Luciana Caffagi, ganhou as prateleiras e os corações daqueles que vieram a conhece-lo. E é sobre essa obra que vamos discorrer, de fato, a seguir.
 
Ambientada no pacato bairro do Limoeiro, cenário tradicional das histórias da turma da Mônica, a obra dos irmãos Caffagi procura trabalhar questões inerentes ao período em que os personagens principais se encontram, ou seja, a infância, e as diferentes percepções de mundo e de certos conceitos como amizade e lealdade existentes nesta etapa de vida.

Logo de início, há uma construção narrativa muito interessante a se ressaltar: Apesar de serem elemento comum na formação do leitor brasileiro há várias décadas, há uma apresentação sutil, todavia, clara, dos quatro personagens principais da trama - Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão -, além de referenciar outros personagens secundários que tiveram papel interessante no passado. Logo em seguida, porém, a história adentra em sua verdadeira trama: o desaparecimento do cachorro Floquinho, pertencente ao personagem Cebolinha. Conhecido por seus planos mirabolantes para ser o menino mais respeitado da região, ele vê sua confiança abalada pela perda de seu fiel bicho de estimação, cujo primeiro contato foi belamente retratado pelo traço simplesmente poético de Luciana Caffagi (cujo trabalho junto ao grupo Lady's Comics já foi comentado aqui no blog).

Cena em que Cebolinha vê Floquinho pela primeira vez,
no traço da desenhista Luciana Caffagi 
Convencido pelos demais amigos a não desistir tão fácil da esperança de reencontrar Floquinho, Cebolinha orquestra uma estratégia para guia-los, a qual eles seguem de forma determinada. Com o passar do tempo, porém, eles se deparam com um grupo de garotos de outra rua, que ridiculariza o ato do grupo. Vale destacar que esses personagens são referências óbvias a outra turma de personagens de quadrinhos reconhecidos mundialmente, a turma da Luluzinha e do Bolinha (que já foram observados anteriormente aqui no blog). Respondendo com autoridade, a turma da Mônica consegue com os garotos a informação para o próximo passo na jornada atrás do Floquinho e decide visitar o Parque das Andorinhas, onde fora visto mais cedo. O grupo se prepara, pega os recursos de que podem vir a precisar e partem para a ação.

Deste ponto em diante, comentar detalhadamente seria privar os leitores de deliciar essa obra com a maestria com que ela foi produzida, entretanto, alguns comentários ainda são pertinentes. O traço cuidadoso de Vitor Caffagi se destaca em diversos momentos ao longo da história, ressaltando seu dom para a narrativa nostálgica com que produziu muitas de suas histórias no passado, como "Puny Parker" e "Valente" (o artista já foi comentado aqui no blog). O volume de detalhes preciosos também é algo digno de nota, com o fato de que, nas histórias em quadrinhos tradicionais dos personagens, o único deles a usar sapatos é o Cebolinha, e a forma como isso é sutilmente abordado no decorrer da trama; e o clima de filme clássico dos anos 1980, como "Goonies" e "Conta Comigo", sentido na obra como um todo também é sublime, sensibilizando ao mesmo tempo em que entretêm.

Cena emblemática dos personagens como guerreirinhos
do bairro do Limoeiro
 
Procurando, dessa forma, as raízes dos elos que uniram os quatro personagens principais, é apresentado ao leitor uma bela história de amizade e confiança que certamente gerará uma leitura agradável e de fluidez pautada pelo fluxo de emoções experimentadas pelos personagens. Diferente dos garotos perdidos companheiros de Peter Pan, os personagens de Maurício encontraram, nas mãos dos irmãos Caffagi, uma boa morada e um laço de apoio fraternal difícil de encontrar na indústria de quadrinhos, à exceção de poucos casos como os dos gêmeos paulistanos Fábio Moon e Gabriel Bá, e dos irmãos norte-americanos Adam e Andrew Kubert.

A leitura, afinal, é altamente recomendada, e o título tende a ser um dos mais vendidos do ano, uma vez que, ainda em seu segundo mês disponível nas bancas e livrarias, já se encontra na segunda tiragem.

NOTA GERAL: 5 ESTRELAS.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Entrevista: Flávio Teixeira de Jesus

Por Gabriel Guimarães


Ao longo de mais de 23 anos, o roteirista Flávio Teixeira de Jesus tem desempenhado um papel de grande destaque no cenário brasileiro de histórias em quadrinhos. Responsável por uma grande quantidade de estórias publicadas nas revistas produzidas pelos estúdios MSP, desde aquelas da turma da Mônica até as peripécias do jovial Rolo ou as aventuras do fantasma Penadinho, Flávio tem ajudado a preencher sonhos e brincadeiras de leitores brasileiros de todas as idades.
 
Com um bom humor que é marca registrada de sua personalidade, Flávio inaugurou em 2011 seu próprio blog, o Aquarium Nerd, onde contou algumas de suas experiências na indústria de quadrinhos, com direito a fotos dos bastidores da construção do primeiro Parque da Mônica, em São Paulo. Mais presente nas redes sociais como Facebook e Twitter, porém, ele se tornou figura ilustre e sempre presente na timeline daqueles que acompanham as novidades da arte sequencial, com informações recém saídas na mídia e montagens de grande poder humorístico. A quem tiver interesse em segui-lo nestas duas redes, seu perfil pode ser acessado aqui e aqui, respectivamente.

QUADRINHOS PRA QUEM GOSTA - Qual foi seu primeiro contato com as histórias em quadrinhos? Qual o papel que elas tiveram na sua formação?

 
Flávio Teixeira de Jesus - Acredito que o meu primeiro contato com quadrinhos foi realmente com a própria Turma da Mônica, no jornal "Folhinha de São Paulo". Ali, eu via as historinhas dos personagens de Maurício e aquilo foi me instigando até o ponto de começar a pedir cadernos de desenho pros meus pais. Uma vez em mãos, eu não conseguia parar mais de desenhar, criar histórias. Eu digo que toda criança desenha mas, em algum ponto da sua vida, muitas acabam parando, se interessando por outras coisas. Quem não para, começa a desenhar em papel de pão, na parte de trás dos blocos de nota fiscal do pai, entre muitas outras possibilidades. Ou seja, ainda que isso não seja necessariamente determinante, acaba proporcionando grandes chances de a criança vir a se tornar artista de quadrinhos no futuro. (risos)
 
A Folhinha de São Paulo me instigou tanto na minha formação que, em 1975, quando ainda tinha 7 anos de idade (curiosamente a idade dos personagens que tanto me fascinava, olha só), resolvi fazer um desenho pra uma sessão chamada "FUTURO ARTISTA". Era uma historinha de 4 quadrinhos de um personagem meu, chamado Pirata Azarado. Mal sabia eu que, 15 anos depois, eu seria um artista da turma da Mônica.
 
Você lembra em que momento da sua vida você tomou a decisão de ser roteirista de quadrinhos e o que o levou a isso? Se sim, qual foi?

Na verdade, eu sempre quis ser desenhista, mas sempre usei minha criatividade criando histórias, personagens, jogos... Só não sabia que existia uma profissão específica para essa etapa de criação, chamada "roteirista". Eu comecei trabalhando com desenhos de estampas pra camisetas, depois fui para um grande estúdio de animação, fazendo clean-up e storyboard. Até então, não trabalhei em nada relativo aos roteiros. Com o Plano Collor, entretanto, fui mandado embora do emprego que tinha na época, e um grande amigo meu, Marcos Félix, me indicou para ir fazer um teste na Mauricio de Sousa Produções, pois achava que eu tinha bastante criatividade e lá seria o melhor lugar para mim. Segui o seu conselho, mas tentei a área de animação do MSP. O Kanton, outro profissional que trabalhava lá, viu meu material e falou que eu devia tentar me candidatar para o setor de roteiro. E assim eu fiz. Preparei várias páginas e um dia o Mauricio em pessoa me chamou e lançou o desafio de fazer 60 paginas aprovadas por mês. Eu topei e, conforme mais eu ia criando, mais feliz ficava, pois tinha encontrado meu propósito. Era isso que eu queria desde o começo, mas não sabia o nome: Roteiro. Eu me encontrei na profissão e me sinto, hoje, um grande privilegiado.
 
Quando tomou essa decisão profissional, encontrou alguma resistência (familiar, dos amigos, de uma namorada, de si mesmo...)?
 
Na verdade não. Meus pais sempre foram um grande suporte pra mim, aliás, toda minha família sempre me incentivou (e ainda incentiva, comemora junto e torce por mim), o que é muito bom, revigorante, maravilhoso e essencial.
 
Você trabalha há mais de vinte anos no estúdio de quadrinhos mais prestigiado do país. Como você se sente fazendo parte disso tudo? Como é o seu cotidiano lá?
 
Fazendo parte dessa grande história, eu me sinto extremamente honrado e muito feliz por contribuir um pouco com ela. Eu me sinto muito realizado em poder fazer algo que amo e sou muito dedicado no que eu faço. Essas emoções passam para o meu trabalho e acho que passam para o público também! Esse retorno que tenho com os fãs da turma da Mônica não tem preço e só me faz ter a certeza de que estou no caminho certo. Tudo isso só me dá forças pra melhorar cada vez mais e mais!
Quanto ao meu cotidiano, ele é composto de muita pesquisa antes de começar um roteiro. Se é de uma paródia de um filme ou um livro, tenho que ler, rever, fazer anotações. Depois, sento e começo a ver como aquilo se encaixa no universo da Mônica com os cuidados que devo ter. Então, vem a parte gostosa de escrever, soltar a imaginação, procurar referências nerds (que quase sempre ponho em minhas histórias) e, uma vez concluída essa etapa, com tudo preparado com início, meio e fim, tem início a revisão, que passa a limpo o material. Admito que, com essa revisão, acaba surgindo novas mudanças, em função de novas ideias, o que gera uma nova revisão e assim por diante. (risos) Daí, quando tudo acaba, vai para a mesa do Mauricio e, quando aprovada, começa meu desafio com os desenhistas e o resto da galera, porque sou exigente com o material. Assumo que sou chato com relação ao meu trabalho, para que tudo saia o mais perfeito possível.
 
Você é sempre reconhecido por sua vasta bagagem de cultura popular, que você constantemente transmite para suas histórias. De onde veio essa sua característica particular?
 
Isso é bastante interessante. Veio com o tempo, acho. Eu sempre curti essa coisa de cultura nerd. Com o tempo, fui colocando mais nas histórias que escrevia. A saga da "Tina e os Caçadores de Enigma", tinha bastante disso e o legal é que, no fim das revistas, vinham algumas explicações de onde estavam essas referências. Hoje, coloco muito em algumas historias da série "Clássicos do Cinema" e os leitores atentos já identificam. Até aqueles que não conhecem, acabam ficando instigados a procurar mais sobre aquilo na internet, o que é maravilhoso.
 
Há algum personagem específico com o qual você prefira trabalhar?

Complicado isso! Eu sempre digo que, se o Mauricio é o Pai, eu sou um padrinho zeloso de todos! Começaram até a  brincar aqui no MSP, me chamando de Poderoso Padrinhão (risos). Mas o fato é que tenho bastante carinho pelo quarteto extraordinário (Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali) e um especial também pela Dona Morte (minha primeira historia que saiu foi com ela). Por isso, fica a dica para prestar uma atenção especial nela, que sempre que posso eu a coloco fazendo uma participação especial. Ultimamente, tenho brincado muito também com o Louco, o Xaveco e o Bugu .


Quadrinho da história produzida por Flávio para o álbum
"Ouro da Casa MSP", publicado ano passado
Você já se tornou parte do universo de personagens do MSP como primo do Rolo há vários anos. Como é a experiência de ser imortalizado nas páginas da turma da Mônica?

Nossa, deu até um frio na espinha quando você falou "imortalizado". Eu nunca pensei assim, aliás, nem achava que as pessoas lembravam do primo Flavio que o Rolo tinha. Aquilo foi uma brincadeira do Robson (um dos mais antigos roteiristas da casa) e que rendeu algumas historias. Eu mesmo fiz uma comigo mesmo, o que é estranho! (risos) Esse tipo de brincadeira é comum por aqui. O João, outro roteirista dos estúdios, me transformou num Pokémon certa vez, e até eu mesmo já me fiz numa versão cachorro. Na verdade, nós, roteiristas, quando não aparecemos assim, acabamos até fazendo uma ponta como nós mesmos. Fico realmente feliz de fazer parte deste universo tanto do lado de fora quanto de dentro da revista. É uma honra. 
 
 
Você esteve bastante ligado ao projeto do Parque da Mônica, certo? Como foi isso? Que papel você desempenhou nessa grande etapa da consolidação da marca Mônica dentro do Brasil?
 
Sim, fiz parte do time criativo que criou os parques de São Paulo, Curitiba e Rio de Janeiro. Fui chamado com o Robson para criarmos juntos com Mauricio e Alice o conceito do Parque da Mônica. Eram varias reuniões desenvolvendo as áreas temáticas de acordo com os personagens e as limitações técnicas que eram impostas pelos engenheiros. Íamos visitar os estúdios que faziam os moldes do carrossel e dar consultoria técnica. Foi uma época agitada e bem divertida. Aquilo depois se estendeu e se desdobrou com as revistas, as peças temáticas, além de shows e desenvolvimento de cartazes e produtos relacionados. Foi uma experiência magnífica e um grande aprendizado.
 
Você é um ferrenho usuário das redes sociais para interagir com seus fãs. Como você vê a internet e as redes sociais na nova estrutura editorial das HQs? A sua experiência nesse sentido tem sido positiva?

A interação com os fãs é sempre maravilhosa e podemos ver o que funciona e o que precisa ser corrigido, ou até mesmo mudado. A internet é uma ferramenta poderosa. Acho o contato com a internet sempre benéfico, desde que se saiba utilizá-lo. É uma questão de saber usufruir sem se tornar escravo dela. A internet é como uma ótima biblioteca de referência, de conhecimento e de debates. É preciso ter discernimento, cautela e respeito. Editorialmente, é muito boa também, pois você sente o público e o mercado com que você está lidando, além de saber o que acontece em outros mercados do planeta e o que pode ser tendência. Como disse, é uma ferramenta poderosa: basta saber usá-la e usufruir com respeito.
 
Para finalizar, quais são os planos do estúdio MSP para homenagear a Mônica neste ano em que ela completa 50 anos? Há algum projeto em desenvolvimento que você possa compartilhar conosco?

Este ano será o ano da Mônica. Já estamos desenvolvendo isso há algum tempo com várias ações que acontecerão ao longo do ano. Nunca foi feito um planejamento assim neste nível antes na empresa, por ser algo grandioso mesmo. Projetos? Sim, temos vários, mas, como você sabe, não posso falar nada ou me arrisco a levar uma coelhada, entende? (risos)

sexta-feira, 1 de março de 2013

Entrevista: Mônica Spada e Sousa

Por Gabriel Guimarães


Talvez seu nome completo não seja tão familiar aos leitores comuns de histórias em quadrinhos, porém, o papel que esta grande profissional desempenhou na história dos quadrinhos é inquestionável e universal. Um ano antes de nascer, seu pai trabalhava num jornal como repórter do caderno policial, mas sempre mantinha vivo o desejo de se tornar um desenhista de grande sucesso dentro do Brasil. Com o tempo e muito trabalho árduo, as oportunidades surgiram e finalmente sua primeira história foi publicada, na edição do dia 18 de julho de 1959 do jornal "A Folha da Manhã". Estava iniciada a carreira do maior quadrinista brasileiro, Maurício de Sousa. Quatro anos depois, com o crescente sucesso de seus personagens, geralmente inspirados em amigos de infância que tivera no decorrer da vida, o desenhista resolveu homenagear uma de suas filhas, batizando uma personagem com o nome desta. E foi assim que, aos 3 anos de idade, a Mônica viu sua versão cartunesca ganhar as tiras de quadrinhos publicadas ao redor do país. Com o passar dos anos, a personagem ganhou cada vez mais importância, sendo protagonista de uma revista própria a partir de 1970, porém, muitos esquecem da pessoa que inspirou-a em seu momento primordial.


Mônica, Maurício e as duas versões do
Sansão verdadeiro

Mônica Spada e Sousa usava de fato vestidinhos vermelhos quando era pequena, além de carregar seu coelhinho Sansão para todos os lados. Originalmente amarelo, a cor que caracterizou a versão quadrinizada deste elemento tão fundamental da infância da filha de Maurício foi mudada, de fato, apenas tempos depois de sua criação, a partir de um presente dado pela apresentadora de televisão Hebe Camargo, que ofereceu um novo mascote azulado à pequena Mônica, com a condição de que este não fosse utilizado para bater nos amiguinhos. O tempo continuou passando e, diferente do que acontece dentro das margens das páginas de quadrinhos, a pessoa Mônica cresceu, virou adolescente, entrou para a faculdade e iniciou sua própria jornada de grande empenho para construir uma carreira sólida e inquestionável. Hoje diretora do setor comercial do estúdio presidido pelo pai, o MSP, a Mônica que foi fonte de grande inspiração durante sua infância permanece uma pessoa incrível e uma profissional exemplar, que, muito atenciosamente, nos deu a grande oportunidade de entrevista-la para conhecer um pouco mais da pessoa por trás da figura mundialmente reconhecida de sua versão infantil.

QUADRINHOS PRA QUEM GOSTA - Como é que foi para você ver a personagem que levava seu nome ganhar tanto destaque no Brasil e no resto do mundo?

Mônica Spada e Sousa - Quando eu era criança, meu pai trabalhava na prancheta de casa, junto com algumas pessoas que já o ajudavam. Eu e minhas irmãs sempre víamos ele desenhando a Mônica, o Cebolinha, o Cascão, entre muitos outros, que era ele mesmo quem fazia todo o processo de criação na época e, para nós, parecia tudo muito normal. Aqueles personagens eram nossos amiguinhos de infância de verdade. Então, quando meu pai foi convidado para ir no programa da Hebe Camargo, ele me levou junto. Eu tinha cinco anos e foi ali que eu percebi que a Mônica era, realmente, eu (risos). Eu gostei muito dessa época, mas não entendia ainda a importância disso por conta de ser tão nova. Pouco depois desse dia, porém, quando eu comecei a frequentar a escola e meu pai passou a aparecer lá, como ele também fazia com as escolas das minhas irmãs, e as pessoas reconheciam ele, eu comecei a entender a importância que a personagem Mônica e o que meu pai estava fazendo, de fato, tinham.

Você se lembra da época em que a personagem Mônica surgiu?

A personagem apareceu em uma tirinha do Cebolinha em 1963, então, eu ainda tinha dois para três anos, portanto, sinceramente, não lembro (risos).

Atualmente, você ocupa um cargo de grande destaque dentro do estúdio MSP. Como é o seu trabalho, exatamente?

Eu sou diretora comerical daqui. Entrei como vendedora da lojinha da Mônica na década de 1980, depois fui crescendo e fui para a área de gerenciamento de produtos. Com 40 anos, me tornei diretora do departamento comercial, que é o responsável pelo licenciamento de todos os produtos da "Turma da Mônica". O departamento comercial realiza toda a procura por produtos que possam ser interessantes de lançar com a presença da marca "Mônica", logo, eu tenho uma equipe grande de funcionários que trabalham comigo, que é composta de funcionários que vão desde o marketing comercial até o setor jurídico, que cuida dos contratos que fazemos com as firmas que se tornam nossas parceira, passando pelos designers que criam as embalagens e caixas para os materiais.

Ao longo dessa sua carreira no setor comercial, você sentiu que havia alguma diferença de tratamento quando percebiam que você era "A" Mônica?

Muito. Houve reuniões em que eu estive onde as pessoas não conseguiam falar comigo (risos). Quando elas chegam para mim e dizem que não conseguem falar comigo porque eu sou a Mônica, eu acho muito engraçadinho (risos). Eu me divirto bastante com isso (risos).

 
Continua acontecendo muito disso até hoje?

Já aconteceu várias vezes. Às vezes, as pessoas ficam um pouco quietas, em silêncio, no começo, os olhinhos ficam brilhando, como se estivessem vendo alguma coisa mágica de verdade (risos). Aí, depois, vão acostumando. Mas teve um em especial, há pouco tempo, de um rapaz que trabalha conosco na construção da lojinha da "Turma da Mônica" na internet, que se chama Bruno. Ele não conseguia falar comigo. Foi a pessoa mais interessante que eu já conheci, porque depois de um tempo, me disse que o sonho dele era conhecer o Didi, o Paul McCartney e eu (risos). Fiquei realmente me sentindo privilegiada por ser parte da elite dele (risos).

Você teve alguma influência no conteúdo da Turma da Mônica Jovem?

Na Jovem, não. É a juventude de hoje. A minha juventude foi diferente. Só tive um papel maior na Mônica clássica mesmo.

O que você achou do casamento entre a Mônica Jovem e o Cebola?

Eu adorei a história. Achei que foi legal porque foi praticamente uma viagem no tempo. Eu acho que o destino da Mônica e do Cebolinha era o casamento mesmo. Até porque eles sempre se provocavam e, quando há tantas brigas assim é porque há algum sentimento mais forte por trás. Não sei como é que vai ficar depois de tanta coelhada isso (risos), mas, por enquanto o casamento é legal por realmente sentir que é algo do destino deles.

Quais as características da personagem Mônica que você reconhece em si mesma até hoje?

O gênio (risos). Não levo desaforo para casa, brigo pelo que quero. Eu também sou fisicamente baixinha, sou meio gordinha (risos). Sou muito ligada aos meus amigos também, ajudando-os sempre como posso. A Magali (a irmã, que também originou a personagem homônima) é minha melhor amiga. Acredito que sejam nesses aspectos que ainda sou muito parecida com a Mônica dos quadrinhos.