Por Gabriel Guimarães
Seja no trovadorismo, no romantismo ou mesmo na pós-modernidade, a poesia sempre esteve presente na literatura. Por rima, tom lúdico e melódico, ou mesmo uma estética atípica e instigante, a essência da poesia sempre esteve no desejo mais profundo do ser humano, de almejar sonhos grandiosos e inspirados. Ao lidar com temas relativos ao cerne das emoções, passando pelas grandes aventuras e intensas paixões, esse gênero literário se consolidou como um dos mais belos e dos mais importantes para a complitude de uma vida textual para o leitor.
| Mario Cau autografando uma das edições de "Nós - Dream Sequence Revisited" |
Esteja presente nas cartas de amor do escritor Mark Twain para sua esposa Olivia Langdon, ou mesmo nas canções inesquecíveis do gênero musical da Bossa Nova, que se consolidou como melodia na década de 1960 na cidade do Rio de Janeiro, o amor tem sido, talvez, o grande desencadeador de poesias, e isso também pode ser encontrado nos quadrinhos. Histórias como "Meu Coração, Não Sei Por Quê", dos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, e a edição especial "Nós - Dream Sequence Revisited", do talentoso quadrinista Mario Cau (cujo lançamento na Rio Comicon de 2010 foi comentado aqui no blog), são alguns exemplos disso. Apesar de apresentarem tramas diferentes, ambas dançam com as emoções do leitor, trazendo-o para dentro do universo dos personagens e tornando-o parte fundamental da história, como o responsável por dar vida aos traços de nanquim em uma simples folha em branco. Brincando com a cor, inclusive, é que Cau explicita o vínculo de seu protagonista com seu amor, e brincando com a densidade da arte-final, por sua vez, os gêmeos também convidam o leitor a considerar o amor em meio à fantasia que compõe o mundo de sua história.
![]() |
| Representação do próprio Norman Rockwell sobre a produção de sua arte |
Entretanto, não é apenas ao romance amoroso que se resume a poesia. Seja por um pequeno detalhe em meio ao turbilhão de informações ao redor da vida social nos dias de hoje ou mesmo por uma reflexão momentânea e inesperada acerca de memórias, estamos sempre sob o efeito daquilo que esse gênero mais se preenche: sentimento. Praticamente tangível na sensibilidade do trabalho de Will Eisner quando este expõe a vida cotidiana nas grandes metrópoles e as relações entre as construções e as pessoas, que pode ser visto com grande perspicácia, por exemplo, em sua obra "O Edifício", a poesia pode estar presente tanto na nossa relação com o exterior a nós, quanto em momentos de intimidade e aconchego, como é possível observar nas ilustrações familiares do artista que tornou marcante visualmente o âmbito familiar, Norman Rockwell.
![]() |
![]() |
| A semelhança é nítida entre Neil Gaiman e o protagonista de sua grande história |
Igualmente importante é destacar a porta que a poesia nos abre para a fantasia do imaginário. Desprendido de sensos e consensos, em poucas linhas, retas ou tortas, o gênero pode nos levar muito além dos limites da visão e ampliar, dessa forma, nossas capacidades sensoriais de forma primorosa. Poucos se comparam nesse quesito ao do roteirista britânico Neil Gaiman, com sua obra máxima "Sandman", cuja abordagem e propriedades limitam-se apenas por aquilo que nomeia sua própria forma de apresentação: os sonhos. Lógicos ou não, agradáveis ou aterrorizantes, Gaiman realiza um mergulho na fonte da humanidade de seus personagens, atraindo para as páginas de suas histórias todas as características fundamentais de sua composição, desde seus desejos até suas falhas, suas glórias e decepções. Além dessa obra, Gaiman já explorou seu potencial narrativo de diversas outras maneiras, sem jamais, porém, abandonar sua mirabolante paixão pela fantasia. Obras como "Stardust" e "Coraline" são grandes exemplos disso.
![]() |
| Cena do trabalho de George Pratt sobre as memórias da Primeira Guerra Mundial |
Em outro aspecto passível da formação da poesia, encontra-se um estilo quase difícil de compreender sua exata conexão com o tema, representado na epopéia, grande formato das poesias épicas, em geral, cujo tema é relacionado a grandes aventuras épicas e envoltas em aspectos morais. Possível de encontrar em recentes adaptações da literatura para os quadrinhos, como o clássico "A Odisséia", de Homero, adaptado por Christophe Lemoine e Miguel Lalor Imbiriba, publicado recentemente numa excelente fase da editora L&PM aqui no Brasil, a partir de apoio da Unesco, ou mesmo em histórias sobre redenção e conflito durante as grandes guerras, como é o caso da edição "Ás Inimigo - Um Poema de Guerra", do quadrinista George Pratt, a poesia épica também oferece grandes oportunidades de enriquecimento pessoal para seus leitores.
Apesar da extensão para a poesia além das palavras feita aqui, o núcleo desse gênero que tanto nos toca vai além de determinados suportes, parando apenas onde nossa percepção e imaginação nos permite associar. Seja no leve assobio dos pássaros ou mesmo na suavidade de um beijo, a poesia se faz presente em cada dia das nossas vidas, e jamais podemos tampar nossos ouvidos ao seu maravilhoso chamado para, mais uma vez, vivermos intensamente tudo aquilo que ela tem a nos oferecer, ainda que seja apenas eterno enquanto dure.
















































