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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

O Editor Mais Rápido do Velho Oeste

Por Gabriel Guimarães


Responsável por momentos marcantes nos quadrinhos de aventura e ficção mundiais, o editor italiano Sergio Bonelli, hoje, se tornou o centro das atenções para os admiradores da arte sequencial por uma razão diferente do tradicional reconhecimento por seus incontáveis anos de dedicação e empenho no mercado editorial. Neste dia 26 de setembro, aos 78 anos, Bonelli partiu em direção ao seu Velho Oeste pessoal, onde viverá as aventuras que tantos de seus memoráveis personagens já protagonizaram.


Desenho de Bonelli, num estilo similar
aos de seus personagens
 Fosse como roteirista de histórias como Dylan Dog, Zagor, Nathan Never, Julia Kendall e Mágico Vento, ou como editor principal da maior criação de seu pai e grande herói do faroeste em quadrinhos, Tex, Bonelli sempre se destacou por sua diversidade na abordagem de tramas, que iam desde o sobrenatural até o mais tenro e puro drama humano.

Grande responsável pela editora Sergio Bonelli Editore, lar de todos os seus personagens, Bonelli contribuiu de forma determinante para o desenvolvimento dos quadrinhos italianos, e a formação de um público leitor que, diferente de em muitos pontos do mundo, ganhava uma diversidade de tons e estilos para adaptar a seus gostos pessoais de leitura e identificação. Sempre presente no Congresso Internacional de Histórias em Quadrinhos, na cidade de Lucca, Bonelli sempre deixou clara sua paixão pela arte sequencial, e sempre procurou novas formas de expandí-la.


Animação de Martin Mistery, adaptação
dos quadrinhos de Martin Mystére, de Bonelli

Há alguns anos, foi feita uma tentativa de levar um de seus personagens, Martin Mystére, para a animação, num estilo que tentava atrair o público mais jovem, porém, com tramas mais carregadas de suspense e mistério, porém, a série não teve uma duração muito longa, e terminou pouco tempo depois de começar. Em 2011, outro de seus protegidos foi alvo de adaptação, desta vez, para o cinema, no filme "Dylan Dog", protagonizado pelo ator Brandon Routh, já conhecido do público de quadrinhos pela sua interpretação de Superman no último filme feito do Homem de Aço, e pela sua atuação como Todd Ingram, o vegan membro da Liga de Ex-Namorados do Mal, na adaptação da história em quadrinhos "Scott Pilgrim Contra o Mundo" para as grandes telas. O filme não teve uma divulgação muito efetiva aqui no Brasil, e passou em poucas salas de cinema, concorrendo com muitos filmes de grande visibilidade para os espectadores.

Bonelli deixa para trás um legado de imensa importância e uma história que merece ser lembrada e gravada na história dos quadrinhos enquanto meio de comunicação mundial. Muitos quadrinistas e sites prestaram homenagem ao grande mestre dos fumetti, com destaque para a obra de arte produzida pelos estúdios de Maurício de Sousa, envolvendo todos os personagens criados e/ou representados por Bonelli.

Como todo bom filme de faroeste, Bonelli agora corre em direção ao pôr do Sol, em cima de seu cavalo, tão viril como ele, e cujos músculos comprimem e expandem, pela energia do momento, apenas para que ambos possam parar em frente ao horizonte, muito além de onde nossa vista de fato alcança, para erguerem-se, juntos, e mostrar seu espírito de aventura. E nós, com certeza, jamais esqueceremos a história e as estórias do editor mais rápido do Velho Oeste. Obrigado, Bonelli.

Homenagem dos Estúdios Maurício de Sousa
a Sérgio Bonelli


quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Veni, Vidi, Vecchi

Por Gabriel Guimarães



Há quase um mês, os quadrinhos brasileiros perderam um grande nome que está na história do gênero no país. Após uma longa carreira trabalhando na filial brasileira da editora italiana Vecchi, que pertencia à sua família e fora originalmente fundada por seu homônimo tio, Lotário Vecchi teve grande importância para a formação do vasto material em quadrinhos publicado aqui no decorrer do século XX.

Inaugurada no Brasil em 1913 através do imigrante italiano Arturo Vecchi, a editora só começou a se envolver com os quadrinhos na década seguinte, ao publicar revistas voltadas para o público infantil, como "Mundo Infantil", e pequenas novelas gráficas em forma de folhetim. Entretanto, foi a partir do final da década de 1960 que seu papel começou a ganhar mais importância no cenário da arte sequencial no país, quando o filho de Arturo e homem a quem esta matéria visa homenagear, Lotário Vecchi, assume a dianteira dos negócios da editora.

Optando por transformar a editora em uma produtora exclusiva de periódicos, Lotário cancelou a linha de livros que eram lançados pela Vecchi e trouxe para os títulos publicados o herói de faroeste italiano Tex, que formou um público fiel muito forte nas terras tupiniquins. Em 1973, aconteceu um fato que foi determinante para a editora alcançar a posição que ostenta na história do mercado editorial de quadrinhos, quando Lotário contratou o ainda jovem Otacílio d'Assunção Barros para participar do setor de quadrinhos da editora. No ano seguinte, quando a revista "MAD" foi, enfim, publicada no Brasil, foi esse jovem que assumiu muitas das responsabilidades por estruturar a sua publicação, sob o seu novo nome artístico, Ota.

Lotário tentou atrair o público com diversos personagens publicados na revista "Eureka", que enfrentou uma série de problemas tanto em termos de composição, já que trazia histórias de personagens que já não possuíam tanto apelo junto ao grande público, como Pafúncio e Pinduca, quanto judiciais, quando se descobriu que o título da revista já era registrado para uma pequena publicação de palavras cruzadas, a qual depois foi comprada pela Vecchi. Entretanto, através da persistência do editor, que adquiriu alguns personagens da extinta revista "O Cruzeiro", como Gasparzinho, para competir com as grandes publicações da época, em especial as da editora Abril.

Com o sucesso dessa nova empreitada e o estouro de vendas provocado pela "MAD", a editora foi crescendo sua participação no mercado de quadrinhos no Brasil, e foi a responsável por lançar os Strunfs, criados pelo belga Peyo, que mais tarde viriam a ser chamados de Smurfs (sobre a publicação destes e sua história nos quadrinhos, recomendo este artigo de um de nossos grandes parceiros de quadrinhos, o blog "O X da Questão"). A editora começou a se aventurar nos quadrinhos de terror, e se tornou uma das grandes editoras do gênero no país, com histórias que facilitavam a identificação com o público, com personagens nacionais e histórias ambientadas no território brasileiro, como a revista "Spektro".


Edição da MAD publicada pela editora Vecchi

Entre as outras publicações da editora, estavam Zagor, Ken Parker, Spirou e Fantasio, dentre uma enorme gama de outros. Na década de 1980, porém, a editora passou por uma crise interna, resultado do endividamento com a compra de uma gráfica na Avenida Brasil, no Rio de Janeiro. Com as dificuldades de pagamento, muitos artistas acabaram migrando para as demais concorrentes, e Lotário, após se desentender com suas irmãs, que também participavam da gerência da editora, decidiu se afastar dos negócios, tendo o apoio de Ota, que levou consigo a publicação da "MAD". Com todos esses problemas, a editora fechou as portas em 1983, porém, seu lugar na história dos quadrinhos nacionais permanecerá para sempre, tal qual Lotário Vecchi, que tanto investiu na produção das linhas de quadrinhos.
Edição dos Strunfs, depois renomeados
de Smurfs, publicada pela Vecchi

Para quem tiver interesse em ler um depoimento pessoal do próprio Ota sobre sua experiência na Vecchi e com Lotário, fica a recomendação para este artigo publicado no blog Bigorna.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

3 Anos!

Por Gabriel Guimarães


Hoje é um dia de muita alegria para o blog Quadrinhos Pra Quem Gosta, pois, após muito trabalho e dedicação, o blog enfim alcança a marca de três anos de existência. Iniciado em setembro de 2008, o blog começou devagar, andando ainda de forma a encontrar seu exato rumo, a fim de cumprir seu grande papel: de permitir uma discussão mais aberta sobre esse meio de comunicação que todos aqui respeitamos e admiramos, as histórias em quadrinhos.

Contando com trabalhos de faculdade e matérias que visavam abranger o máximo possível de nuances e gêneros que poderiam ser dados à arte sequencial, o blog foi crescendo, amadurecendo, e tomando a forma que tem hoje, onde o contato entre nós e o público leitor é um dos elementos mais importantes de nossa identidade.

Foi por essa razão que, há cerca de um mês atrás, foi iniciado aqui no blog o "Concurso Cultural Quadrinhos Pra Quem Gosta", para que, dessa forma, existisse a possibilidade de retribuir aos leitores que tanto ajudaram na formação de toda a estrutura do blog e que permitiu a contínua expansão do mesmo.

Foram recebidas muitas incrições, tanto de parceiros já comuns do blog, quanto de novos leitores, e fica, desde já, um sentimento de agradecimento imenso a todos vocês. No futuro, certamente, haverão outras oportunidades para que todos os que não conseguiram vencer dessa vez participem novamente.


É, hoje, portanto, nesta data extremamente especial, que venho informar os autores das respostas mais criativas para as perguntas  "Qual a sua matéria favorita do blog Quadrinhos Pra Quem Gosta? E por quê?""O que as histórias em quadrinhos representam para você?", com seus respectivos prêmios:

1º LUGAR:

"Embora tenha adorado a série de matérias Os Dez Acontecimentos Que Mais Marcaram as Histórias em Quadrinhos na Década, pelas discussões que criaram e pelo assunto abordado, me interessei bastante pela Quadrinhos, Literatura e Ensino.


Foi contraposto brilhantemente as críticas do editor Luís Antônio Giron, apontando a necessidade de investimento no setor da educação no Brasil, infelizmente ainda muito precário, e em como as mudanças ocorridas ao longo do século XX/XXI trouxeram a necessidade de revermos a qualidade do ensino e como este deve ser transmitido ao aluno.

Afinal, a base da educação é a leitura. É a partir dela e da prática que advém posterior a ela que descobrimos quem somos. E na relação quadrinhos x clássicos da literatura, um não exclui o outro. O investimento crescente do PNBE não deve ser traduzido como uma substituição da literatura pelos quadrinhos, mas como um investimento em outra mídia, que serve como acessório, como produto complementar, para ampliar o gosto pelo ato de ler e auxiliar também no ensino de outro tipo de leitura: a visual, a imagética."

***

"Raramente encontramos amigos para a vida toda. Os quadrinhos, para mim, são uma exceção a essa realidade. Eles estavam no momento que eu comecei a aprender a ler (até muito antes disso) e tenho certeza que estarão comigo, independente do formato que porventura terão, até minha morte.



Quando criança, foi a arte seqüencial, aliada a minha criação, que ilustrou a premissa que a boa índole importa. Que, mesmo fictícios, bons exemplos devem ser seguidos. Que a criatividade pode ser uma ótima ferramenta para se defender e crescer como pessoa, já que, assim como um certo kryptoniano de capa vermelha, eu também podia voar. Não entre edifícios e nuvens, mas por entre idéias e criações próprias.

A arte seqüencial foi minha companheira de Ensino Médio e faculdade, entre trabalhos acadêmicos sobre o assunto e conversas com amigos. Ela me fez querer ser um profissional de editora, porque foi a partir do cheiro do papel da revista que eu amei o papel do livro. Foi pela diagramação de uma página, que eu me apaixonei pela construção da obra e quis participar da produção daquele objeto específico, almejando dedicar uma vida profissional inteira para aquilo.


Há mais de 20 anos, a deliciosa sensação de encontrar uma edição nova na banca ou vislumbrar um título interessante na livraria não mudou nem um pouco. Ficou intacta. Aliás, crescerá e se expandirá, porque, quando apresentar esse mundo para meu sobrinho e, futuramente, para meus filhos, ela tomará nova importância.

Talvez seja por isso que os quadrinhos representem tanto para mim. Eles me lembram quem eu fui, quem sou e quem eu pretendo ser. E por isso, agradeço."

(Victor Almeida)

Prêmio: Livro "Quadrinhos e Arte Sequencial", de Will Eisner, da editora Martins Fontes.


2º LUGAR:

"A Miscelânia de Culturas e o Contato entre as Identidades nas Obras do Corto Maltese.
Nesse texto, temos a oportunidade de reconhecer a força das histórias em quadrinhos e a sua importância como forma de arte, ainda que muitos relutem em assumir este fato.


Um breve relato histórico inicial trata da evolução da caracterização de culturas na ficção, sob o ponto de vista de seus autores e do período histórico em que realizaram sua obra. É possível perceber que as HQs, assim como qualquer outra forma de arte, são um retrato das ideias e concepções vigentes na sociedade de uma certaépoca.


Sim, um retrato, pois captura o momento, representa uma visão de mundo predominante naquela época entre indivíduos daquele meio social. Dessa forma, um retrato pode perder a cor, ficar desbotado, porém sempre será uma representação de um dado momento em algum lugar.


As histórias em quadrinhos experimentam um processo análogo. Durante décadas, incontáveis ideias acerca da miscelânea de culturas vigente em nosso mundo real foram transpostas para o papel. Com o passar tempo, uma ampliaçãodo conhecimento sobre a diversidade de costumes e tradições históricas fez comque certas concepções, as quais em sua épocaeram amplamente difundidas, adquirissem um caráter antiquado.


Como o texto muito bem demonstra, este amadurecimento cultural teve um importante personagem-símbolo: Corto Maltese.


Hugo Pratt, a partir de suas próprias experiências de vida, soube criar um personagem multicultural, um dos últimos românticos, capaz de “navegar” sobre as retrógradas questões culturais anteriormente predominantes no campo dos quadrinhos. Um exemplo do futuro homem globalizado e cidadão do mundo, disposto a conhecer e compreender o desconhecido.


Muito à frente de seu tempo, Corto é movido pelo espírito aventureiro em jornadas que o levam “sempre um pouco mais distante”, além dos horizontes previamente estabelecidos pelo homem. O personagem participade importantes acontecimentos sem nunca abrir mão de suas convicções, mas sendo capaz de respeitar e se fascinar com a riqueza da multiculturalidade humana."

***

"Com os quadrinhos, viajei por inúmeros lugares com Tintin e Corto, enfrentei o crime com o Homem Aranha e Spirit, tomei poção mágica para combater os romanos neuróticos, caminhei nas trevas ao lado de Batman, viajei pela galáxia com o poder do Incal, persegui Jack Estripador, estive na Nova York dos gângsteres, conheci uma espécie de homem-lobo... Enfim, foram tantas aventuras e ainda há tantas por vir que me sinto na obrigação de mandar aqui um ‘muito obrigado’ a diversos autores e desenhistas que foram capazes de me tornar um indivíduo melhor e ainda capaz de sonhar e se maravilhar com o que está ao seu redor, tal como aquele menino ainda analfabeto que um dia eu fui, muitos anos atrás, ao folhear os álbuns de Tintin."
(Luiz Felipe Modesto)

Prêmio: Livro "Cultura Pop Japonesa: Mangá e Animê", organizado por Sonia Bibe Luyten, da editora Hedra + Livro "Corto Maltese: A Balada do Mar Salgado", de Hugo Pratt, da editora Pixel.

3º LUGAR:

"Minha matéria favorita é "Eisner, Pioneiro Eterno"(quarta-feira, 15 de abril de 2009).
É minha preferida por ser a matéria pela qual descobri o blog, que me ajudou muito em meu trabalho de conclusão de curso da faculdade, que teve como tema os Quadrinhos."

***

"Os quadrinhos são fonte de inspiração em meu trabalho e em minha vida. É muito motivador ver os trabalhos de quadrinistas brasileiros sendo reconhecidos e premiados no mercado estrangeiro. Isso reflete em meu trabalho e me dá vontade de inovar e sempre buscar novos meios de me aprimorar."

(Matheus Dix)

Prêmio: DVD "Grandes Astros: Superman" + DVD "Hulk vs."

Para os vencedores, será enviado, nos próximos dias, um e-mail de contato para pegar seus endereços certos, para que os prêmios possam ser enviados para cada um de vocês na comodiade do seu lar através do correio. Aguardem o contato e meus mais sinceros parabéns.

Para todos, fica mais uma vez reforçado o agradecimento por todo esse tempo em que compartilhamos dessa grande paixão pela nona arte. Que venham ainda muitos aniversários pela frente, e os quadrinhos possam, passo a passo, ir em direção ao reconhecimento que tanto merecem" Obrigado a todos!

domingo, 14 de agosto de 2011

Um Eternauta para a Eternidade

Por Gabriel Guimarães 

Francisco Solano López
 Nesta semana, a editora Martins Fontes confirmou o lançamento nesse segundo semestre da história em quadrinhos argentina El Eternauta, originalmente publicada em 1957 na revista Hora Cero Semanal, e que se transformou numa das HQs mais importantes na história desse meio de comunicação na Argentina. Entretanto, essa boa notícia infelizmente não veio a ser comemorada pelo desenhista original da série, Francisco Solano López, um dos nomes mais importantes da nona arte do país, pois ele faleceu aos 83 anos, em decorrência de uma queda ocorrida na semana passada dentro do hospital onde se recuperava de um AVC.

López ao lado de seu personagem Eternauta
 Os quadrinhos, como um meio de comunicação, chora pela perda de mais um de seus grandes autores. López desenhava desde 1953, quando começou trabalhando para a editora Columba sendo responsável pela arte de revistas como Perico y Guillerma. Algum tempo depois, colaborou pela primeira vez com o roteirista Héctor Germán Oesterheld, para ilustrar sua história Bull Rocket para a revista "Misterix", publicada pela editora Editorial Abril, cujo dono era Cesar Civita, irmão de Victor Civita, que veio a fundar a editora Abril aqui no Brasil publicando quadrinhos Disney e seguindo para todo tipo de vertente da arte sequencial. A parceria com Oesterheld se extendeu a outras duas séries, Pablo Maran e Uma-Uma, até que ambos migraram para a Editorial Frontera, onde passaram a trabalhar no título Hora Cero, onde mais tarde a maior criação da dupla teve início, o Eternauta.

Edição da revista Hora Cero com a
 história do Eternauta
 Contando a história de um grupo de sobreviventes de um fenômeno aparentemente natural na cidade de Buenos Aires, mas que se revelou aos poucos como um plano contra a humanidade posto em prática por uma raça de alienígenas invasores. A história marcou época por ser uma “metáfora alucinante do país arrasado, entregue aos interesses externos e dominados pelo invasor”, nas palavras que estão na apresentação da edição comemorativa dos 50 anos do personagem, lançada em 2007. As críticas políticas, inclusive, foram tão acentuadas, que López foi exilado para a Europa na década de 1960, onde continuou produzindo quadrinhos em Madri e em Londres.
Álbum brasileiro em que
López trabalhou 

Anos depois, regressou à Argentina e retomou o Eternauta, ainda em parceria com Oesterheld, publicando, em 1968, o arco Eternauta II, em uma nova editora, a Editorial Records. Nos anos seguintes, continuou trabalhando com histórias de ficção científica, e mais tarde, com quadrinhos de estilos diversos. Na década de 1980, López veio morar no Brasil, onde chegou a produzir em parceria com Allan Alex os desenhos para o álbum "Sangue Bom", escrito por Carlos Patati, um dos grandes estudiosos da arte sequencial no país e que mais tarde veio a escrever o livro "Almanaque de Quadrinhos" pela Ediouro em 2006. Esse trabalho chegou a ser publicado em 2003 aqui e disponibilizado pelo HQ Clube na época.

López construiu uma carreira com muito potencial e acrescentou muito ao gênero dos quadrinhos ao redor do mundo. Ele chegou ainda a colaborar com Hugo Pratt, criador do Corto Maltese (cuja abordagem às diferentes culturas do mundo já foi analisada aqui no blog antes), na história "Ernie Pike", publicada em 1957, na Argentina. Sua perda é algo muito forte para os quadrinhos como um todo, em especial o argentino. Conforme disse o portal Página 12, que noticiou o trágico acontecimento, o Eternauta, grande criação da carreira de López, representou tanto que "se tornou o protótipo do herói, um símbolo de toda uma época da histórica cultural do país."

Em algum tempo, o povo brasileiro poderá usufruir dessa tão importante obra na língua portuguesa, e, então, prestar uma homenagem verdadeiramente digna a esse grande criador, mantendo-o vivo através do legado de suas histórias.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Meta Cumprida

Por Gabriel Guimarães


Ilustração do quadrinista mineiro Vitor Cafaggi, que acredito
representar muito bem o quanto procuramos expandir
o conceito de histórias em quadrinhos através da diversidade
de matérias e artigos

Após um momento de pausa, enquanto eram procurados os meios para viabilizar o teor dessa matéria e da próxima para o blog Quadrinhos Pra Quem Gosta, é com grande orgulho que venho trazer ao conhecimento do público que a meta estabelecida para o blog neste ano acaba de ser cumprida, ao passo que esta é a 50ª matéria produzida no ano de 2011.

Este ano foi cenário de muita repercussão positiva, tanto para o blog, como para os quadrinhos como um todo, e isso se deve principalmente a vocês, leitores. Pois, parafraseando uma amiga, "é graças ao carinho e apoio dos leitores que sinto motivação para continuar escrevendo." Isso não poderia ser verdade maior.


Com todo o carinho e atenção que obtive nestes sete meses desde que o ano começou, acredito ter conseguido expandir muito meus horizontes como admirador da arte sequencial, e espero, no âmago do meu ser, ter dado um pouco do que todos vocês, meus leitores, merecem receber: reconhecimento, respeito, atenção e conhecimento.

Sem essa troca de informações que é feita por todas as vias de comunicação possíveis, nada disso teria sido possível, e é, através dessa matéria, que venho agradecê-los pelo seu apoio e pela sua atenção ao longo de todo esse tempo.

Entretanto, nenhuma comemoração se dá através de apenas um mero discurso de agradecimento, e é pelo que venho comunicar a seguir que tanto foi custeado tempo para essa matéria ser escrita: na próxima postagem, o blog alcançará a marca de 100 matérias ao longo de toda a sua história, desde sua criação em setembro de 2008, e tal acontecimento não poderia passar em branco. É por essa razão que, com a parceria da gráfica Alvolaser (localizada na rua Fonseca Teles, nº19, no bairro de São Cristóvão, Rio de Janeiro/RJ), estarei dando início ao concurso cultural "Quadrinhos Pra Quem Gosta" na próxima matéria, que premiará alguns de vocês que ajudaram tanto no crescimento do blog. Os detalhes sobre esse evento serão dados de forma mais detalhada futuramente, porém, fiquem atentos a qualquer novidade que possa ser dada pelo twitter @GGMF e pelo mais novo canal de comunicação conosco, o twitter oficial do blog, @QuadrPraQmGosta.

Mais uma vez, obrigado pelo apoio de todos, e muitos quadrinhos pra vocês!

sexta-feira, 15 de julho de 2011

#MSPnovos50

Por Gabriel Guimarães

  
Sidney Gusman e Maurício de Sousa

Hoje à tarde, depois de várias semanas de ativo contato com todo o público de quadrinhos, o editor Sidney Gusman encerrou um evento que marcou tanto uma homenagem ao grande profissional de quadrinhos brasileiros Maurício de Sousa, quanto uma experiência inesquecível para os leitores de anos das histórias criadas pelos participantes desse projeto. Iniciado em 2009, a publicação do livro MSP50 gerou grandes mudanças na forma como um lançamento de quadrinhos era administrado. Composto por uma série de homenagens aos personagens criados por Maurício nos seus 50 anos de carreira como quadrinista, o livro mostrava um pouco do quanto as aventuras da turminha da Mônica influenciaram na vida de artistas renomados e consagrados em território nacional e pelo mundo afora. Neste projeto, tomaram parte diversos talentosos artistas como Ivan Reis, Erica Awano, Fábio Lyra, os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá (cujo reconhecimento internacional já foi comentado aqui no blog), Renato Guedes, Spacca, Ziraldo, Vitor Cafaggi (cujo trabalho já foi destacado aqui no blog antes, também), Benett, Angeli, Daniel Brandão, entre tantos outros.

Compreendendo profissionais na arte de encantar as multidões através da união entre a imagem e a palavra escrita, encontrada de forma única nos quadrinhos, de ao redor do Brasil inteiro, esse projeto movimentou todo o mercado editorial brasileiro em proporções incríveis, e gerou uma intimidade entre o grupo produtor das histórias e seus leitores como nunca se vira antes.

Não foi por pouca motivação, então, que um ano depois desse livro, surgiu um clamor por uma segunda edição, com outros artistas que também desejavam prestar respeito e carinho pelos personagens de Maurício, e, assim, surgiu a segunda parte desse projeto: o livro MSP+50. Mantendo o alto nível do primeiro volume, dessa vez, o livro trazia materiais produzidos por Rafael Albuquerque, Roger Cruz, Gian Danton (cuja obra já foi comentada aqui antes), JJ Marreiro, Mario Cau, Fernanda Chiella, Diogo Saito, Iotti, Allan Sieber, Rogério Vilela, Danilo Beyruth, dentre muitos.

  
Imagem da turminha feita por Mario Cau no MSP+50

E repetindo o sucesso impressionante do primeiro, a procura pela obra atarvessou estados e onde quer que estes profissionais dos quadrinhos envolvidos no projeto ou até o próprio Maurício de Sousa se apresentavam diante do público, sempre ali havia alguém com esses volumes em mãos, aguardando por tê-los marcados por aqueles que lhe renderam tanta satisfação e emoção.

  
Turma da Mônica Jovem no traço da desenhista Roberta Pares

Neste último ano, o grande editor responsável pelo projeto como um todo e pelo contato com todas as partes envolvidas, Sidney Gusman, esteve correndo atrás dos mais novos interessados em imortalizar seu trabalho nos personagens do bairro do Limoeiro e afins, e, para retribuir a procura e a dedicação que o público teve com as duas primeiras partes desse grande marco nos quadrinhos brasileiros, passou a realizar todas as sextas-feiras desde 13 de maio o que ficou conhecido na rede social Twitter como os "Preview Days". No primeiro momento, inclusive, a hashtag sobre o projeto alcançou os tópicos mais comentados nas contas de twitter no Brasil, o que foi um cartão de apresentação fantástico sobre até onde poderia chegar.


A cada sexta, após as 17 horas, Gusman passou a disponibilizar teasers dos materiais que comporão a terceira e última parte dessa merecida homenagem ao padrinho da arte sequencial no país, o que gerou uma comoção impressionante do público leitor. A expectativa com o final da semana passou a se concentrar cada vez mais em torno da liberação dos nomes dos envolvidos no projeto, e a divulgação feita nas mídias sociais pelo próprio público leitor foi algo simplesmente impressionante e jamais visto nessas proporções no Brasil. 

Anjinho no traço do paraibano
Mike Deodato Jr, que abriu o projeto
Ao longo desse tempo, foram divulgados trabalhos de profissionais altamente capacitados e habilidosos, como Will Leite (que já foi mencionado antes aqui no blog sobre a evolução dos quadrinhos na internet), Mike Deodato Jr, Roberta Pares, Marcelo Cássaro, Ed Benes, Shiko, Sam Hart, Paulo Visgueiro, Celso Menezes, Felipe Massafera, entre muitos outros, o que por si só já fez gerar uma imensa expectativa com o resultado final desse trabalho, mas o principal desse projeto, que não esteve talvez em foco no primeiro momento em que ele foi gerado, em 2009, foi a revolução no contato entre os profissionais produtores e o público leitor. O calor do reconhecimento e do respeito vindo do público passou a ser muito mais sentido pelos artistas. O contato entre as partes hoje está muito mais próximo, e ao invés de ser marcado por críticas a essa ou aquela abordagem dada a um personagem, como é mais comum de se ver, hoje está marcada pelo carinho e pela admiração.
A Turminha no estilo impressionante de Felipe
Massafera foi a conclusão dessa impressionante
estratégia de interatividade com o público
Foram 10 semanas, 9 Preview Days. É impressionante que em tão pouco tempo, tanto tenha sido conquistado. Fica aqui, portanto, o mais sincero agradecimento ao grande editor Sidney Gusman e sua formidável equipe de profissionais altamente qualificados, com destaque também para o boníssimo Flávio Jesus, por toda essa experiência para o público de quadrinhos. Com certeza, esse convívio foi algo extremamente marcante para todos os envolvidos, e jamais será esquecido.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Calvin, Haroldo e Watterson

Por Gabriel Guimarães

"Os quadrinhos podem ser tudo aquilo que a mente lhes permitir ser."
O autor dessa frase, que representa de forma bastante eficaz todo o potencial comunicativo que as histórias em quadrinhos possuem, é um dos profissionais mais reconhecidos no meio desde 18 de novembro de 1985, quando publicou sua primeira tirinha no jornal da sua dupla de personagem mais famosa: calvin e Haroldo. Ao longo de sua vida, sempre lutou para que essa forma artística recebesse toda a atenção que merecia, e, por essa sua contínua luta, hoje prestamos uma sincera e justa homenagem ao quadrinista americano Bill Watterson.


Neste dia, em que Bill completa 53 anos, não há outro assunto que se mostre mais relevante para os quadrinhos mundiais como este. Nascido em Washington, ele teve uma infância regada à base de muitas produções de quadrinhos, que lhe enchiam de sentimentos e sonhos. Tendo sido muito influenciado pelas tirinhas produzidas por Charles Schultz, criador do Charlie Brown, Bill adotou algumas características que eram marcas de Schultz para seus próprios desenhos, como a simplificação das linhas nos desenhos, que, conforme o próprio afirmava, "encaixava perfeitamente com minha falta de paciência e minha pouca habilidade para o desenho."

Preocupando-se assim mais com o conteúdo do que com a forma, Watterson conseguiu atingir milhões de leitores através das suas tiras publicadas em mais de 2000 jornais ao redor do mundo e em dezenas de línguas diferentes, se tornando assim uma referência para o meio. Uma vez que sua distribuição era feita pelo Universal Press Syndicate, um dos mais respeitados consórcios de tiras dos Estados Unidos, é difícil acreditar que o criador de tão facilmente identificáveis personagens passara por muitas dificuldades antes de lançar sua obra mais conhecida. Cerca de 4 anos antes da publicação da primeira tira de Calvin e Haroldo, Watterson havia acabado de voltar a morar com casa de seus pais, após uma série de insucessos num emprego de cartunista editorial para o Cincinnati Post, onde passou por um dos desafios mais comuns da área artística: a produção contínua e seriada com limites de prazo para ser concluída.

Neste momento, ele quase desistiu de sua carreira como ilustrador, desmoralizado pela conturbada experiência, e, então, decidiu se voltar para sua paixão inicial, que eram as histórias em quadrinhos. Partindo do princípio exposto na sua frase citada no começo da matéria, Watterson criou uma tira despretensiosa sobre um garoto de vestes espaciais e seu desastrado assistente, baseados em uma produção que fizera certa vez, quando estava no Ensino Médio, para uma aula de alemão. E ali, voltou a arriscar novas criações voltadas para a arte sequencial, que viriam a ser o alicerce no qual as tiras do Calvin iriam se estruturar. O próprio Watterson admite com entusiasmo que aqueles primeiros anos voltando a produzir quadrinhos foram de uma importância sem igual, ainda que tudo que desenvolveu não tenha tido a qualidade ou o desempenho ideal. Ele aprendeu muito com os erros, e, após, partiu para seu maior feito, que o viria a pôr em destaque como um dos grandes profissionais do ramo.

Uma situação que determinou muito da postura que o quadrinista viria a ter nos anos posteriores ao surgimento de sua fama e que é um dos traços mais reconhecidos de sua personalidade, que é o fato dele abrir mão de todo licenciamento de imagem com relação a seus personagens, merece ter um destaque aqui. Ainda antes de criar seu pequeno grande protagonista de tirinhas, um syndicate demonstrou interesse pelo estilo utilizado por Watterson, e o convidou para viajar até Nova York para assinar seu primeiro contrato profissional como membro de uma grande organização voltada para a produção de quadrinhos, ainda que não tivessem realmente se apaixonado pelo conteúdo em si do que estava sendo desenvolvido por ele na época. Entretanto, Watterson se deparou com um pedido do syndicate que o deixou enfurecido. Foi passado a ele a ordem de escrever e desenhar histórias de um personagem que não era seu, além de criar outra tira cômica com único fim de fazer propagandas de um determinado produto. Neste momento, Watterson abandonou a empresa e definiu sua postura com relação ao tratamento comercial de suas criações para todo o resto de sua vida.

E foi então, que um pequeno garoto muito esperto para sua idade e um certo tigre laranja de pelúcia entram na história da vida desse quadrinista. Após estar novamente num ponto inicial profissionalmente, Bill enviou um protótipo de tirinha com seus dois novos personagens para dois diferentes syndicates, e recebeu uma resposta positiva do Universal Press, que requisitou novas tiras da dupla. Em dúvida quanto ao que deveria pôr nas tiras, Bill ligou para seu amigo editor Jake Morrissey, que lhe deu a fórmula para todo o seu sucesso seguinte: "Apenas faça aquilo de que gosta."

 

Auto retrato de Watterson conversando com
seu personagem Calvin

Dali em diante, como dizem as pessoas do ramo da comunicação, é história. Ainda que não tenha sido um estouro da noite para o dia, Watterson recebeu, enfim, o destaque que merecia, recebendo prêmios como o Eisner e o Harvey Awards e pelo conjunto de sua obra, dentre outros diversos. Porém, ele jamais se mostrou muito confortável com essas homenagens, preferindo uma reclusão artística que caracterizou muito sua relação com seus leitores. Aposentado desde 1995, quando publicou sua última tirinha de Calvin e Haroldo em 31 de dezembro, ele mantém um hábito de pintar quadros, apesar de não expô-los para os seus fãs, e não dá sinais de novos projetos futuros. Ao longo da década de 1990, todavia, dava palestras em faculdades para destacar o quanto as pessoas se esforçavam de verdade para fazer aquilo de que realmente gostavam. Acredito que essa sua lição vá permanecer com todos nós, seus leitores, por muitos e muitos anos. E, tal qual o pequeno Charlie Brown se tornou uma influência tão grande na formação de Watterson como artista (e na de muitos leitores do personagem, como pode ser um pouco visto neste artigo de um blog parceiro nosso), Calvin é, hoje, uma parte de todos nós, que o lemos e acompanhamos suas aventuras por tanto tempo (um pequeno estudo sobre alguns conceitos da psicologia nas tiras de Calvin já foi feito aqui no blog antes). Apesar de não ter um gosto tão especial por homenagens, não havia como esse dia passar em branco, e, por isso, venho aqui por meio desta matéria agradecer por tudo que foi feito por esse grande profissional de quadrinhos, tanto dentro das linhas que delineavam seu trabalho, quanto fora, pelas lições com relação às paixões que nos movem.

Para aqueles que tiverem interesse em ir mais a fundo na história do quadrinista, recomendo esta matéria publicada no blog "Depósito do Calvin", que detalha muitos dos momentos expostos aqui e traz excelentes recursos visuais para essa trajetória vitoriosa de Watterson.

sábado, 18 de junho de 2011

Homenagem ao Louco que Nos Fez Rir

Por Gabriel Guimarães

Hoje, o Anjinho ganhou um companheiro especial no céu.

Por muitos e muitos anos, o personagem Bugu invadiu as história do Bidu para dar seu clássico bordão "alô mamãe", porém, neste dia, todos nós, leitores e admiradores das histórias em quadrinhos, prestaremos um momento especial de respeito e atenção, enquanto ele dá pela última vez seu "adeus, papai". Com lágrimas, que caem de suas orelhas, o Louco também está de luto, e, com isso, as suas palhaçadas rotineiras tiram um momento de folga, pois não encontram razão para a birutice que caracterizou o personagem desde seu surgimento em 1973.

Neste dia, 18 de junho de 2011, Marcio Roberto Araujo de Sousa, criador desses dois personagens e irmão do criador da turma da Mônica, Maurício de Sousa, faleceu aos 64 anos de vida, em decorrência de uma luta contra o câncer que já travava há algum tempo, e nós, admiradores da nona arte que nos tornamos, e, mais ainda, humanos que somos, hoje prestamos um profundo sentimento de respeito a tudo aquilo que Marcio nos fez sentir. Não fosse por ele, talvez não existissem Cebolinha e Cascão, criados a partir de amigos de infância deste irmão de Maurício, ou até o Rolo, criado a partir dele próprio, Marcio.

Entretanto, eu jamais poderia medir apenas por contribuições a um meio de comunicação a vida de um ser tão querido que se vai. O pesar que hoje sentimos é reflexo da vida dedicada a nos fazer rir que esse talentoso homem teve, a fim de tirar o peso da nossa correria cotidiana e nos lançar em um universo de gargalhadas, onde quem procura a felicidade desprendida do status social é visto como Louco. Hoje, o bairro do Limoeiro não tem festa, mas sim um profundo sentimento de honrar a memória de tão importante figura para sua existência.

E não poderíamos mostrar o quanto aprendemos com tudo que se passou nas páginas daquelas revistinhas sem fazer o mesmo. Deixo aqui, portanto, minhas mais sinceras consolações à família Sousa, e um agradecimento sem palavras para a memória deste "verdadeiro artista da família", como afirmou Maurício. O velório está acontecendo neste instante na Funeral Home, na rua Carlos de Pinhal, 376, em São Paulo, e vai se extender até 15:30. Aos que desejem prestar uma última homenagem a Marcio, estão convidados a fazê-lo.

terça-feira, 14 de junho de 2011

500 Vezes Mônica

Por Gabriel Guimarães
 

Alguns dos pontos de divulgação
da edição do mês passado da Turma
da Mônica Jovem contaram com a
presença ilustre do próprio Maurício
de Sousa, da Mônica e do Cebolinha

Para qualquer um que já tenha observado mesmo sutilmente o mercado editorial de quadrinhos, é fácil perceber que a quantidade de feitos de Maurício de Sousa poderia preencher uma vasta bibliografia que se tornaria referência para todos os que desejam ingressar no mercado de quadrinhos no Brasil. Mês passado, Maurício causou um grande alvoroço no mercado em torno do romance entre Mônica e Cebolinha nas páginas da Turma da Mônica Jovem número 34 (cujo signifcado para a história dos quadrinhos nacionais pode ser visto aqui), alcançando a incrível tiragem de 500 mil exemplares disponíveis para todas as bancas de jornal ao redor do Brasil, o que é um número impressionante para os dias atuais. Este mês, a comemoração na turma de personagens mais conhecida do Brasil continua, mas em decorrência de um evento na linha mais tradicional de estórias, mais propropriamente, na edição número 54 da revistinha da Mônica.

Lançada pela primeira vez em um título próprio em 1970 pela editora Abril, a personagem Mônica, baseada na filha do grande quadrinista, cativou multidões, se tornando um elemento recorrente em gerações e gerações de jovens brasileiros ao redor de todo o país. Devido ao sucesso que obteve, a baixinha gordinha de vestidinho vermelho favorita dos leitores de quadrinhos preencheu 200 edições antes de mudar de editora. Depois de 26 anos, a turma da Mônica deixou sua antiga casa editorial e passou a ser encontrada na editora Globo, onde se tornou quase uma unanimidade nos pontos de venda de quadrinhos, em função da quantidade de títulos disponíveis protagonizados pelos mais variados tipos de personagens de Maurício. Novamente, porém, o destaque ficou por conta do título solo da Mônica, que chegou à marca de 246 edições publicadas.


Em 2007, entretanto, veio novamente o momento de mudança, e a turminha migrou para a editora Panini, hoje responsável pela publicação de grande parte dos produtos voltados para o mercado de quadrinhos no país, que são distribuidos para os jornaleiros e livrarias. Dentro da nova casa, a turminha cresceu e passou a almejar voos mais altos com o lançamento da Turma da Mônica Jovem em estilo mangá (o qual já foi discutido antes aqui no blog como um dos eventos que mais marcaram os quadrinhos na década passada). E as atenções pareciam ter se voltado quase que exclusivamente para esse novo universo de estórias, tendo a versão infantil dos personagens da turminha ficado talvez em um segundo plano, momentaneamente. Este mês, todavia, aquelas que ficaram marcadas como as figuras mais tradicionais no mercado de quadrinhos produzidos no Brasil resolveram mostrar que continuam sendo motivo de comemoração, mais que isso, que jamais deixaram de ser. Com a edição número 54 da revista da Mônica, a personagem chega a uma marca que poderia ser considerada impossível de ser atingida por um trabalho produzido no Brasil: são agora ao todo 500 edições lançadas exclusivamente no título principal da Mônica.

Para celebrar esse feito, a edição que representará este marco trará uma história especial que percorre toda essa longa trajetória dos personagens do bairro do Limoeiro, além de capas clássicas e passatempos voltados para os momentos históricos da turma, se tornando um deleite para os colecionadores tradicionais e, ainda assim, uma revista bastante interessante para os leitores eventuais, que podem recordar os momentos mais importantes do percurso da turminha.
A edição já está disponível nas bancas ao preço de R$4,50 e, com certeza, quem se aventurar por entre suas páginas, não se arrependerá de ter esse intenso contato com a história da turminha que revolucionou os quadrinhos brasileiros.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Com Grandes Ideias, Vêm Grandes Oportunidades

Por Gabriel Guimarães




O pequeno "Puny Parker"
saindo de dentro da cabeça
do seu criador
Há uma semana exatamente, o público leitor de quadrinhos recebeu triste, porém, satisfeito, a notícia de que a série de tirinhas do quadrinista mineiro Vitor Cafaggi protagonizada por uma versão infantil de Peter Parker, o Homem-Aranha, chegou ao fim. Iniciada em agosto de 2008, a tirinha "Puny Parker" narrou as desventuras do Cabeça de Teia muito tempo antes de este conseguir seus poderes que lhe deram tanta fama, num traço simples e sensível que lembra bastante os trabalhos de Bill Waterson, criador dos personagens Calvin e Haroldo, e Charles Schultz, criador do Charlie Brown.
Tendo como destaque o ínicio da vida amorosa de Peter, seu relacionamento com seus tios e a sua dificuldade de se relacionar com as outras crianças do colégio, "Puny Parker" rapidamente entrou na lista de tiras favoritas entre os leitores de quadrinhos. E não foi pra menos. Ao longo desses 3 anos de existência do blog oficial, foram 140 tirinhas que se disseminaram pela internet de forma ágil e fácil, através das ferramentas cada vez mais comuns de compartilhamento nas redes sociais.

A proposta de Vitor começou ainda no Orkut, mas foi ganhando tanta atenção que culminou na criação de um blog específico para o personagem, e, assim, o trabalho desse artista mineiro foi ganhando cada vez mais destaque. Ao apresentar todas as tiras que produzia em português e em inglês, expandiu seu público leitor de forma impressionante, atraindo muitas pessoas para conhecer o seu trabalho, e para conseguir manter todo esse público que chegava ávido ao seu blog a partir das indicações, Vitor usou de uma sensibilidade ímpar, reforçando uma certa nostalgia a esse período da infância, o que deu um efeito ainda mais especial para os leitores de suas histórinhas que tiveram o hábito de acompanhar séries de quadrinhos quando menores. Tamanha dedicação não tinha como dar errado, e assim o pequeno Parker começou a entrar na mente e nos corações dos leitores tanto quanto o grande Homem-Aranha fizera quando ainda éramos crianças.
Auto retrato de Vitor Cafaggi ao lado de seu personagem
Enquanto o Homem-Aranha original nos fazia ficar apaixonados pelas aventuras que poderiam ser vividas quando um dia nos tornássemos adultos, o jovem "Puny Parker" segue no caminho oposto, nos saudando com as memórias da pureza da juventude e da beleza da simplicidade, que hoje já não se mostram tão fáceis de recordar assim. Com o mundo cada vez mais rápido, precisamos dessas âncoras para nos prender ao cerne de nossos sonhos, à origem de nossas esperanças e força de vontade; e esse trabalho de Vitor com certeza atingiu esse patamar.


Chico Bento observando a vida de
cima do pé de goiaba do Nhô Lau

Portanto, não foi algo inesperado quando o reconhecimento para esse grande quadrinista brasileiro começou a crescer, chegando ao convite para colaborar com a série que homenageava os 50 anos de carreira do patrono dos quadrinhos nacionais, Maurício de Sousa, no primeiro volume do MSP50. E Vitor, mais uma vez, não deixou passar a oportunidade e nos presenteou com uma bela história do Chico Bento, novamente nos remetendo às emoções da infância, com as quais ele consegue trabalhar tão bem. Ano passado, colaborou também com o álbum "Pequenos Heróis", lançado pela editora Devir, onde narrava uma história protagonizada por uma versão infantil do Flash na vida real, onde os poderes são apenas aqueles dados pela imaginação e empenho.


O jovem Wally West (Flash) desenhado por
Vitor para o álbum "Pequenos Heróis"

A contribuição de Vitor para os quadrinhos nacionais é algo admirável e acredito que passaremos a ouvir falar dele cada vez mais frequentemente. Ontem, ele foi tema de matéria no site Supernovo, que vale a pena ser conferida para que se possa compreender ainda mais o significado da sua criação para os leitores de quadrinhos. 

Ano passado, ele e a irmã, Luciana Cafaggi (outra bela profissional de quadrinhos sobre a qual pretendo falar em matéria posterior aqui no blog, e cujo site artístico pessoal pode ser visto aqui), estiveram na Rio Comicon (cuja cobertura completa pode ser vista aqui), mas infelizmente não consegui falar com ele para poder lhe dizer o quanto suas tirinhas são importantes para os quadrinhos no Brasil hoje, mas espero que ele saiba disso. Esse ano, caso ele venha para a segunda edição da Rio Comicon, que ainda está para ser confirmada, espero sinceramente reverter isso e poder conhecê-lo pessoalmente.

Para os interessados no trabalho de Vitor, ele disponibilizou no seu blog todas as tirinhas do "Puny Parker" para serem baixadas, além de diversas wallpapers e trabalhos artísticos que apenas fazem crescer suas qualidades profissionais, tudo de graça. Eu garanto que, quem começar a ler as histórias lá, não vai conseguir parar até terminar.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Um Lugar para Recordar Jayme Cortez

Por Gabriel Guimarães



É um fato conhecido que os quadrinhos brasileiros tiveram muitos de seus pilares mias antigos construídos em cima de talentosos estrangeiros que descobriram no Brasil algo que os prendeu indefinidamente aqui, sendo então responsáveis por muito da produção de histórias em quadrinhos que era feita em editoras como  a Ebal, a La Selva e a editora Abril (todas presididas por figuras da mais alta importância para a história dos quadrinhos no Brasil, apesar de não terem nascido propriamente aqui, o russo Adolfo Aizen e os italianos Vito La Selva e Victor Civita, respectivamente - um breve histórico de sua participação na formação do mercado editorial brasileiro pode ser encontrada em matéria já publicada antes aqui no blog e no excelente livro do pesquisador Gonçalo Júnior, "Guerra dos Gibis").


Jayme Cortez à direita junto do
ainda jovem Maurício de Sousa

Dentre os grandes nomes dessa época, destacaram-se muito o italiano Eugênio Colonnese, o nipônico Julio Shimamoto e o português Jayme Cortez, que, em meio a uma precariedade inicial de recursos, foram capazes de levar seus trabalhos às mãos de milhares de brasileiros. A matéria de hoje é para destacar um projeto que homenageia este último que citei, Jayme Cortez, do qual tomei conhecimento recentemente. Produzido por Jayme Cortez Filho e Fabio Moraes, começou a ser disponibilizado há pouco tempo na forma de um museu virtual com fotos antigas e trabalhos produzidos pelo luso-brasileiro, o blog Jayme Cortez, a fim de honrar a memória do desenhista e manter sua contribuição para os quadrinhos brasileiros viva.


Cortez conversando com o
americano Stan Lee, criador de
grande parte do universo Marvel

Essa iniciativa é algo que merece uma atenção especial pelo currículo que Cortez desenvolveu ao longo de toda sua vida trabalhando com quadrinhos, fazendo centenas de capas para revistas como "Terror Negro", da editora La Selva, tiras para o jornal Diário da Noite, e contribuições na produção de diversos títulos de humor impulsionados pelas figuras célebres do cinema da época, como Oscarito e o Grande Otelo. Além disso, Cortez participou ativamente da montagem da Primeira Exposição Internacional de Histórias em Quadrinhos, em 1951 na cidade de São Paulo, ao lado de muitos outros admiradores e profissionais da arte sequencial que até hoje são lembrados pelo papel desempenhado na divulgação da nona arte no país, como Alvaro de Moya e Miguel Penteado.


Will Eisner e Cortez

No blog que o homenageia, é possível ver muitas fotos dele ao lado de seus colegas de profissão e não demora muito para que se perceba o quanto sua participação no meio artístico da época era algo importante para o mercado nacional. Não é, portanto, grande surpresa que, em 2009, foi inaugurada a Gibiteca Jayme Cortez para lembrar a memória do artista na cidade onde morou grande parte de sua vida, em São Paulo.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

NÃO ENTRE EM PÂNICO!

Por Gabriel Guimarães


Se você viu ou é uma pessoa que carregou sua toalha fielmente sobre seus ombros ou enrolada em sua testa neste dia, você já sabe do que se trata essa matéria. Para os que não compartilham dessa tradição, gostaria de dar uma breve explicação sobre o porquê de tamanha comoção nas redes sociais como Twitter e Facebook para algo que muitos pensariam ser um detalhe irrelevante no dia-a-dia dos grandes centros urbanos: o dia internacional da toalha.

O dia da toalha nada mais é que um símbolo, uma homenagem póstuma a um dos autores que mais marcaram o imaginário popular de uma tribo social que hoje se expande a passos largos ao redor do globo inteiro: os nerds. Não é por acidente, então, que hoje seja também chamado de dia do orgulho nerd. Para explicar as origens dessa comemoração, é preciso recordar o escritor britânico Douglas Adams, autor da "trilogia de cinco livros" do Guia do Mochileiro das Galáxias, obra de ficção científica cujo humor ácido e irônico em cima da estrutura social com que os humanos organizam seu viver a tornou um clássico para todos aqueles que a leram.

No dia 11 de maio de 2001, Douglas Adams faleceu em decorrência de um ataque cardíaco, e os fãs e admiradores do autor e de sua criação decidiram prestar sua homenagem duas semanas após, no dia 25 de maio (data do lançamento nos cinemas do primeiro filme da série Star Wars, em 1977), instituindo o dia internacional da toalha como uma referência ao ítem que teve tanto destaque nas obras de Adams. Para ele, a toalha é o bem mais útil do universo, uma vez que pode: ser usada como agasalho quando se atravessa luas frias; quando molhada vira uma arma de combate corpo a corpo; enrolada em torno da cabeça, pode proteger a pessoa de emanações tóxicas; servir para enxugar o corpo, caso esteja limpa; e, mais importante, dá a sensação de segurança psicológica ao mochileiro. Se um mochileiro a leva com ele, tem tudo de que precisa, como escova de dentes, esponja, sabonete, lata de biscoitos, bússola, mapa, barbante, capa de chuva e traje espacial.

No ano passado, a UFRJ comemorou este dia com um evento especial que foi divulgado aqui no blog na época, porém, este ano, as comemorações se darão de forma mais organizada nos ambientes públicos ao redor do país. Para um cronograma preciso e bem detalhado de todas as festividades para o dia dos nerds, o site em inglês Towel Day é o lugar certo para você. Lá, você pode encontrar detalhes tanto de eventos acontecendo dentro do Brasil quanto de vários outros pontos no mundo, como Canadá, Austrália, Quênia e China. A organização é algo que me chamou muito a atenção.

Há ainda destaque para os concursos e promoções sendo feitas em cima da mitologia da série literária, principalmente o do grupo Jovem Nerd em parceria com a marca de informática CCE Info, que pode ser conferida aqui.

Portanto, deixo aqui meus mais sinceros desejos de um bom e feliz dia da toalha para todos os meus leitores e um profundo desejo de que seus sonhos possam se tornar realidade, contanto que não sejam ir almoçar no restaurante no fim do universo. Lá, está sempre lotado.