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sábado, 9 de julho de 2011

Sem Medo?

Por Gabriel Guimarães


Apesar de estar presente entre os super heróis mais poderosos do universo DC, o Lanterna Verde Hal Jordan tem sua verdadeira essência, aquilo que lhe faz ser tão admirado pelos seus leitores recorrentes, não no seu anel, que lhe permite fazer tudo que sua mente desejar, numa abordagem moderna para a lâmpada do clássico personagem literário Aladin, mas sim em sua força de vontade humana, que é justamente o que lhe permite todos os feitos enquanto empunha a arma mais poderosa do universo.

A história de Jordan não é tão conhecida como a de Bruce Wayne ao virar Batman ou a de Clark Kent ao se tornar Superman, porém, de modo alguma, é menos incrível e essencial para se compreender o personagem, suas motivações e sua verdadeira força. Ainda criança, Jordan testemunhou o acidente que causou a morte de seu pai, piloto de testes da Aeronáutica Ferris, num ato de coragem para afastar o avião que pilotava da multidão. Aquele momento definiu a escolha de Jordan como Lanterna, tantos anos antes do moribundo Abin Sur cair com sua nave no meio do deserto norte-americano e mandar seu anel encontrar o ser naquele setor espacial que mereceria ostentar com honra o símbolo da Tropa dos Lanternas Verdes em seu peito e em sua mão.

Para compreender a razão de tamanha importância daquele momento, é preciso conhecer a história da Tropa. Organizada pelos Guardiões, a raça mais antiga do universo, a fim de patrulhar todo o cosmos com o propósito de assegurar a ordem e a paz, a Tropa dos Lanternas Verdes é composta por 3600 membros, um para cada setor espacial, conforme divisão feita pelos seus mestres. Para usar o anel, há requisitos essenciais, dentre os quais, o mais importante é a capacidade de superar o medo, algo que aquele momento tão jovem ainda na vida de Jordan lhe garantiu. Conforme o próprio Hal diz na história "Lanterna Verde: Renascimento",: "Quando o pior de todos os temores acontece diante dos seus olhos, não resta mais nada do que se ter medo."


Eis aí a essência do personagem. Para adentrar em seu universo, seria preciso explicar a origem da Bateria Central de Oa, planeta dos Guardiões, a essência do arqui-inimigo de Jordan, o korugariano T'aal Sinestro, e o ser que era a razão da clássica fraqueza do anel dos Lanternas Verdes contra a cor amarela, Parallax. Porém, acredito que estes pontos sejam um tanto quanto um desvio do tema principal dessa matéria, no momento.

Na última década, a partir de uma estratégia muito bem implementada pela editora DC, o roteirista Geoff Johns revitalizou o personagem de uma forma brilhante mesclando questões ligadas à atualidade dos leitores de quadrinhos às tradições das revistas do personagem publicadas ao longo de décadas desde seu surgimento (conforme já destaquei em matéria aqui no blog). O sucesso foi estrondoso, rendendo muita atenção para toda a mitologia por trás dos Lanternas Verdes e alavancou as vendas dos títulos ligados a ele num nível que poucos poderiam imaginar. Observando esse crescimento da procura por ele, a DC começou a investir na produção de um filme para o personagem (a relação entre a nona arte e o cinema também já foi abordada aqui no blog antes), além de uma série de produções em desenho animado direto para DVD a fim de motivar o público e aquecê-lo para a grande obra nas telas de cinema (uma dessas produções foi analisada também em matéria aqui no blog antes).

 
Howard Murphy como Lanterna
Verde em 1979

Entretanto, todos esses investimentos para a propaganda do personagem não foram algo tão inovador com relação à sua aparição em outras mídias fora dos quadrinhos. Presente em séries de desenho animado desde 1967, Hal Jordan sempre lutou contra o mal de todas as formas que podia, usando de construtos de seu anel que iam do bizarro ao extraordinário. Porém, foi só em 1979 que ele foi interpretado pela primeira vez em carne e osso, pelo ator Howard Murphy no especial para a televisão americana "Legends of the Superheroes", onde o personagem tinha seus poderes roubados por um grupo de supervilões composto por inimigos de vários dos heróis da Liga da Justiça. Curiosamente, essa trama foi construída para que a rede não precisasse gastar muito com efeitos especiais e ainda assim a história parecesse plausível. Anos mais tarde, em 1997, novamente o Lanterna foi personificado por um outro ator, Matthew Settle, que, porém, interpretava Guy Gardner, outro terráqueo Lanterna, no filme "Liga da Justiça da América", baseado na fase humorística que a Liga tinha vivido recentemente pelas mãos de Keith Giffen e J. M. DeMatteis. Diga-se de passagem que Hal se livrou por pouco de ser motivo de piada até os dias de hoje com essa mudança na escalação do anel naquele momento.

Vale aqui uma nota para o excelente trabalho de pesquisa e organização feito pelo blog Pipoca e Nanquim sobre o histórico do personagem antes de seu filme, que pode ser observado tanto no endereço eletrônico deles quanto no seu livro "Quadrinhos no Cinema", publicado pela editora Generale.

Como foi dito anteriormente, a atenção que o personagem vem recebendo nos últimos anos motivou a DC a investir novamente numa encarnação do herói, dessa vez, para um filme de longa duração a ser exibido nas salas de cinema ao redor do mundo inteiro, e o resultado disso poderá ser visto dia 19 de agosto aqui no Brasil no filme "Lanterna Verde", estrelado pelo ator Ryan Reynolds, mais conhecido pelos seus papéis em filmes de comédia, mas que, porém, tem capacidade para protagonizar boas cenas de ação.

É, então, que chegamos ao tema da matéria de hoje. Consegui recentemente um acesso a esse filme, que será lançado aqui mês que vem, o assisti, e venho aqui dar alguns comentários sobre minhas impressões que podem ser observadas durante o filme (há algum tempo atrás, fiz duas matérias que já visavam comentar sobre o andamento do projeto desse filme que podem ser vistas aqui e aqui no blog). A fim de garantir o direito de cada leitor para tomar conhecimento até onde ele próprio decidir, alerto que a partir deste momento, estarei comentando sobre partes do filme e que a decisão de ler o que vem em seguida deve partir única e exclusivamente de cada leitor (já fiz uma matéria sobre essa questão do spoiler que pode ser vista aqui no blog, também).


ALERTA: SPOILER




Visando mostrar o momento em que Hal Jordan recebe o anel da Tropa e se torna o Lanterna Verde responsável pelo setor espacial 2814, o filme inicia destacando o confronto entre Abin Sur e Parallax. Apesar do altíssimo investimento em efeitos visuais no filme, o vilão não consegue lembrar tanto sua figura nos quadrinhos, entretanto. Além disso, sua origem e a razão de este ter desejo pela destruição dos Guardiões são extremamente diferentes dos que existem nos quadrinhos. Enquanto nos quadrinhos, ele é aprisionado na Bateria Central de Oa para que seja contido, causando assim a impureza amarela, no filme, Parallax é inicialmente utilizado como forma de dar mais poder à Tropa dos Lanternas Verdes, uma vez que a luz verde não seria tão capaz de muní-los ao redor de todo o universo, o que acredito ser uma justificativa deveras fraca e que reduz aquilo que a força de vontade por trás da história dos Lanternas Verdes a algo insignificante.

Quando o filme chega à Jordan, vivido por Reynolds, vemos que este é um irresponsável de marca maior, que, porém, possuí uma característica que, em hipótese alguma poderia ter,: medo. O Jordan dos quadrinhos pode ser irresponsável, porém, tem um senso de luta muito grande. A morte de seu pai o entristece, porém, também lhe dá forças. O exemplo de seu pai é um dos elementos que mais o motiva a fazer tudo que faz, não fosse por isso, com certeza, Hal não teria se tornado piloto de testes, seguindo o seu legado. No filme, a abordagem do momento da morte de figura tão importante é feito de forma extremamente trivial e convencional demais, e os efeitos deste momento em Jordan, também.

Para que não seja tão criticada assim as atuações do elenco de atores, o roteiro do filme possui largas falhas estruturais e demonstra uma superficialidade excessiva em momentos que deveriam ser mais aprofundados. Diferente do trabalho excelente que em sendo realizado pelo diretor Christopher Nolan no Batman, o filme do Lanterna, infelizmente, não acerta no tom que é dado à película, adotando em muitos momentos estilos próximos ao cômico ou ao clássico de heróis e personagens sem sal.

Continuando, o filme tem uma quantidade de efeitos especiais bastante numerosa, porém, a qualidade destes não consegue agradar tanto assim a vista. Muitos dos demais membros da Tropa mostrados nas cenas em Oa poderiam ficar melhor se utilizassem processo similar ao realizado em filmes como "MIB - Homens de Preto", apesar de que há exceções para isso. As representações feitas de Abin Sur, Kilowog e Tomar-Re estão muito bem trabalhadas e com um nível de detalhamento fantástico. A forma como o traje dos Lanternas se adapta à fisiologia específica de cada raça que o usa também está muito bem mostrada, e merece destaque por isso. O traje que Jordan usa, todavia, não agrada tanto, e poderia ter sido melhor desenhado.


Peter Sarsgaard como Hector Hammond,
um dos grandes destaques do filme


Um dos personagens que realmente chamou a atenção, porém, foi o vilão Hector Hammond. Apesar de estar em um contexto diferenete dos quadrinhos, uma vez que, no filme, ele é um professor de biologia, enquanto nos quadrinhos, era um cientista especializado em astrofísica, o personagem realmente ganha vida na história, e a atuação de Peter Sarsgaard dá um toque especial nisso. Este ponto merecia ser comentado.



Dois outros pontos que merecem ser comentados aqui são a participação da manda-chuva Amanda Waller, bastante abaixo do padrão que criou na série de desenho animado da "Liga da Justiça - Ação Sem Limites"; e a aparência dos Guardiões, que está quase oposta à dos quadrinhos, já que são representados como seres de fisionomia esguia e elevada, enquanto na nona arte, são seres de baixa estatura e bem mais numerosos.


Cena do filme com Amanda Waller aparecendo em segundo plano
A linha de roteiro, porém, não é muito positiva, e chega ao clichê em diversos momentos, bem mais até do que seria aceitável. Para ser absolutamente sincero, creio poder resumir o filme em uma frase: "Lanterna Verde" é um filme feito para os anos 1990, com uma trama estereotipada nos padrões da época, porém, com efeitos especiais dos dias de hoje.
Infelizmente, o personagem não conseguiu atingir todo o potencial que poderia, e nós, leitores e admiradores da arte sequencial em que suas histórias são contadas, vamos ter que esperar um pouco mais de tempo até vê-lo em sua posição devida. Ainda assim, como filme isolado da produção de quadrinhos, pode agradar a alguns que estejam querendo assistir um filme tradicional sobre mocinhos e bandidos. Fica a cargo de cada um a decisão de assistir ou não, e tirar suas próprias conclusões. Convido desde já, inclusive, quem o vier a fazer, para dividí-las conosco aqui nos comentários. Quanto ao quesito adaptação, continuemos aguardando nosso dia mais claro.

NOTA GERAL: 1 estrela.


domingo, 26 de junho de 2011

Legado Esmeralda

Por Gabriel Guimarães


Graças a um meticuloso trabalho de pesquisa feito pelo roteirista Geoff Johns no fim de 2004, a DC ganhou um reforço de peso na luta pelo gosto dos leitores de quadrinhos. Trazendo o Lanterna Verde Hal Jordan de volta dos mortos em "Lanterna Verde: Renascimento", Johns deu não apenas um motivo para os leitores tradicionais do personagem voltarem a acompanhar os títulos relacionados com ele, mas renovou inteiramente o universo e a mitologia por trás do anel que este carregava consigo (já fiz uma matéria sobre a reinvenção do Lanterna Verde aqui no blog antes).

A arma mais poderosa do universo DC passou a ganhar mais força entre os admiradores da arte sequencial, e, com isso, os personagens a ela ligados foram tendo mais destaque na mídia. A DC cresceu em representatividade no mercado, e, logo, o universo esmeralda em que Hal Jordan era o tradicional centro ganhou novos protagonistas importantes, novas cores baseadas no espectro emocional dos seres vivos e novas histórias memoráveis (comentei também sobre uma delas já aqui no blog). Utilizando de referências a trabalhos clássicos feitos com os personagens da Tropa dos Lanternas Verdes, como os feitos por Alan Moore há quase 30 anos atrás, Johns adaptou muitas estórias, dando uma roupagem nova para o mundo em que vivemos hoje. E os resultados foram se mostrando cada vez mais positivos.

Como a década passada foi um marco para a transição entre os quadrinhos e o cinema (como já comentei aqui no blog), não é nenhuma surpresa que a editora resolveu colocar em prática uma estratégia para dar vida aos desenhos dos personagens da Tropa. Primeiro, foi lançado o filme de animação "Lanterna Verde: Primeiro Voo", em 2009, a fim de contar a primeira aventura de Hal Jordan como Lanterna Verde e seu primeiro confronto com Sinestro. Despois, dois projetos foram tocados em compasso para serem lançados esse ano de 2011. O primeiro é o filme live action estrelado por Ryan Reynolds (cujo comentário inicial pode ser visto aqui, e cuja política de escolha de elenco foi comentada aqui), que já está sendo exibido nos Estados Unidos, e que estará disponível nos cinemas brasileiros a partir de 19 de agosto. O segundo, que é o tema da matéria de hoje, é um segundo filme animado, chamado "Lanterna Verde: Cavaleiros Esmeralda".

Partindo do desejo da editora de mostrar toda a gama de personagens que são membros da Tropa dos Lanternas Verdes além dos nomes mais conhecidos, o filme faz uma bela apresentação para quem não conhece a cronologia dos quadrinhos, além de apresentar certos pontos de vistas pouco comuns para as histórias de heróis. Através de uma trama centrada na jovem Arísia, personagem bastante conhecida da década de 1980 das histórias de Jordan, o filme narra os contos mais marcantes dentro da própria Tropa, relembrando a origem desta (apesar de não mencionar os Caçadores Cósmicos) e algumas das figuras mais ilustres que já portaram o anel.

A história principal em si, que se desenrola em meio a esses contos, é um tanto fraca e superficial, mas por se tratar de apenas um esquema de expôr a mitologia da Tropa para quem ainda não a conhecia, funciona de forma eficaz, servindo ainda para apresentar o vilão Krona, que é ligado de fato à origem dos Guardiões do universo, mentores dos Lanternas, e que teve seu papel contado na história "O Conto de Ganthet", feita pelos grandes profissionais de quadrinhos Larry Niven e John Byrne.

O filme é interessante, porém, nada muito impressionante. Houve algumas adaptações feitas entre a versão em quadrinhos e a animada, mas nada que condene uma ou outra. Os personagens estão bem representados, apesar de que o som é um dos pontos mais fracos do filme. A falta de uma trilha sonora de peso e de maior vivacidade nas vozes dos protagonistas acaba dando um tom similar às aulas de história do colégio em alguns momentos, evitando assim que você consiga se prender à trama. A experiência também me chamou atenção para um fato: não há como unir os dois filmes animados produzidos pela DC, pelo fato de Sinestro ter sido o vilão no primeiro e neste segundo, ser um dos membros da Tropa ainda, entretanto, o estilo dos personagens foi mantido e a caracterização deles é a mesma. Não sei ao certo qual foi o objetivo dos produtores com isso. Os destaques positivos, porém, ficam por conta de Kilowog e Mogo, que são os Lanternas que conquistaram maior carisma com suas respectivas histórias.

NOTA GERAL: 2,5 estrelas.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

A Nova Cara da Marvel

Por Gabriel Guimarães


 Nesse último mês, a Marvel voltou a ficar em evidência no mercado com as recentes adaptações para o cinema das histórias em quadrinhos de alguns de seus personagens, como Thor e o grupo de mutantes X-men. Em breve, outro que entrará nessa lista de adaptações é o Capitão América, cujo filme protagonizado pelo ex-Tocha Humana Chris Evans, deve estrear por volta de julho nas grandes salas de cinema. Todo esse destaque para os filmes da Marvel me chamou a atenção para uma transição de foco que estou percebendo na política da editora.

Os roteiros e a qualidade dessas duas últimas produções para o cinema ("Thor" e "X-men - First Class") são aspectos que de forma alguma podem ser duvidados. A trama dos dois foi trabalhada de forma extremamente cuidada e resultou em espetáculos para os olhos e a mente dos espectadores, superando assim as expectativas de grande parte dos fãs dos personagens. Em especial esse segundo, o sucesso se deve, acredito, a todos os envolvidos colaborarem de forma realmente focada para garantir um bom resultado para o projeto. E isso é facilmente notado enquanto você está assistindo o filme. A narrativa flui de forma natural, sem peso, e o mundo onde os personagens estão inseridos realmente se torna crível e majestoso. Há, entretanto, um fator a mais que pude perceber nesses dois filmes, que também podem ser encontrados nos filmes que são considerados algumas das melhores obras baseadas em quadrinhos no cinema, que deve ser destacado: a arte da adaptação.

Quando assistimos a uma obra adaptada de um meio de comunicação para outro, é imprecindível que compreendamos que não se trata de uma transcrição literal. Uma adaptação, em hipótese alguma, pode conter em si todos os elementos que a obra original possui, pois o meio pelo qual uma mensagem é transimitda influencia de forma essencial na mensagem que é transmitida (como destacou o teórico de comunicação Marshal McLuhan em sua obra máxima "Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem"). Cada forma artística tem suas próprias qualidades e falhas, e é sabendo trabalhar em cima desses aspectos específicos de cada um que se consegue o que a Marvel tem conseguido em suas últimas empreitadas nas grandes telas: ela tem trabalhado com bastante afinco para adaptar o universo de seus personagens, suas motivações, suas personalidades, sem querer adaptar o formato detalhe a detalhe de suas histórias mais antológicas, se concentrando dessa forma em manter viva a essência da história, porém, dando-lhe uma abordagem repaginada e original.

Quem for assistir "X-men - First Class" perceberá essa liberdade criativa de forma claríssima e nem por isso ficará decepcionado com o filme, que funciona de forma perfeita unindo seus detalhes e personagens. Os filmes anteriores do Homem de Ferro podem servir de forma óbvia para essa questão. A HQ "A Guerra das Armaduras", que gerou o argumento para o segundo filme do cabeça de lata é completamente diferente da história contada no filme, porém, ela está inserida lá em caráter fundamental para toda a criação e desenvolvimento dos personagens e da trama central. A Marvel, portanto, está acertando precisamente no alvo com essas últimas adaptações, porém, está cometendo um erro que foi o que me motivou a escrever essa postagem: ela está investindo cada vez mais na sua divisão Marvel Studios, responsável atualmente por todo planejamento de adaptação das obras da Casa das Ideias para demais meios de comunicação, e deixando cada vez mais de lado a origem de todo seu grande público, as revistas em quadrinhos.

Eventualmente, surgem bons arcos e boas histórias com os personagens Marvel, mas se for observar de perto, essas são limitadas a poucas séries e com um período de duração muito curto. "Os Supremos", de Mark Millar e Brian Hitch; "Guerra Civil", também de Mark Millar, porém, em parceria com Steve McNiven; toda a reconstrução da mitologia do Homem-Aranha no universo Ultimate, feita por Brian Michael Bendis, com ajuda de várias mãos que desenharam histórias que realmente envolviam o universo jovial em que o personagem está inserido, como Mark Bagley, Stuart Immonen e David Lafuente; dentre outros, são alguns exemplos singulares de que é possível ainda produzir boas histórias em quadrinhos e atrair tanto o público mais antigo quanto o novo que se forma pela geração pipoca e controle remoto. As últimas tentativas, porém, de gerar crossovers entre os personagens da editora, como "Invsão Secreta", "Reinado Sombrio" e o "Cerco", por outro lado, têm sido pífias, para dizer o mínimo.


John Byrne posa ao lado de um dos
seus desenhos originais para os X-men

O público que começa hoje a ler as revistas em quadrinhos nem sente muito essa diferença, pois não teve contato com as grandes fases dos personagens que lêem, como Stan Lee e John Buscema no Surfista Prateado; Stan Lee de novo com John Romita Sr no Homem-Aranha; Chris Claremont e John Byrne nos X-men; John Byrne novamente, mas junto à Mulher-Hulk; Barry Windsor-Smith no Wolverine; entre outras dúzias de bons e memoráveis momentos. O que acontece é que há falta de um elemento comparativo para o novo público. E, com isso, a Marvel investe em excelentes roteiros de cinema, uma vez que são em geral a maior fonte de primeiro contato com os personagens que os leitores de hoje têm, e relevam a manutenção de histórias emocionantes nas páginas de quadrinhos, sendo em grande parte estas hoje movidas por temas e confrontos mencionados nestes filmes (já fiz uma matéria sobre o quanto as adaptações para o cinema têm influenciado as histórias em quadrinhos em geral aqui no blog antes, quem quiser pode dar uma conferida).


Admiro muito todo o trabalho que a editora está fazendo com aquilo que é seu cerne, que apesar de muitos não perceberem, não se trata de histórias em quadrinhos em si, mas sim de um universo vasto e cheio de personagens e estórias. Entretanto, tenho desejo sincero e profundo que a Marvel não esqueça suas origens e seus leitores que lhe fizeram atingir o patamar onde se encontra hoje, porque o público novo de hoje é fugaz e passageiro, enquanto aqueles que acompanham a editora desde seus primórdios ou desde que eram crianças pequenas, são leitores recorrentes que criam um vínculo com o que lêem que dificilmente pode ser quebrado. Nota-se que existe essa possibilidade de quebra-lo, o que não pode ser esquecido de forma alguma.



Esta matéria também me serviu para poder falar do filme "X-men - First Class", que fui assistir na primeira sessão no dia da estreia e que relutava em fazer uma resenha sobre ele a fim de não estragar eventuais surpresas e dar spoilers de cenas. Como pode ser percebido, não cometi nenhuma dessas violações de consideração com meu público leitor, e meu objetivo era esse, para que o julgamento de vocês do filme não se paute de forma alguma pelo meu julgamento dele. Acredito que todos têm direito a uma opinião, e a minha ficou bem claro nessa matéria, o que só poderia ser qualificado pelo meu grau de avaliação de material em 5 estrelas. Desejo a todos uma boa sessão e convido-os a dividir conosco suas opiniões sobre o filme e/ou a política de adaptações da Marvel para o cinema, aqui depois. Excelsior!

terça-feira, 29 de março de 2011

Homenagens Necessárias e Dignas

Por Gabriel Guimarães
Há algumas semanas atrás, o mundo dos quadrinhos e da animação como um todo se abateu pelo súbito falescimento do artista Dwayne McDuffie, responsável por muitas das animações de sucesso dos últimos anos, como a série de televisão do Super Choque e o filme animado baseado na minissérie do Superman escrita pelo autor escocês Grant Morrison e desenhada por Frank Quitely, All-Star Superman.

Sendo conhecido no meio como um dos grandes defensores da etnia negra entre os personagens de quadrinhos e desenhos animados, McDuffie foi um dos responsáveis pela escalação do soldado John Stewart como Lanterna Verde integrante da formação principal da Liga da Justiça na série de desenho animado que fez tanto sucesso nessa última década, rendendo até uma continuação,: Liga da Justiça: Ação Sem Limites.

Aos 49 anos, McDuffie havia feito uma operação cardíaca de emergência e acabou sofrendo complicações que levaram à sua morte. Sua memória merece uma homenagem aqui e seus ideais de igualdade não podem ser esquecidos, pois, ainda hoje, há muitos atos de racismo e discriminação racial ao redor do mundo que não podem mais ser tolerados.

Os últimos trabalhos de McDuffie foram junto aos desenhos animados Ben 10 e roteirizando algumas poucas edições para a Marvel e para a DC, como Quarteto Fantástico e Nuclear, respectivamente.


A outra homenagem que faço aqui é pelos 70 anos que completa o grande personagem capitão Haddock, amigo inseparável do repórter Tintin nas histórias do desenhista belga Hergé. Aparecendo pela primeira vez na história "O Carangueijo das Pinças de Ouro", em 1941, o capitão não tardou a capturar a atenção e a simpatia dos leitores com seu jeito irritadiço e perspicaz de ser. Sempre caracterizado por ter um pavio curto, suas explosões temperamentais sempre foram uma das ferramentas de humor mais agradáveis nas histórias de Tintin.

Como seu nome é uma referência ao peixe Hadoque, é compreensível que o capitão tenha grande parte de sua cultura vinda do mar, de histórias mirabolantes de piratas e navios ao longo da história, que alimentam sua imaginação e preenchem sua árvore genealógica. Uma matéria especial que foi feita sobre o personagem que merece ser conferida está no site Tintim por Tintim (você pode vê-la aqui).

Está previsto para este ano que chegue às grandes telas o primeiro filme de uma série em live-motion de Tintin, cuja primeira obra a ser adaptada para a nona arte será justamente a história do antepassado do capitão Haddock e sua luta contra o pirata Rackhan, o Terrível. A participação do capitão no filme, se estiver à altura de seu papel nos quadrinhos, com certeza será um elemento que acrescentará muita qualidade ao filme. Esperamos ansiosamente para ver.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Novas Dimensões para as Batalhas Épicas de Conan

Por Gabriel Guimarães

Por anos, o personagem Conan tem sido lembrado pelas suas histórias magistralmente desenhadas por grandes artistas dos quadrinhos como John Buscema, Barry Windsor-Smith e Frank Frazetta, e escritas por talentosos roteiristas como Roy Thomas e Robert E. Howard, este último criador do personagem em 1932. Nos últimos tempos, o personagem, entretanto, não está numa fase muito destacada em meio ao agitado mercado de quadrinhos. Oscilando entre cenas muito fortes que não puderam ser utilizadas, como a capa desenhada por Geoff Darrow, e momentos em que o brilho do personagem não se faz mais sentir tão intensamente como outrora, Conan está num momento de definição de estratégias.

Ainda sendo um personagem absoluto nas coleções de todos os quadrinistas como obra essencial para os apreciadores da nona arte, o personagem está precisando de um fôlego novo para atrair novos leitores e tentar, talvez, resgatar alguns dos antigos que haviam deixado de ler as séries publicadas do cimério. E é apostando na corrente moda dos filmes em 3D que a produtora de cinema Lionsgate produziu o novo filme de Conan, a estrear nas grandes telas no segundo semestre de 2011.

O cimério pode ter vida nova dependendo do rumo que o filme tomar, e pela história que representa para os quadrinhos, torço pelo melhor desfecho para essa estratégia de divulgar o personagem. O que eu gostaria de destacar como algo impressionante foi o pôster animado que postei no começo da matéria. Ao observar a imagem, referência à obra produzida pelo mestre artístico Frank Frazetta para o personagem, que é possível observar ao lado, não há como não ficar maravilhado pelo bela obra de produção do material.



Se a qualidade do filme em si refletir a qualidade do seu material de divulgação, acredito que o filme pode ser um dos destaques dos quadrinhos no cinema do ano. Torçamos pelo sucesso desse eterno clássico dos quadrinhos (não no sentido das propagandas da Disney) na sua empreitada pelo novo mundo da terceira dimensão e veremos o que o futuro reserva para esse guerreiro que trilhou uma longa jornada enfrentando toda sorte de desafios e inimigos ao longo do caminho nos quadrinhos em décadas e décadas.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

3º Colocado: Pequenos Quadrinhos, Grandes Telas

Por Gabriel Guimarães

Hoje, começamos a contagem regressiva com os três grandes acontecimentos que marcaram os quadrinhos na década, e os ânimos começam a se exaltar. Na terceira colocação, um ítem que praticamente todos os quadrinistas e fãs de quadrinhos sabiam que, jamais, em hipótese alguma, poderia deixar de estar presente numa avaliação como a que estou fazendo aqui no blog: os quadrinhos no cinema.

Surgidos mais ou menos na mesma época, o cinema e os quadrinhos dispõem de muito mais elementos comuns do que normalmente se pensa. Na França e nos Estados Unidos do ano de 1895, grandes revoluções eram realizadas, criando "novos" meios de comunicação (o que de fato se reconhece como história em quadrinhos na história da humanidade merece uma nota aqui numa matéria posterior - fiquem atentos!) que causariam furor nas massas que se formavam nos grandes centros urbanos. Os irmãos Lumière são os responsáveis pela primeira exibição de uma película em movimento num café francês que chamou a atenção para todo um universo que se abria da imagem gravada, enquanto, do outro lado do oceano Atlântico, o desenhista Richard Outcault lançava nas páginas do jornal New York World sua mais nova ideia, sobre histórias contadas através de uma sequência de imagens desenhadas sobre personagens recorrentes num bairro multi-étnico da baixa Nova York chamada "Down Hogan's Alley". Fosse saindo de uma fábrica ou se relacionando com as outras culturas que eram os pilares da sociedade, ambos os meios de comunicação surgiram para mostrar a visão do novo operário, da nova mão com que se construía a sociedade.

O cinema foi crescendo de forma assustadora e, consigo, levou a fotografia como uma invenção científica que surgia à época a um patamar muito mais reconhecido. Ambas essas formas de se observar o mundo causaram toda uma quebra no paradigma das obras de arte. Não mais eram necessárias pinturas à óleo ou ter um espelho em casa (que era um dos maiores status de riqueza naqueles tempos) para que se tivesse condições de criar uma imagem de si mesmo para o mundo. Esses dois meios artísticos e comunicativos trouxeram esse direito para um número muito maior de pessoas do que os que o tinham antes.

Ainda assim, os desenhos que passavam a ser publicados cada vez com mais regularidade nos jornais americanos continuaram a crescer em termos de popularidade e procura. Os desenhos, com seu tom crítico e cômico, atraíam pessoas das mais distintas classes, gêneros e credos.

Ambos cresceram, atingiram novos estilos, criaram novas categorias, onde abordavam seus próprios recursos inerentes com suas propriedades únicas. O cinema começava a mostrar seus dramas, aventuras e romances ao mundo todo, enquanto os quadrinhos traziam à imaginação dos leitores heróis que combatiam o mal vindos dos mais longínquos pontos do universo, como o Fantasma, o Tarzã ou o Superman. E, por mais que fossem duas vertentes diferentes, ambos sempre tiravam algo de importante do contato de seus autores com o outro meio artístico em si. Will Eisner, por exemplo, sempre reforçava a importância da narrativa cinematográfica como elemento influenciador em suas histórias, como a que observou no filme "Cidadão Kane", de 1941.

Nessa década em questão, inclusive, é que começaram a surgir as primeiras fusões dos conceitos criados nesses dois meios de forma mais acentuada, com a série para televisão do personagem da DC comics, Batman, em 1943. Antes, em 1936, já havia ocorrido a adaptação do clássico de ficção científica "Flash Gordon", vindo dos quadrinhos. Com o sucesso dos novos super heróis, essa "união de forças" se intensificou, gerando seriados memoráveis, como "As Aventuras do Superman", de 1952, que foi um dos grandes destaques da época.

Com o passar dos anos, entretanto, os contatos entre o cinema propriamente dito e os quadrinhos ficaram um pouco estreitos, sendo muito mais comum encontrar relações da nona arte com a televisão através de desenhos animados e telesseriados, do que através de filmes nas grandes salas de exibição ao redor do mundo. Poucas tentativas eram feitas eventualmente, porém, nenhuma resultava em projetos muito memoráveis, como os filmes que retratavam os heróis da Marvel, Capitão América (que estrelou um filme solo em 1990) e o Quarteto Fantástico (que foi protagonista de uma versão muito lembrada pelos fãs de filmes trash, no ano de 1994). Entretanto, nem todas eram mal vistas, e, num contraste aos já citados, os filmes "Batman - O Homem Morcego" (1990) e "Batman - O Retorno" (1992), ambos do diretor Tim Burton, são constantemente lembrados com bons comentários.
No começo dessa década, em 2000, a Marvel, numa tentativa de se pôr em evidência novamente após uma década que muitos consideram como a perdida dos quadrinhos como um todo (devido à queda de nível nas histórias, a quantidade imensa de editoras pequenas e sem estrutura que entravam no mercado e acabavam afetando a visão geral desse gênero, etc), investiu numa produção para os cinemas de seu grupo de personagens mais populares, os X-men, composto por um elenco ainda não badalado e com um roteiro que buscava manter alguns elementos básicos da mitologia dos quadrinhos e, ainda assim, trazer algo de novo a esse universo de personagens. E o projeto mostrou que era algo que poderia valer muito a pena.




Investiu-se, então, em outros personagens, gerando uma leva de adaptações cinematográficas de histórias publicadas originalmente em papel e tinta nas revistas em quadrinhos, como "Homem-Aranha" (2002), "Hulk" (2003), "Demolidor" (2003), e uma nova tentativa de fazer uma representação do Quarteto Fantástico, em 2005. Além desses, também foram adaptados personagens como Homem de Ferro, Motoqueiro Fantasma, Blade e Wolverine. Alguns foram muito bem recebidos, outros foram altamente criticados pelo público recorrente dos heróis. Mas, num panorama geral, a indústria cinematográfica descobriu nessas adaptações um recurso que poderia suprimir o rombo criatrivo pelo qual Hollywood, central mundial do cinema, passava. E cada vez mais, estúdios passaram a investir junto às editoras em histórias que pudessem ser filmadas em película após serem publicadas impressas. Novas parcerias passaram a ser montadas, e começou uma enxurrada de filmes baseados em quadrinhos nos cinemas, expandindo-se além dos americanos, alcançando vários lugares no mundo. A triologia do personagem gaulês "Asterix", criação de René Goscinny e Albert Uderzo, e o filme "O Pequeno Nicolau", criação do mesmo René Goscinny com Jean-Jacques Sempé, da França,  foram algumas adaptações que repercutiram de forma muito elogiada.


E assim, as produções de quadrinhos em telonas deslanchou, rumo a novos horizontes, alcançando cifras de retorno financeiro astronômicas e atraindo milhões, até bilhões de pessoas às salas de exibição de todo o planeta, e continua levando cada semana que estréia um filme nessa categoria. Não pensem que a DC viu a Marvel decolar com suas adaptações e ficou para trás. Depois dos sucessos com os grandes pesos pesados de seu portfolio, Superman (que possuiu uma trilogia cinematográfica brilhante, a partir de 1978 até 1983, estrelada pelo ótimo ator Christopher Reeve, antes de este ficar paralítico) e Batman (nos filmes mencionados anteriormente e seguido de algumas sequências bem menos badaladas, dentre as quais uma que trouxe polêmica aos filmes de quadrinhos, onde o traje do herói mascarado possuía mamilos, apesar de não ser uma roupa colant ou qualquer coisa do gênero, o que foi visto e severamente criticado no filme dirigido por Joel Schumacher em 1997, "Batman e Robin"), a DC passou a investir em adaptações da sua linha de quadrinhos adultos, nos trazendo algumas obras memoráveis, como "Estrada para a Perdição" (2002), "Sin City" (2005), "V de Vingança" (2006), "Watchmen" (2009), e mais recentemente, "R.E.D. - Aposentador e Perigosos" (2010).


Essa década foi A década dos quadrinhos no cinema, e todos, sem exceção, sabem disso. Como tal, é um ponto que não poderia deixar de estar entre os 3 maiores acontecimentos dos quadrinhos na década. Além das adaptações para as telonas, a própria produção de quadrinhos mudou com essa nova relação inter-mídias, e os roteiros começaram a ser feitos para os quadrinhos já possuindo quase uma linguagem e montagem cinematográfica, o que, inclusive, acontecia às vezes por acordos firmados previamente até mesmo à criação da história original em quadrinhos, com os próprios autores, para a adaptação para o cinema, como foi o caso do roteirista Mark Millar e sua história"Kick-Ass", lançado quase simultaneamente em quadrinhos e filme em 2010.

Para os anos que virão, esse laço que liga a arte sequencial e o cinema mostra ainda ter muitos frutos para dar, com os projetos ainda em produção que estão por vir, como "Capitão América", "Thor", "Vingadores" e o reboot da série de filmes do Homem-Aranha, pela Marvel; e "Lanterna Verde" e a terceira parte da nova e incrível trilogia do Batman "Dark Knight Rises"; além de todas as demais filmagens feitas em cima de quadrinhos de outros gêneros e estilos, como o live-motion dos quadrinhos belgas do personagem Tintin, do quadrinista Hergé, que será produzido pelos experientes diretores Steven Spíelberg e Peter Jackson. Há ainda muito que falar sobre esse tema, e, por mais que eu tenha tentado expô-lo aqui o máximo possível, sempre acaba-se esquecendo de algo, além do fato de que não se pode dar a notoriedade detalhada a cada uma dessas singulares adaptações.











Neste vídeo que encontrei em meio à minha pesquisa, certos pontos muito importantes e interessantes, alguns dos quais que não consegui explorar de forma completa no artigo, mas que são importantes de destacar, são abordados de uma forma bastante instigante. Confira você mesmo:


Concluindo: uma vez, disseram que é preciso ver para crer. O que eu vejo é a expansão que isso tudo vem dando à nona arte, e o quão aparentemente perto que estamos cada vez mais do universo que as histórias em quadrinhos abordam, onde homens voam, adolescentes balançam em teias entre os prédios das grandes cidades, e onde sempre é possível sonhar E realizar sonhos. 

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

10º Colocado: A Reinvenção do Lanterna Verde

Por Gabriel Guimarães
Uma vez, Hal Jordan foi um dos maiores defensores do planeta Terra e considerado o maior dentre os membros da Tropa dos Lanternas Verdes, equipe formada pelos mais dignos e habilidosos seres dos 3600 setores do universo, que ostentavam a luz esmeralda de seus anéis municiados apenas de sua inabalável força de vontade. Então, um período de muita escuridão caiu sobre a alma de Jordan.
Após décadas utilizando o símbolo da Tropa como elemento de justiça e a garantia da luta pelo bem, o mundo de Hal começou a ruir ao seu redor. Em 1994, devido a eventos recorrentes da morte do Superman, dois inimigos do Homem de Aço (Super Ciborgue e Mongul) tentaram remodelar o mundo conforme suas vontades, e numa primeira investida, destruíram Coast City, cidade natal de Jordan, e, com ela, milhões de seus habitantes.
O peso de tal ato abalou aquele que era o maior dos Lanternas Verdes. Seu luto e vontade de reconstruir o que havia antes naquele agora desértico espaço de terra o fizeram tentar recriar vida a partir da força de seu anel, de sua força de vontade. Porém, os Guardiões do Universo, criadores e normalizadores da Tropa, não concordaram com a empreitada do herói, e ordenaram que entregasse seu anel.

Agora cego pela tristeza e com medo do que se seguiria a esse nível de destruição e abalo que sentiu, Jordan se rebelou contra seus outrora líderes e rumou para a Bateria Central da Tropa, a fim de absorver toda energia lá contida para poder recomeçar. Derrotando colega a colega de Tropa no caminho, Jordan foi adquirindo mais anéis e, com isso, mais poder, até que chegou a Oa, planeta dos Guardiões. Nas suas últimas frustradas tentativas de impedí-lo, os Guardiões usaram as únicas armas que restavam: Kilowog, oficial de alta patente da Tropa e um dos maiores amigos de Jordan nos anos passados; e Sinestro, ex-membro da Tropa, que se corrompeu desejando uma ordem perfeita para o universo, para a qual a única forma de sustentação seria um tipo de política universal que só poderia ser assemelhada talvez ao fascismo (além disso, Sinestro foi quase desde o começo da carreira de Jordan como Lanterna Verde, seu maior inimigo). Tentativas frustradas.

Jordan elimina os obstáculos e, num momento sublime em que expõe tudo o que passou, indaga os Guardiões quanto ao seu nível de participação na ordem de todas as coisas e relata que ninguém mais pode impedí-lo de atingir seu objetivo de absorver toda a energia da bateria, nem mesmo ele próprio. Jordan cumpre com o que diz e, ao absorver tamanha energia, elimina todos os Guardiões, menos um, que é protegido pela força de todos os demais, Ganthet, que fica emcumbido de dar o último anel da Tropa a um ser merecedor, que viria a ser o desenhista terráqueo Kyle Rayner. Voltando a Jordan, agora, sob a alcunha de Parallax, ele ostenta o poder que tanto procurou: o poder de recomeçar Coast City, a Tropa, a vida em si...

Numa tentativa radical de zerar todas as penitências da existência, Jordan se aliou ao vilão Extemporâneo e gerou o evento que ficou conhecido como Zero Hora, porém, foi detido na última tentativa dos heróis de impedí-lo, fazendo tudo voltar ao normal. Jordan, então, tentou voltar a ser o Lanterna Verde que já havia sido, retomar a força do último anel energético no universo, para enfim cumprir seu objetivo, mas Kyle Rayner não permitiu, confrontando-o diversas vezes, até que Jordan desistiu e vagou pelas galáxias, procurando uma nova forma de satisfazer seus propósitos.
Em 1996, uma nova ameaça surge na forma do vilão Devorador de Sóis, que quase causa a destruição da galáxia onde a Terra se encontra ao consumir toda a energia do nosso Sol. Jordan, movido pelos pedidos de seus antigos amigos e companheiros, decide utilizar toda sua força para reconstruir a fonte de vida dos planetas da via Láctea e destruir de uma vez por todas o causador desse mal, mas para isso, sacrifica sua vida.

Entretanto, a jornada de Hal não termina ali, e, vagando pelo limbo, acaba retornando ao mundo dos heróis sob o manto do espírito da vingança, Espectro, após uma épica batalha para ser o sucessor por trás da entidade.
Bom, isso é um resumo de tudo que aconteceu de realmente marcante na vida do personagem Hal Jordan até essa última década.

Em dezembro de 2004, através da excelente dupla Geoff Johns (ainda antes de se tornar o badalado roteirista da atualidade da DC) e Ethan Van Sciver, a DC publicou a minissérie Lanterna Verde: Renascimento, onde, explicando dezenas de fatores e eventos usando apenas elementos realmente presentes na mitologia ancestral do personagem, ocorreu aquilo que todos os grandes fãs do gladiador esmeralda da Era de Prata tanto esperavam: O retorno de Hal Jordan ao seu posto de Lanterna Verde oficial do setor espacial 2814.

Revelando que Parallax na verdade era um ser mítico que existia desde o início do universo e que se alimentava de todo o medo existente nas criaturas viventes, a história mostra a razão da impureza amarela nos poderes da Tropa (uma vez que Parallax era composto de energia amarela e estava aprisionado na bateria central de Oa), as motivações que levaram Hal Jordan ao limiar da loucura, e as prerrogativas de seu triunfal retorno. Bom, o mais importante nisso tudo, afinal, era: Hal Jordan estava de volta.

Nos anos que se seguiram, Jordan teve que trabalhar duro para reconstruir a imagem que possuía junto à comunidade heróica e aos membros da recém-reconstruída Tropa dos Lanternas Verdes, além de se deparar mais uma vez com eventos tenebrosos para o futuro do universo decorrente de falhas cometidas pelos Guardiões nos milênios em que viveram antes de tudo existir, como a profecia da Noite Mais Densa, história que é atualmente publicada aqui no Brasil pela editora Panini e que já terminou lá fora, causando toda uma reestruturação definitiva do universo DC.

Ok, tudo isso é sensacional, incrível, mirabolante. Mas o que isso tudo tem de tão especial a ponto de entrar para a lista das maiores mudanças / eventos nas histórias em quadrinhos na década? Olhem bem, Hal Jordan vinha de uma década onde a palavra caos imperava completamente. Não havia estrutura nem projeções muito boas para o personagem, o universo em que ele se inseria (Coast City e muitos dos personagens secundários) se encontrava em frangalhos.

Geoff Johns pegou referências onde nenhum outro roteirista pensara em fazer antes (pelo menos não com tamanha primazia): a própria mitologia esmeralda do personagem. Ele olhou para o passado, o começo de tudo, tal qual o primeiro vilão do universo DC, Krona, e decidiu recomeçar tudo, porém, não do zero, como pretendia Jordan, mas sim de onde tudo havia parado. Ele simplesmente despausou o personagem, que tal qual ele próprio (Hal) ficcionalmente estava por um período nos quadrinhos, estava editorialmente: no limbo.

Do marasmo, ele pegou as pontas necessárias para trabalhar toda a simbologia e expandir tudo que o símbolo dos Lanternas Verdes representava: a força de vontade e a superação do medo. E o fez de forma perfeita, impecável. Ele pegou Hal, que se encontrava numa posição irrelevante em meio a toda essa gama de personagens incríveis que a DC tem, e o catapultou ao carro chefe da editora na década, ultrapassando em muito a projeção de Batman, Superman, Liga da Justiça e etc. A DC conseguiu, surpreendentemente, inclusive, terminar 2010 à frente da Marvel tanto em arrecadação com a venda de revistas quanto em quantidade de revistas vendidas, fato este inédito no mercado de quadrinhos americanos. Quer saber a causa dessa surpreendente mudança? A DC reinventou o Lanterna Verde. Explorou seu potencial, e acreditou que poderia ir além de meras histórias que você compra todo mês nas bancas. Resolveu pela primeira vez em décadas expandir o conceito do universo do personagem esmeralda. E vejam só? Deu certo. E nem precisou de crises disso ou crises daquilo para isso. Hal Jordan se envolveu muito pouco em todos esses mega eventos, e, portanto, foi um dos poucos que se safou de toda a estrutura caquéitca que eles traziam e na qual deixavam vários personagens.

A reinvenção do Lanterna Verde figura aqui em décimo lugar porque a DC superou o medo de se arriscar com um personagem consagrado, e com isso, atingiu novos patamares jamais sonhados antes, nem mesmo pelos mais ferrenhos fãs do personagem, dentre os quais eu me incluo.
No ano que se iniciou há pouco, ainda nos é reservada a oportunidade de ver o personagem na grande telona (não que tenha me empolgado tanto ainda, como podem ver na análise que fiz do trailer liberado ao público, postado previamente aqui no blog) na pele do ator em ascenção Ryan Reynolds, fato que poucos esperavam ver um dia se isso fosse perguntado alguns anos atrás.

E olhe só pro futuro agora? Tudo que a DC vê pela frente por essa estratégia é um dia mais claro, onde, há poucos anos antes, tudo que havia era uma noite bem, bem densa.