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terça-feira, 28 de abril de 2015

All You Need is an Edge

Por Gabriel Guimarães


O ano de 2004 foi bastante turbulento para a humanidade. Ainda sob o jugo do temor provocado pelos atentados terroristas às Torres Gêmeas, nos Estados Unidos, alguns anos antes, muitos países viveram situações tensas com radicais ideológicos que optaram por utilizar os mesmos meios para combater aqueles opostos aos seus propósitos. A Austrália sofria com ameaças do tipo, a Ucrânia vivia grande caos em meio ao seu período eleitoral, a Rússia viu dois massacres ocorrerem em seus aeroportos e escolas, a Espanha sofreu atentados graves em pontos de seu sistema público de transporte, o Kosovo, ainda então parte da Sérvia, era cenário de grandes conflitos populares, insurgentes no Iraque atacaram uma de suas prisões. O mundo inteiro, portanto, passava por um período de reconfiguração de seu cenário político e militar. Nada, porém, surpreendente que essa temática, já tão emblemática na indústria de entretenimento desde os tempos da Primeira Guerra Mundial, tenha sido representada em obras da época como o documentário ''Farenheit 11/9'', o jogo ''Counter-Strike: Source'' e a obra que é o foco de nossa matéria hoje, a light novel ''All You Need is Kill''. Escrita por Hiroshi Sakurazaka e com ilustrações de Yoshitoshi Abe, a história foi publicada pela editora Shueisha dentro da revista ''Super Dash Bunko''. Uma década depois, foi adaptada para os quadrinhos por Ryosuke Takeuchi com desenhos de Takeshi Oda, e para os cinemas pelo diretor norte-americano Doug Liman.

Keiji Kiriya acordando após mais um loop
Apresentando a história do recruta Keiji Kiriya em sua primeira luta na frente de batalha do seu pelotão contra os Mimetizadores, raça alienígena que atacou o nosso mundo com o objetivo direto de dominá-lo como a uma presa, o livro aborda a mudança causada no personagem a partir do momento em que este adquire um dos poderes dos seres inimigos, o qual faz com que ele volte no tempo até um dia antes de sua morte toda vez que ele cai em confronto. Com um estilo similar ao do filme de comédia de 1993, ''Feitiço do Tempo'', o protagonista se vê preso em uma rotina repetitiva cujo fim sempre termina por levá-lo de volta ao começo. Revivendo centenas de vezes o combate, o ingênuo Kiriya vai se tornando mais frio e calculista, uma vez que retinha todas as experiências das mortes anteriores e continuava fadado a experimentá-las continuamente. Transformando-se de um soldado novato em especialista, o personagem apresenta o desumanismo provocado pelo cenário caótico da guerra e os frequentes encontros com a morte, elemento apontado com grande pesar pelo escritor e veterano soldado alemão Erich Maria Remarque em sua obra de 1929, ''All Quiet on the West Front'', acerca da experiência alemã na Primeira Guerra Mundial.

Acima, a representação dos Mimetizadores no filme, abaixo a versão do mangá
No decorrer da trama, Kiriya conhece pessoalmente outra oficial que teria passado por experiência similar à sua com o loop do campo de batalha, a norte-americana Rita Vrataski. Apelidada em batalha de 'Valquíria' e empunhando um longa e pesada lâmina, ela lhe explica a origem do fenômeno pelo qual está passando e o ajuda a treinar para que, juntos, possam eliminar os Mimetizadores responsáveis pela salvaguarda do grupo inimigo ao gerar a viagem no tempo para que possam se reorganizar e se defender melhor dos ataques humanos. Diante da realidade grotesca das guerras e as inúmeras baixas que se repetem a cada novo loop, eles se veem confrontados por uma determinação que talvez seja a única forma de romper a repetição e terminar a batalha, mas isso não será realizado sem grandes sacrifícios.

Tendo iniciado a desenvolver sua história a partir da experiência que leu de um jogador de videogame onde o seu personagem ressurgia nos checkpoints depois de morrer em uma parte mais avançada da fase, mas com maior experiência e entendimento do que viria a encontrar mais pra frente, o autor Hiroshi Sakurazaka procurou observar o outro lado dessa dinâmica e avaliar os efeitos que esse contínuo retorno teria em um indivíduo na linha de frente de combate. Muito menos luxuosa do que alguns poderiam presumir, a história dá um enfoque dramático e aterrorizante no ciclo de mortes sem fim testemunhado por Kiriya.

O mangá produzido a partir da light novel adquiriu grande popularidade pela arte de Takeshi Oda, responsável por renomados outros títulos como ''Death Note'' e ''Bakuman'', e foi publicado em duas revistas no Japão, a ''Weekly Young Jump'' e a ''Weekly Shonen Jump'', sendo trazido para as bancas brasileiras pela editora JBC em dezembro do mesmo ano. Com bastante dinamismo nas cenas e uma abordagem tensa dos efeitos psicológicos no personagem principal, ''All You Need is Kill'' agradou bastante ao público e conseguiu ter boa visibilidade no estande da editora na ComiCon XPerience em São Paulo.

O filme, renomeado para ''Edge of Tomorrow'' (em português, ''No Limite do Amanhã''), foi um grande responsável por trazer os holofotes para a história de Hiroshi. Dirigido por Doug Liman, reconhecido por seu trabalho no filme ''Identidade Bourne'', e estrelado por Tom Cruise e Emily Blunt, o filme arrecadou mais 100 milhões de dólares só dentro dos Estados Unidos e mais que o dobro disso no resto do mundo. Com uma pegada um pouco diferente da narrativa original, o filme apresenta a perspectiva do major Willian Cage, uma figura mais pública que ativa no combate aos Mimetizadores, que acaba sendo enviado para o campo de batalha contra sua vontade e que se vê preso ao loop temporal logo em sua primeira investida. Em meio ao ciclo repetitivo de morte em ação, Cage conhece Rita, apresentada então como 'o anjo de Verdun', uma vez que a trama se desenrola em terras europeias ao invés da original nipônica. Ela o treina e, juntos, traçam um plano para destruir os Mimetizadores que vinham provocando o caos na França e Alemanha. Diferente da versão original, a trama não alcança o clímax que o mangá apresenta, mas apresenta um ambiente menos hospitaleiro que rende uma boa evolução na personalidade dos personagens. A trilha sonora, também, ficou marcada como um elemento fundamental para o filme e foi um dos grandes pontos positivos da produção, conforme é possível conferir no trailer abaixo. Forte concorrente a uma das trilhas sonoras mais notáveis de 2014.

 
A atuação de Emily Blunt esteve excelente no filme
Em ambos, a personagem de Rita Vrataski é emblemática e expõe a ruptura com a visão conservadora das mulheres no campo de batalha. Forte, segura e determinada, a personagem representa grande parte da evolução da história e é tão protagonista da história quanto Kiryia ou Cage. Carismática, ela é respeitada por companheiros e superiores, e no filme, é uma das personagens melhor representadas, em compasso com sua participação no mangá.

O filme rendeu, ainda, outra adaptação para as história em quadrinhos, desta vez em volume único, pela dupla Nick Mamatas e Lee Ferguson, produzida nos Estados Unidos a partir da trama original. Publicada pelo grupo editorial Viz Media, responsável em 2009 pela tradução do original de Hiroshi e de outras centenas de obras japonesas para o inglês, a edição mantém-se inédita no Brasil. Tanto o mangá quanto o filme e a graphic novel saíram por volta da mesma época, no primeiro semestre de 2014 e impulsionaram uma discussão mais ampla sobre a possibilidade de mais mangás e light novels serem adaptadas para os cinemas norte-americanos, trazendo assim maior atenção para seus autores e para a mídia, muitas vezes marginalizada por uma imagem pública demasiado infantil.


A quem tiver interesse em conferir uma entrevista de Hiroshi Sakurazaka para o portal Japan Times acerca da produção em cima de sua obra estreando nas grandes salas de cinema, o link segue aqui. O site Anime News Network também fez uma matéria interessante sobre o sucesso alcançado pelo filme ''No Limite do Amanhã'', que pode ser conferida aqui. Para concluir, o site The Motley Fool preparou uma matéria interessante sobre a graphic novel do ''All You Need is Kill'', da Viz Media, que pode ser conferida aqui.

NOTA GERAL (FILME): 4 ESTRELAS.
NOTA GERAL (MANGÁ): 4,5 ESTRELAS.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

A Era dos Vingadores

Por Gabriel Guimarães


A fim de não estragar a percepção do filme àqueles que querem ter suas impressões próprias nas poltronas das salas de projeção, procuraremos aqui apresentar uma resenha adequada acerca dos valores apresentados no filme e o que pode-se ponderar a partir dos eventos ocorridos neste. As principais revelações ficarão a cargo do filme em si, mas ainda assim, apresentaremos aqui uma análise concisa e imparcial acerca do filme "Vingadores 2 - A Era de Ultron". Dito isto, prossigamos.

Joss Whedon encerra sua passagem
como diretor dos Vingadores neste filme
O mais novo filme da Marvel estreia nos cinemas brasileiros esta semana com o objetivo de apresentar uma nova fase do universo cinematográfico dos personagens da editora. Enquanto a primeira produção fez questão de apresentar o laço que permeou a primeira leva de filmes produzidos pelos estúdios da gigante dos quadrinhos, este segundo surge para consolidar essa marca em expansão e explorar ainda mais as possibilidades que essa junção pode produzir. Para tanto, a Marvel tem feito uso de um procedimento meticuloso na divulgação do material relativo à película, apresentando muitos estímulos aos fãs exigentes e ansiosos por novidades de seus queridos heróis, ao mesmo tempo em que se reservou o direito de guardar elementos surpreendentes e agradáveis para a experiência particular dos espectadores do cinema.

O filme apresenta os Vingadores em um momento diferente daquele em que os encontramos na primeira aventura conjunta dos personagens. Outrora submetidos aos interesses governamentais que os uniram em um primeiro momento, os heróis agora já carregam consigo seus próprios emblemas e cicatrizes de batalha unida. Como equipe, eles já estão mais aptos a defender os inocentes, e sua dinâmica em campo é um elemento de grande qualidade, inclusive. Iniciando o filme com uma pegada bem acelerada e com boas doses de ação, o público encontra os seus heróis na cidade europeia de Sokovo, já em meio a uma missão de apreensão do cetro de Loki, algo que já foi bastante explorado no filme anterior, mas cujo potencial é muito maior do que apresentado até então.

A cena do trailer sobre Mjolnir, o martelo do Thor, tem mais
 importância do que parece ao longo do filme
Abordando de forma instigante as particularidades dos personagens em si e seus relacionamentos uns com os outros, o filme aprofunda um pouco mais a história de alguns heróis pouco trabalhados até então, ao mesmo tempo em que dá uma sensação de amadurecimento a outros cujos passos já vínhamos seguindo nos últimos anos. Conflitados por fantasmas do passado distante e presente, os personagens precisam se redescobrir nesse filme, colocando em xeque os conceitos sobre os quais viveram e se constituíram. Em meio a isto, a ameaça de Ultron surge de forma desproposital, provocando novas rusgas que mais tarde se tornam mais intensas no filme.

O relacionamento de Bruce Banner e Natasha
Romanoff é um dos pontos altos do filme
Aproveitando-se disso, o ser artificial pretende levar a cabo o desejo de proporcionar um mundo sem guerras de seu criador, Tony Stark, de uma forma agressiva que não havia sido ponderada inicialmente. Em meio ao caos que o robô pretende abater sobre o mundo, ele acredita que a humanidade há de evoluir para estar apta aos novos desafios. Determinados a impedir os planos de Ultron antes que seja tarde, os heróis seguem os pequenos rastros deixados para trás que os levam até o mercenário Ulysses Klaw, interpretado pelo versátil ator Andy Serkis, detentor do raro metal Vibranium, retirado das selvas de Wakanda. Ao chegarem a ele, porém, os heróis são confrontados com o vilão que subentitula o filme e seus dois parceiros, os gêmeos Pietro e Wanda Maximoff. Em uma empolgante sequência, Thor, Viúva Negra e Capitão América são submetidos a lutar contra alguns de seus maiores receios e dores, enquanto o Gavião Arqueiro, Homem de Ferro e Hulk acabam tomando parte em outros eventos igualmente alarmantes, rendendo cenas de grandes qualidade e emoção.

Clint Barton ganhou bastante
destaque nessa continuação
Abalados pelo conflito, os heróis reavaliam a proposta da existência do grupo, abrindo margem para consequências relevantes para a cronologia cinematográfica dos estúdios, as quais já podem ser conferidas no desenrolar deste filme e nos próximas produções, como "Capitão América - Guerra Civil" e "Thor - Ragnarok". Tratando discussões sobre legado como algo de interesse dos heróis, tanto social quanto pessoal, o diretor Joss Whedon traz à tona traços de personalidades mais humanos a personagens até então fechados, como a Viúva Negra e o Hulk, mas, principalmente, o Gavião Arqueiro. Uma vez que seu intérprete, Jeremy Renner, apresentara válido descontentamento com a falta de características de seu papel, ele agora adota um tom humano que ajuda a contrabalançar o grupo de superseres, o que o torna um elemento de destaque neste filme.

Observando Ultron procurar por mais poder para executar seus planos, os heróis são obrigados a combatê-lo de forma contínua, ao mesmo tempo em que os novos personagens Pietro e Wanda amadurecem em cena, percebendo que nem tudo é o que parece, passando a reavaliar sua participação no processo de erradicação da humanidade. Trazendo, então, outros elementos novos e instigantes acerca da inteligência artificial, o filme apresenta um de seus mais potencialmente poderosos personagens, o androide Visão. Entrar em maiores detalhes seria privar o público da experiência estimulante apresentada nas telas do cinema, então, apenas deixamos o convite para que a história em si possa ser conferida na íntegra por cada espectador a fim de que proporcione conclusões individuais e momentos de diversão e animação ímpares.

O filme é, portanto, uma obra de transição, em suma. Ele encerra um ciclo que vinha sendo conduzido com paciência e abre uma nova fase que demonstra desde já agitação tanto dentro de cena quanto fora dela. Os estúdios, percebendo a reação de êxtase do público, vem se aproximando de seus admiradores e criando um universo empolgante e cheio de possibilidades para o futuro, que parece muito animador. O trabalho com o principal vilão do filme, feito de forma mais sutil e cômica do que se supunha, dialoga principalmente com as expectativas dos personagens para o universo no qual estão inseridos e na sequência de suas respectivas histórias. Se a ansiedade do público ao longo do processo de divulgação desse projeto foi magnífica, com destaque para o estande montado pela Marvel na ComiCon XPerience de 2014, (cuja cobertura completa pode ser conferida aqui no blog), o que está por vir certamente deixará os afincos espectadores dos estúdios da editora e os fãs desses extraordinários heróis no limite de suas cadeiras, envolvidos e emocionados com um projeto midiático que vem marcando época e é fonte de ricas observações para o papel desempenhado por esse material na vida de seus admiradores

"Eu vejo um novo começo de Era..."
NOTA GERAL: 4 ESTRELAS.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Diferentes Perspectivas Para o Desejo de Vingança

Por Gabriel Guimarães




Lançada de forma seriada na revista "Weekly Manga Action" entre 1996 e 1998, e chegando às mãos dos leitores japoneses em 8 volumes compilados pouco tempo depois, a história "Oldboy", escrita por Garon Tsuchiya e desenhada por Nobuaki Minegishi, cativou de forma determinante o público com uma trama envolta em mistério, intriga e suspense psicológico, porém, só ganhou a atenção da mídia internacional a partir da adaptação para as grandes telas feita pelo diretor sul-coreano Chanwook Park em 2003. Essa repercussão no cinema, destacada pelos prêmios acumulados em festivais ao redor do mundo todo, com destaque para o Grand Prix do Festival de Cannes, causou, porém, uma certa confusão acerca da fonte original da história. Recentemente, o diretor norte-americano Spike Lee produziu uma refilmagem da obra de Park, que trouxe de novo à tona algumas questões que merecem ser destacadas no original de Tsuchiya e Minegishi.

O mangá "Oldboy" segue a história do amnésico Shinichi Gotou, que acabara de ser liberado de um cárcere de dez anos sem qualquer contato com o mundo externo além do que era transmitido na pequena televisão que possuía no cubículo onde era mantido. Sem se lembrar inicialmente de quase nada sobre seu passado, o personagem vaga pelas ruas até conhecer a jovem Eri e começar a procurar pistas sobre quem o aprisionou por tanto tempo e a razão disso. A trama se desenrola ao longo dos 79 capítulos publicados pela editora Futabasha, ganhando uma forte carga psicológica a partir da metade da história. A resolução da trama se dá de forma prolongada, com o jogo de gato e rato protagonizado por Gotou e seu captor alternando entre lados continuamente até o desfecho da jornada com a morte de um dos dois. A obra, entretanto, não se conclui de forma absoluta, deixando no ar mais um pouco do suspense com que a série foi guiada desde seu início.

O filme de Chanwook Park consegue captar o clima de mistério do mangá, porém, se distingue deste em muitos outros aspectos. A história agora se passa na Coreia do Sul ao invés do Japão e o protagonista é o intimidador Oh Dae-su, que ficara encarcerado por 15 anos e cujo propósito de sua punição se deve ao efeito devastador que provocou no passado de alguém a quem não consegue se lembrar. Embora a trama de Tsuchiya e Minegishi também carregue muito essa noção das consequências do passado no presente, o filme transforma esse fator em algo consideravelmente mais sério e carregado de tabu que o mangá. A quantidade de violência e o terror psicológico consequente dessas mudanças proporcionam uma experiência bastante diferente do material original, mais focado no mistério em si. A produção de Park, contudo, não perde a qualidade por essas divergências, apenas recaracteriza o tema e proporciona uma perspectiva mais severa para o sentimento de vingança com o qual Oh Dae-su inicia sua jornada.

É necessário, portanto, discernir o filme do mangá original. Com o sucesso de crítica do filme, muitos passaram a considerá-lo como uma peça única, sem conhecer sua fonte verdadeira. E o caso do filme lançado em 2013 pelo diretor Spike Lee com atores como Josh Brolin e Elizabeth Olsen parece trazer essa discussão novamente à tona. Inicialmente planejado para ser uma verdadeira adaptação dos quadrinhos, a ser dirigida por Steven Spielberg e estrelada por Will Smith, o filme foi cancelado após os estúdios Dreamworks abandonarem o projeto devido a uma série de desacordos sobre os direitos de adaptação do conteúdo entre os detentores do material sul-coreano e do mangá japonês original. A produtora Mandate Pictures, após anos desse incidente, anunciou em 2011 a produção do novo filme com novo elenco e cujo propósito se restringiria apenas a refilmar o material de Chanwook Park. Transportando os eventos da história  para outra localidade e outro tempo, o filme agora seguia a jornada por vingança do malandro Joseph Doucett atrás de seus captores, que o deixaram preso por 20 anos. Seguindo várias cenas do filme de Park, a ponto de ser possível associar designs de ambientes e ângulos de filmagem, o material americano não agregou quase nada em relação ao filme anterior, realizando pequenas mudanças no desfecho da história, que é drasticamente diferente do desfecho do mangá.


Uma vez que a sua adaptação cinematográfica alcançou a mídia internacional, a Dark Horse Publishing House adquiriu os direitos para lançar o mangá nos Estados Unidos, em 2005, rendendo à editora um prêmio Eisner por melhor edição de material estrangeiro do Japão no mercado americano. Em 2013, foi a vez da editora Nova Sampa chegar a um acordo com os detentores dos direitos de distribuição da história de Shinichi Gotou, lançando nas bancas brasileiras as oito edições da obra em quadrinhos. Agora, está nas mãos dos leitores a oportunidade de conferir o que essa trama tem de tão instigante em termos de roteiro e tão detalhado em termos de desenho. Não deve-se esperar a mesma experiência do filme, mas, pelo contrário, recomenda-se manter a mente aberta ao ritmo de mistério que a trama oferece, ainda que ocasionalmente isso imponha um desenvolvimento lento na história. É relevante aqui destacar que o filme "Oldboy" de Chanwook Park, com seus acertos e defeitos, é uma obra válida de ser reconhecida como um desenvolvimento interessante para o cenário proposto por Tsuchiya e Minegishi, porém, é importante ressaltar que o conteúdo original merece ser considerado, diferente do que acontece em muitas análises desse material.

NOTA GERAL (MANGÁ ORIGINAL): 3,5 ESTRELAS.
NOTA GERAL (ADAPTAÇÃO DE CHANWOOD PARK): 3,5 ESTRELAS.
NOTA GERAL (REFILMAGEM DE SPIKE LEE): 3 ESTRELAS.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

As peripécias de Zózimo Barbosa

Por Gabriel Guimarães



 O quadrinista Wander Antunes talvez não seja tão conhecido do público no mercado brasileiro, uma vez que suas mais premiadas obras foram lançadas no mercado europeu pela editora suíça Paquet, porém, em 2007, a editora Pixel lançou aqui no Brasil um álbum com histórias curtas de um de seus primeiros personagens, o investigador particular e boêmio Zózimo Barbosa. "O Corno Que Sabia Demais & outras aventuras de Zózimo Barbosa" apresentava sete histórias ambientadas no Rio de Janeiro da década de 1950, com os sonhos, costumes e personalidades da época sob a perspectiva do pouco ortodoxo protagonista e sua rotina de lidar com as figuras de estirpe elevada porém questionável da sociedade carioca.

Criado originalmente pelo autor goiano para a revista Estação Leitura, produzida em parceria com a Secretaria de Cultura de Mato Grosso, em março de 2004, Zózimo Barbosa preencheu o imaginário de muitos cidadãos mato-grossenses durante o horário de pico nos transportes públicos onde a revista era distribuída gratuitamente. Ainda que a publicação tenha tido um número pequeno de edições, reflexo do investimento reduzido feito de forma anual no conteúdo, o personagem adquiriu alguma popularidade e a revista, que contava com artigos de acadêmicos brasileiros e textos de autores pouco conhecidos do público manteve-se em circulação até 2008. Antunes, que ocupara também a função de editor da publicação, passou a focar sua produção para o mercado europeu, onde já criara graphic novels como "Ernie Adams" e "Big Bill est mort" (uma entrevista muito interessante dada pelo autor para o jornal "Diário de Cuiabá", em setembro de 2007, acerca de sua carreira no mercado de quadrinhos pode ser conferida aqui).

Já conhecido dentro do mercado de revistas em quadrinhos  por seu trabalho junto a títulos como "Os Trapalhões", "Sérgio Mallandro" e outras publicações que adaptavam apresentadores de sucesso na televisão brasileira para a nona arte, o desenhista Gustavo Machado não foi apenas o responsável por ilustrar as desventuras de Barbosa, como ajudou a criar todo seu universo visual da época. Com um traço limpo e  um bom domínio da narrativa gráfica, Machado conduziu com fluidez o desenrolar dos casos escritos por Antunes, e garantiu um material de grande qualidade como um todo para a publicação. Após o término da revista, o desenhista continuou a produzir conteúdo para as revistas de dentro do próprio Brasil, com destaque para sua participação em revistas como "Zé Carioca" e outras publicações Disney.

Para complementar o material produzido pela dupla, o desenhista Paulo Borges, também conhecido por seu trabalho nos quadrinhos Disney e premiado cinco vezes pela editora Abril, colaborou na ilustração de duas das histórias de Zózimo Barbosa publicadas no livro da editora Pixel. Ativo no meio desde 1987, os desenhos de Borges mantiveram o teor clássico das tramas noir escritas por Antunes e proporcionaram um belo resultado junto ao material produzido pela dupla responsável original, rendendo à publicação o prêmio HQMix no seu ano de publicação.

Paulo Borges, Wander Antunes e Gustavo Machado, respectivamente

As aventuras protagonizadas por Barbosa na edição da Pixel oferecem ao leitor uma experiência agradável tanto em termos de enredo quanto em termos de desenho, trazendo em ambos uma parte da "inocência" das publicações da época em que as tramas se desenrolam, ao mesmo tempo em que subvertendo várias expectativas, apresentando os elementos contraditórios que compunham muitos dos homens de negócio e dos relacionamentos conjugais da época. Apresentado em uma estrutura de casos curtos, o conteúdo das histórias se assemelha às crônicas de Nelson Rodrigues acerca das particularidades da natureza humana dos personagens trabalhados, elemento este que o próprio Antunes afirma ter considerado como uma referência para a criação de seu trabalho. Contando com algumas poucas cenas mais voltadas para o público mais adulto, envolvendo sexo, morte e desvirtuamento de valores, a publicação certamente torna-se um conteúdo mais restrito sem, contudo, por isso perder suas grandes qualidades.

Exemplo de uma das páginas do álbum
A leitura do material instiga o leitor a querer saber mais dos personagens comuns na estrutura das histórias de Antunes, como Bonitão, o policial Paranhos e o próprio Zózimo, mas satisfaz ao apresentar casos de arco fechado (com introdução, desenrolar e conclusão), cada qual de acordo com aquilo que se propunha. A pesquisa histórica também é algo que merece ser elogiada na avaliação da obra, uma vez que todos os elementos da história parecem realmente ter saído de fotos clássicas e livros de história. As gírias da época oferecem um certo entrave nas primeiras histórias da publicação, porém, são rapidamente absorvidas e tornam os diálogos consideravelmente mais fluídos. O grande destaque negativo da publicação, entretanto, é que termina tão rápido quanto começa, tendo apenas 64 páginas, das quais algumas ainda são dedicadas a argumentos pré e pós-textuais.

O álbum "O Corno Que Sabia Demais & outras aventuras de Zózimo Barbosa", portanto, é um material que merece ser conferido pelos leitores interessados em histórias de detetive do gênero noir, além de ser uma proposta muito interessantemente adaptada para o contexto nacional brasileiro da década de 1950. Apesar de não dar sinais de existir uma nova publicação desse conteúdo, uma vez que cada um dos quadrinistas envolvidos estão engajados em novos materiais, o material deixa um desejo de ler mais histórias no universo desses personagens. Torçamos para que o futuro nos reserve algo dessa natureza em breve. 

NOTA GERAL: 4 ESTRELAS

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Nova Fragata pelos Quadrinhos Literários

Por Gabriel Guimarães



Uma das páginas do primeiro volume
de "História do Brasil em Quadrinhos"

Colaborador da revista "Mundo dos Super-Heróis" desde o mês de setembro de 2007, o jornalista Jota Silvestre tem se tornado presente em vários eventos de quadrinhos na cidade de São Paulo e em debates nas redes sociais sobre a nona arte e seus mais renomados personagens e autores. Com uma veia histórica acentuada, Jota logo começou a colaborar com trabalhos de propriedade educativa na arte sequencial, auxiliando a traduzir o argumento do escritor Edson Rossatto para a primeira história em quadrinhos produzida e publicada pela editora Europa, "História do Brasil em Quadrinhos", de pouco mais de 50 páginas e cujo público-alvo consistia em crianças com nível de escolaridade do Ensino Fundamental, majoritariamente.
 
 
Aydano Roriz, autor do romance
"O Fundador", que originou a HQ
publicada pela editora Europa
Com o sucesso alcançado por essa primeira publicação, o editor responsável, Manoel de Souza, levou adiante o planejamento de outros dois materiais de semelhantes características, um sendo uma continuação direta do material de Rossatto, e outra, uma adaptação mais madura sobre o romance histórico "O Fundador", escrito pelo historiador Aydano Roriz acerca da trajetória de vida do navegador português Tomé de Souza em seu tempo nas terras tupiniquins e seu papel na fundação da Bahia. Interessado pelo projeto e admirado pela fluidez do texto de Roriz, Jota assumiu as rédeas do trabalho, adaptando o conteúdo literário original em um roteiro coeso de quadrinhos de quase 75 páginas.
 
Ao longo de mais de três anos, ele e o desenhista JB Fernandes tiveram uma considerável carga de trabalho a fim de encontrar referências precisas sobre o período histórico em que a história se passa e o contexto no qual os personagens estavam inseridos, porém, o resultado valeu a pena. Com uma arte detalhada e uma preferência pelos diálogos enquanto ferramenta narrativa, a história captura o leitor, guiando-o confortavelmente pelos eventos históricos apresentados, servindo, dessa forma, como uma bela ferramenta de ensino para os interessados no tema.

O acabamento editorial aplicado pela editora Europa agregou, ainda, muito valor ao material, dispondo-o no mercado com acabamento de qualidade em papel couché a um preço acessível. A colorização da história, realizada pela dupla Marcio Menyz e Mauricio Leone, ambos professores representados pelo Instituto dos Quadrinhos, é igualmente elemento de destaque na obra, dando maior profundidade para os desenhos de Fernandes e implementando na história os tons e cores que a rica fauna e flora brasileiras apresentavam aos navegantes europeus.
 
Os prazos de produção da obra, porém, levaram a certas decisões editoriais que tiveram altos e baixos. Sem ter como dispor do tempo necessário para a arte-final das páginas a nanquim, o projeto foi inteiramente colorido sobre as ilustrações feitas a lápis por Fernandes e escaneadas para o computador. Isso acrescentou um tom marcante em determinadas cenas da história, tendo os traços indígenas dos personagens das tribos nativas do Brasil ganho uma naturalidade louvável, como a cena em que a filha de Diogo Álvares, Uyara, é apresentada ao seu futuro marido, entretanto, determinadas expressões faciais e marcas de sombra delineadas pelo traço acabaram perdendo certa qualidade que poderiam ter conservado em caso de um acabamento mais cuidadoso, ao exemplo da cena da união de Tomé de Souza com Jurecê e Yuruti, na casa de seu outrora criado, Garcia.
 
 
A história em quadrinhos, afinal, é de grande valia como ferramenta didática e até como instrumento de entretenimento. Obviamente, o período histórico em que tudo transcorre é rico demais em termos de detalhe para conseguir ser apresentado em suas minúcias para o leitor, porém, a adaptação de "O Fundador" para a nona arte é um material extremamente rico, tanto em texto quanto em arte, e merece uma chance para surpreender e cativar o público. A editora Europa certamente acertou ao desbravar esse nicho de mercado para as próximas gerações através das hábeis mãos de todos estes profissionais envolvidos no processo.

NOTA FINAL: 4,5 ESTRELAS.

domingo, 28 de julho de 2013

Laços Encontrados

Por Gabriel Guimarães


No final de 2011, os estúdios MSP anunciaram uma coleção especial de quatro títulos isolados, que apresentariam os personagens pertencentes ao estúdio através dos olhos e estilos de artistas em ascensão no cenário editorial brasileiro selecionados a dedo. Tratava-se do selo editorial Graphic MSP.
 
Contando com a alta expectativa que se aglomerava durante a Feira Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte, onde o anúncio aconteceu (o qual foi coberto aqui no blog), o editor Sidney Gusman deu um pequeno vislumbre do que estava por vir nos anos seguintes, contando apenas com uma imagem ilustrativa definindo de que se trataria cada obra do conjunto. Utilizando de estratégia similar àquela implementada na divulgação da trilogia "MSP50" (que foi observada de perto aqui no blog), Gusman manteve o público atento conforme ia liberando teasers das páginas de quadrinhos através das redes sociais nos meses seguintes.
 
Ano passado, em 2012, foi lançada a primeira edição desse projeto, "Astronauta: Magnetar", pelo traço do desenhista paulista Danilo Beyruth. A obra, que inaugurou com brilhantismo a série, narrou um episódio protagonizado pelo personagem Astronauta, originalmente criado por Maurício de Sousa em 1963, dando-lhe, porém, um maior tom de ficção científica e de suspense do que lhe era habitual. Mantendo os elementos característicos do material original, Beyruth apresentou uma história intrigante e envolvente, aproveitando até, em determinado momento, para referenciar o seu próprio personagem, o Necronauta, na trama do hábil explorador do espaço sideral. Tendo conquistado tanto a crítica quanto os leitores, a história não apenas se tornou um dos quadrinhos mais vendidos do ano e um dos destaques editoriais daquele ano.
 
Em maio deste ano, foi lançado o segundo título das Graphic MSP, com um elemento a mais válido de gerar expectativa: o aniversário de 50 anos de uma das personagens mais importantes da obra e a principal protagonista do universo de personagens criados por Maurício de Sousa em toda a sua carreira, a Mônica. Com teor mais lúdico, "Laços", produzido pelos irmãos mineiros Vitor e Luciana Caffagi, ganhou as prateleiras e os corações daqueles que vieram a conhece-lo. E é sobre essa obra que vamos discorrer, de fato, a seguir.
 
Ambientada no pacato bairro do Limoeiro, cenário tradicional das histórias da turma da Mônica, a obra dos irmãos Caffagi procura trabalhar questões inerentes ao período em que os personagens principais se encontram, ou seja, a infância, e as diferentes percepções de mundo e de certos conceitos como amizade e lealdade existentes nesta etapa de vida.

Logo de início, há uma construção narrativa muito interessante a se ressaltar: Apesar de serem elemento comum na formação do leitor brasileiro há várias décadas, há uma apresentação sutil, todavia, clara, dos quatro personagens principais da trama - Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão -, além de referenciar outros personagens secundários que tiveram papel interessante no passado. Logo em seguida, porém, a história adentra em sua verdadeira trama: o desaparecimento do cachorro Floquinho, pertencente ao personagem Cebolinha. Conhecido por seus planos mirabolantes para ser o menino mais respeitado da região, ele vê sua confiança abalada pela perda de seu fiel bicho de estimação, cujo primeiro contato foi belamente retratado pelo traço simplesmente poético de Luciana Caffagi (cujo trabalho junto ao grupo Lady's Comics já foi comentado aqui no blog).

Cena em que Cebolinha vê Floquinho pela primeira vez,
no traço da desenhista Luciana Caffagi 
Convencido pelos demais amigos a não desistir tão fácil da esperança de reencontrar Floquinho, Cebolinha orquestra uma estratégia para guia-los, a qual eles seguem de forma determinada. Com o passar do tempo, porém, eles se deparam com um grupo de garotos de outra rua, que ridiculariza o ato do grupo. Vale destacar que esses personagens são referências óbvias a outra turma de personagens de quadrinhos reconhecidos mundialmente, a turma da Luluzinha e do Bolinha (que já foram observados anteriormente aqui no blog). Respondendo com autoridade, a turma da Mônica consegue com os garotos a informação para o próximo passo na jornada atrás do Floquinho e decide visitar o Parque das Andorinhas, onde fora visto mais cedo. O grupo se prepara, pega os recursos de que podem vir a precisar e partem para a ação.

Deste ponto em diante, comentar detalhadamente seria privar os leitores de deliciar essa obra com a maestria com que ela foi produzida, entretanto, alguns comentários ainda são pertinentes. O traço cuidadoso de Vitor Caffagi se destaca em diversos momentos ao longo da história, ressaltando seu dom para a narrativa nostálgica com que produziu muitas de suas histórias no passado, como "Puny Parker" e "Valente" (o artista já foi comentado aqui no blog). O volume de detalhes preciosos também é algo digno de nota, com o fato de que, nas histórias em quadrinhos tradicionais dos personagens, o único deles a usar sapatos é o Cebolinha, e a forma como isso é sutilmente abordado no decorrer da trama; e o clima de filme clássico dos anos 1980, como "Goonies" e "Conta Comigo", sentido na obra como um todo também é sublime, sensibilizando ao mesmo tempo em que entretêm.

Cena emblemática dos personagens como guerreirinhos
do bairro do Limoeiro
 
Procurando, dessa forma, as raízes dos elos que uniram os quatro personagens principais, é apresentado ao leitor uma bela história de amizade e confiança que certamente gerará uma leitura agradável e de fluidez pautada pelo fluxo de emoções experimentadas pelos personagens. Diferente dos garotos perdidos companheiros de Peter Pan, os personagens de Maurício encontraram, nas mãos dos irmãos Caffagi, uma boa morada e um laço de apoio fraternal difícil de encontrar na indústria de quadrinhos, à exceção de poucos casos como os dos gêmeos paulistanos Fábio Moon e Gabriel Bá, e dos irmãos norte-americanos Adam e Andrew Kubert.

A leitura, afinal, é altamente recomendada, e o título tende a ser um dos mais vendidos do ano, uma vez que, ainda em seu segundo mês disponível nas bancas e livrarias, já se encontra na segunda tiragem.

NOTA GERAL: 5 ESTRELAS.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

A Gênese de um Nêmese

Por Gabriel Guimarães


Pouco mais de um mês atrás, a editora Panini publicou aqui no Brasil a história em quadrinhos "Nêmesis", lançada em 2011 nos Estados Unidos pela dupla Mark Millar (roteiro) e Steve McNiven (desenho). Criada a partir da seguinte questão "O que aconteceria se existisse alguém inteligente e com recursos infindáveis, como o Batman, mas com a mentalidade deturpada de alguém como o Coringa?", a história gira em torno das ações desse personagem hipotético, em sua encruzilhada para destruir policiais considerados exemplares ao redor do mundo inteiro.
 
Capa da edição da Panini
Iniciando sua jornada no Japão, com uma prévia do seu estilo de planejamento, Nêmesis deixa Tóquio em uma situação extremamente caótica antes de rumar para os Estados Unidos para atacar o chefe policial Blake Morrow, futuro candidato a secretário de defesa. A trama se desenrola adquirindo um tom brutal cheio de adrenalina, conforme o criminoso ameaça e ataca Morrow tanto física quanto psicologicamente. Com um humor ácido e várias sequências de muito envolvimento visual, a história proporciona um suspense de grande qualidade para o leitor, prendendo-o da primeira à última página.
 
Entretanto, há determinadas características da trama que merecem ser analisadas de forma mais particular. A completa ausência de limites no que tange ao valor descartável das vidas humanas e a falta de profundidade nos personagens envolvidos na história acabam pesando bastante contra o universo proposto por Millar e McNiven. A dupla, outrora criadora de histórias memoráveis como o arco "Guerra Civil", protagonizado pelos principais personagens da editora Marvel, e a saga "Oldman Logan", que apresenta um futuro devastado que precisa ser corrigido pelo personagem Wolverine, da mesma editora; não consegue repetir o mesmo nível de sucesso em sua nova empreitada. O posto de protagonista oscila tanto entre o policial e o criminoso que torna difícil se identificar com qualquer um dos dois, ainda que a evolução da história torne o leitor bastante sensível ao drama vivenciado por determinados personagens.
 
A personalidade do Nêmesis, porém, se caracteriza como o grande elemento da história em si. Com uma visão radical sobre a moral universal, a qual não é, de certo modo, justificada em alguns momentos da trama, o sadismo do personagem se destaca como a principal semente de seu caráter duvidoso. Dessa forma, o vilão se qualifica junto a outros vilões e anti-heróis admirados pelo público, como Lobo, da DC Comics, Deadpool, da Marvel, e o Juiz Dredd, da britânica Rebellion Developments, como parte do catálogo de personagens que podem ser encontrados nas páginas de revistas em quadrinhos ao redor do planeta.

Blake Morrow enfrentando Nêmesis

A história também representa uma estratégia recorrente de Millar. Como ele fizera com outras histórias suas, como "Kick-Ass", o roteirista vendeu os direitos de adaptação para o cinema antes mesmo de o material final ser publicado. "Nêmesis" já tem confirmado até o momento a direção de Joe Carnaham, um dos responsáveis pela revitalização do "Esquadrão Classe A" nos cinemas, que trabalhará em cima de um roteiro que está em fase de produção a partir da história de Millar e McNiven. Dessa forma, a trama dos quadrinhos em si é mais como uma introdução ao universo que será apresentado de forma mais minuciosa na grande tela das salas de cinema. Algo similar ocorreu também com "R.E.D. - Aposentados e Perigosos", de Warren Ellis e Cully Hamner, que surgiu nos quadrinhos, ganhou mais substância no cinema e acabou ganhando o interesse do público.
 
O acabamento editorial de "Nêmesis", da editora Panini, vale também ser destacado. Parte da política recente da editora em lançar histórias de arco fechado em papel couché e capa dura, com preço moderado, a edição chama a atenção nas livrarias e pontos de venda, atraindo bastante o público que está começando sua jornada na leitura da arte sequencial. Fica apenas o alerta para o conteúdo adulto em termos de violência empregados na história, detalhadamente desenhado por McNiven. A experiência apresentada em "Nêmesis", portanto, é algo válido de ser conferido, dadas as devidas condições em que a obra se sustenta, sendo, dessa forma, recomendável para públicos de estômago mais forte e de boa compreensão da divisão entre a ficção e a realidade.
 
NOTA GERAL: 1,5 ESTRELAS.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

12 Razões Para Apenas Observá-la

Por Gabriel Guimarães


Publicadas em 2006 nos Estados Unidos pela editora Oni Press, as vinhetas que constituem a história "12 Razões Para Amá-la", feitas a partir dos roteiros de Jamie S. Rich com desenhos de Joëllle Jones, contam o relacionamento entre dois jovens, Gwen e Evan, em seus momentos bons e ruins, característicos de todos os romances urbanos. Oscilando entre o drama e as ponderações existenciais tradicionais da atualidade, a obra captura o leitor despretensiosamente e o leva pela mão entre o passado, presente e futuro do casal, numa experiência um tanto curiosa.

Com um estilo de história semelhante ao primeiro material publicado pelos irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá em seu antigo fanzine "10 Pãezinhos", e alguns toques sensíveis de narrativa gráfica que remetem ao que foi realizado por Mário Cau na sua participação da quarta edição da história em quadrinhos "Nanquim Descartável", com roteiro de Daniel Esteves (e que foi comentado aqui no blog antes), a obra de Jamie e Joëlle instiga o leitor a tentar encontrar o equilíbrio temporal em meio a ações conturbadas que se mesclam de forma não perfeita mas eficaz, como o próprio casal. Com o tom preciso de uma pacata história romântica, o leitor é convidado a compartilhar os momentos íntimos do casal, onde por mais superficial que a conversa possa ser, os laços pessoais entre os dois se fortalece.

Apesar de apresentar uma narrativa ousada, o resultado não é tão eficiente, em termos de ordem cronológica dos acontecimentos, gerando uma pequena confusão na hora de posicionar cada peça da história na soma final do livro. A história, entretanto, merece ser conferida para que o leitor possa observar o belo trabalho de contraste entre preto e branco realizado com as cores. Ângulos de requadro instigantes e uma conclusão empolgante e, ao mesmo tempo, curiosa, que dá mais sentido à obra, também merecem ser destacados como pontos positivos da obra. Por outro lado, a obra mereceria ter um tom mais cordial em determinados momentos compostos apenas como subterfúgio para composição da trama, como, por exemplo, no capítulo cinco, quando o casal sai do cinema após assistir o filme "O Exorcista". O nível apresentado na discussão deste capítulo deixa muito a desejar, principalmente em termos de respeito e maturidade, de ambas as partes do conflito. A compreensão da ausência de estereótipos puros já é nítida desde o começo da história, com Gwen não sendo bem uma dama e Evan não sendo bem um cavalheiro, mas o exagero disso nesse capítulo acaba soando como uma apelação para exprimir apenas um dos lados da discussão na história.


A obra foi publicada aqui no Brasil em 2007 pela editora Devir, e não chegou a adquirir muito alvoroço por conta do público. De natureza frágil, mas com acabamento decente e desenhos bem apresentados para representar as fases do casal, "12 Razões Para Amá-la" se qualifica, portanto, como um material leve e um tanto limitado, ainda que retrate em si a realidade de muitos casais no mundo físico. Pelo volume brando de sua leitura, qualifica-se como conteúdo de transição, capaz de ao menos oferecer aos apaixonados irremediados uma ferramenta para saberem que não estão sozinhos no mundo.

NOTA GERAL: 1,5 ESTRELAS.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Arrowsmith, ShockRockets e a Magia da Guerra

Por Gabriel Guimarães


No começo do Século XX, a humanidade testemunhou um período muito complicado, onde os conflitos internacionais ganhavam proporção antes inimaginável, afetando todos os habitantes do planeta de alguma forma, direta ou indiretamente. A partir desse momento, muitas editoras viram que o espírito nacional de seus países carecia de algo que lhes motivasse a continuar lutando. Artistas como Will Eisner, principal responsável pela publicação do título "P. S. Magazine", de 1951 a 1971, e Joe Kubert (que recebeu uma devida homenagem póstuma aqui no blog), eterno grande nome das histórias de guerra com o personagem Sgt. Rock, pela DC, dedicaram grande parte de suas carreiras à narrativa de eventos relacionados a esses desastres, procurando sempre focar no fato de que há uma maneira melhor de resolvermos nossas diferenças do que apenas empunhando armas e julgando os outros. Histórias como a graphic novel "VietSong", produzida pelo espanhol Manfred Sommer, com claras influências no trabalho do italiano Hugo Pratt, ainda abordavam uma humanização dos personagens envolvidos nos conflitos, trazendo à tona o que havia no mais interior de seus seres e de suas histórias de vida.
 
O Justiceiro surgiu
na editora Marvel
durante a década de 1970
como um veterano da
Guerra do Vietnã, para
demonstrar também os
efeitos desse conflito que
tanto abalou o mundo na forma
como os soldados eram vistos

A sequência de eventos catastróficos como as guerras acabaram afetando a percepção do indivíduo enquanto parte de uma sociedade, o que repercurtiu de forma estrutural na gestão do mercado editorial de quadrinhos, em especial, no norte-americano, ganhando desdobramentos extremamente importantes para a história do meio. Com a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, os personagens que serviriam para dar esperança às nações envolvidas não mais poderiam ser apenas meros mortais, precisando ter poderes maiores do que as limitações humanas permitiam, produzindo, dessa forma, a primeira geração de super-heróis, a partir do Superman, de Jerry Siegel e Joe Shuster, em 1938. Hoje, toda a indústria originada desta necessidade representa grande parte das vendas no mercado da arte sequencial como um todo, uma vez que as motivações dos personagens foram se adaptando aos novos tempos e novos conflitos socioculturais. Passando pelo conflito interno de igualdade entre as raças até batalhas perdidas e esperanças destruídas, como a Guerra do Vietnã e a revelação do horror dos campos de batalha, os quadrinhos de herói seguiram as deixas que a sociedade apresentava e, dessa forma, se tornaram referência para todas as gerações de leitores que surgiram posteriores à criação dos protagonistas das histórias em si. Vale destacar aqui também a história espetacular criada em 1985 pela dupla britânica Alan Moore e David Gibbons, "Watchmen", que leva o questionamento da guerra aos seus últimos estágios, abalando toda a estrutura da moralidade e da ética com que os heróis da sociedade sempre eram percebidos (essa obra já foi analisada uma vez no blog, o que pode ser conferido aqui).
 
Cena de "Paraíso de Zahra", que mostra a repressão
contra os movimentos estudantis, no Irã

Atualmente, continuamos sendo testemunhas de muitos conflitos no mundo, seja na recente Guerra do Iraque, nos problemas políticos dentro do Irã ou mesmo nos conflitos territoriais africanos. E as histórias em quadrinhos não deixaram de servir como meio para abordar o tema. A graphic novel "Paraíso de Zahra", de Amir e Khalil, pseudônimos dos verdadeiros autores, conta, por exemplo, a jornada de um jovem iraniano à procura de seu irmão, desaparecido em meio a uma manifestação popular numa das maiores praças do país. Os quadrinhos do repórter da nona arte, Joe Sacco, são óbvios exemplos disso também, basta observar a forma como conduz suas narrativas e o preciosismo que ele dispõe em cada informação coletada pessoalmente nas zonas abaladas pelas guerras, como a região de Sarajevo, Bósnia e na própria Palestina.
 
 
Há, porém, outra corrente na abordagem da guerra nas histórias em quadrinhos, que se constitui pela apresentação histórica ou fantasiosa acerca de como os eventos do passado se deram ou poderiam se dar, e seus respectivos reflexos na nossa sociedade nos dias de hoje. A história brasileira "Jambocks!" é um excelente caso, que se foca na participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Escrita pelo talentoso e afinco pesquisador Celso Menezes e cujos dois primeiros volumes foram desenhados pelo espetacular Felipe Massafera, a história apresenta bases muito bem fixadas nos eventos reais e dá ao leitor a oportunidade de compreender um pouco melhor a natureza de certos frutos dessa participação brasileira que até hoje são percebidos em nossa cultura, como o surgimento da música forró, a partir de comemorações realizadas entre o povo nordestino e os soldados norte-americanos nas bases e casas do estado do Rio Grande do Norte, enquanto os americanos ensinavam os brasileiros como utilizar de forma apropriada os aviões de guerra. Oriundo da expressão "for all", as músicas populares na região ganharam um contexto que viria a ser utilizado por todo um gênero de música popular, anos depois.
 
O jovem Fletcher Arrowsmith
observa atento os pôsteres sobre
as ameaças do outro lado do mundo
Entretanto, nossa matéria de hoje procura comentar acerca de duas obras em particular. Ainda que consistam de uma abordagem fantasiosa sobre um evento real e uma abordagem realista para um evento fantasioso, o teor de ambas demonstra raíz em toda a relação entre a guerra e os quadrinhos e, por conta disso, não poderia vir a ser apresentado sem a devida contextualização.
 
 
"Arrowsmith - A Guerra da Magia", produzida em 2003 pela dupla consagrada composta pelo roteirista Kurt Busiek e o desenhista mexicano Carlos Pacheco, e publicada aqui no Brasil em 2005, pela editora Devir, conta também a história da Primeira Guerra Mundial, porém, sob um prisma diferenciado pela magia enquanto elemento das narrativas clássicas da Era Medieval. Em um mundo onde seres mágicos dividem espaço com pessoas normais, a forma de organização social e o desenvolvimento tecnológico dão lugar a uma estrutura bastante diferente do mundo real.
 
Apresentado de maneira primorosa pelos desenhos de Pacheco, com uma bela adaptação construída pela mente de Busiek, a história se desdobra no período de amadurescimento da guerra, que subentende-se à aceitação da morte de companheiros de equipe, à separação das origens simples com os novos cenários que se apresentam nos campos de batalha, e à compreensão de questões como sacrifício próprio, físico ou ideológico, em prol de um bem maior. Com uma história sensível em meio aos espólios da guerra, "Arrowsmith" leva o leitor a um mundo mágico cheio de dragões, entes, atlantes e feitiçaria, mas que, ainda assim, se assemelha ao nosso mundo pacato, pelo drama dentro de cada um de seus personagens, e pelas tragédias e descobertas ao longo dessa jornada. 
 
 
Em "ShockRockets - Esquentando os Motores", produzido pelo mesmo roteirista, Kurt Busiek, mas com traços do canadense Stuart Immonen, em 2000, apesar de ter sido publicado no Brasil apenas em 2006, pela editora Pixel, a narrativa parte no outro sentido, inteiramente. Em uma realidade futurista, a partir do ano de 2071 ou 2087 (não fica muito claro, por conta de algo que aparenta ser uma confusão editorial na apresentação da edição brasileira), o jovem protagonista latino Alejandro Cruz se une por uma jogada do destino à última linha de defesa da sociedade global contra as hordas do vilão Emílio Korda, que carrega em si o desejo mais clássico dos vilões das histórias em quadrinhos, literalmente dominar o mundo. Armados principalmente por suas naves, a tropa de defensores, que dá nome à obra de Busiek e Immonen, eles precisam superar suas diferenças e unir seus pontos fortes para garantir que o planeta não seja tanto acometido pelas forças do vilão quanto por uma nova invasão alienígena, que já havia ocorrido anteriormente ao começo da história e causara uma reconstrução completa da identidade nacional, após sua dispersão.
 
Com intrigas e traições, a história empolga até sua última página, que deixa em aberto a possibilidade de uma continuação e ainda realiza uma crítica concisa sobre a gestão de uma guerra. Dando ênfase também aos conflitos entre a origem simples do protagonista e toda a maravilha tecnológica com que ele aprende a trabalhar para sobreviver no conflito, a história se assemelha muito ao outro trabalho de Busiek.
 
Alejandro Cruz, no traço
do canadense Stuart Immonen
As similaridades entre essas histórias, que refletem muito do espírito do começo dos anos 1930, são a principal razão desta matéria. Busiek, em ambos os casos, trabalhou de forma inteligente a identidade de seus personagens principais, como jovens provenientes do gueto ou de uma comunidade rural, mas que tinham consciência e desejo de participar de conflitos extremamente importantes para todo o mundo, que aconteciam em terras distantes daquelas onde estavam. Com ânimo, ambos aproveitam a oportunidade de se alistarem como forma de reafirmar suas identidades e tomar parte no conflito, porém, à medida que se vêem envolvidos pelos acontecimentos das guerras, perdem a noção de ideologia tão forte que carregavam antes para assumir uma carga emocional muito forte, em histórias que apresentam uma análise da solidão, do preparo psicológico e do relacionamento interpessoal durante momentos de conflito.
 

Minissérie original de "ShockRockets", publicada
nos Estados Unidos
Immonen e Pacheco dão o tom das obras de forma bastante particular, cada um com seu modelo de narrativa preciso, mas, no cerne de tudo, há a questão principal do ser humano em si, e da sua relação com o conflito com outros diferentes dele.

Apresentando ainda em seu conteúdo da edição nacional, algumas artes originais entre os capítulos que caracterizaram a venda em forma de minissérie, nos Estados Unidos, as versões brasileiras ficaram com uma boa qualidade e valem a pena serem conferidas pela emoção vividas pelos personagens e pelas maravilhosas cenas de batalha.
 
 
NOTA GERAL ("ARROWSMITH"): 3 ESTRELAS.
 
NOTA GERAL ("SHOCKROCKETS"): 3 ESTRELAS.