sexta-feira, 28 de outubro de 2011

76 Anos de Muita Emoção

Por Gabriel Guimarães


Ontem, dia 27 de outubro, foi o 76º aniversário daquele que é talvez a figura mais importante para as histórias em quadrinhos no Brasil. Com seu estilo sutil, humilde e ainda assim, empreendedor, seus personagens conseguiram quebrar barreiras, línguas, e conquistaram o mundo, começando pelas crianças. Conforme já foi destacado aqui no blog incontáveis vezes, o papel que este homem desempenhou no panorama geral da arte sequencial brasileira é imprecindível, e jamais sua importância pode ser relevada. Estamos falando, é claro, do grande padrinho da nona arte tupiquinim, Maurício de Sousa.

Nascido em uma família simples, Maurício foi criado em um ambiente onde a arte já predominava, com seu pai e mãe sendo admiradores e autores de poesia, permitindo assim que desde pequeno, ele pudesse construir todo um universo maravilhoso o qual os olhos não podiam ver, mas o qual as palavras certamente poderiam dar vida. E foi na arte que ele encontrou a sua forma de representar essa veia artística única. Começando através de ilustrações para pequenos jornais na sua cidade natal, de Mogi das Cruzes, até a profissão de desenhista para o caderno policial do jornal Folha da Manhã, Maurício sempre manteve um contato muito forte com suas raízes artísticas, dando início em 18 de julho de 1959 à sua longa e muito importante carreira nas histórias em quadrinhos, pelo seu primeiro personagem, o cachorrinho Bidu, acompanhado de seu intrépido dono, o jovem Franjinha.


Maurício com o primeiro volume da homenagem
feita aos seus 50 anos de carreira pelas
mãos de dezenas de quadrinistas influenciados
por ele (o que já foi tema de matéria antes aqui no blog)

Pelos anos que se seguiram, novos personagens foram sendo criados, a partir das principais fontes de inspiração de Maurício, as pessoas com quem teve contato ao longo de toda sua vida. Amigos, conhecidos, filhas. E foi inspirado em suas filhas que nasceram algumas das personagens mais marcantes dos quadrinhos brasileiros, em especial uma um pouco mais baixinha, um tanto gorduchinha, com dentes maiores na frente e que sempre trajava um vestidinho vermelho carregando seu coelhinho azul de pelúcia por toda parte, a Mônica.

Não tendo que utilizar de recursos mais adultos nas aventuras de seus personagens, o público de Maurício se expandiu incrivelmente, se tornando algo quase que onipresente na formação dos novos leitores com o passar das décadas (esse papel influenciador dos quadrinhos já foi discutido aqui no blog antes), e, assim, alcançando um patamar de merecido destaque em toda a cultura popular que o povo brasileiro dividia em comum. Com isso, a turminha resolveu viajar pelo mundo inteiro, levando o rosto e os bons planos infalíveis do Cebolinha para todos os cantos do mundo, sendo traduzidos para dezenas de línguas, com destaque para o mandarim, que veio se consolidando nos últimos tempos, e que a turma da Mônica conseguiu aos poucos ir adquirindo, se tornando muito popular entre os chineses (já foi feita uma matéria antes aqui no blog sobre a cultura dos quadrinhos na China, para quem tiver o interesse, fica o convite para dar uma conferida).


Maurício desenhando seu
personagem favorito, o
dinossaurinho verde Horácio
 E com o tempo, a turminha cresceu. Em 2008, após quase 50 anos, a vida mudou, e a adolescência se tornou a palavra da vez nas histórias do universo criado por Maurício, sem, é claro, manter os tradicionais títulos voltados para o público infantil (o crescimento da turma da Mônica também já foi tema de matéria aqui no blog antes). Tendo um novo título entre seus muitos já publicados, "A Turma da Mônica Jovem" fez tremendo sucesso e este ano de 2011 ainda detém o recorde de edições vendidas de um único número com a tiragem exorbitante de 500.000 exemplares para sua edição de número 34 (que foi tema de matéria aqui no blog também), em âmbito global, superando até as vendas do relançamento da DC no formato digital, que aconteceu recentemente nos Estados Unidos (e que também foi tema de matéria aqui no blog).

Todos fomos influenciados por suas histórias. Todos fomos tocados por seus personagens. Todos somos parte de tudo que a turminha representa. E é por isso, que desejamos, todos, um feliz aniversário com muita alegria e ainda mais sucesso para este grande profissional e talentoso criador que é o paulistano Maurício de Sousa. Obrigado por tudo, Maurício, e que ainda venha muito mais desses momentos marcantes causados pela sua presença entre nós.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

RIO COMICON, BABY!!! - ANO 2 - EPÍLOGO

Por Gabriel Guimarães



E mais uma edição da Rio Comicon chega ao fim. Tal qual toda boa obra em quadrinhos, o evento foi marcado por experiências intensas, que prenderam emocionalmente todos os que estiveram presentes e, com certeza, proporcionaram momentos que jamais sairão das lembranças dessas pessoas.

Contando com a presença de convidados ilustres tanto do âmbito nacional quanto global, o fluxo de comunicação com os grandes responsáveis por muitas das histórias que compõem nossos imaginários foi incrível, com uma disponibilidade imensa por parte dos profissionais e um interesse sincero dos visitantes. Para quem estava começando ou tinha desejo de entrar nesse mundo também de forma formal, o evento, através da área ocupada pela gráfica J. Sholna, ofereceu a oportunidade de distribuir na Estação Leopoldina o material independente produzido pelos aspirantes ainda a quadrinistas, e a procura por esses serviços foi enorme, ainda que muitos contatos tenham sido mais a longo prazo.


Valentina, em desenho do
italiano Guido Crepax

O material exposto nas homenagens, tanto do eterno pioneiro Will Eisner, quanto da sedutora Valentina, e da vitoriosa história de 75 anos da editora DC comics e a tradição de histórias emocionantes e inesquecíveis do grupo de mangakás japonesas CLAMP, foi primoroso. Para todos os gostos, houve opção. Até para os quadrinhos underground, que não tiveram propriamente uma exposição, o evento contou com a participação do artista Peter Kuper, que deu uma aula da história desse gênero de quadrinhos, e que respondeu com atenção a todos os que foram conversar com ele. Contando com tanto conteúdo, é uma pena, no final das contas, que muitos dos jovens visitantes em potencial do evento não puderam ir por causa do Exame Nacional do Ensino Médio, o ENEM, que estava sendo realizado durante todo o fim de semana.


Arte do argentino Liniers usada
na divulgação da Rio Comicon 2011

Numa análise geral do evento, tudo ocorreu de forma similar à edição do ano passado, o que tem seus prós e seus contras, mas que, em suma, foi algo muito especial. Apesar de a divulgação ter sido um pouco defasada, por conta de problemas de locação e outras questões menores, e o preço do ingresso ter estado consideravelmente mais caro, a quantidade de oficinas disponibilizadas e a estrutura onde elas são administradas cresceu muito, e a quantidade de convidados foi impressionante.

A cultura dos quadrinhos esteve muito bem representada, e tem tudo para crescer cada vez mais, conforme o reconhecimento devido for sendo conquistado, uma luta de cada vez.


Ano que vem tem mais, e com certeza, teremos novas oportunidades para afirmar que:

É RIO COMICON, BABY!!!

domingo, 23 de outubro de 2011

RIO COMICON, BABY!!! - ANO 2 - DIA FINAL

Por Gabriel Guimarães


Um pequeno herói junto
ao ator vestido de Capitão América

Num domingo onde o Sol esteve alto, aquecendo o já caloroso ambiente da Estação Leopoldina, o movimento foi consideravelmente bom, e muitas famílias estiveram presentes com crianças de todas as idades, que puderam ter momentos ótimos com os personagens do mundo maravilhoso dos quadrinhos. Aproveitando a presença novamente de atores e atrizes fantasiados dos mais diversos personagens da cultura pop em geral, os pequenos fãs de quadrinhos se divertiram e, sem dúvida, voltaram para casa ao final do dia com recordações para o resto da vida.


Enquanto o movimento familiar aumentou, o negócio do dia ficou em volta dos gibis mais raros e históricos que estavam dispostos na barraca do Arafatt e do Marquinhos, este último o antigo dono da loja de quadrinhos carioca Gibimania, que era ponto de referência no estado e que, já há algum tempo, não estava tanto em destaque. O material levado para o estande e a receptividade dos tanto vendedores quanto admiradores de quadrinhos que são os dois donos disso foram excelentes. Aos colecionadores, foi imprecindível conferir as ofertas lá, e saiu feliz quem conseguiu observar tudo que estava exposto, que, diga-se de passagem, contia material do mundo inteiro feito em quadrinhos, desde Japão, até Argentina, chegando na Rússia.

Cena do curta brasileiro do
anti-herói "Urubucamelô"
Pelo evento, ainda ocorreu a segunda parte do 1º Colóquio de Filosofia e Histórias em Quadrinhos, que contou com a apresentação de alguns trabalhos muito interessantes. Começando por uma análise histórica da abordagem do mito nas aventuras da Mulher Maravilha, feita pela doutora em filosofia Susana de Castro, o colóquio atraiu um público diversificado e bastante curioso com tudo que era dito, em especial, com a criação nacional feita pelo professor da Escola de Comunicação da UFRJ, Fernando Gerheim, o "Urubucamelô", um anti-herói cuja essência consiste numa crítica implícita ao distanciamento dos heróis norte-americanos sobre a realidade da problemática mundana. Originado num lixão, o personagem representa uma questão fundamental sobre o heroísmo mais popular, na questão entre o herói e o marginal.

Numa sequência deste questionamento do herói, o também doutorando Fábio François abordou o niilismo presente na obra máxima do gênero dos super-heróis, "Watchmen", ponderando sobre a metalinguagem intrínseca na história, sobre uma realidade que gira em torno do efeito da real exitência de super seres no nosso mundo real, e não um universo imaginado. Analisando os tipos e momentos do herói, adaptados pontualmente da obra de Heidegger, François observou ainda o papel de cada personagem da trama dessa saga como reflexo filosófico específico da relação com a conscientização da fragilidade da humanidade.

Claremont, ao centro, sendo traduzido pelo estudioso Carlos
Patati,  à sua esquerda, e mediado pelo doutorando
Fábio Morilhe, à sua direita
Ainda numa análise do universo heróico, o professor Luis Alencastro analisou a questão da univocidade do ser presente em obras como a "Crise nas Infinitas Terras", a partir das obras de Sócrates. Tendo precisado se limitar ao tempo que essa etapa do dia necessitou, Lencastro abordou apenas superficialmente a questão, usando do filme "Efeito Borboleta" como um exemplo leigo para o público conseguir compreender a pluralidade de realidades composta pelas decisões as quais são observadas na obra que redefiniu a DC comics nos anos de 1980. Para concluir, o antológico roteirista dos X-men e Wolverine, Chris Claremont, compareceu para responder a algumas questões sociais e composicionais propostas pelo mediador, Fábio Mourilhe. Enfatizando na questão de que ele via seus personagens como pessoas e não como heróis de colant, Claremont destacou que a humanidade dos protagonistas numa história em quadrinhos, ainda que seja numa aventura heróica, é a essência de qualquer boa história. Ao afirmar que "super poderes são um detalhe, e apenas parte de um todo que é a personagem", e que "trabalha com hístórias de pessoas que possuem um dom, seja este dom um super poder ou não", Claremont passou uma tansparência muito grande para o público sobre sua visão dos quadrinhos e mostrou, assim, a razão de ter sido o autor de momentos tão inestimáveis e inesquecíveis nas histórias de grandes personagens da Marvel por muito tempo.

Ao longo do dia, o assédio também foi grande em torno de profissionais dos quadrinhos como a paulista Érica Awano, que esteve autografando livros no estande da Livraria da Travessa, junto da japonesa Junko Mizuno. Autores como Emerson Lopes, que trabalhou no álbum "Pequenos Heróis" (já comentado aqui no blog antes) e é o criador do bem-humorado personagem "Alfredo, o Vampiro" (cujo bom blog pode ser visto aqui); Rafael Coutinho, desenhista da história em quadrinhos "Cachalote"; Alberto Serrano, quadrinista conehcido pelo seu trabalho de street art com os seus personagens Tito e o Cão Viralata; e o cartunista Gilmar, autor de álbuns como "Para ler quando seu chefe não estiver olhando" e "Caroço no Angu", o dia esteve bastante movimentado, e o público presente ganhou muito com isso.


Klebs Jr apresentou uma excelente oficina sobre
o mercado internacional de quadrinhos, que prendeu
a atenção de todos os presentes
 Também foi realizada uma oficina pelo agente Klebs Jr, integrante do grupo Impacto Quadrinhos, sobre o mercado internacional de quadrinhos, que foi extremamente importante para os que a conferiram. Realizada num ambiente melhor do que o que era disponibilizado na edição anterior da Rio Comicon, Klebs comentou sua entrada no mercado de quadrinhos há mais de 15 anos e os pontos fundamentais que a indústria de quadrinhos procura em novos profissionais. Explicando que o mercado internacional de quadrinhos muitas vezes se consiste de uma arte industrializada mais do que uma mera criação pessoal, ele expôs exemplos práticos para pontuar questões que devem ser avaliadas por todos que pretendem seguir carreira nesse meio, e concentrou-se na mensagem que "todo desenho é uma mensagem" para explicar que todo detalhe ou traço que o desenhista faz numa página altera a percepção e assimilação dessa mensagem, tanto para facilita-lo quanto para dificulta-lo. Comentando ainda da necessidade de se compor um repertório visual rico e diversificado, indicando, inclusive, uma série de artistas que merecem ser conhecidos pelos aspirantes a ilustradores, como o artista que definiu a visão dos Estados Unidos no começo do século XX, o brilhante Norman Rockwell, o italiano Claudio Castelini e o clássico Hal Foster, Klebs conseguiu prender a atenção de todos e rendeu uma experiência bastante agradável e instrutiva de forma leve e prática.
 
O dia ainda esteve lotado em torno da apresentação dos
cosplays diversificados que estiveram presentes
 No final do dia, o humorista Fernando Caruso ainda esteve presente no evento, promovendo a premiére de sua nova série no canal de TV a cabo Multishow, "Ed Mort" (personagem este que já foi lembrado aqui no blog antes, em matéria sobre a adaptação de quadrinhos brasileiros para o cinema). Recebido de braços abertos, Caruso facilmente se tornou parte do evento, e até funcionários que estavam trabalhando no evento conversaram e tiraram fotos com ele, rendendo cenas engraçadas e interessantes.

Enfim, mais uma edição da Rio Comicon chega ao fim, mas o que ela proporcionou a todos os que puderam estar presentes, permanecerá sempre com todos. Única como só ela poderia ser, não há não destacar com entusiasmo que:

É RIO COMICON, BABY!!!

sábado, 22 de outubro de 2011

RIO COMICON, BABY!!! - ANO 2 - DIA 3

Por Gabriel Guimarães


Neste sábado, foi perceptível o fato de que muitos dos visitantes em potencial para o evento estavam envolvidos com a avaliação do Enem, que está sendo realizada neste fim de semana. A expectativa de um público nas proporções do da última edição do evento acabou sendo frustrada, mas ainda assim, houve muitas atividades estimulantes e o público, ainda que não na totalidade do que poderia chegar a ser, esteve em um número considerável na Estação Leopoldina, e, conforme o tempo foi passando e o Exame Nacional do Ensino Médio foi liberando seu contingente de participantes, a procura pelos estandes aumentou significativamente.


Os palestrantes do 1º Colóquio de Filosofia e Histórias
em Quadrinhos abordaram muitos temas interessantes do meio

Logo pela manhã, teve início o 1º Colóquio de Filosofia e Histórias em Quadrinhos, voltado para abrir um debate acadêmico e epistemológico do meio, com maior liberdade de comunicação com o público. Mediada pelo doutorando em filosofia Fábio Mourilhe, o colóquio contou com a apresentação de diversos trabalhos envolvendo as histórias em quadrinhos em muitos aspectos interessantes, desde a análise da relação entre fantasia, ficção e realidade contida nas histórias, onde foi citado exemplos como o Homem-Animal, de Grant Morrison, apresentada pelo próprio Fábio;, até o trabalho apresentado pelo doutorando Marcos Carvalho Lopes, que consistia nas influências ideológicas das histórias em quadrinhos na formação do público jovem leitor italiano no século XX, especificamente analisada através da obra "A Misteriosa Chama da Rainha Loana", de Umberto Eco, a qual é centrada num personagem que perde a sensibilidade de suas memórias, e precisa reconectar-se a estes sentimentos através da lembrança que obtêm observando o material que leu durante a juventude, entre o qual se destacam diversas obras de quadrinhos, como os que eram publicados nas revistas italianas "Corrieri dei Piccoli" e "L'Avventuroso", além de histórias como Flash Gordon, Mandrake, Fantasma e, imprecindivelmente, Mickey, também conhecido naquele país por Topolino.


Peter Kuper explicou a trajetória dos quadrinhos
underground de forma primorosa

Comparando também o conceito de ruptura construído por Bachelard para o campo da ciência, Fábio também propôs uma transição deste para um olhar histórico sobre a arte sequencial, que de tempos em tempos, em sua vasta existência, passou por períodos e trabalhos que revolucionaram o meio, e até hoje, ainda revolucionam. Uma das rupturas que foi destacada acabou ganhando bastante destaque em dois dos outros trabalhos apresentados, um sobre a questão da censura nos quadrinhos com o código de ética criado na época em que o psicólogo Frederik Wertham começou a atacar os quadrinhos, alegando estes serem instrumentos para estimular a delinquência juvenil; e outro, num depoimento pessoal e historicamente colocado pelo autor americano Peter Kuper, que descreveu o surgimento e expansão dos quadrinhos undergrounds a partir do selo de ética. Kuper destacou que, curiosamente, quando o selo de ética foi posto em prática, todas as revistas da EC comics, grande catalisadora do movimento pela censura, foram proibidas de serem distribuidas, pois continham no seu título algumas das palavras específicas que foram banidas pelo Senado norte-americano, à exceção de uma, justamente a que era mais subversiva de todas, a "MAD", que continuou a ser publicada e distribuida normalmente, ganhando até mais força pela escassez de títulos do gênero e o público já aficcionado por ele. Com isso, outros dos admiradores deste estilo acabaram por criar futuramente trabalhos ainda mais subversivos que o original, e assim foi se dando o crescimento do mercado underground de quadrinhos, ou, como ficaram conhecidos por alguns, Comix.

Na outra apresentação, realizada pelo professor universitário Luis Alencastro, o foco foi a discussão entre sonho e devaneio nos quadrinhos, mais especificamente, nas obras de Sandman, criadas pelo britânico Neil Gaiman. Traçando um panorama histórico que fora composto por obras como a "Genealogia da Moral", do alemão Friedrich Nietzsche, até outros materiais escritos por Bachelard, Bergson e Deleuze, Alencastro construiu um debate muito interessante acerca da problemática dos quadrinhos enquanto mitos modernos e da necessidade de se libertar da opressão do passado, ao qual as pessoas buscam ser fiéis, ainda que esta fidelidade possa ser a um sonho qualquer que tenham tido numa noite aleatória, para que se possa ir adiante no caminho da vida para maiores conquistas pessoais. Para quem conseguiu estar presente, foram apresentações bastante abrangentes e reflexivas, e os autores puderam encontrar um público igualmente capaz de discutir o conteúdo ali apresentado.


A exposição "DC 75 Anos" dispõe
de muitos cartazes e imagens em
tamanho ampliado que chamam a
atenção de todos

No restante do evento, o destaque ficou por conta das belíssimas exposições em homenagem ao grupo de mangá CLAMP e aos 75 anos completados pela editora DC. Dispostas em duas das plataformas da antiga estação de trêns, ambas contaram com material de qualidade inquestionável, ainda que a exposição da CLAMP pudesse ter sido melhor organizada. Passa desapercebido pela maioria que os pedaços de papéis rasgados nas pilastras da plataforma são na verdade compostos de textos em japonês, numa tentativa de aludir ao papel das estações de transporte público para a disseminação dos quadrinhos no Japão. Pela DC, a exposição constitui numa apresentação resumida do livro "DC 75 Years - The Art of Modern Mythmaking", disponível para compra no estande da Livraria da Travessa, e que conta com mais de 700 páginas sobre a história da editora (essa obra, inclusive, já foi comentada aqui no blog antes).

A japonesa Junko Mizuno
autografou para muitos leitores
O argentino Liniers foi muito
procurado pelos admiradores
de seu trabalho nas edições
do "Macanudo" 
Entre os autores presentes no dia, que atraíram muito a atenção dos visitantes presentes, estiveram novamente o roteirista Chris Claremont, cujo assédio dos seus admiradores por ele cresceu exponencialmente ao longo do dia, além dos argentinos Liniers, criador da célebre série "Macanudo", e Salvador Sans, autor da obra "Noturno", e da japonesa Junko Mizuno, autora da série "Cinderalla". Entre os autores nacionais, o destaque ficou por conta da presença da talentosa desenhista Erica Awano, que trabalhou na excelente série brasileira "Holy Avenger" e que hoje é membro dos estúdios da MSP, do quadrinista Danilo Beyruth, que esteve autografando seus livros publicados na área onde ano passado fora conhecida como plataforma dos desenhistas, e os autores das histórias em quadrinhos da "Beleléu", que estiveram disponibilizando seu material para os interessados em comprá-lo.


Autógrafo do americano Chris
Claremont em estatueta da Fênix Negra

Entre os estandes, o destaque fica na bancada destinada às figuras de ação que atraíram a atenção de todos os visitantes ao longo de toda a realização da Rio Comicon deste ano. Aproveitando a oportunidade de mostrar seu acervo, os dois responsáveis pelo estande, Márcio e Fábio, conseguiram alcançar até mesmo um público que eles não esperavam,: o dos autores. O americano Chris Claremont gostou tanto do material exposto lá, que levou uma das estatuetas que estavam expostas e ainda autografou uma edição luxuosa da Fênix Negra, fruto de sua fase nos X-men, para o dono do espaço, que ficou extremamente satisfeito.


Durante a tarde do evento, também, aconteceu uma pequena festividade com muitos atores e atrizes fantasiados de cosplay de muitos personagens do mundo dos quadrinhos, games e animações. Os mais jovens que puderam conferir esse momento também gostaram bastante pela diversidade de personagens apresentados.


Evento de cosplay que aconteceu com
alguns atores e atrizes na Estação Leopoldina
 Ainda falta um dia, mas, certamente, há muitas histórias por contar. Aguardem, pois, afinal de contas,:

É RIO COMICON, BABY!!!

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

RIO COMICON, BABY!!! - ANO 2 - DIA 2

Por Gabriel Guimarães



Claremont recebeu muito bem os fãs, após
entrevista que deu para o canal Globonews
Contando com a presença de ilustres autores de quadrinhos internacionais desde a manhã, como o roteirista Chris Claremont, célebre criador de histórias memoráveis dos X-men, e o quadrinista Peter Kuper, desenhista da tira Spy vs. Spy, publicado na revista MAD há anos, e de uma adaptação para quadrinhos do conto de Franz Kafka, "Metamorfose", o dia de hoje na Rio Comicon foi bastante positivo.

Explorando um pouco mais a disposição dos estandes e exposições, o público teve oportunidade de conferir um passeio maravilhoso pela história de vida de um dos maiores quadrinistas do hall da fama desse meio de comunicação, Will Eisner, um dos homenageados nesta edição do evento. (e que já foi homenageado aqui e aqui no blog também) Contando com uma estrutura especificamente construída para armanazenar material original produzido pelo grande nova-iorquino, o qual foi feito um plano de seguro de mais de 300 mil dólares, a exposição que conta muito da vida do autor, inclusive, com o documentário "Will Eisner: Profissão Cartunista" sendo exibido continuamente, é um dos grandes pontos do evento deste ano, e não deixa nada mesmo a desejar. Com uma maquete construída cuidadosamente de uma grande cidade na saída da exposição, onde uma estatueta do grande personagem de Eisner, o Spirit, se encontra no centro, girando em torno da metrópole característica das obras desse grande mestre, a composição de tudo ficou muito bem arranjado, contando ainda com uma pintura nesta última sala do próprio Spirit feita em um papel do mesmo material em que se vendem os pães de padaria. Por um outro lado, apesar de a estrutura da cidade montada ser excelente e, de forma surpreendente, acender suas luzes internas dentro das janelas conforme a luz do dia vai acabando na sala, o esquema para essa iluminação não parece ser tão seguro para a integridade do material e precisa de muita atenção para que não haja qualquer imprevisto neste sentido.

Imagem de Valentina, na sua exposição
Próximo dali, outra das personagens homenageadas também ganhou uma área de destaque. Trata-se de Valentina, personagem erótica criada pelo italiano Guido Crepax. O espaço designado para a amostra do material dela foi construído inteiramente dentro de seu universo, uma vez que fica exposto a uma luz violeta forte, que torna todo o ambiente algo mais sedutor e hipnotizante. Contando com material de diversas histórias dela, publicadas ao longo de muitas décadas, a exposição mostra ainda uma peça de roupa e materiais de decoração produzidos pela filha de Crepax, e cuja temática é inteiramente voltada para Valentina. Para quem puder conferir e tiver a idade necessária para tal, claro, vale bastante a pena.

Ao longo do restante da Estação Leopoldina, os estandes ainda são poucos comparado ao potencial que o local poderia comportar, e o custo elevado destes acabou provocando uma separação até certo ponto curiosa entre os autores presentes no evento. Enquanto os nomes mais conhecidos estão alocados nos estandes do corredor principal, os quadrinhos independentes ficaram com o espaço que no ano passado era conhecido como "estação dos autores", que era onde ocorriam as sessões de autógrafos com os convidados. O ambiente ficou mais arejado para se locomover, mas a divisão causou alguns desconfortos em algumas partes.

Enfim, a estrutura do evento continuou a mesma do ano passado, com a Livraria da Travessa tendo um espaço de destaque e sendo a única fonte para compra de livros, e o centro da Estação ficou ocupado por extensos murais com material produzido por dezenas de desenhistas nacionais e estrangeiros, que diga-se de passagem, estão muito bons.

Rafael Albuquerque e Danilo Beyruth durante
o debate "Conquistando a América"
O dia de hoje ainda ofereceu a oportunidade de conferir uma série de debates, como o "Conquistando as Américas", composto pelos quadrinistas Danilo Beyruth, autor da ótima história "Bando de Dois" e criador do personagem Necronauta; e Rafael Albuquerque, co-criador da série da linha Vertigo da DC "American Vampire", recentemente premiada com o prêmio Eisner (o blog chegou a comentar a indicação do trabalho de Albuquerque aqui);, sendo mediada por Ulisses Mattos. Conduzida a partir da questão da origem brasileira sendo publicada pelo mercado exterior afora, o debate abrangeu bastante o trabalho dos dois quadrinistas e suas posições sobre o "ser" brasileiro num mercado globalizado, ainda analisando a estrutura na qual o mercado de consumo de quadrinhos no Brasil se estrutura e o efeito que isso tem na produção dos autores nacionais, todo a discussão foi bastante interessante.

Analisando o efeito da internet na produção de arte sequencial (já analisadas aqui no blog antes) e as novas formas de encontrar seu público, os dois autres, que vêm obtendo cada vez mais sucesso nos últimos anos, conseguiram apresentar a importância de uma história sobre o veículo onde ela pode ser veiculada, e o quanto você poderia acrescentar em termos de oportunidade de expandir seu mercado produzindo tanto para o formato eletrônico quanto para o impresso. Beyruth, partindo da ideia de que "histórias boas são universais", defendeu que independente de onde se publique um material, seja dentro ou fora do próprio país dos autores, se ele for bom de verdade, tem plenas condições de obter sucesso, citando, inclusive, o exemplo dos westerns que se passam nos Estados Unidos que sao publicados nos fumetti italianos, ou mesmo a história "Daytripper", produzida pelos gêmeos Fabio Moon e Gabriel Bá, que primeiramente foi lançada no mercado norte-americano, arrebatando o público e rendendo grandes prêmios do circuito internacional de quadrinhos, para só então chegar ao Brasil, onde a história é ambientada.

O debate ainda contou com a presença ilustre de uma série de grandes profissionais e estudiosos do meio, como o editor Sidney Gusman, o autor Carlos Patati e o desenhista Daniel Gnattali, este último o qual está realizando uma enorme proeza de cobrir o evento da Rio Comicon no formato de quadrinhos mesmo, produzidos diariamente durante e após os acontecimentos do dia no evento, e que vale, sem dúvida, uma boa conferida.

O dia foi bastante movimentada, portanto, e para quem gosta de quadrinhos, foi um ambiente maravilhoso de conferir. Nos próximos dias, o movimento deve aumentar bastante, então é melhor se prepararem, pois:

É RIO COMICON, BABY!!!

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

RIO COMICON, BABY!!! - ANO 2 - DIA 1

Por Gabriel Guimarães



No primeiro dia da segunda edição anual da Rio Comicon, havia muita expectativa no ar, enquanto os estandes começavam a ser montados e os expositores começavam a ocupar a Estação Leopoldina uma vez mais. O dia foi bastante agradável e a tarde contou com uma temperatura, proporcionando muitos momentos de calmaria, o que não quer dizer que não tenha havido assunto para se comentar entre os leitrores de quadrinhos e os profissionais do meio.

Abrindo os portões uma hora mais tarde do que o planejado, o evento recebeu muito bem os visitantes desse primeiro dia, com oficinas e debates bastante estimulantes. Para quem foi conferir as aulas dadas pelos profissionais da Impacto Quadrinhos, foram apresentadas técnicas de colorização digital e de anatomia, enquanto para os interessados numa discussão acerca das dimensões que a arte sequencial vem tomando, foi apresentado o debate "Histórias em Quadrinhos e a Cultura Pop", que contou com a presença de quatro quadrinistas paulistanos, Mateus Acioli, Marcelo D'Salete, Rafael Moralez e Heitor Yida, sob a mediação do ex-integrante da banda Rapa, Marcelo Yuka, que abordou questões muito importantes para o estado atual dos quadrinhos enquanto meio de comunicação no Brasil.

Partindo de uma discussão sobre as influências da cidade de São Paulo sobre a geração de quadrinistas que vêm surgindo de lá nos últimos tempos, apontando o efeito da união de culturas das mais diversas num grande centro populacional e de como a urbanização afeta a criatividade, o debate transitou pelas experiências de cada um dos debatedores pelas ruas e a conscientização da existência na cidade de maior oportunidade para os mais diversos nichos de interesse de entretenimento encontrarem seus pares e formarem grupos de discussão. Para os que puderam assistir ao debate, foi muito interessante observar a divergência do conceito de identidade brasileira de quadrinizar entre os debatedores, pois, através de uma discussão aberta em que cada um expôs sua visão do próprio trabalho frente a essa questão, foi possível perceber o quanto às vezes a cultura da nossa rotina passa para as páginas produzidas de quadrinhos mesmo sem um propósito previamente estabelecido para isso. Discutindo obras como "Cachalote", "Peixe Peludo" e o material produzido por Lourenço Mutarelli, o debate foi bastante abrangente, com o intuito de identificar o momento dos quadrinhos brasileiros atuais.

Marcelo Yuka mediando a mesa sobre histórias em quadrinhos e cultura pop
Partindo das páginas impressas dos quadrinhos para suas adaptações para o cinema, discutiu-se até que ponto a influência dos demais meios de comunicação determinam muitas das histórias produzidas pelos debatedores, e como eles viam essa relação, o que rendeu algumas críticas inflamadas e comentários extremamente pertinentes sobre a diferença entre a adaptação e a transcrição literal (que, inclusive, já foi comentada aqui no blog antes). Outra questão bastante importante analisada foi a importância do desenho e do texto para uma história em quadrinhos, e que medida seria ideal entre estes para que um material obtivesse um resultado positivo enquanto narrativa. O desenhista Marcelo D'Salete, partindo de sua experiência pessoal com José Carlos Fernandes, escritor português da história em quadrinhos "A Pior Banda do Mundo", que havia lhe enviado um texto de extrema qualidade, porém, que pouco poderia ter mais valor agregado por meio de desenhos, explicou sua posição de que uma história em quadrinhos só deve ser de fato feita se os dois meios de linguagem envolvidos nessa narrativa gráfica acrescentarem algo um ao outro, e caso isso não possa acontecer, é preciso avaliar a viabilidade do projeto.

Lançamento da estreia de Guilherme de
Sousa como roteirista de quadrinhos e
Daneil Bacellar como desenhista
Terminando com uma análise do mercado editorial brasileiro de quadrinhos autorais, em ascenção nos dias atuais, e o papel desempenhado pelo padrinho dos quadrinhos nacionais, Maurício de Sousa, e seu estúdio no mercado, foi-se destacado a importância do trabalho de Maurício por alguns, enquanto todos ressaltaram que não existe nesse caso uma concorrência direta pelo público leitor, uma vez que as propostas são de cunho e teor muito diferentes.

A presença de autores como Rafael Albuquerque, Rafael Grampá, Gustavo Duarte, os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, e o roteirista americano Chris Claremont (este último que apenas caminhou pelos estandes observando a diversidade de gêneros expostos e disponibilizados), dos indepentes e talentosos Will Sideral, Daniel Esteves e Cadu Simões, e dos recém lançados Murilo Martins e a dupla Guilherme de Sousa e Daniel Bacellar, o evento teve bastante movimentação, atraindo os visitantes em diversas direções, e tem tudo para continuar animando muito a todos nos próximos dias que seguirão, afinal de contas,:

É RIO COMICON, BABY!!!

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

RIO COMICON, BABY!!! - PRELÚDIO DO SEGUNDO ANO

Por Gabriel Guimarães


Parece que foi ontem que a cidade do Rio de Janeiro abria suas portas novamente para o mundo dos quadrinhos através de um grande evento após 17 anos de escassez. Em seis dias de muita atividade e ativo contato entre o público e os profissionais da arte sequencial (que podem ser conferidos detalhadamente aqui na cobertura do blog), foram vivenciadas experiências inesquecíveis e estimulantes para todos os que estiveram presentes.

Organizado na Estação Leopoldina, que está sendo revitalizada pela Prefeitura carioca, o evento ocupou uma área imensa, com exposições em homenagem a grandes quadrinistas brasileiras e internacionais, uma galeria especial dentro de uma estrutura construída especificamente para representar o trabalho do grande quadrinista italiano Milo Manara, além de uma sala onde foram realizadas diversas oficinas com altamente qualificados desenhistas, roteiristas e ilustradores do mercado editorial brasileiro. Além, é claro, da estação dos autores, onde os grandes responsáveis pela produção de histórias memoráveis estiveram presentes, autografando seu material para um contingente cada vez mais quantitativo de leitores.

Em suma, foi um evento fantástico. Não foi à toa que ganhou o prêmio HQMix de 2010 como melhor evento de quadrinhos no Brasil naquele ano. Hoje, pouco menos de um ano depois, estamos prestes a dar início à segunda edição deste grande evento que está marcando seu nome entre os admiradores de quadrinhos, a Rio Comicon, e é chegado o momento de analisar o que isso representa para os quadrinhos no Brasil e no Rio de Janeiro.

Em novembro do ano passado, foi dado um primeiro passo, fato fundamental para que qualquer grande jornada tenha início. Isso quer dizer que o evento não foi perfeito, afinal, houveram vários problemas que os organizadores tiveram que contornar de última hora, como a questão do calor e do excesso de pessoas no primeiro fim de semana do evento, mas dentro de suas limitações e propostas, foi tudo fantástico. Novamente, repito: Para um primeiro passo.

Este ano, contando com a experiência que foi acumulada no ano passado, o evento tem tudo para crescer nos seus 4 dias de atividade, atraindo ainda mais gente e, é claro, movimentando de forma considerável todo o mercado de quadrinhos, tanto em termos de quantidades de histórias novas a serem compradas, quanto de histórias a serem protagonizadas por todos os que tiverem condições de estar presentes. O contato que o evento permite entre os leitores dos mais diversos gêneros de quadrinhos e destes com os autores que admiram é algo indescritível. Essa relação, tão calorosa e estimada, é o cerne do que a cultura dos quadrinhos representam de fato, algo em torno do qual as pessoas se confraternizarem e crescerem juntas.

O evento mostrou o quanto que ele pode construir as bases sobre as quais uma comunidade real de quadrinhos pode se estabelecer na Cidade Maravilhosa, o que é uma de suas maiores carências neste quesito para que haja maior produção da nona arte nela. Entretanto, depende de nós levarmos este primeiro contato além de apenas alguns dias presencialmente unidos. Essa união precisa sair de um galpão para ganhar mais força e ímpeto em estúdios, escritórios, editoras, e assim por diante. Ainda há muito trabalho a ser feito.


Nos próximos dias, confiram aqui a cobertura completa da segunda edição da grande Rio Comicon, que mais uma vez, promete mexer com todos os fãs de quadrinhos no país todo, afinal de contas,: 

É RIO COMICON, BABY!

sábado, 15 de outubro de 2011

Constante Aprendizado

Por Gabriel Guimarães


Um dos principais assuntos dessa semana foi a repercussão da matéria do jornalista Jerônimo Teixeira na revista Veja sobre o uso das histórias em quadrinhos em exames como o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), que determinam o desempenho dos estudantes de Ensino Médio de todo o Brasil para qualifica-los ou não para as faculdades participantes desse processo de seleção no vestibular, mediante um bom posicionamento no ranking geral dos candidatos para cada instituição. Muitos blogs se posicionaram de forma brilhante, tanto em forma de carta aberta para a revista em que se deu a publicação, como foi o caso do Blog dos Quadrinhos, do jornalista e professor da Universidade Federal de São Paulo, Paulo Ramos, como em uma longa e extensa discussão sobre o reconhecimento dos quadrinhos enquanto meio de comunicação em várias contas do twitter e em outros sites.

Neste dia 15 de outubro, data de comemoração para uma das profissões de maior importância na formação da sociedade, o dia do professor, gostaria de fazer algumas ponderações acerca da verdadeira razão pela qual toda essa acalorada discussão tomou destaque: o valor das histórias em quadrinhos enquanto meio de comunicação.

Em primeiro lugar, gostaria de esclarecer que os pontos de vista expostos aqui de forma alguma visam qualquer tipo de depreciação em relação a qualquer um dos citados, e o teor dessa matéria repousa no único objetivo de abordar essa questão que já está sendo trabalhada há muito tempo, e que, até hoje, não encontrou uma solução digna. Dito isso, acredito que posso prosseguir.


Lima Barreto, autor do
clássico da literatura brasileira
"Triste Fim de Policarpo Quaresma",
é um dos autores esquecidos do Enem,
de acordo com a matéria de Teixeira

A matéria de Jerônimo Teixeira é voltada para chamar a atenção ao fato de que o número de questões relativas ao campo da literatura que abordam os quadrinhos é muito maior do que o número daquelas que envolveriam grandes mestres da literatura nacional, como Graciliano Ramos ou José de Alencar. Partindo de um levantamento feito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e contando com entrevistas feitas com alguns professores que colaboraram com a pesquisa, a matéria busca alertar para a depreciação da cultura nacional em relação a muitos de seus intérpretes mais ilustres, sob os ombros dos quais toda uma história de textos e leituras o país se formou. Neste ponto, Teixeira está certo, pois ocorre uma depreciação real em cima dos pilares culturais da sociedade brasileira há décadas, e, com isso, o crescimento educacional do país ficou muito prejudicado e limitado a uma pequena margem da população. Entretanto, quando a matéria começa a utilizar o uso dos quadrinhos nas provas de vestibular como ferramenta para expor que, supostamente, "o Enem contribui para construir um país ainda mais iletrado", Teixeira acaba por cometer o mesmo erro o qual critica ferozmente em seu texto.

As histórias em quadrinhos, tal qual a literatura, o cinema e a televisão, constituem um meio de comunicação próprio, único, e, portanto, não podem ser tratados como parte de um conceito bastante fechado de literatura que muitos dos acadêmicos com os quais teve contato partilham. Enquanto numa obra literária, a história se constrói a partir de recursos puramente textuais, os quadrinhos possuem em seu cerne uma característica inigualável para qualquer outra forma de expressão: a união ímpar entre o elemento textual e os recursos gráficos. Para muitos, o uso de imagens pode ainda estar atrelado ao campo do público infantil, porém, isso seria apenas uma limitação do potencial comunicativo que uma cultura, no caso, a brasileira, poderia se utilizar. A partir do momento que você restringe o reconhecimento valorativo para um meio sobre o outro, você deixa de reconhecer o valor exclusivo de cada um, e isso, por conseguinte, acarreta num prejuízo enorme para a cultura de uma nação.

Conforme o professor da UFRJ e editor da Ediouro, Paulo Roberto Pires, afirmou, em entrevista à revista "Discutindo Literatura", em 2008, "os quadrinhos são uma linguagem muito interessante em si, mas que também pode ajudar a formar leitores para livros 'convencionais'." Sabendo se utilizar dos recursos dos quadrinhos, o potencial para estimular interesse nos leitores mais novos sobre outras formas de leitura acaba sendo muito maior, e muitos dos que encontram essas condições acabam por explorar novos estilos, adquirindo uma base cultural extremamente positiva. Conforme destaquei antes em matéria aqui no blog sobre a importância dos quadrinhos no período da infância, os quadrinhos podem ser a porta de entrada para todo um universo de experiências sensoriais e imaginativas, porém, nem por isso, a arte sequencial se limita a ser apenas um bilhete de entrada.

Em histórias como "Daytripper", "Retalhos", "Tintin", "Corto Maltese" e nas tirinhas de "Mafalda", por exemplo, há uma profundidade e falta de etnocentrismo que é raro encontrar na maioria das obras puramente textuais. Da mesma forma como livros de Machado de Assis e Lima Barreto possuem em si um teor e estilo dificilmente encontrados em muitas obras em quadrinhos. Ambos os meios de comunicação possuem seus pontos altos e seus pontos baixos, e não podemos, de forma alguma, limitar nossa compreensão de qualquer um deles pelo uso indevido que se faz de um dos dois.

O artigo de Teixeira, portanto, visa alcançar a questão da depreciação literária brasileira, fruto de uma falta de estímulo correto dentro das salas de aula ao redor do país. O que é triste e rendeu tantas críticas a essa matéria foi que o autor acabou por usar os quadrinhos enquanto bode expiatório para criticar um sistema de ensino público deficiente (que já foi tema de matéria aqui no blog antes), como já foi feito no passado por grandes nomes do jornalismo nacional, como Orlando Dantas e Samuel Wainer, que criticaram os quadrinhos a ponto de organizar estudos que demonstrassem seus prejuízos à educação dos mais jovens, tudo apenas para poder atingir de forma indireta o império comunicacional construído por Roberto Marinho, que era responsável pela publicação de diversos títulos com histórias em quadrinhos.

Um dos muitos  bons livros
cujo tema é justamente o uso da nona
arte no setor pedagógico

E este é o tema da matéria. Tanto se passou, a literatura evoluiu, os quadrinhos evoluíram, mas esse conflito permanece, apesar de todos os esforços de muitos comunicólogos renomados como João Marcos Parreira Mendonça, Elydio dos Santos Neto, Marta Regina Paulo da Silva, Waldomiro Vergueiro, Télio Navega e o já mencionado no começo da matéria, Paulo Ramos. O preconceito permanece inscrustado na cultura popular do nosso país. Infelizmente, não posso reduzir toda uma história dessa discussão em uma matéria só, porém, a quem interessar possa, a discussão pode ser extendida e ampliada nas demais redes sociais e no campo dos comentários aqui embaixo.

Para não perder também o fator que alavancou essa matéria, fica aqui também o mais sincero desejo de feliz dia do professor para todos os colegas acadêmicos e uma torcida especial para que todas as carências de suas profissões possam ser supridas, ainda que na medida do possível. O valor de vocês para tudo que somos e o que nos tornamos é simplesmente fundamental, e fica aqui nosso profundo agradecimento pela dedicação, paciência e esforço.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Os Quadrinhos e a Infância

Por Gabriel Guimarães


Certa vez, o filósofo e marquês espanhol Juan Donoso Cortés afirmou que "No passado está a história do futuro." Hoje, dia 12 de outubro, reservamos este dia para comemorar a juventude, essa etapa da vida que determina muito de quem somos e a razão de porque agimos como agimos. Apesar de toda a preocupação esporádica com o efeito de determinados estímulos nas crianças e nos jovens, ainda hoje passamos por um momento em que a importância dessa fase da vida é relevada e muitas vezes esquecida.

Seria impossível abordar a juventude sem mencionar as histórias em quadrinhos, que ao longo do século passado e início deste, sempre se mostrou um elemento fundamental na formação de gerações e gerações de pessoas ainda em fase de crescimento. Entre os brasileiros, é muito raro, por exemplo, qualquer um afirmar que a leitura da Turma da Mônica, maior criação de Maurício de Sousa, não influenciou determinantemente seu prazer pela leitura ou sua formação enquanto indivíduo. O uso dos quadrinhos enquanto recurso pedagógico, que foi um tema de acalorada discussão ao longo desta semana (e que, em breve, será abordado de forma mais aprofundada aqui no blog), é algo que hoje não pode mais ser negado, e seus usos possuem toda uma gama de possibilidades extremamente magnífica para os professores que optarem por utilizar deste recurso (isto já foi analisado em uma matéria anterior aqui no blog).

Como já foi dito aqui no blog anteriormente, o formato quadrinho nem sempre qualifica uma obra como positiva de ser utilizada para fins educativos, isto parte geralmente da visão dos professores individualmente sobre o assunto da arte sequencial em sala de aula e sobre o tema que as histórias abordam, porém, a nona arte já mais do que provou seu valor como estímulo à leitura, fazendo crescer cada vez mais o público leitor geral, desde o momento que é o grande foco da matéria de hoje,: a infância.

Como o escritor e quadrinista norte-americano Gerard Jones destacou em seu precioso livro "Brincando de Matar Monstros", as crianças enfrentam um grande desafio quando estão crescendo, que é a consciência de sua impotência. Os desafios dolorosos que têm de encarar e as frustrações constantes e adaptáveis a cada novo momento do amadurescimento, acabam gerando uma luta constante contra essa percepção de incapacidade, e as jogam num universo que as abriga e as ajuda a ter forças para ir adiante, que é o universo da experiência, que estimula o lado psicológico das crianças de uma forma ímpar, difícil de ser comparado a qualquer estímulo fora desse campo em particular. E, a fim de expandir isso, como afirma o autor, "Quando a realidade não basta, é a fantasia que vem nos salvar."

A criança e o jovem precisam da fantasia para crescer, pois é muitas vezes nos elementos presentes nesse universo que elas retiram exemplos e influências que as ajudarão a se tornarem mais capazes e fortes, ou seja, mais preparadas para encarar o mundo real fora dos quadrinhos ou dos livros e televisões. O papel dos quadrinhos enquanto instrumento de ensino é justamente capacitar o leitor a não se limitar por apenas ler sobre histórias de aventura e de emoção, mas sim a vivenciar as suas próprias. Os heróis dos quadrinhos, nesse aspecto, têm um papel mais do que fundamental na formação do caráter e consciência dos seus leitores e, apesar de estarem passando já há algum tempo por um período muito obscuro e de critérios questionáveis, o papel do herói ainda é algo essencial, pois justamente transmite ao seu leitor a compreensão de poder. A figura do herói incita justamente esse sentimento nos leitores, que precisam disso para crescer, como, inclusive, destacou o sociólogo goiano Nildo Viana em seu livro "Heróis e Super-Heróis no Mundo dos Quadrinhos".

E foi partindo desse pressuposto universal da formação da juventude, que surgiu a belíssima e altamente recomendável obra "Pequenos Heróis", escrita pelo quadrinista Estevão Ribeiro e desenhada por uma série de talentosos desenhistas de todo o território nacional, dentre os quais o mineiro Vitor Cafaggi (que já foi tema de matéria antes aqui no blog), observando casos específicos do ponto de vista infantil que englobam as histórias lidas e compartilhadas de grandes personagens do mundo dos quadrinhos.


Enfim, neste dia das crianças, o que fica aqui é para reforçar a importância dos quadrinhos enquanto estímulo para a formação e crescimento dos nossos jovens futuros companheiros de sociedade, e, é claro, para lembrar a importância dessa fase, que jamais deve ser negada ou ignorada, mas sim estimulada a sempre ir adiante, por um mundo cada vez melhor. Feliz dia das crianças!

Página de quadrinhos feita por Vitor Cafaggi,
sobre nossos heróis e sua influência em nossas vidas

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Steve Jobs e os Novos Quadrinhos

Por Gabriel Guimarães


Ontem à noite, o mundo perdeu um de seus grandes sonhadores. Acostumado a pensar de formas além das comuns, e a procurar soluções e meios para tornar seus projetos realidade, Jobs foi um visionário, que revolucionou o ramo da tecnologia e da comunicação a uma velocidade simplesmente assustadora, e, assim, marcou seu nome entre os grandes gênios da humanidade.

Convicto de que a vida é algo muito importante e que a tecnologia deveria melhorá-la da melhor forma que pudesse, Jobs criou uma série de empresas altamente bem sucedidas, cada uma com um foco específico, em que, inclusive, se tornaram destaques individualmente. Fosse a Apple, com o desenvolvimento de computadores pessoais com alto grau de recursos e ferramentas, com uma funcionalidade de fácil acesso para seus donos; fosse a Pixar, que revolucionou o cinema de animação, popularizando ainda mais o gênero, e expandindo-o além da antiga máxima de que desenho era coisa de criança; fosse a NeXT, criada com intuito de dar suporte a estratégias voltadas para o ensino superior e especializado, e que acabou sendo útil para fornecer a base operacional com que os MAC OS X seriam administrados.

Sem dúvida, Steve Jobs foi uma das mentes mais brilhantes que o mundo viu surgir em muito tempo. Entretanto, essa afirmação não está atrelada aos seus inventos e aparatos, ou mesmo à corrida do Vale do Silício, região que concentra as empresas e funcionários de tecnologia nos Estados Unidos, e que teve grande influência dos avanços alcançados pela empresa de Jobs, fazendo migrar estudantes de informática e tecnologia de ao redor de todo país, apenas para trabalharem na proposta do criador da Apple: Sonhar.

Na noite passada, compararam no twitter e em alguns portais de informação a figura de Steve Jobs na tecnologia à de Walt Disney no setor da animação e entretenimento infantil. Essa comparação só não é mais precisa, pois pareceu limitar-se ao quesito da inovação promovida por Jobs. Disney e ele tinham um aspecto em comum que vai muito além de questões de mercado ou de produção de instrumentos inovadores. Ambos costumavam priorizar acima de tudo o ato de sonhar, ainda que não esquecendo dos instrumentos necessários para viabilizar estes sonhos. Suas visões sobre o mundo e a vida têm muitos aspectos em comum, porém, este acredito ser o mais importante e fundamental.

Jobs numa de suas palestras sobre as inovações da tecnologia
Disney criou os Imagineers, engenheiros especializados na mecatrônica, que eram os responsáveis pela produção dos brinquedos de larga escala nos imensos parques temáticos de Mickey, Pateta, Donald e cia, a partir dessa premissa da importância do ato de sonhar, e observando os comentários dos funcionários que lá trabalham, isso é completamente claro. O que foi dito pelo chefe sênior da equipe de design da Disney, Gary Powell, aborda essa questão e uma outra que foi de extrema importância para a vida destes dois grandes visionários, que foram Walt e Steve: "Os tropeços de hoje são a força de amanhã".

Tanto Disney quanto Jobs não começaram no topo, mas construíram seu caminho até lá, e no caminho, tiveram muitos sucessos, mas muitos fracassos também. Enquanto o criador dos maiores parques temáticos do mundo chegou a pedir falência ainda com 21 anos para um pequenos negócio em que tentava iniciar sua carreira de animador, Jobs teve que superar muitas negativas de investidores e uma desavença com a empresa HP que perdurou em sua memória por décadas ainda. Entretanto, ambos contornaram as situações negativas e os desafios que surgiram na jornada, e acabaram por se tornarem únicos.


Biografia de Steve Jobs, feita em
quadrinhos, que foi publicada em
agosto deste ano

Para a relação de Steve Jobs com os quadrinhos, tema da matéria de hoje, era preciso compreender essas premissas, pois esse elo tem início nesse ato tão simples, porém, tão subestimado, como estes dois visionários um dia foram, que é o sonhar. A atividade de todo e qualquer quadrinista parte disso. Sem o sonho, os quadrinhos nada mais são do que meros desenhos sem inspiração em quadrados ou em quaisquer outras formas geométricas num pedaço de papel. Essa ação de esperança tão promovida por Jobs é fundamental para que as grandes invenções e as grandes histórias possam surgir.

Entretanto, a relação do grande inventor com a arte sequencial é mais direta do que muitos imaginam, basta que se observe o cenário completo de um ponto de vista mais amplo. Jobs não apenas permitiu melhorias em nível avançado na vida de profissionais da eletrônica ou de produtores audiovisuais, grandes consumidores de seus produtos, mas também de todos os aspirantes e já renomados profissionais dos quadrinhos também (isso já foi analisado antes aqui no blog). Com os recursos técnicos que disponibilizou, a nona arte teve o número de seus representantes exponencialmente elevado. Jobs ampliou o mercado e pôs na mão de todos os que sonhavam fazer quadrinhos os meios para tal, com tecnologia de ponta e recursos abundantes.

Se hoje somos tantos, em muito se deve a Jobs pelos meios que possibilitaram isso, e esse dado não pode ser relevado. Além disso, o trabalho que Jobs empenhou na criação e desenvolvimento de seus dispositivos móveis abriu as fronteiras para um novo horizonte de leituras disponíveis, com a narrativa adquirindo aspectos jamais imaginados antes, adaptáveis aos mais diversos formatos e resoluções. Hoje, os quadrinhos estão conosco onde quer que os queiramos, no momento em que assim pensarmos. Sem os avanços atingidos nesse campo da tecnologia, isso jamais seria possível.

Mas talvez a forma mais direta de importância de Jobs para as histórias em quadrinhos se encontre nos recursos de uma de suas últimas invenções, que está conquistando cada vez mais espaço no mundo todo, o iPad. Produzido para concorrer com o Kindle, da Amazon.com, enquanto instrumento de leitura eletrônica de conteúdo literário digitalizado, além de uma pluralidade de funções imensa, o aparelho causou um furor em todo o globo por reinventar o ato de ler, o que, indubitavelmente, afeta toda a história da arte sequencial.

Os quadrinhos precisaram se adaptar novamente a essa nova mídia, e passaram a usá-la como forma de crescer ainda mais em termos de reconhecimento e importância nos dias de hoje. As editoras tradicionais, fossem de quadrinhos ou não, precisaram passar por uma reformulação urgente, uma vez que o mercado exigia mudanças no que tange ao relacionamento com os clientes e com os recursos do material disponível para eles. E, dessa forma, surgiram iniciativas como a ComiXology, responsável pela adaptação do material produzido inicialmente pela Marvel (o que também já foi observado aqui no blog antes) e que antes estava no banco de dados de seu site ainda em estado embrionário. Em pouco tempo, o mercado representado por essa empresa de conversão se expandiu, englobando outras grandes editoras, dentre as quais, a maior rival do seu primeiro grande cliente, a DC comics.


Os efeitos disso no mercado de quadrinhos são assustadores pela dimensão que têm atingido. Recentemente, numa estratégia bastante arriscada e curiosa, a DC anunciou que zeraria todos os seus 52 títulos regulares e passaria a lança-los simultaneamente em formato impresso e em formato eletrônico, disponível para compra nas lojas virtuais da ComiXology (o que já foi tema de matéria aqui no blog), fazendo tanto os profissionais do meio repensarem na urgência da digitalização de seus conteúdos, quanto os leitores desse material, que passaram a aguardar com um certo misto de esperança e receio o que isso provocaria ao sistema de gerência do negócio dos quadrinhos americanos, historicamente dependente do esquema das comic shops clássicas e revenda sob demanda.

Os quadrinhos estão num período de transição muito grande, e não se sabe exatamente para onde isso vai nos levar, mas, com certeza, jamais teríamos saído do lugar sem a grande influência deste inventor, sonhador e visionário, que é o grande propósito da homenagem feita aqui, Steve Jobs.

Como o autor de programação sênior do setor de desenvolvimento criativo da Disney, Kevin Rafferty, tão belamente definiu, "você só chegará à Terra do Nunca se acreditar que pode voar." E Jobs nos deu muitas das ferramentas necessárias atualmente para isso. Obrigado por tudo, Steve.