quarta-feira, 29 de junho de 2011

Quadrinhos, Literatura e Ensino

Por Gabriel Guimarães


Vivemos hoje num mundo em contínuo movimento. Ao longo do Século XX, os meios de comunicação avançaram de forma bastante acelerada, o que provocou mudanças fundamentais na forma como nos relacionamos entre si e como um todo. Nas últimas décadas, esse processo acelerou de uma forma que jamais poderia ser prevista, atingindo patamares que poucos acreditavam ser possível. Com toda essa mudança na forma de se comunicar, não é surpresa alguma que os meios de comunicação tradicionais passariam por adaptações, visando sua permanência em vigor, e mantendo todo seu legado e influência entre seus consumidores.

Para que hajam esses avanços, há um elemento que exige absoluta atenção e que jamais pode ser deixado de lado: educação. Sem aprendermos sobre os acertos e os erros do passado, a tendência é para que os repitamos, e jamais cheguemos a uma condição mais evoluída. Nessa questão, entretanto, reside um dos maiores problemas da atualidade, quando percebemos a escassez de investimentos devidos nas condições de ensino que são dadas aos professores, que são os verdadeiros arquitetos do amanhã.

Os professores, quando postos em frente a esses obstáculos, muitas vezes não têm como fugir deles, e acabam não apenas eles próprios sendo prejudicados, mas toda a sociedade, pois os alunos, que deveriam adquirir conhecimento através desses profissionais, não conseguem, e, portanto, se tornam apenas parte de uma estatística sem muito valor. Tamanho descaso gera um efeito tenebroso para todos nós: a perda de interesse por parte dos responsáveis pela educação.

Enquanto alguns desses educadores permanecem inabaláveis na luta por uma rede de ensino mais justa e de melhor qualidade, muitos acabam caindo no erro de se acomodar às condições que lhe são oferecidas. Com isso, perdem a vontade de passar conhecimento e ensinar sobre vida, e passam a meramente distribuir padronizadamente um conteúdo previamente programado que não vai gerar fruto nenhum nos alunos. Um dos erros mais cometidos que gera essa consequência acaba partindo de professores ligados à literatura, não por vontade própria, mas por determinação do Estado: a obrigação em ler.

Independente do conteúdo que é passado, o ato de obrigar um jovem a ler algo contra sua vontade não pode, na maior parte dos casos, criar bons resultados. Ainda assim, a fim de preparar os estudantes para lidar com os exames de avanço de grau acadêmico, esse crime continua sendo cometido.

De forma alguma, pretendo criticar a leitura em si ou os clássicos que são transmitidos pelos professores de ensino fundamental e médio aos seus alunos, porém, quero destacar algo: acima de ensinar a ler, deveria ser colocada a importância de ensinar a amar ler. A leitura é uma das experiências mais únicas e pessoais possíveis. Por mais que livros sejam padronizados e distribuidos com o mesmo conteúdo para dezenas, centenas, milhares de leitores, o processo de consumo de um livro sempre se dá de forma diferente. Nunca as impressões de determinado leitor são absolutamente iguais às de outro, há similaridades, mas jamais igualdade por completo.

O ensino tem sido prejudicado justamente em cima desse aspecto há muito tempo. Escolas obrigam a leitura de clássicos como "O Cortiço" e "Memórias Póstumas de Brás Cubas" para indivíduos cujo desenvolvimento intelectual sequer alcançou um status necessário para compreender o que aquelas obras significam. Há exceções, claro, para isso, entretanto, aqui desejo formular um estudo o mais amplo possível. Para facilitar a absorção desses conteúdos, as instituições de ensino acabam procurando materiais mais fáceis de serem compreendidos pelos alunos, e, nessa jornada, entram as histórias em quadrinhos.

As adaptações de clássicos da literatura global para o formato de arte sequencial é uma prática muito antiga, que sempre produziu bons frutos. Adolfo Aizen e Gilberto Freire ficaram muito conhecidos, inclusive, quando se tratou dessa questão no passado (já escrevi matéria sobre o papel dos dois nos quadrinhos brasileiros aqui no blog antes), gerando muitas opções de alto grau de qualidade para serem lidos e estudados.


Aizen em frente ao museu das histórias em quadrinhos,
que ficava na sede da Editora Brasil-América (EBAL)

Com o tempo e a evolução dos meios de comunicação, como destaquei ao início da matéria, as editoras passaram a lidar com muita concorrência nesse campo, e a alta demanda levou a uma busca por soluções mais em conta em termos de orçamento e de prazos. Ao passar por isso, os quadrinhos acabaram sofrendo do mesmo erro que o ensino em si sofreu: a banalização do seu conteúdo. Não mais se procurava estimular o amor pela leitura através dessas histórias, mas apenas um consumo rápido das páginas que compunham aquele material para que pudessem ser feitos testes e avaliações que visavam medir o quanto foi absorvido daquele material pelos seus consumidores.

Neste ponto, entramos no tema da matéria de hoje. Ontem, foi públicado um artigo escrito por um dos editores da revista Época, Luís Antônio Giron, que envolve o uso dos quadrinhos na sala de aula e de recursos eletrônicos como fonte de estudo para os jovens da atualidade. Criticando a condição em que se encontra atualmente a produção de adaptações dos clássicos literários para a nona arte, Giron afirma que essa produção massificada de tão importante material pode acabar com tudo o que a literatura representa.

Uma vez que estamos numa realidade onde os textos estão diminuindo de tamanho e relevância conforme os dias passam, Giron vê com certo receio o aumento do uso das histórias em quadrinhos como fonte de referência para os estudantes, ainda que estas sejam indicadas pelos professores. Seu ponto é válido mediante essa contextualização em que se encontra a produção de elementos culturais nos dias de hoje. As histórias em quadrinhos não podem, entretanto, servir de bode expiatório para a crítica a um sistema de ensino errôneo que está em vigência. No passado, a arte sequencial passou por sérios problemas junto ao público por questões parecidas, e isso não pode se repetir.

Para deixar clara sua posição de que não está criticando os quadrinhos, Giron destaca no final de seu texto a importância e a qualidade de conteúdos gerados pelos grandes mestres dos quadrinhos, como Will Eisner e Joe Sacco, destacando ainda o bom trabalho nas adaptações literatura-quadrinhos feito pelo desenhista Flávio Colin em suas obras "Estórias Gerais" e "Fawcett". Acredito que valeria a pena destacar nesse campo, também, o trabalho dos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá na graphic novel "O Alienista", feita sobre a clássica história de Machado de Assis, e os muitos trabalhos produzidos pelo já mencionado Aizen (a relação dos quadrinhos e as livrarias na última década também já foi analisada aqui no blog antes).


O quadrinista Spacca ficou
conhecido por suas excelentes obras históricas
produzidas em quadrinhos
Para histórias em quadrinhos cujo conteúdo poderia ser bastante aproveitado nas salas de aula, vale mencionar os trabalhos históricos do quadrinista Spacca, como "D. João Carioca", "Santô e os Pais da Aviação" e "Debret em Viagem Histórica e Quadrinhesca ao Brasil", junto com o trabalho feito pela editora HEINLE CENGAGE, responsável pela produção e publicação da versão em quadrinhos de histórias como "Macbeth", "A Christmas Carol" e "Frankestein". Há, também, é claro, os casos mencionados por Giron de adaptações meramente voltadas para um mercado com crescente demanda, porém, não podemos tratá-los como se estes fossem a regra e as boas adaptações, exceções.

Desde 2008, o Programa Nacional Biblioteca na Escola (PBNE), investe bastante na adoção de histórias em quadrinhos como forma de ampliar a dimensão do contéudo passado em sala de aula, e, sinceramente, espero que isso cresça mais e mais. Ainda que existam editores que têm como objetivo lucrar em cima de consumidores desavisados, há uma enorme gama de profissionais sérios que reconhecem o potencial artístico-narrativo que a nona arte possui, e estes sim devem ser tratados como regra. Aos que quiserem conhecer um pouco mais dessa questão, os estudiosos Waldomiro Vergueiro e Paulo Ramos têm uma extensa bibliografia no assunto, que recomendo bastante. Para quem quiser conferir o artigo de Giron, basta lê-lo na sua coluna eletrônica no site do Globo aqui, e quem tiver algum conhecimento na área para levantar uma discussão mais aberta sobre o tema, sinta-se livre para fazê-lo. Pois apenas nos comunicando é que podemos conquistar vitórias, tanto no campo da educação como no campo da vida.

domingo, 26 de junho de 2011

Legado Esmeralda

Por Gabriel Guimarães


Graças a um meticuloso trabalho de pesquisa feito pelo roteirista Geoff Johns no fim de 2004, a DC ganhou um reforço de peso na luta pelo gosto dos leitores de quadrinhos. Trazendo o Lanterna Verde Hal Jordan de volta dos mortos em "Lanterna Verde: Renascimento", Johns deu não apenas um motivo para os leitores tradicionais do personagem voltarem a acompanhar os títulos relacionados com ele, mas renovou inteiramente o universo e a mitologia por trás do anel que este carregava consigo (já fiz uma matéria sobre a reinvenção do Lanterna Verde aqui no blog antes).

A arma mais poderosa do universo DC passou a ganhar mais força entre os admiradores da arte sequencial, e, com isso, os personagens a ela ligados foram tendo mais destaque na mídia. A DC cresceu em representatividade no mercado, e, logo, o universo esmeralda em que Hal Jordan era o tradicional centro ganhou novos protagonistas importantes, novas cores baseadas no espectro emocional dos seres vivos e novas histórias memoráveis (comentei também sobre uma delas já aqui no blog). Utilizando de referências a trabalhos clássicos feitos com os personagens da Tropa dos Lanternas Verdes, como os feitos por Alan Moore há quase 30 anos atrás, Johns adaptou muitas estórias, dando uma roupagem nova para o mundo em que vivemos hoje. E os resultados foram se mostrando cada vez mais positivos.

Como a década passada foi um marco para a transição entre os quadrinhos e o cinema (como já comentei aqui no blog), não é nenhuma surpresa que a editora resolveu colocar em prática uma estratégia para dar vida aos desenhos dos personagens da Tropa. Primeiro, foi lançado o filme de animação "Lanterna Verde: Primeiro Voo", em 2009, a fim de contar a primeira aventura de Hal Jordan como Lanterna Verde e seu primeiro confronto com Sinestro. Despois, dois projetos foram tocados em compasso para serem lançados esse ano de 2011. O primeiro é o filme live action estrelado por Ryan Reynolds (cujo comentário inicial pode ser visto aqui, e cuja política de escolha de elenco foi comentada aqui), que já está sendo exibido nos Estados Unidos, e que estará disponível nos cinemas brasileiros a partir de 19 de agosto. O segundo, que é o tema da matéria de hoje, é um segundo filme animado, chamado "Lanterna Verde: Cavaleiros Esmeralda".

Partindo do desejo da editora de mostrar toda a gama de personagens que são membros da Tropa dos Lanternas Verdes além dos nomes mais conhecidos, o filme faz uma bela apresentação para quem não conhece a cronologia dos quadrinhos, além de apresentar certos pontos de vistas pouco comuns para as histórias de heróis. Através de uma trama centrada na jovem Arísia, personagem bastante conhecida da década de 1980 das histórias de Jordan, o filme narra os contos mais marcantes dentro da própria Tropa, relembrando a origem desta (apesar de não mencionar os Caçadores Cósmicos) e algumas das figuras mais ilustres que já portaram o anel.

A história principal em si, que se desenrola em meio a esses contos, é um tanto fraca e superficial, mas por se tratar de apenas um esquema de expôr a mitologia da Tropa para quem ainda não a conhecia, funciona de forma eficaz, servindo ainda para apresentar o vilão Krona, que é ligado de fato à origem dos Guardiões do universo, mentores dos Lanternas, e que teve seu papel contado na história "O Conto de Ganthet", feita pelos grandes profissionais de quadrinhos Larry Niven e John Byrne.

O filme é interessante, porém, nada muito impressionante. Houve algumas adaptações feitas entre a versão em quadrinhos e a animada, mas nada que condene uma ou outra. Os personagens estão bem representados, apesar de que o som é um dos pontos mais fracos do filme. A falta de uma trilha sonora de peso e de maior vivacidade nas vozes dos protagonistas acaba dando um tom similar às aulas de história do colégio em alguns momentos, evitando assim que você consiga se prender à trama. A experiência também me chamou atenção para um fato: não há como unir os dois filmes animados produzidos pela DC, pelo fato de Sinestro ter sido o vilão no primeiro e neste segundo, ser um dos membros da Tropa ainda, entretanto, o estilo dos personagens foi mantido e a caracterização deles é a mesma. Não sei ao certo qual foi o objetivo dos produtores com isso. Os destaques positivos, porém, ficam por conta de Kilowog e Mogo, que são os Lanternas que conquistaram maior carisma com suas respectivas histórias.

NOTA GERAL: 2,5 estrelas.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Alerta: SPOILER!

Por Gabriel Guimarães
O objetivo das grandes histórias em quadrinhos sempre foi o mesmo: cativar o leitor e inserí-lo no universo onde os personagens que protagonizam as histórias estão. Quando essa missão é bem sucedida, a procura pelas revistas com essas aventuras naturalmente cresce, e, com ela, a ansiedade por saber o que vai acontecer a seguir no decorrer da trama. Essa vontade de saber e de poder contar o que acontecerá em seguida nas obras ficcionais é conhecida como 'spoiler'.

Formulada depois do surgimento da internet, em função do desencontro temporal e geográfico entre os velhos e novos meios de comunicação, o termo em si surgiu a partir de um determinado evento que ocorria há muito tempo atrás nos Estados Unidos, quando um programa de televisão era exibido na Costa Leste três horas antes do que era Costa Oeste. Os espectadores da Costa Leste, então, ávidos pelos acontecimentos que acabaram de testemunhar no episódio da semana de seus seriados favoritos, partiam para os portais de discussão e divulgavam abertamente tudo que aconteceria no episódio, além de propor interpretações pessoais e determinar valor a determinados momentos em detrimento de outros. Quando alguém da Costa Oeste acessava esses portais ou tinha qualquer forma de contato com essas informações, toda a graça que o episódio possuía pela sua inviolabilidade, ou seja, o desconhecimento por todos do que de fato aconteceria, era estragada (ou era, como se diz em inglês, 'spoiled'). A esses usuários da Costa Leste que postavam o conteúdo dos episódios antes da sua exibição por todo o território norte-americano, passou a ser, então, dado o título de 'spoilers', a fim de obrigá-los a anunciar nos seus comentários que lá haveriam dados privilegiados da trama que era acompanhada, dando assim, a todos os espectadores e internautas um direito de escolha sobre até que ponto pretendiam saber de antemão os mistérios que os fascinavam ou não.

Com o decorrer dos anos, a dimensão dessa ação acabou se expandindo, atingindo todos os meios de comunicação que produziam conteúdo ficcional e que era consumido em espaços e tempos diferentes. O âmbito internacional disso, talvez, seja o que mais está em destaque hoje, onde um determinado programa, revista em quadrinhos ou até livro é disponibilizado primeiramente em um ponto do mundo e a informação sobre tudo ali exposto logo é  distribuida através da rede das mídias digitais para o mundo inteiro.

Até aí, esse tema é muito bem documentado. Há blogs, sites e programas quase que exclusivamente voltados para isso. Os seus leitores ou espectadores habituais não reclamam do que é feito lá, pois estão cientes da proposta desses locais e estes oferecem exatamente aquilo pelo qual eles procuravam para consumir. Seriados como LOST e Survivor foram grandes exemplos disso, agregando milhares de fãs dos seriados para debater sobre temas dos episódios, sobre a origem e/ou desfecho de determinado personagem na trama ou simplesmente sobre o funcionamento do universo ambiente das estórias. Agora, apesar de toda a estrutura de existência positiva dos spoilers como instrumentos de discussão entre os mais diferentes grupos de admiradores dessas obras, há diversos casos de completo descaso com o leitor ou espectador assíduo de determinado meio de comunicação.

Como aqui procuramos focar os estudos midiáticos e análises à nona arte, existem muitos casos que merecem ser destacados, em prol dos verdadeiros fãs de quadrinhos, que são severamente prejudicados por atitudes egoístas e desconsiderativas por parte de repórteres completamente desprovidos de consciência moral, que acabam por quebrar o laço ético que rege o fluxo de informações entre os profissionais do meio e os leitores do mesmo. No portal eletrônico do Globo, já testemunhei mais de um caso dessa impensada atitude, onde não foi dado ao internauta esse direito de escolha de conhecer ou não o porvir ficcional: aqui e aqui (ALERTA: SPOILER - Nestes links, há spoilers para eventos futuros nas histórias dos personagens Marvel). A chamada para estas matérias, que se encontravam na página inicial do portal não apenas desrespeitam o leitor dos quadrinhos como denigrem as histórias produzidas pela Casa das Ideias frente aos olhos públicos dos demais internautas, que perdem qualquer interesse de acompanhar as revistas para saber o que vai acontecer ao final de cada título, uma vez que essa informação é dada de forma gratuita no título das reportagens.

Acredito que essa postura não pode mais ser tolerada nos dias atuais, onde a liberdade de expressão é direito de todos, o que inclui, claro, o direito de se surpreender com as obras que se acompanha ou não, e de ser respeitado por isso. Cabe, agora, a nós, leitores e admiradores da arte sequencial, lutar por nossos direitos e não cedermos enquanto não formos reconhecidos e respeitados.

sábado, 18 de junho de 2011

Homenagem ao Louco que Nos Fez Rir

Por Gabriel Guimarães

Hoje, o Anjinho ganhou um companheiro especial no céu.

Por muitos e muitos anos, o personagem Bugu invadiu as história do Bidu para dar seu clássico bordão "alô mamãe", porém, neste dia, todos nós, leitores e admiradores das histórias em quadrinhos, prestaremos um momento especial de respeito e atenção, enquanto ele dá pela última vez seu "adeus, papai". Com lágrimas, que caem de suas orelhas, o Louco também está de luto, e, com isso, as suas palhaçadas rotineiras tiram um momento de folga, pois não encontram razão para a birutice que caracterizou o personagem desde seu surgimento em 1973.

Neste dia, 18 de junho de 2011, Marcio Roberto Araujo de Sousa, criador desses dois personagens e irmão do criador da turma da Mônica, Maurício de Sousa, faleceu aos 64 anos de vida, em decorrência de uma luta contra o câncer que já travava há algum tempo, e nós, admiradores da nona arte que nos tornamos, e, mais ainda, humanos que somos, hoje prestamos um profundo sentimento de respeito a tudo aquilo que Marcio nos fez sentir. Não fosse por ele, talvez não existissem Cebolinha e Cascão, criados a partir de amigos de infância deste irmão de Maurício, ou até o Rolo, criado a partir dele próprio, Marcio.

Entretanto, eu jamais poderia medir apenas por contribuições a um meio de comunicação a vida de um ser tão querido que se vai. O pesar que hoje sentimos é reflexo da vida dedicada a nos fazer rir que esse talentoso homem teve, a fim de tirar o peso da nossa correria cotidiana e nos lançar em um universo de gargalhadas, onde quem procura a felicidade desprendida do status social é visto como Louco. Hoje, o bairro do Limoeiro não tem festa, mas sim um profundo sentimento de honrar a memória de tão importante figura para sua existência.

E não poderíamos mostrar o quanto aprendemos com tudo que se passou nas páginas daquelas revistinhas sem fazer o mesmo. Deixo aqui, portanto, minhas mais sinceras consolações à família Sousa, e um agradecimento sem palavras para a memória deste "verdadeiro artista da família", como afirmou Maurício. O velório está acontecendo neste instante na Funeral Home, na rua Carlos de Pinhal, 376, em São Paulo, e vai se extender até 15:30. Aos que desejem prestar uma última homenagem a Marcio, estão convidados a fazê-lo.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

A China e os Quadrinhos

Por Gabriel Guimarães

No último dia 9 de maio, foi anunciado um projeto que vai causar grande alvoroço entre os admiradores da arte sequencial do mundo inteiro quando estiver concluído: a China pretende construir um museu de 32 mil m² exclusivamente dedicado ao universo das histórias em quadrinhos e das animações.

Representação da biblioteca que o museu disporá

Tendo sua estrutura externa baseada no principal meio de comunicação dentro das lianhuanhua (como são conhecidas as histórias em quadrinhos na China), o balão, os designs produzidos pela empresa holandesa MVRDV, que venceu um concurso internacional para projetar a obra máxima de apreciação da nona arte, são simplesmente impressionantes. Sendo composta por um aglomerado de oito balões, que representarão setores interligados em forma de círculo, o museu compreenderá uma visão bastante vasta das histórias em quadrinhos como meio de comunicação, contando inclusive, com uma biblioteca de proporções impressionantes onde será possível encontrar quase qualquer revista em quadrinhos ou animação já produzidos.

Apesar de haver, pelas imagens do tour virtual, uma preleção pelo estilo mangá, que tem vários personagens expostos em esculturas dispostas no balão principal e em posições específicas nos demais, como o ainda criança Goku e o pokémon mais famoso, Pikachu, acredito que um museu dessa proporção abranja quase todos os estilos possíveis.

Apesar de ser um fato pouco conhecido, a China tem uma tradição com as histórias em quadrinhos muito anterior à difusão desta como meio de massa, e desde as dinastias Sung e Yan (as quais ocorreram entre os anos de 960 e 1378), são utilizadas para fins de ilustrar obras literárias, a pedido direto dos imperadores. Por se tratarem, na realidade, de imagens sequenciadas que remontavam a história descrita nas páginas onde eram feitos os desenhos e não de histórias em si mesmas com balões, quadrinhos e personagens fechados, a consideração desta produção como história em quadrinhos depende de assumirmos o ponto de vista do teor de arte sequencial implicado na obra, conforme as ponderações e estudos de Will Eisner (que já foi homenageado em duas postagens antes aqui e aqui no blog) e Scott McCloud, os quais acredito que se apliquem aqui de forma bastante determinante. Já no século XX, após o surgimento oficial das HQs no mundo ocidental, os quadrinhos da China passaram a adotar algumas influências do material que começava a surgir do outro lado do mundo, como pôde ser visto em pequenos periódicos que eram publicados nas províncias, onde ocorria uma crítica contundente à política local utilizando-se de desenhos satíricos, como ocorria nos países desenvolvidos da época, como Inglaterra e Estados Unidos, e até aqui no Brasil, no qual esse uso da arte ganhou bastante destaque nos trabalhos do talentoso artista carioca J.Carlos.

Feng Zikai, primeiro a encadernar
tiras em sequência, cunhando assim
o termo lianhuanhua

Em 1927, entretanto, é que se utilizou propriamente o termo lianhuanhua pela primeira vez, a partir do projeto realizado pelo desenhista Feng Zikai, que agrupou em uma sequência encadernada uma série de vinhetas com esse tema, o que elevou muito a popularidade dessa arte sequencial na China. E com o tempo, tamanha chegou a importância dos quadrinhos como meio de comunicação no país, que foram feitas uma quantidade considerável de propagandas contra a invasão cultural japonesa através deles, incitando o espírito nacionalista e patriótico de milhares de chineses. Não chega a ser surpresa, portanto, que entre 1949 e 1963, houve cerca de 560 milhões de exemplares de quadrinhos circulando entre o povo chinês.



Quadrinho da época da Revolução Cultural, quando
o espírito nacionalista era continuamente exaltado

Durante a Revolução Cultural, os lianhuanhua ainda eram muito utilizados para instigar movimentos sociais e melhorias para a população, porém, os revisionistas chineses, que buscavam regulamentar o teor do que era absorvido culturalmente pelo povo passaram a banir muitas das publicações, que passaram a ser encontradas em cartazes e pôsteres pendurados nas casas e prédios do que em revistas. Após a morte de Mao Tse Tung, ocorreu uma nova mudança no panorama dos quadrinhos chineses, que passaram a ter influências das demais culturas do mundo inteiro, em especial a japonesa. Tamanho foi o bom recebimento do conteúdo japonês, que em pouco tempo permitida a publicação deste, o personagem mais clássico de Osamu Tezuka, Astroboy, passou a figurar entre os programas de televisão favoritos dos chineses, alcançando até a alcunha de herói, pelo povo. Entre as fotos do Museu Chinês de Histórias em Quadrinhos e Animação (China Comic and Animation Museum - CCAM), inclusive, é possível observar vários trechos de animações do personagem voando.

Previsto para começar a ser construído em 2012, o museu promete um novo nível para a relação com a arte sequencial muito além do que jamais seria possível imaginar alguns anos atrás, e eu aplaudo essa iniciativa. Responsável pela construção de prédios com estruturas peculiares como o Silodam e o WoZoKo, ambas na Holanda, e do Mirador, em Madri, Espanha, a MVRDV realmente promete um sonho arquitetônico experimentado por todos os apaixonados pelos quadrinhos e acredito que todos os fãs desse meio artístico aguardarão ansiosamente pela conclusão das obras. Se a Feira Internacional de Quadrinhos e Animação da China (China International Comic and Animation Festival - CICAF), que ocorre anualmente desde 2005, já atrai muitos leitores e amantes da arte animada para a cidade de Hangzhou, imagine quando tudo estiver pronto...


terça-feira, 14 de junho de 2011

500 Vezes Mônica

Por Gabriel Guimarães
 

Alguns dos pontos de divulgação
da edição do mês passado da Turma
da Mônica Jovem contaram com a
presença ilustre do próprio Maurício
de Sousa, da Mônica e do Cebolinha

Para qualquer um que já tenha observado mesmo sutilmente o mercado editorial de quadrinhos, é fácil perceber que a quantidade de feitos de Maurício de Sousa poderia preencher uma vasta bibliografia que se tornaria referência para todos os que desejam ingressar no mercado de quadrinhos no Brasil. Mês passado, Maurício causou um grande alvoroço no mercado em torno do romance entre Mônica e Cebolinha nas páginas da Turma da Mônica Jovem número 34 (cujo signifcado para a história dos quadrinhos nacionais pode ser visto aqui), alcançando a incrível tiragem de 500 mil exemplares disponíveis para todas as bancas de jornal ao redor do Brasil, o que é um número impressionante para os dias atuais. Este mês, a comemoração na turma de personagens mais conhecida do Brasil continua, mas em decorrência de um evento na linha mais tradicional de estórias, mais propropriamente, na edição número 54 da revistinha da Mônica.

Lançada pela primeira vez em um título próprio em 1970 pela editora Abril, a personagem Mônica, baseada na filha do grande quadrinista, cativou multidões, se tornando um elemento recorrente em gerações e gerações de jovens brasileiros ao redor de todo o país. Devido ao sucesso que obteve, a baixinha gordinha de vestidinho vermelho favorita dos leitores de quadrinhos preencheu 200 edições antes de mudar de editora. Depois de 26 anos, a turma da Mônica deixou sua antiga casa editorial e passou a ser encontrada na editora Globo, onde se tornou quase uma unanimidade nos pontos de venda de quadrinhos, em função da quantidade de títulos disponíveis protagonizados pelos mais variados tipos de personagens de Maurício. Novamente, porém, o destaque ficou por conta do título solo da Mônica, que chegou à marca de 246 edições publicadas.


Em 2007, entretanto, veio novamente o momento de mudança, e a turminha migrou para a editora Panini, hoje responsável pela publicação de grande parte dos produtos voltados para o mercado de quadrinhos no país, que são distribuidos para os jornaleiros e livrarias. Dentro da nova casa, a turminha cresceu e passou a almejar voos mais altos com o lançamento da Turma da Mônica Jovem em estilo mangá (o qual já foi discutido antes aqui no blog como um dos eventos que mais marcaram os quadrinhos na década passada). E as atenções pareciam ter se voltado quase que exclusivamente para esse novo universo de estórias, tendo a versão infantil dos personagens da turminha ficado talvez em um segundo plano, momentaneamente. Este mês, todavia, aquelas que ficaram marcadas como as figuras mais tradicionais no mercado de quadrinhos produzidos no Brasil resolveram mostrar que continuam sendo motivo de comemoração, mais que isso, que jamais deixaram de ser. Com a edição número 54 da revista da Mônica, a personagem chega a uma marca que poderia ser considerada impossível de ser atingida por um trabalho produzido no Brasil: são agora ao todo 500 edições lançadas exclusivamente no título principal da Mônica.

Para celebrar esse feito, a edição que representará este marco trará uma história especial que percorre toda essa longa trajetória dos personagens do bairro do Limoeiro, além de capas clássicas e passatempos voltados para os momentos históricos da turma, se tornando um deleite para os colecionadores tradicionais e, ainda assim, uma revista bastante interessante para os leitores eventuais, que podem recordar os momentos mais importantes do percurso da turminha.
A edição já está disponível nas bancas ao preço de R$4,50 e, com certeza, quem se aventurar por entre suas páginas, não se arrependerá de ter esse intenso contato com a história da turminha que revolucionou os quadrinhos brasileiros.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Com Grandes Ideias, Vêm Grandes Oportunidades

Por Gabriel Guimarães




O pequeno "Puny Parker"
saindo de dentro da cabeça
do seu criador
Há uma semana exatamente, o público leitor de quadrinhos recebeu triste, porém, satisfeito, a notícia de que a série de tirinhas do quadrinista mineiro Vitor Cafaggi protagonizada por uma versão infantil de Peter Parker, o Homem-Aranha, chegou ao fim. Iniciada em agosto de 2008, a tirinha "Puny Parker" narrou as desventuras do Cabeça de Teia muito tempo antes de este conseguir seus poderes que lhe deram tanta fama, num traço simples e sensível que lembra bastante os trabalhos de Bill Waterson, criador dos personagens Calvin e Haroldo, e Charles Schultz, criador do Charlie Brown.
Tendo como destaque o ínicio da vida amorosa de Peter, seu relacionamento com seus tios e a sua dificuldade de se relacionar com as outras crianças do colégio, "Puny Parker" rapidamente entrou na lista de tiras favoritas entre os leitores de quadrinhos. E não foi pra menos. Ao longo desses 3 anos de existência do blog oficial, foram 140 tirinhas que se disseminaram pela internet de forma ágil e fácil, através das ferramentas cada vez mais comuns de compartilhamento nas redes sociais.

A proposta de Vitor começou ainda no Orkut, mas foi ganhando tanta atenção que culminou na criação de um blog específico para o personagem, e, assim, o trabalho desse artista mineiro foi ganhando cada vez mais destaque. Ao apresentar todas as tiras que produzia em português e em inglês, expandiu seu público leitor de forma impressionante, atraindo muitas pessoas para conhecer o seu trabalho, e para conseguir manter todo esse público que chegava ávido ao seu blog a partir das indicações, Vitor usou de uma sensibilidade ímpar, reforçando uma certa nostalgia a esse período da infância, o que deu um efeito ainda mais especial para os leitores de suas histórinhas que tiveram o hábito de acompanhar séries de quadrinhos quando menores. Tamanha dedicação não tinha como dar errado, e assim o pequeno Parker começou a entrar na mente e nos corações dos leitores tanto quanto o grande Homem-Aranha fizera quando ainda éramos crianças.
Auto retrato de Vitor Cafaggi ao lado de seu personagem
Enquanto o Homem-Aranha original nos fazia ficar apaixonados pelas aventuras que poderiam ser vividas quando um dia nos tornássemos adultos, o jovem "Puny Parker" segue no caminho oposto, nos saudando com as memórias da pureza da juventude e da beleza da simplicidade, que hoje já não se mostram tão fáceis de recordar assim. Com o mundo cada vez mais rápido, precisamos dessas âncoras para nos prender ao cerne de nossos sonhos, à origem de nossas esperanças e força de vontade; e esse trabalho de Vitor com certeza atingiu esse patamar.


Chico Bento observando a vida de
cima do pé de goiaba do Nhô Lau

Portanto, não foi algo inesperado quando o reconhecimento para esse grande quadrinista brasileiro começou a crescer, chegando ao convite para colaborar com a série que homenageava os 50 anos de carreira do patrono dos quadrinhos nacionais, Maurício de Sousa, no primeiro volume do MSP50. E Vitor, mais uma vez, não deixou passar a oportunidade e nos presenteou com uma bela história do Chico Bento, novamente nos remetendo às emoções da infância, com as quais ele consegue trabalhar tão bem. Ano passado, colaborou também com o álbum "Pequenos Heróis", lançado pela editora Devir, onde narrava uma história protagonizada por uma versão infantil do Flash na vida real, onde os poderes são apenas aqueles dados pela imaginação e empenho.


O jovem Wally West (Flash) desenhado por
Vitor para o álbum "Pequenos Heróis"

A contribuição de Vitor para os quadrinhos nacionais é algo admirável e acredito que passaremos a ouvir falar dele cada vez mais frequentemente. Ontem, ele foi tema de matéria no site Supernovo, que vale a pena ser conferida para que se possa compreender ainda mais o significado da sua criação para os leitores de quadrinhos. 

Ano passado, ele e a irmã, Luciana Cafaggi (outra bela profissional de quadrinhos sobre a qual pretendo falar em matéria posterior aqui no blog, e cujo site artístico pessoal pode ser visto aqui), estiveram na Rio Comicon (cuja cobertura completa pode ser vista aqui), mas infelizmente não consegui falar com ele para poder lhe dizer o quanto suas tirinhas são importantes para os quadrinhos no Brasil hoje, mas espero que ele saiba disso. Esse ano, caso ele venha para a segunda edição da Rio Comicon, que ainda está para ser confirmada, espero sinceramente reverter isso e poder conhecê-lo pessoalmente.

Para os interessados no trabalho de Vitor, ele disponibilizou no seu blog todas as tirinhas do "Puny Parker" para serem baixadas, além de diversas wallpapers e trabalhos artísticos que apenas fazem crescer suas qualidades profissionais, tudo de graça. Eu garanto que, quem começar a ler as histórias lá, não vai conseguir parar até terminar.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Chibata e a Discórdia!

Por Gabriel Guimarães

Há três anos, a editora Conrad publicou uma história em quadrinhos sobre a vida do marinheiro que iniciou o movimento social que veio a ser conhecido como a Revolta da Chibata em 1910, João Cândido, ou, como era mais conhecido, o Almirante Negro. A obra trata-se de "Chibata!", produzida pelo roteirista Olinto Gadelha com belíssimos desenhos de Hemeterio, ambos nascidos em Fortaleza, capital do estado do Ceará. À época, a qualidade do material chamou bastante atenção nas livrarias, tendo talvez o uso do contraste entre luz e sombra sido o seu grande trunfo visual.

Com um estilo que oscila entre o realista e o cartunesco, ainda que sempre com uma profunda riqueza de detalhes, a história cativa o leitor e o prende a uma grande trama que envolve o povo brasileiro no começo do século XX. Usando muito de estilos diferentes de hachura (técnica caracterizada pela repetição de traços para criar impressão de profundidade ou para dar sensação de sombras e tons), os desenhos de Hemeterio são simplesmente apaixonantes, e o tratamento que ele dá às referências históricas é algo, no mínimo, impressionante, vide a referência que faz ao jornalista Aparício Torelly, que já encapou edição da revista "Almanhaque", onde fora entitulado "O Barão de Itararé", e cuja representação nessa capa mencionada é idêntica àquela foi usada nessa história em quadrinhos.

Para os bons leitores de histórias em quadrinhos, essa obra não pode faltar à coleção, pois simboliza bem o quanto uma história real brasileira pode emocionar, se contada de forma instigante e sensível. Falo com certeza que essa obra possui um grau de destaque dificilmente encontrado nas obras brasileiras, e a admiro muito por isso.

Tendo sido feita essa introdução, vamos ao cerne que motivou essa matéria. O jornal O Estado de São Paulo divulgou em matéria hoje que o dramaturgo e diretor de teatro César Vieira, pseudônimo do advogado Idibal Piveta, ganhou um processo em 1ª instância contra a editora Conrad sob a alegação que trechos da história em quadrinhos "Chibata!" foram copiadas de sua peça "João Cândido do Brasil - A Revolta da Chibata", inclusive nomes de personagens e ambientes fictícios.

Iniciada em maio de 2010, a ação ainda estipulou o pagamento de indenização por danos morais e materiais, em função da distribuição e comércio de duas edições da obra, além do recolhimento de todas os volumes disponíveis no mercado destas. A editora, em resposta, afirmou que recorrerá da decisão da juiza da 2ª Vara Cível do Fórum de Pinheiros, alegando que a HQ se baseia em dados históricos. Um tanto independente do resultado, levantou-se com essa disputa uma questão, que passou a ser discutida depois da divulgação da disputa judicial: a responsabilidade de publicar uma história de teor original que não fira a integridade de outras obras e autores que já discorreram previamente sobre o assunto que esta aborda é de quem, principalmente? Ela é obrigação dos produtores da obra (roteiristas, desenhistas, arte-finalistas, etc) ou deve ser algo a cargo da editora que publica a história?

Arte de Alex Ross para o Batman,
mostrando seus ferimentos de batalha

No Brasil, as editoras claramente têm em mãos uma capacidade de se defender contra esse tipo de acusação muito melhor do que os produtores individuais das obras, e a forma como se dá a disseminação de uma influência aqui é algo que merece um olhar muito atento, uma vez que em meio a uma miscigenação cultural tão grande, as obras que são criadas sempre acabam usando de referências encontradas em outros materiais publicados ou encenados previamente com os quais os autores tiveram contato. A página 40 de "Chibata!", por exemplo, eu vejo claramente como resultado da influência do desenho que o artista norte-americano Alex Ross produziu para o personagem Batman exposto ao lado, porém, uma alegação de plágio nesse caso seria algo um tanto radical, a meu ver, uma vez que quando se pesquisa imagens sobre a chibata, encontra-se esta que destaquei aqui entre elas, que também pode ser fácil e igualmente atribuída como referência para a página da HQ. Caso as acusações de Vieira quanto ao uso impróprio de suas criações e diálogos sejam confirmadas, caberá uma nova discussão sobre estes termos de responsabilidade que descrevi, e com certeza atentaremos para um diálogo em que ambos os lados da história estejam em pé de igualdade, a fim de que quem vença no final das contas seja o patrimônio cultural a que todos temos direito.

De qualquer forma, essa notícia é importante para o mercado editorial como um todo atualmente, pois a ocorrência de plágio é algo extremamente nocivo para quem sofre a partir dele e principalmente para quem o pratica, e é preciso que hajam medidas para evitá-lo. Ainda assim, acrescento: apesar desses pontos destacados que pesam no pré-julgamento da obra "Chibata!", permaneço com minha opinião de que se trata de uma obra nacional com altíssima qualidade e que merece ter seu reconhecimento como produto cultural. Aos que não tiveram ainda contato com ela, recomendo que o façam, pelo menos enquanto ainda há tempo.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

A Nova Cara da Marvel

Por Gabriel Guimarães


 Nesse último mês, a Marvel voltou a ficar em evidência no mercado com as recentes adaptações para o cinema das histórias em quadrinhos de alguns de seus personagens, como Thor e o grupo de mutantes X-men. Em breve, outro que entrará nessa lista de adaptações é o Capitão América, cujo filme protagonizado pelo ex-Tocha Humana Chris Evans, deve estrear por volta de julho nas grandes salas de cinema. Todo esse destaque para os filmes da Marvel me chamou a atenção para uma transição de foco que estou percebendo na política da editora.

Os roteiros e a qualidade dessas duas últimas produções para o cinema ("Thor" e "X-men - First Class") são aspectos que de forma alguma podem ser duvidados. A trama dos dois foi trabalhada de forma extremamente cuidada e resultou em espetáculos para os olhos e a mente dos espectadores, superando assim as expectativas de grande parte dos fãs dos personagens. Em especial esse segundo, o sucesso se deve, acredito, a todos os envolvidos colaborarem de forma realmente focada para garantir um bom resultado para o projeto. E isso é facilmente notado enquanto você está assistindo o filme. A narrativa flui de forma natural, sem peso, e o mundo onde os personagens estão inseridos realmente se torna crível e majestoso. Há, entretanto, um fator a mais que pude perceber nesses dois filmes, que também podem ser encontrados nos filmes que são considerados algumas das melhores obras baseadas em quadrinhos no cinema, que deve ser destacado: a arte da adaptação.

Quando assistimos a uma obra adaptada de um meio de comunicação para outro, é imprecindível que compreendamos que não se trata de uma transcrição literal. Uma adaptação, em hipótese alguma, pode conter em si todos os elementos que a obra original possui, pois o meio pelo qual uma mensagem é transimitda influencia de forma essencial na mensagem que é transmitida (como destacou o teórico de comunicação Marshal McLuhan em sua obra máxima "Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem"). Cada forma artística tem suas próprias qualidades e falhas, e é sabendo trabalhar em cima desses aspectos específicos de cada um que se consegue o que a Marvel tem conseguido em suas últimas empreitadas nas grandes telas: ela tem trabalhado com bastante afinco para adaptar o universo de seus personagens, suas motivações, suas personalidades, sem querer adaptar o formato detalhe a detalhe de suas histórias mais antológicas, se concentrando dessa forma em manter viva a essência da história, porém, dando-lhe uma abordagem repaginada e original.

Quem for assistir "X-men - First Class" perceberá essa liberdade criativa de forma claríssima e nem por isso ficará decepcionado com o filme, que funciona de forma perfeita unindo seus detalhes e personagens. Os filmes anteriores do Homem de Ferro podem servir de forma óbvia para essa questão. A HQ "A Guerra das Armaduras", que gerou o argumento para o segundo filme do cabeça de lata é completamente diferente da história contada no filme, porém, ela está inserida lá em caráter fundamental para toda a criação e desenvolvimento dos personagens e da trama central. A Marvel, portanto, está acertando precisamente no alvo com essas últimas adaptações, porém, está cometendo um erro que foi o que me motivou a escrever essa postagem: ela está investindo cada vez mais na sua divisão Marvel Studios, responsável atualmente por todo planejamento de adaptação das obras da Casa das Ideias para demais meios de comunicação, e deixando cada vez mais de lado a origem de todo seu grande público, as revistas em quadrinhos.

Eventualmente, surgem bons arcos e boas histórias com os personagens Marvel, mas se for observar de perto, essas são limitadas a poucas séries e com um período de duração muito curto. "Os Supremos", de Mark Millar e Brian Hitch; "Guerra Civil", também de Mark Millar, porém, em parceria com Steve McNiven; toda a reconstrução da mitologia do Homem-Aranha no universo Ultimate, feita por Brian Michael Bendis, com ajuda de várias mãos que desenharam histórias que realmente envolviam o universo jovial em que o personagem está inserido, como Mark Bagley, Stuart Immonen e David Lafuente; dentre outros, são alguns exemplos singulares de que é possível ainda produzir boas histórias em quadrinhos e atrair tanto o público mais antigo quanto o novo que se forma pela geração pipoca e controle remoto. As últimas tentativas, porém, de gerar crossovers entre os personagens da editora, como "Invsão Secreta", "Reinado Sombrio" e o "Cerco", por outro lado, têm sido pífias, para dizer o mínimo.


John Byrne posa ao lado de um dos
seus desenhos originais para os X-men

O público que começa hoje a ler as revistas em quadrinhos nem sente muito essa diferença, pois não teve contato com as grandes fases dos personagens que lêem, como Stan Lee e John Buscema no Surfista Prateado; Stan Lee de novo com John Romita Sr no Homem-Aranha; Chris Claremont e John Byrne nos X-men; John Byrne novamente, mas junto à Mulher-Hulk; Barry Windsor-Smith no Wolverine; entre outras dúzias de bons e memoráveis momentos. O que acontece é que há falta de um elemento comparativo para o novo público. E, com isso, a Marvel investe em excelentes roteiros de cinema, uma vez que são em geral a maior fonte de primeiro contato com os personagens que os leitores de hoje têm, e relevam a manutenção de histórias emocionantes nas páginas de quadrinhos, sendo em grande parte estas hoje movidas por temas e confrontos mencionados nestes filmes (já fiz uma matéria sobre o quanto as adaptações para o cinema têm influenciado as histórias em quadrinhos em geral aqui no blog antes, quem quiser pode dar uma conferida).


Admiro muito todo o trabalho que a editora está fazendo com aquilo que é seu cerne, que apesar de muitos não perceberem, não se trata de histórias em quadrinhos em si, mas sim de um universo vasto e cheio de personagens e estórias. Entretanto, tenho desejo sincero e profundo que a Marvel não esqueça suas origens e seus leitores que lhe fizeram atingir o patamar onde se encontra hoje, porque o público novo de hoje é fugaz e passageiro, enquanto aqueles que acompanham a editora desde seus primórdios ou desde que eram crianças pequenas, são leitores recorrentes que criam um vínculo com o que lêem que dificilmente pode ser quebrado. Nota-se que existe essa possibilidade de quebra-lo, o que não pode ser esquecido de forma alguma.



Esta matéria também me serviu para poder falar do filme "X-men - First Class", que fui assistir na primeira sessão no dia da estreia e que relutava em fazer uma resenha sobre ele a fim de não estragar eventuais surpresas e dar spoilers de cenas. Como pode ser percebido, não cometi nenhuma dessas violações de consideração com meu público leitor, e meu objetivo era esse, para que o julgamento de vocês do filme não se paute de forma alguma pelo meu julgamento dele. Acredito que todos têm direito a uma opinião, e a minha ficou bem claro nessa matéria, o que só poderia ser qualificado pelo meu grau de avaliação de material em 5 estrelas. Desejo a todos uma boa sessão e convido-os a dividir conosco suas opiniões sobre o filme e/ou a política de adaptações da Marvel para o cinema, aqui depois. Excelsior!

sábado, 4 de junho de 2011

Workshop sobre Narrativa de Quadrinhos na UFRJ

Por Gabriel Guimarães
O campus da Praia Vermelha da UFRJ está sediando esse fim de semana (dias 4 e 5 de junho), o evento "Arte Fórum - Ocupação Artística", com diversas atrações voltadas para o público envolvido com os meios artísticos, como teatro, exposições de esquemas e até a criação de games, e as histórias em quadrinhos não foram deixadas de lado na organização da faculdade.

Hoje cedo e amanhã no mesmo horário (das 10 às 14 horas), o professor de Jornalismo Gráfico da Escola de Comunicação da própria UFRJ e estudioso da nona arte, Octávio Aragão, estará administrando um workshop de narrativa nas HQs muito interessante. Explorando os recursos básicos de qualquer história em quadrinhos e instigando o público a produzir alguns exemplos que ele passa na sala, a oficina é bastanta abrangente e com certeza acrescenta muito ao repertório de conhecimentos e práticas para quem é aficcionado pela arte sequencial.

A oficina é realizada na sala 210 do prédio de Administração da UFRJ na Urca, que é de fácil acesso, tanto de transporte para chegar até lá, quanto para localizar a sala dentro do campus. Os organizadores do evento e os professores da faculdade que estão participando dessa iniciativa são bastante solícitos e estão distribuidos de forma aberta pelo campus para tirar dúvidas e dar indicações. Uma outra oficina que deve atrair bastante público também é a de narrativa na construção de games, que foi realizada hoje e será também amanhã, na mesma sala que a de quadrinhos, porém, cujo horário é das 14 às 18 horas, e será apresentada por Guilherme Xavier, diretor de Artes e Design do jogo independente Capoeira Legends - Path to Freedom, e Arthur Protasio, autor do site Vagrant Bard.

É um evento interessante que reúne um grupo bem diversificado de pessoas, que têm alguma relação com a arte, seja de qual meio for. Estive lá hoje e aproveitei bastante o tempo do workshop. O convite está feito, espero que aproveitem o máximo possível.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Ares de Recomeço?

Por Gabriel Guimarães


 
Ontem, as redes sociais e os fóruns de discussão de quadrinhos estiveram a toda velocidade e movimentação com a confirmação de uma notícia da DC comics que pode mudar muito o panorama do mercado de quadrinhos de heróis. Após meses de especulação com os possíveis desdobramentos da futura grande saga da editora, "Flashpoint", os responsáveis pela edição e publicação do material da editora confirmaram uma das especulações que já era feita há tempo: a DC recomeçará a contagem de praticamente todas as suas revistas a partir do fim da saga. Previsto para acontecer em setembro, essa reformulação geral tem alguns aspectos que chamam bastante a atenção.


Em primeiro lugar, façamos um panorama de como se encontra o universo de Superman, Batman e cia atualmente. Desacreditada junto ao público pela sequência ininterrupta de crises e falta de uma estabilidade de boas histórias, salvo algumas raras exceções, os personagens da DC tiveram que encarar de tudo recentemente, desde vilões megalomaníacos a zumbis de todo o universo (quanto a este último, fiz uma matéria sobre a saga "A Noite Mais Densa" que postei aqui no blog algum tempo atrás). Porém, o maior obstáculo de todos ainda está neles mesmos. Os personagens não empolgam mais, ainda que o cinema lhes dê algum fôlego com as adaptações dos quadrinhos, tudo permanece muito igual, sem elementos de ação e, principalmente, emoção.
 
A DC tem uma das mais vastas e mais bem qualificadas listas de personagens dentre as editoras de quadrinhos, conta com um arsenal de roteiristas e desenhistas de ponta, um sistema de distribuição que sempre foi sinônimo de qualidade e uma galeria de fãs quase imensurável. Seus personagens foram os primeiros a marcar o imaginário dos leitores de quadrinhos de seres com super poderes e sua marca pode ser encontrada em quase todos os cantos do planeta. Então, me pergunto: por que a DC não consegue solucionar o caos em que seu universo está e cria uma estabilidade de vendas e de qualidade?
 
Hoje, a indústria vive dos modismos, e quando alguma ideia dá certo e passa a atrair o interesse público para determinado tema, não tarda muito para que todos as outras editoras e demais meios de comunicação venham para beber dessa fonte – o maior exemplo recente disso foi o já mencionado tema dos zumbis. Desde a mega-saga "Crise de Identidade", a DC se reestruturou (como destaquei em uma das matérias na minha lista especial dos dez acontecimentos que mais marcaram os quadrinhos na década passada aqui, no começo do ano). Essa história, inclusive, a meu ver, teria sido a mais bem sucedida reformulação de um universo tradicional de super heróis em muito tempo, porém, apesar de ter elevado muito o nível dos quadrinhos da editora por algum tempo, logo caiu na mesmice, e sua fórmula passou a ser repetida em escalas menores para puxar o público de tempo em tempo para comprar os exemplares da casa. Um caso para exemplificar isso, acredito ser a recente reviravolta na história do personagem Arsenal (ex-Ricardito), que fora o fiel ajudante do Arqueiro Verde por muitos anos, e que perdeu seu braço esquerdo e sua filha Lyan num massacre provocado pelo vilão Prometheus em Star City. Há muito drama hoje e pouca história.

Em meio a tanto vai-e-vem da atenção do público, a DC decidiu revolucionar de uma forma inovadora. Ao término da saga "Flashpoint", liderada pelo provedor de ovos de ouro dos últimos tempos da DC, Geoff Johns, a editora recomeçará sua numeração em 52 de seus títulos, além de promover uma reformulação geral do universo de personagens, desde os uniformes que usam (o desenhista e editor-chefe Jim Lee confirmou que redesenhou as roupas de cerca de 50 personagens) às suas motivações pessoais, a princípio. O título pós-Flashpoint que terá maior destaque será o da Liga da Justiça, comandada justamente por estes dois profissionais que mencionei, com roteiros de Johns e arte de Lee. Ontem, inclusive, foi liberada uma imagem teaser com essa Liga, onde já é possível ver uma série de pequenas modificações nos personagens, além de alguns destes demonstrarem um tom mais jovial do que tradicionalmente.
 
Além desse quesito de criação, onde o foco me pareceu seguir na busca da DC por uma estratégia de renovar os ares de seu universo no estilo do que foi feito na Marvel com a linha Ultimate (cuja importância para o rumo da editora nos últimos anos também já foi discutido aqui antes), as novidades anunciadas pela editora vão muito além disso, como bem destacou o blog "Em Quadrinho", o que permite uma compreensão muito maior acerca dessa grande mudança e do recomeço da numeração.
 
A DC, juntamente com a notícia de seu reboot, anunciou que a partir dele, lançará simultaneamente as revistas no formato impresso e eletrônico, disponível para aplicativos de Ipad e demais tablets de leitura. E eu pergunto: que forma melhor de começar essa nova era de publicação de quadrinhos dos heróis DC do que dar ao leitor digital a oportunidade de comprar a partir do número 1 todos os títulos que for do seu interesse? A venda desse conteúdo, portanto, representará um grande volume de vendas para a editora e permitirá que a DC entre no meio eletrônico de forma forte e visando os mercados futuros de consumo de quadrinhos digitais. O formato impresso muitas vezes se vê contestado ainda, e a tendência é que o número de publicações feitas exclusivamente para esse meio seja cada vez menor. Eu não acredito que o livro ou a revista em quadrinhos vá acabar, mas acredito sim que sem essas mudanças nas estratégias de divulgação e acesso, nenhuma publicação pode dar totalmente certo hoje em dia, quanto mais manter uma fonte contínua de renda e lucro para as editoras responsáveis pela sua produção, como é o desejo de editoras como a DC e a Marvel (essa evolução do mercado digital já foi discutida em duas matérias antes no blog, aqui e aqui).
 
Paul Levitz ostenta sua
obra de homenagem à DC

Esse momento será, então, berço de um recomeço, mas este não se limitará apenas aos seus personagens, mas ao futuro da companhia como empresa também. O livro "75 Years of DC Comics - The Art of Modern Mythmaking", do editor Paul Levitz, e que foi premiado há pouco tempo com o prêmio Eagle, já antecipava isso, quando após descrever todas as eras pelas quais a editora passou, previu ao final que o futuro estaria na era digital e que a editora já começara a pensar nela desde a criação da Zuda comics, seu antigo portal que não funciona mais hoje.




Os desdobramentos econômicos dessa mudança na forma de publicação das revistas da DC ainda estão muito cedo para serem definidos com clareza, porém, é bastante claro que esse tema é algo a ser observado atentamente. O roteirista Brian Michael Bendis, responsável pela criação do universo Ultimate na Marvel, foi um dos primeiros a criticar essa decisão da DC em seu twitter, alegando que isso arruinaria o comércio com os revendedores das tradicionais comic-shops americanas, questão que foi respondida pelo gerente de vendas da DC, Bob Wayne, que assegurou que haverá uma política de benefícios para os revendedores que contribuírem com a divulgação e comércio dos títulos da editora de forma geral.
 
Concluindo, esperemos para ver os próximos capítulos e o desenrolar desses acontecimentos no mercado editorial, o que promete ainda muita discussão pela frente, e torçamos também para que os produtores compreendam a necessidade de inovação em seu conteúdo mais do que apenas de seu formato. Torçamos por dias mais emocionantes para a arte sequencial, como um dia estes já foram e acredito que, um dia, ainda possam vir a ser.